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Raskólhnikov ergueu-se e sentou-se no divã.

Com gesto débil, fez sinal a Razumíkhin para que pusesse fim a toda aquela torrente de incoerentes e fogosos consolos que prodigalizavam a sua mãe e a sua irmã, pegou nas mãos de ambas e ficou dois minutos em silêncio, contemplando ora uma, ora outra. A mãe assustou-se com o seu olhar. Notava-se nele um sentimento enérgico, quase doloroso; mas ao mesmo tempo deixava transparecer qualquer coisa de fixo e até de insensato. Pulkhiéria Alieksándrovna começou a chorar.

Avdótia Românovna estava pálida; a sua mão tremia na mão do irmão. - Voltem para casa... com ele - exclamou com voz entrecortada, indicando-as a Razumíkhin -, até amanhã; amanhã tudo... Já chegaram há muito tempo?

- Esta noite, Rodka - respondeu-lhe Pulkhiéria Alieksándrovna. - O trem estava com um atraso enorme. Mas, Rodka, agora não me separarei de ti, por nada deste mundo! Fico dormindo aqui, junto de...

- Não me atormentem! - exclamou ele movendo a mão com excitação. - Eu fico com ele! - disse Razumíkhin. - Não o deixarei só nem um momento, e os outros, os que estão em minha casa, que vão todos para o diabo! O meu tio que presida à festa.

- Como é que eu lhe poderei agradecer?! - começou Pulkhiéria Alieksándrovna tornando a estreitar a mão de Razumíkhin; mas Raskólhnikov voltou a intrometer-se.

- Não posso, não posso! - repetiu excitado. - Não me atormentem! Já chega, vão-se embora... Não posso!

- Vamos, mámienhka, saiamos do quarto, ainda que seja só por um minuto... - murmurou Dúnia, assustada. - Estamos matando-o, bem se vê. - Mas então eu não posso olhar para ele um pouco, depois de ter estado três anos sem o ver? - gemeu Pulkhiéria Alieksándrovna.

- Esperem aí! - gritou ele outra vez. - Não fazem outra coisa senão interromper e embrulhar-me as idéias... Viram Lújin?

- Não, Rodka, mas ele já sabe da nossa chegada. Ouvimos dizer, Rodka, que Piotr Pietróvitch teve a amabilidade de fazer-te hoje uma visita - acrescentou Pulkhiéria Alieksándrovna com certa timidez.

- Sim... Teve a amabilidade... Dúnia, há pouco eu disse a Lújin que ia atirá-lo pelas escadas abaixo e mandei-o para o diabo...

- Rodka, tu fizeste isso?... A sério que tu... Não queres dizer que... - começou, assustada, Pulkhiéria Alieksándrovna, mas parou quando olhou para Dúnia.

Avdótia Românovna olhava para o irmão de alto a baixo e esperava que ele continuasse. As duas estavam já a par da disputa, por intermédio de Nastássia, na medida em que esta pudera compreender o que se passara, e sentiam-se perplexas e ansiosas.

- Dúnia - continuou Raskólhnikov com esforço -, eu não quero esse casamento; por isso, amanhã mesmo, assim que começares a falar com ele, terás logo de desdizer-te perante Lújin, para que não torne a ver-lhe nem a sombra.

- Meu Deus! - exclamou Pulkhiéria Alieksándrovna.

- Irmão, por favor! Vê o que estás dizendo! - interveio Avdótia Românovna em tom vivo, mas conteve-se imediatamente. - Talvez tu, agora, não estejas em condições... estás cansado... - acrescentou suavemente.

- Estou delirando, não é? Não... Tu vais casar com Lújin por minha causa. E eu não quero vítimas. Por isso amanhã vais escrever-lhe uma cartinha... mandando-o passear... De manhã dás-ma a ler e acabou-se!

- Mas eu não posso fazer isso! - exclamou a moça, ofendida. - Com que direito...

- Dúnietchka, tu também estás nervosa; vai-te, por agora... Amanhã... talvez tu não vejas... - disse a mãe inquieta, dirigindo-se a Dúnietchka. - Ah, o melhor que podemos fazer é irmo-nos embora!

- Está delirando! - exclamou Razumíkhin, embriagado. - Se não, como é que ele se atreveria... Mas, amanhã, todos esses disparates hão de acabar... Hoje, de fato, expulsou-o daqui. Assim mesmo. O outro, é claro, ficou aborrecido... Pôs-se a fazer um discurso para pôr em relevo a sua distinção e acabou por sair de orelha murcha...

- Mas isso será verdade? - gritou Pulkhiéria Alieksándrovna.

