David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 13. CONSEQUÊNCIAS DA MINHA RESOLUÇÃO
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Tanto quanto sei, eu devia ter a ideia louca de ir a correr até Dover quando renunciei à perseguição do rapaz e da sua carroça para tomar o caminho de Greenwich. Consegui, pois, reconsiderar, porque parei em Kant Road, num terreiro em que havia uma fonte com uma estátua enorme e desinteressante, a qual soprava uma concha sem água. Aí me sentei no degrau de uma porta, esfalfado, exausto dos esforços a que me entregara e tão ofegante que mal tinha força de lamentar a perda da mala e do meio guinéu.

Caíra a noite. Enquanto ali repousava, ouvi os relógios darem as dez horas. Felizmente era uma noite de Verão e o tempo estava óptimo. Quando recobrei fôlego e me refiz da impressão de afogamento que sentia na garganta, levanteime e recomecei a andar. Por maior que fosse a desolação em que me abismara, nem por um instante pensei em arrepiar caminho. Ainda que a estrada se achasse obstruída pela neve, suponho que nem nesse caso desistiria do intento.

Aborreciame no entanto saber que, no bolso, só tinha três moedas de cobre, cuja proveniência até ignorava. Comecei a imaginar o que diriam os jornais se eu fosse encontrado dois dias mais tarde, morto, ao lado de uma sebe; e ia andando a custo e cheio de tristeza, embora com a pressa de que era capaz, quando passei perto de uma loja em que havia um cartaz. Lendoo, verifiquei que anunciava a compra de vestuário de homem e de senhora; também pagavam bem trapos, ossos e lixo doméstico. O dono da loja estava sentado à porta, em mangas de camisa, a fumar. Como se viam fatos pendurados do tecto, à luz débil de duas velas acesas no interior, deume ele a impressão de que enforcara os seus inimigos, por vingança, e que saboreava agora a sua vitória.

A minha frequentação recente do casal Micawber ensinarame que há sempre meio de obviar às nossas necessidades. Dobrei a esquina da primeira rua, tirei o colete, pulo embrulhado debaixo do braço e voltei à porta da loja.

- Fazme favor... - disse ao homem. - Queria vender isto por um preço razoável.

O senhor Dolloby (era, pelo menos, o nome que figurava no anúncio) pegou no colete, descançou o cachimbo e entrou na loja. Eu seguio. Ele, com os dedos, retirou o morrão das velas, estendeu o colete no balcão e contemplouo;

depois expôlo mais à luz, e tornou a contemplálo. Acabou por me dizer:

- Quanto quer por isto?

- O senhor sabe melhor do que eu - repliquei modestamente. - Não posso ser ao mesmo tempo comprador e vendedor. Diga

um preço.

- Talvez dezoito dinheiros... - volvi tímido, após uma hesitação.

O senhor Dolloby dobrou o colete e devolveumo.

- Se lhe desse metade disso, punha a família a pão e água. Esta forma de apresentar a questão desagradavame bastante, porque me colocava na situação dolorosa de pôr a família do senhor Dolloby a pão e água. No entanto, a minha necessidade era tão urgente que declarei aceitar nove dinheiros se a transacção lhe conviesse. O homem pagoumos, resmungando. Desejeilhe boa noite e saí da loja com nove dinheiros a mais e um colete a menos. Mas, ao abotoar o casaco, achei que ele não fazia muita falta.

Na realidade, previa que o casaco ia tomar o mesmo caminho e que teria de chegar a Dover em ceroulas e camisa. E ainda era estar com sorte! Todavia o caso não me preocupava grandemente. À parte o facto de sentir que havia à minha frente uma distância considerável e a irritação que me causava o procedimento do moço de fretes, suponho que não compreendia bem as dificuldades que se me deparavam quando recomecei a andar com mais esses nove dinheiros no bolso.

Ideara um projecto para passar a noite, e preparavame para o executar. O plano consistia em deitarme por trás do muro do meu antigo internato, onde havia medas de feno. Achava que a proximidade dos condiscípulos e do dormitório (em que contara tantas histórias) me daria a sugestão de estar acompanhado, embora os rapazes ignorassem a minha presença e o dormitório me não servisse de abrigo.

O dia fora ingrato e eu estava fatigadíssimo quando finalmente trepei a encosta de Blackheath. Não me foi fácil descobrir o colégio de Salem, mas sempre dei com ele, e topei, a um canto, a palha, sobre que me deitei depois de ter ladeado o muro, olhado para todas as janelas e reconhecido que no interior reinavam as trevas e o silêncio. Nunca esquecerei a sensação de isolamento que experimentei ao estenderme sobre a meda, sem ter, pela primeira vez, um tecto que me cobrisse.

O sono venceume, nessa noite, como a tantos outros proscritos para quem as portas das casas estavam fechadas e contra quem ladravam os cães de guarda. Sonhei que estava deitado no meu leito do internato e que conversava com os alunos. Acordei e vime sentado, com o nome de Steerforth nos lábios, a olhar espantado para a claridade trémula das estrelas que me envolviam. Quando me recordei do lugar em que me encontrava

a essa hora tardia, fui tomado de uma espécie de terror e, erguendome, caminhei sem fito. Mas sosseguei vendo atenuarse a luz das estrelas e a palidez do céu anunciarme o regresso do dia. Como os olhos se me fechassem do cansaço, tornei a deitarme e adormeci, com a impressão contínua, durante o sono, de que tinha frio. Enfim, fui despertado pelos raios de sol e pela sineta que badalava dentro dos muros do colégio. Se me fosse possível ter um encontro com Steerforth, erraria pelas imediações até que ele saísse sozinho: mas sabia que devia ter deixado o internato há muito tempo. Talvez lá estivesse ainda Traddles, o que se me afigurou duvidoso, e além disso não confiava muito na sua discrição para lhe dar conta da minha aventura, por mais que reconhecesse a bondade da sua alma. Afasteime, pois, do colégio, com precaução, enquanto os alunos do senhor Creakle se levantavam, e tomei o caminho poeirento que me tinham indicado como sendo a estrada de Dover, na altura em que frequentava as aulas de Salem. Mal pensava então que poderia um dia jornadear por aquelas paragens!

