David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 8. MÍNHAS FÉRIAS, ESPECIALMENTE UMA TARDE AFORTUNADA
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Quando chegámos, antes do alvorecer, à estalagem onde vivia o criado meu amigo, convidaramme a subir a um lindo quartinho de dormir que tinha sobre a porta esta palavra pintada: DELFIM. Sentia imenso frio, apesar do chá muito quente que me haviam servido no résdochão, ao canto da lareira. E foi com prazer que me deitei no leito do Delfim, envolto nos seus lençóis e adormeci.

O carroceiro Barkis viria buscarme às nove horas da manhã. Levanteime às oito, um pouco aturdido pela brevidade do repouso nocturno, e já estava pronto à hora marcada. O homem recebeume exactamente como se nos tivéssemos separado naquele instante e eu só houvesse entrado na estalagem para trocar dinheiro ou coisa parecida.

Logo que eu e a minha mala entrámos na carroça, o cavalo indolente partiu com o seu passo costumado.

- Está com bom aspecto, senhor Barkis - disselhe, pensando que isto lhe seria agradável.

Barkis esfregou a cara com o punho da camisa e olhou para ele como se esperasse aí encontrar um pouco de cor das faces; mas não se dignou replicar ao meu cumprimento.

- Entreguei o seu recado - acrescentei. - Escrevi à Peggotty.

O homem pareceu mal humorado e deu uma resposta seca.

Hesitei um instante e inquiri:

- Ficou zangado?

- Não, senhor.

- O recado não era esse?

- Sem dúvida... mas ficou tudo na mesma. Sem perceber bem, repeti:

- Ficou tudo na mesma?

- Não me ligou nenhuma.

- Esperava uma carta? - volvi, admirado, pois a hipótese era nova para mim.

- Quando se diz que se suspira - explicou o carroceiro, voltandose devagar no assento - é porque se espera uma resposta.

- E então, senhor Barkis?

- Então - retorquiu, tornando a olhar para as orelhas do cavalo - ainda estou esperando essa resposta.

- Disselhe isso, senhor Barkis?

- Não, senhor, não tinha razões para lhe escrever. Nunca lhe dirigi meia dúzia de palavras, e não iria agora dizerlhe...

- Quer que me encarregue disso? - perguntei sem muita confiança.

- Se o menino quisesse ter a bondade - começou ele, voltandose de novo, lentamente, para mim -, de lhe dizer... que o Barkis espera uma resposta... O nome dela é...?

- Peggotty.

- Nome próprio ou de família?

- De família. Foi baptizada com o de Clara.

Aquilo forneceulhe matéria para grande reflexão. Cismava, e ia assobiando ao mesmo tempo.

- Pois,-se fizer favor, digalhe isto: «Peggotty, o Barkis espera resposta.» Ela, naturalmente, vai perguntar: «Resposta a quê?» E o menino replica: «Ao que te disse.» E ela: «Que é que disse?» E o menino: «Barkis suspira.» Ora aí tem.

Com esta sugestão engenhosa, o cocheiro deume uma cotovelada, que me atingiu em cheio nas costelas. Em seguida, curvouse para o cavalo, como habitualmente, e não aludiu mais ao caso, excepto daí a meia hora, pouco mais ou menos, quando tirou da algibeira um bocado de giz e escreveu no interior da carroça: «Clara Peggotty», talvez para não se esquecer.

Que estranha sensação eu experimentava! Regresso ao lar, quando já não é o meu lar; recordarme dos velhos tempos, que são como os sonhos que não poderei sonhar mais... Esses dias em que eu, minha mãe e Peggotty não fazíamos senão um, sem ninguém que se interpusesse na nossa vida! Como isto se impunha ao meu espírito e me tornava triste, enquanto rodava pela estrada! Nem já sabia se me alegraria por voltar ou se mais valera ficar longe e esquecer tudo na companhia de Steerforth. Mas o facto era irremediável; depressa cheguei a casa, em cujo jardim os ulmeiros sem folhas contorciam os ramos numa atmosfera invernosa e desolada e o vento arrancava o que ainda havia dos antigos ninhos de gralhas.

O carroceiro depositou a mala ao portão, e deixoume. Eu dirigime para casa, através da vereda de entrada, sempre a olhar para as janelas, não fosse aparecer a qualquer delas o senhor Murdstone ou a irmã! Todavia não vi ninguém e, chegando à porta da residência, como sabia abrila mesmo às escuras, filo sem ruído e entrei devagarinho.

