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Entraram no quarto. E ele fê-lo com o aspecto de quem se esforça ao máximo por reprimir o riso. Atrás dele, com a cara completamente crispada pelo furor, vermelho como um tomate, desajeitado, ia Razumíkhin. Tanto o seu rosto como toda a sua pessoa eram naquele momento verdadeiramente grotescos e justificavam os risos de Raskólhnikov. Este, antes que tivessem dado por ele, fez uma reverência, parando no meio da sala, e ficou olhando interrogativamente para o seu dono enquanto lhe estendia a mão, esforçando-se no entanto, aparentemente, por conter a sua hilaridade. Mas, mal tivera tempo de pôr uma cara séria e murmurar alguns sons, quando, de repente, como se fosse involuntariamente, tornou a fixar os olhos sobre Razumíkhin, e não pôde reprimir-se: o riso contido brotou tanto mais irreprimível quanto mais esforço fizera até então para dominar-se. A extraordinária indignação que aquele riso "cordial" infundia em Razumíkhin comunicava à cena um caráter de franca alegria e, sobretudo, de naturalidade. Razumíkhin secundava-a intencionalmente.

- Ufa, que diabo! - exclamou iracundo, gesticulando e dando uma pancada num pequeno candeeiro sobre o qual havia um copinho de chá. Caiu tudo ao chão ruidosamente.

- Mas para que é tanta algazarra, meus senhores? Isso significa uma perda para o Estado - exclamou Porfíri Pietróvitch jovialmente.

A cena corria desta maneira: Raskólhnikov, com as suas risadas, esquecera a sua mão na do dono da casa; mas, consciente da sua ação, aguardava o momento de acabar o cumprimento da maneira mais rápida e na tural; Razumíkhin, que acabara por ficar completamente atrapalhado com a queda do candeeiro e com a quebra do copo, contemplou os cacos com uma expressão sombria, cuspiu e afastou-se logo em direção à janela, onde ficou de costas para os amigos e de sobrolho ferozmente carregado, olhando para fora mas sem ver nada. Porfíri Pietróvitch pôs-se a rir, e ria com vontade, embora fosse evidente que lhe era indiferente ouvir uma explicação. Num canto, sentado na sua mesa, estava Zamiótov, que se levantara um pouco quando viu entrar os visitantes e esperava, de boca aberta num sorriso, mas contemplando a cena com perplexidade e até receoso, e a Raskólhnikov, com uma evidente curiosidade. A inesperada presença de Zamiótov causou-lhe uma desagradável impressão.

"Eis aqui uma coisa que deve ser tomada em conta", pensou.

- Queira desculpar - começou Raskólhnikov, fingindo-se embaraçado. - Ora essa! Tenho muito prazer, os senhores entraram de uma maneira muito engraçada. Mas quê? Nem ao menos nos quer dar os bons dias? - e Porfíri Pietróvitch apontou Razumíkhin com um gesto.

- Por amor de Deus, não sei por que te puseste assim comigo! A única coisa que eu lhe fiz foi dizer-lhe durante o caminho que ele parecia um Romeu e... demonstrar-lho, e, que eu saiba, não se passou mais nada. - Porco! - respondeu Razumíkhin sem se voltar.

- Isso quer dizer que ele tem sérias razões, quando se aborrece, assim, só por uma palavrinha - observou Porfíri rindo.

- Bem, tu, juiz de instrução... Vão todos para o diabo que os carregue! - exclamou Razumíkhin, e, de repente, pondo-se também a rir, com a cara mais alegre deste mundo, como se nada se tivesse passado, aproximou-se de Porfíri Pietróvitch. - Trocista! Vocês são todos uns imbecis. Vamos ao que interessa: aqui tens o meu amigo Rodion Românovitch Raskólhnikov, o qual, antes de mais, me ouviu falar de ti e tinha muita vontade de conhecer-te, e, além disso, precisa de falar-te num assunto. Olá, Zamiótov! Então estás aqui? Mas, então, conhecem-se? Desde quando?

"Mais esta!", pensou Raskólhnikov.

Zamiótov pareceu ficar um tanto perturbado, mas não muito.

- Conhecemo-nos ontem em tua casa - disse com despreocupação. - Isso significa que Deus não dorme; desde a semana passada que não fazia outra coisa senão insistir comigo para que to apresentasse, Porfíri, e afinal não precisaram de mim para se conhecerem... Onde tens o tabaco? Porfíri Pietróvitch estava em traje caseiro: de roupão, roupa interior muito limpa, e chinelos. Era um homem de uns trinta e cinco anos, de estatura um pouco abaixo da média, um tanto cheio e até com o ventre proeminente, de cara completamente rapada, sem bigode nem suíças, com o cabelo cortado rente na sua cabeça grande e redonda, que formava uma protuberância muito arredondada, sobretudo no cachaço. A cara, cheia, redonda e um pouco achatada, era de uma cor doentia, amarelo-escura, mas muito viva e até risonha. Se não fosse a expressão dos olhos de um certo brilho aquoso, cobertos por umas pestanas quase brancas, sempre em movimento, como se estivesse piscando os olhos a alguém, poder-se-ia qualificá-la de bonacheirona. O olhar desses olhos formava um contraste estranho com toda a sua figura, em que havia algo de feminino, e comunicava-lhe uma seriedade maior do que, à primeira vista, se podia esperar. Assim que ouviu dizer que o visitante tinha um assunto a tratar consigo, Porfíri Pietróvitch pediu-lhe imediatamente que se sentasse no divã, sentando-se ele na outra ponta, e ficou olhando para ele, na expectativa imediata da exposição do assunto, com essa atenção forçada e demasiado séria que é até aborrecida e perturba pela primeira vez, sobretudo a um desconhecido, e, principalmente, se aquilo que se tem a dizer não tem importância proporcional com a deferência que se lhe empresta. Mas Raskólhnikov expôs-lhe o assunto em frases breves e despreocupadas, com toda a clareza e precisão, e ficou tão satisfeito consigo próprio que até teve tempo para reparar muito bem em Porfíri. Porfíri Pietróvitch também não afastou dele a vista nem uma só vez, durante todo esse tempo. Razumíkhin, que se colocara em frente deles na mesma mesa, seguia com ardor e impaciência a exposição do assunto, passeando alternadamente o olhar de um para o outro, o que, de certa maneira, era inconveniente.

