David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 29. FAÇO NOVA VISITA A CASA DE STEERFORTH
< Назад  |  Дальше >
Шрифт: 

Pedi ao doutor Spenlow que me desse licença para me ausentar por pouco tempo, e como, não recebendo vencimento, era bem visto do doutor Jorkins, a autorização foi depressa concedida. Aproveitei o ensejo para exprimir ao advogado a esperança de que sua filha se encontrasse de boa saúde, coisa que eu fiz com voz sufocada e certa perturbação no olhar. O doutor Spenlow replicou, tão calmamente como se falasse de um ente qualquer, que Dora estava bem e que me ficava muito agradecido.

Nós os estagiários éramos tratados com tanta consideração que eu quase dispunha de mim a qualquer hora. Como, porém, não desejava chegar a Highgate antes da uma ou duas daquele dia, e como tínhamos outro caso, aliás simples, de excomunhão naquela manhã (requerida por Topkins contra Bullock, para emenda da sua alma), aconteceu que passei uns momentos agradáveis a trabalhar com o doutor Spenlow. Tratavase de uma questão entre dois sacristãos, um dos quais empurrara o outro contra uma bomba; ora como o braço da dita bomba embatera na parede duma escola, construída sob a empena da igreja, o delito caía debaixo da jurisdição eclesiástica. Era um caso divertido. Enquanto ia para Highgate, ao lado do cocheiro da diligência, eu continuava a pensar naquele tribunal e na opinião do doutor Spenlow quanto ao perigo que havia em extinguilo.

A senhora Steerforth ficou muito contente por me ver, assim como Rosa Dartle. A ausência de Littimer constituiu para mim uma surpresa agradável: o serviço era feito por uma criadinha tímida, de touca ornamentada de fitas azuis e olhar simpático, muito menos desconcertante do que aquele criado respeitabilíssimo. Mas o que me impressionou de forma particular, antes mesmo de haver decorrido uma hora na casa, foi a atenção com que a senhora Dartle me espiava e a maneira como parecia comparar, disfarçadamente, o meu semblante com o de James Steerforth. Dirseia não perder nada do que se passava entre nós. De cada vez que a olhava, estava certo de ver esse rosto ardente e esses olhos escuros voltados para mim, ou fugindo rápidos para James, ou ainda envolvendonos ao mesmo tempo. Muito longe de atenuar essa fixidez de lince, quando percebia que eu a observava, ela manifestava ainda maior curiosidade. Embora me considerasse inocente de todos os malefícios que a solteirona pudesse suspeitar, aqueles olhos estranhos perturbavamme e eu sentiame absolutamente incapaz de suster o seu esplendor feroz.

Todo o dia dominou na casa inteira. Se eu falava com Steerforth no quarto dele, escutavalhe o rumor das saias na galeria anexa. Quando iniciávamos uma das nossas deambulações predilectas, no relvado atrás da casa, eu via a cara de Rosa ora numa janela ora noutra, vigiandonos, como uma luz que se acendesse e apagasse. E, ao irmos todos quatro passear à tarde, agarroume no braço, para que eu recuasse, enquanto Steerforth e a mãe se afastavam para fora do alcance da nossa voz; e disseme:

- Esteve muito tempo sem aparecer. É porque a sua profissão o absorve tanto? Pergunto isto por gostar sempre de saber o que ignoro. Que me responde?

Expliquei que a profissão me não desagradava, mas que em todo o caso não estava assim tão absorvido por ela.

- Ah, quanto estimo saber! É tão bom serse elucidado!-exclamou Rosa Dartle. - Acha então que é uma carreira um tanto árdua?

- Talvez seja...

- E por essa razão prefere mudar, distrairse com outras coisas? Muito bem. Mas, quanto a ele, não será um pouco porque...

Um relance para o lado de Steerforth, que seguia levando a mãe pelo braço, indicoume a quem ela se referia. Escapavame, porém, o significado da conversa. E foi decerto o espanto o que Rosa leu no meu rosto.

