David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 46. COMPREENSÃO
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Eu devia estar casado há cerca de um ano, se a minha fraca memória não falha, quando, ao voltar certa noite de um passeio solitário, pensando no livro que andava a escrever (o êxito bafejarame e o meu primeiro romance ocupavame o espírito), passei defronte da casa da senhora Steerforth. Isto aconteciame muitas vezes desde que habitava na vizinhança, embora o evitasse, se me fosse possível tomar outro caminho (o que me obrigava a grandes desvios); por isso, com frequência me via diante do prédio em que ela morava.

Limiteime a lançar uma olhadela, ao mesmo tempo que estugava o passo. A casa estava sempre com ar triste, sombrio; nenhuma das salas dava para a estrada, e as velhas janelas estreitas, de vidraças sólidas, fechadas, pareciam particularmente tenebrosas, se bem que nunca inculcassem júbilo. Havia um corredor coberto, através de um pátio pavimentado, mas dessa entrada nunca ninguém se servia. Existia também, para iluminar a escada, uma fresta oval, a única que não tinha cortina e partilhava, com o resto, do mesmo ar de abandono. Não me recordo de ter visto claridade em qualquer ponto da residência. Se eu fosse um transeunte qualquer, pensaria que o morador morrera e que mais ninguém vivia lá. E quantas especulações me viriam à mente se não me fosse dado conhecer esses recantos!

De maneira que procurei esquecer a habitação dos Steerforths, mas era uma coisa difícil porque ela despertava em mim um cortejo de reflexões. Nessa noite, as recordações da infância misturaramse às minhas lembranças mais recentes, às esperanças mal desfolhadas e às sombras informes de decepções vagamente pressentidas - esta mescla de experiência e imaginação própria para o elaborar da obra que me absorvia o espírito. E que força de sugestão tomou, maior do que nunca! Prosseguia o meu caminho, fantasiando coisas, quando uma voz me fez estremecer.

Era uma voz de mulher, e não tardei a reconhecer a criadinha da senhora Steerforth, que outrora usava fitas azuis na touca. Nessa ocasião não as trazia, para condizer, suponho, com a nova atmosfera da casa, e substituíraas por dois simples laços acastanhados, de tom bastante sério.

- Não se importa de entrar um instante para falar com a senhora Dartle? - perguntoume ela.

- Foi a senhora Dartle que a mandou?

- Esta noite, não, mas vem a dar no mesmo. Viuo passar há dois ou três dias e recomendoume que ficasse na escada,

a trabalhar, a fim de ver quando o senhor passava e lhe pedisse que entrasse.

Obedeci e, pelo caminho, perguntei à rapariga como ia a senhora Steerforth. Respondeume que a patroa não estava muito bem e, muitas vezes, nem saía do quarto.

Ao chegar a certo ponto, indicoume em que parte do jardim se encontrava a senhora Dartle, e deixoume só. Rosa achavase sentada numa espécie de terraço alto, que dominava a cidade. Era uma noite escura, com uma luz baça no céu; ao ver o panorama que se estendia ameaçador a seus pés, com um objecto maior salientandose aqui e ali na lúgubre claridade crepuscular, pareceume que tudo se casava perfeitamente com a estranha criatura que me aguardava.

Notando a minha aproximação, ela pôsse de pé a fim de me receber. Afigurouseme ainda mais pálida e magra do que no nosso último encontro. Os olhos cintilavam mais e a cicatriz do lábio tornarase mais visível. Não manifestámos grande cordialidade um para com o outro. Havíamonos separado sem amenidade nessa altura, e o desdém que lhe observei no rosto a senhora Dartle não tentou disfarçar.

- Disseramme que desejava falar comigo - comecei, pondo a mão no espaldar do banco, porque me recusara a aceder ao seu convite para me sentar.

- Como quiser - retorquiu. - Já encontraram essa mulher?

- Não.

- Mas fugiulhe.

Enquanto me olhava, vilhe agitaremse os lábios delgados como se ávidos de insultar a pessoa a quem se referia.

- Fugiu? - repeti.

- Sim, abandonouo - declarou, soltando uma risada. - Se a não acharam, nunca mais ninguém lhe põe a vista em cima. Até é possível que tenha morrido.

