David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 2. COMEÇO A OBSERVAR
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As primeiras imagens que se me impõem, quando olho para o passado, para o vazio da minha infância, são minha mãe com o seu belo cabelo e formas juvenis, e Peggotty, informe, mas de olhos tão sombrios que pareciam escurecerlhe o resto da cara, e de faces e braços tão rijos e corados que me admira não viessem as aves debicálos de preferência às maças.

Julgo ser capaz de me recordar dessas duas, tão próximas e encurtavam aos meus olhos, porque se curvavam, ajoelhadas, para o chão, no espaço em que eu corria, vacilante, de uma para a outra. Tenho presente na memória, sem poder distinguila da verdadeira lembrança, a impressão produzida pelo contacto do indicador de Peggotty quando ela mo apontava, conforme o seu costume - um dedo que a costura calejara e que parecia um ralador de nozmoscada.

Isto pode ser imaginação, mas eu penso que a nossa memória é capaz de recuar mais do que se supõe; creio também que há crianças dotadas de uma faculdade de observação tão exacta quanto extraordinária. Quem sabe se certos adultos, notáveis a esse respeito, mais não fizeram do que conservar aquela faculdade, em vez de a ter perdido? A frescura, docilidade, simpatia que neles se observam talvez sejam qualidades que lhes ficaram da infância.

Poderia recear que semelhante parêntese fosse um simples devaneio, mas a verdade é que aquelas conclusões são filhas da minha experiência. Verseá desta narrativa que eu era uma criança observadora, ou que, já adulto, conservei íntegra memória da infância. É indubitável que reivindico estas duas qualidades.

Olhando para o passado, como dizia, as primeiras imagens que destrinço da confusão das coisas são a de minha mãe e a de Peggotty. De que mais me recordo? Vamos a ver.

Eis que dessa névoa surge a nossa casa: não é nova para mim, antes pelo contrário inteiramente familiar nas minhas mais remotas lembranças. No résdochão está a cozinha de Peggotty: deita para um pátio, e no meio desse pátio, sobre uma estaca, um pombal sem pombas. A um canto fica uma casota de cão, mas também sem ocupante. E uma porção de galinhas que se me afiguram gigantescas, andando cá e lá ameaçadoras e cruéis. Há um galo que sobe a um poleiro para cantar e que parece dar pela minha presença quando eu o observo da janela- o que me faz tremer, porque o seu aspecto é feroz. Quanto aos gansos, que do outro lado do portão se aproximam de mim bamboleandose e de pescoço estendido, esses aparecemme em sonhos, como poderia suceder a um homem que estivesse rodeado de feras e sonhasse com leões.

Eis um corredor comprido - enorme perspectiva para os meus olhos! - que leva à cozinha de Peggotty e à porta da rua. Para este corredor deita um quarto de arrecadação, escuro, diante do qual, à noite, se tem de passar a correr, pois não sei o que pode haver no meio desse amontoado de tinas, jarros e caixas velhas de chá, se não estiver lá ninguém que segure uma vela acesa. Dali se evola um cheiro bafiento de sabão, conservas, pimenta, cera, café. Depois, há as duas salas: aquela em que nos instalamos à noite, minha mãe, eu e a criada (que nos faz companhia quando acaba o seu serviço e nós estamos sós), e a de cerimónia, que utilizamos aos domingos; é grande, mas não confortável. Reina aí uma atmosfera de luto, porque Peggotty me contou (não sei quando, mas há imenso tempo!) que nesta sala esteve o caixão de meu pai e as pessoas que o acompanharam, todas vestidas de preto. Foi nesse mesmo lugar que a mãe nos leu, um domingo, a Peggotty e a mim, como Lázaro ressuscitou dentre os mortos. E eu tive tanto medo que foi preciso virem tirarme da cama para me mostrar o cemitério tranquilo onde repousam os mortos nas suas campas, sob a solenidade do luar.

