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- Estes cigarros! - disse finalmente Porfíri, que acabara de acender o seu e tinha lançado uma fumaça. - Um veneno, um autêntico veneno, e, no entanto, não posso deixá-los. Tusso, tenho pigarro na garganta e começo a sofrer de asma. Olhe, eu estou muito apreensivo e ainda não há muito tempo que fui consultar o doutor B..., que observa cada doente pelo menos durante meia hora... "O senhor", disse-me ele, entre outras coisas, "deve abster-se do tabaco. Tem uma leve dilatação dos pulmões." Mas vamos lá ver: como é que eu hei de deixar o tabaco? Por que hei de substituí-lo? É pena eu não saber beber... he... he... he! Aí é que está o mal, é eu não beber... Olhe, tudo é relativo, Rodion Românovitch; tudo é relativo.

"Pensará ele voltar às suas trapaças", pensou Raskólhnikov com aversão. Toda a cena recente do seu último encontro lhe veio à memória, e o sentimento de ira de então tornou a agitar-lhe o coração.

- Não sabe que vim procurá-lo anteontem? - perguntou Porfíri, passando revista ao quarto. - Estive aqui, aqui mesmo. Tal como hoje, também passei por aqui, e disse para comigo: "Por que não hei de fazer-lhe uma visita?" Subi e encontrei o quarto aberto; olhei... esperei e saí sem dizer o meu nome à sua criadinha... Mas não costuma fechar a porta? O rosto de Raskólhnikov tornava-se cada vez mais sombrio. Porfíri pareceu adivinhar o seu pensamento.

- Vim para lhe dar uma explicação, meu caro Rodion Românovitch, para lhe dar uma explicação. Tenho a obrigação, o dever de lhe dar uma explicação - continuou com um sorrisinho, e até deu uma leve palmadinha nos joelhos de Raskólhnikov. Mas no mesmo instante o seu rosto tomou uma expressão séria e preocupada e pareceu até condoído, com espanto de Raskólhnikov. Nunca lhe vira essa expressão, nem podia suspeitar que ele pudesse fazer semelhante cara. - Foi uma estranha cena aquela que se passou entre nós da última vez, Rodion Românovitch. Também da primeira vez em que nos vimos se passou entre nós uma cena estranha; mas então... Enfim, tanto faz. Olhe, eu vou dizer-lhe do que se trata. O fato é que eu me considero culpado para com o senhor: é o que eu sinto. Lembra-se da maneira como nos separamos? O senhor estava nervoso e as pernas tremiam-lhe; eu também tinha os nervos crispados e as pernas também me tremiam. E olhe: houve também qualquer coisa de irregular entre nós, algo de impróprio de um gentlemen. E, no entanto, nós somos gentlemen, isto é, seja em que circunstâncias for e acima de tudo gentlemen; não nos devemos esquecer. Bem, o senhor deve lembrar-se até onde é que as coisas chegaram... até a incorreção.

"Mas onde é que ele quererá chegar, por quem me toma ele?", perguntou a si próprio Raskólhnikov, estupefato, erguendo a cabeça e olhando Porfíri de alto a baixo.

- Reconsiderei que, agora, é melhor procedermos com franqueza - continuou Porfíri Pietróvitch, inclinando um pouco a cabeça e desviando os olhos, como se não quisesse mais inibir a sua antiga vítima e como se desprezasse agora os seus antigos lemas e artimanhas. - Porque, de fato, essas suspeitas e cenas semelhantes não podem prolongar-se por muito tempo. Mikolka veio interromper-nos nessa ocasião; mas, se não fosse isso, não sei até onde teríamos chegado. Esse maldito operário tinha-se posto a escutar em minha casa, do outro lado do tabique... Já sabia, não é verdade? O senhor com certeza que já o sabe; e eu também não ignoro que, depois, veio vê-lo; mas daquilo que o senhor então supunha não havia nada; eu não mandara chamar ninguém, nem tomara ainda disposição nenhuma. Há de perguntar por que é que eu não tomara disposição nenhuma. Mas que hei eu de dizer-lhe? Tudo isso, então, me desorientara. E ainda bem que mandei chamar os porteiros (o senhor teria visto entrar os porteiros?). Então me ocorreu uma idéia, rápida como o relâmpago; repare: eu estava então convencido, Rodion Românovitch. "Ora..." pensava eu, "ainda que o deixe à solta, por agora, a qualquer dos outros, em compensação, apanho-os pelos fundos das calças, e a este, quanto a este, pelo menos, não o largarei." O senhor é muito irritável por natureza, Rodion Românovitch, até excessivamente, e isso a par de todas as outras propriedades fundamentais do seu caráter e do seu coração, que eu me gabo de conhecer um pouco. Bem; eu, não há dúvida de que, então, não podia ainda deixar de dizer a mim mesmo que nem todos os dias acontece isso de vir um indivíduo que se põe a contar a uma pessoa tudo o que tem na alma. Embora isso aconteça algumas vezes, sobretudo quando se lhe esgotou a paciência, seja como for, não é freqüente. Eu não podia deixar de compreender isso. "Não", penso eu, "concedam-me nem que seja apenas um só pequeno ponto de apoio. Por muito pequenino que seja e ainda que seja um apenas, mas de tal gênero que o possa agarrar com as mãos, que seja uma coisa e não apenas psicologia. Porque (dizia eu para comigo), se o indivíduo é culpado, já se pode, sem dúvida alguma, esperar dele algo de real, e até é lícito contar com o resultado mais imprevisto." Eu contava com o seu caráter, Rodion Românovitch, apenas com o seu caráter. Nessa altura tinha muitas ilusões a seu respeito!

