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- Curado! Curado! - exclamou Zósimov alegremente, saindo a receber os que chegavam.

Havia dez minutos que tinha chegado e sentara-se no mesmo canto da véspera, no divã. Raskólhnikov estava sentado no extremo oposto, completamente vestido e até cuidadosamente lavado e penteado, coisa que havia tempo não lhe acontecia. O quarto ficou cheio; mas, fosse lá como fosse, Nastássia ainda lá coube, atrás dos visitantes, para ficar escutando.

De fato, Raskólhnikov estava quase completamente restabelecido, principalmente comparando o seu estado com o da noite anterior, embora estivesse muito pálido, meditabundo e severo. Pelo seu aspecto exterior parecia um homem ferido ou que sofresse de alguma forte dor física: tinha o sobrolho franzido, os lábios apertados e os olhos alucinados; falava pouco e de má vontade, como se o fizesse à força ou para cumprir uma obrigação, e de quando em quando manifestava uma certa inquietação nos gestos.

Só lhe faltava um lenço do braço ao pescoço ou uma ligadura num dedo para que fosse completa a sua semelhança com um indivíduo que, por exemplo, tivesse um panarício ou se tivesse ferido numa mão, ou qualquer outra coisa do gênero.

Aliás, aquele rosto pálido e sombrio iluminou-se num instante como por efeito de uma luz, quando a mãe e a irmã entraram; mas isso não serviu senão para acrescentar à sua expressão, em vez da sua antiga se veridade ensimesmada, algo de dor concentrada. Esse vislumbre não tardou a desaparecer; mas a dor persistiu, e Zósimov, que observava e atendia ao seu doente com todo o ardor juvenil dum médico que está no princípio da carreira, verificou nele, com o espanto conseqüente, à vista da família, em vez de alegria, qualquer coisa como a resolução dolorosa e secreta de suportar um mau bocado... qualquer contrariedade que não podia disfarçar. Mas pôde notar depois como quase cada palavra do diálogo seguinte parecia irritar e acirrar alguma ferida do doente, embora, ao mesmo tempo, se admirasse de vê-lo naquele dia animado do poder de dominar-se a si próprio e ocultar os seus sentimentos de monomaníaco, prontos a estalarem, à menor palavra, num acesso de fúria.

- Sim, eu próprio vejo agora que já estou quase completamente bem - disse Raskólhnikov beijando afetuosamente a mãe e a irmã, o que pôs imediatamente radiante de alvoroço Pulkhiéria Alieksándrovna -, e não digo como ontem - acrescentou, dirigindo-se a Razumíkhin e estendendo-lhe amistosamente a mão.

- Hoje até fiquei admirado por vir encontrá-lo assim - começou Zósimov, muito contente por ver chegar os que entravam, porque em dez minutos já tivera tempo de perder o fio da conversa com o seu doente. -

Daqui a três... ou quatro dias, se isto continuar assim, estará outra vez como antes, isto é, como há um mês ou dois, ou até como há três. Porque ele andava incubando isto já há muito tempo... Confesso agora que até é possível que tenha sido o senhor mesmo quem teve a culpa - acrescentou com um sorriso discreto, como se ainda temesse irritá-lo.

- Pode muito bem ser assim - acrescentou friamente Raskólhnikov. - Digo isso - continuou Zósimov em tom confidencial - porque o seu completo restabelecimento depende agora unicamente do senhor. Agora que já se pode falar com o senhor, desejava dizer-lhe que é preciso investigar as causas primordiais, radicais, por assim dizer, que influíram na efetivação do seu estado mórbido, e será então que se há de curar completamente, pois, de contrário, talvez ainda seja pior. Essas causas primordiais, ignoro-as; mas não tem outro remédio senão conhecê-las. O senhor é um homem inteligente e que sem dúvida alguma se observa a si próprio. A mim parece-me que o começo da sua doença coincidiu, em parte, com a sua saída da universidade. Para o senhor é impossível estar sem fazer nada, e, além disso, tenho a convicção de que o trabalho e a perseguição de um fim concreto haviam de ser-lhe muito benéficos.

- Sim, sim, o senhor tem toda a razão... Vou ver se entro o mais cedo possível na universidade, e então tudo caminhará sozinho... como sobre rodas.

