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Começou então para Raskólhnikov uma estranha época; era como se uma bruma se tivesse erguido de repente diante dele, envolvendo-o numa solidão irrespirável e densa. Ao evocar mais tarde este tempo, chegou a compreender como trouxera a consciência obnubilada, e que esse estado se prolongou, com leves intervalos, até que sobreveio a catástrofe definitiva. Estava firmemente convencido de se ter enganado em muitos pontos, por exemplo, na data e duração de certos acontecimentos. Pelo menos, depois, quando recordava e se esforçava por explicar o que evocava, não eram poucas as vezes que se reconhecia guiando-se por testemunhos alheios. Confundia, por exemplo, um acontecimento com outro; ou considerava-os conseqüência de acontecimentos que só tinham acontecido na sua imaginação febril. De quando em quando apoderava-se dele uma grave e dolorosa inquietação, que chegava a degenerar em terror pânico. Mas lembrava-se também de que tinham existido minutos, horas e até dias, talvez, cheios de uma apatia que se apoderava dele como por reação contra o passado espanto; uma apatia semelhante a esse estado de alma de doentia indiferença de alguns moribundos. De maneira geral, naqueles últimos dias esforçara-se por se convencer de que compreendia clara e plenamente a sua situação; certos fatos vulgares que necessitavam de uma dilucidação imediata causavam-lhe uma preocupação especial; mas como teria ficado contente se pudesse libertar-se e evitar algumas precauções, cujo esquecimento, aliás, constituía na sua situação uma ameaça de realizada e irreparável rotina...

Era Svidrigáilov quem especialmente o assustava; poderia até dizer-se que, agora, a sua grande preocupação era Svidrigáilov. Desde que Svidrigáilov lhe dissera aquelas palavras, tão ameaçadoras para ele e demasiadamente explícitas, no quarto de Sônia, por ocasião da morte de Ekatierina Ivânovna, parecia que o curso habitual das suas idéias se interrompera. Mas, apesar de esse novo fato o inquietar sobremaneira, Raskólhnikov não tinha a mínima pressa de esclarecer o assunto. Às vezes, quando se via de súbito em qualquer bairro solitário e afastado da cidade, em qualquer tasca miserável, sozinho, sentado a uma mesa, ensimesmado e sem perceber quase como é que fora para ali, recordava-se de repente de Svidrigáilov; e logo reconhecia claramente, e com inquietação, que era preciso falar o mais depressa possível com aquele homem e, se fosse possível, pôr um remate no assunto. De uma vez, em que passeava pelos arredores, chegou até a imaginar que Svidrigáilov estava à espera dele ali e que tinham combinado um encontro naquele lugar. De outra vez acordou ao romper do dia, prostrado no chão, sobre a erva, e quase não conseguia explicar a si próprio como é que fora parar ali. Aliás, nos dois ou três dias que se seguiram à morte de Ekatierina Ivânovna, encontrou-se umas duas vezes com Svidrigáilov, quase sempre no quarto de Sônia, onde ia sem objetivo, mas constantemente. Trocavam umas breves palavras e nem uma só vez sequer tocaram no ponto capital, como se entre eles existisse uma combinação tácita para não falarem daquilo por então. O cadáver de Ekatierina Ivânovna ainda não tinha sido retirado. Svidrigáilov encarregara-se do funeral e andava muito atarefado. Sônia também estava muito ocupada. No seu último encontro com Svidrigáilov, este comunicou a Raskólhnikov que tratara, e bem, do caso dos filhos de Ekatierina Ivânovna: que, graças a certas amizades, conseguiu chegar até certas pessoas com a ajuda das quais se podiam internar imediatamente os três orfãozinhos numa instituição muito indicada para esse fim, para o que também contribuíra muito o dinheiro que lhes doara, pois colocar órfãos que possuíam algum capital sempre era mais fácil do que colocar órfãos pobres. Também lhe falou de Sônia; prometeu que iria visitá-lo daí a dias, a sua casa, e avisou-o de que queria pedir-lhe uns conselhos; que era muito necessário conversarem, que se tratava de um certo assunto... Tiveram esse diálogo no patamar, já na escada. Svidrigáilov olhou para Raskólhnikov de alto a baixo e, de súbito, depois de uma pausa, perguntou-lhe em voz baixa:

- Mas que lhe aconteceu, Rodion Românovitch? Não parece o mesmo! Ouve e olha, mas parece que não compreende nada do que ouve e vê. Ganhe coragem. Olhe, temos de falar; é pena eu ter tantos assuntos alheios para tratar e não ter tempo para tratar dos meus... Ah, Rodion Românovitch - acrescentou de repente -, toda a gente precisa de ar, de ar, de ar! Isso antes de mais!

