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Era Zósimov: um homem alto e gordo, com uma cara cheia e pálida, esmeradamente barbeado: de cabelo loiro, muito claro e cortado rente, com óculos e um grande anel de ouro num dos seus dedos, moles de gordos. Tinha vinte e sete anos. Vestia um casaco folgado e elegante, de meia-estação, e uma calça clara de verão, e, de maneira geral, tudo nele era amplo, elegante e cuidado: a roupa branca, irrepreensivelmente limpa: trazia uma grossa corrente de relógio. Os seus modos eram lentos, quase fleumáticos e ao mesmo tempo, de uma desenvoltura afetada: por muito que o escondesse, o seu preciosismo notava-se sempre. Toda a gente o achava antipático; mas diziam que era bom entendido na sua profissão.

- Fui duas vezes à tua casa, meu caro... Olha, já despertou - exclamou Razumíkhin.

- Bem vejo-te, bem vejo. Então que tal vai isso? - disse Zósimov dirigindo-se a Raskólhnikov, olhando-o atentamente e sentando-se no divã a seus pés, onde, em seguida, tomou um ar despreocupado.

- Está muito suscetível - continuou Razumíkhin. - Há pouco mudamos-lhe a roupa e quase ia chorando.

- É compreensível; teria sido melhor deixar isso para depois, para quando já se levantasse... O pulso está bem. A cabeça ainda lhe dói um pouco, não é verdade?

- Eu já estou bom, completamente bom! - declarou Raskólhnikov com brusquidão e irritação, erguendo-se repentinamente no divã e com os olhos chispantes; mas logo a seguir tornou a recostar-se na almofada e voltou-se contra a parede.

Zósimov não despregava os olhos de cima dele.

- Muito bem... Está tudo como deve ser - disse num tom indolente. - Comeu alguma coisa?

Disseram-lhe o que comera e perguntaram-lhe o que lhe podiam dar de comer.

- Podem dar-lhe tudo... Sopa, chá... Cogumelos e pepinos, é claro que não, nem carne de vaca, nem... Bom, mas temos tanto em que falar! - Trocou um olhar com Razumíkhin. - Nada de xaropes nem de maus remédios! Eu tornarei a passar por aqui amanhã... Talvez hoje já tivesse podido... enfim...

- Amanhã à tarde levo-o a dar um passeio - decidiu Razumíkhin -, ao jardim de Iusupóvski, e depois ao Palácio de Cristal...

- Eu, amanhã, deixá-lo-ia tranqüilo, embora, no fim de contas... um passeiozinho... Bom, depois veremos.

- Ah, que pena! É hoje precisamente que eu inauguro a minha nova instalação, a dois passos daqui. Se ele pudesse vir também... Ainda que fosse só para nos acompanhar, estendido no divã... Mas tu não faltas, hem? - disse Razumíkhin, encarando de repente Zósimov. - Não te esqueças do que me prometeste.

- Sim, talvez possa passar por lá logo. Que arranjaste para nós? - Pouca coisa: chá, aguardente, arenques. Também haverá um empadão; é uma coisa entre amigos.

- Quem mais é que vai... concretamente?

- Vão todos, os do bairro, e quase todos os meus novos conhecimentos, para dizer a verdade... sem falar no meu velho tio; se bem que também seja um novo conhecimento, pois está em Petersburgo apenas desde ontem, veio tratar de uns assuntos. Só nos vemos de cinco em cinco anos.

- Quem é?

- Passou toda a sua vida como chefe de postas num distrito... Recebe uma pensãozinha; sessenta e cinco anos; não vale a pena falar dele... Mas eu lhe tenho amizade. Porfíri Siemiônovitch também virá: é o juiz de instrução do bairro, um jurisconsulto. Mas tu já o conheces...

- Também é teu parente?

- É; mas muito afastado. Mas por que torces o nariz? Só porque discutiram os dois, daquela vez, já não virás?

- Quero lá saber dele para alguma coisa...

- Ora, ainda bem. Bom, e além desses virão também estudantes, professores, um funcionário, um médico, um oficial, Zamiótov...

