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Quanto a Raskólhnikov, encaminhou-se diretamente para a casa, junto do canal, onde morava Sônia Siemiônovna. Era um prédio de três andares, velho, pintado de verde. Perguntou ao porteiro e este deu-lhe umas vagas indicações sobre a morada de Kapernaúmov, o alfaiate. Depois de procurar num canto do pátio a passagem para a escada escura e estreita, subiu finalmente até o segundo andar e foi dar a uma galeria que a rodeava pelo lado do pátio. Enquanto procurava no escuro, cheio de hesitação, onde é que poderia ser a entrada do andar de Kapernaúmov, de súbito, a três passos de distância dele abriu-se uma porta onde ele assomou, maquinalmente.

- Quem é? - perguntou, inquieta, uma voz de mulher.

- Sou eu... que vinha visitá-la - respondeu Raskólhnikov, e entrou pelo estreito corredor. Aí, sobre uma mesa descambada e num candeeiro amolgado, ardia uma vela.

- Mas é o senhor? - exclamou Sônia com voz fraca, e ficou petrificada. - Por onde é que se entra? Por aqui?

E Raskólhnikov, esforçando-se por não olhar para ela, entrou para o quarto. Um minuto depois Sônia entrava também com uma luz; pousou-a e ficou parada na frente dele, estupefata, tomada de uma indescritível comoção e visivelmente assustada com aquela inesperada visita. De súbito o sangue subiu-lhe ao rosto pálido e aos seus olhos chegaram até lágrimas... Sentiu uma sufocação, uma vergonha e uma doçura... Raskólhnikov afastou-se bruscamente e sentou-se numa cadeira, junto da mesa. Num momento abrangera com um olhar todo o quarto.

Era um quarto espaçoso, mas com um teto baixíssimo, o único que os Kapernaúmovi tinham alugado, e cuja porta, fechada, ficava na parede do lado esquerdo. À frente, na parede da direita, havia outra porta, sempre hermeticamente fechada. Havia ali também outro quarto, contíguo, que tinha outro número. O quarto de Sônia parecia, de certa maneira, um alpendre; tinha a forma dum triângulo irregular, o que o tornava muito feio. A parede, com três janelas que davam para o canal, cortava o quarto a viés, e por isso um dos ângulos, terrivelmente agudo, sumia-se lá no fundo, de tal maneira que, quando havia pouca luz, não se lhe via bem o fim; o outro ângulo, em compensação, era excessivamente obtuso. Em todo esse quarto espaçoso, quase não havia móveis. Num canto, à direita, via-se uma cama; junto dela, próximo da porta, uma cadeira. Na mesma parede, junto da qual estava a cama, pegada à porta que dava para o outro quarto, havia uma simples mesa de pinho branca, coberta com um pano azul; junto da mesa, duas cadeiras de palha. Depois, na parede oposta, perto do ângulo agudo, havia uma simples cômoda de pinho, como se estivesse abandonada num deserto. Eis aqui tudo quanto havia no quarto. O papel que forrava as paredes, amarelecido, defumado e gasto, estava escuro em todos os cantos; com certeza que devia haver ali umidade e fuligem no inverno. A miséria era evidente; a cama nem sequer tinha cortinados.

Sônia contemplava em silêncio o visitante, o qual passava revista ao seu quarto, atenta e despreocupadamente, e, por último, até tinha começado a tremer de medo, como se se encontrasse diante de um juiz que fosse decidir a sua sorte.

- Cheguei tarde... Já são onze horas? - perguntou ele sem levantar os olhos para ela.

- Já - balbuciou Sônia. - Já são, já! - disse atabalhoadamente, de repente, como se aquilo lhe parecesse uma escapatória.

- Acabaram de dar agora mesmo no relógio do senhorio... Eu ouvi... Já deram.

- Venho vê-la pela última vez - continuou Raskólhnikov, severo, apesar de ser aquela a primeira. - É possível que não torne mais a vê-la... - Vai-se... embora?

- Não sei... amanhã...

- Então, amanhã, não vai visitar Ekatierina Ivânovna? - e a voz de Sônia tremia.

- Não sei. Tudo depende de amanhã... Mas não se trata disso; eu vim para dizer-lhe uma coisa...

Ergueu para ela o seu olhar pensativo, e de repente reparou que, enquanto ele estava sentado, ela continuava de pé, diante dele.

- Mas por que está de pé? Sente-se - disse ele com uma voz que, de repente, se tornara suave e afetuosa.

Ela se sentou. Ele a contemplou por um momento com afabilidade e quase compassivamente.

- Está tão magra! Que mãozinhas tão transparentes! Estes dedinhos parecem os duma morta.

Pegara-lhe numa mão. Sônia sorriu debilmente. - Fui sempre assim - disse.

- Quando vivia na sua casa também? - Também.

- Está se vendo mesmo! - disse ele com rudeza, e a expressão do seu rosto e o timbre da sua voz mudaram de repente. Tornou a passar novamente a vista à sua volta.

- São os Kapernaúmovi que lhe alugam isto? - São.

- E eles vivem aí, atrás dessa porta? - Sim... o quarto deles é como este. - Vivem só num quarto?