- Mas... a que propósito vem tudo isso? - resmungou finalmente Raskólhnikov, até sem pensar na pergunta. - "A que se referirá ele?", dizia para consigo, embrenhando em suposições. "Dar-se-á o caso de que ele, no fundo, me considere culpado?"

- A que propósito lhe digo eu tudo isto? É que vim dar-lhe uma explicação que, por assim dizer, considero um dever sagrado. Quero explicar-lhe tudo, com todas as letras; como se passou toda essa história dessa, por assim dizer, dessa miragem de então. Eu o fiz sofrer muito, Rodion Românovitch. Mas eu não sou nenhum monstro. Fique sabendo que compreendo até que ponto tudo isso pode afetar um homem, abatido pelo destino, mas altivo, dominante e impaciente; sobretudo, impaciente. Eu, no entanto, considero-o uma excelente pessoa, até com lampejos de grandeza de alma, embora não concorde consigo nas suas convicções, do que considero dever meu informá-lo, antes de mais nada, francamente e com a maior sinceridade, porque, acima de tudo, não quero enganá-lo. Quando o conheci, senti pelo senhor uma grande simpatia. Pode ser que se ria ao ouvir as minhas palavras. Tem razão para isso. Sei que, para o senhor, desde o primeiro momento lhe fui antipático, porque realmente não tenho nada de simpático. Mas, pense o que pensar, eu, agora, por meu lado, devo desfazer essa má impressão por todos os meios e demonstrar-lhe que eu também sou um homem de coração e de consciência. Estou a falar-lhe com toda a sinceridade.

Porfíri Pietróvitch fez uma pausa e tomou um ar digno. Raskólhnikov sentia-se profundamente admirado. A idéia de que Porfíri o considerava culpado começou, de repente, a assustá-lo.