"Imbecil", murmurou Raskólhnikov para consigo.

- Deve participar à polícia - respondeu Porfíri com o ar mais objetivo deste mundo -, comunicando-lhe que, estando a par desse acontecimento, ou seja, desse crime... pede, por sua vez, que seja comunicado ao juiz de instrução, encarregado do processo, que tais e tais objetos lhe pertencem e que os deseja reaver... ou então... mas depois lhe escreverão.

- O pior é que, agora, neste momento - objetou Raskólhnikov, fazendo o possível por parecer inquieto -, ando muito mal de dinheiro... e nem sequer essa insignificância poderia... Eu, repare, só queria, por agora, apenas fazer constar que esses objetos são meus, e quando tiver dinheiro... - Isso é indiferente - respondeu Porfíri Pietróvitch, acolhendo com toda a frieza aquela declaração financeira -; além disso, se assim o desejar, o senhor pode escrever-me a mim, diretamente, nesse sentido, dizendo que, estando a par do caso, como esses objetos lhe pertencem, pede...

- Em papel comum? - apressou-se a interrompê-lo Raskólhnikov, tornando a mostrar interesse pelo aspecto financeiro do assunto.

- Oh, em qualquer! - e, de repente, Porfíri Pietróvitch ficou olhando-o com certo sarcasmo, pestanejou e pareceu piscar-lhe os olhos. Se bem que isso pudesse ter sido uma ilusão de Raskólhnikov, porque foi apenas uma coisa de um segundo. Mas, pelo menos, houve qualquer coisa. Raskólhnikov era capaz de jurar que ele lhe piscara os olhos, sabia-se lá por quê. "Sabe tudo!", passou-lhe pela mente, num relâmpago.

- Desculpe ter vindo incomodá-lo por esta ninharia - continuou, um tanto apressado. - Os referidos objetos valerão, no máximo, cinco rublos; mas eu tenho uma estima especial por eles, porque são recordações daqueles que mos ofereceram e, francamente, quando soube daquilo, tive muito receio... - Ah! Por isso ficaste tão impressionado quando eu disse ontem a Zósimov que Porfíri andava investigando quais eram os clientes da velha! - disse Razumíkhin intencionalmente.

Aquilo já era insuportável. Raskólhnikov não pôde conter-se e assestou sobre ele os olhos, fulgurantes de cólera. Mas em seguida dominou-se. - Meu caro, pelo visto, tu queres troçar de mim - disse, encarando-o numa excitação habilmente fingida. - Concordo que talvez eu tenha demonstrado excessiva inquietação por causa dessas velharias; mas, por causa disso, ninguém me pode acusar, nem de egoísta nem de cobiçoso, pois essas insignificâncias podem muito bem não sê-lo a meus olhos. Disse-te há pouco que esse relógio de prata, que não vale mais do que um groch, é a única coisa que me resta de meu pai. Podes rir-te de mim; mas veio da minha mãe - e encarou, de repente, Porfíri -, e, se ela soubesse - apressou-se a dirigir-se a Razumíkhin, esforçando-se sobretudo por fazer com que lhe tremesse a voz - que eu me tinha desfeito desse relógio, garanto-te que teria um desgosto enorme. Mulheres!

- Mas não é nada disso, não foi essa a minha intenção, muito pelo contrário! - gritou com amargura Razumíkhin.

"Teria eu dito isso com naturalidade? Não terei exagerado?", disse Raskólhnikov para si mesmo. "Por que disse eu isso de “mulheres?"

- De maneira que a sua mãe veio visitá-lo? - perguntou Porfíri Pietróvitch, por qualquer motivo.

- Veio.

- E desde quando aqui se encontra? - Desde ontem.

Porfíri ficou calado, como se refletisse.

- Os seus objetos não se encontram nesse caso e não podem ser vendidos - continuou a dizer, tranqüila e friamente. - Havia já muito tempo que eu esperava vê-lo aqui.

E, como se não tivesse dito nada, aproximou com cuidado o cinzeiro de Razumíkhin, que deixava cair sem cuidado algum a cinza do cigarro sobre o tapete. Raskólhnikov estremeceu; mas Porfíri parecia nem sequer olhar para ele, de tão preocupado com o cigarro de Razumíkhin.

- O quê? Já o esperavas? Mas, por acaso, sabias tu que ele tinha ali objetos empenhados? - exclamou Razumíkhin.

Porfíri Pietróvitch encarou diretamente Raskólhnikov.

- Os dois objetos que lhe pertencem, o anel e o relógio, tinha-os ela embrulhados num papelinho, e nesse papelinho estava escrito o seu nome, muito claro, a lápis, bem como o dia do mês em que os empenhara...

- É curioso como o senhor repara em tudo! - disse Raskólhnikov, sorrindo desajeitadamente e lutando, sobretudo, por olhá-lo diretamente nos olhos; mas não pôde conter-se e em seguida acrescentou: - Há um momento eu imaginava que os clientes deviam ser muitos, com certeza... e que lhe devia ser muito difícil recordar-se de todos... O senhor, em compensação, tinha-os a todos afetuosamente no pensamento e... e... - interrompeu-se. "Estúpido! Fraco! Por que terei eu acrescentado isto?", pensou.

- Conhecemos já quase todos os clientes, de maneira que o senhor é o único que ainda não apresentou a sua reclamação - respondeu Porfíri com uns assomos, quase imperceptíveis, de zombaria.

- Eu não estava bem de saúde.

- Sim, ouvi falar nisso. Disseram-me também que o senhor estava muito excitado não sei por que motivo. Neste momento parece-me que também está um pouco pálido.

- Nada disso, pelo contrário, estou completamente restabelecido - disse Raskólhnikov, grosseira e hostilmente, mudando subitamente de tom. Fervia em cólera e não podia conter-se. "Vou denunciar-me com esta cólera!", tornou a pensar. "Mas por que me martirizam?"

- Completamente bom não está - contradisse Razumíkhin.

