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Às nove da manhã, o criado entrou com uma chávena de chocolate num tabuleiro, e abriu as portadas das janelas. Dorian dormia tranquilamente, deitado sobre o lado direito, com a mão sob a face. Parecia um rapazinho cansado de brincar, ou de estudar.

O criado teve de lhe tocar duas vezes no ombro para o acordar. Quando abriu os olhos, perpassou-lhe pelos lábios um leve sorriso, como se tivesse andado perdido num sonho delicioso. Porém, não tivera sonho algum. O seu sono não fora perturbado por imagens de prazer, nem de dor. Mas a mocidade ri sem motivo. É um dos seus principais encantos.

Voltou-se e, apoiado no cotovelo, começou a tomar o seu chocolate. O brando sol de Novembro entrava a jorros no quarto. O céu estava luminoso, e o ar era cálido e suave. Quase como numa manhã de Maio.

A pouco e pouco, com pés silenciosos e tintos de sangue, os acontecimentos da noite anterior insinuavam-se-Lhe no cérebro, e reconstituíam-se aí com uma nitidez tremenda. Estremeceu ao recordar tudo o que sofrera, e, por um breve momento, tornou a sentir a estranha aversão que o levara a matar Basil Hallward, quando este se encontrava sentado na cadeira, e gelou com a emoção sentida. O morto ainda lá estava sentado e, agora, ao sol. Que horrível! Essas coisas medonhas pertenciam às trevas, e não à claridade.

Sentiu que se cismasse naquilo por que passara ficaria doente ou louco. Certos pecados possuem mais fascínio na memória do que no próprio acto de os cometer, estranhos triunfos que satisfaziam mais o orgulho do que as paixões, e que proporcionavam ao intelecto uma intensa sensação de júbilo, maior do que qualquer júbilo que trouxessem, ou pudessem trazer, aos sentidos. Mas este era de natureza diferente. Essa coisa tinha de ser afastada da mente, ou narcotizada com papoilas, ou estrangulada, não fosse ela a estrangular.

Quando soou a meia hora, passou a mão pela testa, e depois levantou-se rapidamente. Vestiu-se com mais esmero do que habitualmente, escolhendo meticulosamente a gravata e o alfinete, e mudando várias vezes de anéis. Tomou o pequeno-almoço demoradamente, saboreando os diversos pratos, falando com o seu criado a propósito das novas librés que pensava mandar fazer para os criados de Selby, e passando os olhos pela correspondência. Umas cartas fizeram-no sorrir. Outras aborreceram-no. Houve uma que leu repetidas vezes, a seguir rasgou-a, com um leve ar de enfado. Que coisa horrível, a memória de uma mulher! como uma vez dissera Lord Henry.

Depois de ter bebido o café, limpou vagarosamente os lábios ao guardanapo, fez sinal ao criado que esperasse, e sentou-se à mesa a escrever duas cartas. Meteu uma no bolso e entregou a outra ao criado.

- Francis, leve esta carta ao n.o 152 da Hertford Street, e se Mr. Campbell não estiver em Londres, veja se consegue o seu endereço.

Assim que ficou só, acendeu um cigarro e começou a desenhar, num pedaço de papel, primeiro flores e esboços de arquitectura, e depois rostos. Subitamente, notou que cada rosto que desenhava parecia ter uma parecença extraordinária com Basil Hallward. De semblante carregado, levantou-se e dirigiu-se à estante, de onde tirou um volume ao acaso. Estava decidido a não pensar no que Lhe acontecera, salvo quando fosse absolutamente necessário.

Depois de estendido no sofá, olhou para o título do livro: Era Emaux et Camées, de Gautier, uma edição Charpentier em papel japonês, com uma água-forte de Jacquemart. Estava encadernado em pele verde-limão, com um desenho dourado de entrelaçados e semeado de romãs.

Fora-Lhe oferecido por Adrian Singleton. Ao virar as páginas, deparou com um poema sobre a mão de Laenaire, á gélida mão amarela du supplice encore mal lavée, de penugentos pêlos arruivados e doigts de faune. Olhou para os seus dedos brancos e esguios com um arrepio involuntário, e continuou a folhear o livro, até chegar àquelas preciosas estrofes sobre Veneza: Sur une gamme chromatique, Le sein de perles ruisselant, La Vénus de l'Adriatique Sort de l'eau son corps rose et blanc.

Les domes, sur l'ázur des ondes Suivant la phrase au pure contour, S'enflent comme des gorges rondes Que soulève un soupir d'amour.

