David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 33. FELICIDADE
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Todo este tempo continuei a amar Dora, e com intensidade crescente. Pensar nela constituía o meu refúgio no meio das desilusões e tristezas, o que de certa maneira me compensou da perda do amigo. Quanto mais me lastimava, a mim ou aos outros, mais achava consolo na recordação de Dora. Quanto maior fosse a porção de mentiras e sofrimentos deste mundo, maior brilho tomava no zénite a estrela pura que se chamava Dora. Não me parece que tivesse uma ideia muito certa da natureza de Dora nem do seu parentesco com os entes siderais; mas estou convencido de que repudiaria indignado a hipótese de ela ser apenas uma criatura humana, como qualquer outra rapariga do nosso

mundo.

Estava, se assim me posso exprimir, todo impregnado de Dora. Do oceano do meu amor podia tirar a água necessária para afogar quem quisesse: ainda ficaria bastante para o resto da minha vida. Desde o meu regresso que eu ia passear à noite por Norwood. Andava de roda da casa, sem lhe tocar, pensando sempre em Dora, como numa adivinha da minha infância que significava Lua. Fosse como fosse, escravo lunático de Dora, deambulava durante duas horas derredor da residência e do jardim, espreitando através das abertas da vedação, erguendome nas pontas dos pés, com esforços sobrehumanos, até aos ferros do topo, cobertos de ferrugem: dali atirava beijos às janelas iluminadas e fazia invocações românticas ao pálido planeta, rogandolhe que protegesse a minha Dora... não sei ao certo de quê, calculo que dos incêndios - a não ser que fosse dos ratos, de que ela tinha muito medo. A minha paixão preocupavame a valer, e era natural que me confiasse à Peggotty. Quando a encontrava à tarde, com todos os seus utensílios, ocupada a tratar da sua roupa, não me coibia de a pôr ao facto, com muitos circunlóquios, do meu segredo. Ela ficou deveras interessada, mas não viu as coisas sob o mesmo aspecto que eu. Punha tanto ardor em elevarme às nuvens que não compreendia as minhas apreensões. A tal menina, dizia, devia considerarse venturosa em possuir semelhante pretendente. E quanto ao pai, que podia esperar ele de melhor?

Notei todavia que a toga de advogado do doutor Spenlow e a sua volta engomada sossegaram a minha velha Peggotty e lhe inspiraram maior respeito ao homem que, aos meus olhos, tomava de dia para dia uma forma mais etérea, parecendo resplender quando se sentava, hirto, no tribunal, entre os processos,

tal um farol num oceano de papelada. Entre parêntese direi que me parecia muito estranho pensar que, nesse tribunal em que eu também tomava parte, todos os velhos juízes e velhos causídicos se não preocupassem com Dora se a conhecessem ou se alguém lhes propusesse casar com ela, ou que se não desviassem uma só polegada do seu caminho se a ouvissem cantar e tocar viola. Desprezavaos a todos, sem excepção. Velhos jardineiros enregelados dos canteiros do amor! Como a magistratura se me afigurava insensível! O foro era tão destituído de poesia como o balcão de um botequim.

Tomando à minha conta, não sem orgulho, os negócios de Clara Peggotty Barkis, homologuei o testamento do marido, regularizei a questão sucessória, acompanheia em todos os trâmites e em breve lhe concluí o assunto. Para variarmos destes trabalhos judiciais, fomos ver, na Fleet Street, as figuras de cera (hoje derretidas, quero crer, após estes vintes anos); visitámos a exposição da senhora Linwood(1), que me ficou na memória como um mausoléu das artes femininas, propício à introspecção e ao arrependimento; observámos a Torre de Londres; e ascendemos ao zimbório de São Paulo. Todas estas maravilhas provocaram alegria na minha criada, tanta quanta lhe era possível experimentar nesse momento; todas menos a catedral de São Paulo, que lhe pareceu inferior à imagem da tampa da sua caixa de costura, objecto de tão grande afeição.

*1. Cópias de quadros célebres feitas a bordado manual.

Uma vez concluído o assunto do testamento, leveia uma manhã ao cartório para ela liquidar a conta. O doutor Spenlow não estava, disseme o velho Tiffey, pois fora ao vicariato receber o juramento de certo cavalheiro que pretendia licença de matrimónio. Mas como eu sabia que ele se não demorava, aconselhei Clara Peggotty a esperar.