Não conheço em parte alguma erva mais verde do que a desse cemitério; nada que faça tanta sombra como essas árvores, nem maior calma do que a desses túmulos. Os rebanhos pastam por ali quando eu ajoelho, manhã cedo, na cama, num quartinho contíguo ao da minha mãe, para os poder contemplar. Ainda vejo a luz rubra incidindo no relógio de sol, e digo comigo mesmo: terá ele gosto em marcar outra vez as horas?

Agora o nosso banco na igreja, com o seu grande espaldar. Perto existe uma janela, donde se vê a nossa casa, Peggotty entretémse a contemplála vezes sem conta, durante os ofícios matinais, pois gosta de se certificar de que não entra lá nenhum ladrão ou não rebentou nenhum incêndio. Mas, se ela se permite errar a vista, ofendese se eu me ergo no banco para deitar uma olhadela ao padre. Aliás, não o observo com insistência: estou habituado a vêlo sem aquela capa branca de que se reveste e assustame a ideia de que censure a minha curiosidade. Quem sabe se vai interromper a cerimónia para me interrogar... e o que será de mim, neste caso? Bocejar, também não é recomendável; todavia tenho de fazer alguma coisa. Olho para minha mãe, que finge não dar por isso; encaminho o olhar para um rapazinho que está junto da nave, e que me faz caretas. Admiro o sol que entra pela porta aberta e descubro uma ovelha tresmalhada (não me refiro a um pecador, mas a um animal), que parece desejosa de penetrar no templo; convençome de que, se a olhar mais demoradamente, serei tentado a falar, e que aconteceria então! Levanto a vista para as estelas funerárias da parede: diligencio pensar no defunto senhor Bodgers, desta paróquia, e no desgosto por que passou a senhora Bodgers, e nos médicos que o trataram inutilmente. Teriam chamado o doutor Chillip e seria este quem se confessou impotente? Em tal caso, que sentirá ao depararselhe aquele monumento, uma vez por semana? Desvio a vista do doutor Chillip (com a sua gravata branca dos domingos) para o púlpito. Que belo sítio para brincar, que fortaleza se faria daquilo. Se outro garoto subisse os degraus, para o ataque, atirarselheia à cabeça o coxim de veludo com borlas. A pouco e pouco fecho os olhos e imagino ainda o sacerdote a entoar um cântico soporífico; depois deixo de o ouvir e por fim caio do assento com estrondo, e Peggotty levame para fora, mais morto do que vivo.

Vejo agora o exterior da nossa casa, com as janelas de persianas nos quartos de dormir, abertas ao ar embalsamado, e os velhos ninhos de gralhas, esgarçados, ainda pendentes dos ulmeiros, no extremo do jardim da frente. Eisme entretanto no quintal das traseiras, além do pátio, onde fica o pombal sem pombas e a casota sem cão, autêntica tapada de borboletas, com a sua alta sebe e o portão de cadeado. Os frutos acumulamse nas árvores, maduros e mais perfeitos do que em nenhuma parte, e a mãe colheos aqui e ali e meteos num cabaz, enquanto eu, a seu lado, como groselhas às escondidas procurando manter a impassibilidade. Levantase um vento forte e, num momento, o Verão findou. Brinco à luz crepuscular, no Inverno, e dançamos na sala. Quando a minha mãe fica ofegante, sentase numa poltrona, a descansar; vejoa enrolar nos dedos os anéis lustrosos do cabelo e apertar a cintura. Ninguém, como eu, sabe quanto ela gosta de parecer bem e se orgulha de ser tão bonita.

O que acabo de dizer figura entre as minhas primeiras impressões. Creio também que tínhamos certo receio de Peggotty e que nos submetíamos à sua vontade na maior parte das coisas: isto agora já pertence às minhas primeiras opiniões, se é que lhes posso dar esse nome, e procede do que eu testemunhei.

