Lesen Sie synchronisiert mit  Deutsch  Englisch  Spanisch  Rumänisch  Finnisch  Russisch 
< Zurück  |  Vorwärts >
Schrift: 

Quando entrou em casa de Sônia, já escurecia. Sônia estivera todo o dia à espera dele, numa agitação extraordinária. Esperou-o juntamente com Dúnia. Esta fora vê-la de manhã, pois lembrava-se das palavras que ouvira a Svidrigáilov no dia anterior: "Que Sônia sabia tudo". Não nos demoraremos a contar pormenorizadamente o diálogo e as lágrimas das duas mulheres e até que ponto se sentiam irmanadas nos mesmos sentimentos. Nesse encontro Dúnia obteve pelo menos a consolação de saber que o irmão não estava só; para ela, para Sônia, antes de que para qualquer outra pessoa, tinha ido ele com a sua confissão; nela tinha procurado o ser humano quando este lhe fez falta, e agora também ela o acompanharia a ele, conforme o destino ordenasse. Não lhe perguntara; mas sabia que seria assim. Olhava para Sônia até com certa veneração, e, a princípio, esta até se sentira incomodada com esse sentimento devoto com que era tratada. Sônia esteve quase a ponto de chorar; por seu lado, considerava-se indigna mesmo de olhar para Dúnia. Ficara-lhe gravada para sempre na alma, como uma das visões mais belas e sublimes da sua vida, a maneira tão gentil como Dúnia a acolhera no seu primeiro encontro, em casa de Raskólhnikov, saudando-a com tanta deferência e respeito.

Até que Dúnia acabou por não poder suportar mais e deixou Sônia para ir esperar o irmão em sua casa; pensava que seria aí o primeiro lugar onde ele havia de dirigir-se. Quando ficou sozinha, Sônia começou imediatamente a afligir-se com o receio que lhe inspirava a idéia de que, com efeito, ele se tivesse suicidado. Era o mesmo que Dúnia receava também. Tinham ambas passado o dia inteiro a procurarem convencer-se mutuamente, com todo o gênero de razões, de que isso não era possível, e sentiram-se mais tranqüilas enquanto estiveram juntas. Mas agora, assim que se separaram, tanto uma como a outra não faziam mais do que pensar nisso. Sônia lembrava-se de que no dia anterior Svidrigáilov tinha dito que a Raskólhnikov só restavam dois caminhos: Vladímirka ou... Além disso conhecia o seu orgulho, a sua altivez, o seu amor-próprio e a sua incredulidade. "Dar-se-ia o caso de que a falta de coragem e o medo da morte pudessem obrigá-lo a viver?", pensou finalmente, desolada. Entretanto, já o sol se tinha posto. Ela continuava de pé, triste, diante da janela, olhando atentamente para fora... mas daquela janela só podia ver-se o grande paredão denegrido da casa em frente. Até que finalmente, quando estava já convencida da morte do infeliz... ele entrou no quarto.

Um grito de alegria se lhe escapou do peito. Mas, quando olhou atentamente o rosto dele, empalideceu de súbito.

- Bem! - disse Raskólhnikov sorrindo sardonicamente -, venho por causa das tuas cruzes, Sônia. Foste tu mesma quem me disse que fosse ter a uma encruzilhada; que tens tu, agora que tudo vai acabar? Terás medo?