- Contar-lhe tudo pela ordem em que tudo aconteceu então, julgo que não é necessário - continuou Porfíri Pietróvitch -, e até o considero supérfluo. E, além disso, não vejo como poderia fazê-lo. Porque, como havia eu de explicar-lhe circunstanciadamente? Em primeiro lugar, surgiram boatos. Onde tiveram origem esses boatos, quem, quando e a que propósito é que vieram a pensar em si especialmente... também é escusado referir. Pelo que me respeita a mim, a coisa começou casualmente, por um acaso dos acasos, que tanto podia ser como não ser, absolutamente... Qual? Hum! Julgo que também será escusado falar disso. Tudo isso, boatos e casualidades, se fundiu então, em mim, numa só idéia. Confesso-lhe francamente, já que estamos na hora das confissões, e é preciso haver uma confissão geral, que... o primeiro a reparar no senhor, então, fui eu. Aquelas anotações da velha nos objetos etc. etc., tudo isso é um absurdo. Pormenores como esses podem encontrar-se às centenas. Tive também então oportunidade de conhecer a cena do comissariado, com todos os pormenores, por pura casualidade, e não levianamente, mas da boca de uma testemunha minuciosa que, sem o suspeitar, fixara maravilhosamente a cena. Olhe, meu caro Rodion Românovitch, todas essas coisas, todas essas coisas se foram ligando umas às outras, umas às outras. Bem; estando as coisas nesse pé, como não havia eu de me inclinar para certo lado? "De cem coelhos, nunca se faz um cavalo; de cem suspeitas, nunca se faz uma prova", diz um provérbio inglês, e veja quanta cautela encerra; mas as paixões... experimente lutar contra as paixões, porque o juiz também é homem. Lembrei-me então igualmente do seu artigo naquele jornal, recorda-se? do qual já me falou pormenorizadamente, na sua primeira visita. Eu, então, me ri, mas foi para o levar a falar. Repito-lhe que o senhor é muito impaciente e irritável, Rodion Românovitch. Tive também ocasião de verificar que era temerário, arrebatado, e que sentira, sentira já muito, e tudo isso eu o sabia já muito anteriormente. Eu já conhecia todas essas sensações e li o seu artigo como qualquer coisa que me era familiar. Fora concebido em noites de insônia e de desespero, com palpitação e baques de coração, com um entusiasmo reprimido. Como é perigoso esse entusiasmo reprimido, orgulhoso, na juventude! Eu, então, troçava; mas agora lhe digo que me agrada muitíssimo, de maneira geral (falo como apaixonado), esse primeiro ensaio juvenil, fogoso, da sua pena. Vapores, brumas, a corda vibra por entre as névoas... O seu artigo é absurdo e fantástico; mas palpita nele a sinceridade, há nele orgulho juvenil, indomável, respira-se ali a ousadia do desespero; é sombrio o seu artigo; mas está bem-feito. Li-o, pu-lo de lado, e... quando assim procedi, pensei: "Um homem destes não se contenta com isto!" Por isso diga-me agora: como é que, após um tal começo, não podia eu, depois, augurar a continuação? Ah, meu Deus! Mas estou eu dizendo alguma coisa? Afirmo eu alguma coisa, porventura? Por então, limitava-me a observar. "Que haverá em tudo isto?", pensava. "Pois, em tudo isto, não há nada, simplesmente nada, é provável que não haja absolutamente nada." E lançar-me nessas deduções, eu, um juiz, era até altamente indecoroso. Então caiu nas minhas mãos Mikolka, e já contava com fatos... aí, diga-se o que se disser, havia fatos. E recorri também à psicologia, era preciso pensar, pois tratava-se de um assunto de vida ou de morte. Mas por que lhe explico eu agora tudo isto? Para que o fique sabendo e, na sua inteligência e no seu coração, me considere culpado pela minha má conduta de então. Não procedia de má-fé, digo-lhe sinceramente, he... he! Que pensava o senhor? Que eu não iria fazer uma busca em sua casa? Pois sim; houve-a, houve-a... he, he! houve-a, quando o senhor estava doente, na cama. Não oficialmente, e na sua própria cara; mas houve-a. Examinamos até a última insignificância que havia no seu quarto, como primeira diligência; mas... mas... umsonst (1). Então eu pensei: "Agora esse indivíduo há de aparecer, ele mesmo se apresentará, e muito em breve; desde que seja culpado, não deixará de aparecer. Outro não viria, mas este, sim, há de vir". E lembra-se de como o senhor Razumíkhin se pôs a censurá-lo? Tínhamos imaginado isso para o incitar, a si, à revolta porque eu fiz correr intencionalmente o boato para que ele ralhasse consigo, pois o senhor Razumíkhin é um homem incapaz de dominar a sua indignação. O que chocou o senhor Zamiótov, em primeiro lugar, foi a sua cólera e a sua evidente ousadia; sobretudo aquilo que o senhor lhe atirou à cara, de repente, na taberna: "Eu matei!" Demasiado audaz, demasiado brusco, e, se é culpado, acho que é um tremendo campeão! O que eu disse para mim mesmo, então, foi isto: "Esperarei!"

* (1) Em vão, em alemão. (N. do T) *

E esperava-o com o maior ardor, aopasso que, a Zamiótov, o senhor tinha-o deixado simplesmente aterrado... E olhe, o caso é este: a culpa, quem a tem é essa maldita psicologia de dois gumes. Bem; eu fico à sua espera; olhe, foi Deus quem mo entregou. Veio! Eu sempre tinha um pressentimento! Ah! Bem; por que veio o senhor, então? Aquelas suas risadas quando entrou, aquelas risadas, lembra-se? Adivinhei tudo através delas como de um cristal; mas se eu não estivesse à espera, como estava, não teria notado nada. Por aqui já pode ver o que significa estar de sobreaviso. Mas o senhor Razumíkhin, nessa altura, lembra-se? Ah, ah! E daquela pedra, daquela pedra... daquela pedra autêntica, debaixo da qual estão enterrados os objetos? Eu estou a vê-lo, ali, no pátio... porque o senhor falou primeiro de pátio a Zamiótov, e depois falou-me a mim pela segunda vez. Mas quando começamos a discutir o seu artigo, quando o senhor se pôs a explicar... cada uma das suas palavras continha um duplo sentido, como se debaixo delas houvesse outra coisa. Aqui tem o senhor, Rodion Românovitch, a maneira como a minha convicção se firmou pouco a pouco, e depois, quando tinha já a certeza, caí em mim: "Não", disse para comigo, "mas que faço eu? Para que hei de querer tudo isto, até o último pormenor?", disse, "tudo isto pode explicar-se de outra maneira e até será mais natural". Que suplício! "Não", pensei, "convinha-me muito mais uma provazinha." E então, quando soube das tais tocadelas de campainhas, quase fiquei cheio de tremores. "Vamos", disse para comigo, "já tenho a prova! Já tenho uma..." Porque eu, então, nem me detinha a refletir, não queria. Nesse momento seria capaz de dar mil rublos do meu bolso particular somente para ter podido vê-lo com os meus próprios olhos, quando andou aqueles cem passos juntamente com o operário, depois de ele lhe chamar assassino na sua própria cara, sem se atrever, durante esses cem passos que andou com ele, a perguntar-lhe o motivo por que ele o apostrofava assim... E esse tremor na espinha? Aquelas tocadelas de campainha foram obra da doença, do estado de quase delírio em que se encontrava! Vamos lá a ver, ora diga-me, Rodion Românovitch, por que é que havia de admirar-se, depois disso, que eu lhe dissesse umas gracinhas? E por que se apresentou espontaneamente naquele instante? Poderia dizer-se que alguém o impelira, e juro que se não tivessem chegado a levar-me ali Mikolka... então, lembra-se de Mikolka, nesse dia? lembra-se bem? Aquilo foi um autêntico raio que tivesse caído das nuvens, uma faísca de tempestade. - A maneira como eu o recebi! Não acreditei nem um pouco nesse raio, e bem o viu. E, além disso, depois, quando o senhor se retirou e ele começou a contar mais e mais concretamente alguns pontos, eu próprio fiquei admirado e não acreditei patavina do que ele disse. É isso que significa tornar-se duro como uma pedra. "Não", disse para comigo, "morgen früh (2). Ora este Mikolka!"

