David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 60. AGNES
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Quando ficámos sós, eu e minha tia, continuámos a conversar pela noite adiante. Recebêramos cartas dos emigrantes e todas respiravam felicidade e optimismo. Micawber havia realmente reembolsado a credora com pequenas quantias, por conta das «obrigações pecuniárias» que tinham sido tratadas de «homem para homem». Janet voltara ao serviço da senhora Trotwood no seu regresso a Dover, e acabara por renunciar ao seu projecto de celibato, desposando um taberneiro próspero. A tia Betsey ratificara aquela deliberação, auxiliando em tudo a noiva e dignandose assistir à cerimónia nupcial. Como de costume, o senhor Dick veio a talho de foice e a tia informoume que ele passava o tempo a copiar tudo o que lhe caía debaixo da vista: com esse simulacro de ocupação mantinha o rei Carlos I a uma distância respeitável. Betsey confessoume que uma das maiores alegrias da sua vida era vêlo livre e feliz, pois bem poderia estar a essas horas internado num manicómio. Concluiu com a declaração de que só ela conhecia o valor do senhor Dick.

- E agora, Trot, quando pensas voltar a Cantuária? - perguntou a tia, dandome uma palmadinha na mão, quando nos instalámos, como noutro tempo, ao canto do lume.

- Tenciono alugar um cavalo para lá ir, amanhã de manhã - respondi. - A não ser que a tia queira ir também.

- Não - replicou com a brusquidão costumada. - Não penso deslocarme.

- Então irei a cavalo - declarei, acrescentando que podia ter ido directamente, se não fosse ela, que me fizera deter em Dover. Betsey ficou satisfeita com a resposta, mas observou:

- Calate, Trot. Eu podia esperar.

E outra vez me deu uma pancadinha na mão, enquanto eu contemplava melancolicamente o lume.

Melancolicamente, sim, porque a ideia de reencontrar Agnes ressuscitavame os remorsos que tanto me haviam perseguido - embora ao presente mais atenuados pela ideia de que eles me ensinariam o que eu não soubera compreender.

Recaímos no silêncio por alguns minutos. Quando alcei a vista, percebi que Betsey me espiava atentamente. Talvez houvesse adivinhado o curso dos meus pensamentos, pois eram na verdade fáceis de seguir.

- Encontrarás o pai dela muito mais encanecido - disse por fim a tia - porém melhor noutros aspectos. E não o verás agora medir todas as paixões por uma única bitola, as paixões,

as alegrias, as dores humanas. Crême que tudo isto encolhe muito antes de ser medido por aquela forma.

- Certamente, minha tia.

- Achálaás, a ela, tão bondosa, bonita, séria e desinteressada como sempre foi. Não te cansarás de a admirar, Trot. Não tenho palavras suficientes com que a louve.

Ah, como eu andara extraviado!, pensei.

- Agnes - inquiri de súbito - terá algum...?

- Algum quê?

- Pretendente!

- Uma data deles! - exclamou Betsey com ar ofendido. - Podia terse casado vinte vezes, desde que tu partiste.

- Acredito - redargui. - Mas haverá um pretendente que seja digno da sua mão? Só assim é que ela poderia casar.

A tia meditou um bocado, com o queixo apoiado à mão; depois, erguendo para mim os olhos, devagar, participou:

- Desconfio que tem uma afeição...

- Valiosa?

- Trot, nada mais sei - respondeu gravemente. - Nem tenho o direito de falar disto. Agnes nunca me fez confidências, é só uma suspeita minha.

Olhavame com tanta ansiedade e atenção (até a vi tremer) que tive, mais do que nunca, a impressão de que me adivinhava os pensamentos. Por isso apelei para todas as resoluções que tomara no decurso dos últimos dias e noites de luta interior e comecei:

- Se é assim, Agnes mo dirá quando for altura. Uma irmã a quem confessei tantas coisas não hesitará em confiar por seu turno em mim.

E tão lentamente como poisara em mim o seu olhar, minha tia o desviou; pensativa, diante da vista colocou a mão, pôsme a outra sobre o ombro, e nós ficámos ambos a reviver o passado, sem dizer palavra, até ao momento em que nos separámos por aquela noite.

Parti cedo, a cavalo, para os lugares em que haviam decorrido os meus anos de colegial. Não posso dizer que fosse inteiramente seguro de obter uma vitória, mas a perspectiva de tornar a ver Agnes tornavame na realidade feliz.

