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No dia seguinte, às oito, Razumíkhin acordou preocupado e sério. Muitas e imprevisíveis dúvidas e hesitações o assaltaram de repente nessa manhã. Nem sequer pudera ter imaginado na véspera que havia de acordar assim. Recordava tudo quanto se passara na noite anterior, até os mínimos pormenores, e compreendia que lhe acontecera algo de estranho, que recebera uma impressão completamente nova e que não podia comparar-se a nenhuma das anteriores. Ao mesmo tempo reconhecia com toda a clareza que aquilo era um sonho que germinara na sua cabeça, sem a mínima realidade, a tal extremo irreal, que até se envergonhava dele, e apressou-se a substituí-lo por outras preocupações e cuidados mais positivos, que lhe deixara em herança aquele "três vezes amaldiçoado dia anterior".

A reminiscência mais terrível de todas era a de que se portara no dia anterior como um velhaco e um selvagem, não só pelo fato de estar embriagado, como por se ter posto a troçar, diante daquela moça, do seu próprio noivo, por uns ciúmes estúpidos, aproveitando-se da situação, sem saber sequer das relações e compromissos que entre eles pudessem existir e sem sequer conhecer também o homem a fundo. Isto é: que direito tinha ele de pôr-se a julgar tão leviana e temerariamente? E quem é que o obrigava a formular um juízo? Por acaso, uma criatura como Avdótia Românovna poderia ser capaz de entregar-se a um homem indigno por dinheiro? Se era assim, é porque, com certeza, ele não era indigno. E o caso da pensão? Mas por que é que o homem havia de estar previamente informado da natureza da tal casa de hóspedes? Já lhes arranjara outro alojamento. Livra, e que reles era tudo aquilo! E que desculpa era essa de estar embriagado? Uma desculpa estúpida, que o humilhava ainda mais! No vinho está a verdade e, de fato, a verdade completa saíra à luz, isto é, "aflorara à superfície toda a maldade do seu coração, grosseiramente invejoso". E, por acaso, ser-lhe-ia lícito, tão pouco, de qualquer modo, que um homem como ele, Razumíkhin, acariciasse tais sonhos? Quem era ele, comparado com aquela moça... ele, o bêbado atrevido e fanfarrão do dia anterior? "Mas poder-se-á estabelecer uma comparação tão cínica e grotesca?" Razumíkhin ruborizou-se perante tal pensamento e, de repente, como de propósito, naquele mesmo momento lembrou-se com toda a clareza de como lhes falara na noite anterior, de pé, na escada, dizendo-lhes que a senhoria ia sentir ciúmes de Avdótia Românovna. Só isso era insuportável! Descarregou uma pancada, com toda a força, sobre o fogão da cozinha, magoando a mão e partindo um dos tijolos.

"Não há dúvida", resmungou para consigo próprio, passado um minuto, com um certo sentimento de auto-humilhação, "não há dúvida de que já não há maneira de emendar nem de desfazer todos esses disparates... e, portanto, é preciso não pensar mais nisso. O que eu farei é apresentar-me ali sem dizer nada e... cumprir a minha obrigação... também sem murmurar, e... e não apresentar desculpas nem dizer uma palavra do assunto; e... e também não há dúvida de que já está tudo perdido."

E, no entanto, quando foi vestir-se preocupou-se com o seu traje mais minuciosamente que de costume. Não tinha outra roupa; mas, ainda que a tivesse, é possível que também não a tivesse posto - e seria intencionalmente que não a teria posto. Mas, seja como for, não podia ficar, como um cínico e um grosseirão: não tinha o direito de ferir os sentimentos do próximo, tanto mais que esses próximos necessitavam dele e chamavam-no. Limpou cuidadosamente o traje com a escova. Quanto à roupa interior, tinha-a sempre apresentável: sobre este ponto era muito brioso.

