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Quando na manhã seguinte, às onze em ponto, Raskólhnikov entrou no comissariado, na seção do juiz de instrução, e pediu que anunciassem a sua visita a Porfíri Pietróvitch, ele próprio se admirou que demorassem tanto a recebê-lo; decorreram pelo menos dez minutos até que o mandassem entrar. Segundo os seus cálculos deviam tê-lo feito entrar imediatamente. E, no entanto, ali estava ele no vestíbulo e pela sua frente passavam indivíduos que, evidentemente, não reparavam na sua presença. Na sala contígua, que tinha aspecto de repartição, havia alguns escriturários de pena em punho, e era evidente que nenhum deles fazia a menor idéia de quem fosse um tal Raskólhnikov. Ele seguia com olhos inquietos e desconfiados tudo quanto se passava à sua volta, inspecionando; "Não haverá por aqui perto algum guarda, algum olhar secreto encarregado de espiar-me, para que não fuja?" Mas não havia nada disso, havia apenas as caras dos empregados, muito atentos ao seu trabalho, e algum ou outro indivíduo, nenhum dos quais nem reparava nele sequer, ainda que percorresse os quatro cantos da sala. Cada vez se firmava com mais força na idéia de que se, de fato, aquele homem enigmático do dia anterior, aquele fantasma saído de debaixo do chão, soubesse tudo e tivesse visto tudo... havia de deixá-lo à solta, como o estava deixando? E, além disso, não o teriam esperado tranqüilamente até as onze, até que lhe tivesse apetecido apresentar a sua declaração... Concluía-se que, ou aquele homem não tinha vindo ainda acusá-lo, ou ... ou, simplesmente, que também ele não sabia de nada, nem vira nada pelos seus próprios olhos (e como podia tê-lo visto!), e que tudo o que lhe sucedera, a ele, Raskólhnikov, no dia anterior, não fora mais que uma aparição, avultada pela sua imaginação excitada e doente. Esta explicação já no próprio dia anterior, no momento do seu maior medo e desolação, começara a criar raízes dentro de si. Depois de pensar em tudo isso, agora, e quando se preparava para uma nova luta, sentiu de repente que estava tremendo... e até ferveu de indignação só com a idéia de que podia tremer de medo perante aquele odioso Porfíri Pietróvitch. O mais terrível para ele era ter de ver-se outra vez em frente daquele homem; sentia por ele uma aversão sem limites, infinita, e até temia que esse ódio pudesse fazê-lo atraiçoar-se de qualquer maneira. E a sua indignação era tão veemente que o seu tremor cessou imediatamente; preparou-se para entrar com um aspecto sereno e altivo, e a si próprio jurou que havia de limitar-se, na medida do possível, a calar-se, a olhar, e que dessa vez pelo menos, acontecesse o que acontecesse, havia de dominar o seu temperamento, doentiamente irritável. Precisamente nesse instante chamaram-no da parte de Porfíri Pietróvitch.

Por acaso, nesse momento, Porfíri Pietróvitch encontrava-se só no seu gabinete. Este era uma sala de tamanho razoável, na qual havia uma grande mesa-escrivaninha diante de um divã forrado de oleado encerado, um bureau, um armário num canto e algumas cadeiras, tudo móveis do Estado, de madeira amarela, e que começavam já a perder o verniz. Num canto, na parede do fundo, ou, para melhor dizer, no tabique, havia uma porta fechada; aí, do outro lado do tabique, devia haver, provavelmente, outras salas. Quando Raskólhnikov entrou, Porfíri Pietróvitch fechou imediatamente a porta por onde ele entrara e ficaram os dois absolutamente sozinhos. Aparentemente acolheu o seu visitante da maneira mais jovial e amável, e só passados alguns minutos Raskólhnikov, em virtude de certos indícios, lhe notou uma certa ansiedade... como se o tivessem vindo distrair de repente ou o tivessem apanhado em qualquer atitude muito íntima e secreta.

- Olá, meu caro! Já o temos aqui... nos nossos domínios... - começou Porfíri, estendendo-lhe as duas mãos. - Bem, sente-se, bátiuchka! Ou talvez não queira que lhe chame meu caro nem... bátiuchka... assim, tout court. Não leve isto à conta de familiaridade... Para aqui, venha para aqui, para o divãzinho.

Raskólhnikov sentou-se sem tirar os olhos de cima dele.

"Nos nossos domínios"; aquela desculpa por causa da familiaridade, aquela frasezinha francesa tout court etc. etc., tudo aquilo eram sinais característicos. "Mas, no entanto, estendeu-me as duas mãos e não chegou a dar-me nenhuma; retirou-as a tempo", pensou, desconfiado. Vigiavam-se mutuamente, mas, quando os seus olhares se cruzavam, ambos os desviavam com uma rapidez fulminante.

- Trago-lhe um documento referente ao relogiozinho... Aqui tem. Está bem redigido ou será preciso fazê-lo outra vez?

- O quê? O documento? Sim, sim, não se preocupe, assim está bem - disse Porfíri Pietróvitch, como se tivesse pressa de qualquer coisa, e, dizendo isso, pegou o papel e deitou-lhe uma vista de olhos. - Sim, é isto, precisamente. Não é preciso mais nada - afirmou com a mesma precipitação nas palavras e deixou o papel em cima da mesa. Depois, passado um minuto, falando já de outra coisa, tornou a tirá-lo dali e colocou-o no seu bureau.

- O senhor, segundo me parece, disse-me ontem que desejava interrogar-me... oficialmente... acerca do meu conhecimento com essa... mulher que foi assassinada - disse Raskólhnikov retomando o diálogo. "Mas vamos ver, a que propósito veio isto de “segundo me parece'?", foi a idéia que lhe passou pela cabeça, como um raio.

E de repente sentiu que a sua irritabilidade, só ao contato com Porfíri e apenas perante aquelas duas palavras e dois olhares, se tinha já expandido num instante em proporções assombrosas... e que isso era terrivelmente perigoso; os seus nervos crispavam-se e a sua agitação aumentava cada vez mais. "Mau! Mau, mau! Vou outra vez dar com a língua nos dentes!" - Sim... sim... sim! Não se preocupe! Temos tempo, temos tempo - murmurou Porfíri Pietróvitch dando voltas em torno da mesa, mas sem objetivo algum, dirigindo-se ora para a janela, ora para o bureau, voltando outra vez para junto da mesa, evitando o olhar desconfiado de Raskólhnikov e ficando outras vezes parado e a olhá-lo fixamente no rosto. A sua figura pequenina, gordalhufa e redonda como uma bola que parecia rolar em várias direções, e embater de seguida contra todas as paredes e todos os cantos, ficava assim muito estranha. - Temos tempo, temos tempo! Fuma? Tem cigarros? Então aqui tem um - continuou, oferecendo um cigarro ao seu visitante. - Olhe, recebo-o aqui, mas tenho a minha instalação particular ali, do outro lado do tabique... casa fornecida pelo Estado; mas, agora, de momento, tenho uma casa noutro lugar. Era preciso fazer umas obras aqui. Agora já estão quase prontas... Moradia à custa do Estado, sabe? É uma grande coisa, não é verdade? Não lhe parece?