Sabe Deus que memórias da infância despertaram em mim ao ouvir a voz da minha mãe, voz que vinha da saleta e que me alcançou quando eu penetrava no vestíbulo! Cantava em voz baixa, como devia fazer quando eu ainda não passava de um bebé. A cantiga é que era nova para mim, e contudo acheia tão familiar. Foi como um amigo que voltasse, após longa ausência.

Calculei, pela maneira pensativa como ela entoava a sua canção, que se encontrasse nesse momento só. Por isso entrei pé ante pé no quarto. A mãe estava sentada perto do lume, amamentando uma criança cuja mãozinha apertava contra o pescoço. Olhavaa com ternura. Enganarame apenas em parte, porque não tinha outra companhia além desse miúdo.

Faleilhe, a mãe assustouse e soltou um grito. Vendome, porém, chamoume seu querido Davy, seu adorado filho, e, vindo ao meu encontro, ajoelhou no chão e beijoume, cingindo a minha cabeça ao seu peito, muito próximo do pequeno ser que aí continuava aninhado, e pôs a mão dele nos meus lábios.

Desejei morrer. Tenho pena de não ter morrido nesse instante, com aquele sentimento no coração. Estava mais destinado ao Céu do que o estive pela vida fora.

- É teu irmão - disseme ela, afagandome. - Davy, meu filho, meu querido filho!

Beijavame sempre, com os braços de roda do meu pescoço. Achavase nessa posição quando Peggotty apareceu correndo e se acocorou junto de nós, acrescentando as suas manifestações às da minha mãe, por cerca de um quarto de hora.

Não deviam esperarme tão cedo. O carroceiro antecipara a hora da chegada. O senhor Murdstone e a irmã parece que tinham ido fazer uma visita na vizinhança e não regressariam antes da noite. Eu não contara com tanta sorte! Estarmos outra vez reunidos, sem estranhos! Por então, julgueime transportado aos velhos tempos.

Jantámos juntos perto da lareira. Peggotty queria servirnos, mas a minha mãe não consentiu e fêla sentarse connosco. Puseramme o meu antigo prato, onde estava representado, a castanho, um navio de guerra com as velas desfraldadas: Peggotty guardarao preciosamente durante a minha ausência, não queria por nada deste mundo vêlo destruído. Eu possuía também uma caneca privativa, com o nome David aí gravado, e tinha ainda um garfo e uma faca (a qual, aliás, não cortava).

Enquanto permanecemos à mesa, achei oportuno referirme ao senhor Barkis, mas ainda não acabara de falar e já Peggotty desatara a rir, cobrindo a cara com o avental.

- Que te aconteceu, rapariga? - perguntou minha mãe.

A criada riuse com maior vontade, apertando com mais força o avental de encontro ao rosto; parecia ter enfiado a cabeça num saco. Minha mãe tentou arrancarlho.

--Que é isso, pateta? - insistiu ela.

- O raio do homem! - exclamou por fim Peggotty. - Imagine que quer casar comigo!

- Seria bom casamento para ti...

- Sei lá! Não me fale nisso. Nem que ele estivesse cheio de ouro até aos olhos. Nem esse nem outro.

- Então por que lho não dizes?

- Dizerlhe? - repetiu Peggotty, olhando por cima do aventàl. - A mim nunca fez a mínima declaração. Sabe bem com quem se metia. Se se atrevesse a tanto, pespegavalhe uma bofetada.

Estava vermelha como um tomate; mas tornou a esconder a cara, duas ou três vezes mais, para dissimular um violento acesso de hilaridade. Até que finalmente recomeçou a comer.

Notei que a minha mãe, embora sorrisse quando Peggotty olhava para ela, se tornara séria, meditabunda. Já desconfiara de que havia mudança. Ainda era bonita, porém denotava excesso de preocupações. Tinha as mãos tão magras e brancas que me pareciam transparentes. Contudo, a diferença que se produzira era de outro género: respeitava ao seu feitio, que achei nervoso, agitado. Estendeu os dedos e poisouos nos da criada, dizendolhe, em tom afectuoso:

- Minha querida Peggotty, não vais casarte, pois não?

- Eu! - exclamou a interpelada, alçando os braços. - Por certo que não!

- Não seria já?

- Nunca! - bradou a criada.

A mãe pegoulhe na mão e disse:

- Peggotty, não me abandones. Fica comigo. Talvez não seja por muito tempo. Que faria eu sem ti?

