David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 59. REGRESSO
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Desembarquei em Londres por uma tarde de Outono fria e chuvosa. Vi mais lama e nevoeiro num minuto do que vira durante um ano. Tive de ir a pé desde a Alfândega ao Monumento antes que encontrasse um trem; e embora as fachadas dos prédios que se erguiam acima dos passeios invadidos pela enxurrada fossem para mim velhos conhecimentos, não me coibi de pensar que eram conhecimentos pouco asseados.

Tenho pensado várias vezes que a partida de um sítio familiar parece sempre ser o sinal de uma alteração. Quando notei, pela portinhola da carruagem, que uma antiga casa da Fish Street, respeitada desde muito tempo pelos pintores, carpinteiros e pedreiros, fora demolida na minha ausência e que alargavam uma rua vizinha, cuja estreiteza e insalubridade eram proverbiais, quase esperei achar a catedral de São Paulo imensamente envelhecida.

Preparavame assim a deparar mudanças na vida dos meus amigos. A tia Betsey estabelecerase novamente na sua vivenda de Dover, e Traddles começara a ter uma clientela sofrível, como advogado, logo após a minha saída. Vivia na Gray's Inn e disserame numa das suas últimas cartas que tencionava unirse finalmente à mais adorada rapariga do mundo.

Esperavamme para o Natal, mas não pensavam que eu chegasse tão cedo. Deixavaos de propósito laborar no erro para ter o gosto de os surpreender. Contudo fui suficientemente perverso para experimentar certa decepção verificando que ninguém me aguardava, obrigado assim a ir só e silencioso no meu trem, pelas ruas nevoentas..

Todavia consolaramme um pouco as lojas mais famosas, com os seus escaparates bem iluminados. Quando me apeei, diante do café da Gray's Inn, recuperara por completo o bom humor. Lembreime então do tempo, tão diverso, em que me hospedara na Golden Cross e de todas as vicissitudes que se lhe seguiram. O caso, porém, era bastante natural.

- Sabe onde é que mora o doutor Traddles? - perguntei ao criado, enquanto me aquecia ao fogão na sala do café.

- Holbom Court, número 2.

- Creio que o doutor Traddles se tem feito notar como advogado...

- Não sei de nada - replicoume. - Mas é provável.

E o sujeito, que era de meiaidade e descamado, pediu melhor informação a um colega, homem robusto, de vasta papada, pessoa de maior autoridade. Este surgiu de uma espécie de banco

de igreja, onde estava com uma caixa, a lista dos telefones, um anuário dos tribunais e outra papelada diversa.

- O doutor Traddles - repetiu o criado anémico - é no n.º 2, no pátio, não é verdade?

O outro despediuo com um gesto e voltouse gravemente para mim.

- Eu perguntava se o doutor Traddles, do n.o 2, no pátio, não começava a ser conhecido como advogado - expliquei ao empregado robusto.

- Nunca ouvi falar - replicoume com voz cheia e rouca. Tive pena do Traddles.

- Deve ser pessoa nova - opinou ele, olhandome com severidade. - Há quanto tempo mora esse senhor aqui?

- Há mais de três anos.

O interpelado, que ali vivia pelo menos há quarenta anos, não podia evidentemente prosseguir um assunto tão pouco interessante. Indagou o que é que eu desejava comer e eu compenetreime de que, de facto, me encontrava outra vez na Inglaterra. Sentiame desconcertado quanto ao renome do pobre Traddles, pensando que não havia qualquer esperança de futuro para ele. Encomendei docilmente peixe e um bife e meditei defronte do lume sobre a obscuridade do meu amigo.