- Faze o favor de me dizeres que pode haver de comum entre ti e ele - Zósimov apontou com a cabeça para Raskólhnikov - e um Zamiótov qualquer.

- Oh, que desmancha-prazeres! Os princípios! Tu te moves por princípios, como por molas; não te atreves a atuar livremente; mas, para mim, o fundamental é que o homem seja bom. E, francamente, reparando bem, em todas as classes não há muitas pessoas boas. E mais, estou convencido de que não haveria quem desse nem um alho chocho por toda a minha pessoa e a tua juntas.

- Isso é muito pouco; eu, por ti, daria dois...

- Pois eu por ti só dava um, ora toma! Zamiótov ainda é uma criança; eu ainda lhe puxo as orelhas, e por isso é preciso atraí-lo e não espantá-lo. Não é repelindo o homem que ele se corrige; e muito menos um rapaz. Com o rapaz novo é preciso o dobro da prudência. É isso o que vocês, os tolos progressistas, não compreendem. Não respeitam o homem; ofendem-se a si mesmos... E, se queres saber o que há de comum entre nós, digo-te que trazemos os dois um assunto entre mãos.

- Gostava de saber...

- É um assunto relativo ao pintor, quero dizer, ao pintor de paredes... Havemos de acabar por tirá-lo de lá! Embora, por agora, não corra perigo algum. A coisa já está clara, completamente clara. Matamos dois coelhos de uma cajadada!

- Mas que pintor de paredes é esse?

- O quê? Ainda não te contei? Não? É verdade que só comecei a contar-te o princípio... Bom, então ouve: no assassinato da velha usurária, da viúva do funcionário, encontra-se também implicado um pintor...

- Ah, sim! Já te ouvira falar desse crime outro dia e o assunto interessa-me... até certo ponto... por uma casualidade... Li os jornais. Continua. - Também mataram Lisavieta! - exclamou Nastássia de repente, dirigindo-se a Raskólhnikov.

Permanecera durante todo esse tempo no quarto, junto da porta, de ouvido apurado.

- Lisavieta? - murmurou Raskólhnikov, numa voz quase imperceptível. - Lisavieta, sim, a cadela. Não a conhecias? Pois vinha por aqui. Até te passou uma camisa a ferro.

Raskólhnikov voltou-se de cara para a parede, onde, no sujo papel amarelo com florezinhas brancas, escolheu uma destas últimas, muito mal desenhada, toda crivadinha de pequeninas nervuras escuras, e pôs-se a contemplá-la. Quantas folhinhas teria, quantos bicos nas folhas e quantas nervuras? Sentia que as mãos e os pés lhe inchavam como se estivessem a paralisar-se; mas não se esforçava por mudar de posição e continuava com a vista teimosamente fixa na florzinha.

- Bom, e então o que se passa com o tal pintor? - perguntou Zósimov, interrompendo a loquaz Nastássia com certa má vontade especial. Esta deu um suspiro e ficou calada.

- É que também lhe atribuíram o crime - prosseguiu Razumíkhin com veemência.

- Havia provas contra ele? Quais?

- Com mil diabos, que provas havia de haver? E, no fim de contas, quanto a provas só há uma, simplesmente não é uma prova, pois é preciso começar por prová-la. Passa-se o mesmo, com isto, que se passou quando prenderam e deram por implicados no caso esses... Kotch e Piestriakov. Ufa! Como isto está sendo mal conduzido! Sinto vergonha pelos outros! É possível que Piestriakov passe hoje também já por casa... Olha, Rodka, tu já conheces essa história; deu-se antes da tua doença, precisamente na véspera do dia em que tiveste aquele desmaio no comissariado, quando estavam comentando o acontecimento...

Zósimov olhou com curiosidade para Raskólhnikov; este não fez movimento nenhum.

- Sabes uma coisa, Razumíkhin? Estou admirado com o entusiasmo que tomas por este caso! - observou Zósimov.

