David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 26. TORNOME CATIVO
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Não voltei a encontrar Uriah Heep até ao dia em que Agnes deixou Londres. Topeio no escritório da diligência, onde fora despedirme da minha amiga e vêla partir. O homem achavase lá, para o regresso a Cantuária, e devia tomar o mesmo veículo. Experimentei certo consolo ao descobrilo empoleirado no último degrau da imperial, com um guardasol que parecia uma barraca e um sobretudo violáceo, curto de ombros e de cintura, ao passo que Agnes ocupava, naturalmente, o interior da diligência. Esta recompensa bem a mereci pelos esforços que fiz para ser amável com ele sob os olhos de Agnes. Lá no alto do seu poleiro, como no jantar da outra noite, Uriah parecia pairar sobre nós, a todo o momento, como um abutre enorme, fartandose de cada sílaba que eu e ela trocávamos.

Na perturbação que as confidências de Uriah me haviam lançado, eu pensara por mais de uma vez no que me dissera Agnes acerca da associação do pai com Uriah Heep: «Fiz o que devia fazer; persuadida de que este sacrifício era necessário ao repouso do papá, pedilhe que acedesse.» Pressentia tristemente que ela cederia também ao mesmo sentimento e que acharia nele a força necessária para realizar qualquer outro sacrifício em favor do pai. Isto, desde então, oprimiame sem cessar. Sabia quanto Agnes o estimava, sabia de quanta dedicação era capaz, sabia (por a ter ouvido dizer) que se considerava causadora involuntária das fraquezas do doutor Wickfield. Sentiase devedora para com ele de um débito de que desejava ardentemente descartarse. Não experimentei nenhuma consolação ao vêla tão diferente desse detestável patife do sobretudo violáceo, pois achava que essa mesma diferença entre a abnegação de uma alma pura e a baixeza sórdida de Uriah constituía o perigo principal. Tudo isto ele o sabia muito bem e sem dúvida que a sua manha pesara maduramente as consequências. E todavia eu estava convencido de que a perspectiva, mesmo longínqua, de semelhante sacrifício destruiria qualquer possível felicidade para Agnes; a sua atitude provavame absolutamente que ainda a não visitara a sombra de uma apreensão desse género: sermeia mais fácil causarlhe mal do que prevenila do que a esperava. Foi assim que nos separámos, sem nenhuma explicação. Ela agitava a mão e sorriame à portinhola da diligência, e o seu génio mau contorciase na imperial como se já a tivesse, triunfante, nas suas garras. Custou muito a esquecer esta visão do adeus. Quando Agnes

escreveu anunciando a sua chegada sem incidentes,

fiquei tão triste como na ocasião em que a vi partir. De cada vez que me entregava a estes pensamentos, o caso nunca deixava de se apresentar, redobrando o malestar que eu sentia. Tornarase parte integrante da minha vida, um órgão vital inseparável dela.

Tive oportunidade de requintar esta minha inquietação, pois Steerforth estava em Oxónia, conforme me escreveu, e eu vivia muito só quando não me encontrava no estágio. Creio que já experimentava surda desconfiança quanto a Steerforth. Respondilhe com afecto, mas no fundo consideravame contente por sabêlo então longe de Londres. Na verdade, eu suspeitava a verdade: que a influência de Agnes se exercia em mim quando ele não estava presente, e isto em grande escala pelo facto de ela ocupar nessa altura lugar vasto nos meus pensamentos e cuidados.

Entretanto passavamse os dias e as semanas. Eu firmara o meu contrato com Spenlow e Jorkins. A tia deveria darme noventa libras anuais, sem falar do alojamento nem de outras coisas anexas. O meu apartamento estava alugado por um ano; e embora achasse as noites longas e tristes, podia abandonarme às delícias da melancolia e do café, de que (bem me recordo) consumia enormes quantidades por essa época. Foi também por essa altura que fiz três descobertas: primeira, que a senhora Crupp era vítima de um mal estranho, a que chamava «espasmos». Era geralmente acompanhado de uma inflamação nasal e precisava de ser tratado regularmente com mentol. Segunda: a temperatura da minha despensa fazia estalar as rolhas das garrafas de aguardente. Terceira: eu estava só no mundo e muito inclinado a proclamálo em numerosos exercícios de versificação inglesa.