Zósimov, que precipitara os seus sensatos conselhos, em parte para impressionar as senhoras, ficou um tanto desconcertado quando, ao terminar a sua arenga e passear o olhar sobre o seu interlocutor, lhe notou no rosto um acentuado sarcasmo. Aliás, isso durou apenas um momento. Pulkhiéria Alieksándrovna pôs-se imediatamente a exprimir a Zósimov a sua especial gratidão pela sua visita da noite anterior à hospedaria.

- Mas como é que o senhor foi visitá-las de noite? - perguntou Raskólhnikov um tanto inquieto. - Então não descansaram da viagem? -Àh, Rodka, isso foi às duas. Nós, em casa, tanto eu como Dúnietchka, nunca nos deitamos antes das duas.

- Eu também não sei como agradecer-lhe - continuou dizendo Raskólhnikov, que franziu de repente as sobrancelhas e baixou a cabeça. - Tirando a questão de dinheiro (desculpe que eu me refira a isso) - dirigindo-se a Zósimov -, ignoro o que terei feito para merecer da sua parte uma atenção destas. Não compreendo... simplesmente... e isso... até se me torna aborrecido por não o compreender, digo-lhe com toda a franqueza.

- Não se excite - sorriu Zósimov forçadamente. - Lembre-se de que é o meu primeiro cliente, e quando um de nós começa a praticar a sua profissão cria amizade ao seu primeiro doente, como se fosse seu filho,

e alguns ficam quase apaixonados. E eu, já sabe, não tenho grande clientela. - E nem quero falar desse - acrescentou Raskólhnikov, apontando Razumíkhin -, que só tem recebido de mim insultos e aborrecimentos.

- Não mintas! Estarás hoje sentimental? - gritou Razumíkhin.

Se fosse mais perspicaz, poderia ter visto que tal sentimento estava muito longe de Raskólhnikov, e o que existia era completamente diferente. Avdótia Românovna é que o percebeu. Atenta e alarmada, não perdia o irmão de vista.

- Da senhora também não me atrevo a falar, mámienhka - continuou, como se tivesse aprendido nessa manhã uma lição. - Só hoje pude imaginar pouco mais ou menos o que deve ter sofrido aqui ontem, esperando o meu regresso.

Depois de ter proferido essas palavras, de repente, em silêncio e sorrindo, estendeu a mão à irmã. Mas dessa vez deixou transparecer nesse sorriso um sentimento real, autêntico. Dúnia pegou na mão que se lhe estendia e estreitou-a com entusiasmo, alvoroçada e reconhecida. Era a primeira vez que ele se dirigia a ela depois do desgosto do dia anterior. O rosto da mãe iluminou-se de entusiasmo e de felicidade à vista definitiva da tácita reconciliação dos dois irmãos.

- Eia! É por isso que eu gosto dele - murmurou Razumíkhin, que apreciava a cena, recostando-se energicamente na sua cadeira. - Tem uns tais ímpetos!

"Como as coisas correm todas bem com ele!", pensou a mãe para si mesma. "Tem uns impulsos tão nobres, e com que delicadeza simples pôs ponto final a todo aquele mal-entendido de ontem com a irmã: bastou estender-lhe a mão num momento e olhá-la com ternura! E que olhos tão lindos ele tem, e que cara bonita! É mais bonito ainda do que Dúnietchka... Mas, meu Deus, a roupa que ele traz, que mal vestido está! Vássia, o caixeiro da mercearia de Afanássi Ivânovitch, anda mais bem vestido! Oh, que vontade eu tenho de abraçá-lo e... depois punha-me a chorar! Mas não me atrevo, não me atrevo! Como pode isto ser, meu Deus! Embora fale com ternura, tenho medo dele! Mas por que é que eu tenho medo dele?"

- Ah, Rodka, talvez não acredites - disse ela de repente, apressando-se a responder à sua observação - que mau bocado passamos ontem, eu e Dúnietchka! Agora que já tudo passou e se acabou, e todos voltamos a ser felizes... pode-se dizer. Calcula que viemos correndo até aqui para te abraçarmos, viemos correndo quase desde o vagão do trem, e essa mulher... sim, essa...! Bom dia, Nastássia! Vai e diz-nos que tu estavas de cama com uma febre fortíssima e que tinhas acabado de te levantares sem autorização do médico, que tinhas saído para a rua, delirante, e que tinham ido à tua procura. Não podes imaginar o que isso foi para nós! A mim, veio logo à idéia o trágico fim do tenente Potántchikov, nosso conhecido, que era amigo do teu pai... não te lembras dele, Rodka?... que se escapou também de casa com febre e de uma maneira parecida, e foi cair no pátio, num poço, de onde só o puderam tirar no dia seguinte. Mas nós, não há dúvida de que ainda exagerávamos mais as coisas. Queríamos lançar-nos em busca de Piotr Pietróvitch para conseguir a sua ajuda... porque o certo é que nós estávamos sós - acrescentou com voz lastimosa e, de repente, parou, apercebendo-se de que mencionara Piotr Pietróvitch, e que isso era ainda muito perigoso, apesar de "serem já, agora, de novo, todos muito felizes".