- Está bem, mas havemos de tirá-lo a limpo - gritou Razumíkhin, descarregando uma punhada sobre a mesa. - Sabes o que mais me irrita em tudo isto? Não é que eles sejam uns imbecis; os enganos podem sempre perdoar-se; o erro é uma boa coisa, porque conduz à verdade. Não. O que é para lamentar é que, além de se enganarem, ainda admirem os próprios erros. Eu, a Porfíri, respeito-o, mas... Olha, por exemplo: o que foi que os desorientou logo desde o princípio? A porta estava fechada e, quando voltaram com o porteiro... encontraram-na aberta. Bem, pois isso quer dizer que Kotch e Piestriakov foram os assassinos. Já vês qual é a lógica deles!

- Não te irrites; a única coisa que fizeram foi prendê-los; não podiam fazer outra coisa... Olha, eu conheço esse Kotch, parece que comprava à velha os objetos que não chegavam a ser resgatados, não era?

- Sim, é um velhaco. Também compra promissórias. É um boa-vida. O diabo que o carregue! Mas não é isso o que me preocupa, compreendes? O que me custa é a rotina dessa gente, essa rotina antiquada, estúpida,

é isso o que me revolta... Porque, repara: pode descobrir-se uma pista nova em todo esse assunto. Fundando-nos só no dado psicológico, pode demonstrar-se como é preciso conduzirmo-nos na perseguição da verdade. "Nós atendemos aos fatos, que diabo!" Sim, mas os fatos não são tudo; pelo menos metade do caso assenta na maneira como se interpretam esses fatos. - E tu sabes interpretar os fatos?

- Sim, não é possível uma pessoa calar-se quando sente, quando sente de um modo palpável que pode ajudar à solução do caso, quando... Ah! Tu conheces todos os pormenores da coisa?

- Estou à espera do que ias dizer-me acerca do caiador!