Nunca me fora dado presenciar em nenhum rosto uma expressão de crueldade mais triunfante.

- Desejarlhe a morte - redargui - talvez seja o voto mais caridoso que uma pessoa do seu sexo possa formular. Regozijame verificar, senhora Dartle, que o tempo a dulcificou.

Rosa não se dignou responderme, mas, virandose para mim com novo riso desdenhoso, disse daí a pouco:

- Faz parte do grupo de amigos dessa excelente mulher tão caluniada, não é verdade? É o seu campeão e defendelhe os direitos. Quer saber tudo o que se diz a respeito dela?

- Quero.

Levantouse, com um sorriso mau, deu uns passos em direcção a uma sebe de azevinhos que separava o relvado da horta, e ordenou em voz alta «Apareça!» no tom com que teria falado a um animal imundo.

- Absterseá, naturalmente, neste lugar, de qualquer acto de justiça ou de vingança, senhor Copperfield, não é assim? - ajuntou Rosa Dartle olhandome por cima do ombro, com a mesma expressão irónica.

Aquiesci, num gesto afirmativo, sem compreender bem o que ela queria dizer: «Apareça!», repetiu, e daí a instantes voltou atrás acompanhada do muito digno mordomo Littimer, que, sempre respeitoso, se inclinou e ficou em posição de sentido. O ar de graça perversa e de vitória, estranhamente mesclado a certo encanto feminino, com que me fitou enquanto se sentava na cadeira que nos separava, era próprio de uma crudelíssima princesa lendária.

- E agora - continuou, imperiosa, sem olhar para o criado e tapando com a mão a cicatriz, que dessa vez devia estremecer não de dor mas de gozo - conte ao senhor Copperfield a história dessa fuga.

- Eu e o senhor James, minha senhora...

- Não se dirija a mim - atalhou ela, carregando o cenho.

- Eu e o senhor James, senhor Copperfield...

- Nem a mim! - disse por meu turno.

Littimer, sem se desconcertar, deu a entender, por uma leve inclinação de cabeça, que estava às nossas ordens, e recomeçou:

- Eu e o senhor James vivemos no estrangeiro com essa rapariga desde o dia em que ela deixou Yarmouth sob a protecção do senhor James. Fomos a muitas partes diferentes e vimos muitos países. Passámos em França, Suíça, Itália, em suma, quase por todos...

Olhava as costas do banco, como se se dirigisse a ele, tamborilando aí com as pontas dos dedos tal se extraísse acordes de um piano mudo. »

- O senhor James afeiçoouse de maneira pouco vulgar a essa rapariga e esteve durante certo tempo mais calmo do que o fora durante todos os anos em que o servi. A rapariga aperfeiçoouse bastante e aprendeu a falar as línguas de todas essas nações; já não parecia a mesma criatura provinciana do princípio. Notei que a admiravam muito em todas as cidades por onde passávamos.

Rosa Dartle levou a mão a um lado do corpo. Vi Littimer relanceála e sorrir como para si mesmo.

- Sim, senhor, admiravamna muito, essa menina. Com os seus vestidos, o aspecto saudável que lhe dava o sol e o ar, o interesse de que a rodeavam, e tudo mais... os seus méritos realçavamse, chamando a atenção de toda a gente.

Detevese um minuto. Os olhos da senhora Dartle erravam sem repouso pelo horizonte distante, e ela mordia o lábio inferior para impedir o tremor da boca.

Tirando as mãos das costas do banco e unindoas, enquanto se apoiava sobre uma perna, Littimer prosseguiu de olhar baixo, com a cabeça respeitável inclinada para o ombro.

- As coisas continuaram assim: a menina tinha momentos de depressão, até ao instante em que principiou, creio eu, a cansarse do senhor James e a mostrarse arrependida. Então as coisas pioraram. O senhor James tornouse volúvel e irritável. E quanto mais ele se irritava, mais ela ficava triste. Entre os dois, a minha vida não corria em maré de rosas. Entretanto recompuseramse e aquela existência arrastouse por mais tempo do que seria de esperar.

