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- É possível que o senhor saiba (e, além disso, eu próprio lhe contei) - começou Svidrigáilov - que eu estive aqui preso por dívidas, dívidas enormes, e que não tinha meio nenhum de pagá-las. É escusado contar-lhe com todos os pormenores como é que Marfa Pietrovna veio resgatar-me. Sabe até que grau de loucura podem apaixonar-se, às vezes, as mulheres? Esta era uma mulher honesta, muito esperta, embora sem a mínima cultura. Pois imagine que essa ciumenta e honesta mulher decidiu-se a assinar, depois de muitas cenas e censuras, a assinar comigo um contrato que cumpriu escrupulosamente durante todo o tempo que estivemos casados. No fundo, ela era muito mais velha do que eu, e, além disso, mascava constantemente cravinho-da-índia. Eu tinha uma alma bastante baixa e, ao mesmo tempo, era honesto à minha maneira e, para falar-lhe com toda a franqueza, não podia ser-lhe absolutamente fiel. Esta confissão deixou-a estupefata; mas, segundo parece, a minha rude franqueza foi-lhe simpática, de certo modo. "Que diabo, isso é sinal de que ele não quer enganar-me, visto que começa por dizê-lo", e, vamos lá, para uma mulher ciumenta, isso é o principal. Depois de muitos choros ficou combinado entre nós um contrato verbal deste teor: primeiro, que eu nunca abandonaria Marfa Pietrovna e seria sempre seu marido; segundo, que nunca me ausentaria sem a sua permissão; terceiro, que nunca teria a mesma amante; quarto, que, em troca disso, Marfa Pietrovna me autorizava a brincar uma vez por outra com as nossas criadas, mas informando-a sempre, em segredo; quinto, que Deus me livrasse de me apaixonar por uma mulher da nossa classe; sexto, que, se por acaso (Deus me livrasse disso) eu chegasse a apaixonar-me a sério, ficava obrigado a comunicá-lo a Marfa Pietrovna. A respeito desta última cláusula, Marfa Pietrovna esteve sempre completamente tranqüila; era uma mulher inteligente, por conseguinte, não podia considerar-me de outro modo senão um ser corrompido, um libertino incapaz de amar seriamente. Mas uma mulher inteligente e uma mulher ciumenta... são duas coisas diferentes, e aí, precisamente, é que está o mal. Aliás, para julgar imparcialmente certas pessoas é preciso desprendermo-nos primeiro de certos hábitos cotidianos, abstermo-nos de julgarmos os indivíduos e os objetos que costumam rodear-nos. Eu tenho razão ao confiar mais no seu juízo do que no das outras pessoas. É possível que eu lhe tenha descrito Marfa Pietrovna como uma mulher ridícula e tola. De fato, tinha alguns costumes muito ridículos; mas digo-lhe, francamente, que eu deploro com toda a sinceridade os inumeráveis desgostos que lhe dei. E, vamos lá, creio que isso já é bastante como decentíssima oração fúnebre do mais carinhoso marido para a sua amantíssima esposa. Na ocasião das nossas contendas, eu me calava, geralmente, e não me zangava, e essa conduta de gentleman produzia quase sempre efeito; influía nela e até lhe agradava; às vezes até se mostrava orgulhosa de mim. Mas, à sua irmã, apesar de tudo, não pôde suportá-la. Mas como foi possível que ela se tivesse atrevido a meter em casa uma beldade daquelas como preceptora! Eu explico isso calculando que Marfa Pietrovna era uma mulher inflamável e sensível, e que se apaixonou, simplesmente (essa é a palavra), pela sua irmã. Além disso foi Avdótia Românovna quem deu o primeiro passo. Não acredita? E não quero crer também que Marfa Pietrovna chegou até o extremo de se zangar comigo, a princípio, por causa do meu eterno silêncio a respeito da sua irmã e por eu me mostrar tão indiferente perante os seus contínuos e apaixonados elogios de Avdótia Românovna? Eu não sei o que ela pretendia! É claro que Marfa Pietrovna deve ter posto Avdótia Românovna a par da minha maneira de ser. Ela possuía um hábito infeliz: o de ir contar a toda a gente os nossos segredos conjugais e de queixar-se constantemente de mim a toda a gente. Como não havia ela de fazê-lo também com uma nova e tão bonita amiga? Calculo que as duas não deviam ter outro tema de conversa que não fosse eu, e sem dúvida que todos esses sombrios e misteriosos boatos que corriam a meu respeito... deviam ter chegado ao conhecimento dela: aposto em como o senhor também deve ter ouvido qualquer coisa do gênero.