- Abandonála, minha querida senhora? Por nada deste mundo! Como se lhe meteu semelhante ideia nessa cabecinha?

Havia já muito tempo que ela tratava minha mãe como uma criança.

A resposta foi um agradecimento, e Peggotty continuou, à sua moda:

- Eu, deixála? Gostava de ver isso! Não, não, minha querida senhora! - declarou, meneando a cabeça e cruzando os braços. - Conheço quem ficaria satisfeito, se tal acontecesse. Mas enganase. Ficarei consigo até ser uma velha tonta. E quando estiver surda, cega e achacada, e não prestar para nada mais, só para receber ralhos dos senhores, então vou ter com o meu Davy e peçolhe que me dê asilo.

- Oh, Peggotty - atalhei - ficaria muito contente e recebiate de braços abertos.

- Deus abençoe o seu bom coração. Eu bem o sabia, menino. E beijoume, antecipando o seu reconhecimento pela prometida

hospitalidade. Depois disto, tornou a cobrir a cabeça com o avental e riuse mais uma vez pensando no Barkis. Então pegou no bebé, que estava no berço, embalouo, e repôlo no mesmo lugar. Levantou a mesa, saiu, e veio com outra touca, e a caixa de costura, a fita métrica e um coto de vela, tudo exactamente como antes.

Sentámonos defronte do fogão e conversámos pacificamente. Conteilhes a severidade de Creakle e elas lastimaramme condoídas. Expliqueilhes também como Steerforth era um rapaz simpático e quanto me protegia, e Peggotty participou que andaria vinte milhas a pé só para o conhecer. O meu irmãozinho acordou e eu, tomandoo nos braços, acarinheio ternamente. Quando outra vez adormeceu, aproximeime da minha mãe, repetindo o hábito de outrora, tão longamente interrompido, cingia pela cintura e apoiei a cara no ombro dela. Os seus lindos cabelos de novo me envolveram como uma asa de anjo (lembrome que era esta a comparação que eu fazia) e sentime verdadeiramente feliz.

Enquanto estive ali sentado, a olhar para o lume e a imaginar imagens formandose nas brasas, eu quase acreditei que nunca me havia ausentado, que o senhor Murdstone e a irmã eram pura fantasia e que deviam extinguirse juntamente com o fogo. E que não existia mais nada de real senão a minha mãe, Peggotty e eu.

A criada passajava uma meia e trabalhou até que lhe faltou a luz, e então ficou com ela enfiada na mão esquerda, como uma luva, e a agulha na direita, pronta a dar outro ponto quando do borralho surgisse novo clarão. Não imagino a quem pertenceriam as meias que Peggotty continuamente passajava, nem donde podia vir uma provisão tão abundante. Desde a minha mais tenra infância que sempre a vi ocupada unicamente nesse género de trabalhos de agulha.

- Gostava de saber - disse Peggotty, que às vezes era tomada de uma curiosidade quanto aos assuntos mais inesperados -, gostava de saber que será feito da tiaavó de Davy.

- Oh, Peggotty, lembraste de cada uma! - murmurou minha mãe, que parecia emergir do seu devaneio.

- Em todo o caso sempre queria saber...

--Como é que te veio isso ao pensamento? Não haverá outras pessoas de quem possamos falar?

- Não sei como é, talvez até seja disparate, mas não escolho as pessoas de quem me recordo. As lembranças acodem, vêm e vão sem eu querer. Realmente, que seria feito daquela senhora?

- Ao ouvirte, julgarseia que desejas nova visita da tia Betsey.

- Deus nos livre! - exclamou Peggotty.

- Então não fales mais em coisas desagradáveis, se desejas o meu bemestar. A tia Betsey háde estar fechada na sua vivenda à beiramar, e lá continuará decerto. Mas, seja como for, não é provável que venha de novo incomodarnos.

- Não é provável, não. O que eu penso - continuou a criada, com ar pensativo - é se ela, por sua morte, deixa alguma coisa ao Davy.

- Meu Deus, Peggotty! Enlouqueceste. Não vês que até ficou ofendida só pelo facto de ele nascer?

- Talvez agora esteja disposta a perdoarlhe - sugeriu Peggotty.

- Mas porquê? - retorquiu vivamente a minha mãe.

- Porque tem agora um irmão...

A mãe começou logo a chorar, dizendo não compreender como é que Peggotty se atrevia a supor tal coisa.

