David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 42. INJÚRIA
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Embora este manuscrito seja só para meu uso pessoal, não sei se devo recordar aqui quanto trabalhei no aprendizado da estenografia, consciente das responsabilidades que assumira perante Dora e as tias. Mas acrescentarei ao que já disse da minha perseverança nessa época, e da minha energia e paciência, que olhando agora para trás reconheço estar aí a origem do meu êxito. Fui bastante afortunado quanto a resultados materiais; muita gente tem trabalhado com mais afinco do que eu e não conseguiu nem metade do que eu consegui. Contudo, nunca alcançaria esse triunfo sem os meus hábitos de pontualidade, de ordem, de presteza, sem esta decisão de concentrar os esforços num único objecto ao mesmo tempo, e sem tanta rapidez como a que despendi. Estas qualidades adquirias então. Deus sabe que não escrevo isto com a ideia de me elogiar. Quem passa em revista a sua vida, como eu faço, página a página, deve na verdade ter sido perfeito para não sentir remorsos à ideia de tantos talentos desprezados, tantas oportunidades perdidas, tantos sentimentos maus e levianos sempre em guerra com o coração e sempre vencedores. Não foi, todavia, um dom natural de que eu abusasse. O que pretendo dizer é isto: tudo o que procurei fazer na vida desejei que fosse bem realizado; tenhome consagrado inteiramente ao meu trabalho, nas coisas grandes como nas pequenas, e filo sempre com seriedade. Nunca fui de opinião de que uma prenda, natural ou adquirida, dispensasse essas virtudes mais humildes que são a perseverança e o labor. Semelhante ambição não é deste mundo. O talento e a oportunidade podem formar os sustentáculos da escada que certos homens sobem, mas os degraus devem ser resistentes e sólidos; nada substitui a sisudez, a consciência, o ardor sincero. Agora verifico que a minha melhor regra foi não me comprometer só até meio e não afectar denegrir a tarefa, fosse esta qual fosse.

Não repetirei aqui quanto devo a Agnes ter praticado os preceitos que acabo de indicar. Estoulhe deveras reconhecido.

Ela veio passar quinze dias em casa do doutor Strong, de quem Wickfield era velho amigo e que desejava proporcionarlhe todo o bemestar. Pai e filha chegaram juntos. Não me surpreendi muito quando soube que Agnes resolvera arranjar alojamento na vizinhança para a senhora Heep, que precisava de mudança de ares por causa do seu reumatismo e que apreciaria fazêlo em tão agradável companhia. Também me não admirei de ver,

no dia seguinte, Uriah: como filho dedicado acompanhava a mãe e ajudálaia na sua instalação.

- Bem vê, menino David - disseme ele, quando me impôs a sua presença numa volta pelo jardim - a gente tem ciúmes sempre que se ama, pelo menos prefere conservar sob as suas vistas o objecto desse amor.

- De quem tem ciúmes, desta vez? - perguntei.

- Graças a si, menino David, de ninguém em particular. De nenhum homem, neste momento.

- Quer dizer que tem ciúmes de uma mulher? Lançoume um olhar de revés, do canto dos seus olhos sinistros e avermelhados, e começou a rir.

- Com as suas insinuações consegue tirarme nabos da púcara, menino David... devia dizer senhor Copperfield, mas sei que me desculpa a liberdade que tomo, a qual se tornou num hábito... Pois bem, posso declarar - acrescentou poisando na minha a sua mão gelada - que de uma forma geral não simpatizo com as mulheres... em especial a senhora Strong.

Os olhos de Uriah, que me fixavam, pareciam nessa ocasião verdes, cintilando de uma malícia ignóbil.

- Que quer dizer?

- Meu Deus, menino David! Olhe que sou homem de leis - replicou com um sorriso ácido. - Quero dizer precisamente o que digo.

- E o que significa o seu olhar? - volvi sem me desconcertar. - O meu olhar? Oh, que astúcia! Que tem ele?

Dirseia gozar com o caso e riu com tanta vontade quanto lho permitia a sua natureza. Depois de haver coçado o queixo, recomeçou lentamente, de olhos baixos:

- Quando eu era apenas um humilde empregado, ela olhavame com sobranceria. Convidava sempre a Agnes a visitála, e a Agnes aceitava. Mas eu era muito inferior para que a senhora Strong se preocupasse comigo.

- E então? Tratase só disso?

- E ele também - prosseguiu Uriah com voz firme, porém de ar pensativo, sempre a coçar o queixo.

- Não conhece suficientemente o doutor para saber que a sua existência, Uriah, lhe passaria despercebida se não estivesse em sua presença?

Lançoume um olhar oblíquo e encovou as faces para mais facilmente as afagar com os dedos. E respondeu:

- Não me refiro ao doutor. Pobre homem! Falo mas é do senhor Maldon.

O coração deixoume de bater. Todas as minhas suspeitas e apreensões, toda a felicidade e paz do doutor Strong, todas as possibilidades de inocência e de culpabilidade que eu era incapaz de destrinçar, tudo isso vi, num momento,

à mercê daquele indivíduo.

- Nunca foi capaz de vir ao cartório sem me dar ordens e maçar - declarou Heep. - Que belo cavalheiro, hem? Mas eu era muito dócil, muito humilde... e ainda o sou. O que não gostava, nem gosto, é dessa maneira de tratar as pessoas.