Desviando o olhar do horizonte, Rosa Dartle poisouo em mim, como anteriormente. O criado, depois de haver pigarreado de leve, atrás da mão, passou a apoiarse na outra perna e recomeçou:

- Enfim, e em seguida a numerosas discussões e censuras, o senhor James deixou certa manhã a vivenda em que habitávamos, nos arredores de Nápoles (pois a menina gostava muito do mar) e, pretextando uma viagem de um ou dois dias, encarregoume de anunciar àquela que, para bem de todos, resolvera - novo acesso de tosse - irse embora... Mas devo explicar que o senhor James procedeu muito bem, pois havia proposto à menina casála com um homem respeitável, disposto a esquecer o passado e que era o que ela acharia de melhor, matrimonialmente falando, visto a família da menina ser de condição tão humilde.

Recaiu sobre a outra perna e humedeceu os beiços. Eu estava convencido de que o miserável se referia a si mesmo, o que vi confirmado pela expressão de Rosa Dartle.

- Devia eu, também, propor esse casamento. Estava pronto a fazer o pedido e tudo mais que me fosse possível para tirar o senhor James de embaraços e restabelecer a harmonia entre ele e a mãe, que tanto sofria por sua causa. Desempenheime, pois, da comissão. A violência da rapariga, quando se compenetrou da situação depois da partida do senhor James, ultrapassa tudo o que se possa imaginar. Parecia louca e foi necessário segurála à força, porque, no caso de não achar uma faca para se matar ou de não se atirar às ondas, seria pelo menos capaz de partir a cabeça no mármore do chão.

Rosa Dartle, reclinada no espaldar do banco, de cara transfigurada, parecia saborear as palavras que saíam da boca daquele homem.

- Mas - continuou o mordomo, esfregando as mãos com ar confuso - quando cheguei ao segundo recado que o patrão me confiara e que devia, ao que julgo, ser considerado em todo o caso como uma intenção generosa, é que a rapariga se mostrou verdadeiramente como era. Jamais assisti a tamanho acesso de furor! O seu comportamento foi abominável. Não manifestou

nem gratidão, nem sensibilidade, nem paciência, nem bom senso. Se eu não estivesse de sobreaviso, ela termeia matado.

- O que depõe a seu favor - comentei, indignado.

Littimer curvou a cabeça, murmurando: «Realmente, senhor Copperfield? É porque é muito novo.» E prosseguiu a narração:

- Em resumo, necessitei de afastar dela, por algum tempo, qualquer objecto que lhe servisse para atentar contra a sua vida ou de outra pessoa, e conservála encarcerada. Conseguiu, no entanto, escapar de noite, arrancando os postigos que eu pregara por minhas próprias mãos e deixandose cair numa latada por baixo da janela. Depois disto nunca mais se ouviu falar dessa criatura, que eu saiba.

- Decerto morreu - sugeriu a senhora Dartle, com um sorriso, como se tivesse repelido com o pé o cadáver da pobre rapariga.

- Ou talvez se afogasse - opinou Littimer, aproveitando a ocasião para se dirigir a alguém. - É muito possível. Ou encontrou, porventura, socorro entre os pescadores e suas famílias. Como se comprazia na frequentação dessa gente, ia muitas vezes para a praia, conversava com eles e sentavase nas canoas. Aí passava dias inteiros, quando o senhor James estava ausente. O senhor James não gostou quando soube que ela dissera um dia às crianças que também era filha de pescador e que, como elas, correra outrora na praia do seu país.

Ó Emily! Bela e infeliz criatura! Evoqueia sentada nessa costa longínqua, no meio daquelas crianças que lhe recordavam a inocência da sua infância, escutando essas vozitas que poderiam chamála mamã se ela se houvesse tornado mulher de um pobre pescador, e ouvindo a grande voz do mar que exclamava um eterno «Nunca mais!»

- Quando se provou que era desnecessário tentar mais qualquer coisa, minha senhora...

- Já lhe disse que não se dirigisse a mim, Littimer - replicou Rosa Dartle com soberano desdém.

- Foi a senhora que me falou. Peço desculpa. Vou obedecer, que é a minha obrigação.

- Então acabe a sua história e retirese.

