Lesen Sie synchronisiert mit  Deutsch  Englisch  Spanisch  Rumänisch  Finnisch  Russisch 
< Zurück  |  Vorwärts >
Schrift: 

A manhã seguinte à explicação, para ele fatal, de Piotr Pietróvitch com Dúnietchka e Pulkhiéria Alieksándrovna provocou também em Piotr Pietróvitch uma ação libertadora. Com grande contrariedade viu-se obrigado pouco a pouco a reconhecer o fato como consumado e irrevogável, aquele mesmo fato que na noite anterior lhe parecera um acontecimento quase fantástico, e, embora desorientador, algo impossível. Toda a noite a negra serpente do amor-próprio ferido lhe mordeu o coração. Quando se levantou da cama, Piotr Pietróvitch foi imediatamente olhar-se ao espelho. Receava ter tido durante a noite um derramamento de bílis. Mas, para já, quanto a isso ia tudo bem, e quando olhou para o seu rosto digno, branco e um pouco tumefacto nos últimos tempos, Piotr Pietróvitch consolou-se quase instantaneamente, com a plena convicção de que encontraria noiva em qualquer outro lugar, sim, e até talvez de melhor posição social. Mas em seguida caiu em si e cuspiu energicamente um esguicho de saliva, com o que provocou um silencioso, mas sarcástico sorriso no seu jovem amigo e vizinho de quarto, Andriéi Siemiônovitch Liebiesiátnikov. Piotr Pietróvitch notou esse sorriso e pô-lo na conta, havia já algum tempo, muito pesada, daquele rapaz. A sua cólera redobrou quando compreendeu de repente que não devia ter dito nada a Andriéi Siemiônovitch, no dia anterior, acerca dos resultados daquela noite. Era essa a segunda tolice que cometera naquela noite, no seu arrebatamento, por causa da sua excessiva expansividade, devido à sua excitação...

Depois, durante toda essa manhã, como de propósito não fez outra coisa senão sofrer contratempo atrás de contratempo. Até no Senado o esperava um certo revés num assunto com o qual tivera muita preocupação. Irritou-o especialmente o dono da casa por ele alugada por causa do seu próximo casamento, e reparada à sua custa; o referido senhorio, um operário alemão que enriquecera, não queria de maneira nenhuma modificar o contrato que tinha sido assinado há tão pouco tempo, e exigia o cumprimento de tudo quanto nele fora combinado, em todas as suas cláusulas, apesar de Piotr Pietróvitch desejar devolver-lhe o quarto quase todo renovado. Também o armazém de móveis não se prestava, de maneira nenhuma, a devolver-lhe nem um só rublo dos que abonara para pagamento dos móveis, que ainda não tinham sido mudados para o andar: "Não hei de ir agora casar-me à força por causa dos móveis!", vociferava Piotr Pietróvitch para consigo, e, ao mesmo tempo, com uma esperança desesperada: "Mas é possível que tudo isto tenha ficado em nada, acabado irrevogavelmente? Não se poderia tentar ainda qualquer coisa?" A lembrança de Dúnietchka voltou a comovê-lo com um sedutor encanto, e não há dúvida de que se lhe tivesse sido possível, nesse momento, suprimir Raskólhnikov do mundo dos vivos só pela força da vontade, imediatamente Piotr Pietróvitch teria formulado esse voto.

"Cometi também outro erro em não lhe ter dado nenhum dinheiro", pensou, quando regressou tristemente ao tugúrio de Liebiesiátnikov. "Mas por que, o diabo me carregue, fui eu tão avarento? Nem sequer se tratava de uma questão de interesse! Eu queria mantê-las na miséria negra, depois levá-las, para que me considerassem a sua providência, e elas, em troca... Ufa! Não, se eu, durante todo este tempo, lhes tivesse dado, por exemplo, mil e quinhentos rublos para o enxoval de noiva, e algum pequeno presente, umas tantas caixinhas, estojos com objetos de toucador, jóias de cornalina, bagatelas, tudo arranjado em casa de Knop ou no armazém inglês, a coisa teria ficado mais clara e... mais séria! Não me teriam repudiado, assim, tão facilmente! Essa gente é de tal natureza que se teriam julgado infalivelmente obrigadas a devolver, em caso de ruptura, os presentes e o dinheiro, e o devolver ambas as coisas tornar-se-lhes-ia muito duro e doloroso! Além disso teriam ficado com remorsos de consciência. Que diabo, como haviam de mandar passear assim, sem mais nem menos, um homem que, até então, fora tão generoso e tão delicado! Hum! Fiz uma tolice!" E, rangendo outra vez os dentes, Piotr Pietróvitch a si mesmo se chamou imbecil... no seu íntimo, é claro.

Quando chegou a essa conclusão voltou para casa mais furioso e irritado do que quando saiu. Os preparativos para o repasto fúnebre em casa de Ekatierina Ivânovna despertaram um tanto a sua curiosidade. Já no dia anterior ouvira dizer qualquer coisa a respeito de tal repasto fúnebre, parecia-lhe até lembrar-se de que também tinha sido convidado; simplesmente as suas ocupações particulares tinham absorvido toda a sua atenção. Apressando-se a informar-se pessoalmente junto da senhora Lippewechsel, que, na ausência de Ekatierina Ivânovna (que nessa altura estava para o cemitério), se encarregara de pôr a mesa, ficou sabendo que o tal festim havia de ser solene, que quase todos os inquilinos tinham sido convidados, inclusivamente aqueles que não tinham convivido com o falecido, e que até o próprio Andriéi Siemiônovitch Liebiesiátnikov, apesar do grande aborrecimento que tivera com Ekatierina Ivânovna, e que, finalmente, ele mesmo, Piotr Pietróvitch, não só estava também convidado, como até o esperavam com grande impaciência, como ao hóspede de mais categoria. A própria Amália Ivânovna estava também convidada com muita honra, apesar dos aborrecimentos passados, e agora fazia as vezes de dona de casa e lidava, quase com prazer; além disso estava toda ataviada, embora de luto, com um vestido de seda novo, com grandes flores estampadas, de que se mostrava muito ufana. Todos esses pormenores e as informações que colheu sugeriram a Piotr Pietróvitch uma certa idéia, e dirigiu-se para o seu quarto, isto é, para o quarto de Andriéi Siemiônovitch Liebiesiátnikov, um tanto preocupado. Tudo isso porque acabava de ouvir dizer que Raskólhnikov pertencia também ao número dos convidados.