- Ouvi. Lújin acusava até o senhor de ter sido a causa da morte de uma pequenina. É verdade?

- Faça favor de deixar em paz todas essas vilanias - respondeu Svidrigáilov com repugnância e brusquidão -; se o senhor tem de fato empenho em conhecer a fundo todo esse disparate, talvez alguma vez lhe conte, mas, agora...

- Também falou de certo criado seu da aldeia e de que o senhor também tivera a culpa não sei de quê.

- Por favor, já chega! - atalhou Svidrigáilov com impaciência colérica. - Não será o tal criado que, depois de morto, lhe foi buscar o cachimbo, conforme o senhor mesmo me contou? - insistiu Raskólhnikov com irritação crescente.

Svidrigáilov olhou firme para Raskólhnikov, e a este pareceu-lhe que naquele olhar houve por um momento um brilho fulminante, mau; mas Svidrigáilov conteve-se e respondeu com muita delicadeza: - É esse mesmo. Vejo que isso também lhe causa muita impressão, e considero um dever satisfazer a sua curiosidade com toda a espécie de pormenores na próxima oportunidade. Que vão para o diabo! Vejo que, de fato, posso passar por uma personagem de novela romântica. Portanto, sendo assim, veja até que ponto eu tenho obrigação de agradecer a Marfa Pietrovna ter já contado à sua irmã tantas coisas secretas e curiosas a meu respeito. Não me atrevo a avaliar a impressão; mas, em todo caso, isso, para mim, foi-me muito proveitoso. Apesar de toda a sua natural repugnância pela minha pessoa, e apesar do meu eterno aspecto sombrio e repelente, Avdótia Românovna acabou por chegar a sentir compaixão por mim, compaixão pelo homem vicioso. E quando o coração duma mulher começa a apiedar-se, isso, para ele, é, evidentemente, o mais perigoso. Então há de sentir infalivelmente anseios de salvar e de regenerar, de ressuscitar, de guiar para fins mais elevados, de chamar a uma nova vida e a uma nova atividade... bem, já sabe o que se pode imaginar dentro deste teor. Eu compreendi imediatamente que a borboleta andava rondando a chama e, por meu lado, pus-me de sobreaviso. Mas parece que o senhor franze o sobrolho, Rodion Românovitch. Não é caso para isso, porque, como sabe, a coisa não foi além disso. (Raios partam o vinho que eu bebi!) Olhe, fique sabendo que, desde o primeiro momento, eu sempre lamentei que o destino não tivesse feito nascer a sua irmã no segundo ou terceiro século da nossa era, em qualquer parte, filha dum poderoso príncipe ou de algum governador ou procônsul da Ásia Menor. Não há dúvida nenhuma de que teria sido uma daquelas mulheres que sofriam o martírio, e certamente teria sorrido quando lhe dilacerassem o peito com tenazes em brasa. Ter-se-ia oferecido para isso espontaneamente, e, nos séculos quarto ou quinto, ter-se-ia retirado para o deserto do Egito e aí teria vivido trinta anos alimentando-se de raízes, de fé e de visões. O que ela deseja e pede é unicamente sofrer o mais depressa possível um martírio por alguém, e, desde que lho façam sofrer, é possível que se atire da ponte abaixo. Ouvi dizer qualquer coisa a respeito de um certo Senhor Razumíkhin. Segundo dizem, é rapaz sensato (o que o seu nome já indica; provavelmente é um seminarista). Pois bem, ele que vele pela sua irmã. Em resumo: eu julgo tê-la compreendido, com o que muito me honro. Mas, naquela altura, quero dizer, quando se conhece uma pessoa, a princípio, o senhor bem sabe que se fica sempre um pouco desorientado e incorremos sempre em incompreensão, não somos muito clarividentes, vemos aquilo que não existe; tentei tirar partido, além do mais ela era tão bonita! Eu não tinha a culpa! Em resumo: desde o primeiro momento inspirou-me uma paixão irresistível. Avdótia Românovna é terrivelmente casta, de maneira inaudita e nunca vista. (Repare que eu digo isso da sua irmã como uma realidade. Ela é casta, talvez até a um grau doentio, apesar de toda a sua largueza de espírito, e isso prejudica-a.) Lá em nossa casa havia uma moça, Paracha, a Paracha dos olhos negros, que tinham enviado da outra aldeia como aia, e a qual eu não vira até então; uma moça muito engraçada, mas extraordinariamente estúpida; era muito chorona, enchia a casa de gritos e até provocou um escândalo. Uma vez, depois do jantar, Avdótia Românovna foi intencionalmente procurar-me a sós numa alameda do jardim, e exigir-me, com olhos faiscantes, que deixasse Paracha em paz. Foi essa a nossa primeira conversa a sós. Eu, é claro, considerei uma honra aceder ao seu desejo e esforcei-me por fingir-me contrariado, mortificado; numa palavra: desempenhei muito bem o meu papel. Devido a isso estabeleceram-se entre nós certas relações, diálogos secretos, lições de moral, admoestações, pedidos e até lágrimas... pode acreditar, até lágrimas. Veja o senhor onde a paixão pela catequese conduz algumas moças. Eu, é claro, deitei a culpa de tudo ao meu destino; pintei-me como um homem ávido