De repente afastou-se para deixar passar o padre e o sacristão, que subiam a escada. Iam rezando um responso. Conforme as indicações de Svidrigáilov, diziam-lhe dois responsos por dia, escrupulosamente.

Svidrigáilov foi à sua vida. Raskólhnikov ficou pensativo e entrou atrás do padre no quarto de Sônia.

Parou junto da porta. O rito, tranqüilo, solene e triste, começara. A idéia da morte e a comoção da presença de um morto sempre lhe tinham infundido uma espécie de sufocante e místico espanto, já desde a infância, e, além disso, havia já muito tempo que não ouvia um responso. Mas havia ainda outra coisa, de muito terrível e inquietante. Olhava para as crianças; estavam todas de joelhos, junto do caixão. Pólietchka chorava. Atrás deles Sônia rezava em voz baixa e timidamente chorosa. "Durante estes dias nem sequer olhou para mim uma só vez, e nem uma só palavra me disse", pensou Raskólhnikov. O sol iluminava claramente o aposento; a fumarada do incensário erguia-se em redemoinhos; o sacerdote lia: "Dai-nos a paz, Senhor!" Raskólhnikov assistiu a todo o responso. Quando deitou a bênção e se despediu, o sacerdote olhou à sua volta com um ar estranho. Terminada a cerimônia, Raskólhnikov aproximou-se de Sônia. Esta, de súbito, segurou-se a ele com as duas mãos e reclinou a cabeça sobre o seu ombro. Esse simples gesto afetuoso deixou Raskólhnikov perplexo; tinha também algo de estranho. O quê? Nem a menor repugnância, nem o menor espanto, nem o mais leve tremor na sua mão! Aquilo era já o cúmulo da abnegação pessoal. Pelo menos era o que lhe parecia. Sônia não disse nada. Raskólhnikov apertou-lhe a mão e saiu. Sentia um abatimento espantoso. Se lhe tivesse sido possível ir naquele momento a algum lugar e ficar aí completamente sozinho, ainda que fosse para toda a vida, ter-se-ia considerado feliz. Mas o certo era que, nos últimos tempos, embora estivesse quase sempre sozinho, não podia sentir-se só. Sucedia-lhe sair para os arredores, até a estrada, e, de certa vez, até se meteu por entre um arvoredo; mas, quanto mais deserto estava o lugar, mais vivamente ele sentia a seu lado como que uma presença inquietante, não a de nenhum estranho, mas antes qualquer coisa já de muito esperada, de tal maneira que acabava por regressar logo à cidade, e misturar-se entre as pessoas, entrava em alguma casa de pasto ou numa taberna, ia até Tolkútchi, ao Mercado do Feno. Aí sentia-se mais à vontade e mais só. Numa pequena taberna, à tardinha, cantavam canções; deixou-se ficar aí sentado uma hora inteira, ouvindo, e recordava-se de que isso lhe agradara muito. Mas, por fim, acabara por se levantar repentinamente, num desassossego; fora como se tivesse começado a ser atormentado por remorsos de consciência.

"Esta agora! Estou sentado, ouvindo canções; mas é isto, porventura, o que eu devo fazer." Aliás, adivinhava que não era só isso o que o inquietava, mas algo que reclamava uma resolução urgente e acerca do que não era possível pensar nem dizer uma palavra. Tudo girava num torvelinho. "Não, o melhor seria uma disputa franca. O melhor seria outra vez Porfíri... ou Svidrigáilov... Um novo desafio, um novo ataque, o mais depressa possível... Sim, sim!", pensava. Saiu quase correndo da pequena taberna. A recordação de Dúnia e da mãe tornou a infundir-lhe de repente, sem que soubesse por quê, um terror pânico. Nessa mesma noite, antes de amanhecer, despertou também entre o arvoredo da ilha Kriestóvski, todo a tremer, cheio de febre; regressou a casa já de manhã, muito cedo. Passadas algumas horas de sono, a febre cessou-lhe, mas acordou já tarde, às duas horas.