- Ainda ontem estava quase sem conhecimento, delirando... Mas queres acreditar, Porfíri... assim que pôde ter-se de pé, e assim que nós saímos dali, eu e Zósimov, ontem, vestiu-se, escapou-se e foi não sei onde, e por lá andou quase até de madrugada, e isso no mais completo estado de delírio, garanto-te. Portanto já podes imaginar. É um caso interessante! - Disseste no "mais completo estado de delírio?" Faze o favor de falar - e Porfíri moveu a cabeça num gesto um pouco feminino.

- Oh, é um disparate! Não acredite nele! Se bem que não é preciso ser eu a dizer-lhe que não acredite - e Raskólhnikov deixou transparecer já uma ira excessiva. Mas Porfíri procedeu como se não tivesse ouvido essas estranhas palavras.

- Mas como é que tu podias sair de casa se não estivesses delirando? - insistiu Razumíkhin. - Por que saíste? Para quê? E, sobretudo, por que saíste às escondidas? Ora vejamos: estarias tu em teu perfeito juízo? Agora que o perigo já passou, posso falar-te francamente.

- É que ontem todos me aborreceram - disse Raskólhnikov dirigindo-se a Porfíri com um sorrisinho indolente de censura, e eu saí de casa com a intenção de procurar outro quarto onde não pudessem dar comigo e levei a mão cheia de dinheiro. Ali está o senhor Zamiótov, que viu o dinheiro. Ora vamos lá a ver, senhor Zamiótov: eu, ontem, estava em meu perfeito juízo ou estava delirando? Vamos, decida o senhor sobre esta questão!

Dir-se-ia que, nesse momento, de boa vontade teria estrangulado Zamiótov. O seu olhar e o seu silêncio desagradaram-lhe completamente. - Em meu entender, o senhor falava muito sensatamente e até com malícia, simplesmente estava muito excitado - opinou secamente Zamiótov. - Mas hoje Nikodim Fomitch informou-me - interveio Porfíri Pietróvitch - que, ontem, já bastante tarde, o encontrou em casa de certo funcionário, atropelado por um carro.

- Isso mesmo, a propósito desse funcionário - interpôs Razumíkhin. - Só isso bastaria! Não te portaste aí como um tolo? Deste à viúva tudo quanto tinhas contigo para o enterro. Porque, está bem, se querias socorrê-la... podias ter-lhe dado quinze rublos, vinte rublos, mas ficando ao menos com três para ti; mas tu, zás, entregaste-lhe nada mais nada menos do que vinte e cinco rublos.

- Mas tu não sabes que é possível que eu tenha encontrado um tesouro? Foi por isso que, ontem, me mostrei tão liberal... Olha, o senhor Zamiótov sabe que eu encontrei um tesouro... Mas desculpe - disse, encarando de lábios trêmulos com Porfíri -, há já meia hora que estamos entretidos com tolices. Estamos a aborrecê-lo, não é verdade?

- Nada disso, pelo contrário. Se soubesse como me interessa! É curioso vê-lo e ouvi-lo... e, confesso-lhe, congratulo-me muito porque se tenha resolvido, finalmente, a reclamar...

- Mas dá-nos ao menos um pouco de chá! Já temos a garganta seca! - exclamou Razumíkhin.

- Ótima idéia! Fazemos-te todos companhia. Mas não quererás também qualquer coisa de mais substancial antes do chá?

- Claro que sim.

Porfíri Pietróvitch afastou-se para pedir o chá.

As idéias entrechocavam-se num redemoinho, no cérebro de Raskólhnikov. Estava terrivelmente excitado.

"O mais importante é que não procurem esconder-se e não andem por portas travessas. E a propósito de que, se não me conhecias, falaste de mim com Nikodim Fomitch? Pelo visto nem sequer pretendem ocultar que me seguiam a pista, como sabujos. Com que franqueza me cospem na cara!", e tremia de raiva. "Pois bem: batam de uma vez e não andem a brincar como o gato com o rato. Isso não é delicado. Porfíri Pietróvitch, olha que pode acontecer que eu não consinta! Levantar-me-ei e direi toda a verdade, na tua cara, a verdade toda, e verão como os desprezo a todos", respirava precipitadamente. "Mas se isto tudo fosse uma ilusão minha, se tudo isso fosse uma simples miragem, e eu estivesse enganado, e me enfurecesse pela minha inexperiência, e não soubesse sequer desempenhar o meu ignóbil papel? Pode ser que tudo isto não seja intencional! Todas as suas palavras são vulgares, mas encerram qualquer coisa... Tudo isso pode dizer-se sempre; mas, no entanto, há qualquer coisa. Por que disse diretamente “ela'? Por que é que Zamiótov acrescentou que eu falara “com malícia'? Por que falam nesse tom? Aí é que está, no tom... Ora vejamos, Razumíkhin: por que não acha ele chocante nada disto? A esse simplório não há nada que o choque! Outra vez a febre! Foi realidade ou não o piscar de olhos que há pouco me fez Porfíri? Mas seria verdadeiramente absurdo que ele me piscasse os olhos. Serão os nervos ou querem eles irritar-me, exasperar-me? Será tudo isto uma miragem ou realmente sabem? Até Zamiótov se mostra insolente... Mostra-se insolente, Zamiótov? Zamiótov passou a noite numa apreensão. Eu nem calculava que havia de ser assim! Ele está aqui como em sua casa, e eu é a primeira vez que venho. Porfíri não o considera uma visita: senta-se voltando-lhe as costas. Entendem-se os dois! É infalível que se entendam a meu respeito! Deviam estar falando de mim quando nós chegamos. Devem saber do caso do andar. Ah, quanto eu daria por sabê-lo agora mesmo! Quando eu disse que saíra de casa com a intenção de procurar quarto, eles não disseram nada... Foi uma bela idéia eu ter falado no quarto, pode vir a ser-me útil. A delirar, com mil diabos! Ah, ah, ah! Esse tipo está informado de tudo quanto se passou ontem à noite. Da chegada da minha mãe não sabia... Com que então aquela bruxa tinha apontado a data a lápis! Mentira... essa eu não engulo não! Nada disso também é realidade, uma pura ilusão. Não, vocês tomam tudo isso como fatos. Mas isso do quarto não é um fato: é delírio. Eu sei o que hei de dizer-lhes. Saberão alguma coisa a respeito do quarto? Não sairei daqui sem averiguá-lo. Mas por que vim eu? Vejamos: o eu estar agora aborrecido será um fato também? Oh, e como estou excitado! Embora possa suceder que não me fique mal: faço o papel de doente... Vão espicaçar-me. Far-me-ão perder a cabeça. Por que viria eu?"