Fiz depressa aquele trajecto familiar e cheguei a essas ruas tranquilas em que cada pavimento me falava da minha infância. Dirigime a pé para a velha residência, mas não tive coragem de entrar logo, de forma que lá voltei um pouco mais tarde. De passagem, olhei pela janelinha baixa da torre, onde primeiramente Uriah e depois Micawber se haviam instalado. Vi uma saleta: a secretária desaparecera. Foi, todavia, a única mudança que notei. A pacífica mansão apresentavase asseada e perfeita como na primeira vez que eu lá entrara. Pedi à criada - nova no serviço e que me veio abrir a porta

- dissesse à senhora Wickfield que um senhor desejava falarlhe da parte de certo amigo actualmente no estrangeiro, e ela, aconselhandome a tomar cuidado nos degraus (que eu tão bem conhecia!), convidoume a subir pela escada vetusta e solene até à sala de visitas, onde nada se tinha alterado. Os livros que eu e Agnes havíamos lido juntos estavam nas prateleiras, e a carteira em que passara tantas noites a estudar as lições conservavase sempre no mesmo ângulo do quarto. As modificações que Uriah introduzira já tinham sido remediadas. As coisas voltaram ao que eram nos bons tempos de outrora.

Aproximeime de uma janela para observar as casas do outro lado da rua, essas que contemplara tanta vez em tardes chuvosas, ao mesmo tempo que formulava toda a espécie de suposições acerca das pessoas que apareciam às janelas, seguindoas com o olhar quando vinham para o exterior: mulheres que faziam estalar os chapins, debaixo da chuva que caía em linhas oblíquas ou desabava na rua através das goteiras, inundandoa.

E o que eu sentia então ao ver os vagabundos que cruzavam a cidade, trôpegos, por essas tardes cinzentas, com um saco pendurado na extremidade do bordão, esse mesmo sentimento experimenteio de novo, com toda a intensidade, acompanhado ainda do odor da terra húmida e do sopro de todos os ventos que me fustigaram durante a dolorosa viagem de algum dia.

Ao ruído da porta que se abria na parede forrada de papel, estremeci de repente e volteime. O belo rosto sereno encontrouse com o meu a meio caminho. Agnes parou e levou a mão ao peito. Eu cingia nos braços.

- Agnes, minha querida! Fizlhe uma surpresa.

- O que me dá imenso prazer, Trot!

- Querida Agnes, que felicidade tornar a vêla!

Apertavaa ao coração e assim ficámos uns instantes, silenciosos. Depois sentámonos lado a lado, e ela voltou para mim o rosto angélico, com aquele olhar de boasvindas por que eu ansiara, dia e noite, durante anos.

Tão fiel, tão bela, tão bondosa! Devialhe tanto reconhecimento! Amavaa de tal forma que nem podia exprimir o que sentia. Procurei agradecerlhe, contarlhe (como fizera nas minhas cartas) o que era a sua influência sobre mim. Mas foi em vão. O meu amor e a minha alegria eram mudos.

Com a sua serenidade habitual, acalmou a minha agitação, desvioume os pensamentos para o momento em que nos separámos, faloume de Emily (que fora visitar clandestinamente, várias vezes) e referiuse também com doçura à minha defunta Dora. Com o instinto infalível do seu nobre coração, pôs a vibrar as cordas da minha saudade, e tão harmoniosamente que nenhuma rangeu. Pude escutarlhe a música triste e longínqua sem que nada do que ela evocava me ferisse. Como não poderia deixar de

ser assim, se, fundido em tudo isso, se achava a sua adorada alma, ela, o anjo da minha vida!

- E você, Agnes? - disselhe enfim. - Faleme de si. Ainda não me contou quase nada do que fez durante todos estes meses!

- Que lhe haveria de contar? - respondeume com o seu sorriso radioso. - O meu pai vai bem. Estamos aqui sossegados, com a nossa ansiedade tranquilizada, o nosso lar reencontrado. Pronto, meu caro Trot, já sabe tudo.

- Tudo, Agnes? - perguntei.

Ela fitoume e, no seu olhar, divisei um ar de espanto.

- Não há mais nada, minha irmã?

As faces, que lhe tinham empalidecido, retomaram a cor, e em seguida voltaram a empalidecer. De novo sorriu, melancólica e resignada, ao que supus, e então abanou a cabeça.

Tencionava encaminhála para o assunto a que a tia Betsey aludira. Por mais penoso que me fosse ouvir a confidência, eu devia disciplinar o coração e cumprir as minhas obrigações para com ela. Via, porém, constrangida, e não insisti.

- Tem muito trabalho, Agnes?

- Com as lições? - indagou, recuperando a serenidade. - Sim, senhora. É trabalho absorvente, não é?

- Decerto, mas tão agradável que nem é justo classificar de trabalho.