Como essa manhã de domingo me pareceu diferente das que eu passara outrora em Yarmouth! À hora do ofício divino ouvi soar os sinos das igrejas, enquanto eu prosseguia dificultosamente pela estrada fora. Cruzavame com pessoas que se dirigiam para lá. Passei defronte de uma ou duas em que os fiéis se reuniam; daí saíam cânticos que se evolavam ao céu: e o sacristão, sentado à sombra fresca do pórtico ou debaixo de um teixo, enxugava a testa com a mão e olhavame espantado. A paz desses domingos passados reinava por toda a parte, excepto no meu coração. Aqui residia a diferença. Sentiame criminoso sob a sujidade e o pó, com o cabelo desgrenhado. Se não evocasse a minha mãe, em todo o esplendor da mocidade e da beleza, chorando ao canto da lareira, e a minha tia enternecida junto dela, não sei se teria ânimo de continuar até ao dia seguinte. Mas essa visão ia à minha frente e eu seguiaa.

Caminhei, nesse domingo, vinte e três milhas em linha recta, e com que dificuldade, porque não estava habituado a semelhante fadiga! Vejome ainda, ao anoitecer, atravessando a ponte de Rochester: estava esgotado, doíamme os pés e comia o pão que comprara para a ceia. Por momentos tentaramme certas casas que ostentavam o letreiro: «Dáse hospedagem a viandantes». Não me atrevia, porém, a gastar os poucos cobres que me restavam, e tinha sobretudo medo da cara sinistra dos caminhantes que se cruzavam comigo. Não pedia, pois, abrigo senão ao céu. Custosamente cheguei a Chatham, que, no seu aspecto nocturno, é uma fantasmagoria de greda, pontes levadiças e barcos desmantelados junto a um rio de lama onde arribassem arcas de Noé. Enfiei, por fim, numa espécie de plataforma de canhões coberta de ervas,

acima de um atalho onde andava cá e lá uma sentinela. Deiteime, ao lado de uma peça de artilharia e, contente por ouvir os passos da sentinela e sentir a sua companhia (embora soubesse tanto da minha presença como os internos de Salem quando me estendi atrás do muro), adormeci profundamente e assim fiquei até de manhã.

De manhã, acheime inteiriçado e com dores nos pés. Aturdiame por completo o rufar dos tambores e o barulho dos passos dos soldados que pareciam cercarme por toda a parte quando considerei necessário descer pelo atalho estreito e comprido. Sentindo que não poderia ir muito além nesse dia, para conservar algumas forças com que alcançasse o termo da jornada, resolvi consagrar essas horas à venda do meu casaco. De modo que o tirei, para me habituar à sua falta, e, metendoo debaixo do braço, comecei a inspeccionar as diversas baiucas dos adelos.

O lugar era bem escolhido para vender um casaco, pois havia inúmeros negociantes de roupa usada, os quais em geral estacionavam à porta das respectivas lojas, cocando a aproximação dos clientes. Como, porém, muitos deles tinham em depósito dólmanes de oficiais com dragonas e outros acessórios, fiquei intimidado com o aspecto sumptuoso do seu comércio e vagueei durante muito tempo antes de oferecer a minha mercadoria.

Esta modéstia atraiu a minha atenção para os negociantes de ferrovelho para uso dos marinheiros e armazéns do género do do senhor Dolloby, de preferência aos comerciantes vulgares. Até que descobri um, cuja aparência achei prometedora, à esquina de uma travessa suja que terminava num campo de urtigas entre uma paliçada em que se viam roupas de marujo, em segunda mão: estas pareciam ter transbordado da loja e flutuarem ao vento no meio de camas de ferro, espingardas ferrugentas, chapéus de oleado e bandejas repletas de chaves de todos os tamanhos e feitios, capazes de abrirem todas as portas deste mundo.

A lojeca, pequena e baixa, era obscurecida mais do que iluminada por uma janela donde pendiam fatos. Chegavase lá descendo uns degraus. O coração batiame quando entrei e o meu tremor não diminuiu ao lobrigar um velho medonho, cuja parte inferior da cara estava coberta de barba grisalha e espessa. O homem saía de uma espécie de caverna soturna, atrás da loja, e agarroume pelos cabelos. Realmente, era um velho horrível! Usava um colete de flanela cheio de nódoas e tresandava a aguardente. A cama, tapada com um pedaço de pano rasgado e remendado, ficava nesse antro donde ele saía e por onde se via, através de uma janela, o campo de urtigas e um burro coxo.

- Que queres? - perguntou em tom lamuriento, mostrando os dentes com ar feroz. - Ai, os meus olhos, os braços! Que é que queres? Ai os pulmões, o fígado! Que queres? Gorou! Gorou!

Admireime tanto deste discurso, e em especial desse estranho

nome repetido duas vezes, semelhante a uma matraca que tivesse na garganta, que me faltou a voz para responder. Então o velho, que não me largava os cabelos, insistiu:

- Que queres? Ai, meus olhos, meus braços! Que queres? Ai, os meus pulmões, o meu fígado! Que queres? Oh, Gorou!

