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Mas não ficou assim durante todo o tempo da sua doença; era um estado febril, com delírio e semiconsciência. De muitas coisas veio a recordar-se depois. Parecia-lhe que se tinha reunido muita gente à sua volta e que queriam levá-lo não sabia para onde, e que discutiam muito a seu respeito. De repente ficou sozinho no quarto, pois todos se foram embora, cheios de temor, e somente a porta se entreabria de quando em quando e era daí que o olhavam, o ameaçavam, cochichavam entre si, riam-se e censuravam. Lembrava-se de ter visto muitas vezes Nastássia a seu lado; e também tinha visto ali, à sua cabeceira, um indivíduo que lhe parecia bem seu conhecido, mas ao qual não podia identificar... com precisão, o que muito o exasperava e até o fazia chorar. Às vezes parecia-lhe que havia já um mês que estava de cama... Mas outras parecia-lhe que ainda não passara nem um dia. "Daquilo... daquilo" esquecera-se completamente; mas lembrava-se a todo o momento que se esquecera de qualquer coisa de que não era possível esquecer-se... e angustiava-se e afligia-se perante essa recordação; gemia, enfurecia-se ou espantava-se, ficava tomado de um medo indomável. Então erguia-se na cama, queria disparar; mas havia sempre alguém que o dominava à força, e caía de novo na inércia e no torpor. Até que finalmente acabou por recuperar toda a lucidez.

Sucedeu isso uma manhã, aí pelas dez horas. A essa hora da manhã, nos dias bons, o sol projetava sempre um comprido raio de luz ao longo da parede da direita e iluminava um canto junto da porta. À sua cabeceira estava Nastássia e também um homem novo que o olhava com grande curiosidade e que lhe era completamente desconhecido. Era um rapaz de caftã, barbicha e todo o aspecto de um caixeiro. A senhoria espreitava pela porta aberta. Raskólhnikov ergueu-se.

- Quem é, Nastássia? - perguntou, indicando-lhe o rapaz. - Olhem, já voltou a si! - disse ela.

- Já! - repetiu o caixeiro.

Assim que viu que ele voltara a si, a senhoria, que espreitava à porta, apressou-se a fechá-la e desapareceu. Era muito tímida e não podia suportar discussões nem explicações; devia ter uns quarenta anos e era gorda, de sobrancelhas negras e olhos negros, e também bonacheirona por ser tão gorda e indolente, e também muito acomodatícia de seu normal. E exageradamente envergonhada.

- Quem é... o senhor? - insistiu ele, dirigindo-se ao próprio caixeiro. Mas nesse mesmo instante a porta tornou a abrir-se de par em par, e, curvando-se um pouco por causa da sua elevada estatura, Razumíkhin entrou. - Parece um beliche de barco! - exclamou quando entrou.

- Hei de bater sempre com a testa na porta; e é a isto que chamam um quarto! Com que então já voltaste a ti? Foi o que me disse Páchenhka. - Acabou agora mesmo de recuperar os sentidos - disse Nastássia. - Sim, acabou agora mesmo de espevitar- concordou também o caixeiro. - Mas quem é o senhor? - perguntou Razumíkhin de repente, encarando com ele. - Dê-me licença que me apresente: eu sou VRazumíkhin (1), e não Razumíkhin, como costumam chamar-me, estudante, nobre de nascimento, e ele é meu amigo. Agora faça o senhor o favor de nos dizer quem é.

- Eu sou empregado da loja do comerciante Chelopáiev, e vim aqui tratar de um assunto.

- Pois faça o favor de sentar-se nesta cadeira - Razumíkhin sentou-se em outra, ao lado da mesa. - Muito bem, meu amigo, fizeste muito bem em te pores lúcido - continuou, dirigindo-se a Raskólhnikov. - Com hoje, já são quatro dias que levas sem comer quase absolutamente nada e sem beberes sequer uma gota. O que valeu foi te terem dado chá às colherzinhas. E Zósimov veio ver-te por duas vezes comigo. Lembras-te de Zósimov? Observou-te com muita atenção e disse redondamente que isso não era nada... mas que era assim como se tivesses recebido uma pancada na cabeça. "Qualquer desarranjo de nervos ou má alimentação", dizia, "falta de cerveja e de rábanos, mas isso não tem importância e em breve estará bom." Viva o Zósimov! Já começa a tornar-se célebre com as suas curas. Bem, mas eu não quero entretê-lo - e tornou a dirigir-se ao caixeiro. - Faça o favor de me dizer o que deseja. Rodka, participo-te que já é a segunda vez que vêm, da parte dessa loja; simplesmente, da outra vez não foi este quem veio, mas outro, e foi com ele que nos entendemos. Quem foi que veio da outra vez?