A assinatura do meu contrato não teve celebração especial, além das sanduíches e do xerez que levei para o escritório, para oferecer aos escreventes, e da minha ida solitária ao teatro, à noite. Fui ver representar O Estrangeiro, peça que achei apropriada a um estagiário de Leis; saí tão perturbado que mal me reconheci no espelho, ao chegar a casa. Na ocasião da assinatura, o doutor Spenlow declarou que teria muito gosto em receberme na sua residência de Norwood, para comemorar o facto, se a sua vida familiar não estivesse tão desorganizada, pois a filha deveria chegar em breve de Paris, onde terminava a sua educação. Mas deume a entender que, uma vez normalizada a sua existência, ele não dispensaria a minha presença. É claro que respondi aceitar com grande prazer; sabia que o doutor Spenlow era viúvo e que só tinha aquela filha.

Não faltou à sua palavra. Uma ou duas semanas depois, lembroume aquela promessa e disseme que, se eu realmente quisesse darlhe a honra de o visitar no fim de semana, ele ficaria reconhecido; e, como eu anuísse de bom grado, combinouse que me levaria consigo e me traria na segundafeira na sua carruagem.

Quando chegou o dia assinalado, o meu próprio saco de viagem foi objecto de veneração dos escreventes, para quem a casa de Norwood constituía um mistério sagrado. Um deles contou que o doutor Spenlow (segundo lhe constara) comia em baixela de ouro, prata e porcelana; outro fezse eco de que à mesa tomavam champanhe como quem toma cerveja, do princípio ao fim das refeições. O velho da peruca, cujo nome era Tiffey, fora lá várias vezes fazer recados relativos à profissão e, de cada vez, entrara na casa de jantar. Descreveua como uma sala verdadeiramente sumptuosa. Tinhamlhe oferecido xerez da roda(1), tão precioso que fazia a gente piscar os olhos.

*1. Xerez que era mandado à índia e de lá voltava, «amadurecendo» na viagem à roda dos continentes.

Nesse dia julgavase uma causa no tribunal, respeitante a um padeiro que devia ser excomungado por ter feito objecções, em plena sacristia, contra certo imposto. E como o processo tinha a extensão de páginas do Robinson Crusoe, só muito tarde é que ficámos livres. Em todo o caso, aplicouse ao homem a excomunhão de seis semanas e pagamento das custas. Por fim o advogado do réu, o juiz e os outros intervenientes de ambas as partes (que eram todos aparentados) deixaram o edifício, e eu e o doutor Spenlow tomámos a carruagem deste último - um faetonte luxuoso, cujos cavalos arqueavam o pescoço e levantavam as patas como se pertencessem também ao nosso digno tribunal. Os membros deste rivalizam, aliás, em equipagens de ostentação; no entanto, creio que a sua maior rivalidade, nesse tempo, era o emprego da goma nos colarinhos: faziam tal uso dela que só o podia limitar a tolerância da natureza humana nesse aspecto. Pelo caminho conversámos agradavelmente, e o doutor Spenlow deume algumas indicações acerca da minha profissão. Disseme que eu escolhera a mais perfeita do mundo e que não se devia confundir de modo nenhum com a do advogado: era realmente outra coisa, muito mais exclusiva, menos maquinal e mais rendosa. As coisas, nos Doctor's Commons, decorriam com mais facilidade do que noutro lado, o que nos constituía uma classe à parte. Seria impossível negar o facto (aliás pouco simpático) de serem os advogados quem nos fornecia as causas, mas quanto a este ponto soube tranquilizarme por completo.

Perguntei ao doutor Spenlow o que é que ele considerava o género de processo mais interessante para nós. Respondeume que o de um testamento contestado, de bens de trinta a quarenta mil libras, era decerto o que havia de melhor, porque trazia excelentes proveitos durante todas as fases do processo, em razão das muitas tricas que se podiam fazer e das inúmeras deposições, interrogatórios e mais chicanas, como pelos recursos a interpor e apelos para as instâncias superiores. As duas partes, convictas dos seus direitos, não olhavam a despesas. Depois iniciou o elogio