- Só num.

- Eu teria medo num quarto destes, à noite - observou ele com ar sombrio.

- Os senhorios são muito bons, muito amáveis - respondeu Sônia como se reconsiderasse e não estivesse ainda refeita -, e todos os móveis, e tudo... é tudo dos senhorios. São muito bons, e os petizes também vêm aqui muitas vezes.

- São gagos?

- São. Ele é gago e, além disso, também é estrábico. E a mulher também... Ela não é verdadeiramente gaga, mas custa-lhe muito pronunciar as palavras. Também é muito bondosa. Ele foi servo. E tem sete filhos, todos rapazes... só o mais velhinho é que é gago, os outros estão todos doentes, mas não têm esse defeito... Mas como é que os conhece? - acrescentou, um pouco admirada.

- Foi o seu pai que me contou tudo... também me falou de você... E contou-me que saíra uma tarde às seis e voltara a casa às nove, e que Ekatierina Ivânovna se lançou de joelhos aos pés da sua cama.

Ficou desorientada.

- Eu ainda hoje o vi - murmurou indecisa. - A quem?

- A meu pai. Tinha ido à rua, aí ao lado, à esquina, às dez, e pareceu-me mesmo que ele passou diante de mim. Era tal qual ele. Eu até já queria ir à casa de Ekatierina Ivânovna...

- Fora dar um passeio?

- Sim - balbuciou Sônia rapidamente, tornando a ficar perturbada e baixando a cabeça.

- Ora diga-me: Ekatierina Ivânovna não lhe batia, em casa de seu pai? - Ah, não! Que diz o senhor? Como é que pode pensar isso? Não! - e Sônia olhou para ele com uma certa inquietação.

- Gosta muito dela?

- Dela? Sim, muito - exclamou Sônia condoída, e, num impulso de piedade, juntou de repente as mãos. - Ah! Se o senhor, se o senhor a conhecesse... Olhe, é absolutamente como uma criança... Parece que não está completamente boa da cabeça... faz pena. E era tão inteligente! Tão generosa! Tão boa. O senhor não a conhece, o senhor não a conhece, não a conhece de maneira nenhuma... Ah!

Sônia disse isso em tom desesperado, comovida e apiedada, juntando as mãos. As suas faces pálidas coraram, os olhos exprimiram sofrimento: era evidente que estava terrivelmente comovida, que sentia uma grande vontade de exprimir, de dizer qualquer coisa, de se pôr em defesa da madrasta. Uma compaixão insaciável, se é lícito exprimirmo-nos assim, transpareceu subitamente em todas as suas feições.

- Que me batia... Mas que disse o senhor? Que me batia! E então, se me batesse? O senhor não sabe nada, não sabe nada... É tão infeliz, ah, tão infeliz! E doente... Procura sempre em tudo a justiça. É pura. Pensa que a justiça deve reinar sempre em tudo e reclama-a... E, ainda que alguém a fira, não comete uma injustiça. Não compreende que não é possível que as pessoas sejam sempre justas, e irrita-se... É como uma criança, uma criancinha! Ela é justa, justa!

- Mas quem lhe vai valer? Sônia interrogou-o com o olhar.

- A menina é a única coisa que lhes resta. É certo que já antes era o mesmo: estavam todos a seu cargo, e até o falecido, quando se embriagava, ia pedir-lhe dinheiro, a você. Mas agora, que vai ser de vocês?

- Não sei - proferiu Sônia tristemente. - Eles continuam ali?

- Não sei. Estavam endividados para com a senhoria; esta disse-lhes hoje mesmo que têm de abandonar o quarto e Ekatierina Ivânovna respondeu-lhe que também ela não queria ficar ali nem mais um minuto.

- Mas como é que ela consegue manter-se, assim, tão corajosa? Talvez esteja fiada na senhora...

- Ah, não, não fale assim! Nós vivemos as duas como se fôssemos uma só - e Sônia tornou outra vez a ficar agitada e até irritada, tal como um canário ou qualquer outro passarinho quando se irrita. - Mas como

é que ela havia de ser? De que outra maneira havia de ser? - perguntou, exaltando-se e comovendo-se. - Como ela tem chorado hoje! Está transtornada do juízo, não reparou? Está transtornada: tão depressa se sobressalta como uma criança, para que amanhã não falte nada, até aperitivos, como torce as mãos, expectora sangue, põe-se a chorar e, de repente, começa a dar cabeçadas contra a parede e a chorar, desesperada. E depois consola-se, deposita todas as suas esperanças no senhor; diz que o senhor, agora, é o seu amparo, e que vai pedir a alguém uma quantia e voltará para a sua terra comigo, e abrirá aí uma pensão para meninas e que me porá a mim como vigilante e começará para nós uma nova e linda vida, e beija-me e abraça-me e consola-me e, veja lá, acredita nisso tudo. Acredita nessas fantasias! Será possível contradizê-la? Passou hoje o dia inteiro esfregando o chão, lavando e passando a roupa a ferro; fraca como está, mudou a banheira e teve uma sufocação, até que se deixou cair esgotada sobre a cama; e, além disso, de manhã saímos as duas para comprar uns sapatinhos a Pólienhka e a Liena, porque os que tinham já estavam todos rotos, mas o dinheiro não chegava, ainda nos faltava muito, entretanto ela escolheu uns sapatinhos muito engraçados, porque é uma mulher de gosto, o senhor não sabe... Olhe, pôs-se a chorar ali mesmo, na loja, porque o dinheiro não chegava... Ah, como fazia pena vê-la!