Quando se tratava de homologação testamentária, nós - como os agentes de serviços funerários - tomávamos uma expressão mais ou menos compungida perante os clientes de luto. A mesma delicadeza nos obrigava a estar alegres quando aqueles vinham para se casar. Por isso preveni a minha criada de que não se admirasse de ver o doutor Spenlow já refeito da comoção que lhe causara a morte de Barkis. E, de facto, o advogado entrou o mais sorridente e satisfeito que era possível.

Mas nem a Peggotty nem eu lhe demos muita atenção, porque os nossos olhos se dirigiram para o homem que o acompanhava, nem mais nem menos do que o senhor Murdstone. Este mudara pouco. Os cabelos continuavam bastos e tão pretos como nunca. O olhar não inspirava mais confiança do que outrora.

- Ah, Copperfield - exclamou o doutor Spenlow. - Creio que conhece este senhor...

Fiz ao dito cavalheiro uma saudação distante, e a Peggotty fingiu não o ver. Murdstone, de princípio, pareceu desconcertado, mas não tardou em tomar uma decisão e aproximouse de mim.

- Espero que esteja bem de saúde - disse ele.

- O que o não deve interessar - ripostei. - Mas, se quer realmente saber, eu estou bem.

Murdstone virouse para a velha criada.

- Quanto à senhora, acabo de ter o desgosto de ser informado da morte do seu marido...

- Não é o primeiro luto da minha vida, senhor Murdstone - volveu Peggotty, tremendo da cabeça aos pés. - Ao menos, desta vez, ninguém se pode acusar de ser responsável.

- Ah, é uma consolação... Cumpriu o seu dever, não é isso?

- Graças a Deus, não levei ninguém à sepultura, prematuramente, à força de tormentos e terrores.

Murdstone fitoua um instante com olhar sombrio, onde se podia ler remorso. Em seguida, voltandose para mim, mas sem me encarar, acrescentou:

- É pouco provável que nos tornemos a ver, o que será agradável para ambos. Não creio que simpatize comigo, porque sempre se revoltou contra a justa autoridade que eu exercia para seu bem e sua emenda... Esse ódio envenenoulhe o coração e ensombrou a vida da sua mãe. Espero que se tenha aperfeiçoado.

Este diálogo decorria em voz baixa, a um canto do cartório, e foi interrompido pela necessidade que Murdstone teve de passar ao gabinete do doutor Spenlow, onde pagou a sua licença. O advogado entregoulha, dobrada, apertoulhe a mão e desejou felicidades assim como à noiva juvenil. Com isto Murdstone saiu.

Sermeia difícil guardar silêncio perante semelhantes palavras se devesse explicar à Peggotty (furiosa só por minha causa, coitada!) que o local era mal escolhido para uma discussão. Mas tudo terminou com um abraço entre nós dois, provocado pela evocação dos antigos sofrimentos comuns; aliás ela compreendeu a conveniência de fazer boa figura diante do advogado e dos escreventes.

O doutor Spenlow parecia desconhecer o grau de parentesco que existia entre mim e o senhor Murdstone, o que me facilitou as coisas. O que ele pensou foi que a tia Betsey era, na nossa família, chefe do partido governamental e que havia oposição de princípios. Pelo menos assim o inferi das palavras que me dirigiu, enquanto esperávamos que fizesse o recibo da Peggotty.

- A senhora Trotwood - observou Spenlow - possui muita firmeza, sem dúvida, e é incapaz de ceder à oposição. Admiro deveras esse carácter e felicitoo, Copperfield, por estar do lado justo. Os dissentimentos entre familiares são de lastimar, embora vulgaríssimos, e o principal é estar do melhor lado.

Queria dizer, naturalmente, do lado do dinheiro.

- É um bom casamento - acrescentou ele. - Pelo menos assim me parece.

Repliqueilhe que não estava ao facto.

- Ah, sim? A avaliar pelo que me disse o senhor Murdstone fiquei com a impressão de que se tratava de um enlace vantajoso.

- Referese a meios pecuniários? - perguntei.

- Isso mesmo. Acho que a noiva é rica, e, ainda por cima, bonita e nova. Acaba de atingir a maioridade.