- Lá isso é, é uma grande coisa - respondeu Raskólhnikov olhando-o quase com sarcasmo.

- Uma grande coisa, uma grande coisa... - repetia Porfíri Pietróvitch como se, de repente, se tivesse posto a pensar em qualquer coisa de completamente diferente. - Sim, uma grande coisa! - exclamou gritando qual se, para terminar, fixando subitamente o olhar sobre Raskólhnikov e parando a dois passos dele. Essa monótona e estúpida reiteração, de que a moradia à custa do Estado era uma grande coisa, contrastava demasiadamente pela sua vulgaridade com o olhar sério, preocupado e enigmático com que fulminava agora o seu visitante.

E isso veio agravar ainda mais a cólera de Raskólhnikov, o qual não pôde dominar-se e proferiu um desafio sarcástico e bastante imprudente: - Sabe uma coisa? - perguntou de repente, olhando-o quase com insolência e como se encontrasse prazer nessa insolência. - Segundo parece, há uma regra jurídica, um procedimento jurídico aplicável a todos os processos possíveis, que é o de começar de longe, por pormenores ou por qualquer coisa séria mas completamente secundária, com o fim de, por assim dizer, animar; ou, para melhor dizer, distrair o interrogado, adormecer a sua vigilância e, depois, de repente, da maneira mais inesperada, fazer-lhe de chofre uma pergunta fatal e perigosa. Não é assim? Parece que este processo continua a mencionar-se religiosamente em todos os manuais e textos, não é verdade?

- Assim é, de fato, assim é... Mas o senhor pensa que eu lhe falei da moradia do Estado para... hem? - e depois de dizer isso Porfíri Pietróvitch fez uma careta e piscou os olhos; as rugas miúdas da sua testa tornaram-se mais visíveis, mas apagaram-se logo a seguir, os olhos tornaram-se ainda menores, as feições dilataram-se-lhe e, de repente, desatou num riso nervoso, longo, ao mesmo tempo que retorcia todo o corpo e olhava Raskólhnikov de frente, nos olhos. Este começou também a rir-se um pouco, fazendo para isso um esforço sobre si mesmo; mas quando Porfíri, ao ver que ele também se ria, sofreu um tal acesso de riso que ficou quase completamente vermelho, então a repugnância de Raskólhnikov ultrapassou repentinamente toda a prudência; deixou de se rir, franziu o sobrolho e ficou olhando longa e rancorosamente para Porfíri, sem tirar a vista de cima dele, enquanto durava aquele riso prolongado, que intencionalmente parecia não desejar dominar. Aliás, a imprudência era visível nos dois; era como se Porfíri se risse na própria cara do visitante, ao qual aquele riso ficava tão mal, e não se perturbava de maneira alguma por semelhante circunstância. Este último fato era muito significativo para Raskólhnikov; este compreendia que Porfíri Pietróvitch também não se atrapalhara, e que, pelo contrário, era ele, Raskólhnikov, quem se deixara cair na armadilha; que com certeza havia até de permeio qualquer coisa que ele ignorava, qualquer intenção; que talvez estivesse tudo preparado, e que logo a seguir, naquele mesmo instante, acabasse por revelar-se e ficar a claro...

Foi imediatamente direito ao assunto, levantou-se do seu lugar e pegou o gorro:

- Porfíri Pietróvitch - disse resolutamente, mas bastante excitado. - O senhor, ontem, exprimiu o desejo de que eu viesse aqui para me fazer não sei que interrogatório - acentuou especialmente a palavra "interrogatório". - Aqui estou, e, se quiser interrogar-me, pode começar já; senão, permita que me retire. Não posso perder tempo, tenho de ir tratar de um assunto... Tenho de assistir ao enterro desse funcionário atropelado por uma carruagem, que o senhor... já sabe... - acrescentou, e imediatamente ficou aborrecido consigo próprio por causa daquela declaração, excitando-se depois ainda mais. - A mim, tudo isto já me aborrece, sabe o senhor? E já há muito tempo... e pode ser que, em parte, a minha doença seja por causa disto tudo; em resumo: queira interrogar-me ou deixe-me sair... agora mesmo; mas, se me interrogar, faça-o de acordo com a lei. De outra maneira não me presto a isso e, entretanto, adeus, pois agora não temos nada que fazer os dois.

- Senhor! Mas que lhe aconteceu? Sobre que hei eu de interrogá-lo? - exclamou Porfíri mudando inteiramente de tom e de aspecto e acabando com o seu riso num abrir e fechar de olhos. Mas não se preocupe, por favor - encareceu, solícito, tornando a passear agitadamente de um lado para o outro e parando de repente para fazer sentar Raskólhnikov. - Há tempo de sobra, há tempo de sobra, e tudo isto são apenas pormenores! Eu, pelo contrário, estou muito contente porque tenha vindo visitar-me... Considero-o um hóspede. E por causa desse maldito riso, o senhor, meu caro Rodion Românovitch, desculpe-me... É Rodion Românovitch? É este o seu nome? Sou muito nervoso e o senhor fez-me rir com a agudeza da sua observação; às vezes, é verdade, ponho-me a rebolar como uma bola de borracha e fico assim uma boa meia hora... Gosto de rir. Tenho medo de uma paralisia, dado o meu temperamento. Mas sente-se ... que tem? Faça favor, meu caro, senão hei de pensar que está aborrecido...

Raskólhnikov conservava-se calado, escutava e observava, cada vez mais iracundo. Aliás, sentou-se sem largar o gorro das mãos.

