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De fato, eu, ainda não há muito tempo, pensava pedir trabalho a Razumíkhin; que me arranjasse lições ou qualquer outra coisa", dizia Raskólhnikov para si próprio, "mas, agora, em que pode ele ajudar-me? Suponhamos que me arranja lições, suponhamos até que me dá o seu último copeque, se é que tem algum, para que eu possa comprar umas botas e procurar trabalho, a fim de apresentar-me decentemente nas lições. Hum! Bem... e então? Mas que vou eu fazer com umas piatáki? (1) Será isso, por acaso, o de que eu preciso agora? Verdadeiramente é ridículo isso de ir visitar Razumíkhin."

Aquela pergunta, acerca do motivo por que iria agora ver Razumíkhin, irritou-o muito mais do que ele próprio pensava; farejava com inquietação algum pensamento mau, naquilo que, no fundo, era uma coisa vulgaríssima.

"Tinha de concordar que eu quisera remediar tudo apelando unicamente para Razumíkhin, e encontrar em Razumíkhin toda a solução", disse para si mesmo, admirado.

Pensava e esfregava a testa e, coisa estranha, inesperadamente, de repente e quase como se fosse espontaneamente, depois de longa deliberação, uma idéia estranhíssima lhe atravessou a mente.

"Hum! Irei visitar Razumíkhin", murmurou de repente, perfeitamente tranqüilo, como se tivesse adotado uma resolução definitiva. "Irei ter com Razumíkhin; irei, está decidido... mas hoje não; irei vê-lo noutro dia, depois disso, quando tudo for já fato consumado e tudo tiver tomado um novo rumo..." E, de repente, voltou a si.

"Depois disso!", exclamou, levantando-se do banco, sobressaltado. "Mas isso chegará a dar-se, por acaso? Chegará realmente a dar-se?"

Deixou o banco e pôs-se a caminhar, quase correndo; teria querido voltar atrás, para sua casa; mas isso de voltar a sua casa pareceu-lhe de súbito terrivelmente aborrecido; ali, no seu canto, naquele horrível cacifro, é que ele meditara durante mais de um mês; por isso pôs-se a andar ao deus-dará.

Um calafrio nervoso lhe percorreu o corpo, que parecia febril; sentia também frio; com o calor que fazia, tiritava. Como se fosse forçadamente, quase sem se aperceber disso, como se cedesse a alguma urgente necessidade íntima, começou a olhar para todos os objetos que encontrava no caminho, como se procurasse à força uma distração; mas não o conseguia completamente e afundava-se em meditações. Quando, estremecendo, tornava a levantar a cabeça e a correr os olhos à sua volta, esquecia imediatamente o que pensara, havia um momento, e até por onde caminhava.

* (1) Plural de piatak, moeda de cinco copeques. (N. do E.) *

Atravessou assim todo o Vassílievski Óstrov, foi ter ao Pequeno Nievá, atravessou a ponte e voltou a Ostrov. A princípio, aquela verdura e aquela frescura deleitaram os seus olhos cansados, acostumados ao pó da cidade, com o seu gesso e as suas casas enormes, tenebrosas e opressivas. Ali não havia nem angústia, nem mau cheiro, nem tabernas. Mas não tardou que também aquelas novas e agradáveis sensações se tornassem doentias e irritantes. Às vezes parava perto de alguma casa de campo afundada entre a verdura; olhava para o jardim, contemplava os donos nos terraços e varandas, as mulheres ataviadas e as crianças que brincavam no jardinzinho. Fixava sobretudo a sua atenção nas flores: era sempre para elas que mais olhava. Encontrava também pequenas carruagens elegantes, cavaleiros e amazonas; seguia-os curiosamente com o olhar e esquecia-se deles antes que tivessem desaparecido da sua vista. Uma vez parou e contou o dinheiro que levava consigo: cerca de trinta copeques. "Vinte que dei ao guarda, três a Nastássia, pela carta... Além disso, ontem, dei quarenta e sete ou cinqüenta a Marmieládov", pensou, enquanto, sem saber por que, tornava a contar o seu dinheiro; mas não tardou a esquecer-se do motivo por que o tinha tirado do bolso. Só tornou a aperceber-se quando passou em frente duma casa de pasto, uma espécie de taberna, e sentiu apetite. Quando entrou na casa bebeu um copo de aguardente e meteu na boca um pastel recheado com qualquer coisa. Acabou de comê-lo adiante. Havia muito tempo que não provava aguardente, e por isso fez-lhe imediatamente efeito, apesar de ter bebido apenas um copo. De repente sentiu o peso nos pés e também uma grande vontade de dormir. Pôs-se a andar em direção a casa. Mas quando ia já em Pietróvski Óstrov deteve-se, tomado de uma inércia imensa; afastou-se do caminho, meteu-se por entre os maciços de verdura, deixou-se cair sobre a erva e logo adormeceu profundamente.