Sônia olhou para ele estupefata. Parecia-lhe estranho aquele tom; um tremor frio lhe correu por todo o corpo, mas compreendeu imediatamente que tanto aquele tom de voz como aquelas palavras eram fingidos. Além disso ele falara-lhe olhando a um canto, e parecia evitar falar-lhe francamente em rosto. - Olha, Sônia, eu pensei que, de fato, talvez isto seja o mais vantajoso. Há uma circunstância... Mas isso demoraria muito a contar, e, além disso, para quê? A mim, fica sabendo, só há uma coisa que me custa. Incomodam-me essas visões estúpidas, bestiais, que vão rodear-me agora, fixar sobre mim os seus olhos fosforescentes, oprimir-me com as suas perguntas tolas, às quais não terei outro remédio senão responder... e apontar-me com o dedo... Apre! Olha, não penso ir ter com Porfíri, estou farto dele. Prefiro dirigir-me ao meu amigo Pórokhov, que ficará espantado e conseguirá um triunfo na sua classe. Mas será preciso ter mais sangue-frio; tenho tido demasiadas birras nestes últimos tempos, acreditas? Há pouco quase ameacei a minha irmã com o punho, só porque ela se voltou para me olhar. É uma porcaria este estado de espírito! Ah, até onde eu cheguei! Bem, vamos lá ver, onde é que estão as cruzes?

Parecia alheado. Nem sequer podia estar um momento sossegado no seu lugar, nem fixar a atenção em nada; os seus pensamentos entrecruzavam-se, confundiam-se; as suas mãos tremiam levemente.

Em silêncio, Sônia tirou duas cruzes de uma caixinha, uma de madeira de cipreste e a outra de cobre, persignou-se, persignou-o a ele, e depois pendurou-lhe ao pescoço a cruz de cipreste.

- Isto é um símbolo, quer dizer que hei de trazer esta cruz em cima de mim, he, he! Como se não tivesse já sofrido bastante até aqui! De madeira de cipreste; isto é, para o povo; de cobre... esta era de Lisavieta, que a trazia... Mostra-ma, deixa-me vê-la! Trazê-la-ia posta naquele momento? Eu também conheço duas cruzes semelhantes: uma de prata, e outra, que tem uma imagenzinha. Nessa altura atirei com elas ao peito da velha. Afinal, também me deviam pôr agora aquelas ao pescoço... Mas, no fim de contas, não faço mais nada senão divagar, esqueci-me do motivo que me trouxe, estou distraído! Olha, Sônia... eu vim com o fim especial de prevenir-te, para que fiques sabendo... Olha, é tudo... Foi só por isso que vim. Hum! No entanto eu queria dizer mais qualquer coisa. Olha, tu própria querias que eu fosse até lá; pois bem, irei para o presídio e cumprir-se-á o teu desejo; mas por que choras? Que te aconteceu? Pronto, já chega; oh, como tudo isto me custa a suportar! - No entanto, um sentimento se ia formando nele; o coração confrangia-se-lhe quando olhava para ela: "Mas por que esta, esta?", pensou para si. "Que sou eu para ela? Por que chora, por que se dispõe a proceder comigo como a minha mãe e Dúnia? Vai ser a minha ama!"

- Persigna-te, reza, ainda que seja apenas uma vez - implorou Sônia com voz trêmula, tímida.

- Oh, todas as vezes que quiseres! E da melhor vontade, Sônia, da melhor vontade! Aliás, queria dizer qualquer outra coisa.

Persignou-se várias vezes. Sônia pegou o lenço e pô-lo na cabeça. Era um lenço verde, aos quadrados, provavelmente o mesmo a que Marmieládov tinha aludido daquela vez, o lenço da família. Essa idéia passou pela cabeça de Raskólhnikov; mas não perguntou nada. De fato, ele próprio sentia que estava muito distraído e que era presa de uma perturbação anormal. Isso assustava-o. De súbito, sentiu-se impressionado por que Sônia quisesse sair ao mesmo tempo que ele. - Que é isso? Onde vais tu? Onde vais tu? Fica aqui, fica aqui! - exclamou com rancor e, quase colérico, dirigiu-se para a porta. - Não preciso de escolta! - resmungou ao sair. Sônia ficou parada no meio do quarto. Ele nem sequer se despediu dela; tinha-a esquecido; uma dúvida dolorosa e teimosa se agitava na sua alma.

"Mas isto tem de ser assim, tudo isto há de ser assim?", tornou a pensar, enquanto descia a escada. "Não seria possível deter-se ainda e arranjar tudo de novo... não ir até lá?"