- Vou dizer-lhe uma coisa a meu respeito, meu caro Rodion Romãnovitch, para explicar-lhe, por assim dizer, o meu caráter - continuou Porfíri Pietróvitch, dando voltas pela sala e parecendo, como há pouco, querer evitar que o seu olhar se cruzasse com o do visitante. - Eu, repare, sou solteiro, sou desconhecido e também não conheço ninguém, e, além disso, sou um homem acabado, um homem endurecido, que se deixou ficar na sua concha e... e... e não sei se já reparou, Rodion Românovitch, que entre nós, aqui, na Rússia, e sobretudo no nosso ambiente petersburguês, que, quando se encontram dois homens inteligentes, que ainda não se conhecem bem, mas que, por assim dizer, se respeitam mutuamente, como sucede conosco neste caso, ficam uma meia hora sem acharem um tema para a conversa... e ficam muito hirtos um em frente do outro, atrapalhados. Toda a gente tem um assunto para conversar; as senhoras, por exemplo... e as pessoas da alta sociedade, nunca lhes falta sobre que falar, c'ést de rigueur; mas os indivíduos da classe média, como nós, ficam atrapalhados e não conseguem dizer nada... Quero eu dizer com isto que são tímidos. A que será devido isto, meu caro? Será que não teremos interesse pelos assuntos sociais ou será que somos muito honestos e não nos queremos enganar uns aos outros? Eu não sei. Que lhe parece? Mas deixe o gorro, assim parece que está disposto a ir-se já embora; faz-me verdadeiramente pena vê-lo assim... Eu, pelo contrário, estou tão contente...

Raskólhnikov largou o gorro e continuou calado, sério e sombrio, escutando o vazio e incoerente palavreado de Porfíri. "Dar-se-á o caso de que a sua verdadeira intenção seja a de distrair a minha atenção com a sua estúpida loquacidade?"

- Café, não lhe ofereço, não é lugar para isso; mas por que não há de passar cinco minutos com um amigo, para se distrair? - continuou Porfíri sem interrupção. - E já sabe, todos esses deveres de cortesia... Olhe, meu caro, não se ofenda por eu andar às voltas de um lado para o outro; desculpe-me, bátiuchka; tenho muito medo de ofendê-lo, mas este exercício é-me imprescindível. Estou sempre sentado e para mim é uma alegria poder estar cinco minutos em movimento... as hemorróidas... tenciono tratá-las por meio da ginástica; dizem que homens de Estado, e até conselheiros secretos saltam corda regularmente; repare, é o que a ciência quer, no nosso tempo... é assim mesmo... Mas, quanto a esses deveres daqui, interrogatórios e outros requisitos... repare, meu caro, foi o senhor quem se referiu a isso há pouco; de fato, foi o senhor quem falou disso... e veja uma coisa: na realidade, esses interrogatórios, às vezes, desorientam mais o que interroga do que o interrogado... A este respeito já o senhor, meu caro, fez há um momento uma observação tão justa como aguda. - Raskólhnikov não tinha feito tal observação. - É um engano! Um autêntico engano! Porque, afinal, continua tudo na mesma, tudo na mesma, como a lesma! Mas qualquer dia temos aí a reforma e, pelo menos, hão de tratar-nos de outra maneira, he... he... he! Mas, pelo que respeita aos nossos costumes jurídicos (segundo a sua exata expressão), estou absolutamente de acordo com o senhor. Mas vamos lá a ver, diga-me uma coisa: qual dos nossos acusados, inclusivamente o mais lorpa, não saberá que a princípio deverão interrogá-lo acerca de coisas secundárias (conforme a sua feliz expressão), para depois, de repente, assestar-lhe uma machadada em cheio, na cabeça, he, he, he. Segundo o seu acertado símile. He... he! De tal maneira que, por causa disso, o senhor, no fundo, chegou a pensar que eu lhe falava da moradia por conta do Estado... He, he! É um trocista. Bem, não faço nada com o senhor! Ah, sim, de fato, uma palavra chama outra, um pensamento sugere outro! Foi o que o senhor disse ontem também, referindo-se à forma dos interrogatórios, não sei se sabe, dos interrogatórios... Mas que importa a forma! A forma, em muitos casos, fique sabendo, representa um absurdo. Às vezes dá mais resultado conversar amigavelmente. A forma nunca desaparecerá; a respeito disto posso eu responder-lhe; mas que é a forma, na realidade?, pergunto-lhe eu. Não é possível manietar a cada passo o juiz de instrução por causa da forma. A função do juiz de instrução é, por assim dizer, uma arte livre, no seu gênero, ou qualquer coisa do gênero... He... he... he!

Porfíri Pietróvitch parou um momento para tomar alento. Falava sem parar, atirando à toa frases ocas, e de repente soltava algumas palavras enigmáticas para, ato contínuo, continuar a despropositar desatinadamente. Agora eram já verdadeiras corridas que ele dava pelo gabinete, movimentando cada vez mais depressa as suas pernas gordalhufas, de olhos fixos no chão, com a mão direita encarapitada nas costas e agitando sem cessar a esquerda em múltiplos gestos que, de maneira espantosa, nunca correspondiam às suas palavras. Raskólhnikov observou de repente que, enquanto corria assim pela sala, parou duas vezes junto da porta, mas apenas por um momento e com a intenção de escutar... "Estará à espera de alguém?"

- Olhe, o senhor, de fato, tem razão - encareceu de novo Porfíri, alegremente, olhando para Raskólhnikov com um ar extraordinariamente bonacheirão, que o fez estremecer e ficar imediatamente desconfiado. - O senhor tem, de fato, razão em se rir das fórmulas jurídicas com tanta graça... He, he! Porque não há dúvida de que algumas das nossas fórmulas, com as suas pretensões de profundidade psicológica, são sumamente risíveis, sim senhor, e, além disso, inúteis no caso de nos coibirem demasiado. Lá isso é... Voltando novamente às fórmulas, vamos ver: suponhamos que eu reconheço ou, para melhor dizer, suspeito deste, daquele ou de outro indivíduo, como culpado de um crime, cujo processo me foi confiado... O senhor estudava Direito, não é verdade, Rodion Românovitch?

- Sim, estudava...