- Sim, depois disso compreende-se que a menina... viva assim - disse Raskólhnikov com um sorriso amargo.

- Mas, ao senhor, não lhe faz pena? Não lhe inspira dó? – exclamou Sônia outra vez. - Mas se eu sei que o senhor lhe deu tudo quanto lhe restava, e isso antes de saber! Que faria se soubesse! Oh, quantas vezes a fiz eu chorar! Ainda a semana passada, para não ir mais longe. Na semana antes da morte do meu pai. Portei-me cruelmente. E quantas, quantas vezes procedi eu assim! Ah, como me custa agora recordar todo esse dia!

Sônia juntou as mãos perante essa evocação. - Portou-se cruelmente?

- Sim, eu, eu! Um dia - continuou ela, chorando -, o meu pai disse-me: "Lê-me um pouco, Sônia, porque me dói a cabeça... lê-me qualquer coisa... olha, aqui tens o livro". Era um livrinho que, entre outros, lhe emprestara Andriéi Siemiônovitch Liebiesiátnikov, que mora ali, e lhe emprestava esses livrinhos engraçados. E eu respondi-lhe: "Tenho de me ir já embora". Não queria ficar a ler-lhe porque eu fora lá, principalmente, para mostrar umas golas a Ekatierina Ivânovna; porque Lisavieta, a mascate, trazia-me golas e punhos muito baratos, bonitos, novinhos e com bordados. Ekatierina Ivânovna gostou muito dessas golas, experimentou-as e foi ver-se ao espelho com elas: agradavam-lhe muitíssimo. "Por que não mas dás, Sônia? Faze-me esse favor, faze-me esse favor", dizia, porque estava realmente interessada. Mas com que vestido havia ela de pô-las? É assim: nunca se esquece dos bons tempos antigos. Olha-se ao espelho, admira-se, e não tem, mas é mesmo o que se diz não ter, roupa para vestir, nem uma coisa bonita para pôr há já tantos anos... E por nada deste mundo pede qualquer coisa a alguém; como é orgulhosa, até era mais capaz de dar a última coisa que tivesse do que ter de pedir uma a alguém; mas, nesse momento, pedia, tal era a maneira como as golas lhe tinham agradado! Mas, a mim, custava-me dá-las. "Para que as quer", digo-lhe eu, "Ekatierina Ivânovna?" Foi isso o que eu lhe disse, e não o devia ter feito. Olhou-me de uma maneira e sentiu aquilo tanto, tanto, que fazia pena vê-la! E não era por causa das golas, mas porque eu lhas negara, via-se bem. Ah, se eu pudesse agora mudar tudo isso, voltar atrás, apagar essas palavras! Oh, eu... mas para quê, se tudo isto lhe é indiferente?

- Conhecia Lisavieta, a mascate?

- Conhecia... E o senhor também a conhecia? - interrogou-o Sônia por sua vez, com um certo espanto.

- Ekatierina Ivânovna está tuberculosa em último grau, não tarda que morra - disse Raskólhnikov depois de uma pausa e sem responder à pergunta. - Oh, não, não, não! - E Sônia, inconscientemente, pegou-lhe nas mãos, como se lhe implorasse que isso não acontecesse.

- Sim, no fim de contas, é preferível que ela morra!

- Não, não é melhor, não é melhor! - exclamou ela assustada e inconsciente.

- E os filhos? Que vai fazer deles, se não os pode ter consigo?

- Oh, não sei! - exclamou Sônia quase desesperada e levando as mãos ao rosto. Era evidente que aquela idéia lhe passara pela cabeça já muitas vezes e que ele não fizera mais do que acordá-la.

- Além disso, se a menina cair doente, ainda que Ekatierina Ivânovna continue viva, se a levarem para o hospital, por exemplo, que sucederá então? - insistiu ele, inexorável.

- Ah! Que diz o senhor, que diz o senhor? Isso não é possível! - e o rosto de Sônia contraiu-se numa careta de espanto horrível.

- Não é possível? - prosseguiu Raskólhnikov com um sorriso cruel. - Tem algum seguro contra a doença? Que será deles então? Irão parar todos de uma vez ao meio da rua, e ela há de pôr-se a tossir, e a suplicar,

e a dar cabeçadas contra a parede, como fez hoje, e as crianças a chorar... E acabará rolando sobre o chão, e apanhá-la-ão e levá-la-ão ao comissariado, e para um hospital, onde morrerá, e os filhos.

- Oh, não! Deus não há de permitir que assim seja! - foi o grito que saiu finalmente do oprimido peito de Sônia.

Tinha-o escutado em silêncio, de olhos fixos nele e mãos juntas numa prece muda, como se tudo dependesse dele.