Fosse lá pelo que fosse, Andriéi Siemiônovitch não saíra de casa toda a manhã. Piotr Pietróvitch mantinha umas relações um tanto estranhas com este cavalheiro, embora naturais, de certo modo; Piotr Pietróvitch desprezava-o e aborrecia-o desmesuradamente, quase desde o próprio dia em que se instalara em sua casa; mas, ao mesmo tempo, ele lhe inspirava um certo receio. Veio hospedar-se em casa dele, quando chegou a Petersburgo, não por simples motivo de economia, embora esta fosse a razão principal, mas porque havia ainda outro motivo. Já na província ele ouvira falar de Andriéi Siemiônovitch, seu antigo pupilo, como um dos jovens progressistas mais avançados, e que desempenhava um papel importante em alguns círculos muito curiosos e já lendários. Isto impressionou Piotr Pietróvitch. Esses círculos desavergonhados, que sabiam tudo e desprezavam e denunciavam toda a gente, havia já algum tempo que metiam um certo medo a Piotr Pietróvitch, aliás um medo vago. Porque, quando estava ainda na província, não pudera de maneira nenhuma formar uma idéia justa, ainda que apenas aproximada, de tudo quanto fosse daquela índole. Ouvira dizer, como toda a gente, que existiam, sobretudo em Petersburgo, progressistas, niilistas, planeadores de reformas etc. etc.; mas, à semelhança de muitas outras pessoas, exagerava e deturpava até o absurdo a intenção e o significado de tais designações. O que maior terror lhe infundia, desde há alguns anos, era a denúncia pública, e era esse o fundamento do seu constante, exagerado desassossego, sobretudo pelo que dizia respeito aos seus sonhos de mudar as suas atividades para Petersburgo. A esse respeito estava, como costuma dizer-se, amedrontado, como se encontram às vezes as crianças. Sucedeu-lhe ter conhecimento, alguns anos antes, na província, nos começos da sua carreira, de dois casos de pessoas importantes que sofreram cruelmente por causa dos denunciadores, e dos quais tomara a defesa e fora depois recompensado com a sua proteção. Um desses casos terminou de um modo bastante escandaloso e deu muito que fazer. Eis aqui o motivo por que Piotr Pietróvitch decidira, à sua chegada a Petersburgo, averiguar imediatamente ao certo de que se tratava e, caso fosse necessário, antecipar-se aos acontecimentos e apressar-se a ganhar as simpatias das nossas novas gerações. Para isso confiava em Andriéi Siemiônovitch, e, por exemplo, quando visitou Raskólhnikov, sabia já desembaraçar-se, melhor ou pior, com algumas frases aprendidas de cor...

É claro que não tardou a considerar Andriéi Siemiônovitch um homem vulgar e ordinário. Mas isso de maneira nenhuma dissuadiu ou desencorajou Piotr Pietróvitch. Embora estivesse convencido de que os progressistas eram todos uns imbecis, nem por isso ficava mais sossegado. Pessoalmente não lhe interessavam absolutamente nada essas teorias, idéias e sistemas (com que Andriéi Siemiônovitch lhe atroava os ouvidos). A única coisa que lhe interessava esclarecer imediatamente era: "Que se passava ali? Tinham força esses indivíduos ou não tinham? Havia sobretudo razão para receio ou não havia? Se se metesse em qualquer coisa, denunciá-lo-iam ou não? E, se denunciavam, por que, concretamente, e por que, em particular, costumavam denunciar agora?" Mas isso era pouco: "Não haveria maneira de fingir perante eles e de enganá-los, se tivessem realmente força? Era necessário fazê-lo ou não? Não poderia, por exemplo, valer-se deles para prosperar na sua carreira?" Em resumo, tinha uma quantidade de problemas.

Aquele Andriéi Siemiônovitch era um homem achacado e escrofuloso, baixinho, e fora funcionário em qualquer lugar; era de um louro claro, com suíças em forma de costeleta, de que se orgulhava muito. Além disso tinha quase sempre os olhos doentes. Tinha um caráter demasiado brando, mas, às vezes, falava com muita dignidade e até com grande altivez... o que, dado o contraste com a sua pequena figura, o tornava quase sempre ridículo. E em casa de Amália Ivânovna era considerado um dos hóspedes mais distintos, visto que não se embebedava e pagava pontualmente. Apesar de todas essas boas qualidades, Andriéi Siemiônovitch era, de fato, um imbecil. Aderia ao progresso e à nova geração... apaixonadamente. Pertencia a essa inúmera e variada legião de indivíduos medíocres, de fracassados vulgares que não aprenderam nada a fundo, que aderem de um momento para o outro às idéias que estão na moda, para logo em seguida a degradarem e desacreditarem e, num abrir e fechar de olhos, ridicularizarem tudo quanto anteriormente apoiaram, ainda que fosse da maneira mais sincera.