- Bem; pois aqui tem um pequeno exemplo que poderá ser-lhe útil no futuro... Isto é, não vá supor que eu me proponho dar-lhe lições, ao senhor, que escreveu aquele artigo sobre os crimes! Não se trata disso, mas apenas de apresentar-lhe um fato, como um pequeno exemplo... Assentemos em que eu passei a ter suspeitas deste, daquele ou daqueloutro, por me parecer que é o autor de um crime; vejamos: por que hei de eu ir incomodá-lo antes do tempo, embora possua algumas provas contra ele? Umas vezes vejo-me obrigado, por exemplo, a mandar prender um indivíduo urgentemente; mas, outras, a pessoa em questão é de outro caráter, e, de fato, por que não havia eu de dar-lhe tempo a que passeasse todavia um pouco pela cidade? He... he! Não, o senhor, eu bem vejo, não está compreendendo o que eu lhe digo, e por isso vou explicar-lho com mais clareza: se eu o mando prender demasiado cedo, presto-lhe, por assim dizer, um auxílio moral. He... he! O senhor ri-se - Raskólhnikov nem de longe pensava em rir-se, pelo contrário, rangia os dentes, não afastando o seu olhar inflamado dos olhos de Porfíri Pietróvitch. - E, no entanto, é assim, sobretudo tratando-se de alguns indivíduos, porque são tipos muito diferentes e, com eles, só a prática é que vale. O senhor há de dizer-me: e as provas? Suponhamos que as provas existam; mas repare, bátiuchka, as provas são, na sua maior parte, armas de dois gumes, e eu sou juiz de instrução, um homem fraco, reconheço-o; o que uma pessoa desejaria era estabelecer os resultados do seu processo com uma exatidão, por assim dizer, matemática; desejaria encontrar uma prova de tal natureza, qualquer coisa de gênero dois e dois são quatro. O que uma pessoa quereria seria uma prova clara e incontestável! E veja, se o prendo antes do tempo, embora eu esteja convencido de que é "ele", sou eu próprio que acabo por privar-me do meio de desmascará-lo mais à vontade; e como? Porque dessa maneira lhe destino uma posição, por assim dizer, definida; defino-o psicologicamente e tranqüilizo-o, e ele escapa-se-me e mete-se na sua concha; compreende, finalmente, que está preso. Dizem que em Sebastópol, quando do caso de Alma, algumas pessoas inteligentes temiam que o inimigo atacasse a povoação declaradamente e a tomasse de um golpe; mas, vendo que o inimigo iniciava um assédio segundo todas as regras e abria a sua primeira trincheira, as tais pessoas inteligentes alvoroçaram-se e tranqüilizaram-se; pelo menos durante dois meses a coisa dilatar-se-ia, até que a tomassem por um assalto em regra! Ri-se outra vez, duvida outra vez? Sim, é claro; também tem razão nisto. Tem razão, tem razão! Tudo isto são casos particulares, concordo com o senhor; o caso que lhe apresentei é, de fato, um caso particular. Mas repare, meu muito excelente Rodion Românovitch, é preciso lembrar-se de uma coisa; o caso geral, esse que apresenta todas as fórmulas e regras jurídicas, o que os livros consideram e escrevem, não existe na realidade, pela simples razão de que cada assunto, cada crime, por exemplo, assim que se deu na realidade, passa imediatamente a converter-se num caso particular; e às vezes em circunstâncias tais que não se parecem em nada com o anterior. Às vezes acontecem casos muito cômicos, nesse gênero. Bem; eu deixo o homem completamente só; não o prendo nem o incomodo, mas de maneira que fique sabendo, em todas as horas e em todos os minutos, ou pelo menos suspeite que eu sei tudo, que sei tudo ponto por ponto, que lhe sigo a pista dia e noite, inutilizo as suas cautelas, e viva numa eterna suspeita e medo de mim, e de tal maneira o envolvo, juro-o, que ele próprio me há de vir ter às mãos ou fará qualquer coisa que será já muito parecida com o dois e dois são quatro, isto é, que tenha uma aparência, por assim dizer, matemática... Isso é que é agradável. Isto pode dar-se com um pacóvio, mas também se dá com o nosso irmão, com um homem perfeitamente inteligente e até culto na sua especialidade, e ainda há pouco tempo se deu! Porque, caríssimo, é uma coisa muito importante saber sobre que é que uma pessoa é culta. E depois há os nervos, os nervos, de que o senhor se esquece! Porque todos eles andam hoje doentes, débeis, excitados! E a bílis, todos eles têm tanta bílis! Olhe, sou eu quem lho diz: em chegando a ocasião, pode ser esse o filão! Que pode importar-me a mim que ele ande à solta pelas ruas? Que passeie tudo o que lhe apetecer; eu não preciso de mais para saber que ele é a minha pequena vítima e que não há de escapar-me! Pois para onde poderia ele fugir? He, he! Para o estrangeiro? Para o estrangeiro poderá fugir um polaco, mas não "ele", tanto mais que eu lhe sigo a pista e tomei as minhas medidas. Iria fugir para os confins do país? Mas aí vivem os camponeses verdadeiros, autênticos russos, e um homem imbuído de cultura contemporânea há de preferir sempre ir para o presídio a suportar o convívio com uma gente que lhe é tão estranha, os nossos camponeses, he... he... he! Mas tudo isto são absurdos e superficialidades! Que vem a ser isso de fugir? Isso é pura fórmula; o essencial não é isso; não só ele não me escapa por não ter para onde fugir, como também não me escapa por razões psicológicas, he... he! Esta frasezinha, hem? Não me escapa pela lei da natureza, ainda que tivesse para onde fugir. Já reparou numa borboleta à volta da luz? Bem; pois da mesma maneira se porá ele a dar voltas e voltas em meu redor, como em torno de uma vela; a liberdade deixará de ser-lhe agradável, começará a matutar, a viver numa inquietação, a ficar preso nas suas próprias redes e a sofrer angústias mortais... E isso ainda não é tudo: ele próprio, espontaneamente, me proporcionará alguma prova matemática, do gênero de dois e dois são quatro... assim que eu lhe consinta um intervalo mais longo... E não fará mais do que traçar círculos e mais círculos cada vez mais apertados à minha volta, até que... pumba! Num desses vôos me virá cair na boca e eu engoli-lo-ei com todo o gosto, he... he! Não lhe parece?

Raskólhnikov não respondeu: continuava sentado, pálido e imóvel, contemplando com a mesma atenção concentrada o rosto de Porfíri. "Boa lição!", pensava, transido de frio. "Isto já não é nem mesmo o jogo do gato com o rato, como ontem; e não iria demonstrar-me inutilmente a sua força e... sugerir-me... é demasiado esperto para isso... Não há dúvida de que persegue outro objetivo, mas qual? Ah, é absurdo, meu caro, que tu queiras assustar-me e valer-te de estratagemas para comigo! Tu não tens provas e o homem de ontem não existe! O que tu queres é unicamente atrapalhar-me; o que queres é irritar-me adiantadamente e, uma vez que eu caia nessa disposição, deitar-me as garras; mas estás enganado, estás enganado, não hás de levar a melhor! Mas por quê, por que me espremerá ele até este ponto? Contará com os meus nervos doentes? Não, meu caro, não, estás enganado, apanhas uma desilusão, embora andes tramando alguma. Bem, vamos lá a ver o que é que andavas tramando."