Raskólhnikov levantou-se e começou a passear pelo quarto. Decorreu um minuto. Sônia continuava de pé, de testa e mãos baixas, sofrendo angustiosamente.

- E não há maneira de amealhar, de guardar para os dias negros? - perguntou ele parando, de repente, diante dela.

- Não - balbuciou Sônia.

- Claro que não! Mas já experimentou? - acrescentou ele quase com um sarcasmo.

- Já experimentei, sim.

- E não lhe deu resultado, naturalmente! Para que perguntar? E pôs-se outra vez a passear pelo quarto. Passou outro minuto. - Não ganha qualquer coisa todos os dias?

Sônia ficou ainda mais confusa do que antes e tornou outra vez a corar. - Não - murmurou, fazendo um esforço doloroso.

- Com certeza que Pólietchka vai ter a mesma sorte - disse de repente. - Não! Não! Não é possível, não! - exclamou Sônia em voz alta, num desespero, como se, de repente, a tivessem atravessado com um punhal. - Deus, Deus não há de permitir tamanho horror!

- Para outras permitiu.

- Não, não! A ela, Deus há de protegê-la, Deus! - repetiu Sônia fora de si.

- Sim, mas até é possível que Deus não exista - respondeu Raskólhnikov com uma espécie de alegria maldosa; pôs-se a rir e ficou olhando para ela.

O rosto de Sônia mudou de repente de uma maneira terrível; parecia ter convulsões. Fixou nele os olhos cheios de censura; quis dizer qualquer coisa, mas não conseguiu dizer nada, e a única coisa que fez foi romper em soluços, cobrindo a cara com as mãos.

- A menina diz que Ekatierina Ivânovna está quase doida; pois com você está quase a passar-se o mesmo - disse, depois de um certo silêncio. Decorreram cinco minutos. Ele continuava dando grandes passadas de um lado para o outro, em silêncio e sem olhar para ela. Finalmente, aproximou-se dela: as suas pupilas brilhavam. Pôs-lhe as mãos sobre os ombros e olhou-a diretamente nos olhos assustados. O olhar dele era sanguinário, agudo, e os lábios tremiam-lhe com força... De súbito agachou-se rapidamente e, ajoelhando-se no chão, beijou-lhe os pés. Sônia, assustada, afastou-se dele como de um louco. E, de fato, ele tinha todo o aspecto dum demente.

- Que faz o senhor, que faz o senhor diante de mim? - balbuciou ela, depois de ter empalidecido, e, de repente, sentiu que o coração se lhe apertava dolorosamente.

Ele se ergueu imediatamente.

- Eu não me ajoelhei diante de ti, mas diante de toda a dor humana - disse ele num tom estranho, e retirou-se para junto da janela. - Escuta - acrescentou, voltando para junto dela, passado um minuto -, eu, há pouco, disse a um desavergonhado que ele não valia nem o que vale o teu dedo mínimo... e que eu tinha dado uma honra à minha irmã ao sentá-la ao teu lado.

- Ah! Mas o senhor disse-lhe isso? Diante dela? - exclamou Sônia assustada. - Sentar-se ao meu lado? Uma honra! Mas se eu... olhe... eu estou desonrada... Ah, o que o senhor lhe disse!

- Não foi pela desonra nem pelo pecado que eu disse isso de ti, mas pelo teu grande sofrimento. Que tu és uma grande pecadora, é verdade - acrescentou quase com solenidade -, mas o pior de tudo, aquilo em que mais pecaste foi por te teres entregue e sacrificado em vão. Não é um horror, não é um horror que tu vivas neste lodo que eu tanto odeio, e ao mesmo tempo tu própria saibas (não precisas de mais senão de abrir os olhos) que não és útil a ninguém, com isto, e que não salvas ninguém de nada? Mas dize-me finalmente - continuou, como num paroxismo - como é possível que coexistam em ti tanta baixeza e vileza e outros sentimentos opostos e sagrados? Teria sido muito melhor, mil vezes melhor, atirar-se à água e acabar de uma vez!

- E que seria deles? - perguntou Sônia com voz fraca, olhando-o dolorosamente, mas, ao mesmo tempo, como se a proposta não lhe causasse grande admiração.

Raskólhnikov olhava-a de uma maneira estranha. E compreendeu tudo nesse olhar. Com certeza que essa idéia já passara pela cabeça dela. Talvez até muitas vezes, e com toda a seriedade, tivesse pensado, no seu desespero, em acabar de uma vez, e por isso, agora, aquelas palavras dele já não a admiravam. Nem sequer reparava na crueldade da sua linguagem (não havia dúvida que não reparara no sentido das suas censuras e na sua maneira especial de considerar a sua desonra), foi o que ele notou. Mas Raskólhnikov compreendia perfeitamente até que ponto de monstruoso suplício a torturava, a ela, já algum tempo, a idéia da desonra e da vergonha da sua situação. "Que será, que será", pensava ele, "que tem podido conter até agora a sua resolução de acabar de uma vez?" E só então se apercebeu cabalmente do que significavam para ela aqueles pobres orfãozinhos e aquela lamentável Ekatierina Ivânovna, meio ensandecida, com a sua tísica e as suas cabeçadas contra as paredes.