Lavou-se nessa manhã com todo o esmero - encontrara sabão no quarto de Nastássia -, lavou a cabeça, o pescoço e, sobretudo, as mãos. Quando a si próprio fez a pergunta se havia ou não de barbear-se (Praskóvia Pávlovna possuía navalhas magníficas, que conservava ainda de seu falecido marido, Zarnítsin), resolveu-a com certa crueldade, em sentido negativo: ficaria como estava. "Não vá acontecer pensarem que eu me barbeei para... que, com certeza, o imaginariam. Pois, por nada deste mundo!"

E... o mais importante: era tão grosseiro, tão grosseiro; tinha uma maneira de conduzir-se tão ordinária... E suponhamos que ele sabe que também, embora em ponto pequeno, é um homem decente... "Bom: haverá motivo para uma pessoa se orgulhar de ser um homem decente? Toda a gente tem obrigação de o ser, e até mais qualquer coisa; mas, apesar de tudo (lembra-se), pesam-lhe sobre a consciência alguns pecadilhos... não que sejam desonrosos, mas, no entanto... E que intenções não tivera, às vezes! Hum! E pôr tudo isso em comparação com Avdótia Românovna! Mas bom, que diabo! Seja! Continuarei a ser de propósito grosseiro, sujo e ordinário e a cuspir! Ainda hei de fazer pior..."

Foi no meio desses monólogos que Zósimov o foi encontrar, o qual passara a noite na sala de Praskóvia Pávlovna.

Regressava a casa e, ao sair, de passagem, vinha deitar uma vista de olhos ao doente; Razumíkhin informou-o de que ele passara a noite dormindo como um anjo. Zósimov deu indicações para que não o incomodassem até que ele acordasse por si. Prometeu tornar a passar por ali às onze.

- Supondo que o encontre em casa - acrescentou. - Ufa, que diabo! Se não se tem domínio sobre um doente, como é que se há de curá-lo? Não sabes se ele irá visitá-las ou se serão elas que virão vê-lo?

- Elas - respondeu Razumíkhin, compreendendo a intenção da pergunta -, creio que virão, sem dúvida, para tratar de assuntos de família. Eu me retirarei. Tu, como médico, naturalmente, tens mais direito do que eu.

- Eu também não sou nenhum diretor espiritual; irei e sairei logo a seguir: já tenho bastante que fazer, sem contar com isso...

- Só há uma coisa que me inquieta - acrescentou Razumíkhin, franzindo o sobrolho -; ontem, eu, bêbado como estava, pus-me a falar-lhes pelos cotovelos, durante o caminho, e disse uma porção de asneiras... uma chusma delas... Entre outras coisas, disse-lhes que tu receavas que estivesse... com propensão a enlouquecer...

- Também falaste disso ontem, às senhoras?

- Foi uma estupidez, reconheço-o. Se quiseres, bate-me!

Mas dize-me: tu tinhas pensado verdadeiramente nessa possibilidade com alguma insistência?

- Isso é um absurdo, afirmo-te. Uma idéia fixa! Foste tu que mo descreveste como um monomaníaco, quando me trouxeste para o ver... Mas nós, ontem, quer dizer, tu, com essas suposições... a respeito do pintor, deste-lhe volta ao juízo: lindo assunto para conversa... Até é possível que fosse isso que o tivesse transtornado! Se eu tivesse sabido ao certo o que aconteceu no comissariado, e que aí, algum malandro, com essas suspeitas... o ofendera... hum! Não teria consentido que lhe falassem disso ontem. Pois deves saber que esses monomaníacos tomam um mosquito por um elefante e vêem em devaneios as coisas mais fantásticas... Se bem me lembro, ontem concluí claramente metade desse assunto, do relato de Zamiótov. Não tenho dúvidas! Conheço o caso dum neurótico, quarentão, que não era capaz de agüentar diariamente a troça que um rapazinho de oito anos fazia dele, à mesa, e que, por isso, o assassinou. E repara: tão mal vestido, obrigado a suportar as insolências dum polícia, uma doença em princípio, e uma suspeita dessas! Avalia, portanto: um hipocondríaco em último grau e com essa vaidade furiosa, esse amor-próprio! É aqui que pode estar a explicação da doença! Sim, que diabo! No fundo, esse Zamiótov é um bom rapaz, simplesmente... hum!... simplesmente fez mal, ontem, em falar disso. É um terrível tagarela!