- Deus a guarde! - comentou Clara Peggotty.

E pôs tanto fervor nesta prece inesperada que ficámos todos três desconcertados até ao momento em que Tiffey apareceu com o recibo.

O doutor Spenlow examinouo, com o ar de quem lastima ter forçado os outros a gastarem o dinheiro. Parecia insinuar que fora tudo obra do seu colega e sócio doutor Jorkins. O seu aspecto melancólico correspondeu, pois, a um serviço gratuito da sua parte. Agradecilhe em nome da interessada e paguei em notas.

A Peggotty voltou para casa e eu acompanhei Spenlow ao tribunal, onde se julgava uma acção de divórcio, tornada possível por um engenhoso artigo da lei (hoje revogado, suponho), em virtude do qual vi desfazer vários casamentos. Eis o caso ocorrido nesse dia: o marido, cujo nome era Thomas Benjamin, requererá a licença matrimonial com o nome apenas de Thomas, suprimindo o Benjamin para a hipótese de não ser tão feliz quanto esperava. Tendo sido, na verdade, pouco feliz, ou havendose cansado da mulher, vinha agora, após dois anos de casado, declarar por intermédio de um amigo que se chamava Thomas Benjamin e que, por consequência, continuava solteiro. O tribunal confirmou isto, com grande satisfação do autor. Devo dizer que tive graves dúvidas quanto à justiça desta sentença. Mas o doutor Spenlow argumentou comigo deste modo:

- Observe o mundo: há nele bom e mau. Veja o Direito Canónico: também tem bom e mau. Tudo faz parte do sistema. Ora aí está...

Não me atrevi a sugerir ao pai de Dora que se podia melhorar um pouco o mundo, intentando fazêlo desde já e com coragem, mas declarei considerar possível melhorar os Doctor's Commons. Spenlow respondeu que me aconselhava a renunciar a qualquer ideia desse género, por indigna da minha educação. Todavia não se lhe dava saber qual o melhoramento que eu antevia.

Tomando como exemplo a parte do tribunal que estava à minha vista (pois divorciado que fora o homem e encerrada a audiência, nós dirigíamonos lentamente para a secção que se ocupava de matéria sucessória), opinei que achava ser aquilo uma instituição estranhamente organizada.

- Em quê? - redarguiu Spenlow.

Expliquei que, com o devido respeito pela sua experiência (mas a qualidade de pai de Dora infundiame respeito maior), considerava absurdo estar o arquivo dos testamentos originais de todos os indivíduos da imensa comarca de Cantuária acumulados uns sobre os outros, desde três séculos, num edifício qualquer impróprio para esse destino, à mercê do fogo, sem a mínima ordem ou segurança. Demais a mais os escrivães encarregados do cartório extorquiam somas graúdas ao público, autênticas sinecuras que nem os obrigavam a acautelar os documentos mais importantes, ao passo que os escreventes que trabalhavam na grande sala fria e escura do andar superior tinham salários mínimos, apesar dos serviços que prestavam. E continuei neste teor, acentuando a injustiça que reinava a este respeito nos tribunais.

Spenlow sorriu vendome assim entusiasmado pelo assunto, e discutiuo comigo como discutira outros.

- Que é isso, no fim de contas, senão uma questão sentimental? Que mal há em estarem os documentos mal guardados se as pessoas supõem o contrário? O sistema pode não ser perfeito (nada é perfeito neste mundo), mas eu recusome a darlhe o golpe.. Sob este regime processual o país conheceu a glória. A gente deve aceitar as coisas como são. Por mini acho que isto vai durar muito tempo ainda.

Sujeiteime à sua opinião, guardando para mim as minhas dúvidas.

Contudo ele tinha razão, porque o sistema durou e até sobreviveu a uma intervenção parlamentar de há dezanove anos: intervenção que alegou todas as objecções, pormenorizadamente, e declarou que no edifício em causa não haveria lugar para mais testamentos dentro de pouco tempo. Que fizeram deles, depois disso? Perderamnos? Venderamnos, queimaramnos? Ignoro. Mas regozijame saber que o meu lá não figura, pelo menos por enquanto.