de luz, deitei mão do meio mais poderoso e infalível para apoderar-me do coração duma mulher, um meio que nunca falha e que produz efeito em todas elas, desde a primeira à última. Esse meio, como toda a gente sabe, é a lisonja. Não há no mundo coisa mais difícil do que a sinceridade e mais fácil que a lisonja. Se à sinceridade se mistura a mais pequena nota falsa, surge imediatamente a dissonância e, atrás dela... o escândalo. Ao passo que a adulação, ainda que seja falsa até a última nota, torna-se simpática e ouve-se com satisfação: com satisfação grosseira, sim, mas com satisfação. E, por muito tosca que seja a lisonja, metade dela, pelo menos, parece sempre verdadeira. E isso para todos os graus de cultura e hierarquia social. Até a uma vestal seria possível seduzir com a lisonja. E nem é preciso falar das pessoas vulgares. Não posso deixar de sorrir quando me lembro de como seduzi uma vez uma mulher casada, com filhos e virtuosa, e que além disso gostava muito do marido. Como aquilo foi divertido e me deu tão pouco trabalho! Mas, de fato, a senhora era extremamente virtuosa, à sua maneira. Toda a minha tática se reduziu unicamente a mostrar-me sempre como se me sentisse esmagado pela sua castidade e cheio de adoração perante ela. Eu a adulava de uma maneira descarada, e apenas conseguira segurar-lhe na mão ou deter um olhar, logo me punha a recriminar-me a mim próprio por ter conseguido aquilo à força, porque ela não o queria; e não o queria a tal ponto que eu, se não fosse tão vicioso, provavelmente nunca teria conseguido nada; ela, na sua inocência, não pressentia sequer o mal e entregou-se inconscientemente, sem saber... sem suspeitar etc. etc. Enfim, consegui dela tudo, e a boa da senhora estava convencida de que era inocente e pudica, e que cumpria todos os seus deveres e obrigações e que caíra de um modo inesperado. E como ela ficou zangada comigo quando eu, no fim de tudo, acabei por explicar-lhe com toda a sinceridade que estava plenamente convencido de que ela, em tudo aquilo, procurara tanto o prazer como eu. A pobre Marfa Pietrovna também se rendia terrivelmente à lisonja, e, se eu o tivesse desejado, não há dúvida de que, se ainda fosse viva, me teria cedido todos os seus bens. (Mas eu estou bebendo e falando à doida.) Espero que não irá ficar agora admirado por eu lhe dizer que esse mesmo efeito começou a manifestar-se em Avdótia Românovna. Simplesmente eu fui parvo e impaciente e deitei tudo a perder. Antes disso já algumas vezes (e sobretudo uma certa vez) uma terrível expressão dos meus olhos a impressionara pessimamente, quer acreditar? É que neles fulgurava cada vez com mais violência e clareza um fogo que a assustava e que acabou por se lhe tornar odioso. Não quero contar-lhe pormenores; mas zangamo-nos. E então tornei a cometer outra estupidez. Pus-me a troçar, da maneira mais grosseira, de toda aquela catequese e conversão; Paracha tornou a entrar em cena e não ela apenas... Numa palavra, eu começava a levar uma vida infernal! Oh, se o senhor, Rodion Românovitch, tivesse visto, ao menos uma vez na vida, como os olhos da sua irmã brilhavam em certas ocasiões! Não é por eu estar agora embriagado e ter bebido um copo de vinho que estou dizendo-lhe a verdade. Afirmo-lhe que esse olhar não me deixava dormir; por fim, já nem sequer podia suportar o rumor da sua saia. Era precisamente como se fossem dar-me ataques de epilepsia; nunca imaginara que pudesse chegar a ver-me em tal estado de embevecimento. Em resumo: era absolutamente necessário obter uma reconciliação, simplesmente isso era já impossível. E imagine o que eu fiz então. Até que grau de estupidez a raiva pode levar um homem! Nunca faça nada quando estiver furioso, Rodion Românovitch. Pensando que Avdótia Românovna, no fundo, era uma pobre... (ah! desculpe-me, eu não queria... mas que importa a expressão, sempre que designe a idéia?) enfim, que vivia do trabalho das suas mãos... que tinha de prover o sustento da mãe e de si mesma (oh, diabo, lá vai ficar outra vez aborrecido!), resolvi oferecer-lhe todos os meus capitais (trinta mil rublos era quanto eu podia arranjar nessa altura) se ela quisesse fugir comigo e vir para aqui, para Petersburgo. É claro que eu lhe jurava amor eterno, felicidade etc. etc. Será capaz de acreditar que eu, então, estava tão louco que, se ela me tivesse dito "Envenena Marfa Pietrovna ou corta-lhe o pescoço e casa-te comigo", imediatamente o teria feito? Mas tudo acabou numa catástrofe, como o senhor já sabe, e pode calcular também até que ponto eu teria ficado furioso quando soube que Marfa Pietrovna fora buscar esse velhaco do Lújin e andava preparando um casamento... que, no fundo, teria sido o mesmo que eu lhe propunha. Não é assim? Não é assim? Não será verdade? Reparo que me escuta com muita atenção... é um rapaz interessante!