- Não acha... não digo que seja assim, pergunto simplesmente... que isso o absorve muito? que o torna ainda mais negligente nas visitas àquela que o adora? Hem?

E lançou outro olhar rápido na mesma direcção, depois fez igual coisa a mim, e eu sentime como que traspassado.

- Senhora Dartle - respondi - peçolhe que... não vá imaginar...

- Não imagino nada. Oh, meu Deus, não suponha que imagino seja o que for. Não apresento uma opinião. A minha opinião fundamentarseá no que me responder. Ah, então é que me enganei. Tanto melhor!

- O que não é verdade - declarei - é que eu seja responsável pela ausência prolongada de James. Até ignorava isso que acaba de me dizer. Não o tornara a ver, e só anteontem é que...

- Palavra?

- Palavra de honra.

Rosa olhavame bem de frente. Via empalidecer, e a cicatriz que lhe desfigurava o lábio superior começou a alongarse, atravessandolhe o outro lábio e vindo cortar de lado o queixo. Experimentei genuína impressão de pavor. O olhar tornouselhe mais intenso quando inquiriu, sem desviar a vista:

- Mas então que faz ele?

Repeti a frase, mais para mim do que para ela, pois estava perplexo.

- sim, que faz ele? - insistiu Rosa, com uma angústia que

parecia consumila como fogo. - Que ajuda encontra nesse homem que nunca me olha sem uma expressão de impenetrável falsidade? Se você é sincero e leal ao seu amigo, não lhe peço que o atraiçoe. Mas digame apenas isto: é a cólera, ou o ódio, ou o orgulho, ou a inquietação, ou algum capricho estranho, ou o amor... mas que é que o domina?

- Minha senhora - redargui -, como posso demonstrarlhe que não acho nenhuma diferença no meu amigo? Não lhe noto mudança desde a última vez que estive cá. Creio absolutamente em que não há nada. Nem chego a perceber as suas insinuações...

Ela continuava a fitarme e eu então vi uma espécie de contracção ou frémito (que não pude evitar de atribuir a doença) passar naquela extensa cicatriz e erguer o lábio superior num jeito de escárnio ou de piedade desdenhosa. Levou logo, precipitadamente, a mão à boca, essa mão tão frágil e delicada que, a primeira vez que a vi defronte do lume do fogão, se me afigurou feita de porcelana. Depois respondeume com brusquidão apaixonada: «Está bem, mas jureme guardar segredo de tudo isto!» E não acrescentou nem mais uma palavra.

A senhora Steerforth parecia em especial muito feliz com a presença do filho, e este testemunhavalhe mais atenção e respeito que em geral. Agradoume vêlos juntos, por causa daquela afeição mútua e também pela grande semelhança que existia entre ambos: a altivez e impetuosidade de James, temperadas nela pela idade e o sexo, tornavamse numa dignidade cheia de encanto. Contemplandoos, por mais de uma vez pensei quanto era bom que nunca surgisse entre eles nenhuma razão grave de dissentimento, pois essas duas naturezas (ou melhor, esses dois aspectos da mesma natureza) seriam mais difíceis de reconciliar do que se fossem absolutamente opostas. Devo confessar, aliás, que esta ideia não se originou na minha própria clarividência, foime sugerida por uma observação de Rosa Dartle, que disse à mesa:

- Gostava tanto de saber! Todo o dia tenho pensado nisso...

- Saber o quê, Rosa? - perguntou a senhora Steerforth. - Peçote que não sejas tão dada a mistérios...

- Mistérios? Achame realmente com propensão para eles?

- Passo o tempo, Rosa, a pedirte que sejas natural e que fales de uma maneira simples.

- Julga que esta maneira não é natural em mim? Ora, responda com paciência, pois eu gostava naturalmente de saber. Nunca nos conhecemos bem.

- Em ti isso tornouse uma segunda natureza - replicou a senhora Steerforth, sem a menor irritação. - Mas eu lembrome (como tu também, suponho) do tempo em que as tuas maneiras, Rosa, eram menos circunspectas e mais confiantes.