Mas, apesar de tudo, foi. De repente sentiu, de maneira definitiva, que não havia motivo para fazer perguntas. Quando se viu na rua lembrou-se de que não se despedira de Sônia, que esta ficara no meio do quarto com o seu lencinho verde, sem ousar mexer-se perante a sua intimidação, e parou por um momento. Nesse instante, de súbito, um pensamento se lhe tornou claro... Parecia que estivera à espera até então para acabar de transtorná-lo.

"Mas, vamos lá a ver: para que teria eu ido vê-la agora? Eu lhe disse que tinha ido por causa de uma coisa; mas que coisa? Afinal, nenhuma! Dizer-lhe que “ia para lá'; seria para isso? Mas para que era preciso? Amála-ei eu? Não, não! Não acabo de sacudi-la agora como a um cão? A cruz... Mas precisava eu, por acaso, que ela ma desse? Oh, que baixo eu caí! Não, do que eu necessitava era das suas lágrimas; o que eu precisava era de ver o seu medo, ver como o coração lhe doía e se despedaçava! Eu precisava de agarrar-me a qualquer coisa, de pactuar, de contemplar um ser humano! E tinha-me a resumir em mim mesmo tantas ilusões, e sonhar tantas coisas de mim, eu, que sou um mendigo, insignificante e reles, reles!"

Ladeava o cais do canal e já lhe faltava pouco. Mas quando chegou à ponte parou, e de repente voltou para o lado e dirigiu-se ao Feno. Olhou avidamente para a direita e para a esquerda, contemplando com esforço todos os objetos e sem conseguir concentrar em nada a atenção; tudo se lhe escapava. "E pronto, dentro de uma semana, dentro de um mês, conduzir-me-ão, sabe-se lá para onde, dentro de um desses carros de presos, por esta mesma ponte. Como olharei eu então este canal? Lembrar-me-ei disto?", foi o pensamento que lhe atravessou a mente. "Ali está a vitrina dessa loja: como lerei eu então estas mesmas letras? Ali diz: “companhia'; bem, lembrar-me-ei eu, depois, daquele “a”, da letra “a”, e olharei, dentro de um mês, esse mesmo “a”; como o verei então? Que sentirei e que pensarei então? Meu Deus, como tudo isso tem de ser reles, todas estas minhas atuais... preocupações! Não há dúvida de que tudo isto deve ser curioso... no seu gênero... Ha, ha, ha!, as coisas que eu penso! Estou a tornar-me criança, a dar ares de corajoso perante mim mesmo; mas vamos lá a ver; por que hei de eu sentir vergonha? Hum! Sempre dão cada encontrão a uma pessoa! Ali vai esse gorducho... deve ser um alemão... que acaba de dar-me um encontrão. Como é que ele podia saber a quem é que deu o empurrão? Uma velha com uma criança pede-me esmola e é curioso pensar que há de considerar-me mais feliz que ela! E não deixa de ser engraçado eu ter-lhe dado esmola! Olhem, resta-me apenas um piatak no bolso, de onde viria isto? Vamos, vamos... tome lá mámienhka!

