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Era-lhe urgente ver Svidrigáilov. O que podia esperar desse homem, nem ele mesmo o sabia. Mas esse homem exercia sobre ele um poder misterioso. A partir do momento em que compreendera isso, deixara de ter sossego, e, além disso, já chegara o momento de pôr tudo a claro.

Durante o caminho houve uma pergunta que, sobretudo, o torturava: teria Svidrigáilov falado com Porfíri? Tanto quanto ele podia perceber... não tinha. Raskólhnikov era capaz de jurar que não. No entanto, Raskólh nikov evocou ainda a visita de Porfíri, e ia sempre parar a esta conclusão: não, Svidrigáilov não se encontrara com o juiz de instrução, não, com certeza! Mas, se Svidrigáilov ainda não tinha ido, iria ou não procurar Porfíri? Pelo menos de momento, parecia-lhe que essa visita não se realizaria. Por quê? A razão disso, não a sabia; mas, se lhe fosse possível explicá-lo, também não cansaria a cabeça por causa disso. Tudo isso o torturava, mas, ao mesmo tempo, esse ainda era o mais pequeno dos seus cuidados. Coisa estranha e até difícil de acreditar: a sua sorte atual, imediata, só muito fracamente o preocupava, e pensava nela distraidamente. O que o atormentava era outra coisa, algo muito mais grave e excepcional, que só a ele dizia respeito, mas que era diferente e de capital importância. Experimentava, além disso, uma enorme lassidão moral, apesar de nessa manhã se encontrar em melhores condições para raciocinar que nos dias anteriores. E, além disso, depois de tudo quanto acabava de acontecer, que necessidade tinha ele agora de procurar vencer todas essas míseras dificuldades que de novo surgiam no seu caminho? Valia a pena, por exemplo, procurar enredar com Svidrigáilov para que este não fosse procurar Porfíri, perder tempo a desmascarar e desarmar um Svidrigáilov qualquer? Já estava farto de tudo isso. E, no entanto, corria em busca de Svidrigáilov; não poderia dar-se o caso de haver qualquer coisa de novo a esperar dele, alguma indicação, algum meio de acabar com aquilo tudo? Às vezes sucede-nos agarrarmo-nos a uma palha! Não se daria o caso de o destino ou o instinto os impelir um para o outro? Talvez no caso de Raskólhnikov se tratasse simplesmente de cansaço, de desespero; talvez tivesse necessidade, não de Svidrigáilov, mas de outra pessoa; se se valia deste era porque não tinha outro recurso. E Sônia? Mas por que havia de ir ver Sônia naquele momento? Para mendigar de novo as suas lágrimas? Além disso, Sônia inspirava-lhe espanto. Sônia representava a sentença irrevogável, sem apelação. Ir vê-la era abdicar. Naquele instante, sobretudo, não se sentia capaz de suportar a sua presença. Portanto, não valia mais tentar a sorte com Svidrigáilov? Por que não, afinal? Não podia deixar de reconhecer no fundo de si mesmo que, havia já muito tempo, aquele homem lhe era necessário. Mas, no entanto, que podia haver entre eles de comum? Inclusivamente aquele homem tinha algo de extraordinariamente antipático; era, evidentemente, um libertino consumado, cauteloso e manhoso com toda a segurança; talvez até um refinado malandro. Corriam acerca dele muitas histórias desse gênero. É certo que tomara a seu cargo os filhos de Ekatierina Ivânovna; mas sabia-se lá com que intenção? Um homem da sua laia com certeza que andava tramando qualquer coisa.

Havia já vários dias que um certo pensamento assaltava e obcecava Raskólhnikov, o qual tentava em vão afugentar, tão doloroso lhe era. Às vezes dizia para consigo: "Svidrigáilov anda sempre a dar voltas junto de mim e, neste momento, está a rondar-me; Svidrigáilov descobriu o meu segredo; Svidrigáilov teve intenções sobre Dúnia. E se agora ainda as tivesse? Pode-se quase afirmar que sim, sem receio de engano. Agora que conhece o meu segredo e me tem na mão, de certa maneira, irá servir-se disso como de uma arma contra Dúnia?"