E fez um esforço, juntando todas as suas energias, preparando-se para uma terrível e imprevista catástrofe. Às vezes sentia uma grande vontade de dar um salto e estrangular Porfíri ali mesmo. Já quando entrou sentira medo desses impulsos. Sentia que a boca lhe secava, que o coração lhe palpitava e que aos lábios lhe subia espuma. Mas, no entanto, decidiu calar-se e não falar senão quando chegasse a ocasião propícia. Compreendia que era essa a melhor tática dada a sua situação, porque, assim, não só se comprometia, como também, pelo contrário, incitava o adversário com o seu silêncio, e talvez ele soltasse alguma palavra imprudente. Pelo menos era o que ele esperava.

- Não; o senhor, eu bem vejo, não acredita, pensa que tudo o que eu lhe digo são graças inocentes - insistiu Porfíri tornando-se cada vez mais alegre e satisfeito e começando outra vez a dar voltas pelo seu gabinete. - O senhor, sem dúvida, tem razão, no seu ponto de vista; a mim, Deus deu-me até uma figura que só inspira aos outros idéias cômicas; sou um bobo; mas digo-lhe e repito-lhe que o senhor, Rodion Românovitch, deve perdoar-me, pois é um jovem na primeira juventude, por assim dizer, e eu sou um velho, e além disso deve perdoar-me também, visto que aprecia acima de tudo a inteligência humana, como todos os jovens. A sutileza da inteligência e as deduções abstratas da razão seduzem-no. E veja como é igual, sem tirar nem pôr, ao antigo Hofskriegsrat (1) austríaco, por exemplo, tanto quanto eu posso julgar das coisas da guerra; no papel eram eles que batiam Napoleão e o faziam prisioneiro, e ali, no seu gabinete, entregavam-se da maneira mais sutil aos seus cálculos, mas eis senão quando o general Mack se rende com todo o seu exército, he... he... he! Já vejo, já vejo, meu caro Rodion Românovitch, que se ri de mim por ser um civil e ir procurar exemplos à crônica militar. Mas que se há de fazer? É o meu fraco: morro por assuntos marciais e perco a cabeça por ler descrições de guerras... Não há dúvida de que errei a minha carreira. Devia ter ido para o Exército, é verdade. Pode ser que não tivesse sido nenhum Napoleão;

* (1) Conselho militar da Corte. (N. do T.) *

mas teria sido major, isso sim, he... he... he! Bem, pois agora, meu filho, vou dizer-lhe com todos os pormenores toda a verdade acerca do caso particular; a realidade, e a natureza também, meu caro senhor, são coisas importantes, e de vez em quando os cálculos mais sagazes falham por culpa dela. Ah! Escute um velho, que estou a falar-lhe sério, Rodion Românovitch, quando digo isto. - Porfíri Pietróvitch, apenas com trinta e cinco anos, todo ele parecia envelhecer de repente; até a voz mudara e todo ele pareceu encurvar-se. - Além disso sou um homem franco... Sou franco ou não sou? Que lhe parece? Não tem outro remédio senão reconhecê-lo; estou confiando-lhe tantas coisas desinteressadamente e sem pedir por isso recompensa alguma, he... he! Bem, continuemos; a inteligência, a meu ver, é uma coisa magnífica; é, por assim dizer, uma beleza da Natureza e uma consolação na vida; podem fazer-se com ela muitas travessuras e desorientar um pobre juiz de instrução, que, além disso, se deixou levar pela sua fantasia, como costuma acontecer sempre, pois, e aí é que está o mal, é homem! Mas o pior é que a Natureza vem em auxílio do pobre juiz! E é isso o que o jovem compreende, deslumbrado pela sua sagacidade, que salta por cima de todos os obstáculos (segundo o senhor disse ontem numa frase agudíssima e sutilíssima). Suponhamos que ele mente, refiro-me a esse indivíduo, a esse caso particular, ao desconhecido, e que mente da maneira mais astuta e sábia; qualquer pessoa poderá dizer que triunfou e se regozija com os frutos da sua esperteza, quando, de repente, catrapus! no lugar mais interessante, mais escandaloso, vai e desmaia. Admitamos que está doente, que às vezes há uma atmosfera irrespirável nas salas... Mas, apesar de tudo, apesar de tudo, isso dá que pensar! Soube fingir de uma maneira sem precedentes, mas, no entanto, não contou com a Natureza! Foi aí que veio ter toda a sua astúcia! De outra vez, seduzido pela sagacidade da sua inteligência, põe-se a troçar do homem que suspeita dele; empalidece como se fosse de propósito, ou de brincadeira; mas empalidece com demasiada naturalidade, demasiadamente a sério, e dá outra vez que pensar. Embora tenha enganado a primeira vez, durante a noite reconsidera a pergunta se não terá cometido alguma tolice! Isso acontece-lhe a cada passo! Que digo? Ele próprio toma a dianteira, começa a meter-se onde não foi chamado, põe-se a falar pelos cotovelos daquilo de que, pelo contrário, não deveria falar, atreve-se a formular hipóteses... he... he! Ele próprio se apresenta e começa a perguntar: "Por que demorarão tanto a prender-me?" He... he... he! E isto, repare bem, pode acontecer ao homem mais esperto, com as suas pretensões de psicólogo e literato. A natureza é um espelho, um espelho, e o mais transparente! Olhe para ele e veja-se, é assim mesmo! Mas por que se pôs tão pálido, Rodion Românovitch? Falta-lhe o ar, quer que abra a janela?

- Oh, não se preocupe, por favor! - exclamou Raskólhnikov, e, de repente, pôs-se a rir. - Não se incomode!

Porfíri parou diante dele, esperou um momento e, de repente, também ele, imitando-o, desatou numa gargalhada. Raskólhnikov levantou-se do divã e reprimiu de súbito aquele riso, absolutamente convulsivo.

- Porfíri Pietróvitch! - disse numa voz forte e sonora, embora mal se agüentasse sobre as pernas trêmulas. - Até que enfim vejo claramente que o senhor suspeita decididamente de mim como autor do duplo assassinato dessa velha e de Lisavieta. Aviso-o de que, por meu lado, há já muito tempo que estou farto de tudo isto. Se julga que tem o direito de perseguir-me legalmente, ou de prender-me, faça-o. Mas não lhe consentirei nem mais um momento que se ria na minha cara.