- Mas a quem é que ele falou? A mim e a ti! - E a Porfíri também.

- E que importância tem que o tenha contado também a Porfíri? - Dize-me sinceramente: tens alguma influência sobre essas mulheres, a mãe e a irmã? É que é preciso que sejam muito discretas, hoje, com ele...

- Sê-lo-ão - respondeu Razumíkhin involuntariamente.

- E por que é que ele tratou esse tal Lújin daquela maneira? Um homem com dinheiro e que, segundo parece, não lhe desagrada, a ela, e ademais não tendo nada, não é verdade?

- Eu sei lá disso! - exclamou Razumíkhin, irritado. - Eu sei lá se elas têm muito ou pouco! Pergunta a quem quiseres, pode ser que te informem...

- Livra, que te tornas às vezes muito estúpido! Ainda não te passou a bebedeira de ontem... Adeus. Agradece a Praskóvia Pávlovna, da minha parte, pela sua hospitalidade. Tinha a porta do quarto fechada, e quando eu lhe disse bonjour, do lado de fora, não me respondeu; mas às sete levantou-se e levaram-me o samovar da cozinha, passando pelo corredor. Não tive a honra de vê-la...

Às nove em ponto, Razumíkhin apresentou-se na pensão Bakaliéiev. Havia já muito tempo que as duas mulheres o aguardavam com impaciência histérica. Estavam fora da cama desde as sete, se é que não desde mais cedo ainda. Ele entrou sombrio como a noite e fez-lhes um cumprimento sem graça, e depois ficou aborrecido consigo mesmo, por causa disso. Mas não contara com a hóspeda: Pulkhiéria Alieksándrovna dirigiu-se para ele, pegou-lhe em ambas as mãos e por pouco que lhas beijava. Ele lançou um olhar tímido para Avdótia Românovna; mas até naquele rosto altivo havia naquele momento tal expressão de reconhecimento e amizade, um tão delicado e exato respeito pela sua pessoa, em vez de olharzinhos trocistas e desprezo mal disfarçado que, na verdade, se teria sentido mais à vontade se as tivesse vindo encontrar aborrecidas, de tal maneira que, agora, se sentia muito desconcertado. Felizmente que trazia um assunto de conversa já preparado e agarrou-se imediatamente a esse pretexto.

Quando ouviu dizer que o seu filho "ainda não acordara", mas que "ia tudo bem", Pulkhiéria Alieksándrovna deu mostras de grande alegria, "e que tinha muita, mas muita, muitíssima necessidade de falar o mais depressa possível com Razumíkhin". Vieram logo a seguir a pergunta relativa ao chá e o convite para o tomarem juntos: elas ainda não o tinham tomado por estarem à espera dele. Avdótia Românovna chamou; acudiu um rapaz sujo e esfarrapado, e foi a ele que pediram o chá, que acabaram por lhes trazer, mas com um aspecto tão pouco limpo e desarranjado, que as senhoras ficaram muito aborrecidas. De boa vontade Razumíkhin se teria posto a censurar aquela pensão, mas, recordando-se de Lújin, calou-se, atrapalhou-se, e ficou muito contente quando as perguntas de Pulkhiéria Alieksándrovna começaram finalmente a chover sobre ele, umas atrás das outras, sem interrupção.

Enquanto lhes respondia esteve três quartos de hora falando, mas constantemente interrompido e novamente interrogado, e apressou-se a participar-lhes os fatos mais importantes e indispensáveis, os que co nhecia do ano anterior, da vida de Rodion Românovitch, incluindo uma minuciosa exposição de sua doença. É claro que passou muitas coisas por alto: entre outras a cena do comissariado, com todas as suas conseqüências. Elas escutavam o seu relato com avidez; mas, quando ele pensava que já terminara e tinha satisfeito as suas ouvintes, para elas parecia que ainda não começara.