- Como se este inocentinho, no seu berço, tivesse feito mal, a ti ou a quem quer que seja... Deixate de ciúmes. Olha, mais vale que te cases com o senhor Barkis carroceiro. Quem to impede?

- Daria grande satisfação à senhora Murdstone - afirmou Peggotty.

- Ai, que mau carácter o teu! Tens ciúmes da senhora Murdstone, o que é ridículo. Preferias seres tu a guardar as chaves e a distribuir os mantimentos? Não me admiraria nada. Bem sabes que ela só o faz por generosidade, na melhor das intenções. Não me digas, Peggotty, que não sabes.

A criada resmungou qualquer coisa que significava: «Vá ela para o diabo com as suas boas intenções», e deu a entender que, destas, estava o inferno cheio.

- Percebo o que queres dizer, minha rabugenta. Devias corar de vergonha. Mas vamos a uma coisa de cada vez. Não me escapas, Peggotty. Não a ouviste observar, com frequência, que sou muito estouvada e muito...

- Bonita - concluiu a criada.

- Seja - volveu a mãe, meio sorridente - se ela tem o mau gosto de o pensar. Mas sendo assim, que culpa tenho eu?

- Ninguém a culpou de ser bonita.

- Sim, realmente ninguém o terá feito. No entanto, essa é a razão pela qual ela deseja pouparme muitos trabalhos. Nem eu sei se seria capaz de os levar a cabo! Levantase cedo, deitase tarde, sempre num rodopio, a fazer tudo e a vasculhar tudo, na carvoeira, na despensa, em tantos lugares que não devem ser agradáveis. E ainda insinuas que não é pessoa dedicada!

- Não insinuei nada - replicou Peggotty.

- Ora!-atalhou a mãe. - Não fazes outra coisa, além do teu serviço. Passas o tempo a insinuar. Era o que te dizia há pouco. Insinuas constantemente. Dissete que te compreendia e tu bem vês que sim. E quando falas das boas intenções do senhor Murdstone, finges que não as tomas a sério (porque, no fundo, não estás a ser sincera). Sabes tão bem como eu que essas intenções são boas e que não procedem de nenhum outro sentimento. Se parece haver nele severidade para com alguém (estou certa de que me entendes, Peggotty, assim como o Davy), é porque está convencido de que isso só traz vantagem. Estima bastante essa pessoa por amor de mim; tratase apenas do seu bem. Julga melhor do que eu, pois sou um tanto fraca, e vã, e muito nova, e ele é um homem sério, grave, e mais seguro juiz do que eu. Dáse a muitos trabalhos por minha causa - rematou a mãe, cujos olhos se encheram de lágrimas - e eu devo serlhe reconhecida e submissa, mesmo em pensamento. Se não for assim, sinto remorsos e a mim própria me censuro.

Peggotty levou ao queixo o pé da meia que passajava e contemplou em silêncio o lume no fogão.

- Então - disse a mãe, mudando de tom - continuemos boas amigas, não suportaria a ideia de que te havias zangado. Sei que és amiga sincera, a única que tenho. Quando digo que és ridícula, ou irritante, ou qualquer coisa neste género, não esqueço a tua dedicação já tão antiga... desde o dia em que o meu defunto Copperfield me trouxe aqui pela primeira vez e tu vieste ao portão receberme.

A criada não se demorou a ratificar este tratado de amizade, apertandome ao peito com toda a força. Julgo que suspeitei então, por momentos, qual o verdadeiro sentido daquela conversa; e hoje estou convencido de que Peggotty a provocou só para dar à minha mãe oportunidade de se consolar fazendolhe o pequeno sumário de querela a que se entregou com tanto gosto. O cálculo era justo, porque notei nela, no resto do serão, um ar mais à vontade e maior desprendimento em Peggotty.

Depois do chá, revolvidas as brasas e espevitadas as velas, eu li à Peggotty um capítulo do Livro dos Crocodilos, como evocação dos tempos idos (tirouo da algibeira; eu desconfio que ali o tivera guardado desde a minha partida). Em seguida falámos do Internato de Salem, o que me trouxe à balha o assunto de Steerforth, para mim o preferido. Sentíamonos felizes. Aquela noite foi a última do nosso convívio e estava destinada a fechar uma parte da minha vida, que jamais se me apagará da memória.