Percorri com o olhar o salão, cujo soalho tinha areia espalhada. O tampo das mesas, brilhante, reflectia a intensidade dos focos de luz; os reposteiros, que eram espessos, verdes, e pendiam de varões de cobre, dividiam o café em pequenos gabinetes íntimos; os dois fogões chamejavam; havia filas de garrafas cheias, e, contemplando tudo isso, pensei na dificuldade de tomar de assalto tanto a Inglaterra como o foro. Entretanto subia ao meu quarto para mudar de roupa, que estava molhada. As proporções daquele velho aposento forrado de papel, por cima da porta de entrada, a imensidade tranquila da cama de dossel, a gravidade impassível da cómoda, tudo parecia conjugarse para ameaçar implacavelmente as esperanças de Traddles e de todos os moços temerários. Tornei à sala, para jantar. E ainda aí, a lentidão prudente do serviço, o silêncio apaziguador dos lugares deixados vazios pelos hóspedes em férias tudo isto me falava eloquentemente da audácia do Traddles e das poucas probabilidades que ele tinha de vincar a sua situação antes de decorridos vinte anos.

Nunca eu vira nada semelhante depois da minha partida e senti quanto eram vãs as esperanças que depositara no meu amigo. O primeiro dos dois criados não se arriscou muito pelas imediações, consagrandose de preferência ao serviço de um senhor de idade, de polainas, diante de quem um copo de vinho do Porto, colheita especial, parecia ter ido instalarse de moto próprio, porque não dera nenhuma ordem nesse sentido. O outro criado explicoume que o senhor de idade era um notário aposentado, que habitava ali e tinha dinheiro a rodos.

Constava que ia deixar todos os seus bens à filha da lavadeira, e que possuía um faqueiro de prata primoroso, fechado numa secretária e muito embaciado pela falta de uso. Em sua casa nunca se vira à mesa mais de um talher. Nesta altura deixei de pensar em Traddles, convicto de que não restava a mínima esperança ao rapaz.

Não obstante, ansioso como estava de ver Traddles, ingeri à pressa o meu jantar e saí pela porta que dava para o pátio. Encontrei sem dificuldade o n.o 2. O letreiro ali afixado informoume que o causídico ocupava um apartamento no último andar. Subi para lá. A escada era velha e desconjuntada, mal alumiada em cada patamar por uma lamparina bruxuleante de vidro imundo.

Tropeçando nos degraus, julguei ao mesmo tempo ouvir francas gargalhadas, um riso que não era de advogado nem de empregados seus, mas antes de raparigas, duas ou três raparigas muito animadas. Todavia, ao determe para escutar, tive a infelicidade de meter o pé num buraco e de trambolhar ruidosamente. Quando me levantei, fizerase silêncio. Acabei a minha ascensão um pouco às apalpadelas e devagar, e o coração pulsoume com força ao descobrir uma porta em que havia um bilhetedevisita de Traddles. Bati. Houve idas e vindas precipitadas, mas nada mais. Bati segunda vez.

Um homenzinho de ar dorminhoco, meio paquete meio escrevente, um tanto esbaforido, apareceu à porta, consideroume com cara de desafio, e eu pergunteilhe:

- O senhor doutor Traddles está?

- Sim, senhor, mas ocupado.

- Gostaria de lhe falar.

Depois de me ter examinado uns segundos, o rapaz decidiuse a introduzirme nos aposentos de Traddles. Para este efeito, abriu mais a porta e deixoume entrar, primeiramente num vestíbulo ou coisa que o valha, depois numa saleta, onde me achei em presença do meu velho amigo (também esfalfado), diante de uma mesa e curvado sobre uma pilha de processos.

- Meu Deus! - exclamou Traddles, erguendo a vista. - És tu, Copperfield? - E precipitouse para os meus braços, em que o apertei calorosamente.

- Vai tudo bem, meu caro Traddles?

- Tudo, meu caro Copperfield. Só há notícias boas.

Quase chorámos ambos de alegria.

- Prezado amigo - disseme ele, eriçando mais os cabelos, no seu entusiasmo, o que era afinal uma operação supérflua. - Meu velho camarada, que enfim reencontro! Que prazer em tornar a verte! Estás bastante queimado. Palavra de honra, nunca me senti tão feliz, caríssimo Copperfield, nunca!

Eu não conseguia exprimir a minha comoção. Nem sequer pude falar.

- Meu bom amigo - prosseguiu Traddles - eiste célebre, famoso! Meu Deus, mas quando é que chegaste? E donde vens? Que é que fizeste?