- Diga-me, diga-me o que pensa... Ah, desculpe-me, mas ainda não sei o seu nome! - disse-lhe precipitadamente Pulkhiéria Alieksándrovna. - Dmítri Prokófitch.

- Bem, pois veja, Dmítri Prokófitch, eu tenho muito, mas muito desejo de saber... assim, de maneira geral... como é que ele, agora, encara as coisas; quero dizer, não sei se me faço entender, não sei como hei de exprimir-me... ou, para melhor dizer: o que é que, agora, lhe agrada, e que é que, agora, o aborrece? Está sempre tão excitado! Quais são os seus desejos e, por assim dizer, que ilusões alimenta? Quem é que exerce influência pessoal sobre ele? Numa palavra, eu queria...

- Ah, mámienhka! Mas como é possível responder assim, de repente, a tudo isso? - observou Dúnia.

- Ah, meu Deus, é que eu nem de longe esperava encontrá-lo assim, Dmítri Prokófitch!

- Tudo isso é muito natural - respondeu Dmítri Prokófitch. - Eu sou órfão de mãe; mas o meu tio vem ver-me todos os anos e nunca consegue compreender-me, nem sequer superficialmente, apesar de ser um homem esperto; além disso, durante os três anos que estiveram separados, passou-se muita coisa. Que hei de eu dizer-lhes? Já há meio ano que convivo com Rodka: áspero, severo, altivo e orgulhoso; nos últimos tempos (e pode ser que até já muito antes) tornou-se rabugento e neurótico. Lá generoso e bom é ele. Não gosta de exteriorizar os seus sentimentos e prefere proceder com dureza a revelar por meio de palavras aquilo que guarda no seu coração. Além disso, às vezes não é nada neurótico, mas apenas frio e de uma insensibilidade que toca a desumanidade; é assim mesmo, como se nele altercassem dois caracteres desencontrados, que se manifestassem alternadamente. Às vezes é terrivelmente taciturno. Não tem tempo para nada, toda a gente o incomoda, e fica deitado sem fazer nada. Não ouve o que as pessoas dizem. Nunca se interessa por uma coisa que noutro tempo o interessou. É terrivelmente orgulhoso, admira-se a si próprio e, segundo parece, tem algumas razões para isso. Bem, que mais? Eu creio que a vinda das senhoras há de exercer sobre ele uma influência salvadora...

- Ah, Deus queira! - exclamou Pulkhiéria Alieksándrovna, mortificada pelas referências de Razumíkhin acerca do seu Rodka.

Quanto a Razumíkhin, já acabara por olhar com mais atrevimento para Avdótia Românovna. Olhou-a com bastante freqüência enquanto falava, embora de modo fugaz, só por um momento e afastando os olhos em seguida. Avdótia Românovna estava sentada à mesa e escutava atentamente; depois levantou-se e pôs-se a passear novamente, como era seu costume, pelo quarto, de um lado a outro, de braços cruzados, lábios franzidos, formulando de quando em quando uma ou outra pergunta, sem interromper os seus passeios, pensativa. Também tinha o hábito de não escutar o que os outros diziam. Trazia um vestido escuro, de tecido leve, e, atado ao pescoço, um lenço branco com fios dourados. Por vários indícios, Razumíkhin observou imediatamente que a situação das duas mulheres não podia ser mais miserável. Se Avdótia Românovna estivesse ataviada como uma rainha, pensava ele que não lhe teria inspirado nenhum temor, ao passo que assim, talvez precisamente por ter vindo encontrá-la pobremente vestida e reparado em toda aquela desamparada miséria, mais aumentava o espanto no seu coração e temia qualquer das suas palavras ou gestos, o que, não havia dúvida, era inibidor para um homem que não precisava disso para duvidar de si próprio.