- Suponho que isso devia ter sido anteontem, foi isso, exatamente. Então devia ter sido Alieksiéi Siemiônovitch; também é empregado da nossa loja.

- É um pouco mais tagarela do que o senhor, segundo me parece. - Sim, é um homem mais sensato.

- Dou-lhe os meus parabéns; bom, mas continue.

- Pois então ouça: por intermédio de Afanássi Ivânovitch Vakhrúchin, do qual suponho que já deve ter ouvido falar por mais de uma vez, e a pedido de sua mãe, recebeu-se na nossa loja uma encomenda para o senhor - começou o caixeiro, dirigindo-se a Raskólhnikov. - Quando o senhor tivesse já recuperado o conhecimento... entregar-lhe-íamos trinta e cinco rublos, que Afanássi Ivânovitch entregou a Siemion Siemiônovitch, da parte de sua mãe, como da outra vez, do que julgo que já deve estar prevenido, não é verdade?

* (1) Deturpação propositada do nome para Vrasumíkhin - ajuizador, derivado da mesma raiz de que se vale Dostoiévski para manifestar a opinião de Razumíkhin sobre ele mesmo. No capítulo dois da quarta parte, o autor recorre a uma outra deturpação do nome desta personagem. (N. do T.) *

- Sim... já me lembro... Vakhrúchin... - exclamou Raskólhnikov, pensativo.

- Estão ouvindo? Conhece o comerciante Vakhrúchin! - exclamou Razumíkhin. - Portanto já está em seu perfeito juízo! Além disso, vejo agora que o senhor também é um homem eloqüente. Sempre é agradável ouvir um bom discurso!

- É desse mesmo que se trata, de Vakhrúchin, Afanássi Ivânovitch, e da parte de sua mamã, a qual se serviu do mesmo intermediário da outra vez, e agora, contando com a aquiescência de Siemion Siemiônovitch, encarregou-o de lhe entregar trinta e cinco rublos, enquanto não puder mandar mais.

- Olhe, esse "enquanto não puder mandar mais" foi o que me agradou mais; embora também essa "de sua mamã" não esteja mal de todo. Bem, vamos lá a ver: que lhe parece? Está ou não está em seu perfeito juízo? - A mim tanto me faz... Contanto que ele assine o respectivo recibo... - Há de assinar. Tem aí o recibo?

- Ei-lo.

- Muito bem. Vamos, Rodka, levanta-te, que eu te amparo. Faz a tua assinatura; Raskólhnikov, pega a pena, porque, meu amigo, o dinheiro, agora, é-nos indispensável.

- Não é preciso! - disse Raskólhnikov afastando a pena. - Não é preciso?!

- Não assino.

- Ó diabo, é o recibo!

- Eu não preciso de... dinheiro...

- Não precisas de dinheiro? Vamos, meu caro, tu estás mentindo e eu sou testemunha! O senhor não se preocupe, ele diz isso apenas por... está outra vez delirando. Apesar de que, às vezes, quando está lúcido, também tem destas saídas... Mas o senhor é uma pessoa sensata e nós os dois damos-lhe as mãos e ele assina. Vamos, ajude-me...

- O melhor será voltar noutro dia.

- Não, não. Para que há de incomodar-se? O senhor é um homem sensato... Vamos, Rodka, despacha o visitante... Olha que ele está à espera - e, seriamente, dispôs-se a pegar na mão de Rodka.

- Deixa-me, eu sozinho... - exclamou aquele, e, pegando a caneta, assinou o recibo.

O caixeiro entregou o dinheiro e saiu.

- Bravo! E agora, dize-me cá, queres comer? - Quero - respondeu Raskólhnikov.

- Há sopa?

- A de ontem - respondeu Nastássia, que durante todo esse tempo não arredara dali.

- De batatas e arroz. - De batatas e arroz? - Já sei de cor. Traze-me a sopa e dá-me chá. - Já trago tudo.

Raskólhnikov olhava para tudo profundamente assombrado e com um medo estúpido e absurdo. Decidiu calar-se e esperar. Que mais estaria para suceder? "Parece-me que, agora, não estou delirando", pensava, "parece que é verdade..."

Dois minutos depois Nastássia voltava com a sopa e prevenia que daí a pouco traria o chá. Juntamente com a sopa trazia duas colheres, dois pratos e um serviço completo de mesa: saleiro, pimenteiro, mostarda para a carne e outras coisas que, antes, havia já muito tempo, não costumavam aparecer; até a toalha estava limpa.