- Quando se provou que era inútil procurar mais - recomeçou o criado com ar submisso, sem todavia perder a dignidade - fui encontrarme com o senhor James no lugar para onde deveria escreverlhe e conteilhe o que se havia passado. Trocámos palavras um tanto acaloradas e eu achei preferível deixálo. Suportei muito da parte do meu patrão, mas ele fora longe de mais. Ofenderame. Como conhecia a deplorável desavença entre o senhor James e a mãe, e calculava bem a ansiedade desta, tomei a liberdade de voltar para Inglaterra a fim de a pôr ao facto...

- Pago por mim - elucidou a senhora Dartle.

- Exactamente, minha senhora... a fim de lhe contar o que sabia. Não creio - rematou Littimer após um minuto de reflexão - que haja mais qualquer coisa que seja preciso acrescentar. Estou actualmente sem emprego e gostaria de descobrir um lugar adequado...

Rosa Dartle olhoume, como para inquirir se eu desejava saber mais. Atravessoume o espírito uma ideia, e repliquei:

- Pergunte a este indivíduo - era o qualificativo mais brando que me ocorria - se interceptaram uma carta enviada a essa rapariga pela família ou se ele supõe que ela a recebeu.

Littimer ficou imóvel e mudo, de olhos fitos no chão, unindo as pontas dos dedos da mão esquerda às pontas dos dedos da mão direita. Rosa virouse desdenhosamente para ele.

- Peço perdão, minha senhora - disse o criado, como se emergisse de um sonho - mas, por mais dócil que eu seja, tenho a minha dignidade, embora de servo. A senhora e o senhor Copperfield são duas pessoas diferentes. Se o senhor Copperfield deseja mais alguma informação, tomarei a liberdade de lhe lembrar que pode fazerme directamente a pergunta. Preciso de salvaguardar a minha reputação.

Após uns instantes de luta interior, vireime para o homem e declarei:

- Ouviu a minha pergunta. Considere que lhe foi dirigida pessoalmente, se insiste nisso. Que me responde?

- Senhor Copperfield - retorquiu ele, afastando e aproximando as pontas dos dedos - a minha resposta não pode ser categórica. Trair a confiança do senhor James em relação à mãe e traíla quanto ao senhor, eis duas coisas diversas. É pouco provável, em minha opinião, que o senhor James tenha facilitado a recepção de cartas que aumentariam a tristeza e o mau humor; mas prefiro calarme.

- Mais nada? - interveio Rosa Dartle.

Repliquei que não tinha mais nada que dizer, a não ser, acrescentei quando ele se afastava, que tendo compreendido o papel desempenhado por aquele indivíduo nesta história desagradável, participáloia ao homem honrado que servira de pai à rapariga e, por consequência, lhe recomendava não se mostrasse muito em público.

Littimer parara ao ouvir estas palavras, que escutara com a sua fleuma habitual.

- Muito obrigado, senhor Copperfield. Mas háde desculparme se lhe disser que não há escravos nem negreiros neste país e que ninguém tem o direito de fazer justiça por suas mãos. Portanto, não temo ir aonde me aprouver.

Com isto, inclinouse cortesmente, diante de cada um de nós, e desapareceu atrás da sebe de azevinhos por onde viera. Eu e Rosa Dartle contemplámonos um momento em silêncio;

a sua atitude era exactamente a mesma de quando trouxera aquele homem.

- Além disso - acrescentou ela com ar desdenhoso - diz que o patrão deve andar ao longo das costas de Espanha e que assim continua a satisfazer o seu pendor pela navegação. Não é pormenor, todavia, que o interesse, Copperfield. Entre aqueles dois orgulhosos, a mãe e o filho, o abismo é cada vez mais fundo e muito fraca a esperança de uma reconciliação, pois têm carácter idêntico e são ambos obstinados. Também não é coisa que o interesse, mas justifica o que lhe vou dizer. Esse demónio de quem você faz um anjo, isto é, a criaturinha vulgar que James levantou do lodo, talvez esteja ainda viva - os olhos pretos de Rosa mergulharam nos meus, o dedo trémulo ergueuse - porque os entes vulgares possuem em geral uma constituição rija. Neste caso, você decerto gostaria de encontrar essa pérola valiosa e tomála ao seu cuidado. Igualmente o desejamos, para que James não lhe caia outra vez nas garras. Neste pormenor estamos ligados pelo interesse comum, e eis a razão pela qual, estando eu disposta a fazer à rapariga todo o mal possível, o mandei chamar para ouvir o que acabou de ouvir.