Tudo isso passou num relâmpago pela sua mente.

Porfíri Pietróvitch voltou passado um segundo. De repente pareceu ficar alvoroçado.

- Olha, meu amigo, desde a tua festa de ontem que tenho a cabeça... Ainda me sinto tonto - começou num tom completamente diferente, dirigindo-se a Razumíkhin.

- O quê? A reunião esteve boa? Por acaso tive que deixar-vos no ponto mais interessante... Quem é que levou a melhor?

- Ninguém, naturalmente. Agitavam as eternas questões, exaltavam-se. - Imagina, Rodka, o que chegaram a discutir: se o crime existe ou não. Fartaram-se de disparatar.

- Que tem isso de extraordinário? É uma questão social vulgar - respondeu Raskólhnikov com ar distraído.

- Não foi assim que eles puseram a questão - observou Porfíri. - É verdade - concordou logo Razumíkhin, atrapalhando-se e exaltando-se, conforme o seu costume. - Olha, Rodka, primeiro escuta, e depois dá a tua opinião. Gostava que o fizesses. Eu, ontem, estava numa ansiedade, à tua espera, tinha-lhes prometido que tu irias... A coisa começou pelo ponto de vista dos socialistas. Já se sabe qual é: o crime é um protesto contra a anormalidade do regime social... isso é só isso, e é escusado procurar-lhe outras causas... Acabou-se!

- Mentira! - exclamou Porfíri Pietróvitch. Era notório que se entusiasmava, e sorria a cada instante, olhando para Razumíkhin.

- Qual mentira! Hei de mostrar-te livros; segundo eles, todos os crimes se devem ao ambiente deletério, e nada mais. Magnífica frase! De onde se deduz, diretamente, que, se a sociedade estivesse normalmente constituída, então acabariam imediatamente todos os crimes, visto que já não haveria contra que protestar e todos passariam instantaneamente a ser inocentes. Quanto à natureza, não a tomam em consideração, puseram-na no olho da rua, não toleram a natureza. Para eles não é a natureza que, desenvolvendo-se de um modo histórico, vivo, até o fim, acabará por transformar-se ela própria numa sociedade normal, mas, pelo contrário, será o sistema social que, brotando de alguma cabeça matemática, procederá em seguida a estruturar toda a humanidade e, num abrir e fechar de olhos, a tornará justa e inocente, mais depressa do que qualquer processo vivo, sem seguir nenhum caminho histórico e natural. Por isso eles sentem instintivamente aversão pela história: nela só se encontra monstruosidade e estupidez; deitam todas as culpas para cima da estupidez. E por isso também não amam o processo "vital" da vida; não querem nada com a "alma viva". A alma viva da vida tem exigências; a alma viva não obedece mecanicamente; a alma viva é suspicaz; a alma viva é retrógrada. E, embora cheire a mortos, eles podem construir com a alma de borracha... que não será viva, nem terá vontade, será uma escrava e não se revoltará... E chegam ao resultado de idealizar um simples amontoado de tijolos, sim, a distribuição de corredores e quartos do falanstério. O falanstério está pronto; mas a vossa natureza ainda não o está para o falanstério; anseia pela vida, o processo vital ainda não terminou, ainda é cedo para a cova. É impossível saltar com a lógica apenas por cima da natureza. A lógica pressupõe três casos, ao passo que há milhões deles. Pois façam tábua rasa desses milhões e reduzam tudo ao simples problema do conforto! Essa é a solução mais fácil do enigma. Duma clareza sedutora, e evita o incômodo de pensar. Porque o essencial é isso: não ter que pensar. Todos os mistérios da vida podem compendiar-se em duas folhas de papel impresso.

- Ei-lo no seu elemento! É preciso ter mão dele! - gracejou Porfíri. - Imagine seis pessoas metidas num quarto e, além disso, previamente encharcadas em álcool... Já pode fazer uma idéia! Não, meu amigo, tu mentes: o meio significa muito na criminalidade, isso afirmo-te eu.

- Eu também sei que influi muito; mas dize-me: um quarentão desonra uma menina de dez anos; foi o meio que o induziu a isso?

- Pois sim; no estrito sentido da palavra, pode dizer-se que foi o meio - observou Porfíri com uma grave firmeza -; pode explicar-se o crime, em grande parte, pela menina, e, em grande parte também, pelo meio. Razumíkhin ficou furioso.

- Bem, pois, se quiseres, eu demonstrar-te-ei - disse, entusiasmando-se - que, se tu tens as pestanas brancas, é simplesmente porque Ivan, o Grande, tinha trinta e cinco sajénhi (1) de estatura, e demonstrar-to-ei de um modo claro, exato, progressivo, e até com os seus laivos de liberalismo. Vamos? Queres apostar?

- Aposto! Venha daí essa demonstração!

- Irra, não faz outra coisa senão jogar com as palavras, que diabo! - exclamou Razumíkhin fora de si, e saltou da cadeira gesticulando. - Vale a pena falar contigo? Faz isso tudo intencionalmente, tu ainda não conheces, Rodka. Ontem pôs-se ao lado deles, só para gozá-los. E as coisas que ele disse ontem, meu Deus! E todos tão satisfeitos a ouvi-lo! E é capaz de continuar com a gracinha durante duas semanas. O ano passado quis convencer-nos a todos de que, por certos motivos, ia fazer-se frade; trouxe-nos dois meses nessa convicção! Há pouco tempo lembrou-se de vir com a patranha de que ia casar-se e que já estava tudo pronto para o casamento. Até mandou fazer um terno novo.

* (1) Plural de sajenh, medida russa de comprimento equivalente a 2,13 m. (N. do E.) *

Nós já tínhamos começado a dar-lhe os parabéns. Pois bem: era tudo mentira, nem sequer a noiva existia, era tudo chalaça.

- Mentes! O terno, mandei-o fazer antes. Foi precisamente o terno novo que me sugeriu a idéia dessa brincadeira.

- E, afinal de contas, por que é o senhor tão brincalhão? - perguntou Raskólhnikov naturalmente.