Deixou de coçar o queixo e chupou mais as faces, ao ponto de quase se encontrarem interiormente. Todavia continuou a olharme de través.

- Ela então é uma linda senhora, bem sei, mas pouco disposta a simpatizar comigo, isso vejo eu. Háde incutir em Agnes ideias muito elevadas. Não, menino David, não estimo as mulheres, mas tenho os olhos abertos e sei servirme deles há muito tempo. Em geral, nós os humildes sabemos servirnos dos olhos.

Diligenciei não mostrar que compreendia nem que estava inquieto. No entanto, Uriah adivinhara o que eu sentia, como bem se revelava na cara dele.

- Pois não tenciono deixar que me ponham os pés em cima - acrescentou Uriah, com ar de triunfo cruel, erguendo a cabeça. - E farei tudo para acabar com aquela amizade. A dama não me agrada. Não hesito em confessar que talvez tenha ciúmes e que pretendo manter os intrusos a distância. Evitarei o risco de se tramar qualquer coisa contra mim.

- Você é que está sempre a tramar qualquer coisa e julga que os outros fazem o mesmo.

- É possível, menino David, mas tenho um alvo, como dizia o meu sócio, e para o atingir removerei o céu e a terra. Lá porque sou humilde não consinto que me comam as papas na cabeça. Ninguém me obstruirá o caminho. Todos aqueles que o tentem fazer serão afastados.

- Não o compreendo, Uriah.

- Ah, não? - replicou, com um dos seus trejeitos habituais. - Pois o menino David costuma ser muito sagaz. Para outra vez procurarei ser mais explícito. Olhe, não será o senhor Maldon que chegou a cavalo e toca ao portão?

- Parece que é - respondi, afectando a maior indiferença.

Uriah Heep dobrou o corpo, esfregou as mãos nos joelhos e começou a rir em silêncio. Tão em silêncio que não se lhe ouvia o mínimo som. A sua atitude odiosa e sobretudo aquela última manifestação repugnaramme a tal ponto que me afastei sem cerimónia, deixandoo dobrado em dois, no meio do jardim, como um espantalho despegado do seu suporte.

Não foi nessa noite, mas, se bem me recordo, na seguinte, um sábado, que levei Agnes a casa de Dora. Tinha combinado a visita com Lavinia Spenlow e, assim, esperavam Agnes para o chá.

Todo eu tremia de orgulho e ansiedade; orgulho à ideia da minha querida noiva, ansiedade pelo receio de que ela não agradasse a Agnes Wickfield. Pelo caminho, indo esta dentro da diligência e eu do lado de fora, fui imaginando Dora com os atributos que eu lhe conhecia: ora em tal atitude, ora noutra, conforme pensava que lhe assentaria melhor, e tão preocupado que até me sentia doente.

Bonita deveria estar, e quanto a isto não me restavam dúvidas. Ora aconteceu que eu nunca a vira parecendo tão bem. Não se encontrava na sala quando apresentei Agnes às donas da casa, ficara timidamente escondida; mas eu sabia onde a topar, e, com efeito, descobria outra vez atrás da porta, e também a tapar os ouvidos com os dedos.

De começo, recusou comparecer, depois pediu cinco minutos para se preparar; quando, por fim, enfiou o braço no meu para que eu a conduzisse à sala, aquele rosto encantador nunca se me afigurou tão belo. Mas quando empalideceu, ao entrar, ficou ainda mil vezes mais formosa. Dora tinha medo de Agnes; dissera que era «demasiado inteligente». Vendoa, porém, tão alegre e acolhedora, soltou uma exclamação de prazer, maravilhada, e deitou os braços ao pescoço de Agnes, beijandoa com ternura.

Jamais fui tão feliz! Nada me dera até então tanto gosto como vêlas ambas sentadas lado a lado. Os olhos da minha amada alçavamse com tanta naturalidade para os outros olhos tão cheios de bondade! E Agnes retribuíalhe tão enternecidamente!

Lavinia e Clarissa partilharam, a seu modo, do meu contentamento. Nunca presenciara tanta cordialidade numa mesa de chá. Clarissa fazia as honras da casa. A outra contemplavanos com ar de benevolência superior, como se a nossa felicidade fosse obra sua. Estávamos em absoluto satisfeitos connosco e com os demais.

A jovialidade branda de Agnes tocoulhes o coração. O calmo interesse que ela tomava por tudo quanto fosse do agrado de Dora, a sua maneira de travar relações com Jip (que logo a adoptou), a compreensão amável de que deu provas quando Dora hesitou em vir ocupar o seu lugar costumado junto de mim, a graça misturada de circunspecção e simplicidade que lhe valeu tímidas demonstrações de confiança da parte de Dora - tudo isto dirseia pôr excelente remate ao nosso círculo.

- Que bom gostar de mim! - observou Dora no fim do chá, dirigindose a Agnes. - Nunca tive tanta necessidade de estima, depois que Julia Mills partiu!

De facto, esquecerame de informar que a senhora Mills havia já embarcado: eu e Dora subíramos, em Gravesend, a um grande paquete da carreira da índia para nos despedirmos dos Mills. Ali almoçáramos doce de gengibre, goiabas e outras coisas deste género, até que deixámos Julia sentada numa cadeira de bordo, lacrimosa, a contas com um álbum novo, enorme, no qual tencionava consignar as reflexões que lhe sugerisse a contemplação do oceano.

