David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 57. OS EMIGRANTES
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Antes de me abandonar à minha mágoa, devia ainda ocultar estes acontecimentos aos que partiam, e despedirme deles com ar de ignorância feliz. Não podia perder tempo.

Nessa mesma noite, chamei de parte Wilkins Micawber e encarregueio de impedir que a notícia das tristes ocorrências chegasse aos ouvidos de Daniel Peggotty. Micawber aceitou com entusiasmo esta missão e prometeume interceptar todos os jornais, sem o que seria impossível evitar o conhecimento da catástrofe.

- Para que ele os saiba - declarou - será preciso passar sobre o meu cadáver!

Devo informar que Micawber, para se adaptar à sua vida nova, tomara um aspecto de filibusteiro audaz, não bem à margem da lei mas antes na defensiva e muito vivo e pronto. Podiase supôlo um homem bastante confinado a uma região erma, longe da civilização e prestes a voltar à solidão nativa.

Entre outras coisas, obtivera um equipamento completo de oleado e chapéu de palha, de copa baixa, exteriormente alcatroado. Quando deambulava com esse traje rude, com um óculo de longo alcance debaixo do braço, disposto a perscrutar o céu e o horizonte, assemelhavase mais a um marítimo do que o próprio Daniel. O resto da família estava também apto a entrar em acção. A mulher usava chapéu de fitas bem amarradas ao queixo, e envolviase num xaile que a fazia parecerse (como eu na célebre noite da minha chegada a casa da tia Betsey) com um verdadeiro embrulho atado fortemente pelo lado de trás da cintura. A filha enfronharase igualmente, na previsão das piores tempestades e sem o menor adorno. O filho primogénito quase desaparecia numa camisola de lã, com óptimas calças de fazenda peluda como eu nunca vira. Quanto aos pequenos, andavam enfardados, como conservas, em forros impermeáveis. Micawber e o rapaz mais velho arregaçavam as mangas no punho a fim de estar prontos a dar um murro, a tropeçar ou a soltar o grito de «Iça!» à menor advertência.

Foi assim que nos encontrámos ao cair da noite. Traddles e eu, instalados nos degraus de pau então conhecidos pelo nome de Escada de Hungerford, dispúnhamonos a observar a partida de um navio que transportava grande parte dos seus bens.

Eu contara a Traddles a medonha tragédia e ele ficara profundamente impressionado, mas achava também que a caridade nos ordenava que a mantivéssemos secreta e queria ajudarme

nessa obra de misericórdia. Nessa ocasião é que tomei Micawber de parte e obtive a sua promessa de guardar segredo.

Os Micawbers haviamse hospedado por cima de uma taberna suja e arruinada, próximo desses degraus, e cujos quartos de tabiques de madeira davam para o rio. Como emigrantes, suscitavam a curiosidade de Hungerford e arredores. Atraíam tanto o interesse dos habitantes que nos vimos forçados a procurar refúgio naqueles aposentos. Era uma das divisões de ressalto do prédio, com as águas fluviais correndo em baixo. A minha tia e Agnes estavam ali ocupadas a confeccionar vestidos para as crianças poderem mudar durante a viagem. A velha criada Peggotty auxiliavaas na tarefa, muito calada, com a sua eterna caixa de costura, a sua fita métrica e o coto de vela, que tinham sobrevivido já a tanta coisa!

Não foi fácil responder às perguntas que nos fizeram, e muito menos sussurrar à Peggotty, quando Micawber lhe disse que entrasse, que eu entregara a carta e que tudo ia bem. Se deixasse transparecer um pouco da minha comoção, o próprio luto que usava bastaria para a justificar.

- E quando parte o navio, senhor Micawber? - perguntou a senhora Trotwood.

Micawber achou necessário preparálas gradualmente, quer a tia Betsey quer a mulher, para essa notícia, pois declarou apenas que seria mais cedo do que na véspera se supunha.

- Preveniramno, naturalmente...

- Sim, senhora.

- Então quando parte?

- Disseramme que estivéssemos a bordo, sem falta, antes das sete horas da manhã.

- Côa breca! É muito cedo! - exclamou a tia. - Será por motivos relacionados com a navegação, senhor Peggotty?

- Deve ser, minha senhora. O barco descerá o rio antes da maré. Se o senhor Davy e a minha irmã forem a Gravesend, no outro dia, pelas doze horas, vernosão aí pela última vez.

- Lá estaremos, sem dúvida - asseverei.