do nosso tribunal especial. A sua maior vantagem residia nas convenções entre partes. Não havia outro mais bem organizado em todo o mundo. Era o ideal do sistema prático. Por exemplo, supondo que se intentava uma acção de separação ou de indemnização em primeira instância. Aquilo decorria como um jogo de cartas em família. Mas, admitindo que a sentença nos não agradava, passavase então ao tribunal arquiepiscopal. De que se compunha este? Ora, dos mesmos elementos, mas com um juiz diverso, podendo o do julgamento anterior vir agora agir como advogado, em qualquer dia da audiência. Assim recomeçava o jogo familiar. Não se estava ainda contente? Muito bem. Que se fazia? Recorriase para os desembargadores eclesiásticos. E quem eram estes? Eram os que assistiram como espectadores aos debates precedentes, que viam baralhar e dar as cartas, que discutiam com os jogadores e que, ao presente, muito frescos, podiam regularizar as coisas com geral satisfação. Os descontentes estavam no seu direito de falar da corrupção dos Doctor's Commons, do seu anacronismo, da necessidade da sua reforma, concluiu gravemente o doutor Spenlow; mas fora quando o preço do trigo por alqueire estivera mais elevado que esse tribunal tivera mais que fazer. E, pondo a mão na consciência, podiase proclamar ao mundo inteiro: «Tocai no Commons e vereis o que será do país!»

Escutei tudo isto com a máxima atenção. E embora não estivesse tão persuadido como o doutor Spenlow de que o país dependia desse tribunal, aprovei respeitosamente a sua conclusão. Disse apenas, com modéstia, que essa história do preço do trigo ultrapassava a minha competência, e este final sanou em definitivo a questão. Ainda hoje não consigo perceber isso do preço do trigo: toda a vida o tenho visto reaparecer, para minha confusão, e a propósito de não sei quê. O certo é que sempre que o caso ressuscita, eu considero a batalha perdida.

Isto, porém, foi uma digressão. Eu não era pessoa para derrubar os Commons nem para causar a ruína do país. Exprimi docilmente, com o silêncio, o meu assentimento a tudo quanto acabara de ouvir da boca desse homem, meu superior pela idade e pelo saber, e falámos então de teatro, do Estrangeiro, dos dois cavalos que tiravam a carruagem, até à altura em que chegámos ao portão da residência do doutor Spenlow.

Rodeavaa um jardim magnífico e, embora a estação fosse mal escolhida para o ver, achavase tão bem tratado que me encantou. Havia um relvado delicioso, grupos de árvores, alamedas que se entreviam na obscuridade e que eram cobertas de arquinhos e de pérgulas em que no Verão desabrochavam flores.

«É aqui», pensei, «que o doutor Spenlow passeia sozinho.»

Entrámos na casa, que estava brilhantemente iluminada. No vestíbulo vi uma quantidade de chapéus, bonés, sobretudos, mantas, luvas, chicotes e bengalas.

- Onde está a menina Dora? - perguntou o doutor Spenlow

a um criado.

«Dora!», disse de mim para mim. «Que lindo nome!»

A sala contígua devia ser a de jantar, a tal que o xerez tornara

célebre. Ouvi uma voz que dizia:

- Senhor Copperfield, apresentoo à minha filha e à sua dama

de companhia.

Era decerto a voz do doutor Spenlow, mas não a reconheci e não me importei com o facto. Aquilo fora num relance. O meu destino estava marcado. Tornarame cativo, era escravo. Amava Dora Spenlow até à loucura.

Pareceume sobrehumana, uma fada, uma sílfide, a incarnação de tudo o que nunca se viu e que se deseja ver. Fiquei preso num abismo de amor. Fora impossível olhar para outro lado qualquer: desapareci de cabeça para baixo antes sequer de ter a ideia de dirigir uma só palavra à rapariga.

- Quanto a mim - observou uma voz já escutada outrora, quando me inclinei murmurando qualquer coisa -, já conheço o senhor Copperfield.

Não era Dora quem falava. Não, era a dama de companhia: a senhora Murdstone em carne e osso!

Não julgo que me tivesse admirado muito. Tanto quanto posso saber, não estava capaz de me admirar. O universo material não continha nada que valesse a pena uma pessoa admirarse, além de Dora Spenlow.

- Ah, como passa, senhora Murdstone? - repliquei. - Bem,

espero...

- Muito bem.

- E como vai o seu irmão?