Agnes notou que eu talvez houvesse feito da sua pessoa um retrato demasiado lisonjeiro. Dora contraveio logo, sacudindo a cabeça encaracolada:

- Não. Mas deume uma ideia tão elevada das suas opiniões que até me assustei.

- As minhas opiniões não podem reforçar o seu apego a certas pessoas que ele conhece. Não lhes trazem qualquer utilidade.

- No entanto, não se importe de as dar - retorquiu Dora, com malícia.

Troçámos de Dora, que sentia necessidade de ser amada. Dora ripostou, chamandome pateta e declarando que não era a mim que ela amava. Enfim, aquele breve serão chegou ao termo. Aproximavase o instante em que devia passar a diligência que nos levaria. Eu encontravame só defronte do lume quando Dora se introduziu furtivamente na sala para me dar o beijo costumado antes que eu partisse.

- Não te parece, Doady, que, se eu tivesse Agnes como amiga há mais tempo, seria mais inteligente? - perguntoume Dora, de olhos brilhantes, torcendo com a mão direita um dos botões do meu casaco.

- Que ideia disparatada, meu amor!

- Achas que é disparatada? Tens a certeza?

- Naturalmente.

- Esquecime de qual é o parentesco entre vocês - continuou ela, torcendo sempre o botão.

- Não há parentesco real, mas fomos educados juntos, como irmão e irmã.

- Gostava de saber por que foi que gostaste de mim - prosseguiu Dora, agarrando agora outro botão do casaco.

- Talvez porque não pude verte sem te amar.

- Mas se nunca me tivesses visto? - insistiu ela, passando ao terceiro botão.

- E se não tivéssemos nascido? - repliquei alegremente.

Cogitei em que pensaria aquele cèrebrozinho, enquanto a via correr a mão por todos os botões do meu casaco. De cabeça apoiada ao meu peito, e de olhos baixos para seguir o movimento maquinal dos dedos, Dora esteve uns momentos sem falar, e por fim, erguendo para mim a vista, pôsse na ponta dos pés, com um ar mais sério que o habitual, e deume finalmente o beijo do costume, que repetiu duas e três vezes. Em seguida foise embora.

Voltaram juntas cinco minutos mais tarde. Desaparecera por completo o ar pensativo de Dora, tão pouco vulgar na sua pessoa. Resolveu, rindo, obrigar Jip a mostrar todas as suas habilidades, antes que passasse a diligência.

A coisa levou muito tempo (não tanto pela variedade como pela resistência que o cachorro opôs) e ainda não tínhamos chegado ao fim quando ouvimos o som da viatura. Agnes e Dora trocaram adeuses rápidos mas afectuosos: Dora escreveria a Agnes (que não devia tomar muito a sério as cartas) e a outra mandaria a resposta; ainda se despediram segunda vez à portinhola da diligência, e mais uma, a terceira, quando Dora (apesar das recomendações da tia Lavinia) tornou a sair, correndo, para lembrar a Agnes que não se esquecesse de escrever e para sacudir os caracóis olhando para a imperial, onde eu me havia sentado.

A carruagem devia deixarnos perto de Covent Garden, e aí tomaríamos outra para Highgate. Esperei com impaciência o curto trajecto entre as duas para ouvir o que Agnes me diria de Dora, um elogio por certo. E que elogio tão grande! Com que ternura e fervor soube ela valorizar as graças inocentes da adorada criaturinha que eu conquistara! Com que gravidade salientou (sem ter o ar de que o fazia) a minha responsabilidade perante a órfã juvenil!

Nunca, nunca eu amara Dora tão profunda nem tão sinceramente como nessa noite. Quando, depois de sair da segunda diligência, nos dirigíamos pacificamente a pé até à casa do doutor Strong, eu disse a Agnes que a considerava o anjocustódio da minha noiva, tanto como o meu.

- Pobre anjo - respondeu. - Mas fiel.

A voz clara de Agnes vinhame direita ao coração. Repliquei naturalmente:

- A alegria que lhe é própria (a si somente, de todos quantos conheço) pareceume hoje têla cumulado. Suponho que também é feliz em casa.

- Sou feliz interiormente. Sintome feliz e de coração leve. Contemplei o rosto sereno, erguido para o céu, e imaginei que eram as estrelas que lhe davam tamanha nobreza.

- Não há alterações lá em casa - acrescentou Agnes, daí a poucos minutos.

- Sem querer aborrecêla, aludindo outra vez ao assunto da nossa última conversa... torno no entanto a perguntarlhe...

- Repito que não há alteração.

- Tenho pensado tanto nisso!

- Pois deve pensar menos. Lembrese de que estou persuadida do triunfo final do amor e da rectidão. Nada receie por mim. Trotwood - acrescentou daí a instantes - nunca tomarei a deliberação que tanto o assusta.

Embora eu não tivesse esse receio nos meus momentos de sanguefrio, aquela resposta trouxeme considerável alívio. Foi o que lhe disse, cheio de convicção:

- E, uma vez acabada esta visita... pois talvez não voltemos

a encontrarnos sós... virá a Londres de novo, querida Agnes?

- Não tão depressa, com certeza - replicou ela. - Penso que será melhor, para meu pai, que fiquemos lá. Não há muita probabilidade de nos vermos, mas garantolhe que serei fiel correspondente de Dora e, através dela, terá notícias minhas e viceversa.