L'esquife aborde et me dépose Jetant son amarre au pilier, Devant une façade rose, Sur le marbre d'un escalier.

Que belas! Ao ler estas estrofes, tinha-se a sensação de deslizar pelos verdes canais da cidade pérola e rosa, sentados em negra gôndola de proa prateada e de cortinas a arrastar. Os simples versos pareciam-lhe aquelas linhas rectas de cor azul-turquesa que nos seguem quando se sai do Lido. Os súbitos lampejos coloridos faziam-lhe lembrar o fulgor das aves de irisado pescoço opalino que esvoaçam em redor do alto Campanile alveolado, ou se passeiam com majestosa graciosidade pelas arcadas sombrias e poeirentas. Recostado, de olhos semicerrados, repetia vezes sem conta: Devant une façade rose, Sur le marbre dun escalier.

Toda a Veneza estava naqueles dois versos. Recordou-se do Outono que lá passara, e de um amor maravilhoso que o arrastara para delirantes e maravilhosas loucuras. Havia aventuras amorosas em toda a parte. Mas Veneza, tal como Oxford, conservara o cenário romanesco, e, para o verdadeiro romântico, o cenário era tudo, ou quase tudo. Basil estivera com ele durante parte desse tempo, e ficara louco por Tintoretto. Pobre Basil! Que maneira horrível de um homem morrer!

Suspirou e, pegando de novo no livro, procurou esquecer. Leu sobre as andorinhas que voam para dentro e fora de um pequeno café de Esmirna, onde os hadjis se sentam a desfiar as suas contas de âmbar, e os mercadores de turbante fumam os seus longos cachimbos de borlas e conversam com certa gravidade uns com os outros, leu sobre o Obelisco da Praça da Concórdia, que chora lágrimas de granito em seu exílio solitário e sem sol, e anseia por regressar ao calor do Nilo coberto de lótus, onde há esfinges, e íbis de um rosa vivo, e abutres brancos de garras douradas, e crocodilos de pequenos olhos de berilo que se arrastam pelo lodo verde e fumegante, pôs-se a meditar naqueles versos que, extraindo música do mármore manchado de beijos, falam daquela estátua singular que Gautier compara a uma voz de contralto, o monstre charmant que jaz na sala de pórfiro do Louvre.

Mas, passado algum tempo, o livro caiu-Lhe das mãos. Tomado de um pavoroso acesso de terror, começou a sentir-se nervoso. E se Alan Campbell se tivesse ausentado de Inglaterra? Só poderia regressar depois de terem passado alguns dias. Talvez recusasse vir. Nesse caso, que poderia ele fazer? Cada momento que passava era de vital importância. Haviam sido amigos cinco anos atrás, amigos inseparáveis até. Depois a intimidade entre eles terminara abruptamente. Quando agora se encontravam em convívios sociais, Dorian Gray era o único que sorria, Alan Campbell nunca sorria.

Era um jovem extremamente inteligente, embora não tivesse verdadeiro apreço pelas artes visuais, e a reduzida sensibilidade pela beleza da poesia devia-se inteiramente a Dorian. A sua paixão intelectual predominante era votada à ciência. Em Cambridge, passara grande parte do seu tempo a trabalhar no laboratório, e tivera uma boa classificação no exame final de Ciências da Natureza. Na verdade, ainda se dedicava ao estudo da química, e tinha um laboratório só seu, onde costumava encafuar-se o dia inteiro, para grande desespero da mãe, que se empenhara na sua candidatura ao Parlamento e tinha uma vaga ideia de que um químico era uma pessoa que fazia receitas. Ele era, todavia, também excelente músico, e tocava violino e piano melhor do que numerosos amadores. De facto, foi a música que aproximou os dois, ele e Dorian Gray, a música, e aquela atracção indizível que Dorian parecia saber exercer sempre que desejava, mas que chegava também a ser exercida inconscientemente. Tinham travado conhecimento em casa de Lady Berkshire na noite em que Rubenstein dera lá um concerto, e depois disso costumavam ser vistos juntos na Ópera e onde quer que se tocasse boa música. A intimidade entre eles durou dezoito meses. Campbell estava sempre em Selby Royal ou na Grosvenor Square. Para ele, assim como para muitos outros, Dorian Gray era o modelo de tudo o que é maravilhoso e fascinante na vida. Se houvera, ou não, uma desavença entre eles, ninguém sabia. Mas, de repente, as pessoas notaram que eles mal se falavam quando se encontravam, e que Campbell parecia retirar-se sempre cedo de qualquer reunião social em que Dorian estivesse presente. E também se modificara: às vezes estava inexplicavelmente melancólico, quase parecia detestar ouvir música, e nunca mais tocara, desculpando-se, quando a isso se via obrigado, com a falta de tempo para praticar, pois a ciência absorvia-o muito. E isto era mesmo verdade. Parecia interessar-se cada vez mais por biologia, e o seu nome apareceu uma ou duas vezes em algumas revistas científicas, associado a determinadas experiências curiosas.