Notei na cara dela que alguém se aproximava por trás de mim. Era a senhora Steerforth, que me estendeu a mão com maior frieza do que antes, exagerando ainda a sua antiga majestade. Contudo surpreendilhe, comovido, a recordação da minha velha amizade pelo filho. Mudara muito. O vulto distinto estava menos erecto, no rosto sulcavamse rugas, os cabelos apresentavamse quase todos brancos. Mas, quando se sentou no banco, pareceume ainda bastante bela. Reconhecilhe os olhos brilhantes, cujo esplendor me obsidiava os sonhos de colegial.

- Rosa, o senhor Copperfield sabe tudo?

- Sim, senhora.

- E ouviu pessoalmente o Littimer?

- Visto que assim era da sua vontade...

- Obrigada, Rosa. Tenho estado em correspondência sucinta com o seu amigo de outro tempo, senhor Copperfield - ajuntou voltandose para mim - mas ele não recuperou o sentimento dos seus deveres filiais. Por isso o meu fito agora é aquele que Rosa lhe indicou. Se se puder tranquilizar esse honesto homem que o senhor trouxe cá, e que eu lastimo (é tudo quanto posso dizer), impedindo ao mesmo tempo o meu filho de recair nas malhas duma intrigante... tanto melhor.

Endireitouse e mirou em frente, para a distância.

- Minha senhora - repliquei respeitosamente - não deixo de a compreender. Não receie que eu dê interpretação maldosa aos motivos que a levam a agir. Mas, conhecedor como sou, desde a infância, dessa desgraçada família, sintome na obrigação de declarar: se supõe que a rapariga a quem fizeram tanto mal

não foi cruelmente enganada e não preferiria agora mil mortes a aceitar um copo de água da mão de James Steerforth, a senhora iludese redondamente!

- Não intervenhas, Rosa - bradou a dona da casa - isto não tem importância. É casado, senhor Copperfield?

Disselhe que efectivamente casara havia já algum tempo.

- E obtém êxito? - continuou ela. - Pouco sei do que se passa por fora, na vida retirada que levo; mas constame que o senhor começa a adquirir nome...

- Bafejoume a sorte e, de facto, elogiamme...

- Já não tem mãe? - A voz dela tornarase mais suave.

- Não, senhora.

- É pena. Orgulharseia do filho. Boa noite!

Tomei a mão que me estendeu com uma dignidade inflexível. Essa não estava tão calma como se a paz remasse naquele espírito; o orgulho da senhora Steerforth mandava até nas palpitações do coração e fazia espalharselhe na cara essa máscara de placidez através da qual ela olhava a direito para o horizonte longínquo.

Ao afastarme, pelo terraço adiante, não me coibi de observar a atenção que as duas senhoras davam à perspectiva urbana que se entenebrecia, como que a fecharse de roda delas. Aqui e ali cintilavam as primeiras luzes na cidade distante; sobre o bairro do poente atardavase, no céu, uma claridade lívida. Mas, em baixo, o nevoeiro subia do vale como uma onda que se perdia no escuro, e essa maré cheia parecia submergir a mãe e a prima de James. Tenho razões para me lembrar da cena e de o fazer com terror, pois quando tornei a ver as duas mulheres um mar tempestuoso soltaraselhes aos pés.

Competiame informar Daniel Peggotty do que havia sabido. No dia seguinte, à noite, parti pelas ruas de Londres em sua procura. Ele errava sempre, tomado da ideia fixa de descobrir a sobrinha, e estava mais frequentemente na capital do que noutra parte qualquer. Quantas vezes o topara percorrendo essas vias para ver se encontrava a horas mortas aquela que tanto receava aí achar!

Conservava o quarto alugado por cima da mercearia de Hungerford Market, de que já falei noutras ocasiões, e donde saía para se consagrar à sua vagabundagem misericordiosa. Foi lá que compareci. Quando perguntei por ele, as pessoas da casa disseramme que ainda estava no aposento.