Chegávamos à casa do doutor Strong. Já era tarde. Viase luz na janela da senhora Strong, e Agnes, indicandoma, despediuse de mim. E ajuntou:

- Que as nossas preocupações e azares o não inquietem mais! Nada poderá darme maior satisfação do que a sua felicidade. Se eu achar que você me pode ser útil, acredite que o chamarei. Deus o proteja!

Vendolhe o sorriso radiante e ouvindolhe estas últimas palavras, ditas em tom prazenteiro, pareceume ver e ouvir a minha Dora. Fiquei um bocado, com o coração repleto de amor e gratidão, a olhar para as estrelas, e em seguida prossegui o meu caminho. Hospedarame numa estalagem não muito longe daquele sítio. Quando, por acaso, me voltei para trás, distingui claridade no escritório de Strong. Senti vagos remorsos de o não ter ajudado no dicionário, em que ele naturalmente estava a trabalhar. Para me penitenciar, retrocedi, resolvido a ir dar boanoite ao doutor. Atravessei de mansinho o vestíbulo, abri a porta sem ruído e lancei uma vista de olhos ao quarto.

A primeira pessoa que vi (com grande surpresa minha) à luz suave do candeeiro tamisado foi Uriah Heep. Estava de pé, com uma das mãos esqueléticas tapando a boca, a outra apoiada à mesa do doutor. Este, instalado na sua poltrona, ocultava o rosto nas mãos. Wickfield, com ar embaraçado, inclinavase para a frente a fim de tocar timidamente no braço de Strong.

Por instantes, supus que este houvesse adoecido. Sob a influência desta impressão, dei uns passos rápidos para diante, mas, encontrando o olhar de Uriah, compreendi o que se passava. Termeía retirado se o dono da casa não fizesse um gesto para me deter. Por isso, fiquei.

- Ao menos - disse Uriah - podíamos conservar a porta fechada. Não precisamos de pôr toda a cidade ao facto do caso.

Assim falando, encaminhouse em bicos de pés para a porta (pois eu a deixara entreaberta) e fechoua com todo o cuidado, voltando em seguida para a posição anterior. Havia na voz dele e nas maneiras um excesso de compaixão e solicitude mais intoleráveis, em meu entender, do que qualquer outra atitude que ele pudesse tomar.

- Achei que era do meu dever, menino David, comunicar ao Doutor aquilo de que eu e o menino tínhamos falado. Se calhar não me compreendera bem...

Respondilhe apenas com um olhar, e, aproximandome do meu velho professor, dirigilhe palavras de consolação, a fim de o animar. Strong descansou a mão no meu ombro, como costumava fazer quando eu era criança, mas não levantou a cabeça encanecida.

- Como não me compreendeu, menino David - recomeçou Uriah, sempre solícito - tomarei a liberdade de observar, entre amigos, que chamei a atenção do senhor doutor Strong para os actos e gestos de sua esposa. Afiançolhes que me contraria muito intrometerme em histórias desagradáveis, mas a verdade é que nos vemos sempre envolvidos em coisas que nos aborrecem. Era isso o que eu queria dizer há pouco ao menino David.

Pergunto agora a mim mesmo, recordando estas palavras, por que não lhe deitei as mãos ao pescoço e lhe apertei com força o gasganete.

- Creio que não me expliquei bem - continuou Heep - mas também da sua parte não recebi uma resposta clara. Naturalmente queríamos ambos evitar este assunto. Todavia acabei por me decidir e participei ao senhor doutor Strong que... Que diz, senhor doutor?

Esta última frase endereçavase ao próprio Strong, que soltara um gemido - um gemido que me pareceu susceptível de comover todos os corações mas que não produziu o menor efeito no de Uriah.

- ... participeilhe que toda a gente reparava na ternura manifesta com que se tratavam essas duas pessoas, o senhor Maldon e a simpática esposa do senhor doutor. Realmente chegou a ocasião (pois que já estamos intrometidos na história) de o senhor doutor saber o que era claro para todos, já antes da partida do senhor Maldon para a índia. Este, se tratou de regressar, foi só por causa disso, e para o mesmo fim é que passa aqui todo o tempo. Quando o menino David entrou, eu acabava de pedir ao meu sócio - voltouse para Wickfield - que dissesse ao senhor doutor Strong se tivera ou não quaisquer desconfianças. Então, prezado sócio? Quer ter a bondade de nos esclarecer?

- Por amor de Deus, caro amigo - interveio Wickfield, tornando a poisar a mão indecisa no braço de Strong - não ligue grande importância às suspeitas que eu pudesse ter.

- Ora aí está! - exclamou Heep - uma confirmação melancólica. E de quem? De um velho amigo! Palavra de honra, quando eu era apenas empregado de cartório, vio, ao doutor Wickfield, bastante preocupado por causa deste caso, e até irritado, o que é natural, porque tem uma filha e pensava que a menina Agnes poderia ser envolvida numa história que não lhe dizia respeito.

- Meu caro Strong - atalhou Wickfield com voz trémula - meu caro amigo, não preciso dizer que tenho a mania de procurar

em todas as acções humanas um móbil e de as julgar segundo um critério único e rígido. Este erro pode estar na origem das suspeitas.

- Você suspeitou, Wickfield - redarguiu Strong, sem erguer a cabeça. - Você suspeitou!

- Responda, caro sócio - insistiu Uriah.

- Suspeitei em dado momento, é verdade - declarou Wickfield. - E, Deus me perdoe, supus que você também suspeitara.