Num estado doentio os sonhos costumam distinguir-se pelo seu extraordinário colorido e clareza, e pela estranha semelhança com a realidade. Apresentam-nos às vezes um quadro maravilhoso; e o cenário e todo o processo de representação são ao mesmo tempo tão verossímeis e com uns pormenores tão exatos e inesperados, mas em tão artística harmonia com a totalidade do quadro, que seria em vão que o próprio sonhador tentaria evocá-los, depois de desperto, ainda que fosse um artista como Púchkin ou Turguêniev. Esses sonhos, sonhos doentios, ficam sempre gravados na memória por muito tempo e produzem uma forte impressão no organismo alterado e enfraquecido do homem.

Foi um sonho estranho o que teve Raskólhnikov. Sonhou com a sua passada infância, na aldeia. Tinha sete anos e passeava, num dia festivo, ao cair da tarde, com seu pai, para além da aldeia. O céu estava cinzento,

o dia sufocante, e o lugar era exatamente o mesmo cuja visão guardava na sua memória; ainda mais: na sua memória via-o ainda mais apagado do que agora, no sonho. A cidade mostra-se aberta como a palma duma mão; em toda aquela periferia, um salgueiro branco; além, muito longe, quase no extremo do horizonte, negreja o bosque. A alguns passos de distância da última horta da aldeia, há uma taberna, uma grande taberna, pela qual sempre sentira antipatia, e até medo, quando passava em frente dela com seu pai. Havia sempre ali muita gente; vociferavam, riam, diziam impropérios com grande alvoroço, bebiam tão excessiva e imoderadamente e havia nela rixas com tanta freqüência! À volta da taberna viam-se sempre uns tipos completamente embriagados e ferozes, que andavam aos tropeções... Quando se encontrava com eles apertava-se com força contra o pai e todo ele tremia. Próximo da taberna passava a estrada, que verdadeiramente não era mais do que um atalho, sempre empoeirada, com um pó muito negro. A estrada faz uma curva ao longe, e a trezentos passos rodeia o cemitério da aldeia pela direita. A meio do campo-santo ergue-se uma igreja com a cúpula verde, na qual entrava duas vezes por ano com seu pai e sua mãe, para ouvir missa, quando faziam o ofício de réquiem pela avó, que falecera havia pouco tempo, e a qual não chegara a conhecer. Nesses casos levavam sempre consigo um pastel sobre um prato branco, em cima dum guardanapo, e o pastel era de açúcar, arroz e passas, colocadas em forma de cruz. Gostava daquela igreja e das suas velhas imagens, quase todas sem moldura, e do velho sacerdote de cabeça sempre a tremer. Junto do túmulo da avó, sobre o qual se estendia uma lousa, estava a pequena sepultura do irmão mais novo, que morrera com seis meses, e o qual também não chegara a conhecer, e de quem não podia recordar-se; mas disseram-lhe que tinha um irmãozinho, e ele, sempre que visitava o cemitério, persignava-se religiosa e respeitosamente diante da sepultura, fazia uma reverência e depunha sobre ela um beijo. Agora sonhava que ia com seu pai pela aldeia, pelo caminho do cemitério, e passava diante da taberna; ia pela mão do pai, e, cheio de medo, olhava para a taberna. Uma circunstância especial distraiu a sua atenção: parecia que dessa vez se celebrava ali alguma paródia: havia ali uma multidão de burgueses endomingados, de mulheres com os seus maridos e um grupo de pessoas. Estão todos embriagados, entoam canções, e junto da porta da