- Está ainda robusto, obrigada.

O doutor Spenlow, surpreendido, suponho, por nos termos reconhecido, declarou então:

- Rejubilo, Copperfield, por ver que já se conhecem.

- Convivi com o senhor Copperfield - explicou a senhora Murdstone com austera tranquilidade - ainda na sua infância. Mais tarde, as vicissitudes separaramnos. Não o teria reconhecido.

Respondi que, fosse onde fosse, não me passaria despercebida. O que era a pura verdade!

- A senhora Murdstone fez o favor - disse o doutor Spenlow - de aceitar as funções, se assim as posso qualificar, de confidente da minha filha Dora. Dora, que infelizmente já não tem mãe, encontrou na senhora Murdstone a sua companheira e protectora.

Atravessoume o espírito a ideia de que a senhora Murdstone, como certas armas classificadas de defensivas, servia mais para atacar do que para proteger. Mas como eu só tinha pensamentos erradios para tudo o que não fosse Dora, volteime depressa para esta. Estava a pensar, vendo no seu semblante adorável um ar de aborrecimento,

que decerto essa rapariga poucas confidências se disporia a fazer à sua dama de companhia, quando soou uma sineta. O dono da casa explicoume que era o primeiro sinal para o jantar, e conduziume ao quarto para que me vestisse.

Imaginar, no estado em que me encontrava, que devia mudar de fato ou fazer fosse o que fosse pareceume coisa deslocada. No entanto senteime diante do fogão, empunhando a chave da mala e pensando nos olhos daquela Dora tão delicada e enfeitiçadora. Que figura, que rosto, que graciosidade, que encanto! A sineta tocou pela segunda vez: arranjeime à pressa (pondo de lado a operação cuidadosa a que tencionava proceder), e desci a escada. Havia outros convidados. Dora falava com um senhor de idade, e, por mais velho que se me afigurasse, não deixei de experimentar ciúmes furiosos.

Que belo estado em que me achava, francamente! Tinha ciúmes de todos. Não podia suportar a ideia de que uma pessoa qualquer conhecesse o doutor Spenlow melhor do que eu. Representava para mim uma tortura ouvilos falar de assuntos a que eu não estava ligado. Quando um senhor muito cortês, de crânio calvo e polido como um espelho, me perguntou se fora a primeira vez que eu tivera oportunidade de ver o parque, sei lá que horrível vingança me passou pelo espírito!

Não me recordo de nenhum dos comensais, salvo Dora. Nem do que houve ao jantar, excepto Dora. Creio ter jantado exclusivamente da sua pessoa e ter recusado, sem lhes tocar, meia dúzia de pratos. Encontravame instalado perto de Dora. Conversei com ela. A rapariga tinha a vozita mais delicada, o risinho mais alegre, as maneiras mais agradáveis e sedutoras que jamais reduziram um pobre mancebo a uma escravidão sem esperança. Era fina em tudo, e, pensei, o mais preciosa que podia ser.

Quando saiu da sala na companhia da senhora Murdstone (não havia outras damas), fiquei mergulhado num devaneio, perturbado apenas pela apreensão cruel de ser denegrido junto dela pela Murdstone. O cavalheiro amável, de crânio polido, contoume uma história sem fim, que tratava, suponho, de jardinagem. Pareceme que o ouvi dizer, por várias vezes, «o meu jardineiro». Eu fingia prestarlhe a mais profunda atenção, mas na realidade vagueava nos jardins do Éden ao lado de Dora Spenlow.

A ideia de ser caluniado junto do objecto do meu único amor reavivouse quando entrámos na sala de visitas em consequência do aspecto carrancudo da dama de companhia. Mas sentime aliviado de uma maneira inesperada, porque ela me chamou para o vão de uma janela e me disse:

- Não tenciono reviver histórias de família, é um assunto pouco tentador.

- A quem o diz! - retorqui.

- Tem razão - continuou a senhora Murdstone. - Não desejo ressuscitar velhas querelas nem ofensas antigas. Fui insultada por uma pessoa (uma mulher, custame dizêlo, porque tenho muita honra no nosso sexo), da qual não se pode falar sem desprezo nem aversão. Por consequência, prefiro não a nomear.