- Mas pensava que eu não o era? Deixe estar que também há de cair na minha rede... Ah, ah, ah! Não; olhe, vou dizer-lhe toda a verdade. A propósito de todas essas questões de crime, o meio, a pequena, veio-me agora à memória (aliás, sempre me interessou) um artigo seu: "Acerca do crime...", ou qualquer coisa do gênero, não me lembro bem do título. Tive a satisfação de lê-lo há dois meses na Palavra periódica.

- Um artigo meu na Palavra periódica? - perguntou Raskólhnikov assombrado. - De fato, há coisa de um ano, ao deixar a universidade, escrevi um artigo a propósito de um livro; mas levei-o à Palavra semanal e não à Periódica.

- Pois foi parar à Periódica.

- Mas se a Palavra semanal deixara de publicar-se e o meu artigo ficou inédito!

- É verdade: mas, quando deixou de publicar-se, a Palavra semanal fundiu-se com a Palavra periódica; foi por isso que o seu artigo se publicou, haverá coisa de dois meses, na Palavra periódica. Mas não estava a par? Efetivamente, Raskólhnikov não sabia de nada.

- É que podia reclamar-lhes a importância do artigo! Curioso, o seu caráter! Faz uma vida tão solitária que nem sequer vê as coisas que mais diretamente lhe dizem respeito. É um fato positivo.

- Bravo, Rodka! Eu também não sabia! - exclamou Razumíkhin. - Ainda hoje hei de passar por um gabinete de leitura para pedir um número. De há dois meses? Mas que número? Não faz mal, procurarei. Bela partida! E não dizia uma palavra!

- Mas como é que soube que o artigo era meu? Eu só assinava com as iniciais.

- Ah! Por casualidade e há apenas uns dias somente. Foi pelo diretor, é meu amigo. Interessou-me muito...

- Eu analisava, lembro-me, o estado psicológico dum criminoso no momento de cometer um crime.

- Isso mesmo; e afirmava que o ato de cometer o crime ia sempre acompanhado de um estado mórbido. Muito... muito original, mas... se bem que não foi esta a parte do seu artigo que mais me interessou, mas sim algumas idéias que expunha, no final, mas que o senhor expunha, e é pena, de uma maneira pouco clara, sob a forma de alusões... Em resumo: se se recorda, havia lá uma certa alusão ao fato de existirem no mundo alguns indivíduos que poderiam... isto é, não se trata de poderem, mas antes que teriam completo direito de cometerem toda a espécie de atos desonestos e de crimes, e para os quais a lei não existisse.

Raskólhnikov sorriu perante aquela forçada e laboriosa explicação da sua idéia.

- Como? Que vem a ser isso? O direito ao crime?! Mas não será por culpa do ambiente deletério! - perguntou Razumíkhin um pouco assustado. - Não, não; não é nada disso - respondeu-lhe Porfíri. - O quid está em que no seu artigo o senhor divide os homens em ordinários e extraordinários. Os homens vulgares deviam viver na obediência e não têm direito a infringir as leis, pelo próprio fato de serem vulgares. Mas os extraordinários têm direito a cometer toda a espécie de crimes e a infringir as leis de todas as maneiras, pelo próprio fato de serem extraordinários. Se não estou enganado, parece-me que era isso o que o senhor dizia.

- Mas que é isso? Isso não pode ser! - resmungou Razumíkhin, perplexo.

Raskólhnikov tornou a sorrir. Compreendia finalmente do que se tratava e por que queriam fazê-lo falar; lembrava-se do seu artigo. Decidiu aceitar o desafio.

- Não era precisamente isso o que eu dizia - declarou com simplicidade e em voz alta. - Se bem que, reconheço-o, o senhor expôs a minha idéia quase fielmente e, se quiser, até com absoluta fidelidade... - Parecia que lhe agradava reconhecer essa fidelidade absoluta. - A diferença está só em que eu nem de longe afirmava que os homens extraordinários estejam obrigados ou tenham infalivelmente de cometer sempre todo gênero de atos desonestos, segundo o senhor diz. Parece-me até que a censura não o teria deixado passar. Eu me limitava simplesmente a insinuar que os indivíduos extraordinários tinham direito (claro que não um direito oficial) a autorizar a sua consciência a saltar por cima de certos obstáculos, e unicamente nos casos em que a execução do seu desígnio (às vezes salvador, talvez, para a humanidade) assim o exigisse. O senhor entendeu por bem dizer-me que o meu artigo não estava claro; eu estou disposto a explicar-lho até onde puder.