Narrei todas estas minúcias no capítulo que intitulo de Felicidade porque é aí o seu lugar adequado. Eu e o doutor Spenlow, embalados nesta discussão, prolongámos a conversa e, a pouco e pouco, passámos a outros assuntos de ordem geral. E foi assim que ele me noticiou o próximo aniversário de Dora (oito dias mais tarde) e me disse contar comigo para um piquenique oferecido por essa ocasião. Fiquei radiante, e mais ainda quando, no dia seguinte, recebi um bilhete da rapariga a lembrarme o convite do pai. Passei o tempo que faltava num verdadeiro estado de imbecilidade!

Julgo que pratiquei todos os absurdos possíveis preparandome para tão venturoso acontecimento. Coro de vergonha ao recordar a gravata que comprei. As botas seriam dignas de um museu de instrumentos de tortura. Adquiri e mandei pela diligência de Norwood, na véspera à tarde, um lindo cabaz de doces que equivalia (em meu parecer) a uma declaração. Às dez horas, com um ramalhete na mão, montei um cavalo (que alugara para a circunstância) e trotei em direcção a Norwood.

Descobri Dora no jardim, mas fingi não a ter visto e passei sempre, como se a procurasse. Ao apearme, no relvado, as botas cruéis provocaramme dores horríveis. Ela estava sentada num banco, sob os lilases, e esvoaçavam borboletas à sua volta. Que regalo para a vista o contemplála assim, com o seu chapéu branco de palha e o seu vestido de um azul celestialíssimo!

Acompanhavaa uma dama que a seu lado parecia velha mas que teria os seus vinte anos. Chamavase Julia Mills. Era amiga íntima de Dora.

Jip também lá se encontrava e tornou a ladrar à minha aproximação. Quando ofereci as flores, o ciúme do cão fezlhe ranger os dentes. E tinha razão. Se ele soubesse quanto eu adorava a sua dona!

- Oh, senhor Copperfield, muito obrigada. Que flores deliciosas! - exclamou Dora.

Tinha planeado dizer (e reflectira, durante três milhas, na melhor forma de o fazer) que as havia julgado belas enquanto as não vira ao lado de Dora Spenlow. Mas não o consegui. Ela estava demasiado perturbante. Fiquei embasbacado a olhar para a cena: a rapariga pusera as flores junto da face e isso bastou para que eu perdesse a eloquência. Admirome de não ter declarado à senhora Mills: «Se tem coragem, mateme aqui, diante da minha amada!»

Em seguida Dora deu as flores a cheirar ao cão: Jip rosnou, recusandose a farejálas. A dona riu e chegouas mais ao animal, para o obrigar a sentirlhes o perfume. Jip mordiscou uma flor, Dora bateulhe, fingiuse amuada e disse: «Oh, o meu lindo ramalhete!» com tanto dó como se o cachorro me houvese atacado.

- Háde gostar de saber - participou ela - que a antipática da senhora Murdstone não está cá. Foi ao casamento do irmão e não volta antes de três semanas. Não foi sorte?

Disselhe que era uma grande sorte para ela e que, por isso, seria igualmente para mim. A senhora Mills escutavanos, sorrindo com ar superior de prudência e complacência.

- É na verdade a pessoa mais desagradável que tenho visto na minha vida - disse Dora. - Não imaginas, Julia, a que ponto ela é arreliadora!

- Faço ideia - respondeu Julia Mills.

- Desculpa não ter aberto excepção para ti logo de começo. Sim, tu podes fazer ideia.

Concluí que a senhora Mills também tivera os seus dissabores no decurso de uma existência movimentada, e que isso talvez explicasse o ar prudente e condescendente de que falei. Mais tarde descobri que não me enganara: a senhora Mills fora

protagonista de um amor contrariado e vivia longe da sociedade, com a terrível experiência adquirida, sem deixar de receber com tranquilo interesse as confissões amorosas da mocidade.

Nesse momento o doutor Spenlow saía da residência e Dora foi ao seu encontro, dizendo: «Veja, papá, que lindas flores!» A senhora Mills sorriu pensativamente, como se significasse: «Gozai, seres efémeros, a vossa brevidade na manhã luminosa da vida!» Então deixámos todos o relvado em direcção à carruagem que se aproximava.