De repente, os lábios tremeram-lhe, os olhos cintilaram-lhe de raiva e quebrou-se-lhe a voz, que até ali mantivera firme.

- Não lho consinto! - exclamou, de repente, dando sobre a mesa um soco com toda a força. - Ouviu bem, Porfíri Pietróvitch? Não lho consinto! - Ah, senhor! Mas que tem, outra vez? - exclamou Porfíri Pietróvitch, aparentemente assustado. - Caríssimo Rodion Românovitch! Bátiuchka! Pai! Que lhe aconteceu?

- Não lho consinto! - tornou a gritar Raskólhnikov.

- Bátiuchka, mais baixo, que podem ouvi-lo e aparecem por aí! E depois, que lhes vai dizer? - murmurou com espanto Porfíri Pietróvitch, aproximando a sua cara da de Raskólhnikov, até roçá-la.

- Não lho consinto, não lho consinto! - repetia Raskólhnikov maquinalmente, mas de repente, também, em voz baixa.

Porfíri deu rapidamente uma meia-volta e correu a abrir a janela. - É preciso ar fresco! E também lhe convinha beber um pouquinho de água, meu querido amigo; isso é um ataque! - e correu para a porta em busca de água, embora ali mesmo, num canto, houvesse uma garrafa com ela.

- Bátiuchka, beba um gole - murmurou, aproximando-se dele com a garrafa -, talvez lhe faça bem... - o susto e a compaixão de Porfíri Pietróvitch eram tão naturais que Raskólhnikov ficou calado e a olhá-lo com uma curiosidade verdadeiramente ávida. Mas não provou a água. - Rodion Românovitch! Meu amigo! Vamos lá a ver! Parecia mesmo que perdera o juízo, afirmo-lhe! Ai, ai! Beba um golinho de água! Beba, nem que seja só um golinho!

Obrigou-o a segurar o copo de água na mão. Ele o levou aos lábios maquinalmente; mas, apercebendo-se a tempo, pousou-o com repugnância sobre a mesa.

- Foi isso mesmo, tornou a dar-lhe o ataque! O senhor, meu amigo, tornou a recair na sua doença - ponderou Porfíri com afetuosa simpatia, mas com um ar altivo. - Meu Deus! Mas é possível deixar-se arrebatar dessa maneira? Olhe, também Dmítri Prokófitch esteve a ver-me ontem... Concordo, concordo que tenho um caráter mau, antipático. Mas é preciso vermos o que ele concluiu daí! Meu Deus! Veio ver-me ontem, depois de o senhor se ter ido embora; estávamos jantando, e pôs-se a falar, e eu não podia fazer mais nada senão abrir os braços, espantado; bem, mas eu penso... Ah, meu Deus! Não viria da sua parte? Mas sente-se, bátiuchka, sente-se por amor de Cristo!

- Não, da minha parte, não! Mas sabia que ele ia vê-lo, e também por que motivo - respondeu Raskólhnikov com brusquidão.

- Sabia?

- Sabia. Que tem isso de especial?

- Vamos, meu caro Rodion Românovitch, como se eu não conhecesse também todos os seus passos! Estou informado de tudo! E para que veja: sei que foi alugar um quarto, e quase de noite, ao escurecer, e que se pôs a puxar pela campainha, e que perguntou pelo sangue, e que irritou os trabalhadores e o porteiro. Olhe, eu compreendo o seu estado de espírito naquele momento... Mas, apesar de tudo, o senhor expõe-se, simplesmente, a perder o juízo! Por amor de Deus! Olhe que pode endoidecer! A cólera arde dentro do senhor com demasiada violência, por causa das ofensas recebidas, primeiro do destino e depois dos polícias, e o senhor sonhava com obrigá-los a todos a falar, e acabar assim de uma vez, porque já está farto de todas essas parvoíces e de todas essas suspeitas. Não é verdade? Adivinhei o seu estado de espírito? Simplesmente, com isso, não só se expõe à loucura, como nos expõe ao mesmo a nós, a Razumíkhin e a mim; muito bom já é ele para que isso não lhe suceda; o senhor bem o sabe. O senhor está doente; mas ele é bom, e essa doença podia pegar-se-lhe... Olhe, bátiuchka, quando estiver mais tranqüilo, hei de contar-lhe... Mas sente-se, pelo amor de Cristo! Faça favor, descanse um pouco, está transtornado, sente-se.

Raskólhnikov sentou-se; um calafrio lhe percorreu todo o corpo. Escutava com a maior estupefação Porfíri Pietróvitch, que, assustado e solícito, o obrigava a sentar-se. Mas não acreditava em nenhuma das suas palavras, embora sentisse uma estranha inclinação para acreditar nelas. Sobressaltou-se com a inesperada alusão de Porfíri ao aluguel do quarto: "Como é possível que ele saiba isso do quarto?", pensou de repente. "Foi ele próprio quem me falou isso!"

- Sim, senhor, já uma vez encontrei um caso semelhante, psicológico, na minha vida judicial, um caso assim doentio - prosseguiu Porfíri, falando atabalhoadamente -, também se tratava de um indivíduo que se acusara de um crime. E de que maneira se acusara! Era vítima de um autêntico estado alucinatório, apresentou fatos, referiu todos os pormenores, despistou-os e deixou toda a gente desorientada. E, afinal, ele apenas fora, em parte, só em parte, o causador absolutamente involuntário de um crime, e quando soube que dera azo ao assassino ficou impressionado, começou a pensar, a pensar, desorientou-se e acabou por acreditar que tinha sido ele o verdadeiro criminoso. Até que o Tribunal de Cassação interveio no assunto e absolveu o infeliz, submetendo-o a uma observação. Graças ao Tribunal de Cassação! E então... então... e... e... que diz o senhor a isto, meu caro?

É que uma pessoa até pode apanhar uma febre quando tem os nervos fracos e começa a ir de noite puxar pelas campainhas e perguntar pelo sangue! Eu, repare, aprendi toda esta psicologia na prática. As vezes acontece a um indivíduo sentir a tentação de se atirar de uma janela ou do alto de uma torre, e essa sensação tem algo de sedutora... Pois pode dizer-se o mesmo disso de puxar pelas campainhas... É uma doença, Rodion Românovitch, uma doença! O senhor descuidou excessivamente a sua doença. Devia ter consultado um médico experimentado e não esse tipo gordo... O senhor está delirando! Tudo o que se passa é apenas o efeito do delírio!