Eram quase dez horas quando ouvimos um som de rodas. Pusemonos todos de pé. A mãe disseme precipitadamente que a noite já ia adiantada e que o senhor Murdstone e a irmã professavam a opinião de que as crianças deviam deitarse cedo; em suma, que chegara o momento de eu recolher à cama. Beijeia e subi logo a escada, com uma vela na mão, antes que os Murdstones chegassem. Ao entrar no meu quarto (onde estivera encarcerado), tinha a impressão de que, com esses dois irmãos, penetrara na casa um sopro de ar frio, o qual levara dali, como uma pluma, o velho sentimento familiar.

Senti grande relutância, no dia seguinte, em descer para o primeiro almoço, pois não tornara a ver o meu padrasto depois do dia memorável em que o ofendera tão gravemente. Devia, porém, decidirme. Fui por duas ou três vezes até ao patamar e voltei ao quarto, em bicos de pés, até que, por fim, me apresentei na saleta.

O senhor Murdstone estava de costas para o fogão e a irmã preparava o chá. Ele olhoume com fixidez, como se não me reconhecesse.

Após um momento de embaraço, avancei e disse:

- Peçolhe perdão. Estou muito arrependido do que fiz e espero que seja benevolente.

- Estimo saber que te arrependeste, David - respondeu ele.

Estendeu a mão, essa mesma mão que eu mordera, e eu não pude coibirme de olhar um instante para a cicatriz vermelha que aí avultava; mas não seria tão vermelha como a cor que me subiu às faces quando notei a sua expressão ameaçadora.

--Como passa, minha senhora? - perguntei, dirigindome à Murdstone.

- Ah, meu Deus! - suspirou ela, apresentandome a colher de chá em vez dos dedos. - Quanto tempo duram as férias?

- Um mês.

- A contar de quando?

- A contar de hoje.

- Oh! Então faz menos um dia.

Assim tinha ela o calendário das férias, no qual todas as manhãs abatia um dia. Fez isso com ar triste até chegar a dez, mas, quando principiaram a ser dois algarismos, tornouse esperançada, e, conforme o tempo decorria, até parecia mais alegre.

Logo no primeiro dia tive a pouca sorte de a lançar num estado de sobressalto e consternação, embora ela, em geral, não fosse sujeita a estas fraquezas. Entrei no quarto em que a solteirona se encontrava com a minha mãe: nos joelhos desta estava o bebé, que não tinha mais do que umas semanas, e eu pegueio ao colo, com o maior cuidado. De súbito, a senhora Murdstone soltou um grito, e eu quase o deixava cair.

- Oh, Jane, que foi? - inquiriu minha mãe.

- Pois não vê, Clara?

- Não vejo o quê, Jane?

- Ele temno! Esse pequeno pegou no bebé!

Desfalecia de horror, mas endireitouse para correr até mim e tiroume a criança dos braços. Nessa altura perdeu os sentidos. E parecia tão doente que se viram obrigados a darlhe licor de ginja. Quando se recompôs, proibiume formalmente de tocar no meu irmão, sob nenhum pretexto. E a minha mãe, coitada, que teria desejado outra coisa (bem o compreendi), confirmou timidamente a interdição dizendo:

- Não há dúvida, querida Jane, de que tem razão.

Noutra ocasião em que estávamos juntos, essa criança inocente (que eu estimava tanto, por amor de minha mãe) foi causa de nova cólera da senhora Murdstone. A mãe conservavaa ao colo e observavalhe os olhos. Depois chamoume e começou a examinar os meus.

A solteirona pôs de lado as contas que enfiava.

- Parecemse muito - declarou por fim a mãe. - São da cor dos meus. É espantosa a semelhança dos dois irmãos.

- Clara - interveio a senhora Murdstone - de que é que fala? - Querida Jane - volveu a interpelada, que se assustara com

a dureza de tom da sua inquisidora. - Acho que os dois pequenos têm os olhos iguais.

- Enlouqueceu, com certeza! - exclamou a senhora Murdstone, levantandose furiosa. - Não há semelhança nenhuma. Diferem em tudo. Como se atreve a comparar o filho do meu irmão com o seu? Não ficarei aqui nem mais um instante, se é para ouvir tais dislates. - Disse isto e saiu, batendo a porta com força.

Em suma, eu não gozava de simpatia junto da senhora Murdstone. Nem junto de mais ninguém, nem sequer de mim mesmo, pois os que me estimavam não o podiam manifestar e os outros mostravammo tanto que eu tinha sempre a sensação dolorosa do meu embaraço, rudeza e estupidez.