Esta alusão à minha tia enfureceume. Mas limiteime a responder que seria realmente preferível que a senhora Murdstone a não nomeasse, pois eu não admitiria que, na minha presença, se lhe faltasse ao respeito, caso fosse a pessoa que eu pensava.

A minha interlocutora fechou os olhos, inclinou a cabeça, e depois, reabrindoos com lentidão, prosseguiu:

- David Copperfield, não tentarei explicar que não concebi opinião desfavorável a seu respeito, no tempo da sua meninice. Seria injustificada? Talvez você já não a merecesse. Mas isso agora não importa. Pertenço a uma família que se notabilizou, creio, pela sua firmeza. Posso ter a opinião que quiser acerca dos outros. E você pode ter a opinião que lhe apetecer quanto a mim.

Foi a minha vez de inclinar a cabeça.

- Mas não é necessário - continuou a senhora Murdstone - que estas opiniões entrem aqui em conflito. Dadas as circunstâncias que sabemos, é muito melhor que assim seja. Como os azares da vida nos puseram de novo frente a frente, proponho que nos apresentemos como simples conhecidos. É o que exigem as nossas histórias familiares. Que utilidade haverá em qualquer de nós fazer reflexões acerca do outro? Concorda?

- Eu penso que a senhora e o seu irmão procederam muito mal comigo, e que a senhora tratou minha mãe com crueldade. Não mudarei de parecer quanto a isto, mas aceito sem reservas o que me sugere.

A senhora Murdstone tornou a fechar os olhos e a curvar a cabeça. Em seguida, tocando com os dedos frios e duros as costas da minha mão, afastouse compondo as cadeiazinhas metálicas que lhe fechavam o pescoço e os pulsos - os mesmos ornamentos, suponho, da última vez que eu a vira. Esses ornamentos, atendendo ao carácter da senhora Murdstone, evocaramme as correntes que envolvem as portas das prisões e que, logo de entrada, nos previnem de que lá dentro não há nenhuma esperança.

Tudo o que sei do resto do serão é que ouvi cantar a minha deusa, em francês, acompanhandose a um belo instrumento que devia ser viola: eram baladas perturbantes, cujo sentido geral seria este: aconteça o que acontecer, devemos sempre dançar, trá lá lá, trá lá lá. Sentiame tomado de um delírio benéfico. Recusei todas as bebidas, e particularmente o ponche. Quando a senhora Murdstone levou Dora sob a sua custódia, esta estendeume, com um sorriso, a mão pequenina. Vime num espelho: tinha o ar perfeitamente imbecil, idiota.

Fui deitarme num estado de embriaguez sentimental e levanteime numa crise de paixão louca.

Estava um tempo óptimo, era cedo e eu resolvi ir passear sob aqueles caramanchéis e aí nutrir o amor com o pensamento de Dora. Ao atravessar o vestíbulo, descobri um cãozito a que chamavam Jip (diminutivo de Gipsy). Aproximeime com ternura (a minha paixão estendiase até ele), mas o animal mostroume os dentes, refugiouse debaixo de uma cadeira e não consentiu em familiaridades.

No jardim não estava ninguém e havia fresco. Andei cá e lá imaginando a minha ventura se me casasse um dia com aquela beldade. Nessas questões de dinheiro e matrimónio eu devia ser tão inocentemente cândido como no tempo em que amava a pequena Emily. Ter o direito de lhe chamar Dora, de lhe escrever e de a adorar, ter motivos para crer que pensaria em mim, no meio de tantas outras pessoas, eis o que se me afigurava o cúmulo da felicidade humana ou em todo o caso o fastígio da minha. Eu seria, sem qualquer dúvida, um tolo sentimental; mas a pureza da minha paixão era tal que, embora hoje me ria ao pensar nela, não vejo razão para me desdenhar.

Não havia ainda muito tempo que começara a passear quando, ao voltar de uma alameda, me surgiu Dora. Estremeço da cabeça aos pés ao recordarme desse instante, e a pena vibrame na mão.

- Está... levantada... desde muito cedo...? - observei à rapariga.

- É tão estúpido permanecer em casa, e a senhora Murdstone é tão antipática! - retorquiu a filha do doutor Spenlow. - Conta tantas parvoíces. Acha que só se deve sair depois de o dia... arejado!- Ao dizer isto, Dora soltou uma risada cristalina. - Ao domingo de manhã tenho de fazer qualquer coisa, por isso disse ontem ao papá que hoje precisava de sair, já que não estudava. Demais a mais, agora é o momento mais agradável do dia, não lhe parece?