Sem esperar resposta a qualquer destas perguntas, Traddles, que me instalara numa poltrona ao canto do fogão, atiçava o fogo vigorosamente com uma das mãos e, com a outra, puxava a minha gravata, na ideia extravagante de que fosse um sobretudo. Sem largar o atiçador, cingiume de novo nos braços e eu aperteio nos meus; e, rindo e chorando, sentámonos de cada lado do fogão ainda de mão dada.

- Imaginese! Estavas tão próximo do regresso e não assististe à cerimónia!

- Que cerimónia, Traddles?

- Não recebeste a minha última carta? - retorquiu abrindo muito os olhos.

- Pois não, se era a que falava da cerimónia.

Traddles enfiou os dedos pelos cabelos, que se eriçaram de vez, e, pondome depois as mãos nos joelhos, declarou:

- Estou casado!

- Casado?! - bradei jubilosamente.

- Sim, senhor. Que Deus me abençoe. Casado pelo reverendo Horace... com a Sophy... no Devonshire. Olha, ela está atrás do reposteiro. Aí a tens!

Para meu máximo assombro, saiu do seu esconderijo, nesse momento, risonha e corada, a mais amorosa rapariga do mundo. E (como não pude evitar de o dizer nesse instante), julgo que nunca vira nenhuma recémcasada tão contente, tão amável, tão radiante! Beijeia como velho conhecido e, aos dois, enderecei as minhas felicitações sinceras.

- Que bela reunião - comentou Traddles. - E como tu estás bronzeado, Copperfield! Ah, sou tão feliz...

- Eu também - participei.

- E eu! - acudiu Sophy, sempre risonha e corada.

- Somos todos tão felizes quanto possível - rematou Traddles. - Até as irmãs estão satisfeitas. É verdade, já me tinha esquecido delas!

- Esquecido?

- Sim, as irmãs de Sophy, as minhas cunhadas! Estão cá. Vieram conhecer Londres. A verdade é que... A propósito, foste tu que tropeçaste na escada, Copperfield?

- Fui eu - confessei, rindo.

- Pois nessa ocasião eu brincava doidamente com elas. Mais precisamente, brincávamos aos escondarelos. Mas como isso não parecia sério, se aparecesse algum dos meus constituintes, elas deram às de viladiogo. Estão presentemente... a escutar à porta - concluiu Traddles, lançando uma olhadela à porta do outro quarto.

- Lastimo ter sido causa de se interromper o jogo... - observei.

- Gostava - volveu Traddles - que as visses a fugir quando bateste, e depois voltar para reunir as travessas que deixaram cair da cabeça na corrida. Minha querida, queres ir buscálas?

Sophy obedeceu e nós ouvimos a risada com que receberam a irmã quando esta entrou no quarto contíguo.

- Verdadeiramente musical, este riso - notou Traddles. - Tão agradável de ouvir! Só isto basta para alegrar este pardieiro! E então para mim, que tenho sido um solteirão, a coisa soa divinamente. Uma delícia. Coitadas das pequenas! Sofreram muito ao perder Sophy, que continua a ser, afiançote, a rapariga mais amorosa do mundo. Vêlas assim alegres torname tão feliz! A companhia da gente nova não tem que se lhe compare, Copperfield. Não é douta, nem jurídica...

Percebendo que ele hesitava levemente, compreendendo que, na sua bondade, temia haverme melindrado com as suas palavras, apresseime a aproválo com ardor, o que visivelmente o aliviou e lhe deu grande prazer.

- É que também - continuou ele - a nossa sociedade doméstica nada tem de jurídico. Nem sequer a presença de Sophy é regulamentar neste casarão todo dedicado à vida forense. Mas não temos outro domicílio. Embarcámos numa cascadenoz e estamos prontos a viver com privações. Sophy sabe sair de dificuldades. Queres saber, naturalmente, onde arrumamos estas pequenas. Pois nem eu próprio faço ideia!

- E são muitas?