- Deus te guarde! - disse a voz chorosa da mendiga. Entrou no Feno. Era-lhe muito desagradável, de fato, acotovelar-se com as pessoas, mas, no entanto, dirigiu-se precisamente para o lugar onde havia mais gente. Teria dado tudo para se ver sozinho; mas sabia muito bem que nem um momento sequer poderia ficar só. Por entre as pessoas havia um ébrio que fazia algazarra; esforçava-se por dançar, mas acabava sempre por cair de costas. Tinha-se formado um círculo à sua volta. Raskólhnikov abriu caminho por entre as pessoas, contemplou o bêbado por momentos, e de repente desatou num riso breve e entrecortado. Um minuto depois já se tinha esquecido dele e nem sequer o vira, apesar de o ter olhado. Afastou-se, finalmente, sem se ter sequer apercebido do lugar em que se encontrava; mas, quando saiu do meio daquela praça, operou-se de repente nele um movimento, apoderou-se dele subitamente uma sensação que o invadiu todo, no corpo e na alma. De repente lembrou-se das palavras de Sônia: "Vai ter a uma encruzilhada, faz uma reverência às pessoas, beija a terra, porque também pecaste perante ela, e diz a toda a gente em voz alta: “sou um assassino!"' Todo ele tremia ao recordar isso. E a tal ponto se apoderou dele o sofrimento sem desabafo e o alarma de todo aquele tempo, e sobretudo o das últimas horas, que se rendeu a toda aquela sensação, nova, plena. Uma espécie de ataque o acometeu de repente; acendeu-se na sua alma uma centelha e, subitamente, como um fogo, envolveu-o todo. De repente, tudo se enterneceu nele e as lágrimas saltaram-lhe. Estava de pé, e assim, tal como estava, tombou sobre a terra...

Pôs-se de joelhos a meio do terreno, fez uma vênia à terra e beijou essa terra suja com prazer e felicidade. Levantou-se e tornou a ajoelhar-se outra vez. - Olhem para o que lhe deu! - observou um rapazinho ao seu lado. Ouviram-se risos.

- Naturalmente vai a Jerusalém e está despedindo-se dos filhos e da pátria, e saúda toda a gente, a capital de São Petersburgo e o seu chão - acrescentou um operário meio embriagado.

- O rapaz ainda é novo! - respondeu um terceiro. - E é de boa família! - observou um, com voz séria.

- Hoje já não se distingue quem é de boa família e quem não é. Todos esses comentários e ditos coibiam Raskólhnikov, e a frase "sou um assassino", já pronta talvez a brotar da sua boca, nela se extinguiu. Mas suportou tranqüilamente todos esses dichotes e, sem olhar para ninguém, pôs-se a andar ao longo da ruela, em direção ao comissariado. E uma só visão lhe vinha à mente pelo caminho; mas não lhe causava espanto. Já calculava que assim tinha de ser. Quando, no Feno, se prostrava perante a terra pela segunda vez, quando se voltou para a direita, viu com assombro Sônia a cinqüenta passos de distância. Ela estava escondida dele atrás de uma das barracas de madeira que havia na esplanada; e assim, portanto, ela o acompanhava em todo o seu calvário. Raskólhnikov sentia e compreendia naquele instante, talvez de uma vez para sempre, que a partir de então Sônia estaria com ele eternamente e iria atrás dele nem que fosse até o fim do mundo, aonde o destino o enviasse. O coração pulsou-lhe num rebate violento... Mas... já chegara ao lugar fatídico.

Atravessou o portão com bastante coragem. Era preciso subir até o terceiro andar. "Por agora, subamos", pensou. De maneira geral tinha a impressão de que dali até o momento fatal ainda faltava bastante, que ainda tinha muito tempo à sua frente - que ainda podia pensar em muitas coisas.

Outra vez a mesma sujidade de então, os mesmos restos na escada de caracol; outra vez as portas dos andares abertas de par em par; outra vez as mesmas cozinhas das quais se exalavam vapores quentes e baforadas. Desde a outra vez que Raskólhnikov não voltara ali. Os pés fraquejavam e pareciam faltar-lhe, mas continuava caminhando. Parou um momento para respirar, para cobrar ânimo, para entrar como um homem. "Mas para quê? Para quê?", pensou, de repente, reparando no seu movimento, "visto que tenho de esgotar este cálice, tanto faz! Quanto mais repugnante, melhor." Pela sua imaginação passou naquele momento a figura de Iliá Pietróvitch, o Pórokhov. "Mas irei ter com esse, de fato? Não podia dirigir-me a outro? Não podia dirigir-me a Nikodim Fomitch? Dar meia-volta de repente e ir ter com o próprio chefe do comissariado em sua casa? Pelo menos a coisa seria tratada em família... Não, não! Com o Pólvora, com o Pólvora! Visto que é preciso esgotá-lo, esgotemo-lo de uma vez..."