- Contou-nos muitas coisas curiosas acerca do caráter do meu irmão e... exprimiu-se imparcialmente, o que está muito bem; eu pensava que o senhor sentia admiração por ele - observou Avdótia Românovna sorrindo. - Eu pensei, e com certeza que deve ser isso, que, de permeio, haverá uma mulher... - acrescentou, pensativa.

- Eu não disse isso, embora, afinal, pode ser que a senhora tenha razão, simplesmente...

- O quê?

- É que ele não ama ninguém e é possível que nunca chegue a amar - disse Razumíkhin.

- Isso quer dizer que ele é incapaz de amar?

- Quer saber uma coisa, Avdótia Românovna? É que a senhora é muito parecida com o seu irmão, quase em tudo - disse-lhe ele, de repente, de uma maneira que para si próprio foi inesperada; mas, recordando-se imediatamente do que acabava de dizer do irmão daquela moça, corou violentamente e ficou completamente atrapalhado. Avdótia Românovna não pôde deixar de sorrir ao contemplá-lo.

- Pode ser que estejam os dois um pouco enganados a respeito de Rodka - interveio Pulkhiéria Àlieksándrovna, um tanto melindrada. - Eu não falo do presente, Dúnietchka. O que Piotr Pietróvitch escreve nessa carta... e o que eu e tu supúnhamos... pode ser falso; mas não pode imaginar, Dmítri Prokófitch, como ele é fantasista, por assim dizer, voluntarioso. Nunca confiou no seu caráter, nem sequer quando tinha quinze anos. Estou convencida de que agora seria capaz de fazer qualquer coisa que nenhum homem pensaria algum dia fazer... E, sem ir mais longe, não sabe que, haverá ano e meio, ele me surpreendeu, desgostou e deixou quase às portas da morte, quando se lembrou de se casar com essa... sim, com a filha dessa Zarnítsina, a senhoria?

- Mas a senhora conhece a fundo essa história? - perguntou Avdótia Românovna.

- O senhor é capaz de imaginar - continuou Pulkhiéria Alieksándrovna com veemência - que nessa altura o teriam detido as minhas lágrimas, as minhas súplicas, a minha doença e até talvez a minha morte, devido à nossa angústia, à nossa miséria? Teria passado por cima de todos os obstáculos com a maior tranqüilidade. Dar-se-á o caso, dar-se-á o caso de que não goste de nós?

- Ele nunca me disse uma palavra acerca dessa história - respondeu Razumíkhin circunspecto -, mas soube qualquer coisa a respeito disso da boca da própria senhora Zarnítsina, a qual, na sua classe, não é das mais mexeriqueiras, e aquilo que lhe ouvi era um tanto estranho...

- E que foi que lhe ouviu? - perguntaram ao mesmo tempo as duas mulheres.

- Não; no fundo não é nada de especial. Só me disse que esse casamento, que já estava combinado e que se não se realizou foi por causa do falecimento da noiva, não era muito do agrado da própria senhora Zarnít sina. Além disso dizem que a tal noiva não tinha nada de graciosa, e afirmam até que era feia e muito fraquinha, e... e estranha... ainda que, segundo parece, tinha algumas boas qualidades. Não há dúvida de que algumas devia ter, pois, de outra maneira, é impossível explicar... Dote também não tinha, de maneira que ele não podia ter criado ilusões sobre esse ponto... Em geral é difícil formar uma opinião sobre estes assuntos.

- Tenho certeza de que devia ser uma moça digna - observou laconicamente Avdótia Românovna.

- Deus me perdoe, mas nessa ocasião fiquei tão satisfeita com a sua morte, embora não saiba ao certo qual dos dois teria ficado a perder com esse casamento: se ele ou ela! - concluiu Pulkhiéria Álieksándrovna, depois do que, com discrição e contínuos olhares para Dúnia, coisa que, evidentemente, era aborrecida para esta, tornou a perguntar pormenores da cena do dia anterior entre Rodion e Lújin. Aquele incidente, pelo visto, inquietava-a mais do que tudo, infundindo-lhe até medo e colocando-a em sobressalto. Razumíkhin tornou a contar-lhe tudo outra vez, com toda a espécie de pormenores; mas dessa vez acrescentou também a sua própria conclusão: culpou francamente Raskólhnikov pelo seu insulto propositado a Piotr Pietróvitch, sem insistir tanto na desculpa da doença.