* (2) "Até amanhã de manhã", em alemão. Equivalente a "ora, vai passear". (N. do T.) *

- Razumíkhin acabou de dizer-me que o senhor, agora, considerava Nikolai culpado, e até convencera disso o próprio Razumíkhin.

Faltou-lhe a respiração e não acabou. Ouvira com inexprimível comoção desdizer-se o homem que lhe adivinhara as intenções. Através de palavras ainda ambíguas, procurava avidamente captar algo de mais preciso e importante.

- O senhor Razumíkhin! - exclamou Porfíri, como se tivesse ficado contente com aquela pergunta de Raskólhnikov, que estivera calado até então. - He, he, he! Era conveniente não metermos nisto o senhor Razumíkhin; com dois, dá gosto; três, são demais. Com o senhor Razumíkhin, o caso é outro; é um homem estranho; veio procurar-me, muito pálido... Bem; Deus o proteja. Para que havemos de metê-lo nisto? Quanto a Mikolka, quer saber que espécie de homem é, de que maneira é que eu o compreendo? Em primeiro lugar é um rapazinho, ainda menor, e não é nenhum covarde, é assim uma espécie de artista. Digo isto a sério, não se ria por eu defini-lo dessa maneira. É um inocente, que fica impressionado com qualquer coisa. Tem coração e imaginação. Canta e dança, e conta histórias de tal maneira que até vêm pessoas de outras partes para o ouvir. Quando andava na escola, perante a mais insignificante brincadeira, caía no chão, rebolando-se de riso, e bebe até perder os sentidos, não por vício, mas às vezes, quando o fazem beber, por criancice. Já houve tempo em que roubou; mas ele não se apercebe disso, porque apanhar uma coisa do chão não é roubar. E sabe que ele é raskólhnik? Não é bem raskólhnik, mas simplesmente dissidente: na família dele houve desses a quem chamam vagabundos, e ele próprio ainda há pouco tempo viveu no campo durante dois anos inteiros, sob a direção espiritual de um stáriets (3). Sei tudo isso pelo próprio Mikolka e pelos seus conterrâneos de Zaraisk. Mas há mais: queria ir viver para o deserto. Estava num estado de ardente fervor: implorava Deus durante a noite, lia e relia velhos livros, verdadeiros. Petersburgo causou-lhe grande impressão, sobretudo o belo sexo... bom, e há o álcool também. Deixou-se influenciar e esqueceu-se do stáriets e de tudo. Consta-me que havia aqui um artista que lhe ganhara amizade e se interessava por ele, quando, de repente, eis que surge este incidente. Bom, ficou colérico, furioso! Fugir! Mas que fazer, dada a idéia que as pessoas têm da nossa justiça? Para alguns, isso da justiça parece-lhes uma palavra tremenda. Quem é que tem a culpa disso? Esperemos que a nova jurisprudência arranje tudo. Oh, Deus o queira! Ora, bem, agora, na prisão, deve ter-se lembrado, provavelmente, do stáriets, e a Bíblia também deve ter influído. Sabe o senhor, Rodion Românovitch, o que significa sofrer para essa gente, e não sofrer por algo determinado, mas, simplesmente, que é preciso sofrer? Significa aceitar o sofrimento, e, se for da parte do poder, tanto melhor.