Lembrou-se de que o enterro de Ekatierina Ivânovna estava marcado para aquele dia e ficou satisfeito por não ter assistido. Nastássia levou-lhe comida; comeu e bebeu com grande apetite, quase com sofreguidão. Tinha

a cabeça mais aliviada e sentia-se mais tranqüilo do que nos últimos três dias. Até se admirou, por um momento, do seu terror pânico anterior. A porta abriu-se e Razumíkhin entrou.

- Ah! Estás comendo, portanto não estás doente - disse Razumíkhin pegando uma cadeira e sentando-se à mesa, em frente de Raskólhnikov; vinha muito excitado e não fazia esforços para o dissimular; falava com visível aborrecimento, mas sem se atrapalhar nem levantar a voz de maneira especial. Poderia pensar-se que trazia alguma intenção pessoal e quase exclusiva. - Ouve -, disse resolutamente, - pessoalmente, desejo que vás para o diabo; pelo que vejo agora, percebo perfeitamente que não sou capaz de compreender nada; mas, por favor, não vás imaginar que te venho interrogar. Quero lá saber disso! Sou eu quem não quer! Agora já podes dizer-me tudo, todos os teus segredos, que eu talvez nem me demore a escutá-los, vire as costas e me vá embora. Vim apenas com o objetivo de saber de uma maneira terminante e definitiva se é verdade, em primeiro lugar, se tu estás doido ou não. Tu bem sabes que há quem esteja convencido (quem, não sei ao certo) de que tu estás completamente doido ou que pouco te falta para isso. Confesso-te que eu também me sinto muito inclinado a aceitar essa opinião, em primeiro lugar, a avaliar pela tua estúpida e, até certo ponto, sórdida conduta (absolutamente inexplicável), e, além disso, levando também em conta a tua última maneira de te portares para com a tua mãe e a tua irmã. Só um homem reles e indigno, não se tratando de um louco, poderia conduzir-se para com elas como tu te conduzes; portanto, estás louco...

- Há quanto tempo estiveste com elas?

- Agora mesmo. Mas tu não tornaste a vê-las até agora? Por onde tens andado? Dize-me, por favor, pois já vim aqui por três vezes, sem nunca te encontrar. A tua mãe desde ontem que está muito doente. Queria vir ver-te; Avdótia Românovna não a deixa; mas ela não atende a razões. "Se ele está doente", diz a tua mãe, "se perdeu o juízo, quem poderá tratá-lo melhor do que eu?" Por isso viemos todos até aqui, para não a deixar sozinha. Estivemos a pedir-lhe que se tranqüilizasse até o momento de chegarmos mesmo aqui, à porta. Entramos; tu não estavas. Olha, foi neste lugar que ela esteve sentada. Esteve dez minutos sentada; eu estava de pé, ao seu lado, sem falar. Até que ela se levantou e disse: "Se saiu para a rua é sinal de que está bom e se esqueceu da sua mãe; por isso não é muito decente, é até um pouco vergonhoso que uma mãe esteja aqui, à sua porta, mendigando a sua amizade, como uma esmola". Voltou para casa e deitou-se; agora está com febre. "Afinal, para ela, tem tempo." Supõe que "ela" é Sófia Siemiônovna, tua noiva ou amante, ou lá o que é. Eu fui imediatamente procurar Sófia Siemiônovna, porque queria tirar as coisas a limpo, meu amigo; mas, assim que chego, deparo um caixão e duas criancinhas chorando. Sófia Siemiônovna estava provando-lhes uns vestidinhos de luto. Tu não estavas lá. Deitei uma vista de olhos naquilo tudo, apresentei as minhas desculpas e fui contar tudo a Avdótia Românovna. Não havia dúvida de que tudo aquilo era mentira, tu não tinhas nenhuma "ela", e o mais provável era que tu estivesses louco. Mas agora chego aqui e encontro-te muito bem sentado, a devorares o teu assado, como se não comesses há três dias. É claro que os loucos também comem; mas, neste mesmo instante, e sem precisar que tu me digas nada, declaro que... tu não estás louco. Juro-o! De maneira nenhuma, não estás louco. Por isso, vão todos para o diabo; aqui deve haver algum mistério, algum segredo; e eu não tenho a mínima vontade de quebrar a cabeça com os teus enigmas. Vim apenas para te censurar - concluiu, levantando-se -, para aliviar a alma, e agora já sei o que tenho a fazer.