Aliás, Liebiesiátnikov, apesar de ser muito bonacheirão, começava já também a não poder suportar o seu companheiro de quarto e antigo tutor, Piotr Pietróvitch. Fora, dos dois lados, algo de inicial e recíproco. Por muito ingênuo que Ándriéi Siemiônovitch fosse, começava, no entanto, a ver que Piotr Pietróvitch estava a enganá-lo e que, no seu íntimo, o desprezava, e que não era de maneira nenhuma o homem que aparentava. Tentou expor-lhe o sistema de Fourier e a teoria de Darwin; mas Piotr Pietróvitch, sobretudo desde há algum tempo, costumava escutá-lo com uma expressão demasiado sarcástica, e, ultimamente... até começara a contradizê-lo. O caso era que ele, no fundo, começara a compreender instintivamente que Liebiesiátnikov não só era um tipo vulgar, grosseiro, como era também um embusteirozinho que estava muito longe de possuir relações de importância, mesmo no seu próprio círculo, e que até apenas sabia as coisas por vias indiretas; e, como se isso ainda fosse pouco, não compreendia, além disso, como devia ser a sua missão de "propagandista", porque às vezes descaía-se, e portanto... como poderia ser tomado por denunciador?

A propósito: note-se, de passagem, que Piotr Pietróvitch durante essa semana e meia aceitara com gosto, sobretudo ao princípio, os mais estranhos elogios de Ándriéi Siemiônovitch, isto é, não fazia objeções, por exemplo,

e ficava calado quando Andriéi Siemiônovitch lhe atribuía a capacidade de contribuir para a futura e rápida organização da nova comuna em qualquer parte da rua Miechtchánskaia, ou, por exemplo, a capacidade de não levantar dificuldades nenhumas a Dúnietchka, se esta tivesse o capricho de arranjar um amante logo no primeiro mês de casada, ou de não batizar os seus futuros rebentos etc. etc., e outras coisas do gênero. Segundo o seu costume, Piotr Pietróvitch não punha objeção alguma a essas qualidades que lhe atribuíam, e deixava-se lisonjear inclusivamente dessa maneira... A tal ponto todas as lisonjas lhe eram agradáveis.

Piotr Pietróvitch, que por qualquer razão trocara nessa manhã vários títulos de cinco por cento, estava sentado à mesa contando maços de notas e de papéis de crédito. Andriéi Siemiônovitch, que por essa altura não tinha quase dinheiro nenhum, passeava no quarto de um lado para o outro e parecia olhar todos esses maços com indiferença e até com desprezo. Por nada deste mundo Piotr Pietróvitch teria acreditado que Andriéi Siemiônovitch fosse capaz de olhar com indiferença todo aquele dinheiro; por seu lado, Andriéi Siemiônovitch pensava com amargura que, no fundo, Piotr Pietróvitch era muito capaz de pensar isso dele e até talvez de alegrar-se por poder fazer-lhe inveja e humilhar o seu jovem amigo com aqueles maços de valores ali exibidos, recordando-lhe a sua insignificância e toda a distância que existia entre os dois.

Aconteceu, porém, encontrá-lo dessa vez nervoso e desatento mais do que nunca, apesar de ele, Andriéi Siemiônovitch, se ter posto a desenvolver na sua presença o seu tema favorito, a organização da nova comuna especial. Objeções bruscas e certas observações lançadas por Piotr Pietróvitch, enquanto ia fazendo mover as bolinhas do seu ábaco, deixavam transparecer o mais aguerrido e intencionalmente grosseiro sarcasmo. Mas o "humanitário" Andriéi Siemiônovitch atribuía essa disposição de espírito de Piotr Pietróvitch à impressão que na noite anterior lhe deixara a ruptura com Dúnietchka, e ardia no desejo de tocar o mais brevemente possível no assunto; tinha umas palavras a dizer a esse respeito que servissem de consolo ao seu estimado amigo e redundassem infalivelmente em proveito da sua evolução ulterior.

- Que preparativos de festim fúnebre são esses que fazem aí... no quarto da viúva? - perguntou, de repente, Piotr Pietróvitch, interrompendo Andriéi Siemiônovitch no passo mais interessante.

- O quê?! Não sabe? Mas eu não lhe falei ontem desse tema e não lhe expus as minhas idéias acerca de todas essas cerimônias? Pois olhe que ela também o convidou, segundo ouvi dizer. Além disso, o senhor esteve ontem falando com ela...

- Nunca eu imaginaria que a imbecil dessa pobretona fosse capaz de gastar tanto dinheiro nessa comezaina, dinheiro que talvez lhe tenha dado esse outro palerma do Raskólhnikov. Há pouco, até fiquei admirado, quando passei; mas que preparativos... até vinhos caros! Convidaram algumas pessoas... Sabe-se lá quem! - continuou Piotr Pietróvitch, que fizera aquela pergunta e entabulara este diálogo com alguma intenção. - O quê? Que me diz? Que eu também fui convidado? - acrescentou, de repente, erguendo a cabeça. - Quando é que foi isso? Não me lembro. Aliás, não irei. Que tenho eu a fazer ali? Ontem falei com ela, de passagem, da possibilidade de que lhe dessem, na sua qualidade de viúva pobre dum funcionário, um ano de ordenado a título de gratificação única e definitiva. Seria talvez por isso que ela me convidou... He... he!

- Eu também não tenciono ir - disse Liebiesiátnikov.

- Era o que faltava! Depois de lhe bater com as próprias mãos! Compreende-se que esteja ofendida, he... he... he!

- Quem é que lhe bateu? A quem? - interveio Liebiesiátnikov com vivacidade, e até se ruborizou.

- O senhor, a Ekatierina Ivânovna, haverá um mês. Soube disso ontem... Ora veja lá, com as suas idéias! É assim que os senhores resolvem a questão feminina. He... he... he!

E Piotr Pietróvitch, como se tivesse ficado consolado com isso, embrenhou-se outra vez nas suas contas.