- Há a mais velha, a Beldade - explicoume Traddles em tom confidencial. - Chamase Caroline. Sarah também está cá, aquela que eu te disse que sofria da espinha. Mas vai melhor. E depois as duas mais novas, de cuja educação Sophy se encarregou. Finalmente, Louisa.

- Realmente! - exclamei.

- Pois é verdade. E o apartamento compõese apenas de três divisões. No entanto, Sophy acomodaas o melhor possível. Três ali - e Traddles indicou uma das portas - e duas acolá.

Não pude coibirme de circunvagar a vista como que a descobrir o que ficava para o casal Traddles. O meu amigo compreendeu e disse:

- Estamos resolvidos a viver com dureza, como já te informei, e na semana passada improvisámos uma cama no chão, nesta saleta. Mas há ainda uma águafurtada, bastante aproveitável, que Sophy forrou, com grande espanto meu. É aí que presentemente dormimos. É um lindo acampamento de ciganos. E que bela vista se desfruta!

- Eiste, pois, casado e bem casado, meu caro Traddles. Não imaginas quanto me regozijo.

- Obrigado, Copperfield - respondeu, apertando de novo a minha mão. - Sou tão feliz quanto é possível ser. Aí tens velhos conhecimentos: o invólucro para vasos de flores, com o seu suporte... e a mesa de tampo de mármore. Todos os outros móveis são simples e práticos, como vês. Quanto a baixela, nem possuímos uma colher de chá. É claro que tomamos chá, mas servimonos de colheres de estanho.

- Quando o dinheiro aparecer será mais apreciado.

- É o que nós dizemos. Olha, caro Copperfield - ajuntou confidencialmente - a minha defesa de Jipes no processo contra Wigzell deume certa nomeada. Fui depois a Devonshire e tive uma conversa séria com o reverendo Horace. Insisti no facto de que Sophy, que, afiançote, é a rapariga mais amorosa do mundo...

- Não duvido!

- E fazes bem. Mas creio que me afasto do assunto. Estava a falar do reverendo Horace...

- Diziasme teres insistido no facto de...

- Exactamente. No facto de Sophy estar minha noiva há tanto tempo e ela, com licença dos pais, estar disposta a... aceitar o chá mexido com colheres de estanho. Propus então ao reverendo Horace... que é excelente pastor, Copperfield, acredita, e até já devia ser bispo, ou pelo menos ganhar bastante para viver sem privações... Pois eu disselhe que podíamos casar mesmo assim, logo que ultrapassasse as duzentas e cinquenta libras por ano... Que daí a meses conseguiria mobilar o nosso apartamento com esta simplicidade que vês... Tomei a liberdade de acrescentar que tínhamos esperado tempo suficiente, e que a necessidade da Sophy na casa paterna não devia prolongarse ao ponto de os pais se oporem ao matrimónio... Não te parece?

- Naturalmente.

- Ainda bem que és da minha opinião, Copperfield, pois, sem acusar de nenhum modo o reverendo Horace, acho que os pais, irmãos e quejandos são deveras egoístas em certos casos. Enfim, declarei que o meu maior desejo era ser útil à família, e que, se eu prosperasse e alguma coisa lhe acontecesse... refirome ao reverendo Horace...

- Percebo.

- A ele ou à senhora Crewler... eu não teria maior prazer do que servir de pai às raparigas. O sacerdote respondeume de forma lisongeira para mim e comprometeuse a conseguir o acordo da senhora Crewler. Esta, porém, fêlo passar um mau bocado. A coisa atacoulhe as pernas, subiulhe ao coração e atingiulhe a cabeça.

- O quê? - perguntei.

- O desgosto - replicou gravemente Traddles. - Como já te disse, é uma mulher superior, mas perdeu o uso dos membros locomotores. Desta vez, sentiu também no coração e na cabeça.