- Sim, sim, tudo isso se vê, não há dúvida - resmungou Raskõlhnikov como única resposta, mas com uma cara tão distraída e pouco atenta, que Dúnia até o olhou atônita.

- Não sei o que é que queria... - continuou ele fazendo esforços por recordar. - Sim, olha: mámienhka e tu, Dúnietchka, não vão pensar que eu não tinha intenção de ser o primeiro a ir hoje ver-vos e que estivesse à espera que vocês viessem.

- Por que dizes isso, Rodka? - exclamou Pulkhiéria Alieksándrovna, também estupefata.

"Dar-se-á o caso de que esteja a responder-nos por obrigação", pensou Dúnietchka, "e faça as pazes e peça perdão como quem cumpre uma tarefa ou recita uma lição?"

- Eu, assim que acordei, pensei ir ver-vos, mas não pude por causa da roupa; esqueci-me de o dizer ontem... Nastássia... lava este sangue... Acabei agora mesmo de me vestir.

- Sangue? Que sangue? - exclamou, assustada, Pulkhiéria Alieksándrovna.

- Este... Não se assuste, mámienhka. É sangue de ontem, de quando saí daqui com febre e encontrei um homem atropelado por um coche... Um funcionário.

- Com febre? Mas se tu te lembras de tudo! - interrompeu-o Razumíkhin.

- É verdade - concordou Raskólhnikov com certa preocupação -, lembro-me de tudo, até o último pormenor; mas espera: por que fiz eu aquilo, onde ia, que dizia? Isso é que não consigo explicar.

- É um fenômeno muito conhecido - interveio Zósimov. - A execução do ato costuma ser magistral, esplêndida; mas a reconstituição dos trâmites é alterada e depende de várias impressões mórbidas. Qualquer coisa de semelhante ao que acontece no sonho.

"No fim de contas, não deixa de estar certo que me tomem pouco mais ou menos por um louco", pensou Raskólhnikov.

- Mas isso também acontece às pessoas sãs - observou Dúnietchka, olhando com inquietação para Zósimov.

- É uma observação absolutamente exata - respondeu aquele. - Neste sentido, efetivamente, todos nós, e com muita freqüência, somos quase dementes, apenas com a diferença de que os doentes estão um pouco mais loucos do que nós, porque, repare, é preciso distinguir. Mas é uma verdade que não existe o homem normal, de maneira nenhuma; talvez entre dezenas, e pode até ser que entre centenas de milhares, apenas se encontre um, e, ainda assim, em exemplares bastante fracos...

Quando ouviu a palavra "loucos", que Zósimov, preocupado com o seu tema favorito, pronunciara indiscretamente, todos franziram o sobrolho. Raskólhnikov continuou pensativo, como se não tivesse dado atenção, e com um sorriso estranho nos lábios. Continuava pensando em qualquer coisa.

- Bem, e que foi feito desse homem atropelado? Interrompi-te! - exclamou Razumíkhin.

- O quê? - respondeu aquele, como se despertasse. - Ah, sim; bom!... É que estava escorrendo sangue quando eu ajudei a conduzi-lo a casa... Para dizer a verdade, mámienhha, eu, ontem, fiz uma coisa imperdoável; de fato, ontem, estava meio tolo. Então não fui e dei o dinheiro que me mandara... à viúva... para o enterro! É claro que se trata de uma pobre mulher tísica; três órfãozinhos, mortos de fome... e a casa vazia... e, além do mais, uma filha... Talvez a mãe também os tivesse dado, se os tivesse... aquela gente... Eu reconheço que não tinha o mínimo direito, sabendo sobretudo quanto lhe custara juntar esse dinheiro. Para socorrer o próximo é preciso começar por ter direito a fazê-lo; se não, crevez chiens, si vous n'êtes pas contents! (1) - e pôs-se a rir. - Não é verdade, Dúnia?