- Nástiuchka, seria bem bom se Praskóvia Pávlovna mandasse vir duas garrafas de cerveja.

- Essa não está má... - resmungou Nastássia, e saiu para cumprir a ordem.

Raskólhnikov continuava olhando para tudo, ávida e desconfiadamente. Entretanto, Razumíkhin já se sentara a seu lado, sobre o divã, e, desajeitado como um urso, segurou-lhe a cabeça com a mão esquerda, apesar de ele poder muito bem erguer-se sozinho, e com a direita levava-lhe à boca colheradas de sopa, que às vezes soprava previamente, para que ele não se queimasse. Mas a sopa estava morna, quando muito; Raskólhnikov engoliu sofregamente uma colherada, e a seguir outra e outra. Mas, depois de lhe ter dado assim algumas colheradas, Razumíkhin de repente parou e declarou que, para continuar, seria preciso consultar Zósimov.

Nastássia entrou trazendo as duas garrafas. - E chá, queres?

- Quero.

- Vai buscar o chá depressa, Nastássia, porque quanto ao chá podemos tomá-lo sem consultar a Faculdade. Ora aqui está a cerveja!

Foi para a sua cadeira, serviu-se de sopa e de carne, e começou a comer com tal apetite que parecia ter uma fome de três dias.

- Eu, meu caro Rodka, passarei agora a almoçar todos os dias contigo - disse, com a boca cheia de carne -, e tudo isso se deve a Páchenhka, a tua boa senhoria, que é quem manda tudo isto: está cheia de atenções para contigo. Eu não acho isso nada mal e, é claro, não me oponho. Ora aqui temos a Nastássia com o chá. És uma espertalhona! Queres cerveja, Nástienhka? - Deixa-te de graças!

- E um bocadinho de chá? - Chá, aceito.

- Então serve-te. Mas espera, que te sirvo eu mesmo; senta-te à mesa. E começou logo a servir-lhe o chá; a seguir encheu-lhe outra chávena, e depois deu o almoço por terminado e voltou para o divã. Tal como havia pouco, pegou na cabeça do doente com a mão esquerda, endireitou-lha e começou a dar-lhe colheradas de chá, soprando também continuadamente com todo o cuidado, como se isso de soprar fosse muito importante para o seu restabelecimento, para a sua salvação. Raskólhnikov estava calado e não opunha resistência, apesar de se sentir com forças suficientes para se levantar e sentar no divã sem auxílio alheio, para segurar a colher ou a chávena do chá com a mão, como até para andar. Mas, por uma certa astúcia estranha, parecida com a dum animal, lembrara-se de repente de dissimular a sua força, de fingir, de fazer que não percebia nada, se preciso fosse, e entretanto ia escutando e vendo o que se passava. Aliás, não conseguia vencer completamente a sua repugnância; depois de ter engolido dez colheradas de chá, afastou repentinamente a cabeça, repudiou a colher, caprichoso, e tornou a recostar-se na almofada. Debaixo da sua cabeça havia agora, de fato, uma almofada a valer, de penas, e com a fronha limpa, no que reparou, muito admirado.

É preciso que Páchenhka nos envie ainda hoje doce de framboesa para lhe fazer um xarope - disse Razumíkhin, que voltara para o seu lugar e se atirara outra vez à sopa e à cerveja.

- Mas onde é que ela há de ir buscar framboesa para ti? - perguntou Nastássia, segurando o pires na palma da mão e sorvendo o chá através do açúcar. (2)

- A framboesa, minha amiga, vai buscá-la à loja. Olha, Rodka: aqui sucedeu uma coisa de que tu não estás ainda a par. Quando tu saíste de minha casa, daquela maneira traiçoeira, sem me dares o teu endereço, fiquei tão indignado que jurei procurar-te até te encontrar e castigar-te. Nesse mesmo dia pus-me no teu encalço. Andei para cá e para lá, perguntei e tornei a perguntar. Bom, tinha-me esquecido da tua residência atual, embora, aliás, nunca pudesse lembrar-me dela porque não a sabia. Da tua antiga moradia, só me lembro de que vivias nas Cinco Esquinas, em casa de Kharlámov, mas afinal verificou-se que não era em casa de Kharlámov, mas sim na de Buck. É para que se veja como as palavras podem levar-nos a obras! Bem, eu estava furioso e no outro dia fui, tentando a sorte, ao Registro de Endereços (3), e imagina: em dois minutos deram-me a tua direção. Tu próprio tinhas lá a tua assinatura.

* (2) As pessoas do povo introduziam os torrões de açúcar na boca e bebiam depois o chá. (N. do T.)