taberna há uma tieliega, mas uma tieliega estranha. É uma dessas grandes às quais costumam jungir-se grandes cavalos de carga, e que se empregam para o transporte de mercadorias e tonéis de vinho. Agradava-lhe sempre contemplar aqueles grandes cavalos de carga, de longas crinas e grossas patas, que caminham tranqüilamente, com um passo manso, e que conduzem uma autêntica montanha sem mostrar o menor cansaço, como se a carga, em vez de esgotá-los, os aliviasse. Mas agora, coisa estranha, àquela tieliega enorme estava atrelado um mísero sendeiro, esquálido, pequeno, desses que os camponeses empregam; um desses cavalicoques aos quais - tinha-o ele visto com freqüência - carregam às vezes com grandes fardos de lenha ou feno, e quando o carro se atola, na lama ou nos sulcos, os camponeses batem-lhes com muita força, muita força, com os chicotes, às vezes até no próprio focinho ou nos olhos; isso fazia-lhe uma pena imensa, tão grande que quase vinham-lhe lágrimas aos olhos, e a mãe vinha então arrancá-lo da janela. Mas eis que, de repente, se travou uma grande escaramuça: da taberna saiu, gritando, cantando e com balalaicas, um bando de camponeses embriagados, embriagadíssimos, com blusas vermelhas e azuis, e a jaqueta sobre o ombro.

- Subam, subam! - grita um deles, ainda novo, com um grosso capote e uma caraça gorda, vermelha como um tomate. Levo-os a todos! Subam! Mas a seguir ouvem-se vozes e exclamações:

- Com esse sendeiro é que ele nos vai levar!

- Mas tu, Mikolka, estarás em teu perfeito juízo? Atrelar uma égua tão ordinária a uma tieliega destas!

- E esse espantalho já deve ter os seus vinte anos bem puxados, meus amigos!

- Subam, que os levo a todos! - tornou Mikolka gritando, e o cocheiro, que foi o primeiro a subir, tomou as rédeas na mão e ergueu-se em toda a sua estatura. - O nosso cavalo baio levou o Matviéi - gritou, já na tieliega -, e esta eguazinha, meus amigos, só serve para me fazer sofrer; mais valia matá-la, pois nem vale aquilo que come. Mas já disse: subam, que eu já a faço andar! E há de ir depressa! - E, brandindo o chicote, dispôs-se a açoitar o pobre animal com prazer.

- Subamos então, vamos! - riam os do grupo. - Já sabem que há de correr a galope!

- Sim, deve haver pelo menos dez anos que não dá uma corridinha. - Vai dá-la agora.

- Não tenham pena dela, meus amigos; cada um pegue o seu chicote: preparem-se!

- Bom, então arreiem-lhe!

Todos sobem para a tieliega de Mikolka com risos e gracejos. Subiram seis homens e ainda havia lugar para mais. Levavam com eles uma mulher gorda e pintada. Vestia uma camisola de indiana vermelha, com um toucado de contas de vidro, botas pesadas nos pés, e descascava nozes e ria. À sua volta todos riam também, e, de fato, o caso não era para menos. Pensar que aquele pobre animal ia puxar a galope um carro tão pesado! Depois, dois dos moços que iam na tieliega brandiram os chicotes para ajudarem Mikolka. Ouve-se um eia! A eguazinha puxa com todas as suas forças, mas não vai a galope; mal consegue mover-se a passo, limitando-se a agitar as patas, arranhar o solo e dobrar-se sob os golpes dos três chicotes, que caem sobre ela como uma saraivada. Os risos redobram na tieliega e fora dela; mas Mikolka enfurece-se e com violência descarrega golpes terríveis sobre a pobre égua, como se acreditasse verdadeiramente que poderia ir a galope.