Uma noite eu e Peggotty estávamos à lareira, sozinhos. Havialhe lido um trecho acerca de crocodilos, e devia têlo feito tão conspicuamente (ou a pobre criatura interessarase a valer) que, ao fim da leitura, recordome de que ela conservava a impressão de que os crocodilos eram uma espécie de legumes. Estava cansado de ler e morto de sono; mas, tendo recebido como alta distinção a autorização para ficar acordado até que a mãe voltasse de uma visita a uma senhora da vizinhança, antes queria morrer no meu posto que ter de ir para a cama! Contudo o sono era tão grande que Peggotty me parecia crescer e inchar desmedidamente. Conservava os olhos abertos porque segurava as pálpebras com a ponta dos dedos, e observava fascinado a minha companheira no seu trabalho de costura. Via também o coto de vela de que se servia para encerar a linha, e a caixa em que guardava a fita métrica, e o dedal com que se protegia da agulha, e o estojo da costura que ostentava na tampa uma reprodução colorida da catedral de São Paulo, por sinal com a cúpula corderosa. Bem sabia que, se deixasse de olhar para qualquer destes objectos, o sono me dominaria por completo. - Peggotty - disse de súbito - já foste casada?

- Meu Deus, menino Davy! - replicou ela. - Como se lhe meteu semelhante ideia na cabeça?

Mostrou, ao mesmo tempo, tal sobressalto que eu despertei de vez. Depois deixou de trabalhar e fitoume, puxando a linha em todo o seu comprimento.

- Mas afinal não casaste? - insisti. - Tu és bonita.

Era, decerto, uma beleza diferente da de minha mãe; mas, dentro do seu tipo, afiguravaseme perfeita. Havia na sala um tamborete de veludo encarnado, no qual minha mãe pintara um ramalhete. O fundo desse tamborete e a tez de Peggotty apareciamme muito semelhantes, a não ser que a superfície do assento era macia e a pele da criada rugosa. Mas isto não importava.

- Bonita, eu menino? - exclamou Peggotty. - Isso é que não. Mas, quanto ao casamento, quem lhe meteu tal coisa na cabeça?

- Sei lá! Não se casa com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, não é verdade, Peggotty?

- Decerto que não - respondeu ela em tom peremptório.

- Mas, se se casar com alguém que depois morre, podese casar outra vez?

- Se houver vontade disso, menino. Há opiniões.

- E qual é a tua opinião, Peggotty?

Interrogavaa olhando cheio de curiosidade, porque também ela me olhava curiosa.

- A minha opinião - declarou por fim, desviando de mim a vista e recomeçando a costura - é que eu, por mim, não me casei, menino Davy, e não espero fazêlo. É tudo quanto sei a este respeito.

- Não estás zangada, não? - inquiri, após um intervalo de silêncio.

Supunha realmente que estava zangada, porque me respondera com secura. Mas enganavame, porque Peggotty descansou a agulha e abriume os braços, apertando bem ao peito a minha cabeça encaracolada. Foi, de facto, um abraço forte, pois sendo roliça sempre que fazia qualquer esforço rebentavamlhe os botões do vestido. Precisamente dois deles saltaram para o outro canto da sala no momento em que ela me cingia.

- Agora leiame mais qualquer coisa a respeito dos «cracodilos», porque ainda não ouvi bastante.

Não percebi por que motivo Peggotty se mostrava tão ansiosa de voltar ao assunto dos crocodilos. Fosse como fosse, tornámos aos monstros; eu estava mais desperto do que nunca. Metemos, pois, os seus ovos na areia adusta, para os chocar; fugimos deles e retrocedemos, desconcertandoos sem cessar, o que esses animais não podiam fazer devido à sua corpulência; perseguimolos na água, como indígenas, para lhes enfiar paus aguçados nas goelas; enfim, esgotámos o assunto, pelo menos eu; Peggotty, cismadora, espetou várias vezes a agulha na cara e nos braços.

íamos passar aos aligatores quando retiniu a campainha do jardim. Fomos abrir o portão: era a minha mãe, mais bonita do que nunca (ao que me pareceu) e acompanhada de um senhor de soberbo cabelo preto e suíças da mesma cor, pessoa que voltara connosco da igreja no domingo passado.

A mãe detevese no limiar para me tomar nos braços e beijar, e o cavalheiro que a acompanhava declarou que eu era mais feliz do que um rei, ou algo neste género, porque neste momento sinto que a compreensão do adulto pretende vir em meu auxílio.