Mas, ao mesmo tempo, também compreendia claramente que Sônia, com o seu caráter e a educação que recebera, não podia, de maneira nenhuma, continuar assim. Fosse como fosse, o problema surgia diante dele: como pudera ela continuar tanto tempo naquela situação sem perder o juízo, visto que lhe faltara coragem para se atirar à água? Era certo que ele compreendia que a situação de Sônia representava um fenômeno acidental na sociedade, embora, infelizmente, estivesse longe de ser único e exclusivo. Mas essa mesma acidentalidade, essa sua vaga educação e toda a honestidade da sua vida teriam podido matá-la de um golpe ao primeiro passo daquele repugnante caminho. Que a sustinha, então? Não seria o gosto da libertinagem? Toda aquela vergonha, que era evidente, só a roçava a ela de um modo maquinal; da verdadeira corrupção ainda não chegara ao seu coração nem uma ponta, era bem evidente.

"Há três caminhos", pensava Rodion, "atirar-se ao canal, ir parar a um manicômio ou... ou, por fim, atirar-se ao vício, embrutecendo a alma e petrificando o coração."

Este último pensamento pareceu-lhe o mais repugnante de todos, mas ele já era cético, era novo, indiferente e talvez cruel, e não podia acreditar que esse último recurso, isto é, o vício, fosse o mais provável.

"Mas e se fosse certo", murmurou para si, "se inclusivamente esta criatura, que ainda conserva a sua pureza de alma, se lançasse conscientemente nesta terrível e hedionda cloaca? E se já tivesse começado essa queda, se ela só pudesse ter agüentado até agora aquela vida, porque o vício não lhe parecia tão repugnante? Não, não, isso não pode ser", exclamava ele, como Sônia, há pouco. "Não, do canal tem-na afastado até agora a idéia do pecado, e eles também... Se até agora não endoideceu... Mas quem é que disse que ela não perdeu já a razão? Estará, por acaso, em seu perfeito juízo? É possível, por acaso, falar como ela fala? É possível estar sentado assim, à beira dum abismo, precisamente em cima de um fétido cano de esgoto, no qual começou já a afundar-se, e a agitar as mãos, e a tapar os ouvidos, quando se ouve falar de perigo? Que milagre espera ela? Naturalmente, algum. E não será tudo isso um indício de loucura?"

Aferrava-se a essa idéia, com teimosia. Agradava-lhe mais essa saída do que as outras. Pôs-se a considerá-la com mais atenção.

- Rezas muito a Deus, Sônia? - perguntou-lhe. Sônia permanecia calada; ele estava de pé ao seu lado e esperava a resposta.

- Que seria de mim sem Deus? - balbuciou ela rápida, energicamente; fixou nele por momentos os seus olhos brilhantes e, pegando-lhe na mão, estreitou-a fortemente entre as suas.

"Lá isso é verdade!", pensou ele.

- Mas que é que Deus faz por ti? - perguntou, levando mais longe a sua experiência.

Sônia ficou muito tempo calada, como se não pudesse responder. O seu peito fraco tremia de comoção.

- Cale-se! Não me pergunte! O senhor não é digno! - gritou, de repente, lançando-lhe um olhar severo e colérico.

"É verdade, é verdade!", repetia ele, teimoso, para consigo.

- Faz muito! - murmurou ela rapidamente, tornando a baixar a cabeça. "Aí está o recurso! Aí está a explicação do recurso!", decidiu ele mentalmente, olhando-a com uma curiosidade ávida.

Contemplava com uma sensação quase doentia aquela carinha pálida, vincada e de feições irregulares e angulosas, com aqueles olhinhos pequeninos, azuis, capazes de lançar tais cintilações, de brilhar com uma expressão tão austera e enérgica; aquele corpinho frágil, que tremia ainda de indignação e de cólera, e tudo aquilo lhe parecia cada vez mais estranho, quase impossível. "Louca, louca!", concluiu no seu íntimo.

Sobre a cômoda havia um livro. Cada vez que lhe passava em frente, nos passeios de um lado para o outro, fixava os olhos sobre ele; agora pegou-lhe e examinou-o. Era o Novo Testamento, na sua versão russa. Era um livro velho e engordurado, encadernado em couro.

- De onde vem isto? - gritou-lhe, através do quarto. Ela continuava de pé, imóvel no mesmo lugar, a três passos da mesa.

- Trouxeram-no - respondeu ela, como se o fizesse de má vontade e sem olhar para ele.

- Quem é que to trouxe?

- Foi Lisavieta, a meu pedido. "Lisavieta? É estranho!", pensou ele.

Tudo quanto dizia respeito a Sônia lhe parecia cada vez mais estranho e assombroso. Aproximou o livro da luz e pôs-se a folheá-lo.

- Onde é que está a passagem sobre Lázaro? - perguntou de repente. Sônia olhava obstinadamente para o chão e não respondeu. Estava um pouco afastada da mesa.