Impaciente, Svidrigáilov descarregou um soco sobre a mesa. Estava vermelho. Raskólhnikov via claramente que aquele copo ou copo e meio de champanha que ele bebera sem dar por isso, aos golinhos, lhe fazia mal... e decidiu aproveitar-se dessa circunstância. Svidrigáilov inspirava-lhe um grande receio.

- Muito bem... tudo isso me faz crer que o senhor veio a Petersburgo com intenções a respeito da minha irmã - disse a Svidrigáilov, francamente e sem a mínima dissimulação, para irritá-lo ainda mais.

- Ah, basta! - disse Svidrigáilov, como se se apercebesse de repente - já lhe disse... E, além disso, a sua irmã não me pode suportar.

- Disso estou eu certo; mas não é disso que se trata agora.

- Está certo de que ela não pode suportar-me? - Svidrigáilov piscou um olho e sorriu com sarcasmo. - Tem razão, ela não gosta de mim; mas nunca ponha as mãos no fogo quando se trata de coisas entre marido e mulher ou entre apaixonados. Há sempre aí um cantinho, que permanece ignorado para toda a gente, e que só eles, os dois, conhecem. É capaz de afirmar que Avdótia Românovna me olha com aversão?

- A avaliar por algumas frases e palavras que pronunciou durante a nossa conversa, pude concluir que o senhor mantém intenções, e das mais prementes, sobre Dúnia, intenções, naturalmente, vis.

- o quê? Eu pronunciei algumas frases e palavras? - e Svidrigáilov manifestou um terror muito ingênuo, mas sem dar a menor atenção ao epíteto atribuído às suas intenções.

- Acabou agora mesmo de pronunciá-las. Mas por que tem esse medo? - Eu tenho medo? Eu estou com medo? Eu, ter medo do senhor? o senhor é que deve ter medo de mim, mon cher. Ora esta! Além do mais, estou bêbado, bem vejo! Por pouco que não dava outra vez com a língua nos dentes. Raios partam o vinho! Vou mas é beber água!

Pegou a garrafa e, sem mais cerimônia, atirou-a pela janela.