* (3) Monge de grande reputação por sua sabedoria. (N. do E.) *

Houve no meu tempo um preso muito pacífico, que passou um ano inteiro na prisão, e à noite, encarapitado no fogão, lia e relia a Bíblia, e não se cansava de lê-la, até que, quer saber, um dia, sem vir a propósito, foi e pegou um tijolo e atirou com ele ao diretor, sem ter recebido deste a menor ofensa. E como é que ele o atirou? Intencionalmente, de um archin de distância, para não lhe fazer mal nenhum. Pois bem, o senhor deve saber qual é o fim que espera o preso que atenta com armas contra os seus superiores; mas aquele queria precisamente aceitar a dor (4). Pois, agora, eu suspeito também de que Mikolka o que quer é aceitar a dor, inclusivamente é uma convicção apoiada em fatos. Simplesmente, ele ignora que eu o sei. O senhor julga que entre essa gente não há também indivíduos fantásticos? Pois é muito freqüente. O stáriets deve ter começado agora a influir nele, sobretudo quando se lembrar de que se quis enforcar. Mas, além disso, ele próprio há de acabar por me contar tudo. Imagina que não o fará? Aguardemos a ver quem é que se retrata! Espero, momento a momento, que ele venha desdizer a sua declaração. Eu tenho simpatia por esse Mikolka, e estudo-o a fundo. E que pensa? Em alguns pontos respondeu-me muito concretamente, deu-me os pormenores que me faziam falta; pelo visto estava preparado; mas, sobre as outras questões, deixou uma lacuna, simplesmente: não sabe absolutamente nada, não dá pormenor algum, e nem sequer suspeita que não os deu. Não, bátiuchka Rodion Românovitch, não pode ser Mikolka. Isto é antes um assunto fantástico, lúgubre, um assunto contemporâneo, um episódio do nosso tempo, em que o coração do homem anda tão torturado, em que se cita essa frase de que o "sangue remoça"; em que toda a vida se consome numa luta pelo bem-estar. Aqui, trata-se de... sonhos livrescos, de algum coração desesperado; aqui é notória a resolução de dar o primeiro passo, mas uma resolução de índole especial... e decidiu-se, sim, mas como quem se despenca por uma montanha abaixo ou se atira de cabeça, de uma torre, e pode dizer-se literalmente que não foi levado ao crime pelos seus próprios pés. Esqueceu-se de fechar a porta atrás de si, e matou, matou duas pessoas, mas para pôr a sua teoria em prática. Matou; mas não conseguiu apoderar-se de dinheiro, e aquilo que conseguiu apanhar foi escondê-lo debaixo de uma pedra. O menor tormento, para ele, ainda devia ter sido quando estava atrás da porta e começaram a sacudi-la e a puxar pela campainha... Não, depois, já no quarto vazio, quase em delírio, ao recordar aquela campainha devia ter sentido outra vez calafrios na espinha... Bem, suponhamos que isto fosse devido à doença; mas repare também nisto: matou; mas tem-se por um homem honesto, despreza as pessoas e quer fazer-se passar por santo... E esse não foi Mikolka, meu caro Rodion Românovitch, esse não é Mikolka!

* (4) Este episódio é mencionado por Dostoiévski na obra Memórias da casa dos mortos. (N. do T.) *

Estas últimas palavras, depois de tudo quanto foi dito anteriormente, tão semelhantes a uma retratação, eram muito inesperadas. Raskólhnikov tremia dos pés à cabeça.

- Então... quem... é o assassino? - perguntou, sem poder conter-se, com uma voz ansiosa.

Porfíri Pietróvitch deitou-se para trás na sua cadeira, como se essa pergunta o apanhasse também de imprevisto e o deixasse estupefato.

- Quem é o assassino? - repetiu, como se não acreditasse no que acabava de ouvir. - Pois o assassino é o senhor, Rodion Românovitch! É o senhor o assassino! - acrescentou, quase em voz baixa, num tom de absoluta convicção.

Raskólhnikov saltou do divã, permaneceu de pé uns segundos e tornou a sentar-se sem dizer uma palavra. Uma leve convulsão lhe correu, de súbito, por todo o rosto.

- Aí está o seu lábio tremendo como da outra vez - murmurou Porfíri Pietróvitch, quase compassivo. - Parece-me que o senhor, Rodion Românovitch, não me compreendeu - acrescentou, depois de um silêncio -, e foi essa a causa do meu espanto. Eu vim precisamente para lhe dizer tudo e ventilar o assunto claramente.

- Eu não sou o assassino - balbuciou Raskólhnikov, tal qual uma criança assustada, quando é apanhada em flagrante.

- Sim, é o senhor, Rodion Românovitch; é o senhor e só o senhor - exclamou Porfíri com voz severa e convicta.