"É provável que eu não me engane supondo que é esse o seu desejo. A meu ver, se as descobertas de Kepler e de Newton, em conseqüência de certas circunstâncias, não tivessem chegado ao conhecimento dos homens de outra maneira senão mediante o sacrifício da vida de um, dez, cem ou mais homens, que se opusessem a essa descoberta ou se atravessassem no seu caminho como obstáculos, Newton, então, teria tido o direito e até o dever... de eliminar esses dez ou esses cem homens, a fim de que as suas descobertas chegassem ao conhecimento de toda a humanidade. Disso não se conclui, no entanto, de maneira alguma, que Newton tivesse qualquer direito de assassinar quem muito bem lhe parecesse, à toa, nem de ir todos os dias roubar na praça pública. Lembro-me também de que eu, no meu artigo, desenvolvia a idéia de que todos... digamos, por exemplo, os legisladores e os fundadores da humanidade, começando pelos mais antigos e continuando por Licurgo, Sólon, Maomé, Napoleão etc. etc., todos, desde o primeiro até o último, tinham sido criminosos, mais não fosse senão porque, ao promulgarem leis novas, aboliam as antigas, tidas por sagradas pela sociedade e pelos antepassados, e certamente que não se teriam detido perante o sangue, sempre que isso (derramado às vezes com toda a inocência e virtude, em defesa das velhas leis) pudesse ser-lhes útil. Também é significativo que a maior parte desses benfeitores e fundadores da humanidade fossem uns sanguinários, especialmente ferozes. Em resumo: eu concluía daqui que todos os indivíduos, não só os grandes, como também aqueles que se afastassem um pouco da vulgaridade, isto é, também aqueles que são capazes de dizer qualquer coisa de novo, teriam a obrigação, pela sua própria natureza, de serem infalivelmente criminosos... em maior ou menor grau, naturalmente. De outro modo, ser-lhes-ia difícil saírem da vulgaridade, e eles não podem conformar-se a ficar nela, até pela mesma razão da sua natureza e, a meu ver, têm até a obrigação de não se conformarem. Em resumo: como o senhor vê, até aqui, isto não tem nada de particularmente novo. Isto já se imprimiu e foi lido milhares de vezes. Pelo que diz respeito à minha distinção entre homens vulgares e extraordinários, concordo em que é um tanto arbitrária; mas eu não citava números exatos. Eu só tenho fé na minha idéia essencial, que é aquela que consiste em dizer concretamente que os indivíduos se dividem, segundo a lei da natureza, em duas categorias: a inferior (a dos vulgares), isto é, se me permite a expressão, a material, que unicamente é proveitosa para a procriação da espécie, e a dos indivíduos que possuem o dom ou a inteligência para dizerem no seu meio uma palavra nova. É claro que as subdivisões são infinitas, mas os traços diferenciais de ambas as categorias são bem nítidos: a primeira categoria, ou seja, a matéria, falando em termos gerais, é formada por indivíduos conservadores por natureza, disciplinados, que vivem na obediência e gostam de viver nela. A meu ver têm a obrigação de ser obedientes, por ser esse o seu destino e não ter, de maneira nenhuma, para eles, nada de humilhante. A segunda categoria é composta por aqueles que infringem as leis, os destrutores e os propensos a sê-lo, a julgar pelas suas faculdades. Os crimes destes são, naturalmente, relativos e muito diferentes; na sua maior parte exigem, segundo os mais diversos métodos, a destruição do presente em nome de qualquer coisa de melhor. Mas se necessitarem, para bem da sua idéia, de saltar ainda que seja por cima de um cadáver, por cima do sangue, então eles, no seu íntimo, na sua consciência, podem, em minha opinião, conceder a si próprios a autorização para saltarem por cima do sangue, atendendo unicamente à idéia e ao seu conteúdo, repare bem. É só neste sentido que eu falo no meu artigo do seu direito ao crime. (Lembre-se, o senhor, que partimos de uma questão jurídica.) Embora, no fim de contas, não haja razão nenhuma para se ficar demasiado assustado;

quase nunca a massa lhes reconhece esse direito, e até os castiga e os manda enforcar (mais ou menos); e assim, com absoluta justiça, cumpre o seu destino conservador, o que não é obstáculo para que, nas gerações seguintes, essa mesma massa erga os castigos sobre pedestais e se incline diante deles (mais ou menos). A primeira categoria é sempre a verdadeira dominadora: a segunda é... a futura dominadora. Os primeiros conservam o mundo e multiplicam-no matematicamente; os segundos movem-no e conduzem-no para a sua finalidade. Tanto uns como outros têm perfeito direito de existir. Em resumo: para mim, todos têm o mesmo direito, e... vive la guerre éternelle!... até a nova Jerusalém, naturalmente..."

- Mas, o senhor, apesar de tudo, crê na nova Jerusalém?

- Creio - acrescentou firmemente Raskólhnikov; quando disse isto, e durante toda a sua parlenda, teve os olhos fixos no chão, depois de ter escolhido um ponto do tapete.

- E... e... e... acredita em Deus? Desculpe a curiosidade.

- Acredito - respondeu Raskólhnikov, erguendo os olhos para Porfíri. - E... e na ressurreição de Lázaro, acredita?

- Creio. Mas a que propósito vem tudo isso? - Literalmente: acredita?

- Literalmente.

- Então... era só por curiosidade. Desculpe. Mas dê-me licença, e, voltando ao assunto: nem sempre esses homens extraordinários são castigados; alguns, pelo contrário...

- São festejados em vida? Sim, é verdade: alguns chegam a triunfar na vida, e então...

- Começam eles também a atormentar os outros?

- Se lhes for necessário, sim; e repare: é isso o que acontece na maior parte das vezes. A sua observação foi muito aguda.

- Muito obrigado. Mas diga-me uma coisa: em que se diferenciam esses homens extraordinários dos vulgares? Pelo nascimento ou por qualquer sinal especial? Parece-me que seria necessário mais exatidão, por assim dizer, mais distinção no exterior: desculpe em mim a natural inquietação dum homem prático e bem intencionado, mas não seria possível, por exemplo, que usassem um traje especial, algum distintivo, alguma insígnia, qualquer coisa, enfim, que os desse a conhecer? Porque há de concordar, no caso de se dar um engano e algum indivíduo julgar-se pertencente a qualquer dessas categorias, pertencendo afinal à outra, e de se pôr a eliminar toda a espécie de obstáculos, como o senhor disse, numa expressão muito feliz, que sucederia então?

- Oh, isso acontece com muita freqüência! A observação que acaba de formular ainda é mais aguda do que a anterior...

- Obrigado...

- Não tem de quê; mas não se esqueça de que esse engano só é possível em indivíduos da primeira categoria, isto é, nos indivíduos vulgares (segundo, talvez muito impropriamente, eu os designo). Apesar da sua propensão inata para a obediência, por alguma travessura da natureza, do que nem uma vaca está livre, muitos deles imaginam-se seres avançados, destrutores, e correm atrás da palavra nova, e isso com absoluta sinceridade. Na realidade, e com muita freqüência, não sabem distinguir os novos e até os olham com desdém, como a pessoas atrasadas e que pensam baixamente. Mas, a meu ver, isso não é motivo sério para inquietação, e o senhor, verdadeiramente, não deve sentir o menor desassossego, pois esses indivíduos nunca vão longe. Sem dúvida que poderiam ser castigados uma vez, pela sua presunção, a fim de recordar-lhes qual é o seu lugar; mas, para isso, nem sequer é preciso incomodar o verdugo: são eles mesmos que se flagelam, porque possuem uma elevada moralidade; alguns prestam-se mutuamente esse serviço e outros açoitam-se por suas próprias mãos... além disso, impõem-se diversas penitências públicas... o que é belo e edificante, e em suma, o senhor não deve sentir a menor inquietação... É essa a regra.