- Não, não - replicou Strong, cuja voz denotava uma dor pungente.

- Julguei até que você queria mandar o Maldon para o estrangeiro por causa disto.

- Não, não - repetiu o doutor. - Era para dar gosto à Annie, assegurando o futuro do seu amigo de infância. Nada mais.

- Foi o que me constou e sempre julguei que o boato fosse do seu conhecimento. Demais a mais... desculpe a estreiteza de vistas, meu pecado principal... que numa união com idades tão desproporcionadas.

- Eis como as coisas se apresentam, não é verdade, menino David? - observoume Uriah, com ar de dó ao mesmo tempo obsequioso e insultante.

- ... a mulher, nova e sedutora, fosse impelida ao casamento... por maior respeito que dedicasse ao marido... por consideração de ordem puramente material. Não fiz caso dos sentimentos e circunstâncias várias que podiam actuar num sentido favorável. Por amor de Deus, tenha isto em conta!

- Como ele apresenta bem os factos! - comentou Uriah, oscilando apreciativamente a cabeça.

- Observando apenas de um ponto de vista - prosseguiu Wickfield - ... e por tudo o que lhe é querido, meu bom amigo, peçoLhe que se lembre disto... sou levado a confessar agora, visto que não posso fazer de outro modo...

- Não! - atalhou Uriah. - Não se pode fugir à realidade, já que as coisas chegaram a este ponto.

Wickfield teve uma expressão de impotência desesperada quando olhou para o seu sócio. Mas continuou:

- ... sou levado a confessar que duvidei dela e achei que faltava aos seus deveres de esposa, e até às vezes me aborreceu verificar a familiaridade que entre as duas se estabelecera (refirome a Agnes). Mas devia ser consequência da minha imaginação mórbida. Nunca falei disto a ninguém. Esperava que mais ninguém soubesse. Por mais desagradável que seja ouvir estas considerações, caro Strong, mais desagradável foi para mim formulálas...

O professor, com a sua bondade inata, estendeulhe a mão, que Wickfield apertou por um momento, de cabeça baixa.

Como uma enguia, Uriah insinuouse no silêncio que se estabelecera e disse:

- Este assunto é antipático para todos nós. Mas, já que nos adiantámos tanto, pareceme ser lícito acrescentar que David Copperfield também desconfiava.

Volteime para ele e perguntei como se atrevia a falar em meu

nome.

- Oh, menino David - volveu, contorcendose da cabeça aos pés - é muito cortês da sua parte e só prova a bondade do seu carácter; mas bem sabe que, na outra noite, logo que abri a boca para me referir ao caso, me compreendeu antes que eu dissesse pouco nem muito. Não negue! Se o negar, é com as melhores intenções. Mas de que serve?

Vi o olhar brando do meu velho professor virarse para mim um momento e senti claramente que ele lia no meu rosto a confissão das minhas suspeitas. Era inútil zangarme, o resultado não compensaria nada: seria o mesmo que negar a evidência.

Recaímos no silêncio, até que Strong se levantou para dar por duas ou três vezes volta ao quarto. Depressa regressou à poltrona e, apoiado ao espaldar, enxugou os olhos com o lenço, o que, em minha opinião, lhe deu maior dignidade do que se se limitasse a afectar indiferença. E disse então:

- A culpa foi minha. Creio realmente que foi minha. Expus um ente que me é querido aos juízos e calúnias de que ele, sem mim, nunca teria sido objecto. E chamo calúnias às simples suspeitas que nem hajam saído do coração de quem as concebeu.

Uriah Heep emitiu uma espécie de fungadela, suponho que para testemunhar concordância.

- Sem mim - repetiu Strong - Annie nunca teria sido objecto de semelhante malevolência. Meus senhores, já estou velho, como sabem, e agora vejo que não tenho motivos fortes para viver. Mas constituome fiador da honra e da fidelidade da minha querida mulher, que deu motivo a esta conversa.

Imagino que o protótipo da cavalaria, a incarnação do herói mais puro e romântico criado por algum pintor ou romancista, não pudesse proferir estas palavras com maior e mais comovedora nobreza do que essa com que as pronunciou o meu velho professor.

- No entanto - prosseguiu Strong - não devo negar, e até sou levado a confessálo, que tenha, de certo modo, impelido essa mulher a um casamento infeliz. Faltame o hábito da observação, mas não posso deixar de reconhecer que a observação das outras pessoas de diferente idade e posição e tendente ao mesmo fim é certamente melhor do que a minha.

Eu muitas vezes admirara, como aliás já notei, a indulgência do doutor Strong para com a mulher; porém a ternura respeitosa que se inferia de cada uma das suas palavras proferidas

naquela ocasião, e com as quais afastou da virtude de Annie a mais leve suspeita, engrandeceuo verdadeiramente aos meus olhos.

- Casei quando ela era ainda muito nova; mal formara a sua personalidade, e a mim coube, com prazer, o encargo de a ajudar nesse sentido. Conhecia muito bem o meu sogro, e à Annie igualmente. Ensinaralhe o que pudera, em homenagem às nobres qualidades que o ornavam. Procedi mal (bem o receio) em me ter aproveitado, embora sem consciência disso, da sua gratidão e afecto, e do fundo da alma lhe peço me perdoe.