Em suma, todo o organismo foi invadido de maneira inquietante. Salvaramna, entretanto, à custa de cuidados afectuosos e constantes. E nós casámonos há perto de seis semanas. Não fazes ideia de como eu me sentia culpado! Via toda a família chorar e desmaiar para cada lado. A senhora Crewler não quis verme antes da nossa partida (não me perdoava têla privado da filha), mas é boa pessoa e conformouse. Até me escreveu uma carta catita, recebia esta manhã...

- Em resumo, caro Traddles, tens a felicidade que há muito merecias.

- Vêse que és meu amigo, Copperfield. Na verdade, estou numa situação invejável. Trabalho a valer e estudo bem os meus processos. Levantome às cinco horas todas as manhãs, e isso nada me custa. Escondo as cunhadas durante o dia e, à noite, entretenhome com elas. Garantote que é com pena que as verei partir na terçafeira, que é a véspera do recomeço das aulas. Mas aqui as tens em carne e osso... Caroline, Sarah, Louisa, Margaret e Lucy!

Dirseia um verdadeiro ramo de rosas, tão frescas e sãs eram todas, todas bonitas, em especial a mais velha. Mas no rosto puro de Sophy notavase algo de amorável, alegre e sério ao mesmo tempo. Em meu parecer, Traddles havia escolhido bem. Sentámonos todos de roda do fogão, enquanto o moço tosco, que perdera o fôlego (agora bem o via) a colocar os autos em cima da mesa, se encarregava de os tirar outra vez, substituindoos por xícaras de chá. Feito isto, retirouse por aquela noite, fechando com estrondo a porta do patamar. A mulher de Traddles, com os seus olhos de dona de casa recente a brilharem de satisfação, preparou o chá e sentouse tranquilamente diante do fogão para aí fazer as torradas.

Ela tinha visto Agnes - foime dizendo - porque Tom a levara ao Kent em viagem de núpcias; e vira igualmente a minha tia. Ambas iam bem e só tinham falado de mim. Tom, pensava Sophy, não me esquecera um só instante durante a minha ausência. Reportavase ao marido em tudo quanto contava. Tom era evidentemente o ídolo da sua vida, nada o faria cair do seu pedestal. Acontecesse o que acontecesse, tinha nele uma fé cega.

Agradoume muito a deferência que os dois testemunharam à Beldade. Não seria decerto justo, mas era delicioso e deveras significativo. Se faziam falta a Traddles as colheres de prata isso sucedia quando o rapaz oferecia chá à Beldade; se a meiga Sophy fosse capaz de experimentar algum sentimento de orgulho, teria sido ao pensar que era irmã da Beldade. Notei nesta leves sinais de uma natureza caprichosa e em excesso adulada, mas Traddles e a mulher consideravamnos sem dúvida mais um ornamento natural de Caroline. Fosse a Beldade a abelhamestra e eles as obreiras, e essa convicção não estaria menos firmada.

Todavia extasiavame o esquecimento em que ambos se conservavam de si mesmos. A vaidade que essas raparigas lhes inspiravam, forçandoos a curvaremse aos seus caprichos, não seria a menor prova do seu próprio valor. Pelo menos doze vezes em cada hora daquele serão, Traddles foi tratado por «querido» e solicitado para trazer qualquer coisa, ou levar, ou procurar, e isto da parte de todas as irmãs, sucessivamente. Também não podia dispensar Sophy. O carrapito de uma estava a cair? Logo pedia a Sophy que a tornasse a pentear. Outra esquecerase de uma melodia, e apenas Sophy seria capaz de a cantarolar sem desafinação. Uma terceira precisava de se recordar do nome de certa aldeia do Devonshire: Sophy era a única a conhecêlo. Alguém em casa tinha de escrever uma carta, e só contava com Sophy para o ajudar, antes do primeiro almoço do dia seguinte. Ou então era qualquer malha que havia caído no trabalho de uma das irmãs: Sophy estava pronta a remediar o percalço. Elas eram donas e senhoras naquele lar, e Sophy (como Tom) vivia às suas ordens. Pensei de quantas criaturas podia Sophy terse ocupado já na sua vida. Mas a sua especialidade consistia em saber todas as canções que jamais foram entoadas em inglês, para embalar meninos, e ela cantavaas por encomenda, umas atrás das outras, com a sua voz clara. Eu sentiame verdadeiramente fascinado. E, apesar destas exigências, as manas eram cheias de ternura e respeito por Sophy e o marido. Quando me despedi, Traddles saiu para me acompanhar até ao café: jamais vi cabelos mais eriçados nem cabeça de homem receber tamanha chuva de beijos.