Essa idéia às vezes até em sonhos o perturbava, mas a primeira que se lhe mostrou à consciência, com toda a clareza, foi no momento em que se dirigia para a casa de Svidrigáilov. Bastou esse pensamento para lhe provocar um surdo ataque de raiva. Em primeiro lugar, a situação mudava por completo, até mesmo naquilo que pessoalmente o afetava; não tinha outro remédio senão revelar o mais depressa possível o seu segredo a Dúnia. Não faria bem em ir ele próprio denunciar-se, com o fim de pôr Dúnia a salvo de algum passo imprudente? E aquela carta? Dúnia recebera nessa mesma manhã uma carta? Quem é que, em Petersburgo, poderia escrever-lhe? Seria de Lújin essa carta? É certo que Razumíkhin era uma boa sentinela, mas Razumíkhin não sabia de nada. Não faria bem em ser franco com Razumíkhin? Mas, perante essa idéia, Raskólhnikov experimentou uma sensação de espanto.

"Seja como for, é preciso ir imediatamente procurar Svidrigáilov", decidiu finalmente. "Graças a Deus, os pormenores têm aqui menos importância do que o fundo do assunto; mas se for capaz disso... desde que Svidrigáilov intente a menor coisa contra Dúnia, nesse caso..."

Raskólhnikov estava tão esgotado por aquele longo mês de lutas e comoções que não se sentia capaz de resolver questões semelhantes senão com estas palavras de frio desespero: "Nesse caso, matá-lo-ei". Um doloroso sentimento lhe oprimia o coração, parou no meio da rua e girou os olhos à sua volta. Que caminho seguira? Onde é que se encontrava? Encontrava-se na Avenida de X..., a trinta ou quarenta passos do Mercado do Feno, que atravessara. O primeiro andar do prédio da esquerda era completamente ocupado por uma taberna. Todas as janelas estavam abertas de par em par. A taberna, a avaliar pelas figuras que assomavam às janelas, estava apinhada. Da sala, onde tocavam clarinete e violino, ao compasso de um repique de tambor, chegava um rumor de canção. Ouviam-se gritos agudos de mulher. Estava Raskólhnikov quase decidido a voltar atrás, a si mesmo perguntando por que tomara o rumo da Avenida de X... quando, de súbito, numa das janelas do estabelecimento, descobriu Svidrigáilov, de cachimbo na boca, sentado a uma mesa de chá(1). Sentiu um grande assombro, mesclado de terror. Svidrigáilov observava-o e contemplava-o em silêncio, e o que acabou de deixar Raskólhnikov estupefato foi que lhe pareceu ter notado que Svidrigáilov queria levantar-se e escapulir-se suavemente antes que ele o visse. Raskólhnikov fingiu não o ter visto e olhou para o outro lado com o ar perplexo, embora sem o perder de vista pelo canto do olho. O coração pulsava-lhe de angústia. Era isso, sem dúvida, Svidrigáilov queria passar despercebido. Tirou o cachimbo da boca e procurou esconder-se, mas ao levantar-se para afastar a cadeira reparou, provavelmente, que Raskólhnikov o tinha visto e o estava contemplando. Passou-se entre ambos qualquer coisa semelhante à cena do seu primeiro encontro em casa de Raskólhnikov, no momento em que este dormia. Um sorriso de velhacaria assomou ao rosto de Svidrigáilov, que, aliás, se pavoneou. Um e outro se sabiam mutuamente espiados. Até que por fim Svidrigáilov rompeu numa estrepitosa gargalhada.

- Vamos, vamos! Entre, se quiser, eu aqui estou! - gritou da janela. Raskólhnikov subiu à taberna.

Encontrou Svidrigáilov num pequeno gabinete traseiro, contíguo a um salão, onde, diante de umas vinte mesinhas, uma multidão de comerciantes, de funcionários e de pessoas de todos os gêneros tomava chá por entre a horrível algazarra dos cantadores, que berravam em coro. De qualquer lugar chegava um barulho de bolas de bilhar entrechocando-se. Svidrigáilov tinha na sua frente, em cima da mesa, uma garrafa de champanha e um copo meio esvaziado. Havia também nesse pequeno gabinete um rapazinho que tocava realejo, acompanhado de uma cantora, uma mocetona de uns dezoito anos, bochechuda e corada, embrulhada numa saia listrada, de mangas arregaçadas e com um chapéu tirolês de fitas. Cantava umas coplas vulgares, apesar do coro ruidoso que se elevava do salão vizinho, acompanhada pelo realejo, com uma voz de contralto, muito casquinada.