- Tudo isso são disparates - continuou Svidrigáilov, molhando um guardanapo que aplicou nas fontes. - Posso desenganá-lo com uma só palavra e reduzir a pó todas as suas suspeitas. o senhor, por exemplo, sabe que eu estou para casar?

- Já me dissera isso outro dia.

- Já lho dissera? Pois já não me lembrava. Mas nessa altura ainda não lho devia ter dito de uma maneira definitiva, porque ainda não vira a minha futura noiva; a coisa não passava de uma intenção. Mas, agora, já tenho noiva e o assunto está decidido, e, embora não se trate de nenhum assunto urgente, vou já agarrá-lo e levá-lo a vê-la sem falta... porque quero pedir-lhe a sua opinião. Oh, diabo! Só temos dez minutos! Olhe para o relógio; aliás, já lhe vou contar, porque, no seu gênero, o meu casamento é uma coisa interessante... Mas que faz o senhor? Quer outra vez ir-se embora?

- Não, já não vou.

- Não vai? Sério? Vejamos. Eu hei de levá-lo até lá, de certeza, para que conheça a minha futura esposa; mas agora não, porque agora o senhor está com pressa. o senhor vai para a direita; eu, para a esquerda. Conhece essa tal Resslich? Essa mesma Resslich em cuja casa estou hospedado... hem? Já ouviu falar dela? Mas em que está o senhor pensando? É aquela que é acusada de ter provocado o suicídio de uma moça, neste inverno... Bom; já ouviu o seu nome? Já ouviu falar dela? Bem; bem, pois foi ela quem me sugeriu essa idéia: "Olha", disse-me ela, "tu andas aborrecido; precisas de te distraíres". Porque eu, não sei se sabe, sou um homem triste, cheio de tédio. Pensava que eu era alegre? Não, sou um homem sombrio; mas não faço mal a ninguém; fico sentadinho num canto e, às vezes, não digo uma palavra durante três dias. Mas essa cabra da Resslich, é claro, digo-lho francamente, tem o seu fim em vista: eu hei de aborrecer-me, abandonarei a minha mulher, e então ela tomará conta dela e explorá-la-á no nosso meio ou noutro mais elevado. Dizem que tem um pai decrépito, funcionário aposentado, que passa a vida sentado numa poltrona e fica três dias sem daí arredar pé. Dizem que também tem mãe, uma senhora muito decente, a sua mamacha. Além disso o filho faz serviço não sei onde, em qualquer governo, simplesmente não os ajuda. Uma filha casou-se e não sabem dela; mas tomaram conta de dois sobrinhos pequenos (como se já não tivessem bastantes bocas a sustentar); a outra filha, a mais nova, ainda só daqui a um mês é que faz os dezesseis anos, o que significa que daqui a um mês já a podem casar. É esta que me destinam. Fomos ver essa gente. Que ridículo aquilo tudo! Eu me apresento: proprietário, viúvo, um nome conhecido, com relações, com dinheiro... Ora! Que importa que eu tenha já cinqüenta anos e ela ainda não tenha feito dezesseis? Quem é que repara nisso? Então eu não sou um bom partido? Hem? Eu não sou um bom partido, hem? Ha... ha! Havia de me ter visto falando com os pais dela! Impagável! Ela aparece, senta-se (bom, já pode imaginar, com as saias ainda pelo joelho, uma flor ainda em botão), cora, ruboriza-se como a alvorada (deviam tê-la enchido de recomendações). Eu não sei o que o senhor pensa quanto a mulheres; mas parece-me que esses dezesseis anos, esses olhares ainda infantis, essa timidez e essa vergonha, que chega até as lágrimas... são para mim qualquer coisa de superior à beleza, isto para não dizer que, neste sentido, ela é também uma autêntica estampa. Cabelo louro-claro, fino, ondulado, com caracolinhos; lábios carnudos, vermelhos, e uns pezinhos... um encanto! Bem; pois ficamos amigos; eu informo que, por certas razões domésticas, tenho pressa, e no dia seguinte, isto é, anteontem, já éramos oficialmente noivos. Desde então, sempre que vou até lá sento-a nos joelhos e não a largo... Ela, é claro, fica corada como uma romã; mas eu beijo-a a todos os momentos; a mãe, naturalmente, faz-lhe ver que "para isso, que diabo! é que ele é teu marido; assim é que é"; enfim, uma pérola! E esta situação atual, de noivo, talvez seja verdadeiramente melhor que a de marido. Isto é o que se chama la nature est la vérité (1). Ha... ha! Eu devo ter falado com ela umas duas vezes... e a pequena não é tola: às vezes olha-me de uma maneira, às furtadelas... e põe-se toda vermelha. Olhe, tem uma carinha que parece tal qual uma Madona de Rafael.