De um modo geral, foi uma cena que me ficou na memória por muito tempo, depois de me haver despedido de Traddles e regressado à estalagem. Recordavaa sempre com prazer, mais do que se tivesse visto um milhar de rosas desabrochadas nesse último andar do velho prédio sem graça da Gray's Inn. A presença dessas raparigas do Devonshire no meio da aridez dos autos e de outra papelada forense, à hora familiar do chá, das torradas e das canções infantis, nessa atmosfera sombria de ombreiras poeirentas e de areia de secar tinta, de processos e seus apensos, de leis e regulamentos, de recibos, custas e memoriais, pareciame coisa tão deliciosamente fantástica como um sonho em que eu visse o harém do sultão transportado para uma sala de audiências. Achei que a minha descrença no êxito de Traddles já não tinha razão de ser, e comecei a acreditar que ele seguiria a sua carreira apesar do pessimismo de todos os criados de café.

Sentado no estabelecimento, ao canto do fogão, para mais à vontade evocar a vida do meu amigo, contemplei os carvões incandescentes, cujas mudanças de forma e cor despertaram em mim a recordação das vicissitudes que tinham ocorrido na minha existência. Havia três anos que deixara a Inglaterra. Podia agora virarme para o passado, com tristeza mas sem amargura,

e enfrentar o porvir com coragem. Não se tratava de possuir um lar, no verdadeiro sentido do termo. Aquela a quem me seria possível inspirar um amor mais compassivo transformarase, por minha culpa, numa irmã. Casarseia, outro teria direito à sua ternura, e ela nunca saberia o sentimento que crescera tão forte no meu peito. Era justo que eu expiasse uma paixão inconsiderada. Colhia o que semeara.

Estava prestes a inquirir de mim mesmo: «O coração aceitará isso? Suportarei com firmeza? Guardarei no seu lar o lugar que ela tão calmamente guardou no meu?», quando os olhos se me detiveram de repente num rosto que eu julguei, de começo, saído das chamas, tão misturado andava com as minhas saudades.

O doutor Chillip, simpático velhote que me fora útil no primeiro capítulo desta história, achavase na penumbra do café, entretido a ler o jornal. Mais idoso, continuava, porém, amável e pacífico, e de certo quase igual ao que fora no dia em que aguardou a minha vinda ao mundo, na sala da nossa casa.

Chillip deixara Blunderstone havia cerca de seis a sete anos, e eu não o tornara a ver desde então. Lia muito sossegado a gazeta, com a cabeça um pouco à banda e um copo de xerez aquecido ao alcance da mão. Era tão conciliador nas suas maneiras que parecia pedir desculpa ao jornal pela liberdade que tomava de o ler.

Aproximeime e disselhe:

- Senhor doutor Chillip, como vai?

Mostrouse perturbado por ver um desconhecido interpelálo e respondeu com a costumada lentidão:

- Muito bem, obrigado. É muito amável. E o senhor?

- Não me conhece? - perguntei.

Abanou a cabeça, examinandome, sorridente, e replicou:

- A sua cara não me é estranha. Mas sintome incapaz de ligar o nome à pessoa.

- Contudo, soube o meu nome antes de eu próprio o saber...

- Palavra? Teria eu a honra de assistir ao...

- Com certeza.

- Meu Deus! Mas depois disso mudou muito...

- É provável.

- Em todo o caso, não leve a mal se eu indagar, enfim, como se chama.

Quando me nomeei, a sua comoção não foi postiça. Apertou a minha mão com fervor, o que representava grande esforço da sua parte, pois tinha uns dedos moles e manifestava contrariedade se lhe agarravam com força a dextra. Desta vez, aliás, apressouse a escondêla na algibeira, logo que a pôde desembaraçar, e pareceu aliviado por a ter em lugar seguro.