- Ah, bem! Então ouve a história. Justamente anteontem, passados três dias sobre o crime, de manhã, quando eles ainda estavam às voltas com Kotch e Piestriakov (apesar de estes terem explicado todos os seus passos, que eram evidentes!), aconteceu de repente um fato absolutamente inesperado. Um certo camponês, chamado Dúchkin, dono duma taberna que fica em frente da casa onde se deu o crime, compareceu ao comissariado, depositou ali um estojo de jóias com uns brincos de ouro e contou esta história: "Anteontem à noite, aí pelas nove" (estás reparando no dia e na hora?), "veio procurar-me um operário, um caiador, o qual já anteriormente freqüentava o meu estabelecimento, e que se chama Nikolai, e trouxe-me este estojozinho, que continha uns brincos de ouro, pedindo-me que lhos aceitasse como penhor, em troca de dois rublos; e, quando eu lhe perguntei qual a origem dos brincos, explicou-me que os apanhara na rua. Não lhe perguntei mais nada sobre isso", assim disse Dúchkin, "e dei-lhe uma notinha, ou seja, um rublo (porque calculei que, se eu não lho desse, outro lho daria e, ademais, vinha tudo a dar no mesmo...). Era para a bebida, e mais valia que eu tivesse o objeto em meu poder; assim está mais seguro, tenho-o à mão, e se depois se descobre ou se espalha algum boato, então o apresento". Bem, não há dúvida que isso é uma história da carochinha e que ele mente com quantos dentes tem na boca, porque eu conheço de sobra o tal Dúchkin, que é prestamista e receptador de furtos, e ele não ia ficar com um objeto que vale trinta rublos a Nikolai, para apresentá-lo depois. O caso é que teve medo. Bom, mas tem paciência, continua a ouvir-me; é Dúchkin quem continua falando: "Eu conheço esse camponês, Nikolai Diemiéntiev, desde pequeno, pois é do nosso mesmo governo e distrito, de Zaráisk, e eu também sou de Riazan. Nikolai, sem ser o que se chama um bêbado, gosta de pinga, e todos nós sabíamos que ele trabalhava nessa casa, pintando paredes, juntamente com Mitriéi, que é também seu conterrâneo. Depois de receber a cautela, trocou-a, bebeu dois copinhos, aceitou o troco e foi-se embora; mas nessa altura Mitriéi não estava com ele. No outro dia chegou-nos a notícia de que Alíona Ivânovna e a irmã, Lisavieta Ivânovna, tinham sido assassinadas a machadada, e nós conhecíamo-las às duas, e logo ficamos com a suspeita, por causa dos brincos... porque nos constava que a falecida emprestava dinheiro sobre penhores. Fui procurá-los nessa casa e pus-me a investigar, com muito cuidado; comecei por perguntar: “nikolai encontra-se aqui?' Mitriéi respondeu-me que Nikolai andara na farra na noite anterior e que voltara para casa já de dia, bêbado, e depois de ter estado em casa uns dez minutos voltara a sair; e que ele, Mitriéi, não tornara a vê-lo, e que estava acabando o trabalho sozinho. O trabalho deles era feito um lance de escada abaixo da casa das vítimas, no segundo andar. Depois de ter ouvido aquilo não disse nada a ninguém", continuou dizendo Dúchkin, "mas procurei informar-me de todos os pormenores que pude a respeito do duplo crime e voltei para casa com as suspeitas que já disse. Mas hoje de manhã, às oito, isto é, passados três dias, compreendem?, vejo entrar Nikolai pela minha porta adentro, já um pouco embriagado, mas de maneira que ainda podia seguir uma conversa: senta-se num banco e fica calado. Além dele, nessa manhã estava ainda na taberna um homem desconhecido, e outro, um freguês, que dormia noutro banco, e os meus dois caixeiros: “Viste Mitriéi?', perguntei-lhe eu. “não', respondeu-me ele, “não o vi. ” E tu não estiveste ali?” “Não', respondeu-me, “desde anteontem."E onde passaste esta noite?"Em Piéski', respondeu-me, “com os de Kolomna. “ E onde é que arranjaste esses brincos?' “Encontrei-os na rua', e disse-o de uma maneira estranha, sem olhar para mim. “Mas não ouviste dizer', disse-lhe eu, “isto e aquilo, que, tal noite, a tal hora, na escada tal, aconteceu...?"Não', disse ele, “não ouvi dizer nada', e escutava-me com uns olhos muito abertos e, de repente, fez-se branco como a cal. Então lhe contei tudo, olhei para ele, ele pega o chapéu e dispõe-se a levantar-se. Senti vontade de segurá-lo: “Espera, Nikolai', digo-lhe eu, “não queres beber qualquer coisa?' E, entretanto, faço um sinal ao caixeiro para que segure na porta, saio de trás do balcão; eis senão que ele foge, mesmo nas minhas barbas, sai para a rua, escapole e enfia pela primeira ruela... Mas tive tempo de o ver. Então pus todas as minhas dúvidas de lado, porque o autor do crime é ele..."

- Não há dúvida... - exclamou Zósimov.

- Espera! Ouve o fim! É claro que se lançaram em perseguição de Nikolai com toda a força das suas pernas; prenderam Dúchkin, revistaram-lhe a casa, e a Mitriéi também; também fizeram investigações entre os de Kolomna, e passados três dias encontraram de repente o próprio Nikolai e prenderam-no nas imediações da barreiral de... numa estalagem. Tinha ido para aí, depois de se ter desfeito duma cruz de prata, e pediu em troca um frasco de aguardente, que lhe deram. Passados uns minutos, uma mulher dirige-se ao estábulo e vê por uma fresta que ele atara o seu cinturão a uma viga dum alpendre contíguo e tinha feito um nó corredio, e, encavalitado em cima dum cepo, se dispunha a meter a cabeça por esse nó: a mulher teve a feliz idéia de gritar e acorreu gente. "Que vais fazer?" "Levem-me", disse ele, "a qualquer comissariado, que eu confessarei tudo!" Bem, então levaram-no, com as honras devidas a um comissariado, o deste distrito. Bom, aí começaram com as perguntas de costume: quem era, como foi, que idade tinha (vinte e dois) etc. etc. Perguntaram-lhe: "Quando estavas trabalhando com Mitriéi não viste ninguém na escada a tais e tais horas?" Resposta: "Como toda a gente sabe, entra ali muita gente; mas nós não reparamos em ninguém". "Mas não ouviste nada, nenhum barulho, ou qualquer coisa?" "Não ouvimos nada de especial!" "Mas tu não soubeste, Nikolai, que, nesse mesmo dia e a tal hora, tinham assassinado e roubado uma certa viúva e a irmã?" "Saber, não sabia, e também não o imaginava. A primeira notícia que tive disso foi por Afanássi Pávlitch, quando, passados três dias, lhe ouvi dizer na taberna." "E onde arranjaste os brincos?" "Encontrei-os na rua."