Lia sentado ao pé da janela, em cujo peitoril se ostentavam vasos de flores. O quarto era de uma ordem, de um asseio meticuloso. Vi logo que Peggotty o desejava sempre pronto a receber a sobrinha e que nunca saía sem pensar que a poderia trazer consigo. Não me ouviu bater e só ergueu a vista ao sentir a minha mão poisarselhe no ombro.

- O menino Davy! Oh, quanto lhe estou grato! Do fundo da alma lhe agradeço esta visita. Sentese por favor. Muito me alegra vêlo.

- Senhor Peggotty - disse eu, aceitando a cadeira que me apresentava - não tenha muita esperança. Recebi notícias...

- De Emily?

Levou a mão à boca, nervosamente, e empalideceu, fitando os

olhos nos meus.

- Não sei onde se esconde, mas a verdade é que já não está com ele.

Sentouse, olhandome sempre, e escutoume num silêncio profundo. Não esqueço a impressão de dignidade, até de beleza, que me deu a gravidade resignada desse rosto quando, tendo a pouco e pouco desviado a vista, curvou a cabeça e apoiou a testa na mão. Não me interrompeu uma única vez e ficou durante todo o tempo perfeitamente imóvel. Parecia que acompanhava, através do meu relato, o vulto de Emily e desdenhava todos os outros como sombras sem valor.

Quando acabei, ele cobriu a cara com as mãos e ficou calado. Olhei para a janela e, por momentos, admirei as flores.

- Que se lhe afigura tudo isto, menino Davy? - perguntoume por fim.

- Creio que está viva - respondi.

- Não sei. O abalo devia ter sido muito violento e quem sabe se, desvairada... Essa água azul de que ela falava tanto... Se pensava tanto no mar, anos a fio, é que o mar devia ser o seu túmulo.

Pronunciou lentamente estas palavras, em voz baixa e como se assustado, ao mesmo tempo que passeava no quarto.

- Contudo, menino Davy - acrescentou - também me parece que está viva. É o meu pressentimento. Heide encontrála, é uma ideia que me tem conduzido e sustentado por tanto tempo que não posso acreditar que me engane. Não! Emily está viva.

Bateu com a mão na mesa e a cara tisnada tomou um ar de resolução irredutível.

--A minha Emily vive, menino Davy!-declarou com firmeza. - Não sei onde nem como, mas há uma voz que mo diz.

Tinha uma aparência de inspiração ao pronunciar estas palavras. Esperei um instante até que ele pudesse concederme toda a sua atenção; em seguida principiei a explicarlhe as precauções que, na véspera à noite, achara ser conveniente tomar.

- E agora, meu caro amigo... - comecei.

- Muito obrigado pela sua bondade - exclamou, apertandome a dextra.

- É provável - prossegui - que venha a Londres, onde mais facilmente se poderá esconder, e esconderse háde ser o seu maior desejo... A não ser que regresse a casa.

- A casa não voltará - volveu Peggotty abanando tristemente a cabeça. - Talvez o fizesse, se houvesse partido noutras circunstâncias, mas assim...

- Se vier a Londres - sugeri - julgo haver uma pessoa que tem probabilidades de a encontrar. Escuteme, meu amigo, e pense no seu generoso projecto. Lembrase de Martha?

- Minha conterrânea?

- Essa mesma. Sabe que está nesta cidade?

- Via por essas ruas - respondeume com um arrepio.

- Mas não sabe que a Emily se mostrou condoída de Martha, assim como Ham, muito antes da fuga, e que ela escutou a nossa conversa, atrás da porta, quando entrámos num café.

- Menino Davy! - disse o pescador, estupefacto. - Naquela noite em que nevava tanto?

- Justamente. Não a tornei a ver depois disso. Fuilhe ainda no encalço, mas a rapariga desaparecera. Não achei conveniente mencionar o nome diante de si, meu amigo, mas pareceme agora que devemos procurála. É uma pista. Compreende?

- Muito bem, menino Davy.