- Com que então é o senhor Copperfield? - disse inclinando a cabeça para me observar. - É claro que acabaria por o reconhecer,

depois de o examinar atentamente. Parecese extraordinariamente com o seu defunto pai.

- Não tive a felicidade de o conhecer - repliquei.

- Sim, é verdade. Foi uma pena. Pois não ignoramos a sua reputação, senhor Copperf ield - acrescentou meneando outra vez a cabeça, devagar. - Deve ter fatigado muito o cérebro. É uma ocupação demasiado absorvente.

- E agora onde vive, senhor doutor? - perguntei, sentandome a seu lado.

- Fixeime a algumas milhas de Bury St. Edmunds. Minha mulher herdou do pai uma pequena propriedade nas imediações, consegui certa clientela e posso dizer que prospero. A minha filha tem crescido muito. O tempo passa...

Ao fazer esta reflexão, o médico levou aos lábios, maquinalmente, o copo que já estava vazio. Propuslhe tomar outro na minha companhia.

- Embora não esteja acostumado a beber tanto, o que não quero é privarme da sua conversa - retorquiu ele com a mesma lentidão. - Ainda me parece que foi ontem que o tratei do sarampo. Curouse lindamente.

Agradecilhe as palavras e pedi ao criado que trouxesse mais xerez aquecido.

- Isto é uma loucura - continuou - mas não posso recusar em semelhante ocasião. Não tem filhos, senhor Copperfield?

Fiz um sinal de negação.

- Soube há pouco tempo que lhe morrera uma pessoa de família. Dissemo a irmã do seu padrasto, que é uma senhora muito decidida.

- A quem o diz! Mas onde a encontrou, senhor doutor?

- Não sabe - respondeu Chillip com um sorriso brando - que o seu padrasto é outra vez meu vizinho?

- Não sabia.

- Pois é como lhe digo. Casou com uma rapariga da região, muito endinheirada... E todo esse trabalho intelectual não o fatiga, senhor Copperf ield?

Tinha o ar de um pintarroxo extático de admiração diante de mim. Fingi não ter percebido a última pergunta e voltei à vacafria.

- Já sabia que o Murdstone tornara a casar. É o médico da família?

- Ao certo, não. Chamamme só de tempos a tempos. Ele e a irmã só fazem o que querem.

Respondi com um olhar tão expressivo que o doutor, com a ajuda do vinho, se atreveu a oscilar a cabeça três vezes afirmativamente e a exclamar em tom melancólico:

- Não esquecemos o passado, senhor Copperf ield!

- Com que então os Murdstones não mudaram, conservamse na mesma?

- Os médicos só devem preocuparse com a sua profissão. Todavia aqueles dois irmãos são tão pouco indulgentes no que respeita à vida alheia, que...

Abanou outra vez a cabeça, sorveu um gole de vinho e declarou compadecido:

- Era uma pessoa encantadora, antes de casar.

- A segunda senhora Murdstone?

- É verdade. Depois perdeu a alegria, tornouse quase neurasténica, segundo afirma a minha mulher. As mulheres são muito observadoras - ajuntou timidamente.

- Háde ter sido submetida ao jugo do marido e da cunhada. Lamentoa muito.

- No começo produziramse disputas violentas. Agora não passa da sombra do que foi, coitada. Não quero ser indiscreto, mas sempre lhe digo que a presença da solteirona em sua casa a tornou quase idiota.

Declarei que acreditava plenamente.

- E não hesito em acrescentar (isto aqui entre nós) - prosseguiu Chillip, mais animado com nova absorção de xerez - que a mãe dela morreu de desgosto e que a própria se imbecilizou à força de tirania, desgostos e tormentos. Era, como disse, uma senhora alegre antes do casamento, mas a austeridade e o rigor daquela gente aniquilaramna de todo. São mais carcereiros do que marido e cunhada. Assim mo dizia a minha mulher, ainda na outra semana. E eu afiançolhe que as mulheres são boas observadoras, senhor Copperfield. A minha, em particular, é tremenda nesse aspecto.