- Que significa isto? - perguntei sobre o ombro de minha mãe. Ele afagoume a cabeça, mas, não sei porquê, não gostei da sua

pessoa nem da sua voz, e diligenciei evitar, ciosamente, que a sua mão, ao tocarme, não tocasse na da minha mãe - o que afinal aconteceu. Afasteia conforme pude.

- Oh, Davy!--observou ela, em tom de censura.

- Lindo menino - disse o cavalheiro. - Não me admira a sua devoção filial.

Nunca eu vira antes tão belas cores nas faces da minha mãe. Ralhoume pela descortesia de que dera provas, e, abafandome com o seu xaile, agradeceu àquele senhor a atenção que tivera de a acompanhar a casa. Enquanto falava, estendeulhe a mão, e, quando tocou na dele, pareceme que me olhara de relance.

- Digame boanoite, menino - sugeriu, depois de haver tocado com os lábios na mão enluvada da minha mãe, facto que não me passara despercebido.

- Boa noite - respondi.

- Sejamos bons amigos - continuou ele, rindo. - Venha uma mãozada.

A minha mão direita estava retida na da minha mãe, de forma que lhe apresentei a esquerda.

--Essa não, Davy! - observou o cavalheiro, continuando a rir.

A mãe desembaraçoume, mas eu estava decidido a não obedecer, sempre pelo mesmo motivo; de maneira que conservei estendida a mão esquerda, que ele afinal apertou cordialmente, dizendo que eu era um bom camarada. E foise embora.

Ainda o vejo virarse para trás, no jardim, e despedir dos seus olhos negros de mau agoiro um derradeiro olhar antes que a nossa porta se fechasse.

Peggotty, que não dissera uma palavra nem se movera, cerroua imediatamente e nós fomos para a sala. A mãe, contra o seu hábito, permaneceu na outra extremidade em vez de vir sentarse na sua poltrona ao lado do fogão. E começou a cantar.

- Penso que foi uma noite agradável, minha senhora - disse a criada, hirta de pé a meio da casa, com uma vela na mão.

- Obrigada, Peggotty, foi na verdade uma noite muito agradável - respondeu a mãe em tom jovial.

- Gente diferente traz modificações divertidas - insinuou Peggotty.

- Modificações bastante divertidas - corroborou a patroa.

Peggotty continuava imóvel no meio da sala e a mãe recomeçara a cantar. Eu adormeci, se bem que o sono não fosse demasiado profundo para que deixasse de ouvir vozes, sem todavia, perceber o que diziam. Quando despertei desse torpor incómodo, vi a mãe e a criada lavadas em lágrimas, e falando.

- Um como este... não seria do agrado do senhor Copperfield - participou a criada.-por isso respondo eu!

-Meu Deus! - volveu a minha mãe - tu dásme volta ao juízo! Nunca vi uma rapariga ser tão mal tratada pelos seus servidores. Mas também não sei por que me considero rapariga. Não fui casada, Peggotty?

- Deus bem sabe que foi.

--Então, como te atreves... não, não me refiro a atrevimento... como é que tens coragem de me tornar tão infeliz e de me dizer coisas amargas? Sabes perfeitamente que eu, fora daqui, não tenho um único amigo a quem me apegue?

- Mais uma razão para que eu diga o que não deve fazer. Não, aquilo não lhe serve. De maneira nenhuma.

Até me pareceu que Peggotty ia atirar o castiçal tanto o brandia para sublinhar as palavras.

- Como é possível que me trates tão injustamente? - exclamou a mãe, vertendo lágrimas copiosas. - Julgas que está tudo combinado e decidido, mas repitote, minha tirana, que não houve nada, mesmo nada, além dos banais cumprimentos do estilo. Falas da admiração que desperto. Que heide fazer? Se as pessoas fazem a tolice de se mostrar interessadas por mim, será isso culpa minha? Em que concorri para tal coisa? Gostava que me dissesses como devo proceder. Queres que rape a cabeça e use a cara mascarrada? Ou que me desfigure, queimandome ou recorrendo a qualquer outro meio? Se calhar era isso que desejavas, Peggotty. Até ficarias satisfeita!

A criada, ao que me pareceu, tomou este desabafo muito a peito.