Atravessou o quarto, retrocedeu, e apertou o espaldar da cadeira com mão trémula, enquanto prosseguiu numa voz sufocada mas vibrante de sinceridade:

- Consideravame como um refúgio para ela, um refúgio contra os perigos e vicissitudes da existência. Persuadiame de que, apesar da diferença de idade, Annie viveria comigo tranquila e contente. Não cessava, todavia, de pensar no momento em que a deixaria livre, nova ainda e sempre bela mas de razão amadurecida. Jurolhes, meus senhores, que era assim.

A sinceridade e a generosidade dirseia iluminaremlhe o rosto vulgar; e davam a cada uma das suas palavras uma força que mais nenhum dom lhe poderia conferir.

- A nossa vida em comum tem sido feliz. Até esta noite só tenho abençoado o dia em que casámos.

A voz tornavaselhe hesitante. Strong calouse por momentos, e recomeçou:

- Uma vez desperto do meu sonho (de qualquer maneira, só tenho sido um sonhador na vida), compreendo que ela experimente alguma saudade ao lembrarse deste velho companheiro. Talvez seja uma saudade inocente, pensando no que poderá ser, sem mim, a sua vida, Quantas coisas a que eu não prestei atenção suficiente me acodem agora oneradas de um sentido novo, nesta hora dolorosa! Fora disto, porém, não quero que o nome dessa querida criatura seja associado à mais pequena expressão de dúvida.

Durante um instante o olhar resplandeceu e a voz tornouse mais segura. Em seguida a um silêncio prolongado, continuou no mesmo tom:

- Só me resta suportar, com a possível resignação, o conhecimento do mal que causei. Ela é que tem razão de queixa e não eu. O meu dever é preservála de qualquer interpretação injustificada e cruel que os meus próprios amigos não poderão coibirse de formar. Quanto mais retirados vivermos, mais fácil será para mim esse dever. E, quando soar a hora (possa vir cedo, se for do agrado de Deus!) em que a minha morte a liberte do seu constrangimento, fecharei os olhos de cara voltada para o seu rosto digno, cheio de confiança e amor, e então deixálaei sem tristeza a uma vida mais feliz e alegre.

Mal o via através das lágrimas que me afloravam aos olhos, impressionado com tanta bondade e dedicação, realmente a carácter com a perfeita simplicidade da sua vida. Avançou até à porta e ajuntou:

- Meus senhores, acabei de lhes pôr a nu o meu coração. Estou certo de que respeitam estas confidências. O que dissemos não se repetirá. Wickfield, caro amigo, dême o seu braço para me ajudar a subir.

Wickfield aproximouse logo. Sem trocar uma palavra, deixaram lentamente o quarto, sob o olhar de Uriah Heep.

- Pois, menino David - disseme ele, virandose muito amável para mim - as coisas não tomaram o curso que se poderia supor, porque este velho erudito... e, na verdade, que homem animoso!... é tão cego que não vê um palmo adiante do nariz. Mas bem me parece que é uma família liquidada.

O som daquela voz bastou para me enfurecer. A cólera que senti foi a maior da minha vida.

- Miserável! - riposteilhe. - Que pretende com essa ideia de me fazer cúmplice das suas maquinações? Como se atreve, seu biltre, a pedir a minha opinião como se tivéssemos discutido o caso?

Vendoo à minha frente, lilhe com toda a clareza, no ar de triunfo que ele procurava disfarçar, o que eu já sabia muito bem: que me impunha as suas confidências apenas com o propósito de me desgostar e que, deliberadamente, me queria armar um laço. Achei aquilo intolerável. A face magra era um alvo tentador, e eu ali assentei uma bofetada tremenda com a mão bem aberta e com tal força que os dedos me ficaram a arder.

Heep agarroume na mão e nós permanecemos assim, olhandonos por muito tempo, tanto tempo que pude presenciar a substituição da marca branca que os meus dedos lhe tinham deixado na cara por uma vermelhidão intensa.

- Copperfield - disse por fim, sufocado de comoção - deixou de conhecer o bom senso?

- Deixei de o conhecer a si - repliquei, arrancando a minha mão da sua. - Não quero saber mais de você, patife!

- Palavra? - volveu ele. A dor obrigarao a levar a mão à cara. - Talvez não possa proceder de outra maneira, Mas não será ingratidão da sua parte?

- Já lhe dei a entender várias vezes quanto o desprezo. E agora filo de uma forma irrefutável. Por que heide recear outros malefícios? Não pode fazer pior do que já fez.

Heep compreendeu perfeitamente esta alusão às considerações que até esse momento me tinham obrigado a conterme. Creio que sem as garantias que Agnes me dera nessa noite eu não teria recorrido com tanta segurança nem à bofetada nem aos insultos.

Seguiuse outro silêncio, também longo.

Enquanto ele me observava, os olhos adquiriam todas as tonalidades capazes de afeiar ainda mais um indivíduo já de si feio.

- Copperfield - disse Uriah, retirando finalmente a mão da cara - tem estado sempre contra mim. Já o notara em casa do doutor Wickfield.

- Pense o que quiser - redargui, sempre furioso. - Você mereciao, se já não fosse verdade.

- No entanto sempre gostei de si.

Não me dignei responderlhe e, pegando no chapéu, preparavame para sair quando Uriah me barrou o caminho para a porta.

- Copperfield, para lutar é preciso haver dois. Não conte comigo.

- Diabos o levem!