- Vamos! Já chega! - interrompeu-a Svidrigáilov, quando Raskólhnikov entrou.

A moça suspendeu a cantoria e ficou aguardando numa atitude respeitosa. Até quando estava cantando aquelas brejeirices com acompanhamento de música, também conservava no rosto essa mesma expressão de respeito e gravidade.

- Eh, Filip, um copo! - gritou Svidrigáilov. - Eu não bebo vinho - disse Raskólhnikov.

- Como quiser, mas não estava chamando por sua causa. Vamos, Kátia, bebe e vai-te embora! Já não preciso de ti.

* (1) Nas tabernas servia-se também chá, uma das bebidas nacionais russas. (N. do T) *

Ofereceu-lhe um copo de vinho e meteu-lhe na mão uma pequena nota. Kátia bebeu o vinho como as mulheres costumam fazê-lo, sem tirar os lábios do copo, em vinte golinhos; depois pegou a nota, beijou a mão de Svidrigáilov, que a deixou beijar com o ar mais sério deste mundo, e abandonou a sala, seguida do rapaz do realejo. Eram ambos filhos da rua. Svidrigáilov estava apenas há oito dias em Petersburgo, mas já se encontrava aí tão à vontade como na aldeia. O moço da sala, Filip, era já seu conhecido, e arrastava-se de um modo servil. Uma volta de chave na porta e Svidrigáilov estava ali como em sua casa, seria até possível que passasse ali dois dias inteiros. Aquela taberna suja, reles, nem sequer de segunda categoria podia classificar-se.

- Ia à sua casa e andava à sua procura! - começou Raskólhnikov. - Mas, não sei por que, de repente torci para a Avenida de X..., ao sair do Mercado do Feno! Nunca passo nem venho por aqui. Volto sempre à direita do Mercado. Este também não é o caminho para ir à sua casa. E ainda mal dera a volta, eis senão quando o vejo; é estranho!

- Por que não diz o senhor, simplesmente, que é um milagre? - Porque pode ser que não passe de casualidade.

- Que tipos tão engraçados! - disse Svidrigáilov pondo-se a rir. - Ainda que estejam intimamente convencidos do milagre, não querem reconhecê-lo! O senhor é o próprio a dizer que pode ser que não se trate senão de uma casualidade. E como são covardes a respeito das suas opiniões; o senhor não pode fazer uma idéia, Rodion Românovitch! O senhor possui uma opinião pessoal e não teve medo de tê-la. Foi precisamente por isso que despertou a minha curiosidade.

- Só por isso?

- E já é bastante!

Era visível que Svidrigáilov se encontrava num estado de excitação, mas não muito acentuado; não bebera mais do que meio copo de vinho. - Tenho a impressão de que o senhor veio ao meu encontro ainda antes de saber se eu tinha ou não aquilo que chama uma opinião pessoal - insinuou Raskólhnikov.

- Nessa altura era diferente. Cada um procede à sua maneira. Pelo que respeita ao milagre, dir-lhe-ei que lhe noto uma cara como se tivesse estado a dormir durante estes dois ou três últimos dias. Eu próprio lhe indicara esta taberna, por isso não é nada estranho que tivesse vindo direito aqui. Eu lhe dissera o caminho que devia seguir, o lugar em que fica e as horas a que podia encontrar-me aqui. Não se lembra?

- Esquecera-me - respondeu Raskólhnikov surpreendido.

- Acredito; disse-lhe por duas vezes. O endereço devia ter-se-lhe gravado maquinalmente na memória e maquinalmente deve o senhor ter-se encaminhado para aqui, sem se lembrar já bem ao certo do endereço. Aliás, eu não tinha a menor ilusão de que estivesse a escutar-me enquanto eu lhe falava. O senhor é demasiado distraído, Rodion Românovitch. E, além disso, estou convencido de que há muitas pessoas, em Petersburgo, que andam pelas ruas falando sozinhas. Isto é uma cidade de gente meio doida. Se nós tivéssemos um pouco de ciência, alguns médicos, juristas e filósofos poderiam fazer as observações mais interessantes, nas suas respectivas especialidades, em Petersburgo. Será difícil encontrar outra terra onde atuem sobre a alma humana influxos tão tenebrosos, tão intensos e tão estranhos como em Petersburgo. Talvez seja a ação do clima! Mas, como é o centro administrativo do país, o seu caráter deve refletir-se na Rússia inteira. Mas não é disso que se trata agora: o que eu lhe queria dizer era que tenho observado por mais de uma vez; quando sai de casa leva a cabeça erguida. Mas, apenas dá vinte passos, logo abaixa e cruza as mãos atrás das costas. Olha, e percebe-se muito bem que não vê nada, nem do que se passa à sua frente nem ao seu lado. Até que acaba por se pôr a mexer os lábios e a falar sozinho; além disso gesticula muito enquanto fala, e depois pára de repente no meio da rua e aí fica parado durante muito tempo. Isso não está certo. Poderiam outras pessoas observá-lo e, francamente, isso não é conveniente. No fundo, a mim tanto me faz, e não seria eu quem pretenda curá-lo desse mau costume, mas espero que me compreenda.