- Até amanhã... - disse-lhe Dúnia, compassiva. - Vamos embora, mamã! Adeus, Rodka!

- Já ficaste sabendo - repetiu ele, juntando todas as suas últimas energias. - Eu não estou delirando; esse casamento... é uma vileza. Admitamos que eu seja um malandro; mas tu não tens obrigação... Um só já chega... e, ainda que eu seja um malandro, não quero considerar como tal também uma irmã minha. Ou eu ou Lújin! Vão-se embora!

- Tu perdeste o juízo! És um déspota! - encolerizou-se Razumíkhin, mas Raskólhnikov já não lhe respondeu; pode ser que lhe tivessem faltado forças para isso. Estendeu-se no divã e voltou-se de cara para a parede, completamente extenuado. Avdótia Românovna olhou com curiosidade para Razumíkhin; os seus olhos negros brilhavam; Razumíkhin estremeceu perante aquele olhar. Pulkhiéria Àlieksándrovna estava fora de si.

- Não sairei daqui por nada deste mundo! - murmurou em voz baixa a Razumíkhin, quase desesperada. - Eu fico aqui, em qualquer lugar... Acompanhe Dúnia.

- Olhe que vai deitar tudo a perder! - disse-lhe também Razumíkhin em voz baixa, excitado. - Saiamos daqui, ainda que seja só para o patamar.

Nastássia, uma luz! Juro-lhes - continuou em voz baixa, já na escada - que há pouco quase nos batia, ao médico e a mim! Ora imagine! Ao próprio médico! Este resolveu não irritá-lo e foi-se embora. E, entretanto, eu fiquei lá embaixo, de olho atento, ele apressou-se a vestir-se e a sair para a rua... Agora, se fizer com que ele fique fora de si, também sairá para a rua e talvez até atente contra si próprio...

- Mas que diz o senhor!

- E veja ainda que também não está nada bem que Avdótia Romãnovna vá sozinha para a pensão, sem a senhora! Lembre-se do lugar onde estão hospedadas! Esse velhaco de Piotr Pietróvitch podia ter arranjado um alojamento melhor para as senhoras... Se bem que, no fim de contas, eu estou um tanto ou quanto embriagado, e por isso... é que há pouco o insultei; as senhoras não façam caso...

- Bem, então falarei com a dona da casa daqui - insistiu Pulkhiéria Àlieksándrovna. - Pedir-lhe-ei que nos arranje um cantinho por esta noite, para mim e para Dúnia. Eu não posso deixá-lo assim, não posso!

Com essa conversa ficaram parados na escada, num patamar, precisamente em frente da porta da dona da casa. Nastássia estava com uma luz no patamar abaixo. Razumíkhin estava numa agitação extraordinária. Meia hora antes, quando acompanhou Raskólhnikov a casa, estava um pouco demasiado eloqüente, o que ele próprio reconhecia, mas muito animado e quase desanuviado, apesar da tremenda quantidade de aguardente que ingerira naquela tarde. Agora o seu estado de espírito era também semelhante ao do entusiasmo; mas, ao mesmo tempo, parecia que o álcool que bebera lhe subia de repente à cabeça com dupla energia. Estava parado, junto das duas mulheres; segurava as mãos de ambas e expunha-lhes as suas razões, com uma franqueza espantosa e como se quisesse convencê-las absolutamente de todas as suas palavras; apertava-lhes as mãos com muita força, como num torno, até magoá-las, e parecia devorar Avdótia Românovna com os olhos, sem o menor constrangimento. Por causa da dor, elas retiravam de vez em quando as mãos da mão enorme e ossuda do rapaz; mas este não só não se apercebia disso, como puxava por elas outra vez ainda com mais força. Se elas, nesse momento, lhe tivessem ordenado que, para as servir, ele se atirasse de cabeça para baixo, tê-lo-ia cumprido imediatamente, sem se deter a pensar nem a hesitar. Pulkhiéria Alieksándrovna, aflita com o pensamento no seu Rodka, apesar de notar claramente que aquele rapaz era muito excêntrico e lhe apertava a mão com demasiada liberdade, e que a sua intervenção era também um pouco abusiva, esforçava-se por não reparar em todos esses extravagantes pormenores. E, apesar da sua própria aflição, Avdótia Românovna, se bem que não fosse de caráter medroso, via com assombro e até com certo temor o fogo brilhante e selvático dos olhares do amigo de seu irmão, e só a ilimitada confiança que lhe tinham inspirado as referências de Nastássia acerca daquele homem impetuoso é que a livrava da tentação de deitar a correr e de esconder-se atrás da mãe. Mas compreendia também que talvez já não pudesse fugir dele. Passados dez minutos acabou finalmente por ficar completamente tranqüila. Razumíkhin era de tal natureza que podia revelar-se completamente num momento, qualquer que fosse o estado de espírito em que se encontrasse; por isso todos compreendiam rapidamente com quem estavam lidando.