Ficaram ambos em silêncio, e esse silêncio foi de uma duração extraordinariamente longa, pois prolongou-se durante dez minutos. Raskólhnikov apoiou os cotovelos sobre a mesa e pôs-se a revolver a cabeleira com os dedos. Porfíri Pietróvitch estava sentado e aguardava. De repente, Raskólhnikov olhou com desprezo para Porfíri.

- Voltou outra vez com as mesmas cantigas, Porfíri Pietróvitch! Tudo isto está de acordo com as suas máximas. Como é que, no fundo, isso não acaba por aborrecê-lo?

- E deixe-se disso! Que têm que ver, agora, as minhas máximas? Se houvesse testemunhas seria outra coisa; mas repare que estamos os dois falando sozinhos! O senhor bem vê que eu não vim à sua casa para tirá-lo da sua toca e caçá-lo como uma lebre. Quer o reconheça, quer não, a mim, neste momento, tanto me faz. Eu, para mim, estou convencido, embora o senhor negue.

- Então, se é assim, para que veio? - perguntou Raskólhnikov, nervoso. - Torno a fazer-lhe a pergunta da outra vez: se me considera culpado, por que não me prende?

- Olhem que pergunta! Mas vou responder-lhe ponto por ponto; em primeiro lugar, porque não me convém mandá-lo prender, ao senhor, do pé para a mão.

- Não lhe convém! Se o senhor está convencido, é esse o seu dever!

- Ah, que importa que eu esteja convencido? Até agora, tudo isto são fantasias minhas. E por que havia eu de mandá-lo para lá, para "descansar"? O senhor bem o sabe, visto que o pergunta. Se eu trouxesse, por exemplo, o tal operário, para fazer declarações contra a sua pessoa, o senhor podia responder-lhe: "Mas tu não estarás bêbado? Quem é que nos viu juntos? Limito-me a tomar-te simplesmente por um bêbado, e, de fato, estavas bêbado..." Que poderia eu objetar a isso, tanto mais que a sua resposta resultaria mais verossímil que a dele, visto que as suas declarações não teriam outro fundamento senão a psicologia, ao passo que o senhor teria acertado no alvo por toda a gente saber que esse animal bebe como uma esponja! Não lhe confessei eu ao senhor, sinceramente, por mais de uma vez, que essa psicologia tem dois gumes e que o segundo oferece mais verossimilhança do que o primeiro, e que, além disso, eu não disponho, por agora, de nada de positivo para alegar contra o senhor? Mandá-lo-ei prender, sem dúvida, e, embora eu tenha vindo (contra todas as regras) avisá-lo disso, declaro-lhe, no entanto (também contra as regras), que não me convém fazê-lo. Em segundo lugar, vim para...

- Por que em segundo lugar? - Raskólhnikov continuava a ouvi-lo ainda arquejante.

- Já disse: porque lhe devo explicações; não quero que o senhor me tome por um monstro, tanto mais que, quer acredite, quer não, tenho as melhores intenções a seu respeito. Por conseguinte, e esse é o terceiro ponto, vim fazer-lhe uma proposta franca e sem segunda intenção: exorto-o a que faça rebentar o tumor indo o senhor mesmo denunciar-se. Para o senhor, será infinitamente mais vantajoso, e também o será para mim, porque me verei livre deste peso. Então? Não sou bastante franco? Raskólhnikov refletiu ainda um instante.

- Olhe, Porfíri Pietróvitch, foi o senhor mesmo quem o disse: em tudo isto não há mais do que psicologia, e, no entanto, o senhor invoca a matemática. E se estivesse enganado neste momento?

- Não, Rodion Românovitch. Seja como for, por outro lado, eu, a partir deste momento, já não tenho o direito de contemporizar; devo prendê-lo e prendê-lo-ei. Por isso, pense; agora já pouco me importa a sua atitude e só o faço atendendo ao seu interesse. Ponho Deus por testemunha, Rodion Românovitch, o melhor é o senhor mesmo ir denunciar-se. Raskólhnikov riu-se maquinalmente.

- De fato, isto já deixa de ser ridículo, para ser simplesmente insolente. Ainda que eu fosse culpado (declaração que eu não fiz, de modo nenhum), por que havia eu de ir entregar-me, uma vez que foi o senhor mesmo quem me disse que lá, na prisão, eu descansaria?

- Eh, Rodion Românovitch, não tome as minhas palavras à letra! Isso está muito longe de ser um descanso. Trata-se simplesmente de uma teoria pessoal, que eu sustento. Mas que autoridade sou eu para o senhor?