- Deixem-me subir a mim também, meus amigos! - grita entre a multidão um rapaz ao qual o espetáculo fez inveja.

- Sobe! Que subam todos! - grita Mikolka. - Levo-os a todos! Vou arrear-lhe!

Bate e torna a bater, e já não sabe com que há de fustigar o animal. - Bátiuchka, bátiuchka! - grita ele para o pai. - Bátiuchka, que está ele fazendo? Matam a pobre égua, bátiuchka!

- Vamos, vamos! - diz o pai. - Estão bêbados, não sabem o que fazem. Imbecis! Vamo-nos embora, não fiques aí olhando! - E procura afastá-lo dali; mas ele solta-se da sua mão e, sem perceber o que faz, encaminha-se para o animal. Este já não pode mais; arqueja, pára, torna a puxar e está prestes a cair.

- Arreiem-lhe até que rebente! - grita Mikolka. - Já lhe falta pouco. Espera!

- Mas tu és cristão ou não és, meu bruto? - grita um velho, dentre o grupo.

- Onde é que se viu isso, um animalejo como esse puxar um carro desse tamanho? - acrescenta outro.

- Estás matando-a! - grita um terceiro.

- Não te incomodes. É minha! Posso fazer dela o que quiser. Subam! Subam todos! Hei de fazer com que parta a galope!

De repente ouve-se uma gargalhada geral que abafa a voz de Mikolka: a pobre égua, sem suportar mais as brutais chicotadas, e embora sem forças, pôs-se a dar coices para o ar. Até os mais velhos não se puderam conter e começaram a rir. De fato, aquela égua, imprestável para qualquer serviço, ainda por cima se punha a dar coices!

Outros rapazes do grupo brandiram também os chicotes e dirigiram-se para o animal para lhe fustigarem as ilhargas. Correu cada um de seu lado. - No focinho, nos olhos, dêem-lhe nos olhos! - grita Mikolka.

- Uma canção, meus amigos! - gritou um dos da tieliega, e imediatamente todos lhe fizeram coro. Ouviu-se uma canção indecente, repicou um tambor e todos acompanharam o estribilho com assobios. A mulher descascava nozes e ria.

Ele se dirigiu, correndo, para o animal, avançou e pôde ver como batiam nos olhos do cavalo, nos próprios olhos! Pôs-se a chorar. Sentiu o coração oprimido e as lágrimas saltaram-lhe. Uma das chicotadas roçou-lhe pela cara, mas ele nem a sentiu; erguia as mãos, gritava, voltava-se para o velho de cabelo e barba brancos, que abanava a cabeça, condenando tudo aquilo. Uma mulher pegou-lhe por uma mão e quis levá-lo; mas ele escapou-se e correu de novo para junto do animalzinho, que estava já nas últimas, mas recomeçara a escoicear para o ar.

- Ah, diabo! - gritava Mikolka furioso. Larga o chicote, torna a agachar-se e tira do fundo da tieliega um pau grosso e comprido, segura-o pela ponta com as duas mãos e, com todas as suas forças, descarrega-o sobre a égua.

- Vai matá-la! - gritam à sua volta. - Assim, acaba matando-a!

- É minha! - gritou Mikolka e, erguendo todo o braço, descarregou uma paulada sobre a égua.

- Dá-lhe, dá-lhe! Por que te deténs? - grita uma voz no meio daquela gente.