- Com a dona da casa é impossível, e além disso é uma tolice espantosa! - exclamava, procurando convencer Pulkhiéria Alieksándrovna. - Embora a senhora seja a mãe, ele ficará furioso, e sabe Deus o que pode acontecer! Ora ouça o que eu vou fazer: agora vou dizer a Nastássia que vá até lá em cima ver como é que ele está, e levarei as duas a casa, porque as senhoras não podem andar sozinhas pelas ruas; quanto a isso... Petersburgo... Bem, não falemos nisso!... Depois de deixá-las em casa, voltarei aqui, e dou-lhes a minha palavra de honra de que lhes venho trazer notícias acerca dele, se dorme ou não etc. etc. Depois, escutem, minhas senhoras: depois da casa das senhoras à minha é um pulo; tenho lá convidados, todos já embriagados; pegarei em Zósimov... o médico que o tem tratado, que neste momento está em minha casa e não está embriagado. Esse não está bêbado, nunca está bêbado! Hei de trazê-lo aqui para ver Rodka, e depois irei com ele ver as senhoras, isto é, dentro de uma hora terão notícias dele... da própria boca do médico, compreendem? Do próprio médico, o que não é o mesmo que da minha! Se ele estiver pior juro-lhes que eu próprio as trarei aqui, e, se estiver melhor, as senhoras deitam-se e vão dormir. Eu ficarei de vigia aqui, toda a noite, na escada, de maneira que ele não saberá de nada, e mandarei a Zósimov que passe a noite em casa da senhoria, para estar a postos para o que for preciso. Agora digam-me o que é preferível para ele: o médico ou as senhoras. O médico é-lhe mais útil, muitíssimo útil. E pronto, agora vão para a sua casinha. Ficar com a senhoria é impossível; impossível para mim, impossível para as senhoras; não insistam, porque ela... é uma imbecil. Terá ciúmes de Avdótia Românovna, fiquem sabendo, e da senhora também... De Avdótia Românovna, isso nem tem dúvida. Tem um feitio muito estranho! Embora, no fim de contas, eu também seja um idiota... Não falemos mais nisso! Vamos, então! Já estão convencidas? Estão ou não?

- Vamos, mámienhka - disse Avdótia Românovna -, com certeza que cumprirá a sua promessa. Já lhe devemos a ressurreição de meu irmão, e, se é verdade que o médico vai passar aqui a noite, que mais podemos desejar?

- Veja como a senhora... a senhora... a senhora me compreende, porque a senhora... é um anjo! - exclamou Razumíkhin entusiasmado. - Vamos! Nastássia! Vai já lá acima e fica a vigiá-lo, sem luz; eu estarei de volta dentro de um quarto de hora.

Embora não estivesse completamente convencida, Pulkhiéria Àlieksándrovna deixou de fazer oposição. Razumíkhin pegou nas mãos de ambas e conduziu-as pelas escadas. No entanto ele ainda lhes inspirava desconfiança. "Embora seja tão expedito e bondoso, estará em condições de cumprir o que promete? Porque ele está de uma maneira!..."

- Eu compreendo que as senhoras hão de pensar que, no estado em que me encontro... - disse Razumíkhin, adivinhando-lhes o fio dos pensamentos e pisando o passeio com as suas enormes passadas de gigante, sem perceber que as duas mulheres mal podiam segui-lo. - Tolice! Isto é... eu estou demasiadamente bêbado, é verdade; mas não é de álcool. É que, quando eu vi as senhoras, o sangue subiu-me à cabeça e fiquei transtornado... Mas não façam caso de mim, minhas senhoras! Não reparem nisso; eu sou um trapalhão; não sou digno das senhoras... Nem de longe! Assim que as deixar vou direitinho ao canal, dou dois mergulhos na água e pronto... Se soubessem como eu já gosto das duas! Não se riam nem se aborreçam, minhas senhoras! Aborreçam-se com toda a gente, menos comigo! Eu sou amigo dele e das senhoras também. Aquele desejo... O coração já mo adivinhava... O ano passado houve um momento... Aliás não é uma certeza absoluta que o meu coração mo tivesse adivinhado, porque as senhoras apareceram aqui como se tivessem caído do céu. Vou passar toda esta noite em claro... Há pouco, Zósimov estava com medo de que ele perdesse o juízo... Por isso é preciso não o irritar...

- Que disse o senhor? - exclamou a mãe.

- Mas foi o próprio médico quem disse isso? - perguntou Avdótia Românovna, assustada.