Ousei responder (sempre balbuciando) que a manhã estava, com efeito, radiante, embora um pouco antes estivesse nublada.

- É um cumprimento? - perguntou Dora. - Ou, na verdade, o tempo mudou assim tão depressa?

Expliquei, gaguejando um pouco, que dissera a pura verdade, sem intenção de ser amável, se bem que não houvesse notado qualquer alteração atmosférica. A mudança operarase apenas nos meus sentimentos.

Eu nunca vira caracóis de cabelo - e como poderia ver semelhantes? - como os que ela agitou para esconder o rubor das faces. Quanto ao chapéu de palha e às fitas azuis que coroavam aqueles caracóis, se ao menos os pudesse pendurar no meu quarto da Buckingham Street, que tesouro inestimável seriam para mim!

- Vem de Paris? - inquiri.

- Venho. Já esteve lá?

- Nunca estive.

- Oh, espero que aí vá mais dia menos dia. Haveria de gostar

deveras!

No rosto estampouseme profunda angústia. Ela esperava que eu fosse a Paris! Julgavao possível! Essa ideia foime insuportável. Comecei a denegrir Paris, a denegrir a França e a declarar que nada deste mundo me poderia arrancar de Inglaterra. Não, nada me faria resolver a tal coisa. A rapariga agitava outra vez os caracóis quando o cãozito chegou a correr.

Ficou ciumentíssimo por me ver e principiou a ladrar. Dora tomouo nos braços (ó céus!) e acariciouo; mas o animal continuou ladrando. Não consentia que eu lhe tocasse, quando tentava estender para ele a mão. Nessa altura a dona ralhoulhe e castigouo, e o meu sofrimento aumentou com o espectáculo dessas pancadinhas que ela lhe dava, à maneira de punição, no focinhito achatado, enquanto Jip piscava os olhos e lhe lambia os dedos, rosnando ainda em surdina. Por fim sossegou, e não poderia fazer menos, porque Dora poisara a covinha do queixo na cabeça do bicho. Fomos depois visitar uma estufa.

- Não é muito íntimo da senhora Murdstone? - perguntou a menina Spenlow. - Querido! - esta última expressão dirigiase ao cachorro, não a mim, infelizmente.

- Não sou - repliquei. - Mesmo nada.

- É uma pessoa aborrecida.- continuou Dora, fazendo trombas.- Não sei o que imaginou o papá quando escolheu uma mulher tão impertinente para tomar conta de mim. Preciso eu de ser protegida? A verdade é que não. O Jip melhor me protegerá do que a senhora Murdstone, não é verdade, queridinho?

O interpelado limitouse a semicerrar preguiçosamente os

olhos.

- O papá chamalhe minha confidente, mas posso afirmar que não é nada disso. Hem, Jip? Quem vai confiarse a criaturas tão azedas? Eu e o Jip tencionamos confiar apenas em amigos que nós mesmos escolheremos. Não é assim, Jip?

O cãozito respondeu com um rumor de satisfação, algo como o chiar de uma cafeteira. Mas, para mim, cada palavra de Dora rebitavame mais os grilhões.

- É triste, quando não se tem mãe, serse obrigado a suportar uma solteirona triste e mal humorada, como a senhora Murdstone, sempre a vigiar a gente. Não é verdade, Jip? Deixála! Não se lhe farão confidências. Pelo contrário, háde arreliarse ainda mais aquela maçadora. Hem, Jip?

Se isto houvesse durado mais tempo, julgo que não deixaria de cair de joelhos no saibro, aos pés dela, com grande possibilidade de me esfolar e, ainda por cima, de ser posto na rua. Felizmente que a estufa não estava longe. E já chegávamos lá.

Continha uma colecção de belíssimos gerânios, que apreciámos sem nos deter, excepto quando Dora queria admirar de mais perto uma flor e eu a imitava nesse particular. A rapariga erguia puerilmente o cão para o fazer cheirar as plantas, e ria com gosto. Se estivéssemos no país das fadas, a coisa não seria diversa. Ainda hoje o odor de uma folha de gerânio me faz sorrir, divertido; então revejo um chapéu de palha e fitas azuis, caracóis de cabelo e um cãozinho levantado em dois braços frágeis salientandose num fundo vegetal.