- Não, isso não é assim - respondeu Dúnia com firmeza.

- Ora! Também tu... com opiniões! - resmungou ele, olhando-a quase com ódio e sorrindo sarcasticamente. - Eu devia ter contado com isso... Bem, seja como for, é louvável; para ti será melhor... e, se chegas a um limite do qual não podes passar... serás infeliz; mas, se o transpões... talvez ainda sejas mais infeliz... Embora, no fim de contas, tudo isso seja absurdo! - acrescentou irritado, de mau humor pela sua involuntária franqueza. - Eu só queria dizer que lhe peço perdão, mámienhha - terminou de modo cortante e brusco.

- Basta, Rodka; eu tenho a certeza de que tudo o que tu fazes é bem feito! - exclamou a mãe, alvoroçada.

- Pois não deve ter essa certeza - respondeu ele, e franziu os lábios num sorriso. Continuou em silêncio. Havia qualquer coisa de incomodativo para todos, naquele diálogo, naquele silêncio, naquela reconciliação e naquele pedido de perdão, e todos o sentiam.

"Parece que têm medo de mim", pensou Raskólhnikov para consigo, olhando de soslaio a mãe e a irmã. De fato, quanto mais durava o silêncio, mais se inquietava Pulkhiéria Alieksándrovna.

"Na sua ausência, parecia-me que as amava!", passou pela mente dele. - Ouve, Rodka: sabes que Marfa Pietrovna morreu? - exclamou, de repente, Pulkhiéria Alieksándrovna.

* (1) "Rebentem, cães, se não estão contentes'; isto é, cada um que se governe. (N. do T.) *

- Qual Marfa Pietrovna?

- Oh, meu Deus! Marfa Pietrovna, a Svidrigáilova! Escrevi-te tantas cartas a respeito dela...

- A... a... ah! Já me lembro... E de que morreu ela? Ah! A sério? - e de repente estremeceu, como se acabasse de perder o equilíbrio. - Com que morreu? De quê?

- Imagina, de repente! - disse primeiro Pulkhiéria Alieksándrovna, encorajada pela curiosidade. - Morreu quando eu estava escrevendo-te aquela carta... morreu nesse mesmo dia! Dizem que foi aquele homem terrível a causa da sua morte! Dizem que lhe dera uma surra enorme!

- Mas eles se davam assim tão mal? - perguntou ele, dirigindo-se à irmã.

- Não, pelo contrário: ele era sempre muito paciente com ela, até carinhoso. Em muitas ocasiões, era até demasiado condescendente com o seu gênio, e assim durante sete anos... Simplesmente, agora, acabou-se-lhe a paciência de repente.

- Sendo assim, não seria tão terrível, visto que suportou sete anos! Mas tu, Dúnietchka, pareces defendê-lo.

- Não, não, era um homem terrível! Eu não posso imaginar nada mais terrível! - respondeu Dúnia quase num tremor, franzindo as sobrancelhas e ficando pensativa.

- Isso aconteceu em casa dele, de manhã - continuou dizendo precipitadamente Pulkhiéria Alieksándrovna. - Depois ela mandou logo atrelar os cavalos para dirigir-se à cidade, assim que tivessem almoçado, porque nesses casos ela ia sempre à cidade; sentou-se à mesa e almoçou, segundo dizem, com muito apetite...

- Depois da sova?

- Aliás, tinha ela sempre esse costume; e logo a seguir, para não atrasar a partida, foi tomar banho... Ela fazia tratamento de banhos, tinha em casa uma fonte fria e todos os dias, regularmente, lá dava um mergulho; e foi assim que ela entrou na água que lhe deu o ataque!

- Com certeza! - disse Zósimov. - E ele batia-lhe até magoá-la?

- Isso tanto faz - respondeu Dúnia.

- Hum! A mãe tem uma predileção especial por certos assuntos! - declarou Raskólhnikov de repente, mal-humorado e quase aflito.

- Ai, meu querido, é que eu já não sabia de que havia de falar! - interrompeu-o Pulkhiéria Alieksándrovna.

- Mas mamãe tem medo de mim, todos têm medo de mim! - exclamou ele com um sorriso forçado.

- E nisso tem razão - disse Dúnia, olhando franca e severamente para o irmão. - A mámienhka, quando subia as escadas, vinha já a benzer-se de medo...