Porque a Madona da Sistina tem uma cara fantástica, uma cara de paixão louca, não o impressionou? Bem; pois ela é desse gênero. Assim que ficamos noivos, eu, no dia seguinte, fui até lá e levei-lhe presentes no valor de mil e quinhentos rublos: um adereço de brilhantes, outro de pérolas, uma caixinha de prata para o toucador... olhe... assim, grande, com tudo quanto é preciso para que também a ela, como à Madona, se lhe transfigure a carinha. Ontem à noite sentei-a nos joelhos e, como pode calcular, sem estar com cerimônias... e ela se pôs toda encarnada e derramou umas lagrimazinhas, não queria render-se, toda ela ardia.

* (1) A natureza é a verdade. (N. do E.) *

Todos se retiraram por um momento, de maneira que ficamos os dois a sós, e, de repente, ela atira-se-me ao pescoço e abraça-me com as suas mãozinhas, e beija-me, e jura-me que me será obediente, fiel e boa esposa; que me fará feliz, que me consagrará toda a sua vida, cada minuto da sua vida; que se sacrificará completamente, e que, em troca disso, apenas deseja de mim unicamente estima e "nada mais", disse ela, "nada, não preciso de nada, de presente nenhum". Há de concordar comigo que escutar semelhante declaração, a sós, dos lábios de um anjo como este, de dezesseis anos incompletos, corada pelos rubores virginais e com lagrimazinhas de entusiasmo nos olhos... há de concordar comigo que é bastante sedutor. Não é para arrebatar qualquer homem? Não vale qualquer coisa? Bem; ouça... há de vir ver a minha noiva... mas hoje...

- Em resumo: ao senhor, essa enorme diferença de idade e de experiência produz voluptuosidade. Mas pensa casar-se de fato?

- E que tem isso? Certamente... Toda a gente se arranja como pode e, de todos, aquele que melhor vive é o que melhor sabe iludir-se a si próprio... Ah... ah! O senhor, afinal, é um homem sério! Tenha piedade de mim, papacha, que sou um pecador. He, he, he!

- No entanto, o senhor tomou a seu cargo os filhinhos de Ekatierina Ivânovna. Se bem que, no fim de contas... no fim de contas, também deve ter tido as suas razões para isso... e agora já compreendo tudo...

