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Ivanhoe.  Walter Scott
Capítulo 21.
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Oh! Quantos dias passaram! Anos até,
Desde que alguém nesta mesa se sentou,
Vela ou lanterna nela rebrilhou!
Julgo ouvir a voz do tempo passado
Murmurando forte na sala vazia.
Na arcada sombria soam sons antigos,
Daqueles há muito dormindo na tumba.
- Orra, Uma Tragédia

Enquanto iam sendo tomadas estas medidas para ajuda de Cedric e dos seus companheiros, os homens armados que os haviam capturado apressavam-se para o local onde tencionavam mantê-los como prisioneiros. A noite caía depressa e as trilhas da floresta, que não eram bem conhecidas pelos assaltantes, tinham-nos obrigado a fazer diversas paragens e por mais de uma vez a voltar atrás para retomarem a direcção pretendida. Era já alvorada quando, por fim, se viram na rota certa. A confiança e a cavalgada deslocavam-se agora muito mais rapidamente. Travava-se o seguinte diálogo entre os dois bandidos-chefes:

- É chegado o momento de nos deixar, Sir Maurice - disse o Templário para De Bracy -, para que possais preparar a segunda parte do drama. A seguir representareis o papel de Cavaleiro Salvador.

- Pensei melhor - respondeu De Bracy - e não te abandonarei antes de a nossa presa estar segura no castelo de Front-de-Boeuf. Aí surgirei perante Lady Rowena tal como sou e acredito que ela me perdoará, ante a veemência da minha paixão, a violência de que sou culpado.

- E que vos fez alterar o plano? - perguntou o Templário.

- Não é de vossa conta - respondeu o companheiro.

- Espero, Sr. Cavaleiro - pôs o Templário -, que esta mudança de ideias não resulte de suspeitas em relação à minha honrada pessoa em si inculcadas por Fitzurse.

- Os meus pensamentos são meus - foi a resposta de De Bracy - e o Diabo sempre se ri quando um ladrão rouba outro ladrão.

Também sabemos que nem raios nem coriscos conseguem evitar que um templário leve um propósito seu para diante.

- Ou que um comandante de mercenários - contrapôs o Templário - não tenha medo dum camarada amigo, pois que em todos vê má-fé.

- Essa é uma acusação vã e perigosa - retorquiu De Bracy.

Bastará dizer-te que conheço a moralidade dos Templários e que

por isso te não darei o ensejo de te apossares da bela presa pela qual tantos riscos corri.

- Ora! - exclamou o Templário. - Que temeis? Conheces os votos da minha ordem.

- Sei-os de cor - disse De Bracy - e também a forma como os seguis. Lembrai-vos, Sr. Templário, de que as leis da galanteria são muito lassas na Palestina, e, neste caso, não confio na vossa consciência.

- Escuta então - pediu o Templário. - Aquela beleza de olhos azuis nada me interessa. Há no grupo muito melhor companhia...

- O quê? Baixar-te-ias a cortejar a aia? - surpreendeu-se De Bracy.

- Não, Sr. Cavaleiro - retorquiu altivamente o Templário, Não me baixo perante aias. Prefiro apenas um prémio melhor do que o teu.

- Pela Santa Missa! Referes-te à judia! - bradou De Bracy. - E se for? Quem me vai impedi-lo?

- Ninguém que eu conheça - reconheceu De Bracy -, à parte os teus votos e a consciência quanto a uma ligação com uma judia.

- Quanto aos meus votos - explicou o Templário -, o nosso grão-mestre concedeu-me dispensa. No que se refere à consciência, um homem que matou trezentos sarracenos não pode olhar a pequenas faltas como qualquer donzela da aldeia confessando-se na véspera duma sexta-feira Santa.

- Saberás melhor que ninguém os teus privilégios - concordou De Bracy. - No entanto, julgava estarem os teus pensamentos mais nas sacas de dinheiro do usurário do que nos olhos negros da filha.

- Posso admirar ambos - disse o Templário -, além de que o velho judeu é só meio prémio, pois tenho de dividir o espólio com Front-de-Boeuf, que nunca nos emprestaria o castelo de graça. Tinha de deitar as unhas a qualquer coisa que fosse apenas para mim, entre aquilo que saqueámos, e a bela judia será a minha compensação muito especial. Agora, que sabes das minhas intenções, segues agarrado ao teu projecto? Nada tens a temer.

- Não - insistiu De Bracy. - Ficarei ao lado da minha presa. O que contas pode ser verdadeiro, mas não gosto de privilégios obtidos por bulas de grão-mestre e de méritos conseguidos pelo abate de trezentos sarracenos. Tens direitos de mais para conseguires uma absolvição total para que possas apoquentar-te com meros pecadilhos.

Enquanto estes dois falavam, Cedric tentava arrancar aos que o guardavam indicações sobre as suas pessoas e o que pretendiam: - Deveis ser ingleses - disse -, e, mesmo assim, Céu, assaltais os vossos compatriotas como se normandos fôsseis.

Sereis talvez meus vizinhos, logo, amigos meus. Não existe inglês que o não seja... Garanto-vos, homens, que, mesmo aqueles de vós que passaram a fugir da lei, sempre gozaram da minha protecção, já que sempre lhes lamentei a miséria e combati a opressão que os nobres sobre eles exercem. para que me quereis? para que vos serve a violência? Sois piores do que os animais nos vossos actos e imitai-los com o vosso silêncio?

Cedric argumentou e tornou a argumentar com os guardas, mas eles tinham bons motivos para se calarem e não lhe respondiam, nem à raiva, nem ao arrazoamento.