- Não, ele não disse isso, o que disse foi o contrário. E também lhe deu um remédio, uns papelinhos que eu vi, e foi então que as senhoras chegaram... Ah! Teria sido bem melhor que tivessem deixado isso para amanhã! Fizemos muito bem em nos virmos embora. Mas dentro de uma hora o próprio Zósimov as porá a par de tudo. Esse não está embriagado! E eu, então, já estarei desanuviado... Mas por que me teria eu embriagado desta maneira? E por que me teria eu metido em discussões com esses malvados? Jurara não tornar a discutir com eles! Mas dizem uns tais disparates! É impossível não discutir com eles! Deixei lá o meu tio, como presidente... Bem, talvez as senhoras não acreditem, mas eles exigem que o indivíduo não possua personalidade e acham que nisso é que está o mais importante da vida! Uma pessoa não ser ela própria, parecer-se o menos possível consigo mesma! É isso que eles consideram o cúmulo do progresso. E nem sequer procuram mentir com graça; mas...

- Ouça - interrompeu-o timidamente Pulkhiéria Alieksándrovna, sem conseguir outra coisa senão entusiasmá-lo ainda mais.

- Que pensam as senhoras? - exclamou Razumíkhin, elevando a voz ainda mais. - Julgam que eu me ponho assim porque eles mentem? Tolice! Eu gosto que eles mintam! A mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais. Vai mentindo... que depois hás de atingir a verdade! É precisamente por ser homem que eu minto. Nem uma só verdade poderia alcançar se antes não mentisse catorze vezes, e até cento e catorze vezes, o que representa uma honra sui generis; simplesmente, nós nem sequer sabemos mentir com inteligência! Tu me mentes, mas mentes-me de uma maneira especial, e eu ainda por cima te dou um abraço. Mentir com graça, de uma maneira pessoal, é quase melhor que dizer a verdade à maneira de toda a gente; no primeiro caso é-se um homem e, no segundo, não se é mais do que um papagaio! A verdade não anda depressa, mas, à vida, podemos fazê-la correr; há exemplos disso. Ora vejamos: que somos nós presentemente? Todos, todos sem exceção, no campo das ciências, da cultura, do engenho, da invenção, da experiência, em todos os campos, em todos, em todos, não passamos das primeiras letras. Gostamos de nos regalarmos com a inteligência alheia! Da papinha já feita! Não é verdade? Não tenho razão? - exclamou Razumíkhin, exaltando-se e apertando as mãos das duas mulheres. - Não será verdade isso tudo?

- Oh, meu Deus, eu não sei! - declarou a pobre Pulkhiéria Alieksándrovna.

- Sim, é verdade... se bem que eu não esteja completamente de acordo com o senhor - acrescentou seriamente Avdótia Românovna, e esteve quase para gritar, tal era a força com que Razumíkhin lhe apertava a mão.

- Acha que sim? Disse que também acha que sim? Bem, então, uma vez que pensa assim... a senhora... - exclamou entusiasmado - a senhora é um poço de bondade, de pureza, de inteligência, e... uma perfeição! Dê-me a sua mão, dê-ma! Dê-me a senhora também a sua, que quero beijar-lhas aqui mesmo, agora mesmo, de joelhos!

E pôs-se de joelhos, no meio do passeio, que por acaso estava deserto. - Mas o senhor sabe o que está fazendo? - exclamou Pulkhiéria Àlieksándrovna no auge do espanto.

- Levante-se, levante-se! - disse Dúnia, sorridente e assustada. - Não o farei por nada deste mundo se, primeiro, não me derem as suas mãos! Bem, agora está bem; agora já me levanto e vamos andando! Eu sou uma pessoa muito infeliz, eu não sou digno das senhoras e, além disso, estou embriagado, do que me sinto muito envergonhado... Eu não sou digno de amá-las, mas inclino-me perante as senhoras... que é o que todos deveriam fazer, se não fossem uns idiotas completos! Foi por isso que eu me ajoelhei! Bem, aqui está a sua casa, e, de fato, Rodka teve muita razão para, esta tarde, expulsar o seu Piotr Pietróvitch! Como é que ele teve o atrevimento de hospedá-las nesta casa? É escandaloso! Sabem que gente é que vive aqui? E isto sendo a senhora sua noiva! É de fato noiva dele? Pois, ainda que o seja, eu não tenho nenhum pejo de lhe dizer, depois de ver isto, que o seu futuro marido é um velhaco!

- Ouça, Senhor Razumíkhin, o senhor esquece-se... - começou Pulkhiéria Alieksándrovna.