Empurrou a porta do comissariado, transido de frio e quase de maneira inconsciente. Mas, dessa vez, havia aí pouca gente, somente o porteiro e um ou outro homem do povo. A sentinela nem sequer o olhou da sua guarita. Raskólhnikov passou à segunda sala.

"Talvez ainda seja possível não falar", lembrou-se. Aí, um indivíduo pertencente à classe dos empregados, vestido à paisana, escrevia qualquer coisa no seu bureau. A um canto estava também sentado outro escriturário. Zamiótov não estava. E Nikodim Fomitch também não devia estar.

- Não está ninguém? - perguntou Raskólhnikov encarando o indivíduo do bureau.

- A quem procura?

- A... a... ah! Com o ouvido não ouvi, com os olhos não vi, é uma alma russa... conforme dizem num conto... de que já me esqueci. Os me... us respeitos! - gritou de repente uma voz conhecida.

Raskólhnikov estremeceu. Diante dele estava o Pólvora; saíra, de repente, da terceira sala. "É mesmo o destino", pensou Raskólhnikov; "por que havia ele de estar aqui?"

- A mim, a quem? - exclamou Iliá Pietróvitch; era evidente que se achava em excelente disposição de espírito e até um tanto inspirado. - Se é para tratar de algum assunto, então, ainda é cedo... Eu estou aqui por casualidade... Mas em que posso...? Confesso-lhe que... O quê? O quê? Desculpe...

- Raskólhnikov.

- Sim, isso mesmo! Raskólhnikov! Mas o senhor pensava que eu me tinha esquecido? Suponho que não vai julgar-me capaz de... Rodion Ro... Ro... Rodiónitch, não é assim?

- Rodion Românovitch.

- É isso, é isso, é isso! Rodion Românovitch, Rodion Românovitch! Era isso que eu queria dizer. Até tenho perguntado muitas vezes pelo senhor. Eu confesso-lhe que fiquei sempre lamentando ter tido aquele incidente com o senhor... Depois explicaram-me, vim a saber que o senhor era um jovem literato e até um sábio... que, por assim dizer, fizera a sua estréia... Oh, meu Deus! E qual é o literato ou o sábio que, a princípio, não tem as suas extravagâncias! Eu e a minha mulher gostamos os dois da literatura, e a minha mulher, essa, tem mesmo uma autêntica paixão. A literatura e a arte! Tirando a nobreza, tudo o mais se pode adquirir com o talento, a ciência, a razão, o gênio! O chapéu... ora vejamos, é um exemplo; que significa o chapéu? O chapéu é uma carapuça, eu os compro em casa de Zimmermann, mas aquilo que se esconde debaixo do chapéu, e com o chapéu se cobre, não posso eu comprá-lo! Eu, confesso-lhe, até pensei em ter uma explicação com o senhor, simplesmente reconsiderei e pensei que talvez o senhor... Mas, com isso tudo, não lhe perguntei: precisa de alguma coisa? Dizem que a sua família veio visitá-lo...

- Sim, a minha mãe e a minha irmã.

- Tive também a honra e a sorte de conhecer a sua irmã... Pessoa culta e encantadora. Confesso-lhe que lamentei ter-me excedido então com o senhor daquela maneira. Que fiasco! Mas o fato de lhe ter dirigido um certo olhar, por causa do seu desfalecimento... explicou-se depois cabalmente. Crueldade e fanatismo! Compreendo a sua indignação. Tenciona mudar de casa por causa da chegada da sua família, não?

- Não... não, eu, simplesmente... Eu vinha para perguntar... Pensava que encontraria aqui Zamiótov.