"E por que não foste trabalhar com Mitriéi no dia seguinte?" "Porque apanhei uma bebedeira." "E onde apanhaste essa bebedeira?" "Por aí." "E por que fugiste de Dúchkin?" "Porque fiquei cheio de medo." "Mas de que

é que tinhas medo?" "De que me prendessem?" "Como podias ter medo disso, se te sentias completamente inocente?" Bem, quer acredites ou não, Zósimov, mas fizeram-lhe essa perguntazinha, nos mesmos termos em que eu a formulei, e sei-o de boa fonte, pois ma transmitiram textualmente. Que tal? Que tal?

- Não; mas se há provas?

- Eu não estou agora falando-te das provas, mas das perguntas, e de como eles compreendem a sua missão! Que vão para o diabo! Bem, tanto o atenazaram e apertaram, que ele acabou por declarar-se culpado: "Não foi na rua, diacho, que encontrei os brincos, mas no andar onde estávamos trabalhando eu e Mitriéi". "Mas como?" "Tinha estado ali pintando com Mitriéi durante todo o dia, até as oito, e nos preparávamos para nos retirarmos; Mitriéi vai e pega uma brocha e enlambuza-me a cara toda de tinta, deita a correr, e eu atrás dele. Eu o sigo, gritando-lhe coisas, e, ao sair da escada para o pátio, dou de cara com o porteiro e uns senhores, não sei quantos eram; o porteiro vai e insulta-me, e o outro porteiro também, a mulher do primeiro aparece e põe-se também a insultar-me, e um cavalheiro que estava nesse momento com uma senhora pôs-se também a ofender-me, porque eu e Mitka tínhamos rebolado pelo chão e lhe estorvávamos o caminho; eu tinha agarrado Mitka pelos cabelos e dava-lhe uma sova; e Mitka, apesar de estar debaixo de mim, também me agarrava pelos cabelos e me batia; mas não o fazíamos por mal, era por pura amizade, de brincadeira. Mas depois Mitka safou-se e correu para a rua, e eu saí também correndo atrás dele, mas, como não consegui apanhá-lo, fui e voltei para o andar sozinho... porque precisava de arranjar aí as minhas coisas. Pus-me a fazê-lo esperando que Mitka talvez voltasse. E então, no vestíbulo, ao canto da parede, vou e encontro um pequeno estojo. Olho, vejo-o ali no chão, embrulhado num papel. Tiro o papel, vejo uns parafusos muito pequeninos, puxo-os e vejo uns brincos..."

- Atrás da porta! Estavam atrás da porta? Atrás da porta? - exclamou Raskólhnikov, de repente, lançando um olhar vago e assustado a Razumíkhin, e ergueu-se lentamente, apoiando-se sobre a mão, no divã.

- Sim... Por quê? Que tens tu? Que te interessa isso? - e Razumíkhin levantou-se também do seu lugar.

- Nada! - respondeu Raskólhnikov com uma voz quase imperceptível, tornando a recostar-se na almofada e a voltar-se de cara para a parede. Todos ficaram calados durante um momento.

- Devia estar meio adormecido, sonhando - disse finalmente Razumíkhin, olhando inquisidoramente para Zósimov, que lhe fez um sinal negativo com a cabeça.

- Bem... continua - disse Zósimov. - Que mais?