E soltou este último grito com tal energia que os olhos quase lhe saíram das órbitas.

- Desejava saber - disse, tremendo todo - se me comprava este casaco...

Então aqueles dedos, que pareciam as garras de uma ave gigantesca, largaramme o cabelo. O homem pôs os óculos, que não embelezavam muito os olhos inflamados, e perguntou, examinando a mercadoria:

- Quanto queres pelo casaco? Oh, Gorou! Quanto queres?

- Meia coroa - repliquei, recobrando ânimo.

- Ai os meus pulmões, o meu fígado! Não! Ai os meus olhos! Não! Ai os meus membros! Não! Dezoito dinheiros. Gorou!

Todas as vezes que soltava esta exclamação, os olhos pareciam sairlhe das órbitas. Pronunciava as palavras num tom plangente, sempre o mesmo, que principiava docemente, aumentava e decrescia de novo.

- Está bem - disse, encantado por fechar o negócio. - Aceito

dezoito dinheiros.

- Ai o meu fígado!-gritou o velho, atirando o casaco para cima da mesa. - Sai daqui! Ai os meus pulmões! Sai daqui! Ai os meus olhos, as pernas... Gorou! Não me peças dinheiro. Façamos uma troca.

Nunca na minha vida estive tão apavorado. Mas disselhe humildemente que precisava de dinheiro e que outro objecto me seria inútil; que esperaria lá fora, como ele desejava; que não havia pressa nenhuma. Saí, pois, e senteime num canto. Ali fiquei durante horas, tantas que o sol sucedeu à sombra e a sombra ao sol, e eu sempre à espera do dinheiro.

Calculo que naquele negócio jamais houve semelhante louco ou semelhante bêbedo. O homem era conhecido na vizinhança e passava por ter vendido a alma ao diabo, como logo soube pelos garotos que a cada instante faziam irrupção na loja e apregoavam essa história, gritandolhe que fosse buscar o oiro.

- O senhor não é pobre, Charley, mas fingeo. Mostre um pouco desse oiro que o diabo lhe deu em troca da sua alma. Vamos! Está dentro do colchão. Basta rasgálo, e pronto, Charley!

Aquelas entradas intempestivas e a proposta de lhe emprestarem uma faca para rasgar o colchão exasperavamno a tal ponto que ele passava o dia a correr atrás dos pequenos e estes a fugir. Por vezes, na sua fúria, o velho tomavame por um desses garotos e atiravase a mim, com uma carantonha horrível, como se quisesse despedaçarme; depois, reconhecendo a tempo

o engano, reentrava na loja e estendiase na cama (segundo me parecia, pela direcção da voz), e vociferava, entremeando as palavras com muitos «Gorous». Para cúmulo da desgraça, os diabretes estabeleciam um elo entre mim e o velho, atendendo à perseverança com que eu esperava à porta, e atiravamme pedras, maltratandome constantemente.

O homem fez várias tentativas para me persuadir a aceitar uma troca: apareceu com uma cana de pesca, depois com um violino, um chapéu tricórnio, uma flauta... Resisti a todas estas propostas e mantiveme no meu posto, desesperado, suplicandoLhe de cada vez, com lágrimas nos olhos, que me desse o dinheiro ou o casaco. Finalmente começou a pagarme moedinha a moedinha e muito tempo decorreu antes que chegássemos à quantia de um xelim.

- Ai meus olhos, meus membros! - exclamou então, lançando um olhar horrendo pela porta da loja, após um longo intervalo. - Chegam mais dois dinheiros?

- Partiria sem lhe pedir mais nada - respondi. - Mas preciso absolutamente de dinheiro.

- Oh, Gorou! (É impossível descrever a careta que acompanhou esta exclamação. Estava meio oculto pela porta e só deixava ver o rosto velhaco.) - Chegam mais quatro dinheiros? Eu estava tão esgotado que concluí a transacção. Em seguida, pegando com a mão trémula no dinheiro que ele segurava nas garras, afasteime dali, por estar cheio de fome e de sede, mas só depois de comer e beber é que, tomando coragem, retomei a caminhada por mais umas sete milhas, manquejando sempre.

Quando anoiteceu deiteime sobre outro feixe de palha, e aí repousei convenientemente, depois de ter lavado num riacho os pés cobertos de empolas e os haver embrulhado, como pude, nalgumas folhas frescas. Ao partir de novo, no dia seguinte de manhã, vi que o percurso seria através de lúpulos e de pomares. Como a estação ia adiantada, as maçãs maduras davam a esses campos um matiz vermelho, e em alguns lugares os que colhiam lúpulo já tinham iniciado o seu trabalho. Tudo isto se me afigurou muito belo, e eu decidi deitarme nessa noite no meio das plantas, imaginando achar alegre companhia nessas longas filas de estacas em que as folhas se enlaçavam graciosamente.

Os vagabundos inquietaramme dessa vez mais do que nunca e inspiraramme um terror de que ainda guardo viva lembrança. Alguns bandidos de ar feroz, olhavamme de passagem, detinhamse, gritavam de longe, para que lhes fosse falar, e, quando eu dava às de viladiogo, atiravamme pedras. Recordome de um rapaz, creio que picheleiro, a avaliar pela sacola e pelo maçarico, e que ia acompanhado de uma mulher. Voltou a cara para mim e fitoume; em seguida ordenoume com voz tremenda que voltasse atrás, e eu, assustado, parei.

- Vem quando te chamarem - disse o picheleiro. - Senão espetote a barriga.

Achei preferível obedecer. Ao aproximarme, e olhando para eles com ideia de os enternecer, notei que a mulher tinha uma vista tapada.