- Tudo isso é um disparate e uma calúnia! - replicou furioso Liebiesiátnikov, que tinha muito medo de que lhe trouxessem à luz esta história. - Não se passou nada disso! Foi uma coisa muito diferente... O senhor não compreendeu bem. Intrigas! A única coisa que eu fiz, simplesmente, foi defender-me. Foi ela a primeira a atirar-se sobre mim, com unhas e dentes... Arrancou-me um cabelo inteiro. Parece-me que todas as pessoas têm o direito de defender o seu físico. Além disso, eu não autorizo ninguém a empregar comigo a violência... É uma questão de princípio. Porque isso é um despotismo. Que havia eu de fazer, ficar quieto? O que eu fiz foi apenas repeli-la...

- He... he... he! - continuou Lújin com um risinho maldoso.

- O senhor está querendo pegar comigo, assim, porque está aborrecido e de mau humor... Mas isso é um absurdo e não tem absolutamente, absolutamente relação nenhuma com o problema da mulher. O senhor ouviu mal; eu até pensava que, se era uma coisa já admitida que a mulher é igual ao homem em tudo, até na força, segundo afirmam, então não há outro remédio senão aceitar também a igualdade nesse terreno. É claro que depois há de vir a compreender que, na realidade, esse problema não deve existir, pois não deve haver lutas, e não devemos pensar que venham a existir na sociedade futura... de onde se vê que é um pouco estranho procurar a igualdade numa peleja. Eu não sou tão tolo... embora, aliás, lutas, se as há... isto é, depois não hão de existir, mas, por agora, ainda as há... Ufa! Que diabo! Uma pessoa, com o senhor, fica estonteada! Não seria por ter havido entre nós esse pequeno aborrecimento que eu deixaria de ir ao banquete. Não vou simplesmente por uma questão de princípio, para não tomar parte nesse indigno preconceito dos banquetes fúnebres, e nada mais! Se bem que, no fim de contas, ainda pode ser que vá, ainda que seja só para me rir um pouco. Mas é pena que não venham popes. Nesse caso é que eu iria infalivelmente.

- Isto é, ia comer o pão e o sal alheios e cuspir em cima deles, e ao mesmo tempo naqueles que o convidaram, não é?

- Cuspir, não, nada disso, mas protestar. Eu persigo um fim útil. Eu posso, de uma maneira indireta, contribuir para a evolução e para a propaganda. Todos nós temos obrigação de fomentar a cultura e a propaganda, e talvez quanto mais rudemente, melhor. Eu posso semear a idéia, a semente... Dessa semente brotará o fato. A quem ofendo eu com isso? A princípio dar-se-ão por ofendidos, mas depois eles mesmos hão de ver que eu lhes trago qualquer coisa de proveitoso. Bem vê, a Tieriébieieva foi acusada (aquela que pertence agora à comuna) de sair de casa e... de se entregar a um homem, de escrever aos pais dizendo que não queria viver no meio de preconceitos, de se casar só pelo civil, e de que isto era tratar com demasiada dureza os pais, e diziam que podia tê-los tratado com mais consideração e escrito em termos mais suaves. A meu ver, tudo isso são disparates, e não havia absolutamente nenhuma razão para ela lhes escrever com mais brandura, até pelo contrário, até pelo contrário, visto que se tratava de protestar. Repare: a senhora Varents viveu sete anos com um homem, abandonou os dois filhos e terminou de uma vez com o marido escrevendo-lhe isto: "Reconheço que não posso ser feliz com o senhor. Nunca lhe perdoarei o ter-me enganado, escondendo-me que existia outra organização social: a comuna. Soube disto há pouco tempo por um homem generoso, ao qual me entreguei, e, juntamente com ele, fundarei uma comuna. Falo-lhe francamente, porque considero pouco honesto enganá-lo. Arranje-se como puder. Não espere ver-me voltar para o seu lado, pois é demasiado reacionário. Desejo-lhe felicidades". É assim que se escreve esse gênero de cartas!

- Essa Tieriébieieva é a mesma de que o senhor me contou uma vez que contraíra três uniões livres?

- Não passou da segunda, se virmos as coisas como devem ser. Mas ainda que tivesse chegado à quarta, ainda que tivesse chegado à décima quinta, tudo isso são disparates! E, se alguma vez eu senti pena por meus pais já não serem vivos, foi por certo agora. Algumas vezes imagino que se eles ainda fossem vivos havia de lhes apresentar um protesto. E havia de fazê-lo intencionalmente... Até haviam de ficar banzados! Eu lhes mostraria... É pena que já não estejam mais aqui!

- Para ficarem banzados? He... he! Bem, o senhor pode fazer o que lhe apetecer - acrescentou Piotr Pietróvitch -, mas ouça, diga-me uma coisa: conhece essa moça, a filha do falecido, essa magricela? É verdade o que dizem dela?

- E então? Segundo a minha opinião pessoal, a sua situação é a situação mais normal que existe para a mulher. Por que não havia de sê-lo? Isto é, distinguons (1). Na sociedade atual, não há dúvida nenhuma que não é absolutamente normal, porque é uma situação forçada, mas na sociedade futura será completamente normal, porque será livre. Mas, mesmo agora, estava no seu direito; sofria, e isso constitui, por assim dizer, os seus fundos, o seu capital, do qual tinha o pleno direito de dispor. É claro que na sociedade futura não existirá o capital; mas a sua profissão poderá ser designada por outro nome e regulada de maneira racional e normal. Pelo que se refere pessoalmente a Sófia Siemiônovna, nos tempos atuais, eu considero o seu procedimento um enérgico e concreto protesto contra a estrutura da sociedade, e respeito-a profundamente por isso; até sinto alegria em olhá-la!

- Pois a mim contaram-me que o senhor, quando ela começou, fez com que a expulsassem daqui!

Liebiesiátnikov fez-se vermelho de cólera.