- Já o tinha premeditado antes de ter adoecido - disse.

- Também me quer parecer isso - exclamou Pulkhiéria Alieksándrovna com uma expressão cansada. Mas ficou muito chocada porque Razumíkhin se exprimisse com aquela discrição e até com certo respeito, a propósito de Piotr Pietróvitch. Também Avdótia Românovna ficou impressionada.

- Qual é a opinião que o senhor tem sobre Piotr Pietróvitch? - perguntou Pulkhiéria Alieksándrovna, sem se poder conter.

- Não posso ter senão uma boa opinião acerca do futuro de sua filha - respondeu Razumíkhin com firmeza e ardor -, e não o digo apenas por motivos de falsa cortesia, mas sim porque... porque... ainda que fosse só porque foi a própria Avdótia Românovna que, por sua livre vontade, se dignou escolhê-lo. Se eu, ontem, me exprimi acerca dele dessa maneira, foi simplesmente porque eu estava vergonhosamente embriagado e até... até tinha perdido o juízo: sim, estava meio tonto, mareado, completamente louco... e hoje me sinto envergonhado.

Corou e ficou calado. Avdótia Românovna ruborizou-se também, mas não interrompeu o silêncio. Não dissera uma palavra enquanto se falou de Lújin.

Entretanto, Pulkhiéria Alieksándrovna, sem se poder reprimir, dava visíveis mostras de impaciência. Até que finalmente declarou, titubeando e sem desviar os olhos da filha, declarou que atualmente a preocupava muito uma circunstância.

- Ora veja, Dmítri Prokófitch - começou -, e vou ser completamente franca com Dmítri Prokófitch, não é verdade, Dúnietchka?

- Claro que sim, mámienhka! - observou Avdótia Românovna sugestivamente.

- Aqui tem do que se trata - disse precipitadamente Pulkhiéria Alieksándrovna, como se lhe tivessem tirado um peso de cima ao autorizarem-na a contar os seus desgostos. - Hoje, muito cedo, recebemos uma carta de Piotr Pietróvitch, em resposta àquela que nós lhe escrevemos ontem, anunciando-lhe a nossa chegada. Ora repare: ontem devia ele ter vindo esperar-nos à estação, como tinha prometido. Em vez disso mandou lá um criado para nos receber, com o endereço da pensão e a incumbência de nos indicar o caminho e participar-nos que ele, Piotr Pietróvitch, viria aqui visitar-nos hoje de manhã. Mas, em vez disso, recebemos hoje, pela manhã, esta carta sua... O melhor é o senhor mesmo lê-la: há nela um ponto, e já vai ver qual é, que me deixa completamente desorientada... Já vai ver qual é e dar-me-á a sua opinião sincera, Dmítri Prokófitch. O senhor conhece melhor do que nós o caráter de Rodka e é o mais indicado para aconselhar-nos. Previno-o de que Dúnietchka já tomou a sua decisão desde o primeiro momento, mas eu é que não sei o que hei de fazer, e... pus no senhor todas as minhas esperanças.

Razumíkhin desdobrou a carta, que tinha data do dia anterior, e leu o seguinte:

"Excelentíssima Senhora Pulkhiéria Alieksándrovna:

Tenho a honra de comunicar-lhe que, devido a obstáculos imprevistos que surgiram, não pude ir esperá-las à estação, mas enviei para esse fim uma pessoa conveniente. Da mesma maneira me verei amanhã privado da honra de vê-la, devido a um assunto inadiável no Senado, e a fim de não me tornar um obstáculo para o seu encontro com seu filho e de Avdótia Românovna com seu irmão. Não poderei ter a honra de visitá-las e apresentar-lhes os meus respeitos no seu domicílio senão às oito da noite em ponto, a propósito do que me permito dirigir-lhe um pedido encarecido, e acrescentarei, terminante, o de que na nossa entrevista não se encontre presente Rodion Românovitch, pois ontem me insultou de uma maneira insolente e sem exemplo, na ocasião em que fui visitá-lo por estar doente, e, além disso, porque temos de ter pessoalmente uma explicação indispensável e pormenorizada a respeito desse caso, acerca do qual desejo conhecer a sua opinião pessoal. Ao mesmo tempo tenho a honra de participar-lhe que, se apesar do meu pedido me encontrasse aí com Rodion Românovitch, me veria precisamente obrigado a retirar-me imediatamente e então seriam as senhoras as culpadas. Escrevo isto supondo que Ródion Românovitch, que quando visitei parecia tão doente, poderia curar-se no intervalo de duas horas, sair à rua e ir encontrar-se com as senhoras. Convenci-me disso pelos meus próprios olhos, em casa de certo ébrio atropelado por uma carruagem e que morreu em conseqüência do acidente, e a cuja filha, uma moça de má fama, entregou ontem nada menos do que vinte rublos, com o pretexto de ajudar nas despesas do enterro, coisa que muito me surpreendeu, sabendo quanto lhe teria custado juntar essa quantia. Sem mais, com o testemunho da minha particular estima pela respeitável Avdótia Românovna, peço-lhe que se digne aceitar a expressão dos sentimentos de respeitoso afeto do seu humilde servidor.

P. Lújin".

- Que devo eu fazer agora, Dmítri Prokófitch? - exclamou Pulkhiéria Alieksándrovna quase com lágrimas nos olhos. - Como hei eu de avisar Rodka de que não venha? Ele, que ontem exigiu tão altivamente a ruptura com Piotr Pietróvitch, e vir agora este dizer-lhe que não venha! Pois, se ele chegar a saber, há de vir intencionalmente. E que irá acontecer depois? - Faça aquilo que decidiu Avdótia Românovna - disse Razumíkhin tranqüila e imediatamente.

- Ai, meu Deus! Ela disse... Sabe Deus o que ela disse, sem explicar-me o que se propõe! Ela disse que o melhor é dizer, o melhor, não, mas que terá de ser, fatalmente, é que Rodka esteja de propósito aqui às oito e que não tenham ambos outro remédio senão encontrarem-se... Eu, em compensação, estava disposta a não lhe mostrar esta carta e a pôr em prática, contando com o seu auxílio, qualquer estratagema para que ele não viesse, porque é tão irritável! E também não entendo nada a respeito desse caso do tal ébrio que morreu e dessa tal filha, e como é que ele pôde entregar à tal filha o seu último dinheiro, que...

- Que tão caro lhe custou, mámienhka - acrescentou Avdótia Românovna.

- Ele, ontem, não estava no seu perfeito juízo - declarou Razumíkhin, pensativo -; se soubessem o que ele fez ontem em certa taberna, se bem que com inteligência, isso sim, hum! Não há dúvida de que ontem ele me falou de certo morto e de uma moça, sim, de fato, quando vínhamos para casa, simplesmente eu não percebi nada... Se bem que, por outro lado, também eu ontem...

- O melhor é ir a própria mámienhka vê-lo; asseguro-lhe que, assim, poderemos decidir sem rodeios o que se deve fazer. Sim, e devia ser já agora... Meu Deus, onze horas! - exclamou, consultando o seu magnífico relógio de ouro e esmalte, que trazia ao pescoço, suspenso de um delicado fio veneziano, e que destoava terrivelmente do resto da sua apresentação. "Presente de casamento", pensou Razumíkhin.

- Ah, sim; já são horas! Anda, Dúnietchka, anda! - disse Pulkhiéria Alieksándrovna, alarmada. - É capaz de pensar que ainda estamos zangadas por causa do que se passou ontem, se demorarmos a ir vê-lo. Ai, meu Deus!