- Até lá - observou Micawber lançandome um olhar entendido - eu e o senhor Peggotty não perderemos de vista a nossa bagagem. Emma, meu amor -, continuou ele, pigarreando e assumindo o ar mais distinto que podia - o meu amigo doutor Thomas Traddles teve a bondade de me sugerir, em segredo, que fosse requisitar os ingredientes necessários à composição de uma quantidade moderada dessa bebida que está intimamente ligada na nossa memória ao rosbife da Velha Inglaterra. Enfim, refirome ao ponche. Em tempos normais não hesitaria em requerer a indulgência das senhoras Trotwood e Wickfield, mas...

- Tudo o que posso dizer - retorquiu Betsey - é que brindarei com o maior prazer à sua felicidade e êxito, senhor Micawber.

- E eu também - disse Agnes, sorridente.

Em seguida Micawber desceu ao botequim, onde tinha o ar de quem estava em casa, e voltou com um cântaro fumegante. Não pude deixar de notar que ele descascara todos os limões com o seu canivete, o qual (como convém a um colono experimentado) tinha comprimento razoável, e que depois limpou, com certa ostentação, na manga do casaco. Percebi então que a senhora Micawber e os dois filhos mais velhos possuíam também esses instrumentos temíveis, ao passo que cada um dos mais novos trazia uma simples colher de pau segura por um fio sólido. Sempre para se preparar quer para vida no mar ou na selva, Micawber, em vez de servir o ponche, à mulher e aos dois filhos mais velhos, em copos, o que poderia fazer facilmente, porque havia abundância deles, apresentoulhes a bebida dentro de púcaros de estanho, que depois tornou a guardar na algibeira.

- Renunciamos - disseme com intensa satisfação o senhor Micawber - a todo o conforto da velha mãepátria. Os habitantes da floresta não podem esperar, naturalmente, participar dos requintes do país da Liberdade.

Nessa altura veio um garoto dizer a Micawber que o esperavam em baixo.

- Tenho o pressentimento - disse a mulher dele - que é alguém da minha família.

- Nesse caso, minha querida - observou o marido com a impetuosidade costumada quando se falava desse assunto - como esse membro da tua família, seja qual for, nos tem feito esperar tanto tempo, agora é ocasião de esperar por sua vez.

- Micawber - replicou a mulher, baixando a voz - numa situação destas...

- Emma - redarguiu ele, levantandose - as minhas culpas são sempre as mesmas. Continuo a ser um réprobo.

- Os meus parentes parece que, por fim, se convenceram do mau procedimento havido até agora - ripostou a mulher. - Se querem estenderte a mão, não a recuses!

- Pois seja, minha querida.

- E se não for por eles, ao menos fálo por mim, Micawber.

- Esse aspecto da questão é, neste momento, irresistível. Não estou disposto a cair nos braços de nenhum membro da tua família; contudo, esse que espera lá em baixo não verá a sua cordialidade frustrada.

Micawber saiu e esteve ausente uns minutos, durante os quais Emma deu mostras de recear que se ouvisse qualquer discussão entre o marido e o «parente». Por fim reapareceu o mesmo garoto, que me apresentou um papel escrito a lápis, no qual eu li esta fórmula jurídica: «Heep contra Micawber».

Por aí soube que ele fora de novo preso e, no cúmulo do desespero, me suplicava lhe mandasse o canivete e o copo (coisas que por acaso tirara do bolso pouco antes) porque lhe podiam ser úteis durante os breves instantes em que teria ainda de viver encarcerado. Pediame também, como derradeira prova de amizade, que acompanhasse a família ao hospício da paróquia e esquecesse que jamais existira um ente como ele.

Como resposta, desci naturalmente ao résdochão para lhe dar o dinheiro preciso, e achei Micawber sentado a um canto, a olhar carrancudo para o meirinho responsável pela sua captura. Uma vez saldada a dívida, e ele liberto, abraçoume com fervor, e em seguida apontou a transacção no seu canhenho, tomando cuidado em não omitir nem a mais pequena fracção da soma liquidada.

Essa famosa agenda lembroulhe outra transacção. De regresso ao quarto (onde explicou a ausência dizendo que fora retido por circunstâncias alheias à sua vontade), exibiu uma enorme folha de papel dobrado em muitas partes e coberta de numerosas operações feitas com esmero. Do relance de olhos que lhe deitei, devo confessar que nunca vi tais somas figurarem num caderno de apontamentos. Parece que se tratava de cálculos de juros compostos sobre o que ele chamava um «total de quarenta e uma libras, dez xelins e onze dinheiros e meio» em períodos variáveis. Após exame atento a esses cálculos e uma avaliação rigorosa dos seus recursos, conseguiu estabelecer a soma exacta, com os tais juros durante dois anos, quinze meses e catorze dias, a partir da presente data. Pela importância assim obtida preencheu uma letra, que entregou logo a Traddles, como quitação completa da sua dívida (sempre de «homem para homem») e com toda a espécie de agradecimentos.