Era este o homem que Dorian Gray aguardava. A cada segundo olhava para o relógio. À medida que os minutos avançavam, ia ficando tremendamente agitado. Por fim, levantou-se e começou a passear na sala, de um lado para o outro, parecendo qualquer coisa de muito belo dentro de uma jaula. Dava longas passadas furtivamente. Tinha as mãos geladas.

A expectativa tornava-se insuportável. O tempo parecia arrastar-se com pés de chumbo, enquanto ele era arrastado por ventos monstruosos para a berma escarpada da negra fenda de um precipício. Sabia o que o esperava lá, chegava mesmo a vê-lo, e, a tremer, pressionava com as mãos húmidas de suor as pálpebras escaldantes, como se quisesse roubar a visão ao próprio cérebro e empurrar os globos oculares para o fundo das órbitas. Era inútil. O cérebro tinha alimento próprio que o sustentava, e a imaginação, que o terror tornava grotesca, enroscada e distorcida como ser vivo em sofrimento, dançava como uma marioneta imunda sobre um estrado, e arreganhava os dentes através de máscaras móveis. Depois, subitamente, o Tempo parou. Sim, aquela coisa cega, de lento arfar, já não se arrastava, e os pensamentos medonhos, agora que o Tempo estava morto, correram ligeiros e puxaram para fora da sepultura um futuro hediondo, e mostraram-Lho. Ele fitou-o, petrificado de horror.

Por fim, abriu-se a porta e o criado entrou. Dorian volveu-lhe um olhar vago.

- Chegou Mr. Campbell, senhor - disse o criado.

Um suspiro de alívio brotou-lhe dos lábios ressequidos, e as faces retomaram cor.

- Peça-lhe que entre imediatamente, Francis.

Sentia-se de novo senhor de si. O acesso de cobardia passara.

O criado saiu, com uma vénia. Pouco depois, entrou Alan Campbell, de semblante severo e um pouco pálido, uma palidez realçada pelo cabelo negro e pelas sobranceLhas escuras.

- Alan! Que gentileza da sua parte. Obrigado por ter vindo.

- Era minha intenção nunca mais voltar a entrar em sua casa, Gray. Mas disse que era um caso de vida e de morte. - A voz era dura e fria. Falava com lenta deliberação. Havia desprezo no olhar firme e perscrutador que lançou a Dorian. Tinha as mãos metidas nos bolsos do casaco de astracã, parecendo ignorar o gesto de cumprimento com que fora recebido.

- Sim, é um caso de vida e de morte, Alan, e que envolve mais de uma pessoa. Sente-se.

Campbell sentou-se numa cadeira perto da mesa, e Dorian sentou-se do outro lado. Os olhos dos dois homens cruzaram-se. Nos de Dorian havia uma piedade infinita. Sabia que o que ia fazer era terrível.

Após um momento de tensão e silêncio, inclinou-se para a frente e falou com grande serenidade, mas observando o efeito de cada palavra no rosto daquele que mandara chamar.

- Alan, num quarto trancado do último andar desta casa, um quarto a que ninguém tem acesso senão eu, está um morto sentado a uma mesa. Morreu há precisamente dez horas. Não se enerve, nem me olhe assim. Quem é este homem, por que motivo e como morreu são assuntos que lhe não interessam. O que você tem de fazer é...

- Basta, Gray. Não quero saber mais nada. Seja verdade ou mentira, o que me contou não me diz respeito. Recuso absolutamente envolver-me na sua vida. Guarde para si os seus segredos horrendos. Não me interessam mais.

- Alan, vão ter de Lhe interessar. Este terá de Lhe interessar. Lamento muito, Alan. É que eu não posso resolver nada sozinho. Você é o único homem que me pode salvar. Vejo-me obrigado a metê-lo no caso. Não me resta outra solução. Alan, você é um homem de ciência, sabe química, e coisas do género. Fez experiências. O que você tem de fazer é destruir aquilo que está lá em cima, destruí-lo para que não fique vestígio algum. Ninguém viu essa pessoa entrar cá em casa.