(3) Todos os habitantes das cidades russas importantes estavam registrados, por bairros, nos arquivos da polícia. Em Moscou e em Petersburgo existia uma repartição policial onde os particulares podiam obter todos os endereços, pessoalmente, e até pelo correio, pagando uma certa quantia por informação pedida. (N. do T.) *

- A minha assinatura?

- É assim mesmo; e, para que vejas: em compensação, pelo menos enquanto eu lá estive, não foram capazes de encontrar o endereço do general Kóbieliv. Mas, sobre isso, haveria muita coisa a dizer. Mal me apresentei, puseram-me imediatamente a par de tudo, sobre a tua pessoa, de tudo; sei tudo, e Nastássia é testemunha. Fiquei conhecendo Nikodim Fomitch, lliá Pietróvitch, o porteiro, o sr. Zamiótov Àlieksandr Grigórievitch, o secretário do comissariado do distrito e, finalmente, fiquei conhecendo Páchenhka... Mas isso foi no fim de tudo; Nastássia bem o sabe...

- Puseste-a doce como o mel - murmurou Nastássia com malícia. - Devias era pôr o açúcar no chá, em vez de o beberes assim, Nastássia Nikíforovna.

- Cala-te, malcriado! - gritou Nastássia de repente, e pôs-se a rir. - Eu sou Pietrovna e não Nikíforovna - acrescentou de súbito, assim que acabou de rir.

- Tomemos nota. Ora muito bem, meu caro, para não falar de coisas inúteis, eu gostaria de usar de grandes meios para extirpar de uma vez todos os preconceitos locais; mas Páchenhka foi mais forte. Eu, meu caro, nunca poderia esperar que ela fosse tão... acomodatícia... hem? Que dizes a isto?

Raskólhnikov continuava calado, embora nem por um instante desviasse dele o seu olhar perscrutador, e ainda agora continuava a olhá-lo tenazmente.

- É até muito... - continuou Razumíkhin, sem se incomodar absolutamente nada com aquele silêncio e como se respondesse a uma resposta que tivesse recebido - é até muito como deve ser, sob todos os aspectos.

- Eh! Compadre! - tornou a exclamar Nastássia, à qual tudo aquilo dava evidentemente um prazer inexplicável.

- É pena, meu amigo, que não tenhas sabido compreendê-la desde o primeiro momento. Devias tê-la tratado de outra maneira. É, por assim dizer, o caráter mais inesperado. A respeito disso, do caráter, falaremos depois... Mas... como chegaram até o ponto de ela não te mandar comida? E, por exemplo, esse caso da letra? Mas tu estavas doido quando assinaste essa letra? E isso para não falar sobre essa proposta de casamento, quando ainda era viva Natália legórovna... Eu sei tudo! Embora, no fim de contas, perceba que isto é um assunto muito delicado e que eu sou um burro; desculpa. Mas, já que falamos de disparates, que te parece?... Olha, meu amigo: Praskóvia Pávlovna não é tão tola como pode parecer à primeira vista, não achas?

- Sim... - balbuciou Raskólhnikov, olhando para o outro lado, mas compreendendo que era conveniente suportar aquela tagarelice.

- Então não é? - exclamou Razumíkhin, evidentemente satisfeito por lhe terem respondido. - Mas também é tola, não é verdade? Absolutamente, absolutamente, é o caráter mais desconcertante! Eu, meu caro, até certo ponto, todo eu me derreto, garanto-te... Deve ter quarenta, provavelmente. Ela diz trinta e seis e está no seu pleno direito. Além disso, juro-te que a opinião que formo sobre ela é puramente intelectual, metafísica; neste ponto, meu amigo, começo a fazer uns cálculos mais arrevesados do que os da álgebra. Não percebo patavina! Bom, mas tudo isto é absurdo; e ela, quando viu que tu já não eras estudante, que não tinhas lições nem roupa, e que, falecida a moça, não podia considerar-te da família, ficou assustada, coitada; e como tu, pelo teu lado, ficavas amodorrado no teu canto e não te davas já com ela, como antes, então resolveu pôr-te fora do teu quarto. E havia já muito tempo que ela tinha essa intenção; e isso da letra não lhe agradou nada. Além de que tu próprio lhe garantiste que a tua mãe lhe pagaria...

- Isso dizia-lho eu por pura maldade. À minha mãe pouco lhe falta para pedir esmola... E eu mentia para que não me expulsassem do quarto e... continuassem a dar-me de comer - declarou Raskólhnikov em voz alta e clara.