Compreendia que os incomodava tanto quanto eles me incomodavam. Se entrava num quarto em que estavam a conversar e se a minha mãe parecia contente, logo a inquietação lhe passava pelo rosto, como uma nuvem. Se o senhor Murdstone se achava de bom humor, eu anulava imediatamente essa boa disposição. Tinha a percepção suficiente para saber que a minha mãe era sempre a vítima; ela receava falarme ou ser agradável comigo, com medo de os magoar e de ouvir em seguida uma sarabanda; vivia no temor constante não só de os ofender mas de os ver ofendidos só com a minha presença. De maneira que tomei a decisão de me conservar o mais possível de parte. Quantas vezes ouvi, sozinho, o relógio da igreja soar as horas de Inverno, sentado no meu quarto triste, embrulhado no meu sobretudo e debruçado sobre um livro.

À noite, eu muitas vezes ia à cozinha e aí me sentava com Peggotty. Sentiame à vontade, mesmo sem aquele medo instintivo de mim mesmo. Os outros, porém, não gostavam disto. Consideravamme ainda necessário à reeducação da minha pobre mãe, para quem eu constituía uma provação que eles não podiam

dispensar.

- David - disse uma vez o senhor Murdstone, depois do jantar, quando me preparava, como de costume, para me retirar. - Desgostame ver que continuas taciturno.

- Como um urso! - acrescentou a irmã. Fiquei parado e baixei a cabeça.

- Pois, David - insistiu ele -, um temperamento desses é o pior que pode haver. Jane atalhou:

- Este rapaz é o mais obstinado de quantos tenho visto. Querida Clara, não lhe parece?

- Desculpe - retorquiu a mãe. - Estou certa de que me perdoará. Mas acha que compreende o David?

- Envergonharmeia de mim mesma, Clara, se não compreendesse o rapaz, este ou outro qualquer. Não pretendo ser profunda, no entanto não me falta bom senso.

- Sem dúvida, querida Jane - replicou a mãe. - Sei que é uma pessoa enérgica...

- Não se trata disso, por amor de Deus!-acudiu a outra, melindrada.

- É, sim, e todos o sabem. Estou plenamente convencida...

- Admitamos, Clara, que eu não compreendo o David - disse a senhora Murdstone, compondo os grilhões da pulseira. - Admitamos que não o compreendo inteiramente. É muito complicado para mim. Mas talvez a perspicácia de meu irmão nos ajude a entender o carácter do rapaz. E creio que ele dizia qualquer coisa a este respeito quando nós o interrompemos, aliás de uma forma pouco delicada.

- Suponho, Clara - começou o marido, em voz baixa e com ar grave - que pode haver, neste assunto, juízes menos apaixonados e melhores do que tu.

- Edward - redarguiu timidamente a mulher - és sempre melhor juiz do que eu, em todas as questões. Tu, e igualmente a Jane. Eu apenas dizia que...

- Dizias apenas uma coisa que demonstrava a tua fraqueza e inconsideração. Faze o possível de não insistir e dominate.

Os lábios da minha mãe moveramse, mas, em voz alta, só proferiu isto:

- Sim, querido Edward...

O senhor Murdstone virouse para mim e, com semblante sério, repetiu:

- Eu tinha observado, David, o meu desagrado por ver que tinhas esse feitio macambúzio. É uma coisa que não posso deixar desenvolverse sob as minhas vistas, sem a devida correcção. Tens de te esforçar por te corrigir. E a nós compete diligenciar nesse sentido.

- Desculpe - balbuciei. - O meu desejo não era esse, desde que voltei.

- Não te refugies na mentira - replicou tão enfurecido que a minha mãe estendeu involuntariamente a mão para se interpor. - Escondeste no teu quarto, por teimosia, em vez de vires para junto de nós. Fica sabendo, de uma vez para sempre, que te quero aqui. Exijo também que sejas obediente. Conhecesme, David. Esta è a minha vontade.

A senhora Murdstone emitiu um riso rouco, meio sufocado, que denunciava a sua satisfação.

- Quero prontidão respeitosa para comigo, a tua mãe e a minha irmã. Não suporto que uma criança, por seu mero prazer, evite esta sala como se estivesse infectada. Sentate.

Deume esta ordem como se faz a um cão, e, como um cão, obedeci.