- Nada do que é bom se nos torna difícil - sentenciei. Agnes ficou pálida, depois corou, e, quando baixou a cabeça,

tornei a verlhe o sorriso triste.

- Demorase para falar com o papá, não é verdade? - sugeriu em tom jovial. - Passa o dia connosco? Talvez queira dormir na sua antiga cama... Chamamoslhe sempre o seu quarto, não sabia?

Expliqueilhe que não podia ficar, porque prometera à tia voltar nessa mesma noite. Mas o dia passavao com eles, e com muito prazer.

- Vou estar uns momentos prisioneira - disse ela. - Entretanto, aqui tem os seus velhos livros, Trot, e as músicas também.

- E até as velhas flores - observei, circunvagando a vista pela sala. - Pelo menos iguais às de outrora.

- Tive muito gosto em conservar tudo assim... como no tempo da sua infância. Éramos então felicíssimos!

- Se éramos!

- E a mais pequena coisa que me lembrasse o meu irmão - acrescentou com um olhar cintilante - davame tanta alegria! Mesmo isto - e mostroume o chaveiro, que sempre usara - parecia tilintar com o som de outro tempo.

Tornou a sorrir e saiu pela mesma porta por onde entrara. Eu devia guardar com desvelos egoístas essa afeição fraternal. Tamanho tesouro era tudo quanto me restava. Se um dia abalasse os alicerces sagrados da confiança e do hábito, sobre que esse tesouro repousava, perdêloia para sempre.

Pus esta consideração à frente de outras. Quanto mais amasse Agnes, mais devia lembrarme desse perigo.

Deambulei pelas ruas da cidade; ao ver mais uma vez o meu antigo adversário, o rapaz do talho - agora guardaflorestal, como depreendi da insígnia que ele pendurava na loja -, fui visitar o local onde havíamos combatido, e recordeime da senhora Larkins, a mais velha do rancho de manas, a senhora Shepherd, e ainda todos os meus amores, simpatias e antipatias desse tempo. Do passado, só Agnes parecia sobreviver: como um astro, ela brilhava sempre mais clara no meu firmamento.

Quando regressei, o doutor Wickfield já voltara do jardim, onde passava em geral as manhãs. Acheio tal qual a tia mo descrevera. Sentámonos para jantar, com meia dúzia de meninas. Wickfield dirseia apenas a sombra do belo homem cujo retrato se ostentava na parede.

Reinava ali de novo a tranquilidade, naquela sala pacífica de que a minha memória jamais se separara. Acabada a refeição, como o dono da casa já não tomava vinho, e a mim não apetecia proválo, subimos ao outro andar, e, na sala de visitas, Agnes e as suas alunas cantaram, brincaram e trabalharam. As pequenas retiraramse depois do chá, e nós três sozinhos principiámos a conversar acerca dos tempos idos.

- A minha vida passada - disse o doutor, meneando a cabeça branca - só me deixou recordações amargas e tristes remorsos, mas, ainda que pudesse, não queria abolir esse passado.

Não duvidei, vendo a seu lado o rosto da filha.

- Porque - continuou - aboliria ao mesmo tempo anos de paciência, dedicação, fidelidade e amor filial, coisas que jamais esquecerei.

- Compreendoo - retorqui. - Esse passado inspirame, e, sempre me inspirou, a maior veneração.

- Mas ninguém sabe, excepto você, tudo quanto ela fez, tudo quanto suportou, todas as lutas que teve de sustentar. Querida Agnes!

A rapariga puseralhe a mão no braço para lhe suplicar que se calasse. Ficara tremendamente pálida.

- Está bem, está bem - disse ele suspirando.

Percebi que ocultava uma provação sofrida pela filha (ou ainda por sofrer) e que se relacionava com as suspeitas da minha tia.

- Nunca lhe falei da mãe dela, Trotwood. Alguém o fez por mim?

- Não, senhor doutor.

- Ah, é pouca coisa, se bem que eu padecesse muito. Casou comigo contra vontade paterna e ele renegoua. Ela pediu que lhe perdoasse antes do nascimento de Agnes. Mas era um homem

duro e a mãe já tinha morrido há muito tempo. Repeliua. Deste modo lhe destroçou o coração.

Agnes apoiouse no ombro do pai e passoulhe um braço de roda do pescoço.

- Como era pessoa terna e fraca, essa recusa aniquiloua. Sei muito bem quanta ternura se albergava naquele peito! Quem o poderia saber melhor do que eu? Amavame a valer, porém não se sentia feliz. Sofrera sempre em segredo esse desgosto. E isto, com outros dissabores, causoulhe a enfermidade de que morreu. Deixoume só com Agnes, então de dois anos de idade, e eu fiquei com os cabelos encanecidos que você sempre conheceu.