- Para onde vais? - perguntou o rapaz, agarrandome na camisa para se assegurar de que eu não fugiria.

- Para Dover - respondi.

- E donde vens? - continuou, sem nunca me largar a camisa.

- De Londres.

- Que é que roubas?

- Nada...

- Ah, se te fazes muito fino, rachote a cabeça!

Com a mão livre esboçou o gesto de me bater. Depois olhoume de alto a baixo.

- Tens contigo com que se possa tomar uma cerveja? Se tens, despachate, antes que te tire o dinheiro.

Têloia feito se não encontrasse o olhar da mulher, que me fez um sinal imperceptível e disse «não» simplesmente com o mover dos lábios.

- Sou muito pobre - redargui, tentando sorrir. - Não tenho dinheiro.

- Que é isso que eu vejo? - exclamou o picheleiro; observavame com tamanha severidade que eu quase receei que ele tivesse visto o meu dinheiro através do forro da algibeira.

- Por favor... - balbuciei.

- Que vejo eu? Usas o lenço de seda do meu irmão? Dámo já! Arrebatoumo do pescoço num instante e entregouo à mulher,

que desatou a rir, como se se tratasse de um gracejo; em seguida restituiumo, tornou a fazer um sinal imperceptível e murmurou: «Vaite!» Antes que eu pudesse obedecer, o rapaz voltou a tirarme o lenço, com tamanha brutalidade que eu voei como uma pena, e atouo no seu pescoço. Virandose para a mulher, blasfemando, deitoua ao chão com um soco. Jamais esquecerei o espectáculo dessa mulher caída por terra. Tombaralhe o chapéu e os cabelos ficaram brancos de poeira. Quando já ia a certa distância, olhei para trás e via sentada, no meio da vereda, limpando com a ponta do xaile o sangue que lhe escorria da cara. O homem continuara o seu caminho.

Esta aventura horripiloume de tal maneira que, desde então, quando percebia a aproximação de gente desta espécie, retrocedia para me ocultar fosse onde fosse, e aí ficava até que se perdessem de vista. Tive de repetir muitas vezes esta manobra, de que resultou atrasar consideràvelmente a viagem. Mas, em todas estas dificuldades, fui sempre protegido e guiado pelo retrato imaginário da minha mãe na sua mocidade, antes da minha vinda ao mundo. Era a minha companhia de todas as horas.

Estava lá, no meio dos campos de lúpulo, quando me estendia para dormir. Estava presente ao meu despertar, de manhã. Seguira à minha frente durante todo o dia. Desde esse tempo, está associado no meu espírito à recordação da rua soalheira de Cantuária, que parece dormitar sob esta luz escaldante; associado igualmente ao espectáculo das velhas casas, das velhas portas, da catedral majestosa, cor de cinza, e aos corvos que voavam de roda das torres. Quando cheguei finalmente às colinas nuas de greda que se estiram a perder de vista, nos arredores de Dover, essa imagem infundiume alguma esperança na desolação da paisagem, e só me abandonou quando atingi esse primeiro objectivo da jornada, pondo o pé na própria cidade de Dover, seis dias após o início daquela; porque então, coisa estranha, quando me achei seminu, de sapatos dilacerados, poeirento e queimado do sol, no lugar por que ansiara tanto, essa imagem dissipouse como um sonho e eu fiquei sozinho, fraco e abatido.

Perguntei primeiramente aos barqueiros se conheciam a minha tia, e recebi diversas respostas, todas diferentes. Disseme um que ela morava no farol de South Foreland e que o ar do mar lhe queimara os bigodes. Outro disse que estava amarrada à bóia ao largo do porto e só podia ser visitada na maré baixa. Disseme um terceiro que se encontrava presa em Maidstone por haver raptado crianças. Ainda outro, que fora vista montada numa vassora, na última rajada forte, e que viajara directamente para Calais. Os cocheiros de praça, entre os quais procedi a um inquérito, não foram menos chalaceadores nem menos desrespeitosos. E os lojistas, desagradados da minha aparência pouco recomendável, geralmente replicavam (sem me ouvir) que não davam esmolas a ninguém. Sentiame mais abandonado e infeliz do que em nenhum outro momento da minha evasão. O dinheiro forase e já não tinha nada que vendesse. Estava cheio de fome e de sede, consumido, e o propósito da viagem afiguravaseme tão longínquo como se ainda me achasse em Londres.

Passara a manhã naquelas buscas, e sentarame nos degraus de uma loja desocupada, à esquina da rua, perto do mercado, a pensar se devia ir ao acaso até às outras terras de que ouvira falar, quando um cocheiro que seguia com o seu trem deixou cair o cobertor do cavalo. Ao restituir o que acabava de apanhar do chão, notei o ar simpático do homem e animeime a perguntarlhe se sabia onde morava a senhora Trotwood, embora já houvesse indagado isto tantas vezes que as palavras quase me expiravam nos lábios.

- Trotwood? Deixame ver, Esse nome não me é estranho. Uma senhora velha?

- Sim, bastante.

- Mas que se conserva muito direita? - continuou ele, endireitando também as costas.

- Creio que sim.

- E usa um saco? Um saco muito grande? E que é um tanto rabugenta, impertinente?

O coração pulavame ao ouvir a verosimilhança desta descrição.

- Pois então, sobe por ali fora - disse o cocheiro, indicando o sítio com o chicote - e vai sempre em frente até chegar às casas que deitam para o mar. Mas a minha opinião é que ela te não dará nada. Toma lá isto para ti.