Não tornarei a fazer jornada semelhante! Os três seguiam no faetonte aberto, com os cabazes (incluindo o meu) e a viola. Dora, instalada de costas para o cocheiro, ia defronte de mim, pois eu cavalgava atrás da carruagem. A minha amada depositara o ramalhete que eu lhe dera a seu lado, no assento, e não permitia que Jip se deitasse aí, para o não esmagar. Muitas vezes pegava nessas flores e aspiravalhes o aroma. Então os nossos olhos encontravamse: admirome de não ter saltado pela cabeça do meu buliçoso corcel e caído dentro da carruagem.

Havia poeira, se bem me recordo. Mesmo muita. Tenho a vaga impressão de que o doutor Spenlow tentara impedirme de os seguir de tão perto, mas eu não via senão um halo de amor e beleza nimbando Dora e só ela. O pai levantouse várias vezes para me perguntar o que pensava eu da paisagem. Respondi que era arrebatadora, e estou persuadido de que sim; mas, para mim, só existia Dora. O sol doiravaa e os pássaros teciamlhe louvores; a brisa embalsamavaa com o perfume das flores silvestres. A minha consolação era que a senhora Mills me compreendia; só a senhora Mills entendia os meus sentimentos.

Não sei de quanto tempo precisámos para chegar, e ainda hoje ignoro onde chegámos. Talvez próximo de Guildford; ou então algum mágico das Mil e Uma Noites nos deparou esse sítio para término do passeio e o fechou para sempre depois da nossa retirada. Era, num outeiro, um recanto verde coberto de erva macia, com árvores frondosas, urzes, e uma paisagem deliciosa até onde a vista abrangia. Desagradoume encontrar ali pessoas que nos esperavam, e os meus ciúmes foram grandes, até em relação às senhoras. Quanto aos homens, esses tornaramse meus inimigos figadais, sobretudo um rapaz mais velho três ou quatro anos do que eu, de suíças ruivas, que o faziam de uma presunção intolerável.

Abrimos todos os cabazes e tratámos de preparar a refeição. O das suíças ruivas teve o desplante de se propor para fazer uma salada (do que duvidei) e impôs a sua atenção a toda a gente. Várias raparigas se ofereceram para lavar as alfaces, e outras, as cortaram segundo as indicações dele. Dora fazia parte deste último grupo. Senti que o destino me colocava em frente desse homem e que um de nós devia sobreviver. O caso é

que fez a salada (em que eu não toquei) e em seguida arvorouse em guardião das garrafas e, não sendo de todo estúpido, enfiouas na concavidade de uma árvore. Não tardou que o visse jantar aos pés de Dora, com uma lagosta, quase inteira, no prato.

Guardo apenas uma ideia vaga do que se passou durante os instantes que se seguiram a essa descoberta fatal. Sei que me mostrei alegre, mas uma alegria pouco convincente. Apegueime a uma menina vestida de corderosa, de olhos pequeninos, com a qual conversei de forma desesperada. Ela acolheu favoravelmente as minhas atenções, mas não sei dizer se foi por minha causa ou se por ter certas intenções acerca do ruivo.

Bebeuse à saúde de Dora. Filo afectando interromper o meu diálogo com a pequena, para o recomeçar logo a seguir. Encontrei o olhar de Dora no momento em que inclinava a cabeça na sua direcção, e acheio suplicante. Contudo, esse olhar chegoume por cima das suíças ruivas, e torneime inflexível.

A menina de corderosa estava acompanhada da mãe (esta de verde), que a separou de mim creio que por motivos de alta política. Fosse como fosse, toda a gente se ergueu para acomodar os restos do piquenique e eu fui errar sozinho entre as árvores, cheio de raiva e de remorsos.

Achavame indeciso se pretextaria uma indisposição qualquer para me ir embora (não sei para onde) a cavalo no meu corcel fogoso quando Dora e a senhora Julia Mills se acercaram de mim. Disse esta última:

- Senhor Copperfield, está muito taciturno...

Que não, ripostei. Pedi desculpa e insisti em que não estava taciturno...

- E tu, Dora - acrescentou Julia - também me pareces melancólica.

- De modo nenhum! - replicou Dora.

- Senhor Copperfield, e tu, Dora, não deixem que um vulgar malentendido venha fazer murchar as flores primaveris, as quais uma vez abertas e fanadas não recuperam o viço. Falo por experiência - prosseguiu Julia Mills - experiência de um passado já distante e irrevogável. Um simples capricho pode secar as fontes borbotantes que o sol faz resplandecer. Não destruam mãos indiferentes o oásis do meio do Sara.