Mas Mikolka arvorou outra vez o cajado e, com todas as suas forças, deu outro golpe no costado do infeliz animal, que se inclina todo para os quartos traseiros; mas dá um safanão e puxa, puxa, com as suas últimas forças, por todos os lados, para arrastar o carro; mas por todos os lados o atacam seis chicotes, e novamente o pau se ergue e cai pela terceira vez, e depois pela quarta, calculadamente, com toda a força do braço que o brande. Mikolka está furioso por vê-la sucumbir de um só golpe.

- É dura! - gritam à sua volta.

- Vai cair já, sem falta, meus amigos; chegou a sua hora! - exclamou um entusiasta no meio do grupo.

- Com a machada, diabo! Acabemos com ela de uma vez! - gritou um terceiro.

- Vai... para o diabo que te carregue! Afastem-se! - gritava Mikolka, furioso; larga o pau, torna a agachar-se na tieliega, e tira uma alavanca de ferro. - Cuidado! - grita, e, com todas as suas forças, deita outra pancada na sua pobre égua.

O golpe foi certeiro; o animalzinho cambaleia, recua, esforça-se ainda por puxar, mas a alavanca torna a cair sobre o seu dorso, e tomba então finalmente por terra, como se lhe tivessem desconjuntado as quatro extremidades de uma só vez.

- Até que enfim! - exclamou Mikolka, e, fora de si, salta da tieliega. Alguns rapazes, vermelhuscos e também embriagados, pegam o que encontram à mão: chicotes, paus, a tranca, e lançam-se sobre o animal moribundo. Mikolka está de pé ao seu lado e é já em vão que lhe bate com a alavanca no costado.

O pobre animal estende o focinho, respira com dificuldade, e morre. - Rebentou! - gritam no grupo.

- Por que não se deitou ela, correndo a galope?

- Era minha! - grita Mikolka com o pau na mão e os olhos injetados de sangue. Parece pesaroso por não poder continuar batendo em alguém. - Sim, mas tu não és cristão - gritam já, no meio do grupo, muitas vozes.

Mas o rapazinho, lívido, parece tresloucado. Lançando um grito, abre caminho por entre a gente, até a égua, pega-lhe no focinho morto, ensangüentado, e beija-o nos olhos e nos lábios... Depois, de repente, dá um salto e, arrebatado de furor, lança-se com os pequenos punhos cerrados contra Mikolka. Nesse momento, o pai, que havia já algum tempo o procurava, encontra-o finalmente, e tira-o do grupo.

- Vamos, vamos! - diz-lhe. - Vamos para casa!

- Bátiuchka, por que é que eles mataram o cavalinho? - soluça, e as palavras saem do seu peito opresso, transformadas em gritos.

- Estão embriagados, não sabem o que fazem; isso não nos interessa. Vamo-nos! - diz-lhe o pai; mas sente o peito oprimido. Esforça-se por ganhar coragem, dá um grito e desperta.

Acordou banhado em suor, com os cabelos encharcados, arquejando, e endireitou-se na cama, horrorizado.

- Louvado seja Deus, foi apenas um sonho! - exclamou, sentando-se ao pé duma árvore e lançando um profundo suspiro. - Mas que é isto? Estarei com febre? Que sonho tão terrível!

Parecia-lhe que tinha o corpo todo moído, a alma cheia de dor e negrura. Apoiou os cotovelos sobre os joelhos e segurou a cabeça com ambas as mãos.

- Meu Deus! - exclamou. - E se ... e se eu pego de fato na machada, abro-lhe a cabeça e faço saltar os miolos... escorregarei no sangue quente e viscoso; quebrarei a fechadura, roubarei e pôr-me-ei a tremer, esconder-me-ei, todo manchado de sangue... com a machada... Meu Deus, será possível...? Tremia como a folha duma árvore, quando dizia isso.