- Tenho ainda o pressentimento - disse a senhora Micawber, meneando a cabeça com ar pensativo - de que a minha família fará a sua aparição a bordo antes da nossa partida.

Micawber deu a impressão de também ter pressentimentos a esse respeito, mas afundouos no copo e engoliuos com o ponche.

- Se tiver oportunidade de escrever para Inglaterra - disse a senhora Trotwood à senhora Micawber - não se esqueça de nos dar notícias suas.

- Sintome feliz por saber que desejam as nossas notícias - ripostou a última. - Eu não deixarei de lhes escrever. O senhor Copperfield, como velho amigo íntimo, igualmente se não recusará a enviarnos uma carta de tempos a tempos, ele que conheceu os gémeos quando ainda vagiam!

Informeia de que teria sempre muito gosto em retribuir a correspondência recebida.

- Se Deus quiser - interveio Micawber - não faltarão ocasiões. O oceano, nestes dias, está repleto de navios. Não deixaremos

de encontrar alguns durante a travessia. No fim de contas, é uma pequena viagem - acrescentou, brincando com o monóculo. - A distância é puramente imaginária.

Que estranha coisa, penso hoje, ouvir Micawber falar de uma viagem da Inglaterra à Austrália como de um simples passeio à Mancha, ao passo que ele mesmo, referindose a uma ida de Londres a Cantuária, se expressava como quem fosse de uma ponta a outra do mundo!

- Diligenciarei - dizia o nosso amigo - durante a travessia, por lhes contar histórias, e penso que as melodias de meu filho Wilkins serão apreciadas do mesmo modo. Quando minha mulher se habituar ao balanço do navio, creio que não terá dúvida em cantar alguma peça do seu repertório. Espero ver muitas vezes golfinhos, tanto a bombordo como a estibordo. Não faltarão espectáculos interessantes. Em suma - concluiu com toda a distinção de outrora - é provável que a viagem seja tão excitante que nós fiquemos desconsolados quando o vigia gritar finalmente «Terra!»

Com isto, esvaziou o copo de estanho, num gesto gracioso, como se terminasse na realidade uma viagem e passasse, com brilho, no exame feito perante grandes autoridades navais. A mulher falou por seu turno:

- Confio, senhor Copperfield, em que certos ramos da nossa família se perpetuem no solo da pátria. Não te faças carrancudo, Micawber! Não me refiro à minha família propriamente dita, mas aos filhos dos nossos filhos. Por mais forte que seja a vergôntea, não posso esquecer a árvore que lhe deu origem - murmurou oscilando a cabeça. - E quando a nossa linhagem atingir as honrarias e a riqueza, confesso que gostaria de ver essa riqueza entrar nos cofres da velha Albion.

- Minha querida - replicou o marido - que a velha Albion se arranje sozinha! Devo dizer que ela nunca fez muito por mim e que não tenho nada com que me regozijar.

- Não tens razão, Micawber! Partes para esse país longínquo não para enfraquecer mas para fortificar os laços que nos unem à mãepátria.

- Esses laços, minha filha, repito que nunca me impuseram tais obrigações que me levem a hesitar em atar novos laços.

- Mais uma vez, Micawber, digo que não tens razão. Não conheces as tuas possibilidades. São elas que, mesmo nas circunstâncias futuras, reforçarão esses laços que nos unem à pátria.

Micawber, de sobrancelhas erguidas, escutava do fundo da sua poltrona, ora aprovando ora repudiando os pontos de vista da mulher conforme ela os ia expondo - mas deveras compenetrado da sua previdência.

- Caro senhor Copperfield - prosseguiu ela, virandose para mim - pareceme bastante desejável que Micawber, logo a seguir à partida, se convença da sua situação. Sabe que eu não

partilho as opiniões optimistas do meu marido. Sou, se me permitem, essencialmente prática. Não ignoro que esta viagem é muito comprida, e que não deixará de haver privações e aborrecimentos. Mas sei, por outro lado, o que vale Wilkins Micawber. Conheçolhe as faculdades latentes, por isso acredito que é de importância vital para ele compenetrarse da sua posição.

- Meu amor, talvez me autorizes a observar ser mais provável que eu me compenetre dessa posição no momento presente.