- Que mais? Pois o nosso homem, assim que viu os brincos, esqueceu-se imediatamente do andar e de Mitka, pegou o gorro e deitou a correr para a taberna de Dúchkin, o qual, como já se sabe, lhe deu um rublo por eles; ele lhe pregou uma mentira dizendo-lhe que os encontrara na rua, e, ato contínuo, foi embebedar-se. Quanto ao duplo crime, mantém o que dissera: "Saber, não sabia; estar a par não estava, só três dias depois ouvi falar disso". "Mas por que não apareceste durante todo esse tempo?" "Porque tinha medo." "Mas por que querias enforcar-te?" "Por causa duma coisa." "Que coisa?" "Porque me iam processar." E aqui está a história toda resumida. E agora, sabes o que é que eles concluíram disso tudo?

- Nem sei o que hei de pensar. Seja como for, há provas, fatos. Mas puseram em liberdade o teu pintor?

- Sim, e o que fazem, agora, é imputar-lhe o duplo crime! Sobre este pormenor, já não têm a menor dúvida...

- Tu mentes, estás delirando. Pois vamos lá a ver: e os brincos? Tu próprio hás de reconhecer que, quando nesse mesmo dia e a essa mesma hora, os brincos do estojo da velha vão parar às mãos de Nikolai... tu próprio hás de concordar que de alguma maneira foi. Não será nada despropositada uma investigação sobre esse ponto.

- Como é que aí foram parar? Como é que foram parar? - exclamou Razumíkhin. - Por casualidade, meu caro doutor; tu, que antes de mais nada o que tens é obrigação de conhecer o homem e tens mais oportunidades do que os outros de estudar a natureza humana... não vês, por todos esses dados, que tipo de indivíduo é esse tal Nikolai? Não vês que tudo quanto ele declarou, desde o primeiro instante, em resposta a esse interrogatório, é uma verdade sacrossanta? Foi isso, vieram parar-lhe às mãos, conforme ele disse. Encontrou-os no estojo e apanhou-os rapidamente!

- Uma verdade sacrossanta! No entanto, no entanto, ele próprio confessou que, a princípio, mentira.

- Escuta-me, escuta-me atentamente: tanto o porteiro como Kotch e Piestriakov, e o outro porteiro, e a mulher do primeiro porteiro, e a vendeira que naquele momento se encontrava na portaria, e o conselheiro da Corte, Kriúkov (4), que precisamente nesse momento se apeava de um coche e entrava no pátio pelo braço duma senhora... Todos, isto é, oito ou dez testemunhas, afirmam unanimemente que Nikolai atirara Dmítri ao chão, que estava por cima dele e lhe batia, enquanto ele, por seu lado, segurava-o pelos cabelos e também lhe batia. Estavam os dois caídos transversalmente e estorvavam o caminho; todos os insultavam, como a uns rapazelhos (expressão literal das testemunhas), estavam um em cima do outro, guinchavam, batiam-se e riam, riam a bandeiras despregadas, com as chalaças mais pesadas, e depois perseguiam-se mutuamente, tal como as crianças que correm pela rua. Ouviste? Agora repara: os cadáveres, lá em cima, ainda estavam quentes, estás ouvindo, quentes, como também os encontraram assim! Se tivessem sido eles os criminosos, ou apenas Nikolai, se ele tivesse roubado a arca por arrombamento, ou tivesse simplesmente tomado parte no furto, peço-te o favor de fazeres somente esta pergunta:

* (4) Literalmente: enganchador, aproveitador. (N. do T) *

serão compatíveis, por acaso, tal disposição de espírito, isto é, esses gritos, essas risotas, essa rixa infantil mesmo à porta... Com a machada, o sangue, e a criminosa astúcia, os cuidados e o roubo? Imediatamente depois de terem cometido o duplo assassinato, uns cinco ou dez minutos depois... assim o confirmam os cadáveres, ainda quentes... deixam os cadáveres e o andar aberto, sabendo que de um momento para o outro entraria ali gente, e, abandonando o seu saque, eles, como umas criancinhas, atravessam-se no caminho, põem-se a retouçar e a rir, chamando assim a atenção de toda a gente, e ainda por cima há dez testemunhas unânimes que dão fé de tudo isso!