A senhora Murdstone veio à nossa procura; descobriunos e ofereceu a Dora as faces enrugadas, para que ela as beijasse. E, metendo o braço da pupila no seu, arrastoua para a casa de jantar como se nos levasse para um enterro.

Não saberei dizer quantas xícaras de chá eu tomei só por haver sido feito por Dora. Lembrome perfeitamente que fiquei a sorvêlo, a tal ponto que o meu sistema nervoso (se o tivesse nessa época) seria afectado com certeza. Pouco depois fomos à igreja. A senhora Murdstone sentouse no banco, entre mim e Dora: esta cantou e tudo desapareceu da minha vista. Houve um sermão (acerca de Dora, naturalmente), e é tudo quanto me recordo do ofício divino.

Passámos um dia muito calmo. Não vieram visitas. Um passeio, um jantar em família (quatro pessoas) e um serão ocupado com livros, cujas gravuras folheei na companhia de Dora, sob a vigilância da senhora Murdstone. O dono da casa, sentado defronte de mim, estava longe de pensar com que ternura de genro eu o abraçava em imaginação. Estaria também longe de pensar, quando me despedi para me ir deitar, que acabava de dar o seu consentimento aos meus esponsais com Dora e que eu invocara para ele todas as bênçãos do Céu.

Partimos de manhã cedo, porque tínhamos um caso de direito marítimo que exigia conhecimentos especiais de navegação; como não se podia esperar que fôssemos muito versados no assunto, o juiz convocara para a audiência dois velhos mestres de barca para o ajudarem a solucionar a querela. Apesar da hora matinal, Dora compareceu à mesa do primeiro almoço para tornar a fazer o chá. Já dentro do faetonte, tirei o chapéu, saudandoa, quando ela surgiu na escadaria, com o Jip nos braços, para nos dizer adeus.

Não dei grande importância ao processo, que se me afigurou cada vez mais absurdo conforme se ia desenrolando. Via o nome de DORA no remo de prata, espécie de maça que se coloca em cima da mesa do tribunal quando se discutem casos ligados ao Almirantado e é o emblema daquela alta jurisdição. O doutor Spenlow voltou para casa (desta vez sem mim) e eu imagineime como um marinheiro que vê partir o navio a que pertence depois de o deixar abandonado numa ilha deserta. Não farei todavia

vãos esforços para descrever tudo isto. Se esse velho tribunal, sempre sonolento, pudesse despertar e denunciar os sonhos que à sua sombra sonhei a propósito de Dora, então nesse momento é que se conheceria a verdade!

Não quero falar dos sonhos que engendrei não só nesse dia como nos seguintes, de semana a semana e de trimestre a trimestre. Ia às audiências, não para ouvir o que ali se passava mas para evocar a minha Dora. Se jamais prestava atenção aos processos que se discutiam na minha presença era apenas para me assombrar (nos casos de divórcio) de que pessoas casadas pudessem deixar de ser felizes, ou, quando se tratava de heranças, para perguntar a mim mesmo (se o dinheiro me fosse legado) como é que o empregaria em favor de Dora. Durante a primeira semana da minha paixão, comprei intencionalmente quatro coletes sumptuosos e usei luvas de camurça amarelas, com que passeei pelas ruas, e comprei calçado com que preparei o advento de futuros calos. Se as botas que estreei nessa ocasião fossem comparadas com o tamanho dos meus pés, terseia aí a explicação do estado a que chegara.

E contudo, por mais doloridos que tivesse os pés sacrificados ao altar do amor, eu percorria diariamente vários quilómetros na esperança de encontrar Dora. Não só comecei a ser conhecido na estrada de Norwood pelos carteiros que aí faziam serviço, como estendi a minha deambulação à própria Londres. Errava pelas ruas em que se situavam as melhores lojas de modas, frequentava o Bazar como uma alma penada, percorria o Parque de diante para trás e de trás para diante e ficava estafadíssimo. Às vezes avistava Dora, em raras ocasiões; ora agitava a luva à portinhola de uma carruagem, ora conseguia acompanhála uns metros, junto da senhora Murdstone. Nesta última circunstância, sentiame infelicíssimo depois de a deixar: pensava que não lhe dissera nada que pudesse melhorarme aos seus olhos, ou então desconfiava que a rapariga ignorava tudo, até a minha predilecção por ela, ou que lhe era completamente indiferente. Esperava todos os dias novo convite do doutor Spenlow, e a decepção repetiase, porque esse convite não chegava.