- E o meu querido filho - prosseguiu a mãe, aproximandose da poltrona em que eu estavao meu querido Davy! Alguém dirá que perdi o afecto a este adorado tesouro, o mais belo rapazinho que jamais vi?!

- Ninguém pensa semelhante coisa - retorquiu Peggotty.

- Tu, Peggotty, por exemplo - aduziu a mãe. - Sabelo muito bem. Que mais se poderia concluir das tuas palavras, minha malvada, quando afinal, só por sua causa, deixei de comprar uma sombrinha nova, quando recebi a minha última renda, apesar de ter esta já toda esgarçada? Repara no estado em que ela está. Serás capaz de me desdizer? - Depois, virandose enternecida para mim e unindo o seu rosto ao meu: - Tenho sido uma mãezinha má, egoísta, cruel? Diz que sim, meu amor, para que Peggotty rejubile. A estima de Peggotty vale mais do que a minha, não é assim? Achas que não te quero bastante?

Nesta altura, desatámos todos a chorar. Creio que fui o mais barulhento dos três, mas suponho havia sinceridade em todos. Eu sentiame contristado ao máximo e pareceme que, nas minhas primeiras expansões de ternura magoada, chamei «fera» à Peggotty. Esta pobre criatura mostravase profundamente aflita e, em tais circunstâncias, devia ter rebentado todos os botões do vestido, porque se ouviu uma espécie de detonação quando, uma vez feitas as pazes com a patroa, ela ajoelhou junto da poltrona para se reconciliar comigo.

Fomonos deitar deveras desanimados. Por muito tempo os meus soluços conservaramme acordado; e quando um, mais forte, me obrigou a erguerme da cama, descobri a minha mãe sentada na manta e inclinada para mim. Depois disso dormi nos braços dela e de um sono profundo.

Não me lembro se foi no dia seguinte que tornei a ver o tal senhor ou se passou muito tempo antes que ele reaparecesse. Não pretendo ser rigoroso em matéria de datas. O certo é que ele estava na igreja e que nos acompanhou a casa. Chegou mesmo a entrar para ver um gerânio famoso que tínhamos na janela da sala. Desconfio que não lhe deu uma atenção por aí além, mas antes de se retirar pediu à minha mãe que o mimoseasse com uma dessas flores. Ela convidouo a escolher a que lhe aprouvesse e o homem recusouse a tomar aquela liberdade - ignoro porquê - de forma que a mãe cortou uma com a sua mão e apresentoulha. Então o cavalheiro declarou que nunca, nunca se separaria da flor, o que achei disparate, porque ela dentro de poucos dias se reduziria a pó.

Peggotty começou a fazernos menos companhia, à noite, do que era seu costume. A mãe condescendia muito com a criada, mais do que fora seu hábito, ao que julgo, e nós três tratávamonos como bons amigos; havia, contudo, algo de mudado entre nós. Às vezes imaginava que talvez fosse pela razão de Peggotty censurar minha mãe por fazer uso de todos os bonitos vestidos que guardava nas gavetas ou por ir com tanta frequência a casa da vizinha. A verdade, porém, é que não consegui tirar o caso a limpo.

Gradualmente me acostumei a ver o senhor das suíças pretas. Não o tolerava mais do que a princípio: inspiravame sempre o mesmo ciúme inquietante; mas se me assistia outro motivo além da antipatia instintiva própria duma criança e da convicção de que eu e Peggotty bastávamos a minha mãe, sem necessidade de auxílio estranho, esse não seria decerto o mesmo que me impeliria se eu fosse idoso. Nada deste género me acudira nem por sombras à ideia. Sabia, naturalmente, observar, mas de modo fragmentário, por assim dizer; todavia não tinha idade para ligar todos esses fragmentos de molde a tirar uma conclusão.

Certa manhã de Outono estava eu com a mãe no jardim da frente quando o senhor Murdstone (sei agora o seu nome) passou na rua a cavalo. Detevese para cumprimentar a minha mãe e disse que ia a Lowestoft visitar uns amigos, que ali se achavam, com um iate; muito jovialmente, propôsse levarme também, se o passeio me tentasse.