- Sim, e fazias bem. O pior foi que recorreram ao senhor Tchebárov, conselheiro da Corte e homem de negócios. Sem ele, Páchenhka não teria pensado nisso, porque é muito tímida; mas um homem de negócios não se sente coibido perante nada e, naturalmente, a primeira coisa que fez foi fazer-lhe esta pergunta: se havia esperança de receber a letra. Resposta: "Sim, visto ter uma mãe que, ainda que fique sem comer, não deixará de mandar qualquer coisa ao seu Rodka, dos cento e vinte e cinco rublos da sua pensão, e que a irmã, por ele, será capaz de vender-se como escrava". Era nisto que ele se fundamentava... Por que te estás remexendo dessa maneira? Eu, meu amigo, agora já conheço toda a história, e não foi debalde que tu fizeste confidências a Páchenhka quando ela ainda te tratava como seu parente; falo-te assim pela amizade que te tenho... Bom, o caso é este, um homem honrado e sensível fala com franqueza; mas um homem de negócios escuta e come, e depois continua também a comer. Eis aqui a razão por que ela endossou a letra como paga a esse tal Tchebárov, o qual exigiu, sem contemplação de espécie nenhuma, aquilo que era seu. Eu, quando soube disso tudo, também quis ajudar no que fosse possível, para tranqüilidade da minha consciência, e, como por esse tempo já estávamos em boas relações com Páchenhka, mandei-a suspender a coisa, garantindo-lhe que tu pagarias. Eu respondi por ti, meu amigo, percebes? Mandamos chamar Tchebárov, calamos-lhe a boca com dez rublos de prata, e ele nos entregou a letra, a qual tenho a honra de te apresentar aqui (agora acreditam na tua palavra). Aqui a tens, rasgada e tudo, por mim, como deve ser.

Razumíkhin pôs a promissória sobre a mesa; Raskólhnikov firmou os olhos sobre ela e, sem dizer nada, voltou-se de cara para a parede. Razumíkhin pareceu ficar ressentido.

- Já vejo, meu amigo - disse, passado um instante -, que acabo de fazer um novo disparate. Pensava distrair-te e consolar-te com a minha conversa, mas, segundo parece, não fiz outra coisa senão azedar-te a bílis.

- Eras tu que eu via no meu delírio? - perguntou Raskólhnikov, também depois de um silêncio e sem voltar a cabeça.

- Era eu, sim, e a minha presença provocava-te crises, sobretudo de uma vez que eu trouxe Zamiótov comigo.

- Zamiótov? O secretário? Mas por quê? - Raskólhnikov voltou-se rapidamente e fixou o olhar em Razumíkhin.

- Mas que tens tu? Por que ficaste assim nervoso? Ele queria conhecer-te; foi ele quem se empenhou, visto termos falado tanto em ti. Senão, como podia eu estar tanto a par dos teus assuntos? É um bom rapaz, meu caro; pequenino, extravagante... no seu gênero, naturalmente. Agora nos tornamos amigos, vemo-nos quase todos os dias. Fica desde já sabendo que me mudei para este bairro. Ainda não sabias? Pois mudei; há pouco tempo. Já fomos juntos duas vezes à casa de Lavisa. Lembras-te de Lavisa? Lavisa Ivânovna.

- E eu estava delirando?

- Ai, não! Não sabias o que dizias! - E que dizia eu?

- Essa é boa! Que dizias tu? Ora, as coisas que se costumam dizer quando se delira... Bem, meu amigo, deixemos isso, vamos ao assunto. Levantou-se e pegou o gorro.

- Que dizia eu?

- E ele a dar-lhe! Tens medo de ter deixado transparecer algum segredo? Pois fica descansado que não disseste nada a respeito da condessa, mas falavas não sei de que buldogue, de uns brincos, sim, e também de umas correntes de relógio, e da ilha de Kriestóvski, e não sei de que porteiro, e de Nikodim Fomitch, e de Iliá Pietróvitch, o ajudante do comissário; falaste de tudo isso pelos cotovelos. E, além disso, também mostravas muito interesse pela ponta da tua bota, muito. Gemias: "Dêem-me a ponta da minha bota, só quero isso". Até o próprio Zamiótov se pôs à procura, por todos os cantos, da ponta da tua bota, e entregou-te essa miséria com as suas próprias mãos ungidas de perfumes e enfeitadas de anéis. Então tu ficaste tranqüilo e tiveste nas mãos essa porcaria, durante vinte e quatro horas, tão bem segura que ninguém a podia arrancar de ti. Ainda a deves ter contigo em qualquer lugar, debaixo da roupa da cama. E também perguntavas pela bainha da tua calça, e se visses por entre que lágrimas... Nós até já perguntávamos um ao outro: "Que bainha será essa?" E não havia meio de te entendermos... Mas vamos ao assunto. Aqui tens trinta e cinco rublos; eu levo dez e, dentro de umas duas horas, já os trago para ti. Entretanto informar-me-ei sobre Zósimov, que já devia estar aqui há algum tempo, pois já deu meio-dia. E, Nástienhka, venha vê-lo com freqüência, enquanto eu estiver ausente, e traga-lhe de beber ou qualquer outra coisa de que ele possa precisar... E agora vou despedir-me também de Páchenhka. Até a vista!