- Sim, sim, a senhora tem razão; eu me esquecia e sinto-me envergonhado! - disse Razumíkhin, refreando-se. - Mas... mas... as senhoras não devem ficar zangadas comigo por eu me exprimir assim! Porque eu, ao falar assim, falo com toda a sinceridade, e não porque... hum! Isso seria uma vileza; em resumo: não porque eu, à senhora... hum!... Bem, o fato é que, embora eu não diga a razão, não me atrevo... Mas todos nós compreendemos esta tarde, assim que ele entrou, que esse homem não é dos nossos. Não é pelo fato de ter chegado acabadinho de sair do cabeleireiro, com o cabelo frisado, nem porque se tivesse apressado tanto em mostrar a sua inteligência, mas sim porque é um espia e um especulador, porque é um judeu e um charlatão, e tudo isso salta logo aos olhos. As senhoras pensam que ele é inteligente? Pois olhem que não, é um burro, um asno! Ora, vejam francamente: fará realmente um par condizente com a senhora? Oh, meu Deus! Reparem, minhas senhoras - e parou de repente, quando iam já subindo a escada da pensão -, embora todos os que neste momento se encontram em minha casa estejam embriagados, isso não significa que não sejam todos umas pessoas decentes e, ainda que mintamos (porque eu também minto), mentindo acabaremos por alcançar a verdade, porque vamos por bom caminho, ao passo que Piotr Pietróvitch... não vai por caminho direito. E, embora há um momento eu estivesse a disparatar acerca deles, fiquem as senhoras sabendo que eu os respeito a todos; e até ao próprio Zamiótov, se bem que não o respeite, tenho-lhe amizade, apesar de tudo, porque... é um garoto. Até mesmo a esse idiota do Zósimov, porque... é honesto e sabe do seu ofício... Mas, basta, já está tudo dito e perdoado. Está perdoado, não é verdade? Ora cá estamos! Entremos. Este corredor não me é desconhecido; eu já estive aqui; aqui, no número três, houve uma vez um escândalo... Mas qual é o seu quarto? Que número é? É o oito? Bem, fechem-se a chave por dentro, de noite, e não abram a ninguém. Dentro de um quarto de hora estarei outra vez aqui com notícias e, passada outra meia hora, com Zósimov, vão ver! Então adeus, que vou já num pulo!

- Meu Deus, Dúnietchka! Que irá acontecer? - exclamou Pulkhiéria Alieksándrovna dirigindo-se à filha, cheia de medo e de inquietação.

- Acalme-se... mámienhka - respondeu Dúnia, tirando o chapéu e a mantilha. - Foi Deus quem nos enviou este rapaz, se bem que tenha bebido um pouco a mais. Podemos ter confiança nele, garanto-lhe. Sem falar em tudo o que ele já fez pelo meu irmão...

- Ah! Dúnietchka! Sabe Deus se ele voltará! Mas como é que eu fui capaz de me decidir a abandonar Rodka! Nem de longe imaginava vir encontrá-lo assim! Ficou tão sério... até parecia que a nossa presença o contrariava!

Assomaram lágrimas aos seus olhos.

- Não, isso não é bem assim, mãezinha. A senhora não reparou bem, porque não fazia mais nada senão chorar. É que ele está muito transtornado devido à doença tão grave... É por isso!

- Ah, essa doença! Que irá acontecer, que irá acontecer? E a maneira como ele te falou, a ti, Dúnia! - disse a mãe, olhando timidamente para os olhos da filha, a fim de neles ler todo o seu pensamento, e já meio contente por ver que Dúnia até se punha na defesa de Rodka, e com certeza que lhe perdoava. - Estou convencida de que amanhã já deve ter reconsiderado - acrescentou, esforçando-se por chegar até o fim.

- Também estou convencida de que amanhã até nos falará... daquilo - interrompeu Avdótia Românovna, e sem dúvida isso foi um remate à conversa, pois tinham tocado num ponto do qual Pulkhiéria Alieksándrovna não se atrevia a falar naquele momento. Dúnia aproximou-se da mãe e abraçou-a. Ela a abraçou também com força e em silêncio. Depois sentou-se e ficou à espera, num desassossego, do regresso de Razumíkhin, e com os seus olhos tímidos seguia os movimentos da filha, que, de braços cruzados e também ansiosa, se tinha posto a dar voltas para trás e para diante pelo quarto, pensativa. Esse andar, de uma ponta a outra, meditando, era um costume vulgar de Avdótia Românovna, e a mãe tinha sempre medo de interromper as suas meditações nesses momentos.