- Ah, sim! Com que então, fizeram-se amigos? Ouvi dizer isso. Pois não, Zamiótov não está... aqui, não o encontra. Olhe, ficamos sem Alieksandr Grigórievitch! Desde ontem que deixamos de tê-lo aqui... Foi transferido... e, quando saiu, até se zangou com todos... Chegou até esse ponto a sua descortesia... Não passa de um cabeça-de-vento, esse rapaz; ainda chegou a fazer alimentar esperanças, mas qual, vá lá uma pessoa fiar-se na nossa brilhante juventude! Quer fazer o exame de não sei que, só para se tornar importante e vangloriar-se perante nós por ter feito o exame! Olhe, não é nada parecido com o seu amigo Razumíkhin, por exemplo! A sua carreira é científica e o senhor não se deixa abater pelas derrotas! Para o senhor, de todos estes atrativos da vida pode-se dizer: Nihil est (1); o senhor é um asceta, um monge, um retraído... Para o senhor, os livros, a pena atrás da orelha, as investigações científicas... É a isto que aspira a sua alma! Eu também, até certo ponto... Leu as memórias de Livingstone?

- Não.

- Pois eu as li. Aliás, agora, abundam muito os niilistas; muito bem, é compreensível; é capaz de dizer-me que tempos são estes em que vivemos? Se bem que, no fim de contas, eu consigo... Porque suponho que não será um niilista! Responda-me com toda a franqueza, com toda a franqueza!

- N...não!

- Não; olhe, o senhor, comigo, pode falar francamente, não se retraia, como se estivesse a sós consigo mesmo! Uma coisa é o serviço e outra... o senhor imaginava que eu ia a dizer a "amizade"; pois não, não acertou! Não se trata da amizade, mas do sentimento de cidadão e do homem, do sentimento da humanidade e do amor do Altíssimo. Eu, por muito personagem oficial que possa ser, por muito funcionário que seja, sinto-me sempre, sempre obrigado a sentir em mim o cidadão e o homem e a comunicá-lo... O senhor dignou-se falar de Zamiótov. Zamiótov ama escândalos à maneira dos franceses, em estabelecimentos indecorosos, quando tem no corpo um copo de champanha ou de vinho do Don... É para que veja quem é o seu Zamiótov! Em compensação, eu ardo em zelo e sentimentos elevados, e, além disso, tenho um nome, um cargo, ocupo um posto. Tenho mulher e filhos. Cumpro o dever de cidadão e de homem, ao passo que ele, quem é? Deixe que lhe pergunte. Eu me conduzo para com o senhor como para um homem enobrecido pela ilustração. Olhe, as parteiras diplomadas multiplicaram-se excessivamente...

Raskólhnikov arqueou interrogativamente as sobrancelhas. As palavras de Iliá Pietróvitch, que, via-se bem, acabara de levantar-se da mesa, soavam e passavam na sua frente como ruídos vagos. No entanto, com preendia qualquer coisa de tudo aquilo; olhava interrogativamente e não sabia em que iria acabar o caso.

* (1) Que nada significam. (N. do T.) *

- Refiro-me a essas mulheres de cabelo cortado - continuou o tagarela do Iliá Pietróvitch. - Eu lhes pus o nome de parteiras e acho que é uma denominação muito apropriada. He, he! Introduzem-se na Academia, estudam anatomia; ora vamos lá a ver, diga-me: se eu adoecer, chamarei uma moça para que me trate? He, he! - Iliá Pietróvitch pôs-se a rir, muito satisfeito da sua esperteza.

- Suponhamos que se trata de uma ânsia intensa de se instruírem; mas que se instruam e pronto. Para que abusar? Por que ofender as pessoas decentes, como faz aqui esse vadio do Zamiótov? Por que há de ele ofender-me, a mim, não quererá dizer-me? É preciso vermos como tem aumentado o número dos suicidas... Nem pode imaginar. Toda essa gente gasta até os últimos cobres e depois mata-se. Moças, rapazes, velhos... Ainda esta manhã recebemos uma comunicação referente a certo cavalheiro recém-chegado a Petersburgo. Nil Pávlitch, parece-me... Nil Pávlitch! Como se chamava esse gentleman do qual nos anunciaram há pouco que dera um tiro na cabeça, no velho Petersburgo?