Talvez eu, neste momento, lhe esconda qualquer coisa. O senhor não pode ter a pretensão de receber de uma vez todas as minhas confidências e utilizá-las a seu bel-prazer. Quanto ao segundo ponto: que vantagem trará isso para o senhor... faz uma idéia da comutação de pena que poderia alcançar assim? Pense nisso. Se for outro a tomar conta do assassinato e a dar um novo aspecto à causa... Pelo que me respeita, juro perante Deus que hei de tomar tais disposições e hei de mexer-me de tal maneira que o senhor há de sair o melhor possível deste passo, sem sequer o suspeitar. Poremos de lado todos estes suportes psicológicos. Reduzirei a nada as suspeitas que se levantaram contra o senhor, de maneira que o seu crime pareça o resultado de uma obsessão, visto que, no fim de contas, foi isso, uma obsessão. Eu sou um homem honesto, Rodion Românovitch, e cumprirei a minha palavra.

Triste e silencioso, Raskólhnikov baixou a cabeça, refletiu longamente e, por fim, sorriu de novo, mas com um sorriso doce e melancólico.

- Não é preciso - disse, sem pensar sequer em fingir perante Porfíri. - Não vale a pena, não preciso da sua indulgência!

- Era isso, precisamente, o que eu receava! - exclamou Porfíri com impetuosidade involuntária. - Era isso o que eu temia: que não quisesse aceitar a minha indulgência.

Raskólhnikov lançou-lhe um olhar triste e penetrante.

- Não tenha esse desgosto de viver - continuou Porfíri - porque ainda tem um longo caminho à sua frente! Como é que não há de ter necessidade de indulgência, como é que não há de tê-la? O senhor é muito exigente!

- Que perspectiva me espera?

- A vida! O senhor é profeta para saber tantas coisas? Procure que encontrará. Pode ser que Deus esteja lá à sua espera. A prisão não será perpétua. - Haverá diminuição de pena... - disse Raskólhnikov sorrindo.

- O quê? Seria possível que o coibisse uma falsa vergonha burguesa? Pode ser que assim seja, sem o senhor o compreender, porque é novo. Mas o senhor não devia ter medo nem sentir vergonha de confessar o mal que o corrói.

- Eu cuspo em tudo isso! - exclamou Raskólhnikov com nojo e desprezo, e sem parecer decidido a falar. Fez até menção de se levantar, como se pensasse em sair; mas tornou a sentar-se, visivelmente desesperado.

- Cuspa, se quiser! O senhor é desconfiado e pensa que eu estou tentando levá-lo de uma maneira grosseira. Mas é possível que já tenha vivido tanto? Que sabe o senhor de todas essas coisas? Imaginou uma teoria e está muito envergonhado por ela ter falhado, e por verificar que o que dela resultou é muito pouco original! Bem pior é o que ela lhe fez; mas o senhor, apesar de tudo, não é um velhaco sem remédio! O senhor não é nenhum patife, de maneira nenhuma. O senhor, pelo menos, não hesitou; pôs as cartas todas na mesa, desde o primeiro momento. Sabe o que é que eu penso do senhor? Considero-o um desses homens que antes se deixariam cortar às postas do que serem abatidos, e olhariam sorrindo para os seus verdugos, contanto que possuíssem uma fé qualquer ou acreditassem em Deus. Pois bem: encontre estas coisas e viverá. Em primeiro lugar, há muito tempo já que o senhor precisa de mudar de ares. O sofrimento também é uma boa coisa. Sofra. Talvez Mikolka tenha razão em querer sofrer. Eu sei que o senhor não acredita em nada. Mas não queira ser tão radical. Abandone-se francamente à corrente da vida, sem raciocinar; afugente as inquietações, que ela mesma o conduzirá diretamente à margem, e tornará a pôr-se de pé. Que margem será essa? Como hei de eu sabê-lo? Eu acredito unicamente que ainda tem muito que viver. Já sei que tudo isto que neste momento lhe digo soa aos seus ouvidos como um sermão aprendido de memória; mas talvez mais tarde venha a repetir para si mesmo estas palavras, que então poderão ser-lhe proveitosas; é por isso que as digo. Ainda foi uma grande sorte não ter morto senão uma velha má. Se lhe tivesse ocorrido outra teoria, teria cometido uma ação mil vezes pior... Talvez ainda deva dar graças a Deus... Quem sabe? Pode ser que Deus o tenha reservado para qualquer coisa. Eleve o seu coração e não seja tão covarde. Sente medo da grande tarefa que tem a cumprir? Seria vergonhoso sentir esse medo! Já que passou a fronteira, não pense em retroceder. Há aqui uma questão de justiça... Realize aquilo que a justiça exige. Já sei que não me acredita; mas ponho Deus por testemunha de como a vida há de ser mais forte. Não tardará a tomar-lhe apego. Hoje, aquilo de que precisa é apenas de ar. Precisa de ar, ar!

- Mas quem é o senhor - exclamou - para adotar esse tom de profeta? Desde o alto de que Sinai está o senhor a lançar-me essas sentenças?