Era um dinheiro, que aceitei reconhecido e com que comprei um pão. Fuio comendo pelo caminho indicado e andei muito tempo antes de alcançar as casas de que o homem me falara. Por fim enxergueias e, já próximo delas, entrei numa loja que parecia vender de tudo e onde perguntei se me podiam informar quanto à residência da senhora Trotwood. Dirigirame a um homem que estava atrás do balcão e que nessa altura pesava arroz para uma mulher nova; esta, porém, tomou a pergunta como endereçada a ela mesma e voltouse vivamente.

- A minha patroa? - exclamou. - Que queres, pequeno?

- Desejava falarlhe...

- Para lhe pedires esmola, não é isso? - replicou a mulher.

- Não, senhora.

Depois, lembrandome que, no fim de contas, a minha finalidade era essa, caleime embaraçado e senti o rubor subirme às faces.

A criada da minha tia (visto que era esta a sua profissão, a avaliar pelo que dissera) meteu o arroz no cabaz que trazia e saiu da loja, aconselhandome que a seguisse se queria saber onde morava a senhora Trotwood. Não me fiz rogado, se bem que tivesse chegado a tal grau de confusão e cansaço que as pernas se me dobravam. Segui, pois, a mulher e chegámos daí a pouco a uma vivenda pequena e nada feia, com janelas salientes. Tinha adiante um pàtiozinho ou jardim quadrado, coberto de areia e adornado de algumas flores bem cuidadas, que exalavam perfume delicioso.

- É esta a casa da senhora Trotwood - disse a criada -, Já ficas a saber. Não te posso fazer mais nada.

Com isto, entrou precipitadamente, como se quisesse repudiar qualquer responsabilidade na minha visita. Deixoume, pois, junto à porta do jardim, e eu olhei com ar melancólico para a janela do que julguei ser a sala: uma cortina de cassa entreaberta, um anteparo em forma de leque fixado ao peitoril da janela, uma mesa pequena e uma poltrona levaramme a pensar que talvez a minha tia, nesse momento, aí pontificasse com toda a majestade.

Eu tinha as botas em mísero estado, com as solas totalmente esfrangalhadas, a biqueira partida e tão arrebentada que nem se podia reconhecer o que era. O chapéu (que me servira de barrete de dormir) estava tão amachucado e deformado que sem exagero se poderia comparar com uma caçarola velha e amolgada,

sem cabo, atirada para o lixo. A camisa e as calças, molhadas do suor e do orvalho, e sujas das ervas, apresentavam rasgões e só serviriam para vestir um espantalho. O cabelo não fora penteado nem escovado desde que abandonara Londres. A cara, o pescoço, que não estavam habituados ao sol e ao ar livre, mostravamse da cor das amoras maduras. Sentiame da cabeça aos pés coberto de greda e de terra e quase tão branco como se saísse de um forno de cal. Foi desta forma, de que eu tinha perfeita consciência, que resolvera apresentarme e dar uma primeira impressão à temível tia Betsey.

Nada se movia na janela da sala e eu concluí, ao fim de uns minutos, que a tia não estava lá. Ergui a vista ao andar superior e vi um cavalheiro de aspecto risonho e agradável, e de cabelos grisalhos, o qual me fechou um olho com ar grotesco e me fez, com a cabeça, por várias vezes, sinais ora de incitamento ora de negação; depois deu uma gargalhada e desapareceu.

Mais desconcertado fiquei com esse procedimento inesperado, e até deliberara eclipsarme para reflectir no melhor modo de agir quando surgiu de casa uma dama, com um lenço enrolado na touca, luvas de jardinagem, avental de grande algibeira, como o dos portageiros, e enorme podão. Reconheci imediatamente a tia Betsey, pois saíra de casa em passo firme, como a minha mãe, coitada, ma descrevera muitas vezes, depois de a ter visto andar no nosso jardim das «Gralhas», em Blunderstone.

- Vaite embora! - gritou ela, abanando a cabeça e agitando o podão. - Circula. Aqui não quero garotos.

Via, de coração alvoroçado, encaminharse rigidamente para um canto do jardim e abaixarse para arrancar qualquer plantazinha. Então, sem muita coragem mas com a energia do desespero, avancei lentamente para ela e toqueilhe com um dedo.

- Faça favor, senhora... Estremeceu e alçou a vista.

- Faça favor, minha tia.

- Hem? - replicou a velha, espantada ao máximo.

- Tia, sou o seu sobrinho...

- Oh, Deus do Céu!

E caiu sentada no passeio do jardim.

- Sou David Copperfield, de Blunderstone, Suffolk, aonde a senhora foi, na noite em que nasci, visitar a minha mãe. Tenho sido muito infeliz depois da sua morte. Descuidaramme, não fizeram nada pela minha educação, fiquei entregue a mim mesmo, puseramme num trabalho para que não fui feito. Por isso fugi, para vir procurála. Roubaramme na ocasião da partida e eu vim a pé todo o caminho, sem dormir numa cama desde o princípio da viagem.

Aqui o meu estoicismo abandonoume de repente e, fazendo um gesto com as mãos para mostrar os andrajos e tomálos como

testemunhas do que havia sofrido, sentime dominado pelo choro que tentara reter durante toda aquela semana.

O pasmo expulsara da fisionomia da senhora Trotwood qualquer outra expressão. Ela continuava sentada no saibro e olhavame fixamente, mas, quando comecei a chorar, levantouse com rapidez, agarroume pela gola da camisa e levoume para a sala. O seu primeiro cuidado foi de abrir um vasto armário, donde tirou várias garrafas; e fezme ingerir um pouco de cada uma delas. Creio que as tirara ao acaso, pois tenho quase a certeza de que provei anis, molho de anchovas, condimento de salada... Depois de me administrar estes cordiais, como eu estivesse em estado de grande depressão nervosa, que se manifestava por soluços contínuos, a tia colocoume no canapé, com um xaile debaixo da cabeça e, sob os pés, o lenço que lhe adornava a touca, tudo para que eu não lhe sujasse a cobertura do móvel; em seguida, sentandose atrás do anteparo verde da janela (o que me impedia de lhe ver a cara), exclamou por intervalos: «Deus do Céu!», como se fossem tiros de canhão disparados de minuto a minuto.