É claro que Razumíkhin era ridículo com aquela paixão súbita que, no meio da bebedeira, lhe nascera por Avdótia Românovna; mas muitas pessoas o teriam desculpado se tivessem visto Avdótia Romã novna, sobretudo neste momento em que dava voltas pela sala, de braços cruzados, triste e pensativa, sem se deterem a considerar a extravagância da situação.

Avdótia Românovna era muito bonita, alta, maravilhosamente bemfeita, forte, aprumada, o que se via em todos os seus gestos, e o que, aliás, não era de maneira nenhuma um obstáculo a que tivesse também movimentos ágeis e graciosos. No rosto parecia-se com o irmão, mas podia até dizer-se que era uma autêntica beleza. Tinha os cabelos castanhos, um pouco mais claros que os do irmão; os olhos quase negros, cintilantes, altivos e, ao mesmo tempo, às vezes, de uma doçura invulgar. Era pálida, mas não de palidez doentia; o seu rosto resplandecia fresco e são. Tinha a boca um tanto pequena; o lábio inferior, fresco e vermelho, era levemente saliente, bem como o queixo... o que era a única irregularidade naquele belíssimo rosto, mas que entretanto lhe infundia uma nota especial, e, entre outras coisas, uma certa altivez. A expressão do seu rosto era sempre verdadeiramente mais séria do que alegre, preocupada; mas o sorriso ficava bem a esse rosto; como lhe assentava bem o riso jovial, juvenil, despreocupado! Por isso era compreensível que o impetuoso Razumíkhin, franco, simples, honesto e forte como um homem antigo, que nunca na sua vida vira nada semelhante, perdesse o juízo assim que a viu. Além disso, o acaso, como de propósito, mostrou-lhe Dúnia nesse belíssimo instante de amor e alegria perante a presença de seu irmão. Teve assim ocasião de ver como ela estremecia, amuada, o lábio inferior projetado para a frente, em resposta às indicações bruscas, de uma ingratidão feroz, daquele... e, a partir desse momento, já não se dominou.

Além disso teve razão ao dizer, quando fizera aquela pausa, embriagado, na escada, que a extravagante senhoria de Raskólhnikov, Praskóvia Pávlovna, era capaz de sentir ciúmes, não só de Avdótia Româ novna, mas até da própria Pulkhiéria Alieksándrovna. Apesar de ter já os seus quarenta anos, Pulkhiéria Alieksándrovna conservava ainda vestígios da sua passada formosura, isto sem falar em que parecia ter muito menos idade do que aquela que realmente tinha, como costuma acontecer às mulheres que conservaram a limpidez da alma, a frescura de impressões e o honesto e puro fervor do coração, até as proximidades da velhice. Digamos de passagem que conservar tudo isso é o único meio de não perder a beleza, até na velhice! Os seus cabelos começavam já a tornar-se brancos e a escassear, havia já algum tempo que pequenos pés-de-galinha se lhe desenhavam em volta dos olhos, tinha as faces murchas e vincadas devido às preocupações e aos desgostos e, apesar de tudo isso, o seu rosto era muito belo. Era o vivo retrato de Dúnietchka, simplesmente com vinte anos a mais, e a não ser também quanto ao lábio inferior, que não era proeminente, como o da filha. Pulkhiéria Alieksándrovna era muito sensível, embora não o fosse até a afetação; tímida e condescendente, mas só até certo limite; era capaz de fazer muitas concessões, podia conformar-se com muitas coisas, até com aquelas que eram contrárias às suas convicções, mas havia sempre um limite de honorabilidade, moralidade e convicções íntimas que nenhuma circunstância era bastante forte para obrigá-la a transpor.

Passados precisamente vinte minutos depois de Razumíkhin ter saído, ouviram-se duas pancadas na porta, não muito fortes, mas apressadas; era ele que voltava.

- Não posso entrar, não tenho tempo! - disse atabalhoadamente quando lhe abriram a porta. - Dorme como um anjo, com um sono plácido, tranqüilo, e Deus queira que fique dormindo assim umas dez horas. Nas tássia vela por ele; ordenei-lhe que não se afastasse de lá até que eu volte. Agora vou buscar Zósimov, ele as porá a par de tudo, e depois vão as senhoras dormir; estão cansadas, eu bem vejo...

E, retirando-se, afastou-se pelo corredor.

- Que expedito e que... leal! - exclamou muito contente Pulkhiéria Alieksándrovna.

- Parece ser uma excelente pessoa! - respondeu Avdótia Românovna com certo entusiasmo, e voltou novamente aos seus passeios pelo quarto, de um lado para o outro.