- Não há dúvida que é estranho! É mesmo impossível; mas, no entanto... - Não, meu amigo, não há mas nem meio mas. Se os brincos, que nesse dia e àquela hora se encontravam em poder de Nikolai, constituem uma acusação importante contra ele, o que, aliás, as suas declarações explicam muito bem, sendo por conseguinte uma acusação discutível, neste caso é preciso tomar também em consideração os outros indícios favoráveis, tanto mais que são incontrovertíveis. E julgas tu que, pelo que respeita ao caráter da nossa jurisprudência, eles tomam ou são capazes de tomar esse fato, que se baseia só e exclusivamente na impossibilidade psicológica, na disposição de espírito, por um fato indiscutível, que deite por terra todos os fatos acusadores e materiais, sejam eles quais forem? Não, não o consideram assim, e não o consideram assim porque o indivíduo encontrou o estojo e depois quis suicidar-se, coisa que não teria sido possível se ele não se sentisse culpado! Aqui é que está o ponto mais importante, é isso o que me exaspera. Compreendes?

- Bem vejo que te exaspera! Mas espera, esqueci-me de perguntar: como é que puderam provar que o estojo e os brincos procediam do cofre da velha?

- Isso está demonstrado - respondeu Razumíkhin franzindo o sobrolho e como de má vontade -; Kotch reconheceu o objeto e indicou o seu dono, e este declarou redondamente que era aquela.

- Mau. Agora outra coisa: ninguém viu Nikolai enquanto Kotch e Piestriakov subiram, e não seria possível provar tudo isso?

- Aí é que está o quid(5): é que ninguém o viu - acrescentou Razumíkhin, contrariado. - Isso é que irrita; nem sequer Kotch e Piestriakov os viram subir ao andar, embora o seu testemunho não signifique grande coisa. "Vimos", dizem eles, "que o andar estava aberto, que devia lá haver gente trabalhando; mas, quando passamos, não reparamos nisso, nem pudemos ver se, exatamente nesse momento, havia ali operários trabalhando ou não."

- Hum! Em resumo: não há outra justificação para eles senão a de estarem a bater-se mutuamente e a rir.

* (5) Em latim: ponto difícil, busílis. (N. do E.) *

Admitamos que seja uma prova poderosa; mas... Deixa-me fazer outra pergunta: como explicas tu todo esse fato? O achado dos brincos, como o explicas tu, se, de fato, foram eles que os encontraram, como dizem?

- Como é que eu o explico? Mas há necessidade de explicá-lo? Se a coisa está claríssima! Pelo menos o caminho que segue o juiz de instrução, que superintende no assunto, é claro e terminante, e, sobretudo, é o estojo que o indica. O verdadeiro criminoso deixou cair esses brincos. O assassino estava lá em cima quando Kotch e Piestriakov chamaram à porta, e tinha-a fechada por dentro. Kotch fez uma tolice em descer também; então o assassino saiu e esgueirou-se pelas escadas abaixo, visto que não havia outra saída. Na escada escondeu-se de Kotch, de Piestriakov e do porteiro, no andar desalugado, precisamente no momento em que Dmítri e Nikolai acabavam de sair dali correndo; ficou à espreita atrás da porta, enquanto o porteiro e aqueles subiam; esperou que desaparecesse o ruído dos seus passos e então deslizou pelas escadas abaixo, com a maior tranqüilidade, exatamente no momento em que Dmítri e Nikolai saíam correndo para a rua, e todos se dispersavam e já não havia ninguém na porta. Pode até ter sucedido que o tivessem visto, mas não repararam nele. Entra e sai ali tanta gente! Mas o estojo caiu-lhe do bolso enquanto estava escondido atrás da porta e ele não deu por isso, ele podia lá ter reparado então numa coisa dessas! O estojo demonstra claramente que ele esteve ali escondido. Aí tens como as coisas se passaram!

- Bem imaginado! Não, meu amigo, não se pode negar que não esteja bem imaginado! Admiravelmente inventado!

- Mas por quê, por quê, por quê?

- Porque tudo isso está demasiadamente bem urdido... e combinado... Tal como no teatro.

"Ah!", esteve quase a gritar Razumíkhin; mas nesse momento a porta abriu-se e entrou uma nova personagem, que nenhum dos presentes conhecia.