Daí a pouco tocou a campainha.

- Janet - disse a tia, quando a criada compareceu - vai lá acima, dá os meus cumprimentos ao senhor Dick e dizlhe que lhe quero falar.

A rapariga pareceu um tanto surpreendida de me ver estendido no canapé, sem movimento (não desejava mexerme para não desagradar à tia), mas foi cumprir a ordem. A dona da casa, de mãos atrás das costas, passeou cá e lá na sala, até que entrou, sorrindo, o cavalheiro que me vira da janela do primeiro andar.

- Senhor Dick, não se faça tolo, porque mais ninguém será tão sensato quando quer. E por de mais sabido. De maneira que lhe peço dê atenção...

O senhor Dick tomou logo um ar grave e olhou para mim, como que a suplicarme que nada dissesse quanto à cena da janela. A tia prosseguiu:

- Já ouviu falar, não é verdade, de David Copperfield? Sabemos bem que sim, não se finja desmemoriado.

- David Copperfield? - repetiu o senhor Dick, que me deu a ideia de não estar muito lembrado do nome. - David Copperfield? Ah, sim, sim! David, com certeza.

- Pois este rapaz é filho dele. Seria muito parecido com o pai, se o não fosse também com a mãe.

--Filho dele?-exclamou o senhor Dick. - Filho de David? Realmente?

- Sim, senhor, e fêla bonita. Fugiu! Ah, não seria a irmã, Betsey Trotwood, que faria uma coisa dessas!

E a tia meneou energicamente a cabeça, cheia de confiança no carácter e procedimento de uma criatura que afinal não chegara a nascer.

- Acha que ela não fugiria? -observou o senhor Dick.

- Meu Deus, que homem! - bradou a tia. - Como ele fala! Pois eu não sei isso muito bem? Ela ficaria a viver com a madrinha, tão dedicadas uma à outra como nunca! Donde fugiria Betsey Trotwood, ou para onde?

- Para parte nenhuma - respondeu o senhor Dick.

- Nesse caso - retorquiu a senhora Trotwood - por que faz cara de parvo quando o senhor é fino como um coral? Pois aqui está o moço David Copperfield, e o que lhe pergunto agora é o seguinte: que heide fazer dele?

- Que háde fazer dele? - repetiu o senhor Dick em voz débil e coçando a cabeça. - Sim, que fazer dele?

A tia ergueu um dedo, e, com expressão séria, declarou:

- Preciso de um conselho, e que seja bom.

- Eu, se fosse a senhora - volveu o senhor Dick, reflectindo e olhandome com ar abstracto - eu...-Pareceu de repente inspirado e acrescentou vivamente: - Davalhe um banho!

- Janet - disse a tia, voltandose numa atitude triunfante, que eu então não compreendi. - Aquece o banho para o menino.

Embora bastante interessado no diálogo, não pude impedirme de observar a dona da casa, a criada e o senhor Dick, e de terminar o exame da sala em que estávamos.

A tia era uma senhora alta, de feições duras mas não desagradáveis. O rosto, a voz, o porte, o andar tinham qualquer coisa de inflexível que bastava para explicar o efeito que produziu sobre uma criatura dócil como a minha mãe. Todavia esse rosto não era feio, apesar de rude e austero. Notei, em particular, que possuía um olhar vivo e brilhante; os cabelos brancos formavam dois bandós encimados por uma touca frisada: esse toucado estava então mais difundido do que hoje, e terminava em fitas que se prendiam sob o queixo. O vestido cor de alfazema, apresentavase muito limpo, mas curto, decerto para lhe deixar os movimentos livres: lembrome de que esse vestido me sugeriu um traje de amazona a que tivessem encurtado a saia. Exibia a um lado um relógio de homem, a calcular pelo seu volume, seguro por uma corrente com berloques. No pescoço e nas mangas viase uma espécie de colarinho e de punhos de camisa.

O senhor Dick, como já disse, tinha cabelo grisalho e cor rosada; e isto seria suficiente, se não devesse acrescentar que a cabeça era singularmente curvada, embora não pela idade: suporseia antes a cabeça de um dos alunos do senhor Creakle, depois de castigado. Os olhos grandes, salientes, brilhavam com uma claridade húmida e estranha, o que, junto às suas maneiras distraídas, à submissão perante a senhora Trotwood, e à alegria infantil quando esta o elogiava, me fazia pensar que não possuía o juízo todo. Ora, mais por isto do que pelo resto, a sua presença na casa intrigavame deveras. Vestia como toda a gente, um casaco cinzento, simples,

colete branco e calças brancas. Usava também relógio, no bolsinho do colete, e fazia tinir dinheiro nas algibeiras, do que parecia muito orgulhoso.

Janet, rapariga de faces frescas, orçava pelos vinte anos e constituía um modelo de asseio. Se bem que não observasse então mais nada de especial a seu respeito, posso agora dizer o que não descobri senão mais tarde, isto é, que estava incluída numa série de protegidas que a minha tia tomara ao seu serviço precisamente para as educar no horror dos homens, renúncia que afinal terminava, em geral, por um casamento com o rapaz da padaria.