A senhora Crupp devia ser mulher extremamente perspicaz. O meu afecto datava ainda de poucas semanas e eu nem tivera coragem de escrever a Agnes, acerca do assunto, senão que «a família do doutor Spenlow compõese apenas de uma filha», e já a minha hospedeira adivinhara tudo. Uma noite em que me sentia abatido, ela veio procurarme para me perguntar (estava nessa altura sujeita aos acessos de que falei) se lhe podia ceder um pouco de «tintura de cardamomo e ruibarbo perfumada de sete gotas de essência de cravinho», que era o remédio de que necessitava; como não estivesse munido de tal coisa, achei que um cálice de conhaque serviria para o efeito, e oferecilho.

A senhora Crupp começou a tomar o conhaque na minha presença, não fosse eu supor que o queria para outro uso...

- Animese!-disse ela. - Custame vêlo assim acabrunhado. Eu também sou mãe.

Não percebi a razão por que me dizia aquilo, mas sorri, tanto quanto me foi possível fazêlo em semelhante ocasião.

- Desculpe - continuou - mas eu sei qual é o seu mal. Aí anda mulher!

- Oh, senhora Crupp! - exclamei, ruborizado.

- Não se preocupe - volveu, com um sorriso de incitamento. - Não se deixe esmorecer. Se ela o não quiser, outras não lhe faltarão. O senhor foi feito para agradar às damas; tem de aprender a saber quanto vale.

- Porque pensa que há mulher no caso? - retorqui.

- Eu também sou mãe - repetiu ela, em tom de pessoa convicta.

Por momentos, a senhora Crupp pôs a mão no corpete e sorveu mais um pouco do remédio que eu lhe oferecera, a fim de resistir a qualquer novo acesso da doença. Em seguida prosseguiu:

- Quando a sua digna tia reservou este quarto, eu disselhe que teria daí por diante alguém a quem estimar. O senhor não come o suficiente, e não bebe nada.

- É nisso que fundamenta a sua suspeita, senhora Crupp?

- Senhor Copperfield - replicou com uma voz que chegava a ser severa- eu lavei muita roupa a outros rapazes antes do senhor. Um moço precisa de andar bem cuidado, mas há ocasiões em que se desleixa. Deve pentearse, mas às vezes aparece desgrenhado. Há ocasiões em que usa o calçado muito grande para o seu pé, e noutras muito pequeno. Tudo depende do carácter do moço em questão; mas, sempre que se verifica um ou outro destes extremos, é que existe rapariga no caso. - A senhora Crupp abanou a cabeça com ar tão decidido que eu me senti abalado na minha resistência. - Não é necessário ir mais longe, basta o exemplo do rapaz que ocupou estes aposentos antes do senhor. Apaixonouse por uma empregada de botequim. Não tardou a verse obrigado a mandar encurtar os fatos, apesar de inchado como andava por causa da bebida.

- Senhora Crupp, peçolhe que não compare a menina que me interessa com uma criada de botequim!

- Também sou mãe - insistiu a senhora Crupp - mas não costumo intrometerme nos negócios alheios. Por nada deste mundo quererei imporme! Mas o senhor é novo, e o conselho que lhe dou é de retomar coragem, de tornar a ser quem é, de não se deixar abater. Trate de se prender a qualquer coisa, ao jogo do chinquilho, por exemplo, que é saudável. Háde ver que o faz mudar de ideia e o torna feliz.

Com estas palavras, a senhora Crupp (afectando não querer abusar do meu conhaque) agradeceume com uma vénia majestosa, e retirouse. No momento em que o seu vulto se apagou na sombra do vestido, tive a impressão de que os conselhos dados representavam excessiva liberdade da sua parte; mas, ao mesmo tempo, agradoume têlos recebido: homem prevenido vale por dois e eu, de futuro, procuraria guardar melhor o meu segredo.