- O lugar em que fala da ressurreição de Lázaro? Procura-mo, Sônia. Ela olhou para ele de soslaio.

- Não procure aí... é no quarto Evangelho... - murmurou com dureza, sem dar um passo para ele.

- Procura-mo e lê-mo - disse ele.

Raskólhnikov sentou-se, pôs os cotovelos em cima da mesa, segurou a cabeça com as mãos e inclinou-se um pouco de lado para escutar. "Dentro de três semanas, para o manicômio! Também eu, provavelmente, irei para aí, senão para outro lugar pior!", murmurou para consigo. Sônia aproximou-se, indecisa, da mesa, escutando com receio o desejo de Raskólhnikov. Mas pegou o livro.

- Mas não o leu? - perguntou, olhando para ele do outro lado da mesa. A sua voz era cada vez mais dura.

- Há muito tempo... Na escola... Lê! - E na igreja não leu?

- Eu... não vou à igreja. E tu, vais muitas vezes? - Não! - balbuciou Sônia.

Raskólhnikov pôs-se a rir.

- Compreendo... E amanhã, não vais ao enterro do teu pai?

- Hei de ir. Já lá estive a semana passada. Mandei dizer um responso. - Por quem?

- Por Lisavieta. Foi morta a machadadas.

Ele sentia os nervos cada vez mais crispados. Começou a sentir a cabeça andando à roda.

- Eras amiga de Lisavieta?

- Sim... Ela era muito boa... Vinha visitar-me... de quando em quando... Não podia. Líamos as duas e... falávamos. Ela irá para o céu. Soavam de uma maneira estranha aos seus ouvidos aquelas palavras livrescas; e outra vez a novidade: aquelas entrevistas misteriosas com Lisavieta, e as duas... umas tresloucadas.

"Também eu hei de acabar assim. É contagioso!", pensou. - Lê! - exclamou, de repente, imperativo e excitado.

Sônia continuava indecisa. O seu coração batia com violência. Não se atrevia a ler para ele, que contemplava quase com pena aquela pobre louca. - Mas para que hei de eu ler-lhe seja o que for? Se o senhor não acredita! - balbuciou em voz baixa e anelante.

- Lê! Quero que leias! - insistiu ele. - Não lias a Lisavieta? Sônia abriu o livro e procurou a passagem. As mãos tremiam-lhe, a voz não lhe saía. Começou a leitura por duas vezes e não chegou a articular claramente nem a primeira palavra.

- "Estava então enfermo um certo Lázaro, de Betânia..." - proferiu finalmente, fazendo um esforço; mas, de súbito, à terceira palavra a sua voz vibrou aguda e quebrou-se, como uma corda demasiado tensa. Faltava-lhe a respiração e o peito oprimia-se-lhe.

Raskólhnikov compreendia, em parte, por que é que Sônia não se decidia a ler-lhe, e quanto melhor compreendia, tanto mais grosseiramente e com maior nervosismo insistia para que ela lesse. Compreendia perfeitamente que aqueles sentimentos constituíam, efetivamente, de certo modo, o seu segredo, talvez desde a sua adolescência, quando vivia ainda com a família, junto de seu desgraçado pai e da madrasta, enlouquecida de amargura, entre umas criaturinhas famélicas, gritos e imprecações monstruosos. Mas, ao mesmo tempo, reconhecia, e reconhecia decididamente, que, ainda que ela agora estivesse aflita e tivesse um medo horrível de começar a leitura, por qualquer motivo, sentia no entanto uma ansiedade dolorosa de fazê-lo, apesar de toda a sua tristeza e inquietação, e sobretudo para ele, para que escutasse agora, infalivelmente... acontecesse depois o que acontecesse... Era isto o que ele lia nos olhos dela e deduzia da sua comoção tão séria... Ela fez um esforço, dominou o aperto da garganta, que lhe cortara a voz, e continuou a ler o capítulo XI do Evangelho de São João. Chegou assim ao versículo XIX:

- "E muitos dos judeus tinham vindo para junto de Marta e de Maria, para consolá-las por causa do irmão. Então Marta, como ouviu que Jesus vinha, saiu ao seu encontro; Maria ficou em casa. E Marta disse a Jesus: “senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não estaria morto. Mas também sei agora que tudo o que pedires a Deus, Deus to dará..."' Então tornou a parar, pressentindo, envergonhada, que a voz tornava a tremer-lhe e a ficar entrecortada...

- "... Disse-lhe Jesus: “O teu irmão ressuscitará'. Marta disse-lhe: “Eu sei que ressuscitará na ressurreição, ao último dia'. Disse-lhe Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que acreditar em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá eternamente. Acreditas nisso?' Disse-lhe..."

E, como se dolorosamente lhe faltasse o alento, Sônia leu distintamente e com energia, como se estivesse fazendo a sua profissão de fé:

- "... Sim, Senhor, eu acreditei que Tu eras o Cristo, o Filho de Deus, que veio ao mundo...”