- Creio que tem razão - volveu a senhora Dartle. - É assim que se criam maus hábitos! Com que então menos circunspectas e mais confiantes? Como poderei ter mudado assim, sem dar por isso? É muito estranho. Farei o possível para voltar a ser o que era.

- Darmeias grande satisfação - declarou, sorrindo, a dona da casa.

- Pois é a minha intenção. Vou tomar lições de franqueza com... ah, com o James!

- Não podes aprender franqueza - ripostou novamente a senhora Steerforth, porque havia sempre um tom de sarcasmo em Rosa Dartle, embora, como neste caso, pudesse ser inconsciente - com melhor professor do que James.

- Também o julgo - afirmou a dama de companhia com fervor. - Se tenho a certeza de alguma coisa, é dessa efectivamente.

Achei que a senhora Steerforth se arrependera de se ter melindrado um pouco, pois retorquiu muito amável:

- Então, querida Rosa, ainda não disseste o que desejavas saber.

- O que desejava saber? - repetiu a outra, com uma tranquilidade exasperante. - Ah, era apenas isto: se as pessoas que têm o mesmo temperamento... será este o termo adequado?

- É tão bom como outro - atalhou Steerforth.

- Obrigada. Repito: se as pessoas que têm o mesmo temperamento estão em maior perigo do que as outras, no caso de surgir entre elas dissentimento grave, que as encolerize e separe?

- Pareceme que sim - observou Steerforth.

- Parecelhe? Meu Deus, admitamos (por absurdo) que surgia uma coisa dessas entre você e a sua mãe.

- Querida Rosa - acudiu a senhora Steerforth, rindo com bonomia - procura outro exemplo. Eu e James sabemos na perfeição, creio eu, o que devemos um ao outro.

- Isso é verdade! - comentou Rosa Dartle, meneando a cabeça com ar pensativo. - Isso é verdade. Mas bastará para impedir tudo? Sim, naturalmente... Pois bem, alegrome por ter sido bastante tola para levantar esta questão. Agrada tanto saber que a afeição recíproca impedirá tudo! Fico reconhecidíssima.

Devo notar também outro episódio relativo à senhora Dartle. Tive oportunidade de o recordar mais tarde, quando o passado irremediável já nada apresentava de misterioso. Todo o dia, sobretudo após esse momento, Steerforth pôs em jogo toda a sua habilidade (e com um àvontade perfeito) para conquistar aquela criatura estranha e transformála numa companheira sorridente e simpática. Não me admirei que ele o conseguisse. Também não me admirei de que ela começasse por resistir à influência fascinadora da sua arte subtil (ou antes, como cria então da sua natureza subtil) pois eu sabiaa por vezes azeda e perversa. Vi que mudava de expressão e de modos,

vi que o olhava com admiração crescente, via tentar, cada vez mais debilmente, mas sempre com azedume, como se condenasse a própria fraqueza, via tentar, repito, oporse ao poder de sedução de que James era dotado; e, finalmente, via dulcificar os olhares e o sorriso, e assim desapareceu o receio que me inspirara durante todo o dia. Instalámonos em volta do fogão, conversando e rindo com tão pouca cerimónia como se fôssemos crianças.

Seria por estarmos na casa de jantar há tanto tempo, ou porque Steerforth não quis perder a vantagem que alcançara, a verdade é que não ficámos ali mais de cinco minutos depois que Rosa Dartle se ergueu e saiu.

- Toca harpa - confidencioume Steerforth à porta da sala - mas penso que só minha mãe a tem ouvido, de há três anos a esta parte.

Pronunciou estas palavras com um sorriso estranho, que imediatamente se dissipou. E nós entrámos na sala, onde ela se achava só.

- Não se levante - pediu Steerforth, mas Rosa já estava de pé. - Seja amável, minha boa Rosa, e cantenos uma balada irlandesa.

- Como se você se importasse com baladas irlandesas! - exclamou ela.

- Muito mais - volveu Steerforth - do que com outra coisa qualquer. Olhe, o Bonina adora a música. Cantelhe pois uma ária irlandesa, Rosa! E deixeme escutála como antigamente.