- Muito bem; pelo menos, a este respeito, tranqüiliza-me um pouco; mas veja outra coisa: pode dizer-me se são muitas essas pessoas que têm direito a assassinar os seus semelhantes, se são muitos esses homens "extraordinários"? Eu estou, desde já, disposto a inclinar-me perante eles; mas há de concordar comigo em que causa um certo arrepio pensar que podem ser muito numerosos!

- Oh, não se assuste também por causa disso! - continuou Raskólhnikov no mesmo tom. - De maneira geral, indivíduos com idéias novas, inclusivamente de algum modo capazes de dizerem algo de novo, nascem pouquíssimos, são de uma escassez verdadeiramente estranha. A única coisa certa é que a ordem de geração dos indivíduos de todas essas categorias e divisões deve estar fixamente marcada e definida por qualquer lei natural. Esta lei, claro, até agora nos é desconhecida; mas eu creio que existe e que, portanto, poderemos chegar a conhecê-la. A enorme massa de indivíduos, a material, vem ao mundo apenas para, finalmente, por meio de algum esforço, em virtude de algum processo até agora ignorado e mercê de algum cruzamento de raças e de espécies, engendrar e trazer ao mundo, ainda que seja só na proporção de um por mil, um homem verdadeiramente independente. E, com uma independência superior, talvez só nasça neste mundo um indivíduo por cada dez mil (isto, por alto, naturalmente). E, com uma independência ainda maior, só um por cada cem mil. Homens geniais surgem um entre milhões, e os grandes gênios, os fundadores da humanidade, talvez ao longo de muitos milhões de milhões de seres sobre a Terra. Em resumo: eu não pude ver a retorta em que tudo isto se prepara. Mas não há dúvida de que deve haver uma determinada lei; isso não pode ser obra do acaso.

- Mas estão os dois de brincadeira, ou quê? - exclamou, finalmente, Razumíkhin. - Estão os dois troçando mutuamente, fingindo elogiarem-se? Sentaram-se aí para troçar um do outro? Falas a sério, Rodka?

Em silêncio, Raskólhnikov ergueu para ele o seu pálido rosto, quase lúgubre, e não respondeu nada. E pareceu estranho a Razumíkhin aquela cara tranqüila e triste e, ao mesmo tempo, a cara franca, provocante, irritada e severa de Porfíri.

- Bem, meu amigo; se isso é a sério, então... Não há dúvida nenhuma que tu tens razão quando dizes que nada disso é novo e que é parecido com aquilo que temos já mil vezes lido e escutado; mas o que, de fato, é original em tudo isso... e, positivamente, te pertence a ti, com horror da minha parte o vejo, é tu chegares a dizer que se pode "em consciência" derramar sangue, "conscientemente", e desculpa-me, mas até com certo fanatismo... É possível que a idéia principal do teu artigo se resuma a isto. Mas essa autorização para derramar sangue conscientemente, isso, a meu ver, é mais feroz do que a decisão oficial e legal de verter sangue...

- Perfeitamente... é mais feroz... - concordou Porfíri.

- Não, tu, nisto, vais demasiado longe! Isso é um erro. Hei de ler-te... tu exageras! Não é possível que tu penses assim... Hei de ler...

- No artigo não há nada disso, apenas há insinuações - declarou Raskólhnikov.

- De fato, assim é, assim é - concordou Porfíri -, agora já percebo como é que o senhor deve considerar o crime, mas... desculpe a minha insistência... (estou a incomodá-lo muito e já tenho remorsos!) mas veja uma coisa: há pouco tranqüilizou-me a respeito dos casos errôneos de confusão entre as duas categorias, mas agora tornam a inquietar-me alguns casos concretos. E se um dia, a um homem já feito e refeito, ou a um rapaz, lhes desse para se julgarem um Licurgo ou um Maomé... futuro; naturalmente, e começassem a eliminar todos os obstáculos que se lhes atravessassem? "Que diabo, tenho de fazer uma grande viagem e, para uma viagem destas, é preciso dinheiro..." Bom, e começasse a fornecer-se para a viagem... Compreende?

De súbito, Zamiótov espirrou, no seu canto. Raskólhnikov nem sequer ergueu os olhos para ele.

- Não tenho outro remédio senão concordar que, de fato - respondeu muito tranqüilo -, se hão de dar casos desses. Especialmente os imbecis e os vaidosos costumam incorrer nesses erros, sobretudo os jovens...

- Ora, já vê! E então?

- Mas, ainda que seja assim - disse Raskólhnikov sorrindo -, a culpa não é minha. É assim e sempre há de ser assim. Aí está aquele - e apontou Razumíkhin -, que acaba de dizer que eu autorizo a efusão de sangue. E então? Para isso está a sociedade de bem defendida mediante as deportações, as prisões, os juízes, os presídios... Para que hão de afligir-se? É correrem atrás do ladrão!

- Bem; e se o apanhamos? - É porque o merece!

- Ao menos, o senhor é lógico. Mas e quanto à sua consciência? - Que lhe interessa isso?

- Sim, interessa-me por humanidade.

- Quem a tem sofre ao reconhecer o seu erro. É essa a sua expiação... sem contar com o presídio.

- Seja, quanto aos verdadeiramente geniais - exclamou Razumíkhin franzindo o sobrolho. - Mas aqueles aos quais se concede o direito de assassinar não deverão sofrer, de maneira nenhuma, inclusivamente por causa do sangue derramado?

- A que propósito vem isso de "deverão"? Neste campo não há permissão nem proibição. Sofrerão, se sentirem piedade pela vítima... O sofrimento e a dor são inerentes a uma ampla consciência e a um coração profundo. Em minha opinião, os homens verdadeiramente grandes devem padecer neste mundo uma grande dor - acrescentou, de repente, pensativo, quase num tom diferente do diálogo.

Ergueu os olhos, olhou para todos com ar meditabundo, sorriu e pegou no seu gorro. Sentia-se muito tranqüilo, em comparação com o que estava há pouco, quando entrou, e não o escondia. Todos se levantaram.

- Bem, quer me censure ou não, se aborreça ou não comigo, o certo é que eu não posso conter-me - declarou novamente Porfíri Pietróvitch. - Dê-me licença que lhe faça ainda uma pergunta (já o incomodei tanto!), uma única pequena pergunta, só para não esquecer...

- Bom, diga-me do que se trata - e Raskólhnikov, sério e pálido, parou diante dele, na expectativa.