- Isso é outro mexerico! - gritou. - Nada disso, de maneira nenhuma, de maneira nenhuma! Tudo isso foi obra de Ekatierina Ivânovna, porque não compreende nada! Se calhar fiz alguma vez a corte a Sófia Siemiônovna, não? Eu apenas procurei instruí-la, de uma maneira completamente desinteressada, esforçando-me por despertar nela a atitude de protesto... O meu único fim era o protesto, e a própria Sófia Siemiônovna compreendeu muito bem que não podia continuar aqui.

- Destinava-se à comuna, não é verdade?

- O senhor faz chacota de tudo e de maneira que não vem nada a propósito, deixe que lhe diga! O senhor não percebe nada! Na comuna não existe essa profissão. A comuna funda-se para que não haja essa profissão. Na comuna essa profissão perde todo o seu significado, e o que aqui é uma coisa estúpida, ali é inteligente, e o que aqui, nas circunstâncias atuais, é antinatural, ali é qualquer coisa de naturalíssimo. Tudo depende do ambiente, do meio em que o homem se encontra; tudo consiste no meio; o homem, em si mesmo, não é nada. Dou-me agora muito bem com Sófia Siemiônovna, o que deve servir para demonstrar-lhe que ela nunca me considerou nem seu inimigo nem seu ofensor. Aí é que está! Agora procuro atraí-la para a comuna, mas com outro objetivo, absolutamente, absolutamente. Por que se ri? Nós queremos estabelecer a nossa comuna especial, mas sobre bases mais amplas que as anteriores. Nós vamos mais longe! Se Dobrolíubov pudesse levantar-se do túmulo, teria muito que ver! E Bielínski também teria de nos ouvir! Mas, no momento, continuo a instruir Sófia Siemiônovna. Tem uma belíssima alma, belíssima!

- Claro; e o senhor aproveita-se dessa alma belíssima... não? He... he!

* (1) Distingamos. (N. do T.) *

- Não, não! Oh, não! Pelo contrário!

- Bem; pelo contrário! He... he... he! É ele quem o diz!

- E pode acreditar-me! Por que razão havia eu de andar com segredinhos para com o senhor, não quer fazer o favor de me dizer? Pelo contrário, eu próprio acho isso estranho: ela se conduz para comigo de maneira um pouco forçada, mostra-se tímida e envergonhadinha!

- E o senhor, naturalmente, vai instruindo-a... He... he! Trata de demonstrar-lhe que todos esses pudores são absurdos!

- Nada disso! De maneira nenhuma! Oh, desculpe, mas que grosseria, quão estupidamente compreende o senhor a palavra instruir! O senhor não percebe nada! Oh, meu Deus, como o senhor está ainda mal preparado! Nós procuramos a liberdade da mulher, e o senhor só pensa numa coisa... Pondo de parte a questão da castidade e do pudor femininos, como coisas inúteis e até preconceituosas, eu compreendo plenamente, plenamente, a sua reserva para comigo, porque... essa é a sua vontade e está no seu direito. Claro que se ela própria me dissesse: "Quero que sejas meu!", eu, então, consideraria isso um grande triunfo, porque a moça agrada-me extraordinariamente; mas, até agora, até agora, pelo menos nunca ninguém a tratou com mais deferência e respeito do que eu, com mais consideração pela sua dignidade... Eu aguardo e espero! Eis tudo!

- O senhor devia oferecer-lhe de vez em quando algum presentezinho. Ia jurar que o senhor nunca se lembrou disso...

- O senhor não percebe nada, repito-lhe! Claro que a sua situação é de tal índole, mas... isso é outra questão! Completamente diferente! E o senhor despreza-a, simplesmente! Referindo-se a um fato que erroneamente considera digno de desprezo, o senhor está a negar consideração humana a um ser humano. O senhor ainda não conhece a sua natureza! A única coisa que me custa é que nos últimos tempos ela tenha deixado de ler e já não me peça livros. Dantes emprestava-lhos. Também tenho pena que, apesar de toda a sua energia e resolução para protestar, que já uma vez revelou, sofra ainda de uma certa falta de firmeza, por assim dizer, de falta de independência, de pouca decisão para romper de uma vez com todo gênero de preconceitos... e de estupidez. Mas, apesar disso, ela compreende muito bem algumas questões. Compreende magnificamente, por exemplo, a questão do beija-mão, isto é, que um homem ofende moralmente uma mulher ao beijar-lhe a mão. Essa questão foi muito discutida entre nós e eu expus-lha logo a ela. Escutou também com muita atenção tudo quanto respeita às associações operárias da França. Agora ando a explicar-lhe a questão referente à entrada livre nos quartos da sociedade futura. - Que questão é essa?

- Uma questão que tem sido ultimamente muito discutida: se um membro da comuna deve ter ou não o direito a entrar a qualquer hora no quarto de outro membro, homem ou mulher... Acabou por ficar decidido que sim, que tinha...

- Mesmo que nesse preciso instante se entregassem a alguma necessidade imprescindível? He... he!

Andriéi Siemiônovitch acabou por ficar aborrecido.

- O senhor vem sempre com essas malvadas "necessidades"! - exclamou, mal-humorado. - Arre! E que raiva me dá e como me contraria que, ao expor-lhe o sistema, lhe mencionasse antecipadamente essas mal ditas necessidades! Raios me partam! Essa é a pedra de toque para todos os que se parecem com o senhor, e o pior de tudo... é que se põem a falar antes de se terem informado do assunto a fundo! Quem o ouvisse havia de dizer que tem razão! E ficam todos ufanos, como se tivessem razão! Ufa! Eu já afirmei várias vezes que toda esta questão não se pode expor aos noviços, mas sim aos mais antigos de todos, quando se tenham formado já em homens bem informados e convictos. Além disso, será capaz de me dizer o que encontra, assim, de tão vergonhoso e desprezível nas latrinas? Eu sou o primeiro que está disposto a limpar as latrinas todas que o senhor quiser. Nisso não há o menor sacrifício! Isso é, simplesmente, um trabalho, uma atividade honesta, útil à sociedade, tão digna como qualquer outra e até mais elevada do que a de um Rafael ou Púchkin, visto que é mais útil. - E mais nobre, mais nobre... He... he!