A sala apresentavase tão limpa como a senhora Trotwood ou a criada. Descansando ainda há pouco a pena, para meditar, senti de novo entrar o ar salino de mistura com o aroma das flores. Revi os móveis à moda desse tempo, bem esfregados e luzidios, a cadeira e a mesa que só a tia tinha o direito de ocupar atrás do anteparo verde, em forma de leque, fronteiro à janela, o tapete coberto com um pano, o gato, o escalfador, os dois canários, a loiça antiga, a poncheira cheia de pétalas de rosa secas, o armário grande que guardava todo o género de garrafas e frascos, e, ó milagre, destoando de tudo isto, a minha pessoa poeirenta em cima de um canapé, atento ao mínimo pormenor do que me rodeava.

Janet fora preparar o banho. De repente a senhora Trotwood empertigouse cheia de indignação e gritou em voz sufocada, que me assustou:

- Burros, Janet!

Reapareceu a criada, a correr, como se houvesse fogo em casa, e precipitouse para um trato de relva da frente, onde duas senhoras, montadas em burros, haviam tido a audácia de entrar. Ela própria arremessouse para lá e, puxando pela rédea de um terceiro animal (em cima do qual estava uma criança escarranchada), desviouo para fora desse recinto sagrado. Em seguida puxou as orelhas do infeliz arrieiro, que se atrevera a permitir semelhante profanação.

Nunca soube se a minha tia tinha legalmente direito de passagem por aquele relvado, mas assim se convencera e isso bastava. A ofensa mais grave que se lhe podia fazer e que exigia vingança imediata era conduzir um burro por esse sítio imaculado. Fosse qual fosse a ocupação que a absorvesse nesse momento, e por mais interessante que se mostrasse a conversa em que tomasse parte, bastava um daqueles animais para a distrair de tudo; sem demora investia sobre ele..Havia cântaros de água e agulhetas em pontos ocultos, prontos a serem despejados em cima dos contraventores. Havia paus atrás da porta. Faziamse rondas inesperadas. Era um estado de guerra permanente. Talvez que isto estimulasse agradavelmente os arrieiros, talvez que os burros (os mais inteligentes), sabendo do que se tratava, gostassem de ir ali em razão

da teimosia que lhes é habitual. Só sei que houve três alarmes enquanto me preparavam o banho; no decurso do último, que foi o mais movimentado, vi a minha tia acometer sozinha um rapaz ruivo dos seus quinze anos e bater com a cabeça dele contra a porta do jardim antes que a vítima pudesse compreender o que se passava. Estas interrupções pareciamme na verdade risíveis, tanto mais que a senhora Trotwood estava então ocupada em ministrarme caldo às colheres de sopa (persuadida de que eu realmente morria de fome e que era preciso alimentarme em pequenas doses); e quando eu tinha ainda a boca aberta, largou a colher no chão e gritou: «Burros, Janet!», partindo logo ao ataque. O banho suavizoume muito, pois começava a sentir dores agudas nos membros, em consequência das noites passadas ao relento, e estava tão cansado que tinha dificuldade em manterme atento cinco minutos seguidos. Depois de tomar o banho, a tia e Janet vestiramme uma camisa e um par de calças do senhor Dick e envolveramme em dois ou três xailes grandes. Não sei a que espécie de embrulho me assemelhava, assim entrajado, mas, em todo o caso, o embrulho produziu calor. Estava, porém, muito fraco e caía de sono; estendime outra vez no canapé e adormeci. Fora decerto um sonho originado na imagem que há muito tempo me ocupava o espírito, mas acordei com a impressão de que a tia viera curvarse sobre mim, que me afastara o cabelo do rosto, que permanecera um grande bocado de pé a contemplarme. As palavras «belo rapazinho» ou «coitadito», pareciam ressoarme aos ouvidos, mas, ao despertar, não havia nada, com certeza, que pudesse convencerme de que ela as pronunciara, pois via sentada à janela, atrás do anteparo verde que estava montado numa espécie de eixo e rodava em todos os sentidos.

Jantámos daí a curtos instantes. Serviramnos galinha assada e um pudim. Eu próprio achavame à mesa um pouco à maneira de um frango encordelado e só com muita dificuldade mexia o braço. Mas como fora a tia quem me enfaixara, eu não me atrevia a queixarme de estar constrangido. Durante todo o tempo, inquietavame a ideia de saber o que a senhora Trotwood ia fazer de mim; ora ela comia em silêncio profundo, limitandose a fitarme por momentos (achavame à sua frente) e a repetir «Deus do Céu!»

Quando levantaram a toalha para trazer xerez, de que tomei um copo, a tia mandou de novo chamar o senhor Dick, que se sentou connosco e assumiu um ar grave a pedido da dona da casa. Então ordenoume esta que contasse a minha história; filo devagar, sempre interrompido pelas suas perguntas. Ao passo que seguia no meu relato, o senhor Dick olhou de contínuo para mim (decerto para não adormecer) e, quando lhe escapava um sorriso, logo se arrependia vendo a senhora Trotwood franzir a testa.

- O que não posso compreender é a razão por que tornou a casar essa desgraçada rapariga - observou a tia, quando acabei.

- Talvez se apaixonasse pelo segundo marido - sugeriu o senhor Dick.

- Apaixonarse! - repetiu a senhora Trotwood. - Que quer dizer? Que tinha ela que se apaixonar?

- Quem sabe se achou prazer nisso?... - volveu o senhor Dick.

- Prazer! Francamente! Belo prazer para esta pobre criança... darlhe outro pai que não deixaria de a maltratar, de uma forma ou de outra! Que queria essa rapariga, gostaria de saber. Tivera um marido. Vira David Copperfield deixar o mundo; tivera um filho. Que mais desejava?