- Svidrigáilov... - responderam da outra sala com a voz forte e indiferente.

Raskólhnikov teve um sobressalto.

- Svidrigáilov! Svidrigáilov matou-se? - O quê? Mas conhecia Svidrigáilov? - Sim... conhecia... Chegara há pouco...

- Ah, sim, chegara havia pouco. Perdera a mulher, era um homem de conduta licenciosa e, de repente, vai e mete uma bala na cabeça, e de maneira tão escandalosa que não é possível fazer uma idéia... Deixou no seu livro de apontamentos algumas palavras declarando que morria no uso pleno das suas faculdades e pedindo que ninguém fosse culpado da sua morte. Dizem que tinha dinheiro. Com que então conhecia-o?

- Sim... conhecia... a minha irmã esteve em casa dele como preceptora... - Ah, ah, ah! Então, o senhor podia dar-nos pormenores acerca dele. Não lhe levantara nenhuma suspeita?

- Vi-o ontem... Bebera... Eu não sabia nada. - Raskólhnikov sentia que qualquer coisa lhe caíra em cima e o oprimia.

- Parece que o senhor tornou a empalidecer. Temos aqui uma atmosfera tão abafada...

- Sim, estou com pressa - balbuciou Raskólhnikov. - Desculpe ter vindo incomodar...

- Oh, de maneira nenhuma, tive muito prazer! Deu-me muito gosto e sinto-me contente por manifestar-lhe...

E Iliá Pietróvitch até lhe estendeu a mão.

- Eu queria unicamente... Vim para ver Zamiótov... - Compreendo, compreendo, mas tive muito prazer.

- Eu... Tive muito gosto... Até a vista - disse Raskólhnikov com um sorriso.

Saiu; cambaleava. A cabeça andava-lhe à roda. Já nem sabia como é que se mantinha ainda de pé. Começou a descer a escada, apoiando a mão na parede. Pareceu-lhe que um porteiro, com um livrinho na mão, lhe deu um empurrão quando cruzou com ele, ao entrar no comissariado; que um cãozinho ladrava em qualquer lugar, no andar inferior, e que uma mulher lhe atirava uma pedra e lhe gritava. Conseguiu chegar lá abaixo e descer a escada. Já na cava, quando ia saindo, verificou que Sônia estava ali, pálida como uma morta, e que o olhava na maior ansiedade. Parou diante dela. O seu rosto exprimia algo de doloroso, lancinante e desolado. Ergueu os braços. Um vago sorriso perdido assomou aos lábios dele. Ficou parado, riu sarcasticamente e voltou para cima, outra vez para o comissariado. Iliá Pietróvitch estava sentado e remexia nuns papéis. À frente dele estava o mesmo camponês que acabava de dar-lhe aquele encontrão quando se encontrou com ele na escada.

- Ah... ah... ah! É o senhor outra vez! Esqueceu-se aqui de qualquer coisa? Que deseja?

Raskólhnikov, de lábios desmaiados, com o olhar fixo, aproximou-se devagar, aproximou-se até junto da mesa dele, apoiou uma mão sobre ela, quis dizer qualquer coisa e não pôde: apenas se ouviram alguns sons incoerentes.

- O senhor está maldisposto: uma cadeira! Aqui... sente-se nesta cadeira, sente-se. Água!

Raskólhnikov deixou-se cair na cadeira, mas sem afastar os olhos da cara desagradavelmente surpreendida de Iliá Pietróvitch. Olharam-se um ao outro por um momento e ficaram à espera. Trouxeram a água.

- É que eu... - começou Raskólhnikov. - Beba a água.

Raskólhnikov desviou a água com a mão e devagar mas distintamente disse:

- É que fui eu quem matou aquela velha viúva dum funcionário e a sua irmã Lisavieta, com uma machada, para roubá-la.

Iliá Pietróvitch abriu a boca. De todos os lados acudiu gente. Raskólhnikov repetiu a sua declaração...