Dizendo isto, beijou a face de Agnes.

- O meu amor à querida filha tornouse então mórbido. Mas eu estava doente de espírito. Não falemos mais disto. Não quero falar mais de mim, Trotwood, mas dela e da mãe. Se eu lhe der a chave do meu próprio enigma, depressa o decifrará, tenho a certeza. Não preciso dizerlhe como é Agnes. Sempre nela achei vestígios da história da mãe; digolhe isto hoje, quando nos voltámos a reunir após tão grandes mudanças. E pronto.

A cabeça curvada do pai, o rosto angélico e a dedicação da filha acentuavam o patético da narração. Se me faltasse alguma coisa para marcar de forma especial aquela reunião, aí a encontrava sem dúvida.

Agnes afastouse para ir pé ante pé ao piano tocarnos algumas das velhas melodias que tanto apreciáramos outrora naquela mesma sala.

- Pensa partir outra vez? - perguntou ela, vendome ali junto do piano.

- Que julga a minha irmã?

- Julgo que não.

- Então não partirei, Agnes.

- Já que me pede opinião, Trot - disseme Agnes com doçura - direi que o não deve fazer. A sua reputação, o seu êxito crescente aumentamlhe o poder de praticar o bem. E se eu puder dispensar o meu irmão, o que é provável é que o país o não possa - concluiu, de olhos fitos nos meus.

- Foi você que me tornou no que sou, Agnes. Não o sabia?

- Eu, Trot?

- Sim, querida Agnes - confirmei, inclinandome para ela. -

Queria dizer isto esta manhã, quando nos encontrámos: é uma coisa que não me larga o pensamento, desde a morte de Dora. Lembrase de quando veio ter comigo à nossa saleta, de mão erguida para o céu?

- Oh, Trot! - exclamou, com os olhos marejados de lágrimas. - Ela era tão gentil, tão nova, tão confiante! Não posso esquecêla.

- Pensei muitas vezes, depois, que você sempre fora para mim o que foi nessa ocasião. Sempre me indicou o céu, sempre me conduziu para algo de melhor, sempre me incitou a coisas grandes.

Agnes abanou tristemente a cabeça e eu vilhe, através do pranto, o sorriso meigo e melancólico.

- Soulhe imensamente grato, Agnes. Nem há nome para o afecto que lhe consagro. Queria que soubesse, embora sem achar modo de me exprimir, que toda a vida me deixarei guiar por si, como o fiz no meio das trevas do passado. Aconteça o que acontecer, seja qual for o laço que você forme na sua vida, e a mudança que se produza na existência de nós dois, sempre me voltarei para si e a amarei, como agora e como noutro tempo. Será constantemente o meu consolo e o meu recurso, como tem sido até agora. E, até à morte, querida irmã, vêlaei de contínuo diante de mim, mostrandome o céu.

Pôs a mão sobre a minha e disseme que, apesar de não merecer os meus encómios, tinha gosto em ouvilos e se orgulhava da minha pessoa. Em seguida continuou a tocar em surdina, sem nunca me desfitar.

- Sabe, Agnes? Pareceme estranhamente que as suas palavras se ligam ao sentimento que me inspirou na primeira vez que a vi, e que sempre experimentava quando a seu lado, no tempo em que era um colegial ainda tosco.

- Não ignorava que eu era órfã de mãe e, naturalmente, compadeciase de mim...

- Não, Agnes, não era isso. Sabia haver algo de indizivelmente brando e terno em todo o seu ser, qualquer coisa que, noutra criatura, poderia tomarse por tristeza mas que, em si, não o era.

Agnes prosseguiu a música, olhandome sem cessar.

- Troçará, decerto, de todas estas imaginações pueris...

- Não, Trot!

- Ou rirá se eu lhe disser o que sinto? Fará chacota do meu sonho?

- De modo nenhum.

No rosto passoulhe uma sombra de desânimo, que se desfez logo no momento em que eu estremeci ao notála. Agnes continuou tocando e olhando para mim com o seu sorriso calmo.

Ao regressar, no meio da noite solitária, com o vento bailandome ao redor como uma memória inquieta, pensei de novo nessa sombra fugidia e receei que Agnes não fosse feliz. Eu também não o era, mas até pusera resolutamente um selo no passado; e, lembrandome dela e da sua mão erguida, esperava que no mistério da vida futura eu pudesse amála com um amor desconhecido na terra e falarlhe do combate que o meu coração havia travado quando a amava neste mundo.