Enquanto dizia isso deitava o xale apressadamente por cima dos ombros e punha o chapéu. Dúnietchka acabou também de arranjar-se. As suas luvas eram não só velhas, mas até rotas, no que Razumíkhin reparou, e, no entanto, aquela evidente pobreza no vestir conferia às duas mulheres um aspecto de especial dignidade que se encontra sempre nas pessoas que sabem usar um traje pobre. Razumíkhin olhou com admiração para Dúnietchka e sentiu-se orgulhoso por acompanhá-la. "Parece aquela rainha", pensou para consigo, "que lavava as suas meias na prisão, não há dúvida nenhuma, uma verdadeira rainha, parece-o neste momento ainda mais do que no dos seus brilhantes triunfos e na sua coroação."

- Meu Deus! - exclamou Pulkhiéria Alieksándrovna. - Como poderia eu imaginar que havia de vir a ter medo de me encontrar com o meu filho, com o meu tão querido Rodka? Pois tenho medo dele, Dmítri Prokófitch!

- Não tenha medo, mámienhka - disse Dúnia, beijando-a. - O melhor é ter confiança nele. Eu tenho.

- Ai, meu Deus! Eu também tenho e não pude dormir durante toda a noite! - exclamou a pobre mulher.

Saíram.

- Olha, Dúnietchka, sabes uma coisa? Esta manhã, quando estava meio adormecida, apareceu-me em sonhos a falecida Marfa Pietrovna... toda de branco... Aproximou-se de mim, pegou-me numa mão, inclinou a cabeça para mim, e estava com uma cara tão séria, tão séria, como se me censurasse... Será um bom agouro? Ai, meu Deus! Dmítri Prokófitch, o senhor ainda não sabe: Marfa Pietrovna morreu.

- Não, não sabia; quem era Marfa Pietrovna? - Morreu de repente! E imagine...

- Depois, mámienhka - interveio Dúnia. - Lembra-te de que ele ainda não sabe de que Marfa se trata.

- Ah! Não sabe? E eu pensando que o senhor já estava a par de tudo... Desculpe-me, Dmítri Prokófitch... Desculpe-me, desde há uns dias que não ando bem da cabeça. Eu o considero verdadeiramente como a nossa providência; por isso estou convencida de que estará a par de tudo. Considero-o da família... Não leve a mal que eu fale assim. Ai, meu Deus, que é isso que tem na mão direita? Magoou-se?

- Sim... - resmungou Razumíkhin, muito satisfeito.

- Eu, às vezes, me deixo levar demasiado pelos meus impulsos, tanto, que Dúnia me corrige... Mas, meu Deus! Em que buraco ele vive! Já estará acordado? Essa mulher, a senhoria, considera isto um quarto? Escute: o senhor disse que ele não gosta de mostrar os seus sentimentos, por isso talvez eu vá aborrecê-lo com os meus... Fraquezas... Não quererá ensinarme, Dmítri Prokófitch? Como devo conduzir-me com ele? Eu, o senhor sabe, estou desorientada.

- Não lhe faça muitas perguntas se vir que ele franze o sobrolho: sobretudo não lhe fale muito acerca da saúde, isso contraria-o.

- Ah, Dmítri Prokófitch, quanto custa ser mãe! Mas aqui está a escada... Que escada tão horrorosa!

- A senhora até está pálida; acalme-se, minha querida mãe - disse Dúnia, acariciando-a. - Ele deve considerar uma felicidade vê-la, e a senhora a martirizar-se dessa maneira! - acrescentou, de olhos faiscantes. - Esperem, que eu, primeiro, vou ver se ele já acordou ou não.

As duas mulheres começaram a andar devagar atrás de Razumíkhin, que subia já as escadas, e, quando chegaram ao quarto andar e passaram diante da porta da senhoria, observaram que ela estava aberta de maneira que deixava uma fresta pela qual espreitavam dois olhos negros e penetrantes, na escuridão. Quando os olhos se encontraram, a porta tornou-se a fechar, de repente, com tal estrépito que Pulkhiéria Alieksándrovna esteve quase a lançar um grito de medo.