- Mais uma coisa - ajuntou ele. - Reparo que tens prazer em companhias baixas, vulgares. Não deves acamaradar com os criados. A cozinha não te melhora nos aspectos em que precisas de aperfeiçoamento. Da mulher que te incita não direi nada, visto que tu, Clara - e dirigiuse à minha mãe, baixando a voz - tens a fraqueza de a escutar, devido decerto a velhas recordações e certas fantasias de há muito toleradas.

- Ilusão inexplicável!-comentou Jane Murdstone.

- Quero dizer - continuou ele, dirigindose a mim - que não concordo com o teu gosto pela companhia da senhora Peggotty e que tens de renunciar a ela. Agora, David, que me ouviste sabes quais podem ser as consequências de não me obedeceres à letra.

Eu sabia bem quais eram, mais do que o próprio suporia, e portando obedeci. Nunca mais me isolei no meu quarto, nem me refugiei junto de Peggotty. Dias após dias, fiquei melancolicamente na saleta, esperando pela hora de me ir deitar.

Que penoso constrangimento não experimentei, ali na mesma posição durante tanto tempo, sem me atrever a erguer um braço ou estender uma perna, com medo de que Jane Murdstone não se queixasse da minha agitação (como fazia ao menor pretexto!). Nem sequer dirigia a vista para esse lado, porque podia encontrar aqueles olhos hostis e perscrutantes que até nos meus achariam motivo de censura. Que aborrecimento intolerável, esse de ouvir o tiquetaque do relógio ou ver a senhora Murdstone enfiar contas de aço luzidias. Pensava então se essa mulher jamais se casaria e qual devia ser a sorte do marido infortunado que a recebesse, e contava, para me distrair, os torneados do fogão ou admirava o tecto e os desenhos do papel da parede.

Quantos passeios dei, sozinho, pelos caminhos enlameados, sob o Inverno rigoroso, levando comigo a pesada recordação da saleta com os irmãos Murdstones, carga monstruosa que era obrigado a suportar, pesadelo diurno impossível de banir do pensamento, que me esmagava a inteligência e a embotava!

Quantas refeições tomei em silêncio, constrangido, sentindo sempre que havia uma faca e um garfo a mais, os meus; um apetite a mais, o meu; um prato e uma cadeira a mais, esses de que me servia; e, enfim, alguém a mais, que era eu mesmo!

Quantas noites passei, quando traziam as velas e eu devia entreterme comigo só, sem me atrever a abrir um livro, a não ser o compêndio de Aritmética, sobre o qual suava, tão vazio ele era de interesse humano! As tabelas dos Pesos e Medidas, de súcia com hinos patrióticos e canções, recusavamse a ser decoradas, entravamse por um ouvido e saíamme por outro.

Quantos bocejos, quanto cabecear de sono, apesar dos meus esforços para me manter direito! Às vezes despertava sobressaltado; e, se fazia qualquer pergunta, ninguém se dignava responder. Eu não era ninguém, só servia para incomodar os outros. E que alívio quando Jane Murdstone, à primeira badalada das nove horas, me dava ordem de recolher à cama!

Assim se arrastaram os dias, até que chegou certa manhã em que a minha inimiga-, passandome a última xícara de chá, declarou: «Acabaramse as férias!»

Não me importava partir. Encontravame em tal estado de embrutecimento que o meu desejo era reencontrar Steerforth, se bem que por trás dele aparecesse a sombra de Creakle. Mais uma vez apareceu ao portão o carroceiro Barkis e mais uma vez a senhora Murdstone avisou minha mãe com um «Clara!» enérgico quando ela se inclinou para me dar o beijo de despedida.

Beijeia também, assim como o meu irmãozinho, e então sentime triste, não, porém, de me ir embora, pois entre nós cavarase um abismo e a separação já existia. O seu adeus, embora caloroso, não está tão presente na minha memória como o que se seguiu.

Achavame na carroça quando a ouvi pronunciar o meu nome. Volteime e via à porta, com o pequenito nos braços, erguendoo para que eu o contemplasse. O tempo ainda se mantinha frio, mas sem vento. Nem um cabelo, nem uma dobra do seu vestido se moveu enquanto ela ali ficou olhandome intensamente e segurando sempre a criança à altura da cabeça.

Foi assim que a perdi. Foi assim que a evoquei mais tarde, no Internato - uma presença silenciosa junto da minha cama -, olhandome com o mesmo olhar fixo e o bebé erguido nos braços.