Eu mal dava conta de mim, ruborizado dos pés à cabeça. Mas peguei na mãozinha de Dora e beijeia. E ela consentiu! Beijei também a mão da senhora Mills e pareceume que subíamos direitinhos ao sétimo céu, todos três.

Daí não descemos. Lá nos conservámos toda a tarde. Começámos por vaguear sob as árvores, com o braço tímido de Dora sob o meu, e, sabe Deus, embora tudo isto fosse loucura, era um destino feliz entrar bruscamente na imortalidade,

com sentimentos tão delirantes, e passear ociosamente, para sempre, debaixo

do arvoredo.

Mais tarde ouvimos os nossos amigos rir, tagarelar e inquirir: «Onde está Dora?» Fomos ao seu encontro e eles pediram à rapariga que cantasse. O suíças ruivas quis ir buscar a viola à carruagem, mas Dora declarou que só eu sabia o lugar onde o instrumento ficara. E foi assim que, num abrir e fechar de olhos, o ruivo foi arredado. Encaminheime para o faetonte, abri a caixa, tirei a viola, vim sentarme ao lado da minha amada, cujas luvas e lenço segurei, e bebi cada nota da sua voz preciosa. Ela cantou para mim, que a amava; os outros podiam aplaudir quanto quisessem, mas aquilo não era com eles.

Sentiame embriagado de ventura. Pareciame tudo bom de mais para ser verdadeiro. Não iria acordar, de um instante para outro, na Buckingham Street e ouvir a senhora Crupp tilintar as xícaras na preparação do meu almoço? Mas Dora tornou a cantar. Cantaram outras pessoas. Cantou a senhora Mills acerca dos ecos adormecidos das cavernas da memória, como se tivesse cem anos de idade. Em seguida veio a noite e tomámos chá, com a chaleira posta num lume ateado entre pedras, à moda dos ciganos. A felicidade continuava! E fui mais feliz do que nunca ao terminar o piquenique e ao iniciarse a debandada dos outros, incluindo o suíças ruivas. Nós voltámos pelo mesmo caminho, através da paz nocturna, com os últimos revérberos e o aroma doce que se evolava das flores.

O doutor Spenlow, mais ou menos aturdido pelo champanhe (honra ao sol em que cresceram as uvas, às uvas que fizeram o vinho, ao sol que o amadureceu e ao negociante que o fabricou!), o doutor Spenlow depressa mergulhou no sono, a um canto da carruagem, e eu, cavalgando à estribeira, troquei palavras com Dora. A rapariga admirou o cavalo e afagouo (oh, que pequenina pareceu a mão sobre o pescoço do animal!). Às vezes o xaile escorregavalhe e eu estendia o braço para lho tornar a pôr aos ombros. O próprio Jip começava a compreender e a não se opor às nossas relações. E que bondosa se mostrou Julia Mills, essa reclusa amável apesar do seu cansaço, essa matriarca mau grado a pouquidão da idade, que renunciava ao mundo e que não queria despertar os ecos das cavernas da memória!

- Senhor Copperfield - disse ela - venha a este lado por um momento. Gostava de falar consigo.

E eisme, sobre o corcel veloz, inclinado para a senhora Mills, com a mão apoiada à portinhola.

- Dora háde ir passar uns dias comigo. Chegará depois de amanhã à minha casa. Se você quiser aparecer, estou certa de que o meu pai ficará contente por o conhecer.

Que havia de fazer senão implorar silenciosamente a bênção do céu sobre a cabeça daquela criatura e decorar o seu endereço

no recanto mais seguro da minha memória? Que havia de fazer senão agradecer à senhora Mills em termos ardentes e olhares de gratidão e manifestar o apreço pela sua cumplicidade e o valor que atribuía a tão bela camaradagem?

Então a senhora Mills afastoume benignamente, dizendo: «Volte para Dora», e eu obedeci. Dora debruçouse à portinhola e nós conversámos o resto do trajecto; e tão próximo ia o meu corcel nervoso que esfolou uma pata dianteira na roda, coisa para três libras e sete xelins de prejuízo, segundo o alquilador, e que eu paguei de indemnização, achando muito barato para a satisfação íntima que sentia. Entretanto Julia Mills contemplava o luar, lembrandose, suponho, dos tempos em que ela e a vida terrena tinham ainda algo de comum.