Passado pouco tempo ouviram-se passos no corredor e outras pancadinhas na porta. Desta vez, as duas mulheres tinham esperado, completamente tranqüilas, o regresso de Razumíkhin, e, de fato, ele conseguira trazer-lhes Zósimov. Este consentira, imediatamente, em deixar o festim e em vir ver como estava Raskólhnikov, mas visitar as senhoras foi de má vontade e com grande receio, desconfiado do bêbado Razumíkhin. Mas ficou imediatamente tranqüilo e até lisonjeado no seu amor-próprio; percebeu que esperavam por ele como por um oráculo. Permaneceu ali dez minutos precisos e conseguiu convencer e tranqüilizar completamente Pulkhiéria Àlieksándrovna. Falou-lhes com a maior simpatia, mas energicamente e até com certa seriedade afetada, como um médico de vinte e sete anos chamado para um caso grave, e sem se afastar nem um momento do assunto, nem mostrar o menor desejo de entrar em relações mais pessoais e freqüentes com as duas senhoras. Como, assim que entrou, reparou imediatamente como Avdótia Românovna era extraordinariamente graciosa, esforçou-se logo, desde o primeiro momento, por não reparar nela durante todo o tempo que durou a visita, dirigindo-se exclusivamente a Pulkhiéria Alieksándrovna, o que acabou por lhe proporcionar uma extraordinária satisfação interior. Referindo-se especialmente ao doente, disse que acabava de encontrá-lo num estado muito satisfatório. A julgar pelas suas observações, aquela doença, além das péssimas condições em que ele vivera durante os últimos meses, obedecia também a certas causas morais, e, por assim dizer, era produto de muitas e complexas influências morais e materiais, desassossego, inquietações, preocupações, certas idéias etc. etc. Como observasse de soslaio que Avdótia Românovna o escutava com especial atenção, alargou-se um pouco mais sobre esse tema. Perante a inquieta e tímida pergunta de Pulkhiéria Alieksándrovna sobre se "tinha algumas suspeitas de alienação mental", respondeu com um sorriso plácido e sincero que haviam exagerado muito as suas palavras; que era verdade que, no doente, se lhe notava uma espécie de idéia fixa, qualquer coisa que parecia denotar uma monomania - tanto mais que ele seguia agora com extraordinário interesse esse setor da medicina -, mas que era preciso ter presente que até quase aquele dia o doente estivera delirando; e... e não havia dúvida de que a chegada das pessoas de família havia de fortalecê-lo, animá-lo e produzir nele um efeito de completo restabelecimento, "desde que lhe sejam evitadas novas comoções", acrescentou de maneira significativa. Depois levantou-se, fez uma reverência, ao mesmo tempo séria e jovial, acompanhado pelas bênçãos, pela veemente gratidão, pelas súplicas e até pela mãozinha de Avdótia Românovna, que lha estendia espontaneamente, e retirou-se muitíssimo satisfeito com a sua visita e, sobretudo, consigo próprio.

- Amanhã falaremos; agora vão já deitar-se! - insistiu Razumíkhin, quando saía em companhia de Zósimov. - Amanhã voltarei por aqui, com notícias, o mais cedo que puder.

- É encantadora, essa Avdótia Românovna! - observou Zósimov, quase zangado, quando iam já na rua.

- Encantadora? Disseste que é encantadora? - exclamou Razumíkhin raivoso, e, de repente, atirando-se a Zósimov, agarrou-o pelo pescoço. -

Como te atreves... Compreendes? Compreendes? - exclamou, sacudindo-o pelo colarinho e encostando-o à parede. - Ouviste?

- Larga-me, bêbado dos diabos! - gritou Zósimov, esforçando-se por se libertar, e, depois que o outro já o tinha largado, ficou a olhá-lo fixamente, e de repente desatou a rir. Razumíkhin, de pé, diante dele, deixou cair as mãos e quedou-se sombrio e pensativo.

- É claro que eu sou um burro - disse, sombrio como uma nuvem -, mas olha... tu também o és.

- Nada disso, meu amigo, nada disso. Eu não penso em disparates. Continuaram caminhando em silêncio, e foi já próximo da casa de Raskólhnikov que Razumíkhin, muito preocupado, cortou aquele silêncio. - Ouve - disse para Zósimov -, tu és um bom rapaz, mas entre outros defeitos tens o de ser um libertino, sim, e dos porcos. És um autêntico crápula, nervoso, um fraco de caráter, um efeminado, um mimalho, que não podes privar-te de nada; é a isso que eu chamo porcaria, porque pode conduzir diretamente a ela. És um tal molengão que, confesso, não chego a compreender como é que, com tudo isso, ainda consegues ser um bom médico e até dedicado. Dormes em cama de penas (tu, um médico!) e levantas-te da cama de noite para ir ver um doente... Dentro de três anos já não te levantarás... Mas, enfim, que diabo! Não se trata agora disso, mas disto: tu, esta noite, vais ficar dormindo no quarto da senhoria (lá a convenci, com muito custo) e eu fico na cozinha; estabelecerão assim intimidade rapidamente. Não é o que tu pensas! Olha, meu amigo, nem por sombras...