- Murdstone professa ainda... esta palavra é deslocada... estranhas opiniões religiosas?

- Antecipase, senhor Copperfield - disse o médico (o estimulante desusado que ele se permitia nessa altura avermelhavalhe as pálpebras)-a uma das reflexões mais notáveis da minha mulher. Esta - explicou ele no seu tom mais lento e plácido - assombroume literalmente ao contar que o senhor Murdstone entronizou o seu próprio retrato e diz que é a sua divindade! Fiquei estarrecido quando ouvi tal coisa. As mulheres são realmente grandes observadoras...

- É a intuição - sugeri, com grande aprazimento do meu interlocutor.

- Ainda bem que vejo confirmado o meu ponto de vista, é raro eu arriscarme a dar um parecer que não seja de natureza clínica. O senhor Murdstone faz de vez em quando alocuções em público... e dizse... diz a minha mulher... que quanto mais tirânico se torna mais feroz é a sua doutrina.

- Creio que a senhora Chillip tem absoluta razão.

- Ela chega a supor - continuou o mais timorato dos homens perante o referido estímulo - que para tais homens a religião

é só uma forma de expressar a sua maldade e arrogância. E quer saber? - acrescentou Chillip, baixando levemente a cabeça - eu sou obrigado a alegar que não encontro no Novo Testamento nada que justifique o ensinamento dos irmãos Murdstones.

- Eu também nada encontrei nesse sentido.

- O caso é que os detestam, e como eles votam deliberadamente à perdição todos os que não são concordantes, é incrível a quantidade de almas perdidas que temos nestas paragens. Mas, como diz minha mulher, ficam castigados porque se acham constrangidos a alimentarse das suas próprias entranhas, que nada devem ter de apetitosas. Agora, senhor Copperfield, voltando ao seu labor intelectual, se mo permite: está certo de que não fatiga em demasia o cérebro?

Não tive dificuldade - atendendo à influência das libações no próprio cérebro de Chillip - em desviar a conversa para os seus assuntos pessoais e acerca disto ele discorreu com loquacidade durante meia hora, contandome, entre outras coisas, que estava nessa noite na Gray's Inn para testemunhar, perante uma comissão adrede nomeada, a alienação mental de um indivíduo que dera provas de loucura após ter bebido em excesso.

- Assegurolhe, senhor Copperfield, que receio muito estas ocasiões. Detesto ser forçado a isto ou aquilo. Bem sabe como levei certo tempo a recomporme do procedimento daquela pessoa tão autoritária, no dia do seu nascimento, meu amigo.

Disselhe que devia encontrarme com minha tia - a tal pessoa autoritária - no dia seguinte de manhã, e que ela era mulher excelente, um coração de ouro, como concluiria se a conhecesse melhor. A simples ideia de tal eventualidade pareceu aterrálo. Retorquiume com um sorriso amarelo: «Será possível, senhor Copperfield?» e logo pediu uma vela e se retirou para o seu quarto, como para estar em segurança. Não titubeava, mas creio bem que o coração devia bater mais duas ou três pulsações por minuto - como naquela noite famosa em que a senhora Trotwood o atingira com a touca.

Fatigadíssimo, fui também deitarme. Era meianoite. Passei todo o dia seguinte na diligência de Dover e fiz por fim irrupção, são e salvo, na sala da tia Betsey, onde a topei preparada para tomar chá (com óculos encavalitados no nariz) e onde ela, o senhor Dick e a velha Peggotty (agora ali governanta) me receberam de braços abertos, chorando de alegria. Quando principiámos a falar calmamente, a tia riu bastante do meu encontro com o doutor Chillip e da terrível recordação que ele conservava a seu respeito. Betsey e Peggotty tinham muito que dizer do segundo marido da minha pobre mãe e da irmã dele, cujo apelido de família(1) já lhes causava tanto horror.

*1. Murdstone, palavra que começa pelas mesmas letras de Murderer (assassino).