Por um momento, tudo se pôs a dar voltas em torno de Raskólhnikov. "E se, e se", foi o que passou pela sua cabeça, "tudo isso fosse fingido? É impossível, é impossível!", e repudiava esse pensamento, sentindo antecipadamente até que extremos a raiva e o furor podiam conduzi-lo, sentindo que se pode até enlouquecer de puro ódio.

- Eu não estava delirando, eu estava em meu perfeito juízo! - exclamou, empregando toda a capacidade da sua inteligência para ver claro no jogo de Porfíri. - No meu juízo, no meu juízo! Está ouvindo?

- Sim, compreendo e ouço. Também o senhor dizia, ontem, que não estava delirando e insistiu especialmente nesse ponto, em que não delirava! Compreendo tudo quanto o senhor possa dizer. Ah! Mas escute também, Rodion Românovitch, meu amigo, ainda que seja um só pormenor. Suponhamos que, no fundo, o senhor era de fato culpado, ou que tivesse intervindo de qualquer forma neste maldito assunto. Poderá o senhor, faça favor de mo dizer, afirmar que não tinha feito tudo isso num estado de delírio, mas, pelo contrário, em seu perfeito juízo? Mais ainda: afirmar especialmente, afirmar com essa especial teimosia... seria isso possível, seria isso possível, compreende? Mas veja: eu afirmo redondamente o contrário. Se o senhor se sentisse culpado, de qualquer modo, então, o que lhe conviria afirmar seria precisamente que, sem dúvida alguma, que diabo! estava delirando. Não é assim? Não tenho razão?

Algo de insidioso transparecia na pergunta. Raskólhnikov atirou-se para trás, para o recosto do divã, evitando Porfíri, que se inclinava para ele e o olhava perplexo, em silêncio e tenazmente.

- Agora, quanto ao senhor Razumíkhin, isto é, quanto a pôr a claro se ele veio ver-me ontem espontaneamente, por sua livre vontade ou por mandado seu, o que o senhor devia dizer era que tinha vindo espontanea mente e não por recomendação sua. Mas repare que não o disse! O senhor afirma precisamente que veio por mandado seu.

Raskólhnikov não afirmara tal coisa. Um arrepio lhe percorreu as costas. - Isso é tudo mentira - declarou lenta e debilmente, com um sorriso crispado e doloroso nos lábios. - O senhor está outra vez a querer-me demonstrar que percebe o meu jogo, que conhece de antemão todas as minhas contestações! - Ele próprio sentia que as palavras já não lhe saíam como desejava. - O senhor quer meter-me medo... e está simplesmente troçando de mim.

Continuou olhando-o fixamente enquanto dizia isso e, de súbito, nos seus olhos tornou a brilhar uma cólera imensa.

- Tudo quanto disse é mentira! - exclamou. - O senhor sabe muito bem que, para um criminoso, o melhor recurso é dizer a verdade, na medida do possível. Não acredito no que disse.

- Mas que cara o senhor faz! - riu Porfíri. - Com o senhor, meu caro, não é possível uma pessoa entender-se, o senhor é um monomaníaco. Com que então não acredita em mim? Pois eu lhe digo que acredita, que já acredita em mim um quarto de archin e hei de fazer com que acredite um archin inteiro, porque lhe tenho sincera amizade e desejo verdadeiramente o seu bem.

Os lábios de Raskólhnikov tremiam.

- Sim, lá isso é, gosto do senhor, digo-lho francamente - continuou, pegando leve, amistosamente, um braço de Raskólhnikov, um pouco acima do cotovelo -, digo-lho francamente: trate da sua doença. Além do mais, foi para isso que veio a sua família, e lembre-se dela. Tranqüilizar as pessoas da sua família e tratá-las com todo carinho é que é preciso; mas o senhor não faz outra coisa senão assustá-las...

- E, ao senhor, que lhe importa isso? Como o sabe? Segue-me a pista e pretende demonstrar-mo?

- Meu caro! Mas se eu sei tudo, pelo senhor mesmo! Por acaso não se apercebe de que no meio da sua comoção começa a dizer tudo diante de mim e dos outros? Pelo senhor Razumíkhin, Dmítri Prokófitch, soube também alguns pormenores interessantes. Não, o senhor nega, mas eu devo dizer-lhe que, devido à sua irritabilidade, apesar de toda a sua astúcia, o senhor chega até a perder a noção das coisas. Porque, vamos lá ver, embora tenhamos de voltar outra vez ao tema das campainhas: uma preciosidade dessas, um fato dessa importância (porque isso é, afinal, um fato), sou eu, o juiz de instrução, que lho revelo assim, com toda a franqueza! E o senhor não vê nada nisso? Se eu suspeitasse decididamente do senhor, conduzir-me-ia desta maneira. A mim, pelo contrário, o que me competia era começar por adormecer as suas desconfianças e não dar a entender que tinha conhecimento desse fato; procurar distraí-lo pelo lado contrário, e, de repente, aniquilá-lo com uma machadada na cabeça (segundo a sua expressão): "Olá, cavalheiro! Ora vamos ver: que era que o senhor tinha a fazer no quarto da assassinada às dez e tal da noite, quase às onze? E a que propósito veio isso de tocar a campainha e de perguntar pelo sangue? E por que procurou depois desorientar os porteiros e disse que o levassem ao comissariado, à presença do tenente?" Aí tem o senhor a maneira como eu devia ter procedido, se tivesse contra o senhor a mais leve suspeita. Devia tê-lo submetido a um interrogatório em forma, efetuar uma busca em sua casa e, além disso, mandá-lo prender... Uma vez que me conduzo de um modo tão diferente, é sinal de que não suspeito do senhor de maneira nenhuma. O senhor perdeu a noção das coisas e não vê nada de nada, repito-lhe.

Todo o corpo de Raskólhnikov estremeceu, de tal maneira que Porfíri o notou claramente.

- Tudo quanto diz é mentira! - exclamou. - Não sei qual o fim com que o faz; mas não faz mais nada senão mentir... Há pouco, não me falava dessa maneira, e eu não devo estar enganado... O senhor mente!