Baixáramos a voz e continuámos a falar num sussurro. - Diz que não a viu? Acha que poderemos descobrila? Quanto a mim, só por um acaso.

- Talvez eu saiba onde topála, menino Davy.

- Já é noite. Visto que estamos juntos, aproveitemos o ensejo e vamos tentar descobrila.

Daniel Peggotty anuiu e preparouse para me acompanhar. Fingindo que o não observava, notei no entanto que ele arranjava cuidadosamente o quarto, punha à mão uma vela e acessórios, compunha a cama e tirava duma gaveta um vestido de Emily (que me lembrava de já ter visto e que estava muito bem dobrado juntamente com os outros). Colocouo em cima da cadeira, com alguma roupa branca e uma touca. Abstevese de fazer qualquer comentário ao facto, e eu seguilhe o exemplo. Quantas vezes já devia ele ter feito esses preparativos noite após noite!

- Houve um tempo - disse ele ao descer a escada - em que essa Martha me parecia boa para servir de lama aos sapatos de Emily. Deus me perdoe, como mudei!

Pelo caminho, parte para entreter a conversa, parte para satisfazer a curiosidade, pedilhe notícias de Ham. Respondeume quase nos mesmos termos que outrora: Ham não alterara os seus hábitos, continuava sem gosto pela vida, mas era incapaz de se queixar e toda a gente o estimava.

Indaguei se Daniel conhecia o estado de espírito do sobrinho quanto ao responsável da desgraça que afligia a todos. Se achava perigo nessa disposição e o que faria Ham se se encontrasse algum dia frente a frente com Steerforth.

- Não sei, menino Davy. Tenho pensado nisso muitas vezes, mas não cheguei a qualquer conclusão.

Recordeilhe o nosso passeio matutino na praia, depois de Emily ter partido.

- Lembrase - perguntei - do seu ar desvairado ao olhar para as ondas e da maneira como falou do «fim de tudo»?

- Lembrome, sim.

- Em sua opinião, que queria ele dizer?

- Menino Davy, muita vez perguntei isso a mim mesmo e nunca fui capaz de responder. Coisa curiosa: apesar de saber que é pessoa branda, não me arrisco a averiguar qual a sua intenção. Sempre me falou o mais respeitosamente possível e não me parece que vá agora mudar; no entanto, o seu pensamento não é claro, é um mar fundo onde as ideias se agitam e eu nada consigo discernir.

- Tem razão. Também a mim me inquieta.

- E ainda os seus modos destemidos, embora igualmente resultem da alteração que nele se produziu. Não creio que jamais faça mal a quem quer que seja, e contudo preferia que esses dois homens nunca se encontrassem.

Acabávamos de entrar no centro da cidade pelo Temple Bar. Daniel Peggotty calouse e, caminhando a meu lado, abandonouse ao pensamento que ocupava toda a sua vida. Andava com aquela concentração de espírito que fazia dele uma pessoa silenciosa e solitária no meio da multidão. Aproximávamonos da Blackfriars Bridge quando Daniel se voltou para me mostrar o vulto de uma mulher que errava só do outro lado da rua. Reconheci logo Martha. Atravessámos para lá e apressámos o passo a fim de a alcançar; mas pensei que ela estaria decerto mais disposta a falar de Emily se a convidássemos a ir a um sítio tranquilo, onde ninguém reparasse em nós. Aconselhei, pois, o meu companheiro a seguila em vez de a fazer parar, com a vantagem ainda de sabermos para onde é que se dirigia.

Daniel aquiesceu e nós seguimola de longe, sem nunca a perder de vista. Entretanto tomámos precauções para que ela não nos visse. Martha detevese em certa altura, para escutar uma banda de música; imitámola.

Depois deambulou por muito tempo. Fomos sempre no seu encalço. Era evidente, pela maneira como regulava o passo, que se encaminhava para lugar determinado. Isto, combinado com o facto de que ela vagueava muito pelas ruas mais frequentadas e também com a ideia da estranha fascinação que existe em seguir alguém misteriosamente, levoume a persistir na minha primeira ideia. Por fim, a rapariga virou para uma rua sombria e menos barulhenta.

- Agora podemos abordála - disse eu. E estugámos o passo na sua peugada.