Fez uma pausa, lançou um olhar rápido aos olhos dele, mas em seguida dominou-se e continuou a leitura. Raskólhnikov escutava-a sem fazer um movimento, sem se voltar, de cotovelos sobre a mesa e olhando de soslaio. Ela chegou ao versículo XXXII:

- "... E, como Maria tivesse vindo para o lugar onde estava Jesus, lançou-se a seus pés, dizendo-lhe: “senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não estaria morto'. Como Jesus a visse chorar, a ela e aos judeus que tinham vindo juntamente com ela, comoveu-se em espírito e perturbou-se. E disse: “Onde o pusestes?' Disseram-lhe: “senhor, vem e vê'. E Jesus chorou. Disseram então os judeus: “Olhai como o amava'. E alguns deles disseram: “não podia Este, que abriu os olhos do cego, fazer com que este homem não morresse?..."'

Raskólhnikov voltou-se para ela e contemplou-a comovido. "É isso mesmo." Toda ela tremia como se estivesse com febre. Era o que ele esperava. Ela se aproximava da narrativa do maior e mais inaudito milagre, e um sentimento de grande solenidade a possuía. A sua voz tornou-se vibrante, metálica; o entusiasmo e a alegria ressoavam na sua voz e apoiavam-na. As linhas confundiam-se diante dos seus olhos, porque estes se lhe nublavam de lágrimas; mas ela sabia de cor o que ia lendo; quando chegou ao último versículo: "Não podia Este, que abriu os olhos do cego?", baixando a voz, ela exprimiu ardente e apaixonadamente a dúvida, a censura e a maldade dos incrédulos, dos torpes judeus, que logo a seguir, um minuto depois, apenas, como feridos por um raio, iam tombar por terra, romper em soluços e acreditar... "E ele, ele também, cego e incrédulo, também ele ouvirá imediatamente e também acreditará, sim, sim. Agora mesmo!", sonhava ela, e tremia na sua jubilosa expectativa.

- ..."E Jesus, comovendo-se outra vez no seu íntimo veio até o sepulcro. Era uma cova, que tinha uma pedra em cima. Jesus disse: “tirem a pedra'. Marta, a irmã do morto, disse-lhe: “senhor, vede que está já de quatro dias...” E pronunciou intencionalmente a palavra "quatro".

- "... Jesus disse-lhe: “não te disse eu que, se acreditares, verás a glória de Deus?' Então tiraram a pedra da cova onde o morto tinha sido posto. E Jesus, erguendo os olhos ao alto, disse: “Pai, dou-Te graças por me teres ouvido. Eu sabia que Tu me ouves sempre, mas disse-lhe isto por causa do povo que está à minha volta, para que acreditem que foste Tu que me enviaste'. E, depois de ter dito isso, gritou em voz muito alta: “Lázaro, sai...' E aquele que estava morto saiu..."

Ela lia com voz forte e solene, tremente e transida de frio, como se tivesse visto tudo aquilo com os seus próprios olhos.

- "... tinha as mãos e os pés ligados com ataduras, e o rosto envolvido num sudário. Disse-lhe Jesus: “desatem-no e deixem-no ir'. Então muitos dos judeus que tinham vindo ter com a casa de Maria e viram o que Jesus fizera acreditaram nele."

A leitura ficou por aqui, pois ela já não podia continuar, e, fechando o livro, levantou-se rapidamente da cadeira.

- Isto é tudo o que há a respeito da ressurreição de Lázaro - murmurou com voz cortante e dura, e ficou imóvel, meio voltada de costas, sem se atrever a erguer os olhos para ele, como se estivesse envergonhada. Continuava ainda a agitá-la um tremor febril. A luzinha que, havia já algum tempo, começara a consumir-se no candeeiro iluminava vagamente naquele mísero quarto um assassino e uma prostituta, estranhamente reunidos para ler o livro eterno. Decorreram cinco ou mais minutos.

- Vim para te dizer uma coisa - declarou Raskólhnikov de repente, com voz rouca e franzindo o sobrolho; levantou-se e aproximou-se de Sônia. Esta ergueu os olhos para ele, em silêncio. Os dele estavam especialmente severos e denunciavam como que uma selvagem resolução.

- Abandonei hoje a minha família - disse -, a minha mãe e a minha irmã. Não tornarei para junto delas.

- Por quê? - perguntou Sônia, assombrada. O seu encontro recente com a mãe e com a irmã dele lhe deixara uma impressão extraordinária, embora confusa para si própria. Escutou a notícia da ruptura quase com espanto.

- Eu, agora, não tenho mais ninguém senão tu - acrescentou ele. - Passemos a viver juntos. Venho buscar-te. Se somos os dois malditos, unamo-nos então!

Os olhos cintilavam-lhe: "Parece um louco!", pensou Sônia por sua vez. - Mas para onde vamos? - perguntou ela, assustada, e, involuntariamente, retrocedeu.

- Sei lá! Só sei que havemos de seguir um mesmo caminho, isto é que eu sei... Apenas isso! Um mesmo fim!

Ela olhava para ele e não compreendia. Compreendia unicamente que ele era terrível, infinitamente desgraçado.

- Nenhum deles te compreenderá nunca se lhes falares - continuou -, mas eu te compreendo. Tu me eras necessária, por isso vim buscar-te. - Não compreendo... - balbuciou Sônia.