- Eu minto? - insistiu Porfíri, exaltando-se aparentemente, mas sem perder o seu aspecto jovial e brincalhão e sem se preocupar absolutamente nada com a opinião que dele pudesse fazer o senhor Raskólhnikov. - Eu minto? Vamos lá a ver como é que eu (eu, o juiz), há pouco, me conduzi para com o senhor, indicando-lhe e proporcionando-lhe todos os meios para a sua defesa e apontando-lhe todas essas demonstrações psicológicas: doenças... que diabo! o delírio, o amor-próprio ofendido, a melancolia, e, para cúmulo, todos esses polícias... e tudo o mais. Não foi isto? He, he, he! Embora, no fim de conta (não lho ocultarei), todos esses meios psicológicos de defesa, pretextos e subterfúgios sejam muito inconsistentes e semelhantes a espadas de dois gumes. "Doença, ó diabo! delírio, sonhos, tive uma alucinação, não compreendo...", tudo isto está muito bem; mas vamos lá ver: por que é que, meu caro, admitindo embora a doença e o delírio, lhe sucedeu ter precisamente essas alucinações e não outras? Porque, afinal, podia ter tido outras. Não é assim? He, he, he!

Raskólhnikov lançou-lhe um olhar orgulhoso e de desprezo.

- Em resumo - disse com altivez e em voz forte, levantando-se e dando, ao fazê-lo, um pequenino empurrão a Porfíri -, em resumo, eu quero saber: reconhece-me definitivamente fora de toda a suspeita ou não? Fale, Porfíri Pietróvitch, fale redonda e categoricamente, e já, neste momento!

- Mas que trabalho! Mas que trabalho que o senhor me dá! - exclamou Porfíri com uma cara perfeitamente jovial, insidiosa e sem ponta de inquietação. - Mas que quer o senhor saber, que quer o senhor saber com tanto empenho, se ainda não começaram a maçá-lo? Olhe, o senhor é como uma criança brincando com fogo. Mas por que se preocupa tanto? Por que me fez essa pergunta e com que razão? Hem? He, he, he!

- Repito-lhe - exclamou Raskólhnikov com veemência - que não posso suportar mais...

- Mas o quê? A incerteza? - interrompeu-o Porfíri.

- Não me exaspere! Não quero! Digo-lhe que não quero! Não posso nem quero! Ouça bem! Ouça-me bem! - gritou, tornando a descarregar um soco sobre a mesa.

- Mais baixo, mais baixo! Olhe que podem ouvi-lo! Previno-o seriamente. Domine-se. E não estou brincando! - declarou Porfíri em voz baixa; mas, dessa vez, o seu rosto não tinha aquela expressão efeminada, bonacheirona e açodada de há pouco, e, pelo contrário, agora mandava severamente, franzindo o sobrolho e como se descobrisse de uma só vez todos os seus mistérios e todas as suas ambigüidades. Mas isso durou apenas um instante.

O encolerizado Raskólhnikov ia entregar-se a um verdadeiro acesso de furor; mas, coisa estranha, voltou outra vez a obedecer à intimação de falar baixo, apesar de se encontrar em pleno paroxismo.

- Eu não me deixo torturar! - murmurou de repente, como há pouco, apercebendo-se imediatamente, com dor e cólera, de que não pudera deixar de se submeter àquela ordem, pensamento que aumentava a sua fúria. - Mande-me prender, efetuar uma busca em minha casa; mas faça tudo isso segundo as regras, em vez de brincar comigo! Não se atreve, vai...

- Não se preocupe com as formalidades - atalhou Porfíri com o mesmo sorriso insidioso de antes e como se derretesse em ternura para com Raskólhnikov. - Eu, meu caro, convidei-o agora de uma maneira absolutamente familiar, amistosa.

- Eu não quero a sua amizade, cuspo em cima dela. Está ouvindo? Olhe, pego o gorro e vou-me embora. Que diz o senhor a isto, se tem a intenção de me prender?

Pegou o gorro e dirigiu-se à porta.

- Mas o senhor não quer, talvez, ter uma surpresa? - exclamou Porfíri rindo às gargalhadas e tornando a segurá-lo um pouco mais acima do cotovelo e parando mesmo junto da porta. Segundo parecia, conservava-se jovial e gracejador como antes, o que acabou de exasperar Raskólhnikov. - Qual surpresa? De que se trata? - perguntou, parando e olhando para Porfíri com medo.

- Uma surpresa que tenho preparada aí, do outro lado da porta. He, he, he! - apontou com o dedo a porta fechada do tabique que conduzia à sua residência oficial. - Até a fechei a chave para que não fugisse.

- Mas quem? Onde está? De que se trata?

Raskólhnikov aproximou-se da porta e tentou abri-la; mas estava fechada. - Está fechada; mas aqui tem a chave.

E, de fato, mostrou-lhe uma chave, que tirara do bolso.

- Tudo isso são patranhas! - gritou Raskólhnikov, já sem poder conter-se. - Estás mentindo, maldito polichinelo!

E atirou-se sobre Porfíri, que se retirava em direção à porta, mas sem dar o menor sinal de medo.

- Agora já compreendo tudo, tudo! - disse-lhe ele. - Tu mentes e irritas-me para que me entregue...

- Mas se já não é possível entregares-te mais, bátiuchka Rodion Românovitch! Olhe, o senhor está desesperado. Não grite, senão terei de chamar. - Mentes, nada se passará! Pois chama e que venham! Tu sabias que eu estava doente e querias excitar-me até me ver colérico para que eu me entregasse, era este o teu objetivo. Mas não: arranja provas! Eu compreendia tudo! Tu não tens provas, tu só tens conjeturas porcas, miseráveis, as que Zamiótov te sugeriu... Tu conhecias o meu caráter, querias lançar-me no desespero e depois me pores em poder dos popes e dos delegados... Estás à espera deles? Eh! Por que esperas? Onde é que estão? Que venham!

- Mas de que delegados está falando, meu caro? Os homens sempre têm muita imaginação! Mas se não é possível proceder de acordo com as formalidades, como diz... Olhe, meu caro, o senhor não sabe... Mas as for malidades não hão de faltar, como verá... - murmurou Porfíri, escutando à porta.

Efetivamente, naquele momento, junto da porta da outra sala ouviu-se um ruído.

- Já aí vêm! - exclamou Raskólhnikov. - Mandaste-os chamar por minha causa... Estavas à espera deles! Contavas com... Bem, pois que venham todos; delegados, testemunhas, tudo o que quiseres... Que venham. Estou pronto! Pronto!

Mas então sucedeu uma coisa estranha, algo tão inesperado no curso vulgar dos acontecimentos, que não há dúvida alguma de que nem Raskólhnikov nem Porfíri Pietróvitch podiam imaginar tal desenlace.