- Que é isso de mais elevada? Eu não compreendo tais expressões aplicadas a um determinado trabalho do homem. "Mais nobre, mais generoso"... Tudo isso são absurdos, tolices, velhas palavras preconceituosas que eu abomino! Tudo o que é útil à humanidade nobre. Eu só compreendo uma palavra: útil! Ria-se o que quiser, mas é assim!

Piotr Pietróvitch ria-se a bandeiras despregadas. Já acabara de contar e guardar o dinheiro, embora houvesse ainda um resto sobre a mesa. Aquela questão das latrinas já por várias vezes fora motivo de ruptura e de desentendimento, apesar da sua vulgaridade, entre Piotr Pietróvitch e o seu jovem amigo. A estupidez do caso estava em que Andriéi Siemiônovitch chegava a ficar zangado a sério. Lújin, pelo contrário, aliviava assim o espírito, e presentemente sentia uma vontade especial de irritar Liebiesiátnikov.

- O senhor está assim, tão mal-humorado, por causa do seu insucesso de ontem - exclamou finalmente Liebiesiátnikov, o qual, para falar em termos gerais, apesar de toda a sua "independência" e de toda a sua atitude de protesto, parecia não ousar fazer frente a Piotr Pietróvitch e ainda lhe guardava algum daquele respeito que noutro tempo lhe tivera:

- Deixe lá essas coisas e diga-me - interrompeu-o Piotr Pietróvitch altivamente e com mau modo - se poderia... ou, para melhor dizer, se efetivamente tem tanta amizade com essa moça a que há pouco se referiu, pedir-lhe que venha aqui um momento... Segundo parece, já regressaram todos do cemitério... Ouvi barulho de passos... Convinha-me muito falar com essa criatura.

- O senhor, por quê? - perguntou Liebiesiátnikov assombrado.

- Sim, tenho necessidade. Tenho de me ir embora, ou hoje ou amanhã, e desejaria comunicar-lhe... Aliás, pode assistir ao nosso encontro. Até será melhor. Sabe Deus o que o senhor pode imaginar...

- Eu não imagino absolutamente nada... Só lhe pergunto se o deseja realmente, porque, nesse caso, nada mais fácil do que trazê-la aqui. Eu venho já. Pode ficar descansado que não os incomodarei.

De fato, cinco minutos depois já Liebiesiátnikov ali estava outra vez com Sônietchka. Esta entrou, muito espantada, e, segundo o seu costume, no maior sobressalto. Ficava sempre muito sobressaltada nestes casos e tinha sempre muito medo de encontrar caras novas e novos conhecimentos; desde a infância que os temia, e agora mais do que nunca... Piotr Pietróvitch dispensou-lhe um acolhimento afetuoso e cortês, embora com certos laivos de familiaridade alegre, que em sua própria opinião ficava muito bem a um homem tão respeitável e sério como ele, no trato com uma pessoa tão nova e, em certo sentido, tão interessante como aquela. Apressou-se a animá-la e fê-la sentar junto da mesa, em frente dele. Sônia sentou-se e olhou em redor, fixando a vista... em Liebiesiátnikov, no dinheiro que ficara em cima da mesa, e depois tornou outra vez a pousá-lo em Piotr Pietróvitch, e já não desviou os olhos dele, como se alguma coisa os fixasse sobre a sua figura. Liebiesiátnikov fez menção de se dirigir para a porta. Piotr Pietróvitch levantou-se, fez sinal a Sônia para que continuasse sentada e fez parar Liebiesiátnikov, que ia saindo.

- Está aí um tal Raskólhnikov? Veio? - perguntou em voz baixa. - Raskólhnikov? Sim, está aí. Por quê? Sim, ali o tem... Chegou apenas há um momento; já o vi... Mas por que pergunta isso?

- Bem, peço-lhe que fique aqui conosco e não me deixe a sós com essa... moça. Trata-se de um assunto sem importância, mas sabe Deus o que seriam capazes de dizer. Não quero que Raskólhnikov vá para ali dar à língua... Está percebendo?

- Estou, estou! - de súbito, Liebiesiátnikov adivinhou. - Sim, tem razão... Em minha opinião o senhor leva as suas apreensões longe demais, mas... no entanto, tem razão. Fico, com sua licença. Fico aqui, junto da janela, e não os estorvo... A meu ver, o senhor tem razão...

Piotr Pietróvitch voltou para o divã, sentou-se em frente de Sônia, olhou-a atentamente e, de repente, tomou um ar seríssimo e até um tanto severo: "Ó diabo, que pensarás tu de tudo isso, moça?" Sônia acabou por ficar completamente alvoroçada.

- Em primeiro lugar, há de pedir desculpa por mim, Sônia Siemiônovna, perante a sua respeitabilíssima mamã... É assim, não? Ekatierina Ivânovna faz as vezes de sua mãe, não é verdade? - começou Piotr Pietróvitch muito seriamente, mas, aliás, bastante afetuoso. Era evidente que estava animado das melhores intenções.

- Faz, sim, senhor; faz, sim, senhor, é como se fosse minha mãe - respondeu Sônia à pressa e sobressaltada.

- Bem, pois há de pedir-lhe desculpa, por mim, perante ela, visto que, por circunstâncias que não dependem de mim, me vejo obrigado a não assistir à reunião que ela dá... isto é, ao repasto fúnebre, apesar do amável convite da sua mãe.