O rosto dele transtornou-se como se tivesse tido uma convulsão.

- Ah! Mas que disseste tu, Dúnia! Não fiques zangado, Rodka, por favor... Por que disseste isso, Dúnia? - gritou, fora de si, Pulkhiéria Alieksándrovna. - Eu, na verdade, quando vinha para aqui, no vagão do trem, não fazia outra coisa senão pensar no momento em que nos veríamos e poderíamos falar das nossas coisas... Sentia-me tão feliz que nem via o caminho! Era assim que eu vinha! E agora também me sinto feliz... Tu não, Dúnia? Eu sou feliz só por te ver, Rodka...

- Pronto, mãe - murmurou ele perturbado, e, sem olhar para ela, apertou-lhe a mão. - Depois teremos tempo de falar disso!

Após ter pronunciado essas palavras tornou a ficar perplexo e empalideceu; outra vez uma como que nova e terrível sensação de frio mortal lhe correu pela alma; de repente compreendeu claramente que acabava de pronunciar uma horrível mentira, que não só não mais teria oportunidade de falar com ninguém, como jamais teria de que nem com quem falar. A impressão dessa dolorosa idéia foi tão violenta que, num momento, se esqueceu quase por completo de tudo, levantou-se do seu lugar e, sem olhar para ninguém, quase saiu do quarto.

- Que tens? - gritou Razumíkhin, pegando-lhe pelo braço. Tornou a sentar-se e pôs-se a passear silenciosamente a vista à sua volta: todos olhavam para ele atônitos.

- Mas por que é que estão todos tão murchos? - exclamou de repente, de uma maneira completamente inesperada. - Digam qualquer coisa! Afinal, por que é que estão aqui? Vamos, falem! Vamos conversar... Reunimo-nos aqui e não dizemos nada... Vamos, digam qualquer coisa!

- Louvado seja Deus! E eu, que pensava que ia dar-lhe a mesma coisa que lhe deu ontem... - disse Pulkhiéria Alieksándrovna persignando-se. - Que tens tu, Rodka? - perguntou Avdótia Românovna com desconfiança.

- Nada, é que estava lembrando-me de uma coisa - respondeu ele, e, de repente, pôs-se a rir.

- Bom, se é assim, não está mal! Eu também estava pensando... - resmungou Zósimov, levantando-se do divã. - Eu, no entanto, tenho de retirar-me; talvez passe por aqui logo... se puder...

Cumprimentou e saiu.

- Que boa criatura! - observou Pulkhiéria Alieksándrovna.

- Sim, é muito bondoso, uma ótima pessoa, culta e inteligente... - disse de repente Raskólhnikov com certa ligeireza inesperada e uma animação que, até então, não manifestara. - Eu não me lembro de onde é que o conheço, ainda antes de adoecer... Creio que o conheci em qualquer parte... Mas este também é uma excelente pessoa! - disse, apontando Razumíkhin. - Simpatizas com ele, Dúnia? - perguntou, e, de súbito, sem saber por quê, pôs-se a rir.

- Muito - respondeu Dúnia.

- Tu sempre tens coisas! Ordinário! - exclamou Razumíkhin, terrivelmente perturbado e corado, e levantou-se da cadeira. Pulkhiéria Alieksándrovna sorriu levemente e Raskólhnikov desatou numa gargalhada ruidosa.

- Mas aonde é que vais?

- É que eu também... tenho que fazer.

- Tu não tens absolutamente nada que fazer! Fica! Zósimov foi-se embora e tu também queres ir. Não vás... Mas que horas são? Doze? Mas que relógio tão bonito tu tens, Dúnia! Mas por que é que ficaram outra vez tão calados? Sou só eu que faço a despesa da conversa!

- É um presente de Marfa Pietrovna - respondeu Dúnia.

- E de muito valor - acrescentou Pulkhiéria Alieksándrovna. - Ah... ah... ah! Mas que grande, quase não parece de senhora! - Gosto dele assim - declarou Dúnia.

"Pelo visto não é o presente de casamento", pensou para si Razumíkhin, e, sem saber por que, ficou alvoroçado.

- E eu pensando que era presente de Lújin... - observou Raskólhnikov. - Não, ele ainda não ofereceu nada a Dúnietchka.