Não lhe tocou, não se aproximou da cadeira que a senhora Dartle acabava de deixar. Mas sentouse perto da harpa. Rosa ficou de pé um Instante, ao lado do seu instrumento, estranhamente irresoluta, com a mão direita nas cordas mas sem as fazer vibrar. Por fim sentouse, puxou a harpa com um movimento brusco e principiou a cantar, acompanhandose a si mesma.

Não sei o que havia no seu tocar ou no seu cantar, mas pareceume a coisa mais fantástica que ainda ouvi ou sequer imaginei. Assustava pela sua força evocadora, e era também assustador na sua realidade. Dirseia nunca haver sido escrito ou posto em música, mas surgir espontaneamente de uma paixão interior que achava expressão imperfeita nos sons graves da voz e depois recolher, quando a cantora se calava. Não pude dizer nada no momento em que Rosa Dartle terminou e, apoiada à harpa, manteve a mão direita sobre as cordas, sem as fazer ressoar.

Só um minuto - depois saí da minha estupefacção. Steerforth levantarase, aproximouse dela e, rindo, passoulhe o braço de roda da cintura.

- Então, Rosa - disse ele - vamos ser, de futuro, bons amigos?

Ela, porém, repeliuo com a fúria de um gato bravo e precipitouse para fora da sala.

- Que aconteceu a Rosa? - perguntou a senhora Steerforth, que entrava nessa ocasião.

- Minha mãe, a Rosa foi um anjo durante uns momentos e, para se desforrar, passou de súbito para o extremo oposto.

- Devias ter cuidado em não a irritar, James. Temse tornado azeda e convém não a contrariar.

A senhora Dartle não voltou, e ninguém mais se lhe referiu até ao instante em que fui dar boa noite ao meu amigo, no seu quarto. Ele então riuse da dama de companhia da mãe e quis saber se eu já vira criatura mais brusca e incompreensível.

Comuniqueilhe o meu espanto e mostrei curiosidade pela causa de um mau humor tão exagerado e repentino.

- Sabese lá! - disse Steerforth. - Tudo o que quiseres... ou mesmo nada. Faz passar tudo sob a mó, incluindose a si própria. É um instrumento afiado, com que se háde lidar cautelosamente. Um perigo constante! Boa noite.

- Boa noite - repliquei. - Amanhã, quando acordares, já eu terei partido.

James não queria separarse de mim e, como fizera no meu quarto, colocoume as duas mãos nos ombros, para me reter.

- Bonina - murmurou, sorrindo. - Bem sei que não foi este o nome que os teus padrinhos te deram... mas é aquele que eu prefiro concederte... Quem me dera que me pudesses também tratar assim!

- Nada o impede, se eu quiser.

- Bonina, se jamais alguma coisa nos apartar, lembrate só do meu lado bom. Façamos uma combinação. Promete recordareste apenas do meu lado bom, se as circunstâncias nos separarem!

- Para mim, Steerforth, não tens lados bons nem maus. Apreciote em conjunto, como um bloco.

Experimentei tamanhos remorsos por haver duvidado dele, mesmo em pensamentos informes, que a confissão me subiu aos lábios. Mas, não querendo atraiçoar a confiança de Agnes, o que fatalmente sucederia se abrisse a boca para me ocupar do assunto, caleime por então: James não me deixou, todavia, falar antes que eu dominasse a minha indecisão, porque disse: «Deus te abençoe, Bonina.» E acrescentou: «Boa noite.» Por isso nos separámos, depois de havermos apertado a mão.

Levanteime de madrugada e, após me ter vestido em silêncio, penetrei no quarto do meu amigo, que dormia com a cabeça recostada num braço, como o vira fazer tantas vezes no colégio.

Não me restava muito tempo. Nada lhe perturbou o repouso, enquanto eu o contemplava. Deixeio dormir, e saí sem fazer barulho. Nunca mais eu haveria de tocar aquela mão inerte num gesto de amizade fraternal. Nunca, nunca mais!