- Está muito bem, eu digo-lhe; vou já dizer-lho - e Sônia levantou-se do seu lugar, pressurosa.

- Ainda não lhe disse tudo - continuou Piotr Pietróvitch fazendo-a parar e sorrindo da sua simplicidade e da sua ignorância das conveniências. - Bem se vê que ainda não me conhece, amabilíssima Sônia Siemiônovna, se julga que eu ia incomodar e fazer vir aqui uma pessoa como a senhora apenas por um motivo insignificante, que só a mim diz respeito. As minhas intenções são outras.

Sônia sentou-se logo. As notas de banco de várias cores, que ainda continuavam sobre a mesa, tornaram a atrair o seu olhar, mas depois afastou imediatamente os olhos delas e ergueu-os para Piotr Pietróvitch; pareceu-lhe de repente terrivelmente indecoroso, sobretudo tratando-se dela, pousar os olhos sobre dinheiro alheio. Pousou, pois, o olhar sobre as lunetas de ouro de Piotr Pietróvitch, que este tinha na mão esquerda, e também num grande anel maciço, muito bonito, com uma pedra amarela, que ostentava no dedo anelar da mesma mão; mas também afastou daí a vista subitamente, e, sem saber já onde havia de pousá-la, acabou por fixar outra vez os olhos no rosto de Piotr Pietróvitch. Depois de uma pausa, agora ainda mais sério do que antes, aquele prosseguiu:

- Tive ontem oportunidade de trocar, de passagem, duas palavras com a infeliz Ekatierina Ivânovna. Duas palavras que foram suficientes para compreender que ela se encontra numa situação... antinatural... se é lícito exprimir-me assim.

- Sim, sim... - apressou-se Sônia concordando.

- Embora fosse mais breve e claro dizer... mórbida. - Sim, sim... mais breve e claro... pois é... mórbida.

- Pois bem; levado por um sentimento de humanidade... e... e, por assim dizer, de compaixão, eu desejaria, pela minha parte, ser-lhe útil em alguma coisa, pois vejo a sorte inevitavelmente desgraçada que ela vai ter. Segundo parece, essa misérrima família, agora, só conta consigo.

- Dê-me licença que lhe faça uma pergunta - interpôs Sônia, de repente -; foi o senhor quem ontem se dignou falar-lhe da possibilidade de uma pensão? Porque ontem mesmo me disse ela que o senhor se oferecera para procurar obter-lhe uma pensão, é verdade?

- Não é bem isso e, em certo sentido, isso é até uma tolice. Eu me limitei a falar-lhe da possibilidade de obter-lhe um socorro, por uma vez, para a viúva de um funcionário falecido no ativo, desde que ela pudesse contar com pessoas influentes; mas, segundo parece, o seu falecido pai não só não serviu o tempo necessário, como ultimamente abandonara completamente o serviço. Em resumo: ainda que possa haver esperanças, são muito inseguras, porque, na realidade, não tem nenhum direito a socorro no caso presente, e até pelo contrário... E ela já contando com a pensão, he, he, he! A senhora é desembaraçada!

- Sim, com a pensão... Porque é muito crédula e muito boa, e por ser tão boa é que acredita em tudo e... e... e... tem esse feitio... É verdade... E o senhor desculpe - disse Sônia, e dispôs-se outra vez a retirar-se.

- Dê-me licença, ainda não acabei.

- É verdade, ainda não acabou - balbuciou Sônia. - Por isso sente-se.

Sônia ficou terrivelmente sobressaltada e tornou a sentar-se pela terceira vez.

- Vendo a situação em que ela se encontra, com filhinhos pequenos, infelizes, eu desejaria... conforme disse já... ser-lhe útil em qualquer coisa, na medida das minhas forças; isto é, apenas na medida das minhas forças

e nada mais. Poderia, por exemplo, organizar uma subscrição em seu benefício, ou, por assim dizer, uma loteria... ou alguma coisa do gênero... como nestes casos costumam fazer as pessoas chegadas e até as estranhas, que desejam ajudar o próximo. Era precisamente acerca disso que eu queria falar com a senhora. Isso podia fazer-se.

- Lá isso é; está muito bem... Deus o ajude por isso... - balbuciou Sônia, olhando fixamente Piotr Pietróvitch.

- A coisa é viável, mas... depois falaremos disso; isto é, poder-se-ia começar hoje mesmo. Esta noite encontrar-nos-emos, trocaremos impressões e lançaremos, por assim dizer, os fundamentos. Venha aqui esta noite às sete. Espero que Andriéi Siemiônovitch esteja também presente... Mas há uma circunstância de que é preciso tratar previamente com toda a atenção. Foi por isso que a incomodei precisamente, Sônia Siemiônovna, ao pedir-lhe que passasse por aqui. A minha opinião concreta... é que é impossível e também perigoso entregá-lo nas mãos de Ekatierina Ivânovna; a prova disso... é esse mesmo ágape que hoje se realiza. Não conta, por assim dizer, com uma côdea de pão para o dia seguinte, e... nem sequer com um par de meias, mas hoje comprou rum da Jamaica e, segundo parece, até vinho Madeira e café. Vi tudo isso quando passei. Amanhã todos voltarão a ficar a seu cargo e terá de prover a todas as suas necessidades, arranjar-lhes até o último pedaço de pão, o que é um absurdo. Por esse motivo, em minha opinião pessoal, a subscrição deverá fazer-se de maneira que a pobre viúva, por assim dizer, não tome conhecimento da sua existência, e seja, por exemplo, a menina a única pessoa a sabê-lo. Acha bem?

- Eu não sei. Ela só fez isso hoje... uma só vez na vida... Tinha muita vontade de honrar a memória do falecido... e é muito inteligente. Mas eu farei o que o senhor me disser e ficar-lhe-ei muito, muito, muito... e todos lhe ficarão muito... e Deus também... e os orfãozinhos...