- Mas eu não imagino nada!

- Olha, meu amigo, fingimento, silêncio, timidez, uma castidade feroz, e contudo... suspira e derrete-se como cera, completamente babadinha! Livra-me dela, peço-to por todos os santos do céu! Sê complacente, o mais que possas ser! Ficar-te-ei muito agradecido!

Zósimov pôs-se a rir com mais vontade do que antes.

- Estás completamente fora dos eixos! Mas que eu vou fazer com ela? - Garanto-te que não vais ter muito trabalho; bastará que lhe pespegues todas as ingenuidades que te venham à cabeça; basta que te sentes ao lado dela e lhe dês conversa. Além disso tu és médico, por isso podes dedicar-te a curá-la de qualquer coisa. Ela tem piano, e eu, já sabes que canto um bocadinho; cantei-lhe uma cançãozinha russa autêntica: Vertendo estou ardentes lágrimas... Ela é doida por essas canções... Foi por aí que eu comecei; mas tu, para o piano, és um virtuose, um mestre, um Rubinstein... (1) Juro-te que não te vai custar...

- Mas tu prometeste-lhe qualquer coisa? Algum compromisso por escrito? Pode ser que lhe tenhas prometido casamento...

* (1) Anton Rubinstein, pianista e compositor russo, autor da ópera Demônio (1829-1894). Fundou o Conservatório de São Petersburgo. (N. do T) *

- Nada disso, nada disso; absolutamente nada! Ela também não é dessas; quem anda atrás dela é Tchebárov...

- Então, deixa-a!

- Mas como é que eu posso deixá-la assim, sem mais nem menos? - Mas por que é que é impossível?

- Porque é, e pronto! Olha, meu amigo, há qualquer coisa que me prende.

- Seduziste-a talvez, não?

- Qual o quê! Pode até muito bem acontecer que o seduzido fosse eu, devido à minha inépcia; mas, para ela, tanto lhe faz que sejas tu como eu; pois o que ela quer, com certeza, é ter alguém ao lado de quem possa suspirar. Olha, meu amigo... não posso explicar-to bem. Olha... bem; tu sabes muito de matemática e ainda continuas a interessar-te por ela, bem sei; pois dedica-te a ensinar-lhe cálculo integral. Juro-te por Deus que não digo isso por brincadeira, que falo a sério. Para ela tanto faz; pôr-se-á a olhar para ti e a suspirar, e assim durante um ano. Eu, entre outras coisas, falei com ela durante muito tempo e, durante dois dias consecutivos, do parlamento prussiano; pois de que havia eu de lhe falar? E ela, durante todo esse tempo, não fazia outra coisa senão suspirar e derreter-se. Ah! Mas não lhe fales de amor; a hipocrisia dela leva-a até fingir de arisca; o que deves é dar-lhe a entender que não podes sair de perto dela, é o suficiente. É terrivelmente comodista e, em casa dela, uma pessoa está como na sua própria: lê, senta-te, deita-te, escreve... Até podes beijá-la com cuidado...

- Mas que tenho eu a ver com ela?

- Ah, nunca poderei explicar-te! Olha, é que tu e ela são muito parecidos. Eu já me lembrara de ti... É que é preciso acabar com isto! E tanto me faz que seja mais tarde ou mais cedo. Aqui, meu amigo, terás uma espécie de colchão de penas... Sim, e não só de penas. Ah! Aqui, uma pessoa é amimada, aqui é o fim do mundo, a âncora de salvação, o porto de abrigo, o umbigo da terra, a base do mundo formada por três peixes. São tortas de creme e empadas de peixe, é o samovar da tarde, os suspirozinhos plácidos e os cobertores quentes, as botijas para a cama; enfim, é como se tivesses morrido, mas, ao mesmo tempo, continuasses vivo e gozasses das vantagens de ambos os estados, ao mesmo tempo. Mas, está bem, meu amigo; eu pareço um aldravão de feira e, com os diabos! já são horas de dormir. Ouve, eu costumo acordar de noite, por isso irei ver como é que ele está. Não há nada, é um disparate, vai tudo bem. Sobretudo tu, não fiques inquieto; mas se quiseres sobe também e vai até lá para dares uma vista de olhos. Se notares a mais ínfima coisa, que delira, por exemplo, ou que tem febre, ou outra coisa, seja o que for, venhas logo e acordes-me. Embora, no fim de contas, não seja possível...