- Não acho, Micawber. Não de todo. Veja, senhor Copperfield: o caso do meu marido é especialíssimo. Micawber parte para um país distante com o único propósito de ser compreendido e apreciado pela primeira vez na sua vida. Desejo que ele se coloque à proa desse navio e declare com firmeza: «Venho conquistar este país. Tendes honrarias para me dar? Tendes riquezas? Lugares bem retribuídos? Ofereceimos! Mereçoos.»

Micawber olhounos: dirseia concordar com a ideia.

- Desejo ainda - continuou Emma, com o seu ar pousado - que Micawber seja o César do seu próprio destino. Eis, senhor Copperfield, o que me parece ser a verdadeira posição. Desde o primeiro dia da viagem, ele devia colocarse à proa e dizer: «Basta de demoras e de decepções! Basta de pobreza! Tudo isto era bom no velho mundo. Aqui é o novo. Soou a hora das reparações. Que elas se apresentem!»

O marido cruzou os braços com ar resoluto, como se já estivesse à proa do navio.

- E se ele agir assim, se compreender as suas possibilidades, não tenho razão em afirmar que Micawber, em lugar de os enfraquecer, fortalecerá os braços que o prendem à GrãBretanha? Se, naquele hemisfério, se afirmar uma grande personalidade, quem me diz que a sua influência se não fará sentir na Inglaterra? Como se pode admitir que ele, erguendo o ceptro do poder na Austrália, não seja ninguém na velha pátria? Sou apenas mulher, mas não seria digna de mim, nem do meu pai, se acreditasse em semelhante absurdo!

A convicção da senhora Micawber quanto ao valor dos seus argumentos dava àquela eloquência uma elevação moral que eu ainda lhe não conhecia.

- E eis porque - rematou ela - eu desejo tão ardentemente regressar ao solo natal. É possível... direi mesmo provável... que Micawber entre na História, e convém que esteja representado neste país que lhe deu o ser mas se recusou a empregálo.

- Minha querida - atalhou o marido - é impossível não me sentir impressionado pelo teu afecto. Admirei sempre o teu bom senso. O que for soará. Não queira Deus que eu recuse à minha terra parte das riquezas que os meus descendentes decerto acumularão.

- Muito bem - disse a tia Betsey, com um sinalzinho de cabeça a Daniel Peggotty - e eu brindo à sua saúde e ao êxito de todos. Que as bênçãos do Céu os acompanhem!

Peggotty colocou no chão os dois pequenos Micawbers, que tinha nos joelhos, para se reunir ao casal e beberem todos pelas intenções manifestadas. Apertou a mão dos dois, como de camaradas, e o rosto iluminouselhe com um sorriso. Previ que ele seria amado e respeitado em toda a parte onde estivesse.

Micawber autorizou até os miúdos a molhar as suas colheres de pau no copo dele, para comungarem do brinde. Acabado este, a tia Betsey e Agnes puseramse de pé e despediramse dos emigrantes. Os adeuses foram melancólicos. Todos choraram; os pequeninos agarraramse a Agnes até ao último minuto, e nós deixámos a pobre senhora Micawber inconsolável, pranteando e soluçando à débil claridade de uma vela, que vista do exterior devia assemelharse a um tristíssimo farol.

No dia seguinte voltei para saber se eles já tinham partido. Haviam seguido numa lancha às cinco horas da manhã. Compreendo melhor do que nunca o vácuo que provocam tais separações ao sentir como esse botequim de soalho oscilante, onde os vira na véspera à noite, me parecia desolado, agora que eles já não o ocupavam.

No dia seguinte à tarde fomos para Gravesend, eu e a minha velha criada. Vimos o navio a meio do rio, cercado de uma chusma de lanchas. O vento era favorável. O sinal de partida flutuava no topo do mastro. Aluguei imediatamente uma canoa para nos levar a bordo. Depois de haver atravessado aquele turbilhão em que a azáfama era enorme e de que o navio era o centro, chegámos junto do costado. Daniel recebeunos na coberta. Disseme que Micawber acabava de ser preso mais uma (e última) vez a requerimento de Heep, e que (satisfeito o meu pedido) ele, Peggotty, liquidara a dívida. Reembolseio. Em seguida o emigrante conduziunos à entreponte. Aí se dissiparam os meus receios de que o boato dos acontecimentos de Yarmouth pudesse ter chegado aos seus ouvidos, pois Micawber surgiu da sombra, enfiou o braço no de Daniel, com ar de protecção amigável, e declaroume que nunca se haviam separado desde o embarque.