- Ah... ah... ah! Mámienhka, lembra-se de que eu estive apaixonado e com a intenção de me casar? - disse ele de repente, olhando para a mãe, que estava impressionada pelo aspecto que tão inesperadamente a conversa estava tomando e pelo tom em que ele proferira aquelas palavras. - Ah, sim, é verdade, meu querido! - Pulkhiéria Alieksándrovna olhou alternadamente para Dúnietchka e para Razumíkhin.

- Hum! Sim! Mas que é que eu ia contar-lhes? Já quase não me lembro. Era uma moça doente - continuou, como se tornasse a mergulhar nos seus pensamentos íntimos e de olhos baixos, perdidos no vago -, gostava de socorrer os pobres e sonhava entrar para um convento, e uma vez pôs-se a chorar quando me falava disso; sim... sim... lembro-me, lembro-me muito bem. Feiazinha... de cara. Nem eu sei, verdadeiramente, por que é que me comprometi com ela; talvez por ela estar sempre doente... Se tivesse sido entrevada ou corcunda ainda gostaria mais dela... - sorriu pensativo. - Isso foi... uma febre de primavera.

- Não, não foi uma febre de primavera - disse Dúnia comovida. Ele olhou para a irmã, atento e perturbado; mas, ou não ouviu ou não compreendeu as suas palavras. Depois, com um ar meditabundo, levantou-se, aproximou-se da mãe, abraçou-a; voltou para o seu lugar e tornou a sentar-se.

- Ainda gostas dela! - exclamou, comovida, Pulkhiéria Alieksándrovna. - Dela? Agora? Ah, sim... está a referir-se a ela! Pois não. Tudo isso, agora, é como se fosse uma coisa de outro mundo... muito afastado. E tudo quanto me rodeia parece que não acontece aqui!

Contemplou todos atentamente.

- A você, por exemplo, é como se a visse a milhares de quilômetros de distância... Mas sabe Deus por que digo eu essas coisas! Quem é que o há de saber? - acrescentou, desgostoso, e ficou calado, pondo-se a morder as unhas e afundado na sua meditação anterior.

- Este quarto é tão feio, Rodka; parece um sepulcro! - exclamou de repente Pulkhiéria Alieksándrovna, interrompendo o doloroso silêncio. - Tenho a certeza de que metade da tua melancolia se deve a este quarto.

- Quarto? - respondeu ele, ensimesmado. - Sim, o quarto contribui muito... Eu também pensava nisso... Mas se soubesse o estranho pensamento que acaba de exprimir, mámienhka - acrescentou de repente, sorrindo de um modo enigmático.

Um pouco mais, e aquela reunião, aqueles parentes, que tornava a ver passados três anos de separação; aquele tom familiar do diálogo, uma vez que não podia fazer nada... tornar-se-lhe-iam, provavelmente, completamente insuportáveis. Mas havia um assunto inadiável, que tinha de ficar irrevogavelmente resolvido naquele dia; era essa a decisão que tomara, havia pouco, quando acordara. Agora, esse assunto era uma saída, e isso alegrava-o.

- Sabes uma coisa, Dúnia? - começou, séria e secamente. - Eu desde já te peço perdão por aquilo que aconteceu ontem; mas acho que é um dever prevenir-te de que, pelo que diz respeito ao principal, não cedo nem um milímetro. Ou eu ou Lújin. Suponhamos que eu seja uma má pessoa; mas tu não o deves ser. Chega um. Se te casares com Lújin deixarei imediatamente de considerar-te minha irmã.

- Rodka, Rodka! Mas, então, insistes no mesmo de ontem? - indagou Pulkhiéria Alieksándrovna com amargura. - Para que hás de tu tomar essa atitude? Não posso suportar isso! Ontem dizias o mesmo...

- Meu irmão - respondeu Dúnia com dignidade e também com secura -, em tudo isso há um erro da tua parte. Passei a noite meditando, à procura desse erro. Consiste tudo em que tu, pelo visto, supões que me entregam a alguém, e com algum fim, na qualidade de vítima. Mas não é assim, de maneira nenhuma. Eu me caso, simplesmente, seguindo a minha inclinação, porque se me torna desagradável continuar solteira; além do mais, não há dúvida nenhuma de que me considerarei feliz se puder depois ser útil aos meus, simplesmente isso não é o principal motivo da minha resolução...

"Mente", pensou ele para consigo, mordendo as unhas quase com raiva. "Orgulhosa! Não quer confessar que está ansiosa por poder dizer que é uma benfeitora! Oh, que péssimos caracteres! Amam como se odiassem! Oh, e como eu... os odeio a todos!"