- Então que vais fazer agora?

- A ti que te interessa o que eu vá fazer agora? - Olha, tu bebes demais.

- Quem to disse?

Razumíkhin ficou calado por um momento.

- Tu foste sempre um rapaz muito ajuizado e nunca estiveste louco - observou, de repente, com veemência. - Mas agora vou beber. Adeus! - e dispunha-se a partir.

- Há três dias, se não me engano, falei de ti à minha irmã, Razumíkhin. - De mim? Como é que tu lhe falaste há três dias? E Razumíkhin parou imediatamente, corando até um pouco. Era visível que, devido àquilo, tivera imediatamente um palpite.

- Foi ela quem veio aqui, sozinha, esteve aí sentada conversando comigo. - Sozinha?

- Sozinha, sim.

- Mas que é que tu disseste... a meu respeito?

- Disse-lhe que tu eras um bom rapaz, honesto e capaz de amar a valer. Que tu gostas dela, isso não lhe disse, porque já o sabe.

- Já o sabe?

- Claro! Para onde quer que eu vá, aconteça-me o que acontecer... fica junto delas, serve-lhes de anjo da guarda. Eu as entrego a ti, por assim dizer, Razumíkhin. Falo assim porque sei perfeitamente que gostas muito dela e estou convencido da pureza do teu coração. Também sei que ela, pelo seu lado, pode gostar de ti e até é possível que já goste. Agora já podes decidir, visto que já estás melhor informado, se deves ou não deves beber.

- Rodka... Olha... Ora esta! Ah, malandro! Mas para onde é que tu tencionas ir? Olha, se isso é um segredo, está bem. Mas eu... eu conheço o segredo... E estou convencido de que se trata, com toda a certeza, de algum absurdo e de alguma insignificância, e que tu exageras tudo. Embora, no fundo, sejas um excelente rapaz... um excelente rapaz?

- Eu queria dizer também, quando tu me interrompeste, que pensavas muito bem, há pouco, ao dizeres que não querias conhecer estes mistérios e estes segredos. Deixa-me em paz por agora, não me perturbes. Hás de saber tudo a seu tempo, sobretudo quando for preciso. Ontem um indivíduo disse-me que o homem precisa de ar, ar, ar. E eu quero ir imediatamente à sua procura para que ele me explique o que é que queria dizer com isso.

Razumíkhin continuava de pé, pensativo e comovido, pensando em qualquer coisa.

"Deve ser um conspirador político! Com certeza! E no dia anterior deve ter dado qualquer passo decisivo, não há dúvida. Não pode ser outra coisa... e... e Dúnia sabe...", pensou, de repente.

- De maneira que Avdótia Românovna veio aqui ver-te - disse, acentuando as palavras - e tu queres avistar-te com um indivíduo que diz que o ar é necessário... O ar, e... provavelmente aquela carta... também deve ser do mesmo - concluiu intimamente.

- Qual carta?

- Uma que ela hoje recebeu e que a deixou muito perturbada. Muito. Talvez até demasiado, talvez. Eu me referi a ti... Ela me pediu que me calasse. Depois... depois disse-me que talvez nos tivéssemos de separar muito em breve. Depois pôs-se a agradecer-me encarecidamente, não sei o quê; finalmente foi para o quarto e fechou-se por dentro.

- Então recebeu uma carta? - perguntou Raskólhnikov pensativo. - Sim, uma carta; mas não sabias? Hum!

Ficaram ambos calados.

- Adeus, Rodka! Eu, meu amigo... houve um tempo... mas nada, adeus! Eu também tenho de me ir embora. Mas não vou beber. Agora já não é preciso... tu mentes...