Norwood estava perto e em pouco tempo alcançámos o final da digressão. Antes, porém, o doutor Spenlow havia acordado e dissera: «Copperfield, você vai entrar um bocadinho e descansar.» Assim se fez. Houve sanduíches e sangria. Na sala iluminada, o rubor de Dora oferecia um espectáculo encantador, que me prendia a vista. Admireia como num sonho até ao momento em que o ressonar do dono da casa me preveniu de que eram horas de me despedir. Separámonos, pois, e, até Londres, não deixei de sentir na mão o contacto da da minha amada, experimentado na ocasião do adeus. Evocava cada incidente, cada palavra, e isto inúmeras vezes. Por fim deiteime verdadeiramente apaixonado.

Quando despertei, no dia seguinte, estava disposto a declararme a Dora e a conhecer a minha sorte. Tratavase da minha felicidade ou da minha desdita. Para mim não havia outro problema no mundo e só Dora poderia resolvêlo. Passei três dias num abismo de desânimo, torturandome a procurar toda a espécie de interpretações pessimistas quanto ao que se passara entre mim e a rapariga. Finalmente, equipado para a circunstância (não sem alguma despesa), fui a casa da senhora Mills, com uma declaração na ponta da língua.

Não importa, agora, saber quantas vezes subi e desci a rua e quantas vezes dei volta ao jardim, antes de poder resolverme a subir os degraus e bater à porta. Mesmo quando o fiz e enquanto esperava, tive a tentação idiota de perguntar a quem aparecesse se era ali que morava o senhor Blackboy (à imitação do pobre Barkis), de me desculpar e de me ir embora. Mas resisti.

O senhor Mills saíra. Já o tinha previsto. Quem é que precisava dele? E a filha? Essa estava. Muito bem, que me anunciassem à senhora Mills. Introduziramme numa sala do primeiro andar, onde se encontrava a dona da casa com a amiga. Jip também se achava presente. A primeira copiava música (era uma canção nova, intitulada Nénia do Amor) e Dora pintava flores. Que senti, meu Deus, ao reconhecer as minhas próprias flores, as mesmas que eu comprara na praça do Convent Garden!

Não me atrevo a afirmar que estivessem muito parecidas, mas reconheci o modelo no papel que as envolvia e que ela reproduzira com exactidão.

A senhora Mills gostou muito de me ver e lamentou que o pai tivesse saído, mas nós três suportámos essa ausência com muito animo. Durante uns minutos, ela fez as despesas da conversa; depois, descansando a pena sobre a Nénia do Amor, levantouse e saiu da sala.

Comecei a pensar que talvez fosse melhor transferir a declaração para o dia seguinte.

- Oxalá que o seu cavalo, coitado, não se esfalfasse muito no outro dia - disseme Dora alçando para mim os olhos belos. - Foi uma grande caminhada.

Voltei com a ideia atrás: a declaração seria daí a pouco.

- Para ele foi uma caminhada longa, porque não tinha nada que o sustivesse durante o trajecto - repliquei.

- Não lhe deram comer, em todo o dia? - perguntou Dora. Recomecei a pensar que a declaração ficava para o dia seguinte.

- Oh, não, pelo contrário. Cuidaram muito dele. O que quero dizer é que não experimentava a mesma felicidade que eu... que estava tão perto de si, Dora!

A rapariga curvou a cabeça sobre o desenho e, passados momentos, durante os quais ardi de febre e me conservei imóvel, observou:

- Em certa altura do dia, não pareceu muito consciente dessa felicidade...

Percebi logo que não convinha recuar, mas que tinha de precipitar as coisas.

- Não parecia nada interessado por essa felicidade - insistiu ela, erguendo de leve as pálpebras e sacudindo a cabeça- -, quando se encontrava sentado junto da menina Kitt.

Kitt, devo explicar, era o nome da garota de corderosa e olhitos pequenos.

- Nem sei por que havia de se interessar nem por que chama a isso felicidade. Naturalmente, não fala a sério. Mas está no seu direito de fazer o que entender. Jip, meu mausão, anda aqui já.