- Mas que me aconteceu? - continuou a dizer, deixando-se cair outra vez e como se estivesse possuído de um assombro profundo. - Eu bem sabia que não seria capaz de... Portanto, por que me tenho eu atormentado até agora? Ontem, ontem, quando fui fazer aquela... experiência... compreendi perfeitamente que não seria capaz... Mas por que é isto agora? Por que estivera na dúvida até aqui? Ontem, quando descia a escada, eu próprio dizia que isto era vil, bárbaro, reles, reles... Porque, quando penso nisto, em pleno dia, fico revoltado e assombrado... Não, não sou capaz, não sou capaz! Suponhamos, suponhamos mesmo que não haja dúvida alguma em todos estes cálculos, que tudo isto se resolva este mês e se torne claro como o dia, preciso como a aritmética. Meu Deus, pois nem ainda assim me decidiria! Não sirvo para isto, não sirvo! Mas por que é que então, até agora...?

Levantou-se, olhou com espanto à sua volta, como se se admirasse de achar-se ali, e encaminhou-se para a ponte de T... Estava pálido, ardiam-lhe os olhos, o cansaço tomara-lhe todos os membros. Mas, de repente, começou a respirar mais facilmente: sentia que já tinha afugentado de si todo aquele tempo horrível, que havia tanto o acabrunhava, e que a sua alma se sentiu leve e satisfeita.

"Senhor", implorava, "mostra-me o meu caminho e eu libertar-me-ei desses malditos... desvarios."

Quando atravessou a ponte, contemplou o Nievá com um olhar suave, e o radioso poente do sol belo e brilhante. Apesar da sua fraqueza, nem sequer sentia cansaço. Parecia-lhe que o tumor que trazia no coração, que andara a amadurecer durante um mês, lhe rebentara de repente. Liberdade, liberdade! Agora estava livre daquele feitiço, daquele sortilégio, daquela sugestão!

Mais tarde, ao recordar aquele tempo e tudo o que lhe aconteceu durante esses dias, detalhe por detalhe, ponto por ponto, traço por traço, havia sempre uma circunstância que o comovia supersticiosamente, embora, na realidade, não tivesse nada de extraordinário, mas que lhe surgia sempre como uma prefiguração do seu destino.

Era esta: nunca pôde compreender nem explicar a si próprio por que é que, esgotado, magoado, quando lhe teria convindo mais voltar a sua casa pelo caminho mais breve e direto, o fez pelo Mercado do Feno, pelo qual tinha de andar mais. A volta não era grande, mas completamente desnecessária. Não havia dúvida de que isso de regressar a casa, sem se aperceber das ruas que percorria, lhe acontecera já muitas vezes. Mas por que - perguntava ele sempre -, por que é que aquele encontro tão importante e decisivo para ele, e, ao mesmo tempo, altamente fortuito, no Feno (onde não tinha motivo nenhum para ir), se deu então e àquela hora, precisamente nesse momento da sua vida, exatamente naquela disposição de espírito e naquelas circunstâncias, nas quais somente o referido fato podia produzir o efeito mais decisivo e definitivo sobre o seu destino? Parecia mesmo que estivera à sua espera!