Saiu rapidamente; mas, depois de ter saído e até quase fechado a porta, voltou outra vez e disse, olhando de soslaio:

- A propósito, lembras-te daquele crime, bem, daquele que superintende Porfíri, o assassinato da tal velha? Pois bem, fica sabendo que já deram com o criminoso e este confessou redondamente e apresentou toda a espécie de provas. Calcula que é um daqueles operários pintores, lembras-te? E eu a defendê-los tão acaloradamente! Toda aquela cena de briga e das risotas pela escada, com os seus companheiros, quando chegaram os tais indivíduos, o porteiro e as duas testemunhas, foi medida para despistar! Que astúcia, que presença de espírito em semelhante complicação! Custa a acreditar, mas ele confessou-o, e com todos os pormenores! Que te parece? A meu ver trata-se simplesmente de um gênio da imaginação e da dissimulação, de um gênio do álibi jurídico... embora, no fundo, talvez não haja razão para nos admirarmos. Não poderá haver desses gênios, por acaso? E o fato de não ter sido suficientemente firme para resistir e confessar é mais uma razão para que eu o creia. Torna-se mais verossímil... Mas como, como é que eu me deixei enganar, naquela altura! Era capaz de ter posto as mãos no fogo por causa deles!

- Peço-te que me digas: quem é que te disse e por que te interessas tanto por isso? - perguntou Raskólhnikov, visivelmente comovido.

- Essa é boa! Por que é que me interesso? Que pergunta! Soube-o por Porfíri, entre outros. Embora fosse ele quem me contasse quase tudo. - Porfíri?

- Porfíri.

- E que... que é que ele disse? - perguntou Raskólhnikov com receio. - Explicou-me tudo muito bem. Explicou-me psicologicamente à sua maneira.

- Foi ele quem to explicou? Ele próprio?

- Ele próprio! Ele próprio! Adeus! Depois te darei mais pormenores, porque agora tenho que fazer. Dantes... houve um tempo em que eu pensava... Mas não; depois... Para que hei de eu ir beber agora? Tu é que, sem vinho, me embriagaste. Estou tocadinho, Rodka. Até sem vinho, já estou embriagado; bem, vamos lá, adeus. Eu passarei por aqui em breve. Saiu.

"É um conspirador político, com certeza, com certeza", decidiu definitivamente Razumíkhin para consigo, enquanto descia a escada devagar, "também deve ter metido a irmã nisso, é muito provável, é muito provável, com o caráter de Avdótia Românovna. Tiveram um encontro... Ela já mo deu a entender. A avaliar por muitas das suas palavras... e palavrinhas... e alusões... não há dúvida, deve ser isso. Se não fosse isso, como é que se poderia explicar toda esta embrulhada? Hum! E eu que supunha... Oh, meu Deus, o que eu cheguei a pensar! Sim, foi uma alucinação, e agora sou culpado para com ele. Foi ele, naquela noite, junto da lâmpada, no corredor, quem me provocou essa alucinação! Livra! Que repugnante, estúpido e reles pensamento o meu! Ainda bem que Mikolka confessou! E como se explicam agora todas as coisas anteriores! Aquela doença dele, de há tempos, aquelas suas estranhas maneiras de conduzir-se e até aquele seu estranho caráter sombrio, sempre severo, já de muito antes, de quando andava ainda na universidade... Mas que quererá dizer agora aquela carta? Deve haver aí qualquer coisa escondida. De quem será? Faz-me suspeitar... Hum! Não, hei de pôr tudo isso a claro..."

Não fazia outra coisa senão lembrar-se de Dúnietchka e pensar nela, e o coração batia-lhe com força. Conseguiu finalmente sair dali e deitou a correr. Assim que Razumíkhin saiu, Raskólhnikov levantou-se, aproximou-se da janela, pôs-se a passear de um lado para o outro, como se estivesse esquecido da estreiteza do seu tugúrio... e depois tornou a sentar-se no divã. Parecia cheio de novas energias: ia outra vez começar a luta, isto é, encontrara uma saída. "Sim, isso quer dizer que encontrei uma saída!" Um meio de escapar à situação terrível que o asfixiava, o oprimia dolorosamente e começara a provocar-lhe vertigens. Desde aquela cena anterior entre Mikolka e Porfíri que se vinha sentindo asfixiado, com falta de ar, em lugares acanhados. Depois do caso de Mikolka, nesse mesmo dia tinha sido aquela cena em casa de Sônia, que ele não conduziu nem terminou tal como imaginara previamente; fraquejou; isto é, fraquejara até muito, radicalmente. Fora de uma vez! Porque tinha finalmente reconhecido então, de acordo com Sônia, ele próprio tinha reconhecido, e reconhecido sinceramente, que não lhe era possível viver sozinho com aquele peso sobre a alma. E Svidrigáilov? Svidrigáilov adivinhara... Não havia dúvida de que Svidrigáilov o inquietava, mas não por esse lado. Era possível que tivesse ainda que manter uma luta com Svidrigáilov. Talvez que Svidrigáilov fosse também outra saída; mas com Porfíri, o caso era diferente.