- O senhor sabe se estou sendo espiado? - perguntou Raskólhnikov, olhando-o com curiosidade.

- Não, não sei nada disso - respondeu Svidrigáilov espantado.

- Bem, bem, não falemos mais no caso - resmungou Raskólhnikov franzindo o sobrolho.

- Muito bem, não falemos mais.

- O melhor seria que me dissesse como é que, vindo eu aqui para beber e tendo-me indicado por duas vezes este lugar para que viesse procurá-lo, por que é que, agora, quando eu olhava da rua para a janela, o senhor se escondeu e quis escapulir-se... Reparei muito bem.

- He, he! E o senhor, outro dia quando eu estava à entrada da sua porta, não se deixou ficar de olhos fechados, no seu divã, fingindo dormir, embora estivesse perfeitamente acordado? Eu também percebi isso muito bem. - Podia ter... as minhas razões... O senhor bem sabe.

- Pois também eu podia ter as minhas razões, que o senhor não sabe. Raskólhnikov apoiou o cotovelo direito sobre a mesa, segurando o queixo com a mão, e olhou fixamente para Svidrigáilov. Havia um minuto que contemplava aquela cara, que sempre o chocara. Era uma cara singular, que parecia uma máscara: branca, vermelha, com uns lábios de vermelhão, uma barba de um louro avermelhado e o cabelo branco, ainda bastante espesso. Tinha os olhos demasiado azuis, de um olhar muito parado e fixo. Havia algo de terrivelmente antipático naquele belo rosto, que se conservara, apesar dos anos, incrivelmente jovem. Svidrigáilov trazia um traje de verão, de um tecido fino e leve, e distinguia-se sobretudo pela roupa interior. Um grande anel, com uma pedra preciosa, brilhava num dos seus dedos.

- Irá o senhor dar-me ainda preocupações? - perguntou Raskólhnikov de repente, indo direito ao assunto com febril impaciência. - Embora o senhor seja talvez o mais perigoso dos homens, se se decidir a fazer o mal, não procurarei dissimular por mais tempo e vou demonstrar-lhe agora mesmo que eu não ando querendo esconder-me. Fique sabendo, portanto, que eu vim para lhe dizer que, se persiste nos mesmos propósitos a respeito da minha irmã e pensa tirar partido do segredo que surpreendeu há pouco, matá-lo-ei antes que tenha tido tempo de mandar-me para a prisão. Acredite no que eu lhe digo, já sabe que sou capaz de cumpri-lo. Além disso, se tem alguma confidência a fazer-me, e já há muito tempo me parece que o senhor tem qualquer coisa para me dizer, apresse-se, porque o tempo é precioso e talvez muito em breve seja demasiado tarde...

- Mas para que tanta pressa? - perguntou Svidrigáilov olhando-o com curiosidade.

- Todos nós temos os nossos assuntos a tratar - respondeu Raskólhnikov impaciente e com um ar sombrio.

- O senhor acaba de convidar-me a ser franco e desde a primeira pergunta que evita responder - observou Svidrigáilov sorrindo. - O senhor julga sempre que eu trago entre as mãos certos projetos e por isso me olha com olhos desconfiados. No fim de contas, quando uma pessoa se encontra nas suas circunstâncias, é perfeitamente compreensível. Mas, por mais que eu deseje viver em boas relações com o senhor, não me darei ao trabalho de tirá-lo desse erro. Meu Deus, isso não valeria a pena e, além do mais, eu não tinha a intenção de falhar-lhe de maneira particular.