- Chama-lhe Páchenhka, o velhaco! - exclamou Nastássia logo que ele saiu. Depois abriu a porta e pôs-se a escutar; mas não pôde conter-se e desceu. Interessava-lhe muito saber o que ele falaria com a patroa, pois era evidente que ele lhe dera volta ao miolo.

Mal ela saiu o doente desvencilhou-se repentinamente do cobertor e saltou da cama como se estivesse meio doido. Esperara com uma impaciência febril que eles saíssem o mais depressa possível, para pôr imediatamente mãos à obra, na sua ausência. Mas que obra? Como se fosse de propósito, agora parecia-lhe que se esquecera. "Senhor, dize-me só uma coisa: eles estarão a par de tudo ou ainda não sabem? Ou já sabem mas fingem não saber, para não me afligirem enquanto eu estou de cama, e depois entrarem de repente e dizerem que já o sabiam há muito tempo? Que fazer agora? Nada, porque, nem de propósito, parece-me que me esqueceu; esqueceu-me de repente, porque ainda há um instante me lembrava."

Estava especado no meio do quarto e, com dolorosa perplexidade, olhou à sua volta; aproximou-se da porta, entreabriu-a e pôs-se a escutar; mas não era disso que se tratava. De repente, como se se tivesse lembrado, foi até o canto, onde havia um buraco debaixo do papel que forrava a parede, e esquadrinhou-o atentamente; mas também não era isso. Dirigiu-se para o fogão, abriu-o e começou a olhar para as cinzas; o pedaço da bainha das calças e as tiras dos bolsos arrancados continuavam ali, tal como ele os deixara, sem que ninguém os tivesse visto. Então lembrou-se também da biqueira da bota, da qual Razumíkhin acabava de falar-lhe. De fato, ali estava, no divã, debaixo do cobertor; mas estava já tão suja e gasta pelas esfregadelas que ele lhe dera que, certamente, Zamiótov não podia ter notado nada nela.

"Oh! Zamiótov! O comissariado! Mas por que me chamaram ali? Onde está a citação? Ora, eu estou fazendo confusão; já foi há tempos que me chamaram. Também já foi há algum tempo que limpei a ponta da bota, e agora... agora estou doente. Mas por que teria vindo Zamiótov? Por que o teria trazido Razumíkhin?", murmurava, extenuado, sentando-se outra vez no divã. "Mas que terei eu? Estarei ainda delirando ou tudo isto é realidade? De fato, parece ser realidade... Ah! já me lembro! Fugir! Sim, mas para onde? Onde está a minha roupa? Sapatos, não tenho. Tiraram-nos! Esconderam-nos! Já entendo. Mas aqui está o meu casaco... Não repararam nele. E em cima da mesa há dinheiro, louvado seja Deus! Aqui está também a promissória... Pego o dinheiro, vou-me embora, mudo-me para outro quarto; não hão de me encontrar... Sim, e a repartição de endereços? Encontrarme-ão! Razumíkhin encontrou-me. O melhor de tudo é fugir para longe... para a América, e cuspir na cara de todos eles. E levar também a promissória... aí poderia ser-me útil. Que hei de levar mais? Eles julgam que eu estou doente. Não sabem que posso sair à rua. Ah, ah, ah! Percebi nos olhos deles que estão a par de tudo. Não preciso de mais nada senão de descer a escada. E se puseram sentinelas, polícias, na escada? Que é isto? Chá? Ah, sim, e também ainda há cerveja, meia garrafa, viva!"

Pegou na garrafa, na qual ainda havia cerveja que chegava para encher um copo, e, com prazer, bebeu-a de um trago, como se quisesse apagar um fogo na sua garganta. Mas ainda não passara um minuto já a cerveja lhe subia à cabeça e pelas costas lhe corria um leve e até agradável calafrio. Deitou-se e cobriu-se com a dobra do cobertor. As suas idéias, já de si doentias e incoerentes, começaram a embrulhar-se cada vez mais e não tardou que um sono leve e agradável se apoderasse dele. Afundou com prazer a cabeça na almofada e embrulhou-se bem no seu macio cobertor de papa, que substituía agora, na sua cama, o velho sobretudo esfarrapado, de outrora; suspirou suavemente e afundou-se num sono profundo, forte, benéfico.