Ignoro como o facto se produziu, o que sei é que foi rápido. Afastei Jip. Agarrei Dora, cingindoa nos braços. Transbordei de eloquência. As palavras acudiramme facilmente. Declarei quanto a amava, que morreria sem ela, que era o meu ídolo: durante todo este tempo o cão ladrava como um possesso.

Quando Dora, trémula, chorou, a minha eloquência atingiu o auge. Se queria que eu morresse por ela, bastava dizêlo. A vida sem o amor de Dora não era admissível: não podia suportála, nem a suportaria. Amaraa em cada minuto de cada dia e de cada noite, desde que a conhecera. Amavaa agora até à loucura; amálaia até à loucura, sempre e a todo o momento.

Havia gente que tinha amado antes de mim e haveria quem amasse depois de mim: nunca, porém, ninguém amaria como eu amava Dora. Quanto mais eu delirava, mais o Jip latia; cada um de nós, à sua maneira, de minuto para minuto, se tornava mais frenético. Fosse como fosse, o caso é que, daí a pouco, nos achávamos sentados, eu e Dora, no sofá, e mais calmos. Jip estava ao colo dela, fitandome sossegadamente de olhos semicerrados. Eu sentia o espírito liberto e mergulhara num êxtase profundo.

Estávamos noivos, Dora e eu.

Suponho que tínhamos a vaga ideia de que isso devia terminar por um casamento. Tenho mesmo a certeza, porque a rapariga estipulou que não casaríamos senão com o consentimento do pai. Mas, no embevecimento daquela hora, creio que não pensávamos em nada nem que aspirássemos a qualquer coisa alheia àquele instante. Devíamos guardar segredo, não revelar o caso ao senhor Spenlow, ideia que, a terme realmente ocorrido, concordo que não era muito honrosa.

A senhora Mills pareceu mais grave do que nunca, quando Dora a trouxe, depois de ter ido em sua busca. Este acontecimento despertaralhe sem dúvida os ecos adormecidos nas cavernas da memória. Deunos, contudo, a sua bênção com a declaração de amizade eterna e falounos um pouco como uma voz monacal.

Que belos dias vivemos então! Que horas de deliciosa loucura! Medi o dedo de Dora para mandar fazer um anel (que devia fingir miosótis). E o ourives, a quem levei a encomenda, riu percebendo qual seria o destino dessa jóia de pedrinhas azuis e pediume um preço exagerado. Ainda ontem, ao ver um anel igual no dedo da minha própria filha, como senti uma comoção que, embora passageira, foi na verdade dolorosa!

Passeei, orgulhoso do meu segredo e da minha ventura, tão compenetrado da dignidade de amar e de ser amado que, se houvesse pairado nas nuvens, não me teria julgado mais acima dos outros homens que rastejavam na terra.

Reencontrámonos no jardim, sentámonos no caramanchel, e eu considereime tão feliz que ainda hoje adoro os pardais de Londres e suponho ver nas suas asas cobertas de fuligem a plumagem de aves raras e exóticas.

Tivemos a nossa primeira disputa (oito dias depois dos esponsais) e Dora devolveume o anel dentro de uma cartinha desesperada, que dobrou em triângulo, e em que escreveu esta frase tremenda: «O nosso amor começou por uma loucura e finda na demência!» Arrepelei os cabelos e clamei que estava tudo acabado.

E, com a cumplicidade do escuro, precipiteime para a senhora Mills (que lobrigara no pátio da cozinha, onde havia uma máquina de calandrar) e implorei que interferisse para evitar o rompimento. Ela cumpriu a missão e voltou com Dora,

exortandonos, do púlpito da sua amarga juventude, a fazermos concessões mútuas e a fugir ao deserto do Sara!

Chorámos, reconciliandonos, e ficámos outra vez tão contentes que o pátio com a sua calandra e tudo mais se nos afigurou o Templo do Amor. Ali planeámos um sistema de correspondência por intermédio de Julia Mills, o qual devia compreender pelo menos uma carta por dia, de um e outro lado.

Oh, tempo ocioso! Que dias irreais, loucos, venturosos! De todas as épocas da minha vida, a que o Tempo lançou mão, não há outra de que eu possa simultaneamente sorrir e apiedarme.