A atmosfera tinha tal pureza e amenidade (até o próprio cavalo parecia contente com a ideia do passeio, resfolegando e escarvando a terra) que eu me impacientei no desejo de aceitar o convite. De maneira que me mandaram ao andar superior a fim de que Peggotty me pusesse janota. Entretanto o senhor Murdstone apearase, e, com o animal pela rédea (que enfiara no braço), começou a andar acima e abaixo ao comprido da sebe, devagarinho, e a minha mãe acompanhavao do lado de dentro. Lembrome de que eu e Peggotty os espreitámos da janela e que os achei muito próximos um do outro, só com as roseiras bravas a separálos; e que Peggotty, até aí bem disposta, se tornou enervada e me escovou o cabelo com gestos bruscos.

Depressa partimos, eu e o senhor Murdstone, num largo trote pela berma arrelvada do caminho. Ele seguravame facilmente com um só braço e, embora eu não estivesse, suponho, muito agitado, não conseguia no entanto coibirme de voltar de vez em quando a cabeça e observarlhe o rosto de perto. O homem tinha aquela espécie de olhos pretos superficiais (faltamme os verdadeiros termos para descrever um olhar sem profundeza, onde se possa mergulhar o nosso) e que, quando distraídos, parecem, por qualquer peculiaridade da luz, estar deformados como se fossem vesgos. Em certas ocasiões, ao virarme, contemplava aquela expressão com terror e cogitava no que seriam nesse instante os seus pensamentos. Vistos àquela proximidade, o cabelo e as suíças eram ainda mais negros e espessos do que eu imaginara. A forma quadrada do queixo e a raiz de uma barba muito preta e forte, diária e cuidadosamente rapada, lembravamme as figuras de cera que, seis meses antes, haviam passado pelos nossos arredores. Estas minúcias, e ainda as sobrancelhas regulares e os tons branco, preto e castanho, tão opulentos, da tez (raios partam essa tez e estas lembranças!), obrigaramme a considerálo um belo homem, apesar da minha hostilidade. Compreendo que a minha pobre mãe pensava da mesma forma que eu.

Fomos ter a um hotel da beiramar, onde dois cavalheiros fumavam charuto numa sala em que não se encontrava mais ninguém. Cada um deles descansava pelo menos em quatro cadeiras e usava uma ampla jaqueta. A um canto jazia um montão de casacos, capas de marinheiro e uma bandeira, tudo entrouxado.

Quando entrámos, rolaram sobre si mesmos, para se porem de pé, e disseram:

- Viva, Murdstone! Pensámos que tinhas morrido.

- Ainda não - replicou Murdstone.

- E quem é esse fedelho? - perguntou um dos senhores, tomandome à sua conta.

- É Davy - explicou Murdstone. -Davy quê? Jones?

- Copperfield.

- Qual! Será pois o pingente da linda viuvinha Copperfield?

- Se fazes favor, Quinion, modera a linguagem. É perspicaz.

- Quem? - perguntou Quinion.

- Nada, nada... O Brooks de Sheffield.

Fiquei aliviado, porque julgara que se tratava de mim.

A reputação do senhor Brooks de Sheffield devia ser bastante cómica, porque os dois senhores desataram a rir à simples menção deste nome. A hilaridade contagiou também Murdstone. Passado o incidente, o cavalheiro a quem chamavam Quinion disse:

- E qual é a opinião de Brooks de Sheffield acerca do projecto em causa?

- Não sei se esse Brooks percebe muito disso, por agora - replicou Murdstone. - Mas, de um modo geral, élhe desfavorável.

Houve novas risadas e o senhor Quinion participou que ia tocar a campainha para que trouxessem xerez, a fim de beberem à saúde do Brooks. E fêlo, realmente. Quando chegou o vinho, ele quis que eu tomasse um pouco e comesse uma bolacha. Levei o copo à boca, mas, antes de ingerir o conteúdo, Quinion pediu que me levantasse e dissesse: «Para vergonha de Brooks de Sheffield!», o que provocou grandes aplausos e francas gargalhadas, a que me associei - e isto aumentoulhes ainda mais a jovialidade. Em suma, divertíamonos a valer.