O senhor Dick fezme, às escondidas, um sinal de cabeça, como se considerasse aquele raciocínio irrefutável.

- Nem conseguiu ter outra criança - continuou a tia. - Onde está a irmã deste, a minha afilhada Betsey Trotwood? Não haveria perigo de que ela viesse ao mundo!

O senhor Dick parecia consternado.

- Esse mèdicozinho de pacotilha - acrescentou a senhora Trotwood - Jillips ou lá como é que se chama, que é que fazia? Tudo o que soube dizer nesse momento foi: «É um rapaz!» Um rapaz! Ah, que imbecis todos eles!

O ardor deste discurso apavorou o senhor Dick, e a mim também, para dizer a verdade.

- E depois - insistiu a senhora Trotwood - além de prejudicar a irmã deste pequeno, ainda por cima torna a casarse! Casase com um qualquer e prejudica por seu turno este rapazinho! E a consequência natural (só ela para não prever isto) é que o transformou num vagabundo, um verdadeiro Caim antes de atingir a idade adulta.

O senhor Dick olhoume atentamente para ver se eu correspondia à descrição.

- E ainda essa mulher chamada Pagã, ou Peggotty, também se casa por sua vez, como se não tivesse visto os males que acompanham necessariamente um acto desses. Espero ao menos - ajuntou a tia, oscilando a cabeça - que o marido saiba pegar num atiçador e metêla uma vez por outra na ordem.

Afligiame ouvir falar assim da minha velha amiga Peggotty, e ripostei à caluniadora dizendo que a minha antiga criada era das pessoas mais fiéis, sinceras e desinteressadas deste mundo; que sempre estimara com a maior ternura; que fora muito dedicada à minha mãe, e até a sustivera, moribunda, no braço e dela recebera um beijo de gratidão. Ao lembrarme de ambas, a comoção sufocoume e foi entre lágrimas que declarei considerar a casa de Peggotty o meu lar, que tudo o que era seu meu era também, e que eu iria refugiarme lá se não fosse a sua condição modesta, que me coibia de lhe causar embaraços.

Com o choro, deixei tombar a cabeça na esquina da mesa e escondi a cara nas mãos.

- Está bem, está bem, tens razão em defender os que te protegeram - observou a tia. E, em voz alta, acrescentou: - Burros, Janet!

Estou convencido de que, sem esses burros inoportunos, chegaríamos a compreendernos, eu e a tia, pois ela colocara a mão no meu ombro; assim animado, senti qualquer coisa que me impelia a abraçála e a pedirlhe protecção. Mas aquelas interrupções e a agitação em que a pôs a luta que se travava fora extinguiram por então qualquer pensamento mais terno. E a tia não cessou de dizer, indignada, dirigindose ao senhor Dick, que estava disposta a pedir justiça aos tribunais, intentando processos por violação de propriedade aos donos de todos os burros de Dover. A coisa prolongouse até à hora do chá.

Depois desta refeição, ficámos perto da janela para espiar os possíveis invasores, até que caiu a noite e Janet trouxe velas e o tabuleiro do gamão. Em seguida correu os reposteiros.

- Agora, senhor Dick - recomeçou a tia, com semblante grave e erguendo um dedo, como antes. - Tenho outra pergunta para si. Olhe para este pequeno.

- O filho de David? - disse aquele, com ar de atenção e embaraço.

- Precisamente. Que faria você, entretanto?

- Que faria eu do filho de David, é o que quer saber? Mandavao para a cama.

- Janet! - gritou a tia com o mesmo tom de satisfação triunfante que já notara. - O senhor Dick tem sempre razão. Se a cama estiver pronta, lá iremos leválo.

Janet participou que sim e então fizeramme subir a escada, suavemente, mas um pouco à maneira de um preso: a senhora Trotwood ia à frente e Janet fechava o cortejo. A única circunstância que me incutiu esperança foi a tia haver parado nos degraus para inquirir donde vinha certo cheiro a queimado. Janet respondeu que acabara de lançar fogo, na cozinha, à minha camisa esgarçada e suja. Ora no meu quarto não havia outra roupa além da incrível vestimenta que eu envergava. E, depois de a tia me deixar ali, prevenindome de que a vela, já muito consumida, só duraria cinco minutos, senti fecharse a porta à chave, pelo lado de fora. Reflectindo em tudo isto, deduzi que ela, nada conhecendo a meu respeito, concluíra que eu tinha o hábito de fugir e, consequentemente, tomava precauções para me conservar a bom recato.

O quarto ficava no último andar da casa, o que me agradou verificar. Dava para o mar, que o luar prateava. Após ter rezado, vi extinguirse o resto da vela, e fiquei sentado a contemplar o efeito dos raios da Lua na água, como se fosse um livro em que se pudesse ler o meu destino;

ou como se devesse ver a minha mãe com o seu filhinho descer do céu e avançar por essa estrada cintilante, para me olhar - como no dia em que eu surpreendera o seu rosto meigo pela derradeira vez. Lembrome como esta impressão solene foi substituída, quando desviei a vista, pelo sentimento de gratidão e de calma que me inspirava o espectáculo do leito de cortinados brancos; e, mais ainda, ao deitarme, pelo doce refúgio de lençóis imaculados! Recordome também que pensei em todos os lugares solitários em que dormira ao ar livre, e pedi a Deus me fizesse mercê de nunca mais me achar sem abrigo nem de esquecer aqueles que o não têm. Em seguida afigurouseme que flutuava ao longo da esteira melancólica e luminosa traçada no mar, para me perder enfim no mundo dos meus sonhos.