Na verdade, presentemente supõem que está em Paris. Só daqui a alguns meses notarão a sua falta. Quando isso acontecer, não quero que encontrem aqui nenhum sinal da sua passagem. Você, Alan, deve reduzi-lo, e tudo o que lhe pertence, a um punhado de cinzas que eu possa dispersar.

- Você está louco, Dorian.

- Ah! Eu estava à espera que me tratasse por Dorian.

- Digo-Lhe que você está louco, louco ao imaginar que eu levantaria um dedo para o ajudar, louco por fazer essa confissão monstruosa. Não terei nada a ver com esse assunto, seja qual for. Julga que vou arriscar a minha reputação por você? Não me interessa a maquinação diabólica que você anda a congeminar.

- Foi suicídio, Alan.

- Antes isso. Mas quem o induziu a fazê-lo? Você, calculo eu.

- Continua a recusar fazer-me isto?

- Com certeza. Não quero ter absolutamente nada a ver com o caso. É-me indiferente que se cubra de ignomínia. Você merece-a. Não me afligiria vê-lo cair em desgraça na praça pública. Como ousa pedir-me, e logo a mim, que me envolva neste horror? Sempre pensei que você conhecesse melhor o carácter das pessoas. O seu amigo Lord Henry Wotton não lhe deve ter ensinado muito de psicologia, por muito que Lhe tivesse ensinado. Não há nada que me convença a dar um passo para o ajudar. Veio bater a má porta. Dirija-se aos seus amigos. Não a mim.

- Foi assassínio, Alan. Matei-o. Você não sabe o que ele me fez sofrer. Seja como for, ele teve mais influência na formação ou na destruição da minha vida do que o pobre do Harry. Ainda que não tenha sido essa a sua intenção, o resultado foi o mesmo.

- Assassínio! Meu Deus, Dorian, foi a isso que você chegou? Não o denunciarei. Não me diz respeito. Aliás, mesmo que eu não toque no assunto, tenho a certeza de que você irá preso.

Não há ninguém que cometa um crime sem fazer qualquer estupidez. Mas não terei nada a ver com isso.

- Terá de ter. Espere, espere um pouco. Ouça. Ouça apenas, Alan. Tudo o que lhe peço é que faça uma determinada experiência científica. Você costuma ir aos hospitais e às morgues, e os horrores que aí comete não o afectam, Se, em alguma medonha sala de dissecação ou em fétido laboratório, encontrasse este homem sobre uma mesa de chumbo sulcada de calhas vermelhas para escoarem o sangue, considerá-lo-ia apenas um excelente objecto de estudo. Você continuaria imperturbável. Nem acreditava que estivesse a fazer algo de reprovável. Pelo contrário, sentiria talvez que estava a prestar um benefício à humanidade, ou a incrementar a totalidade de conhecimentos no mundo, ou a satisfazer a curiosidade intelectual, ou outra coisa do género. O que eu quero que faça não é mais do que já fez muitas vezes. Na verdade, destruir um cadáver deve ser muito menos impressionante do que as práticas a que está habituado. E veja bem que esta é a única prova contra mim. Se for descoberta estou perdido. E certamente que será, se você não me ajudar.

- Não estou disposto a ajudá-lo. Já se esqueceu? Tudo isso me é indiferente. Não tem nada a ver comigo.

- Alan, suplico-lhe. Pense na minha situação. Precisamente antes de você chegar, quase desmaiava de pavor. Até você pode um dia sentir pavor. Não! Não pense nisso. Encare o assunto unicamente do ponto de vista científico. Você nunca pergunta de onde vêm os cadáveres em que pratica as suas experiências. Não pergunte também agora. Já lhe contei demais. Mas imploro-lhe que faça isto. Dantes éramos amigos, Alan.

- Não fale nesses dias, Dorian. Estão mortos.

- Por vezes os mortos ficam. O homem que está lá em cima não se quer ir embora. Está sentado à mesa, de cabeça pendida e braços estendidos. Alan! Alan! Se não vier em meu auxílio estou perdido. Não vê que me vão enforcar, Alan! Não compreende? Vão enforcar-me pelo que fiz.

- Escusa de prolongar esta cena. Recuso em absoluto intervir no assunto. É loucura da sua parte pedir-mo.

- Recusa?

- Recuso.

- Suplico-lhe, Alan.