Despertou ao sentir que alguém entrava no seu quarto, abriu os olhos e viu que era Razumíkhin, que escancarara a porta e estava parado à entrada, perplexo: devia entrar ou não? Raskólhnikov ergueu-se apressadamente no divã e ficou olhando para ele, como se se esforçasse por lembrar-se de qualquer coisa.

- Ah, não está dormindo! Bem, então entro, Nastássia, traze cá o embrulhinho - gritou Razumíkhin inclinando-se. - Agora vou dar-te conta de tudo...

- Que horas são? - perguntou Raskólhnikov, olhando à sua volta constrangido.

- Dormiste bem, meu amigo; lá fora já é escuro; devem ser seis horas. Deves ter dormido umas boas seis horas...

- Meu Deus! Mas que tenho eu?

- Ora, que há de ser! É que vais já melhorar. Estás com pressa? Tens alguma entrevista? Agora temos o tempo por nossa conta. Há já três horas que eu estava à tua espera; entrei duas vezes e tu sempre dormindo. Fui à casa de Zósimov por duas vezes, mas não estava! Não faz mal, ele há de vir... Também tratei das minhas coisas. Porque eu me mudei, mudei-me definitivamente, em companhia de meu tio... Fica sabendo que, agora, tenho um tio... Bom, mas para o diabo tudo isso! Dá-me mas é cá o embrulhinho, Nástienhka. Olha, nós... Mas, meu amigo, dize-me primeiro como te sentes.

- Pois bem, já não estou doente... Razumíkhin, estavas aqui há muito tempo?

- Já te disse: há três horas que estou à tua espera. - E antes?

- Antes o quê?

- Há quanto tempo chegaste?

- Mas se eu já te contei tudo em detalhes, ainda há pouco... Não te lembras?

Raskólhnikov ficou pensativo. Como num sonho, lembrou-se de tudo quanto acabava de se passar. Simplesmente não podia lembrar-se de tudo sozinho e olhava interrogativamente para Razumíkhin.

- Hum! - disse este. - Esqueceu-te! Há pouco parecia-me que tu não estavas ainda bem em teu perfeito juízo... Agora, com o dormir, ficaste mais recomposto... De fato, tens melhor aparência. Bravo! Bom, mas vamos ao assunto! Agora hás de lembrar-te. Olha para aqui, meu caro.

Começou a desembrulhar o volume, o qual, segundo lhe parecia, lhe merecia grande apreço.

- Nisto, acredita, meu amigo, tinha eu especial empenho. Porque é preciso fazer de ti um homem. Vamos lá, comecemos pela parte de cima. Vês um gorro? - começou tirando do embrulho um gorro muito bom, mas, ao mesmo tempo, do mais vulgar e barato.

- Queres experimentá-lo?

- Logo, logo - disse Raskólhnikov, repelindo-o com brusquidão.

- Não faças oposição, meu caro Rodka, porque logo será tarde e eu não poderei pregar olho toda a noite ao pensar que me aventurei a comprá-lo sem saber a medida. Está otimamente! - exclamou triunfante, depois de tê-lo posto na cabeça de Raskólhnikov. - Otimamente! No vestir, meu amigo, o mais importante é o adorno da cabeça, é o que nos classifica. O meu amigo Tolstiakov tira sempre a sua carapuça quando entra em qualquer lugar público, onde toda a gente está de chapéu ou gorro. Todos pensam que ele faz isso por um sentimento servil, quando afinal o faz simplesmente porque tem vergonha do seu ninho de cegonhas. É tão pateta! Bom, Nástienhka, aqui tem duas coisas para a cabeça: este Palmerston - e tirava dum canto o amolgado chapelão de Raskólhnikov, ao qual sem saber por que chamava um Palmerston - e este mimo. Vamos ver, Rodka, faze lá um cálculo: quanto pensas que dei por ele? E tu também, Nástiuchka - acrescentou, dirigindo-se a ela ao ver que o outro ficava calado.

- Dois grívieni, pode muito bem ser que tenha dado - respondeu Nastássia.