- Em resumo: casar-me-ei com Piotr Pietróvitch - continuou Dúnietchka - porque, de dois males, escolho o menor. Tenho a honesta intenção de fazer tudo o que ele espera de mim e, por isso, não o engano. Por que sorris dessa maneira?

Também ela corara e pelos seus olhos passou um relâmpago de cólera. - De fazer tudo? - perguntou ele sorrindo com rancor.

- Até certo ponto. Tanto a maneira como a forma com que Piotr Pietróvitch se comprometeu para comigo me demonstraram logo aquilo de que ele precisa. Não há dúvida de que ele tem talvez demasiado amor-pró prio; mas eu espero que também há de apreciar-me, a mim... Por que tornas a sorrir?

- E tu, por que tornas a corar? Tu mentes, Dúnia; mentes descaradamente, por simples teimosia feminina, para pores as coisas a teu gosto perante mim... Tu não podes sentir respeito por Lújin; e eu o vi e falei com ele. Vendes-te com certeza por dinheiro, e não há dúvida de que, seja como for, te conduzes com baixeza; mas estou muito satisfeito porque, ao menos, ainda sejas capaz de corar!

- Não é verdade, eu não estou mentindo! - exclamou Dúnietchka, perdendo toda a sua serenidade. - Não me casaria com ele se não estivesse convencida de que ele sabia apreciar-me e estimar-me. Felizmente, posso certificar-me disso, sem ficar com dúvidas, hoje mesmo. E este casamento não é nenhuma coisa reles, como tu dizes. Mas, ainda admitindo que tu tenhas razão e que eu, de fato, estava decidida a cometer uma baixeza... De toda a maneira, não seria uma crueldade que tu me falasses como me falas? Por que me exiges assim esse heroísmo, que tu talvez não tenhas? Isso chama-se despotismo, coação. Se eu causo a ruína de alguém, é unicamente a minha! Mas eu não matei ninguém! Por que me olhas dessa maneira, Rodka? Que tens? Por que te puseste tão pálido? Rodka, que sentiste? Rodka, meu filho...

- Meu Deus! Quase desmaia! - exclamou Pulkhiéria Alieksándrovna. - Não, não! Foi uma tontura! Não é nada! Uma breve vertigem! Não chegou a ser um desmaio... Vocês têm a mania dos desmaios! Hum! Sim... Que é que eu ia dizendo? Ah, já sei! De que maneira pensas certificar-te hoje de que podes ter respeito por ele e de que ele... te aprecia ou não, conforme disseste? Creio que disseste que seria ainda hoje, se é que eu ouvi bem!

- Mámienhka, mostre a carta de Piotr Pietróvitch ao meu irmão - disse Dúnietchka.

Pulkhiéria Alieksándrovna entregou-lhe a carta com mãos trêmulas. Ele a recebeu com grande curiosidade. Mas, antes de abri-la, olhou de súbito para Dúnietchka com certa admiração.

- É estranho - exclamou, ato contínuo, como se de repente uma idéia nova tivesse acabado de assaltá-lo. - Por que me acaloro eu assim tanto? Para que toda esta gritaria? Vai e casa-te com quem quiseres!

Disse isso como que apenas para si, mas em voz alta, e, durante um momento, ficou olhando para a irmã com um ar preocupado.

Finalmente abriu a carta, conservando ainda a expressão de um certo espanto estranho; depois procedeu à leitura, devagar e atentamente, e repetiu-a duas vezes. Pulkhiéria Alieksándrovna estava numa grande inquietação, embora todos os outros esperassem também alguma coisa de especial. - O que para mim é assombroso - começou ele, depois de uns momentos de reflexão e devolvendo a carta à mãe, mas sem olhar para ninguém em especial - é que ele seja advogado, homem de negócios, e se exprima na conversação de uma maneira que é até... amaneirada... e, apesar disso, escreva tão mal.

Houve um movimento geral; não esperavam de maneira nenhuma aquela saída.

- Toda essa gente escreve assim - observou bruscamente Razumíkhin. - Mas tu leste a carta?

- Nós demos-lha a ler, Rodka... Pedimos-lhe conselho... - começou Pulkhiéria Alieksándrovna, muito confusa.

- É um estilo processual - atalhou Razumíkhin. - É assim que redigem todos as folhas processuais.