- Depois hás de compreender-me. Não fizeste tu, por acaso, o mesmo que eu? Tu também infringiste a norma... Foste capaz de infringi-la. Tu levantaste a mão contra ti própria, perdeste para sempre a tua vida... A tua (tanto faz!). Tu podias ter vivido pelo espírito e pela razão e vieste parar ao Mercado do Feno... Mas tu não te podes manter e, se ficas sozinha, acabarás por perder o juízo, como eu. Já estás meio louca; nós os dois devemos caminhar juntos pelo mesmo caminho. Vamos!

- Por quê? Por que diz isso? - exclamou Sônia, estranha e violentamente comovida por aquelas palavras.

- Por quê? Por que é impossível ficarmos assim... Por isso! Acaba por ser necessário julgar as coisas reta e seriamente e não chorar e gritar como crianças, porque Deus não o consentirá! Porque vamos ver, afinal: que será de ti se amanhã te levam para um hospital? A outra está transtornada e tísica, e não tardará a morrer. E os pequenos? Não irá Pólietchka cair na perdição? Não vês por aqui, pelas ruas, crianças que as mães mandam pedir esmola? Eu sei muito bem onde vivem essas mães e em que tugúrios. Aí não é possível que as crianças se conservem crianças. Aí há prostitutas e ladrões de sete anos. E, bem sabes, as crianças são a imagem de Cristo: delas é o reino de Deus. Mandou que as honrássemos e amássemos; elas são a futura humanidade...

- Mas que hei eu de fazer? - repetia Sônia com um choro histérico e torcendo as mãos.

- Que fazer? Romper de uma vez para sempre, só isso, e suportar a dor. O quê? Não me compreendes? Hás de compreender-me depois... Liberdade e poder, sobretudo poder! Sobre toda a criatura que treme e sobre todo o formigueiro! É esse o objetivo! Vê se compreendes! É esse o testamento que eu te deixo! Talvez eu esteja falando contigo pela última vez. Se não vier ver-te amanhã, hás de saber tudo por ti mesma, e então recorda-te das palavras que agora te digo. E talvez algum dia, passados anos, ao longo da vida, chegues a compreender o que elas significam. Se vier amanhã dir-te-ei quem matou Lisavieta. Adeus!

Sônia tremia de medo.

- Mas sabe quem a matou? - perguntou, transida de espanto e olhando para ele assombrada.

- Sei e hei de dizer-to... A ti, só a ti! Escolhi-te a ti. Não virei pedir-te perdão, mas simplesmente dizer-to. Há já algum tempo que te escolhi a ti para to dizer, desde que o teu pai me falou de ti, e quando Lisavieta ainda era viva já o pensara. Adeus! Não me dês a mão. Até amanhã!

Saiu. Sônia seguiu-o com a vista, como a um louco; e ela própria também se sentia como louca. A cabeça andava-lhe à roda.

"Senhor! Como pode ele saber quem é que matou Lisavieta? Que quererão dizer aquelas palavras? Que horrível é tudo isto!" Mas, no entanto, aquela idéia não lhe passava pelo pensamento. "Nunca! Nunca! Oh, deve ser espantosamente infeliz! Abandonou a mãe e a irmã. Por quê? Que se teria passado? Quais serão as suas intenções?" Que lhe dissera ele? Beijou-lhe os pés e disse-lhe... disse-lhe (sim, isso disse-o com bastante clareza) que não podia viver sem ela... "Oh, Senhor!"

Passou toda a noite com febre e delirando. Às vezes sobressaltava-se, chorava, torcia as mãos; depois voltava a amodorrar-se numa sonolência febril e sonhava com Pólietchka, com Ekatierina Ivânovna, com Lisavieta, com a leitura do Evangelho, e com ele... Com ele, com o seu rosto pálido e os seus olhos de fogo... Beijava-lhe os pés, chorava... Oh, Senhor!

Do outro lado da porta da direita, daquela mesma porta que separava o quarto de Sônia do de madame Kárlovna Resslich, havia um quarto contíguo que já há muito tempo estava vazio, pertencente ao andar da senhora Resslich, que esta alugava, tendo posto um cartãozinho na porta da casa e escritos nas janelas que davam para o canal. Havia algum tempo que Sônia se acostumara a considerar esse quarto desabitado. E, no entanto, durante todo esse tempo, por detrás da porta do aposento vazio, o senhor Svidrigáilov estivera espreitando e escutando. Quando Raskólhnikov saiu ele continuou no seu posto, meditando, e depois voltou nas pontas dos pés para o seu quarto, que ficava pegado a esse que estava desabitado, pegou uma cadeira e, sem fazer barulho, encostou-a à porta que dava para o quarto de Sônia. O diálogo tinha-lhe parecido interessante e significativo, e muito a seu gosto... tão de seu gosto que levou para ali a cadeira a fim de, para a outra vez, no dia seguinte, por exemplo, não ter de suportar novamente o incômodo de estar de pé uma hora inteira e instalar-se comodamente, para poder estar a seu gosto, em todos os sentidos.