De fato, fora o próprio Porfíri quem explicara as coisas a Razumíkhin, explicara-lhas psicologicamente. Lá começava ele outra vez a persegui-lo com a sua maldita psicologia! E Porfíri podia lá acreditar, por um instante que fosse, que era Mikolka o culpado, depois do que se passara entre os dois, depois daquela cena, dos dois, a sós, até a chegada de Mikolka, cena que apenas podia ter uma explicação racional, uma só! (Em todos esses dias, Raskólhnikov recordara por mais de uma vez, fragmentariamente, toda aquela cena com Porfíri, a cuja evocação completa não seria capaz de resistir.) Então tinham-se trocado tais palavras entre eles, realizado tais gestos e movimentos, trocado tais olhares, dito algumas coisas num tal tom de voz e chegado a tais extremos, que, depois daquilo, Mikolka (no íntimo do qual Porfíri penetrara desde a primeira palavra e do primeiro gesto), Mikolka não podia já abalar os fundamentos da sua convicção.

Mas como! Razumíkhin também já começara a suspeitar! A cena do corredor, junto da lâmpada, não se dera em vão. Porque ele se precipitara em ir ao encontro de Porfíri... Mas por que começaria ele a enganá-lo? Com que fim pretendia desviar para Mikolka o olhar de Razumíkhin? Não, andava tramando qualquer coisa, com certeza; havia ali alguma intenção; mas qual? Verdadeiramente, já passara muito tempo desde aquela manhã... muito, muito, e de Porfíri não havia a menor notícia. O que, evidentemente, não era bom sinal...

Raskólhnikov pegou o gorro e, depois de reconsiderar um instante, saiu do quarto. Era o primeiro dia, durante todo aquele tempo, em que, pelo menos, se sentia num estado de perfeita lucidez. "É preciso arrumar as coisas com Svidrigáilov", pensou, "seja como for e o mais depressa possível; ele parece também estar à espera de que eu vá procurá-lo." E nesse momento ergueu-se de repente tal ódio no seu cansado coração, que é possível que nesse instante tivesse morto algum dos dois, Svidrigáilov ou Porfíri. Pelo menos sentia que, se não fosse naquele momento, estaria depois em condições de fazê-lo. "Veremos, veremos", repetia para consigo.

Mas ainda mal abrira a porta quando deu de cara com o próprio Porfíri. Este vinha precisamente procurá-lo. Raskólhnikov ficou estupefato por um momento, mas apenas por um momento. Coisa estranha: não se admirou muito de ver ali Porfíri e não sentiu quase medo algum. Teve apenas um leve sobressalto, do que se refez imediatamente. "Talvez seja agora o tal desenlace! Mas como é que ele veio tão devagarinho, como um gato, de tal maneira que eu nem o senti? Terá estado à escuta?"

- Não esperava a minha visita, Rodion Românovitch? - exclamou Porfíri Pietróvitch, sorrindo. - Há já algum tempo que tencionava vir vê-lo. "Irei até lá" pensava, "por que não hei de estar com ele uns cinco minutos?" Mas onde é que ia? Não quero entretê-lo. É só tempo de fumar um cigarrinho, se me dá licença.

- Mas sente-se, Porfíri Pietróvitch, sente-se - pediu Raskólhnikov ao visitante, com um ar aparentemente tão satisfeito e amistoso, que até ele próprio teria ficado admirado se pudesse ver-se.

As suas impressões anteriores esfumaram-se. Acontece às vezes que um homem suporta meia hora de susto mortal com um bandido e, quando este lhe põe, finalmente, o punhal sobre a garganta, passa-lhe o medo de repente. Sentou-se em frente de Porfíri e, sem pestanejar, ficou olhando para ele.

Porfíri piscou um olho e pôs-se a acender lentamente o cigarro. Vamos, fale, fale, de boa vontade lhe teria gritado Raskólhnikov, do fundo do coração. "Vamos! Que é isso? Então por que não falas?"