- Processuais? Sim, é isso: processual, de advogado. Nem demasiado vulgar nem demasiado literato, advocatício!

- Piotr Pietróvitch não esconde que recebeu uma educação de meiatigela, e até se gaba de se ter feito por si próprio - observou Avdótia Românovna, um pouco ressentida pelo novo tom do irmão.

- Pois se se gaba, lá deve ter as suas razões para isso; não digo o contrário. Tu, Dúnia, pelo visto ficaste ofendida por eu ter tomado esta carta como pretexto para uma observação sem importância, e pensas que me pus a falar intencionalmente desses pormenores para te aborrecer. Mas não é nada disso. A mim aconteceu-me, a propósito de estilo, uma observação que não é supérflua no caso presente. Há aí uma frase: "Não culpem mais ninguém, senão a si próprias", que não pode ser mais taxativa e clara, sem contar com a ameaça de se ir imediatamente se eu me intrometer. Essa ameaça de retirar-se... equivale à ameaça de vos abandonar se não fordes obedientes, e de abandonar-vos, agora, que vos fez vir a Petersburgo. Bem, vamos ver o que tu dizes: pode uma pessoa dar-se por ofendida perante essa frase de Lújin, como se fosse aquele que a tivesse escrito - e apontou Razumíkhin - ou Zósimov, ou qualquer outro de nós?

- Não... não! - respondeu Dúnietchka exaltando-se. Eu compreendo muito bem que se trata de uma expressão perfeitamente ingênua e pode ser que tudo se reduza a que ele não sabe escrever... Nisso pensaste bem, irmão. Eu nem sequer esperava...

- Isso está escrito em estilo advocatício, e em estilo advocatício não era possível escrevê-lo de outra maneira, embora talvez lhe tenha saído mais tosco do que ele desejava. Além disso, eu tenho a obrigação de abrir-te um pouco os olhos; nesta carta há também uma calúnia contra mim, e bastante reles. Eu dei ontem aquele dinheiro a uma viúva, tuberculosa e esgotada de trabalhar, e não com o pretexto de ajudar ao enterro, mas muito claramente para o enterro e não por causa da filha... uma moça, como ele escreve, de má fama (e à qual eu nunca na minha vida vira até ontem); dei-o sobretudo a uma viúva. Vejo perfeitamente em tudo isso o confuso desejo de ofender-me e de provocar a discórdia entre nós. Expressão essa também processual; quer dizer, dirigida para um fim evidente e com um cuidado dos mais ingênuos. É um homem com alguma inteligência, mas para proceder com inteligência... é preciso mais qualquer coisa. Tudo isso nos diz quem é esse homem... e parece-me que não deve gostar muito de ti. Falo-te assim, irmã, unicamente para tua orientação, pois desejo sinceramente o teu bem...

Dúnietchka não respondeu; já tomara anteriormente a sua resolução e estava só à espera da noite.

- Bem, e que é que tu resolveste, Rodka? - perguntou Pulkhiéria Alieksándrovna, ainda mais alarmada do que na véspera, pelo súbito e novo tom prático da sua conversa.

- Que é isso de "resolver"?

- É que, repara: Piotr Pietróvitch diz-nos que tu não deverás estar conosco esta noite, e que, em caso contrário, ele se retirará. Por isso... tu pensavas vir?

- Quanto a isso, não há dúvida alguma de que não compete a mim resolvê-lo, mas, em primeiro lugar, a você, se é que essa exigência de Piotr Pietróvitch não a ofende, e depois a Dúnia, se também não ofende a ela. Quanto a mim, farei o que lhes parecer melhor - acrescentou secamente. - Dúnietchka já tomou a sua resolução e eu estou completamente de acordo com ela - apressou-se a afirmar Pulkhiéria Alieksándrovna. - Eu resolvera pedir-te, Rodka, isso mesmo, pedir-te que estivesses presente a essa entrevista, sem falta - disse Dúnia. - Vens?

- Vou.

- E peço também ao senhor que venha ver-nos às oito - acrescentou, dirigindo-se a Razumíkhin. - Mámienhka, eu também quero convidá-lo. - Fazes muito bem, Dúnietchka. Se é isso o que decidiram - acrescentou Pulkhiéria Alieksándrovna -, é isso que há de ser! Isso, para mim, também é um alívio; não gosto de fingimentos nem de mentiras; o melhor de tudo é falar com absoluta franqueza... E agora é lá contigo, Piotr Pietróvitch!