- Então por que é que eu lhe era tão necessário? Por que é que o senhor não deixa de rondar-me?

- Simplesmente por curiosidade, como objeto de observação. Interessa-me o lado fantástico do seu caso. Aí tem o porquê. Além disso o senhor é irmão de uma pessoa que me interessava muito e, finalmente, a essa pessoa ouvi eu, em tempos, falar muito amiúde do senhor, de onde pude deduzir que exerce sobre ela uma grande influência; ainda lhe parece pouco tudo isso? He, he, he! Além disso confesso-lhe que a sua pergunta é demasiado complexa e é-me muito difícil responder-lhe. Ora vejamos, por exemplo: não teria o senhor vindo agora mais para comunicar-me algo de novo do que para falar-me de qualquer assunto? Não será isso? Não será isso? - insistiu Svidrigáilov com um sorriso ladino. - Imagine, depois disto, que eu próprio, quando vinha ainda a caminho para aqui, no trem, tinha a ilusão de que o senhor havia de revelar-me qualquer coisa de novo e que eu havia de conseguir tirar de ti (2) algum proveito. Já vês como nós somos, nós, os ricos.

- Tirar algum proveito? De que maneira?

* (2) Svidrigáilov passa assim do tratamento de senhor para o de tu, no texto. (N. do T) *

- Como explicar-lho? Sei-o eu, porventura? Olha, eu passo a vida nas tabernas e encontro prazer nisso; quero dizer, não o faço tanto por gosto, como porque é preciso estar sentado em qualquer lugar. Ainda que apenas com essa pobre Kátia... Viu-a? Bem, se eu fosse, por exemplo, um glutão, um gastrônomo de clube, mas olhe para o que eu posso comer! - estendeu o dedo para um canto onde, em cima de uma mesinha redonda, numa travessa de latão, se viam restos de um horrível bife com batatas. - E, a propósito, já almoçou hoje? Eu já comi um pouco e não quero mais. Vinho, por exemplo, também não bebo, a não ser champanha, e deste apenas um copo numa tarde, e até isso me faz doer a cabeça. Se o pedi, hoje, foi para me animar, porque tenho de ir a um lugar e preciso de ter uma certa disposição de espírito. Há pouco escondi-me como um colegial, porque julguei que o senhor vinha roubar-me tempo; mas, pelo visto (puxou o relógio), ainda posso dedicar-lhe uma hora; sabe que são já quatro e meia? Ainda se eu fosse alguma coisa! Bem, proprietário ou pai de família, fotógrafo, jornalista... Mas nada, não tenho nenhuma profissão determinada! Às vezes aborreço-me. Eu pensava, de fato, que o senhor me traria novidades.

- Mas quem é o senhor e por que veio até aqui?

- Quem sou eu? O senhor já sabe: um nobre que serviu dois anos na cavalaria, e depois veio para aqui, para Petersburgo, dar voltas pelas ruas, e, finalmente, casou-se com Marfa Pietrovna e foi viver no campo. Aí tem o senhor a minha biografia resumida!

- Segundo dizem, o senhor é jogador. - Jogador, não. Trapaceiro...

- Trapaceiro? - Acho que sim. - E então nunca lhe deram uma sova? - Algumas vezes. E então?

- É que podiam provocá-lo para um duelo... e, em geral, isso põe uma certa animação na vida.

- Não lhe digo que não, e neste ponto não sou forte em filosofias. Confesso-lhe que, acima de tudo, vim aqui por causa das mulheres.

- Logo depois da morte de Marfa Pietrovna?

- Claro! - respondeu Svidrigáilov com subjugadora franqueza. - Que tem isso de especial? Não acha bem que eu fale, assim, das mulheres? - Isso significa perguntar se eu condeno o vício?

- O vício! Deixe-se disso! Mas vou responder-lhe ordenadamente a respeito das mulheres, primeiro em termos gerais; repare, eu tenho inclinação para falar. Diga-me: por que havemos de virar as costas às mulheres se elas nos agradam? Ao menos é uma ocupação.

- De maneira que, então, o que o trouxe aqui foi apenas o vício. - Seja, visto que insiste, chamemos-lhe vício. Admitamo-lo. Ao menos, a sua pergunta, franca, agrada-me. É o principal. Neste vício, pelo menos, há qualquer coisa de positivo, inclusivamente baseada na natureza e não preparada pela fantasia, algo que persiste como uma brasa acesa no sangue e que nem debaixo do peso dos anos se extingue facilmente. Há de concordar comigo que esta é uma ocupação, à sua maneira!