Sônia não conseguiu acabar de falar e começou a chorar...

- Bem, não se esqueça do que acabamos de dizer; e agora queira aceitar esta quantia, pela primeira vez, para sua mãe, o que representa a minha contribuição pessoal para a subscrição. E desejaria muito que não se fizessem referências ao fato. Aqui tem... Como tenho também os meus encargos, não estou em condições.

E Piotr Pietróvitch estendeu a Sônia uma nota de dez rublos bem aberta. Sônia pegou nela, corou, balbuciou umas palavras e apressou-se a fazer-lhe uma reverência. Piotr Pietróvitch acompanhou-a até a porta com muita solenidade. Ela saiu finalmente daquele quarto, muito comovida e admirada, e voltou para junto de Ekatierina Ivânovna na maior perturbação. Durante todo o tempo que esta cena durou, Andriéi Siemiônovitch ou permanecia junto da janela ou dava voltas pelo quarto para não interromper o diálogo; assim que Sônia saiu, aproximou-se imediatamente de Piotr Pietróvitch e estendeu-lhe solenemente a mão.

- Ouvi tudo e vi tudo - disse, acentuando a última palavra de maneira especial. - Isso é nobre, isto é, humano. O senhor queria evitar a gratidão que eu bem vi. E, confesso-lhe, se bem que, por princípio, não admita a caridade privada, porque não só não extirpa radicalmente o mal como até o fomenta, não posso, no entanto, deixar de reconhecer que vi o seu procedimento com satisfação... Sim, senhor, foi uma coisa simpática.

- Tudo isso é absurdo! - murmurou Piotr Pietróvitch um tanto comovido e como se olhasse com certo receio para Liebiesiátnikov.

- Não, não é absurdo. Um homem que, ofendido e amargurado, como o senhor, por causa do que aconteceu ontem, ainda é capaz de pensar na desgraça alheia... um homem assim, ainda que com a sua conduta cometa um erro social... no entanto... é digno de respeito! Eu de nenhuma maneira esperava isso do senhor, Piotr Pietróvitch, tendo em conta as suas idéias, oh! e quanto o prejudicam ao senhor essas idéias! Como o perturbou aquele insucesso de ontem! - exclamou o bonacheirão do Andriéi Siemiônovitch, sentindo outra vez renascer a sua amizade por Piotr Pietróvitch. - Mas por que, por que é que o senhor, meu bom Piotr Pietróvitch, tinha tanto interesse nesse casamento legal? Por que havia o senhor de exigir infalivelmente essa legalidade no casamento? Bem, se quiser, bata-me; mas estou tão contente, tão contente, porque isso tenha falhado, porque o senhor continue a ser livre e não seja um homem completamente perdido para a humanidade... Pronto, já desabafei!

- Pois fique sabendo que é por isto: não quero que me ponham os cornos com esse tal amor livre, nem quero manter filhos alheios; por isso é que eu exijo o casamento legal - disse Lújin, para responder qualquer coisa. Estava muito preocupado e pensativo.

- Filhos? O senhor falou em filhos? - exclamou Andriéi Siemiônovitch dando um pulo como um cavalo de guerra que ouve um clarim bélico. - Filhos! Eis aí um problema social e um problema de capital importância, concordo; mas esse problema dos filhos resolve-se de outra maneira. Alguns não só repudiam essa idéia de ter filhos, como toda e qualquer alusão à família. Mas deixemos os filhos para depois e vamos agora aos cornos. Confesso-lhe que esse é o meu ponto fraco. Essa repugnante expressão, própria de hussardos e tão peculiar a Púchkin, também não terá sentido algum no dicionário do futuro. Que vêm a ser os tais cornos? Oh, que deturpação! Que é isso de cornos? E por que, precisamente, cornos? Que absurdo! Pelo contrário, no amor livre não os haverá. Os cornos são simplesmente a conseqüência natural de todo matrimônio legal, são o seu corretivo, por assim dizer, o protesto, de maneira que, neste sentido, não têm nada de humilhantes... E se eu alguma vez (suposição absurda) me chegar a casar legalmente, até terei muita honra nesses malvados cornos; nesse caso, direi à minha mulher: "Minha amiga, até hoje, a única coisa que sentia por ti era amor; mas, agora, também te respeito, pois tiveste coragem para protestar". O senhor ri-se? Isso é porque não tem coragem para se desprender dos preconceitos. Raios me partam, mas eu vou explicar em que consiste precisamente o aspecto desagradável de se ser enganado no casamento legal; mas isso é simplesmente a vil conseqüência dum ato reles, no qual são ambos humilhados. Quando os cornos se trazem à luz do dia, como no amor livre, então não existem, são uma coisa sem sentido e até perdem o nome de cornos. Pelo contrário, a sua mulher demonstrar-lhe-á lindamente quanto o respeita ao julgá-lo incapaz de se opor à sua infelicidade, e bastante culto para não se vingar dela lá porque tenha arranjado um novo esposo. Raios me partam, mas às vezes sonho que, se me dessem uma mulher, livra! se me casasse (dentro do amor livre ou legalmente, tanto faz), eu próprio levaria um amante a minha mulher, se ela não se decidisse a procurá-lo. "Minha amiga", havia de dizer-lhe eu, "eu te amo, mas, além disso, quero que tu me estimes... é assim mesmo." Está certo ou não está?

Piotr Pietróvitch pôs-se a rir, enquanto o escutava, mas sem nenhum prazer especial. Não lhe tinha dado até uma grande atenção. De fato, parecia pensar em outra coisa, e o próprio Liebiesiátnikov acabou por reparar nisso. Tudo isso veio Andriéi Siemiônovitch a recordar mais tarde.