- Pois fique sabendo... Na verdade não sei como hei de exprimir-me menos desajeitadamente... Trata-se de uma idéia demasiado chistosa... psicológica... Pronto, vou dizer-lhe: quando o senhor escreveu esse artigo... com certeza que... he... he... he... se considerava a si mesmo... ainda que fosse só um pouquinho... um desses seres extraordinários e que dizem uma palavra nova... Quero dizer, no sentido que o senhor dá a esta frase... Não é verdade?

- É muito provável que assim fosse - respondeu depreciativamente Raskólhnikov.

Razumíkhin fez um gesto.

- Sendo assim, então, é porque o senhor também se julga com direito... no caso de contratempo e dificuldades na vida ou para acelerar o progresso da humanidade... a saltar por cima de todos os obstáculos... como, por exemplo, a matar e a roubar?

E, de repente, tornou a piscar-lhe o olho esquerdo e a rir-se de uma maneira imperceptível, exatamente como há um momento.

- Se eu saltasse por cima dos obstáculos, com certeza que não lho diria - respondeu Raskólhnikov com desdém, provocante e altivo.

- É claro que não... Eu apenas lho perguntei com o objetivo de compreender melhor o seu artigo, num sentido pura e exclusivamente literário... "Oh, que palpável e claro é tudo isto!", pensou Raskólhnikov com repugnância.

- Dê-me licença de esclarecer - replicou secamente - que eu não me tenho por nenhum Maomé nem Napoleão... nem por nenhuma dessas personagens, e por isso não podia, não sendo nenhuma delas, dar-lhe uma explicação satisfatória da maneira como me conduziria...

- Ora! Quem é que agora, entre nós, aqui, na Rússia, não se tem por um Napoleão? - disse Porfíri com uma terrível familiaridade; até na entonação da sua voz havia, dessa vez, qualquer coisa de especialmente claro.

- Não terá sido algum futuro Napoleão que, na semana passada, matou a nossa Alíona Ivânovna a machadada? - lançou, inesperadamente, Zamiótov, do seu canto.

Raskólhnikov ficou calado e fixou um olhar atento, firme, em Porfíri. Razumíkhin franziu lugubremente as sobrancelhas. Havia já um momento que começava a suspeitar de qualquer coisa. Olhou, amuado, à sua volta. Decorreu um minuto de desconfiado silêncio. Raskólhnikov deu meiavolta para retirar-se.

- Já se vai embora? - perguntou afetuosamente Porfíri, estendendo-lhe a mão com extraordinária amabilidade. - Estou muito contente, muito contente, por tê-lo conhecido. E, quanto ao seu pedido, não se preocupe. Mas escreva da maneira que lhe indiquei. E o melhor será vir pessoalmente entregar-me a petição... um dia destes... pode ser amanhã mesmo. Eu estarei aqui, sem falta, aí pelas onze. E trataremos de tudo... O senhor, como um dos que ultimamente estiveram lá, talvez pudesse dizer-nos qualquer coisa... - acrescentou com um ar muito bonacheirão.

- Deseja interrogar-me oficialmente, com todas as formalidades de praxe? - perguntou-lhe Raskólhnikov com rudeza.

- Para quê? Até agora não tem sido preciso. O senhor não compreendeu bem. Eu, olhe, não quero perder a ocasião e... e já falei com todos os clientes... de alguns dos quais obtive indicações... e o senhor, como é o último... Olhe a propósito! - exclamou, subitamente alvoroçado por qualquer coisa. - A propósito: agora me lembro de uma coisa; veja como eu sou! - disse, voltando-se para Razumíkhin. - Tu, ontem, atroaste-me os ouvidos por causa desse Nikolachka... Bem, pois eu também sei, estou informado - disse, encarando Raskólhnikov - que o pobre rapaz está inocente, mas que se há de fazer? Também foi preciso meter um susto a Mitka... Tudo se reduz a isto: quando subia a escada naquele momento... deixe-me fazer-lhe uma pergunta: esteve ali às oito?

- Às oito - respondeu Raskólhnikov sentindo desagradavelmente nesse mesmo instante que podia não ter dito isso.

- E, quando subiu a escada, às oito, não viu no segundo andar, naquele que está aberto, lembra-se? uns operários ou, ao menos, um deles? Estavam pintando, não reparou? Isto é muito importante para eles, importantíssimo!

- Pintor de paredes? Não, não vi nenhum... - respondeu Raskólhnikov lentamente, e como se fizesse esforço para se lembrar, enquanto todo o seu ser ficava numa tensão e palpitava na ânsia de descobrir o mais depressa possível a que é que se resumia a armadilha e não cair nela. - Não, não os vi, nem também reparei que houvesse algum andar aberto... mas olhe, no quarto andar - já tinha percebido qual era a armadilha e rejubilava com o seu triunfo -, lembro-me bem de que um funcionário saiu do quarto... fronteiro ao de Alíona Ivânovna... estou a lembrar-me... estou a lembrar-me muito bem: uns soldados transportavam um divã e obrigaram-me a encostar-me à parede; mas, pintores, não me lembro de ter visto nenhuns... não; nem também havia aí qualquer andar aberto, que eu me lembre. Não; não havia...

- Mas que dizes tu? - exclamou de repente Razumíkhin, como se puxasse pela memória e reconsiderasse. - Se os pintores estiveram trabalhando lá no dia do crime e ele estivera três dias antes! Por que lhe perguntas isso?

- Ah! Fiz confusão! - disse Porfíri dando uma palmada na testa. - Raios me partam, ainda hei de acabar louco por causa deste processo! - exclamou, dirigindo-se a Raskólhnikov com ar de desculpa. - É que, repare, seria tão importante para mim comprovar se alguém os viu às oito no andar, que me lembrei de pensar se o senhor não poderia dizer-me qualquer coisa a esse respeito... mas que grande confusão!

- É preciso ter mais atenção! - observou Razumíkhin, mal-humorado. As últimas palavras foram já ditas no vestíbulo. Porfíri Pietróvitch acompanhou-os a ambos mesmo até a porta, com muita amabilidade. Saíram os dois, amuados e desgostosos, e durante algum tempo não disseram uma palavra. Raskólhnikov lançou um profundo suspiro...