- As crianças, de maneira geral, agradam-me, agradam-me muito as crianças - disse Svidrigáilov rindo às gargalhadas. - A propósito disso posso até contar-lhe um episódio muito curioso, que se prolonga ainda até agora. No próprio dia em que cheguei pus-me a percorrer todos estes bordéis; havia sete anos que não os freqüentava. O senhor, provavelmente, já notou que quando estou ao seu lado não tenho pressa de ir ver as minhas antigas amizades e conhecimentos. Não, e até faço o possível por evitar o seu encontro. Repare numa coisa: com Marfa Pietrovna, lá na aldeia, era para mim um suplício mortal lembrar-me de todos estes lugarezinhos secretos, nos quais sabe lá as coisas que se podem encontrar. Raios me partam! A gente de baixa condição embriaga-se; a juventude instruída, devido à ociosidade, consome-se em sonhos e desvarios imprecisos, excita-se com teorias; de todos os lados acorrem os judeus, escondem o dinheiro, e os restantes entregam-se ao vício. Por isso, desde o princípio que esta cidade me enjoou. Aconteceu ir parar a uma soirée dançante, como lhe chamam: um lupanar horrível (e a mim agradam-me precisamente os lupanares sujos); é claro que se dançava aí um cancã tão descarado como em nenhum outro lugar e como até no meu tempo não se dançava. Nisto, sim, houve progresso. De repente, olho e vejo uma mocinha dos seus treze anos, muito bem vestida, dançando com um virtuose e com outro à frente, como seu vis-à-vis. A mãe estava sentada numa cadeira, junto da parede. Já pode ver que espécie de cancã era esse. A moça sobressalta-se, cora, e por fim dá-se por ofendida e desata a chorar. O virtuose segura-a e começa a obrigá-la a dar voltas e a fazer piruetas diante dela, e toda a gente à volta se ri e... Nesses momentos agrada-me a sua sociedade, ainda que seja a do cancã: ri e grita: "Assim é que é, assim é que se faz! Ou, então, não tragam para aqui meninas". A mim, é claro, tudo aquilo repugnava; mas, com lógica ou sem ela, a gente vai-se divertindo. Deixei imediatamente o meu lugar, dirigi-me para junto da mãe e disse-lhe que eu também não era da cidade, que ali eram todos muito indelicados, que não sabiam contribuir para a educação da moça ensinando-lhe o francês e a informei de que era um homem de dinheiro; convidei-a a subir para a minha carruagem, levei-a a casa e tornamo-nos amigos (elas estavam instaladas numa casa de hóspedes, pois tinham acabado de chegar à cidade). Confessaram-me que tanto ela como a filha não podiam considerar a minha amizade senão como uma honra; puseram-me a par de que se encontravam sem eira nem beira e que tinham vindo a Petersburgo tratar não sei de que assunto numa repartição do Estado. Ofereço-lhes os meus serviços, o meu dinheiro; dizem-me que tinham ido cair naquela soirée por engano, pensando que, de fato, ensinavam a dançar; ofereço-me, por meu lado, para contribuir para a educação da rapariga ensinando-lhe o francês e a dança. Aceitam, entusiasmadas, consideram isso uma honra e ficamos amigos até hoje. Se quiser, iremos até lá... mas, agora, não.

- Acabe, acabe com as suas mesquinhas e vis anedotas, homem corrompido, velhaco e sensual!

- Mas será o senhor Schiller, o nosso Schiller? Schiller! Oà la vertu va-t-elle se nicher! (2) Mas ouça uma coisa: eu lhe contei tudo isso intencionalmente, para ouvir as suas recriminações. Um prazer!

- Era o que faltava, que eu lhe servisse de motivo de riso, ao senhor, neste momento! - resmungou Raskólhnikov mal-humorado. Svidrigáilov pôs-se a rir a plenos pulmões; finalmente chamou Filip, pagou e pôs-se de pé.

- Vamos, que eu já estou bêbado! Assez causé (3).

- Era o que faltava, que eu não reagisse! - exclamou Raskólhnikov levantando-se também. - Naturalmente não é um prazer para um libertino consumado falar de coisas semelhantes, tendo em perspectiva qualquer intenção monstruosa do gênero... sobretudo em tais circunstâncias e diante de um homem como eu? Isso excita-o!

- Pois bem, sendo assim - respondeu Svidrigáilov até com certo espanto examinando Raskólhnikov -, sendo assim, o senhor saiu-me um cínico de marca. Matéria para isso tem-na o senhor e grande.

* (2) Onde a virtude se foi esconder. (N. do T)

(3) Chega de conversa. (N. do T) *

O senhor é capaz de imaginar muitas coisas... vamos lá... e também de fazê-las. Mas já chega. Só lamento que a nossa conversa tenha sido tão breve. Mas não se vá já... Espere um momento... - Svidrigáilov saiu da taberna. Raskólhnikov correu atrás dele. Apesar de tudo, Svidrigáilov não estava muito embriagado; o vinho tinha-lhe subido à cabeça apenas por um momento e a embriaguez passava-lhe de minuto para minuto. Parecia preocupado com alguma coisa muito grave e franzira o sobrolho. Era evidente que se encontrava em qualquer expectativa que o agitava e inquietava. Pareceu mudar de repente de atitude para com Raskólhnikov, nos últimos momentos, e tornava-se cada vez mais grosseiro e trocista. Raskólhnikov observara tudo isso e estava também desassossegado. Svidrigáilov levantava-lhe muitas suspeitas; resolveu segui-lo. Saíram juntos para a rua.

- O senhor pela direita e eu pela esquerda, ou, se preferir, ao contrário... Adieu, mon plaisir! Até o próximo agradável encontro! - e dirigiu-se, pela direita, para o Mercado do Feno.