O lugar era tão insólito para mim, tão escuro e estreito, que de começo não pude distinguir nada; mas a pouco e pouco os olhos habituaramse à obscuridade e eu julgueime no meio de um quadro de Van Ostade(1). Entre barrotes, caixas, tábuas e peças várias do navio, beliches, malas, embrulhos, barris e pertences dos emigrantes, iluminados aqui e ali pela claridade amarelada que descia de lanternas suspensas e oscilantes e de uma escotilha ou respiradouro, acumulavamse grupos de pessoas que entabulavam novos conhecimentos, ou se despediam, que riam, falavam, choravam, comiam ou bebiam; uns já estavam instalados como em sua casa, no cantinho que lhes fora atribuído, com os pequenos sentados em tamboretes ou cadeirinhas; outros porfiavam por descobrir lugar de repouso e erravam como almas penadas. Desde as crianças quase recémnascidas até aos velhos, havia de todas as idades. Desde os agricultores que traziam terra da pátria na sola das botas até aos ferreiros que mostravam na pele restos de fuligem e de fumo, viamse representantes de todas as profissões, ali se acotovelando no pouco espaço da entreponte. Como deixasse correr o olhar em volta de mim, julguei ver, sentado perto de uma portinhola aberta, um dos pequenos Micawbers ao lado de uma rapariga parecida com Emiily. A minha atenção foi atraída para ela pelo facto de que alguém a deixava depois de a ter beijado: essa pessoa, deslizando suavemente pelo meio daquele rebuliço, deume a impressão de ser Agnes. Mas perdi-a de vista naquela confusão de idas e vindas e na agitação do meu próprio espírito. Compreendi que era chegado o momento de os visitantes abandonarem o navio. A minha velha criada Peggotty chorava sentada no baú, junto de mim, e a senhora Gummidge, auxiliada por uma rapariga vestida de preto, acomodava a bagagem de Daniel. Este perguntoume:

*1. Adriaen van Ostade, pintor holandês (1610-84), especializado em cenas de tabernas, entre fumo e bebidas.

- Tem algumas palavras para nos dirigir antes de partirmos? Teremos esquecido alguma coisa?

- Uma coisa só: Martha.

Daniel tocou no ombro da mulher de quem eu acabava de falar, e Martha surgiu à minha frente.

- Ah, digno homem que você é! - exclamei. - Deus o abençoe! Levaa consigo, não é verdade?

Ela respondeu por ele, desfazendose em soluços. Não pude dizer mais nada, mas apertei com força a mão do pescador.

Os visitantes esvaziavam o navio. Restavame fazer o mais difícil. Repeti a Daniel o que me encarregara de lhe transmitir o sobrinho. Daniel ficou profundamente comovido. Quando, porém, me recomendou retribuísse a Ham as provas de afecto e de saudade, ainda maior foi a minha comoção.

Soara a hora. Abraceio, tomei pelo braço a minha criada e afasteime rapidamente. Na coberta, encontrei a senhora Micawber, que lançava derredor olhar desvairado na esperança de ver aparecer a família. As suas últimas palavras foram para me dizer que jamais se separaria do marido.

Descemos para a nossa canoa e aguardámos, não muito longe, que o navio levantasse a âncora. A tarde estava calma e clara. O barco ficava entre nós e o poente, e cada mastro, cada verga se salientava no fundo avermelhado. Nunca vi nada de tão belo, nada que inspirasse tanta tristeza e esperança, ao mesmo tempo,

como esse esplêndido navio imóvel nas ondas purpúreas, e todas aquelas cabeças que se comprimiam nos paveses, numa expectativa silenciosa.

Um momento só. Logo que as velas se enfunaram ao sopro do vento e o navio estremeceu, de todas as embarcações pequenas que o rodeavam estrugiram aclamações vibrantes, imitadas pelos que iam a bordo e que entre uns e outros se repetiam como um eco. O coração pareceume que rebentava quando ouvi esses gritos e vi agitaremse lenços e chapéus. E então descobria, a ela!

Estava ao lado do tio, agarrada ao seu ombro, trémula. Ele designoume com mão febril e ela, divisandonos, lançoume com um gesto o derradeiro adeus.

Ah, sim, Emily, tão bela e abatida, continua sob a sua protecção, porque ele te foi sempre fiel no seu grande amor!

Nimbados de luz rósea, de pé no convés, ambos distanciados dos outros, ela cingida a ele, ele amparandoa com ternura, os dois se afastaram da minha vista a pouco e pouco. A noite descera sobre as colinas de Kent quando alcançámos a costa. Emily pesavame, sombria, no coração.