Em seguida passeámos no penhasco e sentámonos no chão. Havia um óculo, de que se serviram, e eu aproximeio da vista (fingindo distinguir qualquer coisa, mas na realidade não vi nada). Até que regressámos ao hotel a fim de jantar mais cedo. Enquanto andámos por fora, aqueles dois senhores nunca deixaram de fumar; como se poderia deduzir do cheiro das suas vestias grossas, deviam têlo feito desde que elas vieram a primeira vez do alfaiate. Não me esquecerei de dizer que fomos a bordo do iate, onde todos três desceram ao camarote e estiveram ocupados a examinar

papéis. Assim os vi quando espreitei de cima, através da vigia. Haviamme deixado entregue, durante esse tempo, a um homem simpaticíssimo, de cabeça grande e cabelo ruivo, com um chapelinho de oleado. A camisola de riscas transversais ostentava a meio, em letras grandes a palavra COTOVIA. Pensei que fosse o seu nome, e que, vivendo no barco, não tivesse porta da rua para o exibir, e por isso o escrevesse no peito. Mas, quando o tratei por senhor Cotovia, ele informoume que isso era a designação do iate.

Reparei, em todo esse dia, que Murdstone era mais sério e ponderado do que os outros, que se mostravam sempre descuidados e alegres. Gracejavam frequentemente entre si, mas quase nunca com o primeiro. Acheio também mais inteligente e mais insensível; creio que os seus amigos tinham a respeito dele a mesma impressão que eu. Por uma ou duas vezes percebi que o senhor Quinion observava Murdstone de soslaio, como para verificar se o que dizia lhe não desagradava. E uma ocasião em que o senhor Passnidge (o outro cavalheiro) estava muito animado, Quinion pisoulhe o pé e indicoulhe, com um olhar, Murdstone, que se sentara grave e silencioso. Nem me lembro de que Murdstone risse uma só vez naquele dia, excepto quando da brincadeira de Sheffield, de que aliás fora o autor.

Voltámos para casa à noite, mas não muito tarde. O tempo estava óptimo e a minha mãe e Murdstone tornaram a passear ao longo da sebe de roseiras, enquanto eu, recolhido no interior, tomava chá. Depois de ele partir, a mãe perguntoume tudo: como é que eu passara o dia, que tinham feito os senhores, que conversas houvera. Comuniqueilhe o que ouvira a respeito dela, e a mãe riu e explicou que eram uns patuscos que se divertiam com disparates. No entanto, vi que se lisonjeara com o caso. Aproveitei o ensejo para indagar o que sabia do senhor Brooks de Sheffield; respondeu que o não conhecia e que devia ser um fabricante de facas e garfos.

Poderei dizer do seu rosto - alterado, como tenho razões para recordar, fenecido como sei que é - que já se extinguiu de vez, quando ele agora mesmo surge à minha frente, tão distintamente como qualquer que eu visse em plena rua? Poderei dizer que a sua beleza de rapariga se finou para sempre, quando o seu hálito me humedece a face, como eu senti naquela noite? Poderei dizer que ela nunca mudou, quando a minha memória, e só esta, a ressuscita perante mim e, mais fiel do que eu fui (ou outro mortal qualquer), retém na perfeição a imagem querida?

Descrevoa exactamente como era quando veio darme boanoite à minha cama. Ajoelhou contente à beira do leito e, com o queixo apoiado nas mãos, e rindo, pediume:

- Que é que eles disseram, Davy? Repeteo. Não posso acreditar...

- Lindaviuvinha... - comecei.

A mãe deteveme, pondo um dedo na minha boca. -Não, não, nunca o fui! - exclamou, continuando a taparme a boca.

- Sim, sim, linda viuvinha...

- Que loucos, que descarados! - murmurou ela, cobrindo a cara e rindo sempre. - Que patetas! Não achas, Davy? Não contes nada à Peggotty. Seria capaz de se indignar com eles. Mais vale que não saiba.

É claro que prometi. Tornámonos a beijar e eu depressa adormeci.