- Quem sou eu? Sou um homem acabado, nada mais. Um homem sensível, simplesmente, e que sente compaixão; não completamente farto de saber, mas completamente gasto. Quanto ao senhor, é outra coisa. Deus reserva-lhe a vida (e quem sabe se tudo isto não se desvanecerá da sua memória, como uma fumarada, sem deixar rastro?). Que importa que agora forme parte de outra categoria de pessoas? Com um caráter como o seu, irá o senhor sentir a falta das comodidades? Ou será o estar preso muito tempo, longe de todos os olhares? O tempo, em si mesmo, não é nada; quem importa é o senhor mesmo. Transforme-se num sol e todo o mundo o verá. O sol deve ser, antes de tudo, sol. Por que outra vez esse sorriso? Pensa que eu estou recitando Schiller? Era capaz de apostar qualquer coisa em como imagina que eu estou querendo levá-lo com lisonjas! Juro que é muito possível, he, he, he! Pois bem, Ródion Românovitch, não creia em mim pelas minhas palavras, nem acredite absolutamente nada do que eu lhe digo; eu cumpro o meu dever, estou de acordo; mas quero apenas acrescentar uma coisa, que é esta: compete ao senhor avaliar se eu sou um homem honesto ou um patife.

- Quando é que pensa prender-me?

- Ainda posso deixá-lo passear livremente durante um dia e meio ou dois dias. Reflita, meu amigo; vá pedindo a Deus, que com ele ficará a ganhar, afirmo-lhe eu, ficará a ganhar.

- E se eu fujo? - perguntou Raskólhnikov, sorrindo com um ar estranho. - Não, o senhor não fugirá. Fugiria um camponês, um partidário das idéias em voga, lacaio do pensamento alheio, porque basta pôr-lhe a mão em cima uma vez para que acredite em tudo quanto uma pessoa quiser. Mas vamos lá a ver: o senhor também acredita nas suas teorias? Portanto, como é que havia de fugir? E, como fugitivo, que existência levaria? A vida do fugitivo é indigna e penosa, e o senhor precisa, primeiro que tudo, de uma vida tranqüila, ordenada, de uma atmosfera que seja sua, e, algures, no estrangeiro, não estaria no seu ambiente. Se partisse, voltaria. Não poderia passar sem nós. Quando eu o tiver metido na prisão, passado um, dois, suponhamos, três meses, as minhas palavras hão de voltar-lhe à memória, confessar-se-á consigo próprio e talvez no instante em que menos o espere. Uma hora antes ainda o senhor não saberá que está maduro para essa confissão. Estou até convencido de que acabará por aceitar o sofrimento. Nesse momento não acredita no que eu lhe digo; mas há de chegar a sua hora. A dor, Rodion Românovitch, é, de fato, uma grande coisa. Não se admire de me ouvir falar assim, eu, um homem que conta com o bem-estar; sei muito bem que isto faz sorrir; mas há um sentido na dor e Nikolai tem razão. o senhor não fugirá, Rodion Românovitch.

Raskólhnikov levantou-se do seu lugar e pegou o gorro. Porfíri levantou-se também.

- Tenciona dar um passeio? Vai fazer uma tarde bonita desde que não se levante uma tempestade. Embora, no fim de contas, talvez fosse melhor, pois refrescaria a atmosfera.

Pegou também o seu gorro.

- Porfíri Pietróvitch - insistiu Raskólhnikov em tom duro -, seria bom que não se lhe metesse na cabeça que eu, hoje, lhe fiz confissões. o senhor é tão estranho, que eu estive a escutá-lo por pura curiosidade. E não lhe confessei absolutamente nada. Não se esqueça disso.

- Bem sei, bem sei, e não me esqueço. Mas veja como está tremendo. Não se preocupe, meu amigo, respeitaremos a sua vontade. Vá dar um passeíozinho; mas não vá muito longe. De toda a maneira, tenho de fazer-lhe um pequeno pedido - acrescentou, baixando a voz -; é uma coisa delicada, mas tem a sua importância: no caso de ter a intenção, embora eu não o creia, considero-o incapaz disso, mas é bom prever-se tudo; no caso de lhe ocorrer a idéia, durante estas quarenta e oito horas, de acabar com a existência e atentar contra a sua vida (desculpe-me esta suposição absurda), deixe então uma cartinha suficientemente explícita. Apenas duas linhas, duas simples linhazinhas, indicando onde se encontra aquela pedra; isso será mais cavalheiresco. Bem, vamos lá... até a vista... Queira Deus que lhe ocorram bons pensamentos e que os ponha em prática.

Porfíri saiu. Poderia dizer-se que o seu corpo se dobrava, que evitava olhar para Raskólhnikov. Este foi até a janela e esperou com impaciência febril o momento em que, segundo os seus cálculos, o juiz de instrução já teria saído e se afastado suficientemente. Depois saiu também do quarto, a toda a pressa.