- É inútil.

A mesma expressão de piedade surgiu nos olhos de Dorian Gray. Depois, estendeu a mão para pegar num pedaço de papel, e escreveu nele qualquer coisa. Leu-o duas vezes, dobrou-o meticulosamente e passou-o para o outro lado da mesa. Feito isto, levantou-se e foi até à janela.

Campbell olhou-o surpreendido, e então pegou no papel e abriu-o. Ao lê-lo, cobriu-se-lhe o rosto de uma palidez cadavérica, e tombou para trás na cadeira. Assaltou-o uma atroz sensação de náusea. Era como se o coração batesse desordenadamente num buraco oco até desfalecer Após dois ou três minutos de um silêncio terrível. Dorian voltou-se, aproximou-se e postou-se atrás dele, pousando-lhe a mão no ombro.

- Tenho tanta pena de si, Alan - disse, num sussurro -, mas você não me deixou alternativa alguma. Já escrevi uma carta. Ei-la. Veja o endereço. Se não me ajudar, sou obrigado a enviá-la. Se não me ajudar, vou enviá-la. Você conhece as consequências. Mas você vai ajudar-me. Agora é-lhe impossível recusar. Procurei poupá-lo. Far-me-á a justiça de o admitir. Você foi severo, implacável, ofensivo. Tratou-me como jamais homem algum ousou tratar-me... pelo menos um que esteja vivo. Suportei tudo. Agora chegou a minha vez de ditar as condições.

Campbell mergulhou o rosto entre as mãos, estremecendo.

- Sim, chegou a minha vez de ditar as condições, Alan. Sabe quais são. A coisa é muito simples. Vamos, não fique nessa agitação febril. A coisa tem de ser feita. Enfrente-a, e faça-a.

Campbell soltou um gemido, e todo o seu corpo tremia. O tiquetaque do relógio que estava no rebordo da chaminé parecia-lhe dividir o tempo em átomos de tormento, cada um deles demasiado atroz para se poder suportar. Tinha a sensação de que um anel de ferro lhe apertava lentamente a fronte, como se a ignomínia com que fora ameaçado se houvesse abatido já sobre si. A mão pousada no seu ombro pesava como mão de chumbo. Era insuportável. Parecia esmagá-lo.

- Vamos, Alan, tem que tomar imediatamente uma decisão.

- Não consigo fazê-lo - respondeu, maquinalmente, como se as palavras pudessem alterar as coisas.

- Mas tem de o fazer. Não tem outro remédio. Não perca tempo.

Ele hesitou um pouco.

- Há alguma lareira no quarto lá em cima?

- Sim, há uma lareira a gás, com amianto.

- Tenho de ir a casa para trazer umas coisas do laboratório.

- Não, Alan, não pode sair daqui. Escreva numa folha de papel aquilo de que precisa, e o meu criado irá de fiacre buscar essas coisas.

Campbell escrevinhou umas linhas, secou-as com o mata-borrão e endereçou um envelope ao seu assistente. Dorian pegou na folha e leu-a atentamente. Em seguida, tocou a campainha e entregou a mensagem ao criado, ordenando-lhe que estivesse de volta o mais breve possível e que trouxesse as coisas consigo.

Quando se fechou a porta do vestíbulo, Campbell teve um sobressalto de nervosismo, e, levantando-se, aproximou-se da lareira. Tremia como se tivesse sezões. Durante cerca de vinte minutos, os dois homens permaneceram calados. Pela sala esvoaçava uma mosca que zumbia ruidosamente, e o tiquetaque do relógio parecia a pancada de um martelo.

Quando soou uma hora, Campbell voltou-se e, ao olhar para Dorian Gray, viu que este tinha os olhos rasos de lágrimas. Havia qualquer coisa na pureza e perfeição daquele rosto triste que parecia enfurecê-lo.

- Você é infame, absolutamente infame! - balbuciou.

- Não diga nada, Alan. Você salvou-me a vida - disse Dorian.

- A sua vida? Céus! Mas que vida! Você andou de corrupção em corrupção até culminar no crime. Ao fazer o que vou fazer, aquilo que você me obriga a fazer, não é na sua vida que estou a pensar.

- Ah, Alan, desejaria que sentisse por mim a milésima parte da compaixão que sinto por você.

E dizendo isto, voltou-se e pôs-se a olhar para o jardim lá fora. Campbell não lhe deu resposta.