- Veja como fala. Sei que se háde arrepender. Como lhe foi possível mostrarse tão inferior a mim com esta prova de mau humor? Todavia perdoolhe.

- Perdoame? - repeti, no tom mais desdenhoso.

- Sim, senhor, e não pode evitálo - declarou Uriah. - Pensar que se atreveu a atacarme deste modo, a mim que sempre fui seu amigo! Mas, como disse, para uma luta são precisos dois, e eu não serei um deles. Contra sua vontade, continuarei a ser seu amigo. E agora já sabe o que pode esperar.

A obrigação que nos impúnhamos de baixar a voz neste diálogo, a fim de não acordar os da casa a uma hora já tardia, pouco contribuiu afinal para abrandar a minha cólera. Declarandolhe que não esperaria dele mais do que esperara até aí, retireime fechandoLhe a porta na cara e abandonei a residência. Mas Uriah também dormia fora, no mesmo prédio em que estava a mãe, de forma que daí a pouco ele alcançoume na rua.

- Fique sabendo, Copperfield - disseme ao ouvido (sem que eu sequer me dignasse voltar a cabeça) - que se encontra numa situação bastante falsa. - Isto pareceume certo, o que mais me irritou. - Não pode considerar o seu acto como se fosse de bravura nem pode impedirme de lhe perdoar. Não tenciono falar do que aconteceu nem à minha mãe nem a ninguém. Estou resolvido a desculpálo, Copperfield. O que me admira é que fosse capaz de levantar a mão para um ente tão humilde como eu.

A repulsa que a mim inspirava o meu próprio procedimento não cedia entretanto à que sentia por ele. Heep conheciame mais do que me conhecia a mim mesmo. Se ele ripostasse com violência ou me exasperasse abertamente, considerarmeia justificado, o que me daria certo alívio. Mas o velhaco faziame cozer a fogo brando, e eu nesse calor me revolvi toda a noite, sem poder pregar olho.

Quando saí, no dia seguinte de manhã, os sinos badalavam. Encontrei Uriah Heep, que passeava com a mãe. Dirigiume a palavra como se nada fosse, e eu não tive remédio senão

responderlhe. Creio que a minha bofetada lhe provocara, com a força que lhe imprimi, dores de dentes, porque tinha um lenço de seda amarrado na cara. Com o chapéu desabado, o novo adorno estava longe de o embelezar. Soube pela conversa que fazia tenção de ir a Londres na segundafeira de manhã, para consultar o dentista. Fiz votos, intimamente, por que o dente atingido tivesse duas raízes.

Strong mandou participar que não se sentia bem, e ficou sozinho a maior parte do dia, durante todo o resto da visita dos Wickfields. Só retomámos o nosso trabalho muitos dias depois, quando havia já uma semana que Agnes e o pai tinham partido. Na véspera, o doutor entregoume pessoalmente um papel dobrado mas não lacrado, no qual me pedia, em termos afectuosos, que nunca aludisse ao que se passara nessa noite famosa. Eu abrirame apenas com a minha tia: não era assunto que pudesse discutir com Agnes e Agnes não fazia decerto a mínima ideia do que acontecera. Do mesmo modo a senhora Strong, creio eu, pelo menos nessa altura. Decorreram várias semanas sem que observasse nela a menor alteração, mas esta sempre veio, e lentamente, como uma nuvem em dia calmo. Começou por se admirar da benignidade compassiva do marido e do desejo que ele exprimiu de ver a sogra instalarse na residência do casal a fim de quebrar a monotonia que ali reinava. Muitas vezes, enquanto trabalhávamos e Annie se sentava perto de nós, notava que se interrompia e olhava interrogativamente para o doutor. Depois habituouse a levantarse dali e a sair do gabinete, com os olhos cheios de lágrimas. A pouco e pouco foise alastrando uma sombra de melancolia na sua beleza. A senhora Markleham ocupava agora um quarto na vivenda, mas falava sem cessar e não reparava em nada. Ao passo que esta modificação se operava em Annie (outrora a alegria da casa), Strong parecia envelhecer e tornarse mais grave; mas a brandura do seu carácter, a delicadeza inalterável das maneiras, a solicitude para com a mulher, isto aumentou ainda mais, se possível. Certa manhã, dia dos anos dela, quando veio sentarse diante da janela (o que em geral fazia enquanto trabalhávamos, mas agora mais tímida e hesitante), vio segurarLhe a cabeça entre as mãos, beijarlhe a testa e sair precipitadamente, demasiado comovido para ficar. Annie permaneceu imóvel como uma estátua no lugar em que o marido a deixara, depois curvouse, uniu os dedos e chorou amarguradamente.

Várias vezes, depois disso, julguei que ela ia falar quando nos achávamos sós. Mas não disse palavra. O doutor tinha sempre qualquer projecto para diversão fora de casa, em que Annie participaria com a mãe, e a senhora Markleham, que se prestava voluntariamente a isso, regozijavase bastante com a ideia. Era, porém, triste e indiferente que a filha a acompanhava, sem tomar gosto fosse no que fosse.

Eu nem sabia que pensar. A tia Betsey também andava intrigada e, magicando no caso, dava inúmeros passeios cá e lá no quarto. O mais estranho é que o único raio de alegria que pareceu penetrar no seio destas trevas conjugais veio na pessoa do senhor Dick.