- Dois grívieni, idiota - exclamou ele, dando-se por ofendido. - Isso nem tu vales! Oito grivieni foi quanto me custou! E isso porque é em segunda mão. Se bem que mo venderam com uma condição: desde que tu o uses, para o ano que vem dar-te-ão outro de graça. Deus é testemunha! Bem, passemos agora aos Países-Baixos, como dizíamos no colégio. Previno-te de que... me sinto orgulhoso desta calça - e desdobrou à frente de Raskólhnikov uma calça cinzenta, de um tecido leve, de verão. - Nem um buraco, nem uma nódoa, ainda em ótimo estado, embora já muito usada, assim como o colete duma só cor, como é moda. E o fato de já estar usado ainda é melhor: assim fica mais macio, mais suave... Olha, Rodka: para vencer na vida, em meu entender basta obedecer sempre à mudança das estações; se não pedires espargos em janeiro, terás sempre dinheiro; pois o mesmo te digo a respeito desta compra. Agora é temporada de verão, e eu fiz uma compra estival, porque no outono é preciso um tecido mais forte; por isso poderás desfazer-te deste, tanto mais que daqui até lá haverá tempo para ele se desfazer por si, senão por uma forçosa necessidade de luxo, pelo menos por efeito de decomposição interna. Bem, vamos lá ver, faze as contas. Quanto achas que custou? Pois custou dois rublos e vinte e cinco copeques. E repara, também com a mesma condição de há pouco: uma vez que o uses, para o ano que vem dar-te-ão outro de graça. Na loja de Fiediáiev é assim: assim que lhe pagas uma coisa, fica para toda a vida, porque não tornarás lá outra vez. Bem, agora vamos ao calçado. Que calçado! Repara, vê-se muito bem que estas botas já estão usadas; mas ainda poderás fazer muito bem uns dois meses com elas, porque é trabalho estrangeiro e artigo estrangeiro. O secretário da Embaixada inglesa foi vendê-las, a semana passada, a Tolkutchka; só as tinha trazido há uns seis dias; mas andava muito necessitado de dinheiro. Custaram um rublo e quinze copeques. É uma pechincha, não é?

- Mas talvez não lhe estejam na medida - observou Nastássia.

- Não estão na medida? Qual! - e tirou do bolso a bota velha de Raskólhnikov, encarquilhada, toda salpicada de lama seca. - Eu sabia o que fazia e tomaram as medidas exatas por este mostrengo. Correu tudo muito bem. Para a roupa branca, também me entendi com a senhoria. Aqui tem, em primeiro lugar, três camisas de linho com o colarinho à moda. Bem, vamos fazer as contas. O chapéu, oito grívieni; dois rublos e vinte e cinco copeques as outras peças do vestuário, isto é, três rublos e cinco copeques; um rublo e cinqüenta as botas (porque são esplêndidas), total: quatro rublos e cinqüenta e cinco copeques, mais cinco rublos pela roupa interior (porque regateamos bem) fazem ao todo nove rublos e cinqüenta e cinco copeques. Sobraram quarenta e cinco copeques em miúdos, que aqui tens, faze o favor de aceitá-los... E assim, Rodka, contas agora com um traje completo, porque, a meu ver, o teu casaco não só ainda pode servir como tem até um aspecto muito decente. Eis o que significa vestir-se em casa de Scharmer! Quanto às meias e outras coisas, deixo isso a teu cargo; restam-nos vinte e cinco rublozinhos, e quanto a Páchenhka e ao pagamento do quarto, não tens que preocupar-te; já lhe falei: crédito ilimitado. Mas agora, meu amigo, faze o favor de mudares de roupa interior, porque pode ser que toda a tua doença esteja agora na camisa...

- Deixa-me! Não quero! - repudiou-o Raskólhnikov, que escutara de má vontade o relatório que Razumíkhin lhe apresentara da compra daquelas coisas.

- Isto não pode ser, meu amigo. Não havia de ter gasto as minhas solas debalde - insistiu Razumíkhin. - Nástiuchka, não tenhas vergonha e ajuda-me... Isso. - E apesar da resistência de Raskólhnikov, mudou-lhe a roupa interior. Este deixou cair a cabeça na almofada e não disse uma palavra. "Quando é que eles se irão embora?", pensou.

- Com que dinheiro compraste isso tudo? - perguntou finalmente, voltando a cara para a parede.

- Com que dinheiro? Essa é boa! Pois com o teu! Há pouco esteve aqui um caixeiro da loja de Vakhrúchin, por incumbência da tua mãe. Já te esqueceste?

- Agora já me lembro - disse Raskólhnikov, depois dum longo e severo mutismo.

Razumíkhin franziu o sobrolho e ficou olhando para ele, inquieto.

A porta abriu-se e entrou um indivíduo alto e forte que não pareceu completamente desconhecido a Raskólhnikov.