- Não é caso para felicitá-lo. Isso é uma doença, e perigosa.

- Que diz? Eu estou convencido de que isso é uma doença como tudo o que ultrapassa os limites, e aí ultrapassa-se infalivelmente. Mas repare: em primeiro lugar, cada qual tem os seus limites, este tem um, aquele outro, e, além disso, em tudo é preciso ter comedimento, embora isto seja um cálculo reles; mas que se há de fazer? Se procedermos de outra maneira, não nos resta mais nada senão darmos um tiro na cabeça. Concordo que o homem morigerado tem obrigação de aborrecer-se, mas, apesar de tudo... - E o senhor seria capaz de dar um tiro na cabeça?

- Qual! - respondeu Svidrigáilov com repugnância. - Faça favor de não falar dessas coisas - apressou-se a acrescentar, agora sem ponta dessa fanfarronice que deixava transparecer nas palavras anteriores; até mudou a expressão do seu rosto. - Reconheço que se trata de uma fraqueza imperdoável, mas que se há de fazer? Tenho medo da morte e não me agrada nem que falem nela. o senhor não sabe que eu tenho um pouco de místico?

- Ah, sim! As aparições de Marfa Pietrovna! Ainda continua a aparecer-lhe?

- Ah, não me faça lembrar dela! Em Petersburgo, ainda as não tive; que vão para o diabo! - exclamou com uma certa irritação. - Não, não falemos disso... mas, aliás... Hum! Já tenho pouco tempo, tenho pena de não poder continuar com o senhor! Tinha uma coisa para lhe contar.

- Mas por que está com essa pressa? Por causa de alguma mulher? - Sim, é uma mulher; um caso completamente inesperado... Não me refiro a isto.

- Mas a vileza de todo este ambiente não o impressiona? o senhor já não tem forças para se dominar?

- o senhor faz-se forte, não? He, he, he! o senhor deixa-me admirado, Rodion Românovitch, embora eu soubesse já de antemão que havia de ser assim. É o senhor que me vem falar, a mim, de vício e de estética? o senhor... um Schiller! o senhor... um idealista. Mas, de fato, tudo isto tem a sua razão de ser, e o que era para admirar era se não fosse assim, embora, apesar de tudo, seja um tanto estranho, na realidade... Ah, é pena eu não ter mais tempo, porque o senhor é um indivíduo muito curioso! E, a propósito, o senhor aprecia Schiller? Eu sou doido por ele.

- o senhor sempre é um grande gabarola! - disse Raskólhnikov com uma certa repugnância.

- Juro-lhe que não sou! - respondeu Svidrigáilov rindo. Embora, no fim de contas, não o discuta, admitamos que seja um gabarola; mas por que não há de uma pessoa gabar-se quando não ofende ninguém? Eu vivi anos na aldeia com Marfa Pietrovna, e depois, quando me encontrei agora com um homem inteligente, como o senhor... inteligente e extremamente curioso, pus-me a falar, simplesmente por alegria, sem contar com o que bebi, aliás só este meio copo de vinho e já me subiu um pouquinho à cabeça. Mas o principal foi uma certa circunstância que me produziu um grande alvoroço, mas da qual... não direi nada. Onde é que vai? - perguntou de repente Svidrigáilov com receio.

Raskólhnikov pôs-se de pé. Custava-lhe e parecia ter cometido uma vileza em ir ali. Estava convencido de que Svidrigáilov era o malandro mais vazio e insignificante do mundo.

- Ah! Sente-se, sente-se! - pediu Svidrigáilov. - Mas, ao menos, peça que lhe tragam chá. Vamos, sente-se, não julgue que vou contar-lhe disparates, isto é, continuar a falar-lhe de mim. Vou contar-lhe uma coisa. Vamos, fique, que eu vou contar-lhe como é que uma mulher, empregando a sua linguagem, me salvou. Com isso responderei também à sua primeira pergunta, visto que essa mulher é... a sua irmãzinha. O quê? Posso contar-lho? Vamos e mataremos assim o tempo.

- Conte; mas espero que...

- Oh! Não se preocupe! Até ao homem mais abjeto e depravado, como eu, Avdótia Românovna só pode inspirar o mais profundo respeito.