Uns dez minutos depois, bateram à porta, e entrou o criado transportando uma grande caixa de mogno para produtos químicos, com um rolo comprido de fio de aço e platina, e dois grampos de ferro que tinham uma forma bastante curiosa.

- Quer que deixe as coisas aqui, senhor? - perguntou a Campbell.

- Sim, deixe - disse Dorian. - E, Francis, parece-me que tenho outra incumbência para si. Como se chama o homem de Richmond que fornece as orquídeas para Selby?

- Chama-se Harden, senhor.

- Ah, sim. Harden. Vá imediatamente a Richmond procurar esse Harden e diga-Lhe que mande o dobro das orquídeas que encomendei, mas o mínimo possível de orquídeas brancas. Para ser mais exacto, não quero nenhumas brancas. Está um lindo dia, Francis, e Richmond é muito bonito, se não fosse assim não lhe daria essa maçada.

- Não é maçada nenhuma, senhor. A que horas devo estar cá?

Dorian olhou para Campbell.

- Quanto tempo irá levar a sua experiência, Alan? perguntou, numa voz calma, indiferente. A presença de uma terceira pessoa na sala parecía transmitir-lhe uma calma extraordinária.

Campbell, de semblante carregado, fez por se dominar.

- Levará aproximadamente cinco horas - respondeu.

- Então basta que você esteja de regresso às sete e meia, Francis. Não. Não volte. Deixe apenas tudo em ordem para eu mudar de roupa. Pode ficar com a noite livre. Como não janto em casa, não vou precisar de si.

- Obrigado, senhor - disse o criado, ao sair da sala.

- Agora, Alan, não há um momento a perder. Como esta caixa pesa! Eu levo-lha. Traga as outras coisas.

Falava depressa e com modos autoritários. Campbell sentia-se dominado por ele. Saíram os dois juntos da sala.

Quando chegaram ao último patamar, Dorian tirou a chave do bolso e fê-la girar na fechadura. Depois parou, e os seus olhos reflectiam uma certa inquietação. E recuou.

- Creio que não consigo entrar, Alan - disse, num murmúrio.

- É-me indiferente. A sua presença não é necessária - disse Campbell, com frieza.

Dorian só abriu a porta até meio. Ao fazê-lo, viu, à luz do sol, o olhar maldoso no rosto do seu retrato. À frente deste, caída no chão, estava a cortina rasgada. Lembrou-se então de que na noite anterior se esquecera, pela primeira vez na vida, de ocultar a fatídica tela. E quando ia avançar precipitadamente, recuou assustado.

O que seriam aquelas repugnantes gotas vermelhas que luziam, húmidas e cintilantes, numa das mãos, como se a tela ressumasse suor de sangue? Que horrendo era aquilo! Mais horrendo - assim lhe parecia naquele instante do que aquela coisa silenciosa que ele sabia que estava de bruços sobre a mesa, e cuja sombra grotesca e disforme projectada no tapete salpicado lhe permitia ver que não se movera, mas que ainda ali estava onde a deixara.

Respirou fundo, abriu a porta um pouco mais e, de olhos quase fechados e virando a cabeça, entrou rapidamente, decidido a não olhar, nem uma vez sequer, para o morto. Depois, debruçando-se, levantou do chão a cortina de ouro e púrpura e lançou-a por sobre o retrato.

Ficou ali parado, com medo de se voltar, de olhos fixos no emaranhado do desenho que estava à sua frente.

Ouviu Campbell a trazer para dentro do quarto a pesada caixa, e os ferros, e as outras coisas de que necessitava para a sua pavorosa tarefa. Começou a interrogar-se se ele e Basil Hallward se teriam alguma vez encontrado, e, se assim fora, que opinião teriam tido um do outro.

- Agora deixe-me só - disse, atrás de si, uma voz dura. Voltou-se e saiu apressadamente, apercebendo-se apenas de que o morto havia sido recostado na cadeira e que Campbell contemplava um rosto amarelecido e luzidio. Quando descia as escadas, ouviu a chave girar na fechadura.

Já passava muito das sete horas quando Campbell entrou na biblioteca. Estava pálido, mas absolutamente calmo.

- Fiz o que me pediu - disse entre-dentes. - E agora, adeus. Espero que jamais nos voltemos a ver!

- Salvou-me da desgraça, Alan. Não posso esquecer isso limitou-se a dizer Dorian.

Assim que Campbell saiu, subiu ao último andar. No quarto havia um cheiro horrível a ácido nítrico. Mas aquilo que estivera sentado à mesa desaparecera.