A esta distância, afiguraseme ter sido no dia seguinte que a criada me fez a extraordinária proposta de que vou falar. Mas é provável que já tivessem decorrido uns dois meses.

Uma noite, estávamos sentados, como antes, eu e Peggotty, com a agulha, meias, e a caixa em cuja tampa havia a reprodução da catedral de São Paulo, e tudo mais, quando a criada, depois de me ter observado várias vezes e outras tantas aberto a boca (como se fosse dizer qualquer coisa, mas o mais possivelmente para bocejar), me disse em tom de adulação:

- Menino Davy, que achava se fôssemos ambos passar duas semanas a casa do meu irmão, em Yarmouth? Seria um bom divertimento.

- O teu irmão é pessoa simpática? - perguntei, à cautela.

- Ora se é! - replicou Peggotty, erguendo os braços. - E depois, há o mar, e navios, e barcaças, e pescadores, e a praia... E Ham, com quem o menino pode brincar.

Corei na antevisão dessas delícias e respondi que seria na verdade um bom divertimento. Mas a minha mãe estaria de acordo?

- Aposto um guinéu em como dá licença - declarou a criada, perscrutandome o rosto. - Pedirlheei, se quiser, logo que ela chegue a casa.

- E que fará a mamã aqui sozinha? - objectei, colocando os cotovelos em cima da mesa, preparado para discutir aquele ponto.

O buraquinho que Peggotty começou a procurar, de repente, no calcanhar da meia que empunhava devia ser na verdade muito pequeno e nem havia de valer a pena perder tempo com ele.

- Escuta, Peggotty, a mamã não pode ficar só...

- Meu Deus, então não sabe? - exclamou a criada, fitandome de novo. - A sua mamã vai estar uns quinze dias em casa da senhora Grayper. A senhora Grayper espera muitos hóspedes.

Ah, se assim era, eu estava decidido a partir. Aguardei na maior impaciência, o regresso da minha mãe, que fora visitar a senhora Grayper (a nossa vizinha), para me certificar de que seríamos autorizados a levar por diante o nosso grande projecto. Ora a mãe. em vez de mostrar a surpresa que eu calculava, anuiu até com

entusiasmo. Nessa mesma noite deliberámos tudo, inclusivamente a pensão que eu deveria pagar durante a estada em Yarmouth.

Depressa chegou o dia da partida. Estava tão próximo que de facto veio depressa, mesmo para mim, que o esperava febrilmente ou um tanto receoso de que fosse impedido por algum tremor de terra, ou erupção vulcânica, ou outra qualquer catástrofe da natureza. Devíamos viajar numa carroça de transporte, a qual saía depois do primeiro almoço. Teria dado tudo para que me permitissem dormir vestido, calçado e de chapéu na cabeça.

Ainda me sinto comovido - embora o refira neste tom despreocupado - ao recordar quanto estava ansioso de deixar o meu lar feliz e ao lembrarme de que nem por sombras admitira a ideia de que essa felicidade a deixava para sempre.

Tenho também na memória o pormenor da carroça estacionada à porta da rua e a minha mãe a beijarme - e a saudade que experimentei nesse momento por ela e pela velha residência de que nunca me havia separado. Chorei, a mãe chorou igualmente, e eu ouvi o seu coração bater de encontro ao meu.

Quando o carroceiro pôs o veículo em andamento, a minha mãe correu e gritoulhe que parasse para me beijar ainda uma vez. É com alegria que evoco a ternura ardente com que ela ergueu a cara para me dar mais um beijo.

Seguíamos já pela estrada além e aquele ente adorado continuava no meio da rua quando apareceu Murdstone e a censurou, suponho, por estar tão impressionada. Olhando para trás, sob o toldo, pensei que teria que fazer ali aquele senhor, e Peggotty, que também olhava, não parecia mais satisfeita do que eu: assim depreendi do seu semblante quando ela se virou para dentro.

Fiquei a olhar para a criada, reflectindo neste problema imaginário: se ela houvesse sido encarregada de me abandonar como o rapazinho do conto de fadas, seria eu capaz de reconhecer o caminho por meio dos botões que ela semeava?