Seriam quase dez horas quando se dirigiu para o Feno. Todos os comerciantes de barracas, os vendedores ambulantes, armazéns e lojas, ou encerravam os seus estabelecimentos, ou recolhiam e juntavam as suas mercadorias e regressavam às suas casas, bem como os seus fregueses. Em volta das tabernas subterrâneas, nos pátios sujos e hediondos das casas do Mercado do Feno, e sobretudo nas tabernas, apinhava-se grande número de mendigos esfarrapados, de todo gênero. A Raskólhnikov agradavam-lhe, sobremodo, aqueles lugares, assim como as ruelas adjacentes, quando vagueava sem rumo pela cidade. Aí, os seus farrapos não atraíam sobre si a altiva atenção de ninguém, e era possível deambular com a cara que quisesse, sem provocar escândalo. Na própria travessa de K..., num canto, um comerciante e a mulher vendiam vários artigos em duas mesas: pano, galões, lencinhos de algodão etc. Também eles voltavam já para casa, mas tinham parado para falar com uma amiga que passava. A tal amiga era Lisavieta Ivânovna, ou simplesmente Lisavieta, como toda a gente a chamava, a irmã mais nova da própria velha, Alíona Ivânovna, a usurária em cuja casa Raskólhnikov estivera na noite anterior, com o fim de deixar-lhe empenhado um relógio e fazer a sua "experiência"... Havia já algum tempo que ele sabia tudo quanto dizia respeito à tal Lisavieta, e ela também o conhecia um pouco. Era uma solteirona alta, desgraciosa, tímida e bonacheirona, quase idiota, de uns trinta e cinco anos, que vivia numa autêntica escravidão em casa da irmã, trabalhando ali dia e noite, tremendo na sua presença e até apanhando dela. Naquele momento estava com um pacote na mão, pensativa, em frente do mercador e da mulher, escutando-os atentamente. Aqueles contavam-lhe qualquer coisa com entusiasmo. Quando Raskólhnikov a viu, de repente, uma sensação estranha, parecida com o mais profundo assombro, se apoderou dele, apesar de aquele encontro não ter nada de espantoso.

- A senhora, a senhora, Lisavieta Ivânovna, tem de decidi-lo pessoalmente - disse o comerciante em voz alta. - Venha amanhã às sete. Eles também estarão.

- Amanhã? - exclamou Lisavieta perplexa e repisando as palavras, como se não quisesse decidir-se.

- Mas que medo a senhora tem de Alíona Ivânovna! - guinchou a mulher do comerciante.

- Parece uma menina. Porque, afinal, ela não é sua irmã, parece uma madrasta, tal é a maneira como a trata. Mas, desta vez, não precisa de dizer nada a Àlíona Ivânovna... - acrescentou o marido. - É o conselho que lhe dou: venha ver-nos sem lhe pedir licença. É assunto de interesse. Depois, até a sua irmã há de compreender.

- Então venho...

- Às oito da noite, amanhã. Eles também estarão aqui. Poderá decidir pessoalmente.

- E teremos o samovar preparado - acrescentou a mulher.

- Bem, virei - disse Lisavieta, ainda pensativa, e, lentamente, começou a afastar-se dali.

Raskólhnikov já se tinha retirado e não escutou mais. Caminhava devagar, sem chamar a atenção, esforçando-se por não perder uma palavra. O seu primeiro assombro pouco a pouco foi-se transformando em espanto,

e um calafrio lhe percorreu a espinha. De repente, adquirira uma informação certa; de um modo súbito e totalmente inesperado, soubera que no dia seguinte, às oito em ponto da noite, a irmã mais nova, e única pessoa que vivia com ela, não devia estar em casa e, portanto, às oito em ponto da noite a velha ficaria em casa sozinha.

Dali à sua casa havia alguns passos de distância. Entrou nela tal como um condenado à pena de morte. Não pensava em nada e tinha perdido completamente toda a faculdade de raciocínio; mas, repentinamente, com todo o seu ser, sentiu que não tinha já liberdade de reflexão, nem vontade, e que, de súbito, tudo se resolvera definitivamente.

Não havia dúvida de que, se durante anos inteiros estivera à espera dum encontro parecido, ainda que em tudo tivesse pensado, seria impossível contar confiadamente com um passo tão importante para o êxito da idéia como aquele que acabava agora mesmo de apresentar-se-lhe. Em todo o caso, ter-lhe-ia sido difícil conhecer de véspera e com tanta segurança, com absoluta exatidão e sem o menor risco, sem necessidade de perguntas e investigações perigosas de gênero algum, que no dia seguinte a tal hora a velha que se dispunha a assassinar devia encontrar-se em sua casa completamente sozinha.