O que pensava ele ou o que havia observado, eis o que sou incapaz de explicar ao vêlo auxiliarme nesta tarefa. Mas, como relatei ao falar do tempo do colégio, a sua veneração pelo professor Strong era ilimitada; em toda a afeição sincera, mesmo da parte dos animais, há uma percepção que ultrapassa o mais apurado intelecto. Foi por essa inteligência do coração, se assim posso chamar, que a verdade penetrou directamente no senhor Dick.

Muitas vezes, nos seus momentos de ócio, ele retomara orgulhosamente o privilégio de passear no Jardim em companhia do doutor, como outrora em Cantuária. Mas, quando as coisas tomaram certo aspecto, o senhor Dick consagrou todo o seu tempo disponível a tais deambulações, chegando a levantarse mais cedo para não perder nem um minuto. Sempre se sentira felicíssimo quando o professor lhe fazia leitura de alguns extractos dessa obraprima que era o Dicionário. Mais do que nunca apreciava agora esses momentos, mas, se eu e Strong estávamos ocupados, Dick acompanhava então Annie, ajudandoa a tratar das flores favoritas ou a sachar os canteiros. Talvez não chegasse a pronunciar uma dúzia de palavras por hora, porém a sua solicitude calma e o rosto sorridente encontravam eco nos corações do casal: cada um sabia que ele os estimava e assim Dick se tornou um elo entre ambos, o que mais ninguém até aí conseguira.

Quando o evoco, com a sua fisionomia de tão impenetrável circunspecção, divagando entre os passeios com o doutor e encantado com a revelação dos artigos eruditos do Dicionário; quando o revejo ajoujado ao peso de regadores transbordantes de água, atrás de Annie, e a ajoelhar para fazer, com as mãos enormes e enluvadas, insignificantes trabalhos de paciência no meio das folhas; quando o recordo assim tão prestável, consciente de que havia qualquer coisa que não corria bem e até já esquecido das intromissões do rei Carlos, chego a ter vergonha de haver pensado que ele não possuía o juízo todo.

- Só eu conheço bem este homem! - dizia a senhora Trotwood, quando aludíamos ao caso. - Dick acabará por se tornar célebre!

Antes de terminar o capítulo, devo aflorar outro assunto. No tempo em que Strong ainda tinha hóspedes, eu notara que o carteiro trazia todas as manhãs duas ou três cartas para Uriah Heep, e que essas cartas lhe eram endereçadas por Micawber, o qual adoptara ultimamente uma caligrafia muito no género da que usam os advogados. Por este indício, embora fraco, deduzi que

Micawber prosperava. Fiquei pois deveras surpreendido ao receber por essa altura uma carta da mulher dele, concebida nestes termos:

«Cantuária, segundafeira à noite.

«Vai ficar sem dúvida admirado, caro senhor Copperfield, de receber esta carta, e mais ainda do seu conteúdo - para não falar do pedido que lhe faço de guardar de tudo absoluto sigilo. Mas os meus sentimentos de esposa e mãe precisam de ser aliviados: ora eu não quero consultar a minha família (já tão mal vista de Micawber) e não conheço mais ninguém, a quem possa com maior justiça pedir conselho que ao meu amigo e antigo locatário.

«Sabe provavelmente, caro senhor Copperfield, que entre mim e Micawber (que jamais abandonarei) sempre reinou um espírito de confiança mútua; pode acontecer que ele assine às vezes uma letra sem me consultar ou me induza em erro quanto ao termo do vencimento. Isto tem sucedido, é verdade. Mas, em geral, Micawber não tinha segredos para o objecto central da sua afeição - quer dizer, a mulher - e invariavelmente, quando recolhíamos ao quarto, ele passava em revista os factos ocorridos durante o dia.

«Imagine, pois, caro senhor Copperfield, qual será a acuidade da minha inquietação quando eu lhe disse que Micawber mudou por completo. É reservado. É discreto. A vida dele tornouse um mistério para a companheira das suas alegrias e tristezas (refirome sempre à mulher), e, se lhe afirmasse que, à parte a circunstância de passar o tempo no escritório, de manhã à noite, eu sei menos a seu respeito do que acerca do homem do Sul (a respeito do qual as crianças repetem uma história tola em que há um pudim de sebo frio), não faria mais do que utilizar uma história popular para exprimir um facto verdadeiro.

«Mas não fica por aqui. Micawber anda melancólico, severo. Já não se interessa pelos filhos mais velhos nem se orgulha dos gémeos. Até lança um olhar froixo ao inocente recémnascido, desde há pouco membro novo da nossa família. Só a custo me concede os meios para arcar com as despesas do lar, reduzidas ao mínimo, e, com isto, faz ameaças tremendas de se estabelecer (é esta a sua expressão), recusandose teimosamente a dar outras explicações.

«Eis o que custa a suportar. Estou desolada. Se, conhecedor dos meus fracos recursos, me quisesse dar parecer quanto à melhor maneira de os utilizar nesta situação complicada, acrescentaria, caro senhor Copperfield, mais uma dívida de gratidão àquelas, tão numerosas, de que já é credor. Enviolhe saudades dos pequenos e um sorriso do nené, ainda numa inconsciência venturosa, e confessome

«sua dedicada Emma Micawber.»

Não me achei qualificado para dar a uma mulher de tanta experiência como a senhora Micawber os conselhos que ela solicitava, a não ser dizendolhe que reconquistasse o coração do marido pela sua paciência e bondade (como sabia que ela era capaz). Mas esta carta mergulhoume em meditações profundas.