Seguiram bem depressa, até que, no extremo duma álea de árvores gigantescas, avistaram Torquilstone, o antigo castelo, agora pertença de Front-de-Boeuf. Era uma fortaleza não muito grande, formada por um torreão ou torre quadrada cercada de edifícios mais baixos dando para um pátio interior. Em redor da muralha exterior havia um fundo fosso, que um regato abastecia de água. Front-de-Boeuf, cujo temperamento o levava a tremendos feudos com os seus adversários, tinha-lhe feito vários acrescentos, reforçando-o com torres em todos os Ângulos da muralha. O acesso fazia-se, como era próprio da época, por uma barbacã arcada, defendida por dois pequenos torreões em cada esquina.

Cedric, logo que avistou as plúmbeas fortificações do castelo de Front-de-Boeuf elevando-se, cobertas de musgo e batidas pelo sol da manhã, de dentro da mata que as cercava, começou a compreender melhor as razões do que lhe sucedera.

- Fui injusto - disse - para com os ladrões e proscritos desta floresta pensando que estes bandidos faziam parte dos seus bandos. Foi como se confundisse as raposas destes silvados com os ferozes lobos de França. Informai-me, cães: é a minha vida ou os meus haveres que o vosso amo pretende? Será demasiado dois saxões, como eu e o nobre Athelstane, possuirmos terras na nação que era património da nossa raça? Que nos matem completando a tirania que iniciaram cerceando-nos a liberdade.

Se Cedric, o Saxão, não pode salvar a Inglaterra, está disposto a morrer por ela. Diz ao teu tirânico amo que eu somente lhe rogo que deixe Lady Rowena seguir honrosamente e em boa paz. Ela é mulher e ele nada terá a temer-lhe, pois connosco desaparecerão todos os que ousam defender a sua causa.

Os criados prosseguiram na sua mudez, e todos, entretanto, chegaram ao portão. De Bracy entoou por três vezes a sua trompa e os arqueiros e besteiros que guarneciam a muralha acorreram a baixar a ponte levadiça para que passassem. Os prisioneiros, obrigados pelos guardas a desmontar, foram conduzidos a uma sala, onde lhes foi servida uma refeição rápida, refeição que todos recusaram, com a excepção de Athelstane, e mesmo este nobre descendente do Confessor não teve tempo para honrar as iguarias que lhe eram apresentadas, já que um dos captores deu a entender, a ele e a Cedric, que iam ser encerrados numa sala, separados de Rowena. Qualquer resistência era inútil, pelo que se deixaram conduzir para um pequeno quarto, com toscas colunas saxónicas, semelhantes às dos refeitórios e salas de capítulo que ainda hoje se podem encontrar nos mosteiros mais antigos.

A Lady Rowena separaram-na, com cortesia mas sem a consultarem, do seu séquito e levaram-na para um aposento distante. A mesma alarmante distinção foi dada a Rebeca, não obstante os inúmeros rogos do pai, que chegou a oferecer dinheiro para que a não tirassem de ao pé de si.

- Descrente mesquinho - rosnou um dos guardas -, quando vires o covil que te foi reservado, não quererás a tua filha junto de ti.

- E, sem mais comentários, o velho judeu foi arrastado à força para um lado diferente dos demais presos.

Os criados, após terem sido revistados e desarmados, seguiram também para outras dependências do castelo, sem sequer terem deixado Elgitha para atender à sua ama.

O apartamento onde os dois chefes saxões foram confinados (pois será para eles que voltaremos a nossa atenção), embora no momento servisse como sala da guarda, fora primitivamente o grande salão do castelo, relegado depois para funções de menor importância porque o novo senhor, entre outros aumentos de conveniência, segurança e embelezamento, mandara construir um outro novo, cujo tecto abobadado se apoiava em colunas mais graciosas e ornamentais do que os Normandos já haviam incluído na arquitectura local.

Cedric percorria o apartamento carregado de pensamentos indignados, quer a propósito do presente, quer do passado, enquanto o seu companheiro aguentava com toda a paciência e filosofia tudo, exceptuando o desconforto da ocasião. E até isto pouco sentia, pois somente de tempos a tempos se limitava a dar uma resposta vaga às imprecações de Cedric.

- Sim - dizia Cedric, falando mais para si do que para Athelstane -, foi neste salão que meu pai deu uma festa, juntamente com Torquil Wolfganger, em honra do valente e infeliz Harold, que então partia contra os Noruegueses, que se haviam aliado ao rebelde Tosti. Foi dentro destas paredes que Harold proferiu a sua magnânima resposta ao embaixador do irmão revoltoso. Muita vez escutei meu pai narrando e tornando a narrar a história. O enviado de Tosti fora admitido. Quando aqui chegou, quase não cabia mais ninguém, de cheio que estava com a nobreza saxónica que bebia à saúde do seu monarca.

- Espero - observou Athelstane, um pouco mais atento a este pormenor - que não se esquecerão de nos mandar vinho e comida para o almoço... quase nem nos deram tempo para o pequeno-almoço, e nunca tiro proveito das refeições quando as como logo a seguir a ter andado a cavalo, embora os médicos sejam de opinião contrária.

Cedric prosseguiu sem prestar a mínima atenção à interrupção do amigo:

- O enviado de Tosti atravessou a sala, indiferente aos olhos carregados que sobre ele caíam, e inclinou-se frente ao trono de Harold. "Em que termos, Majestade", perguntou "poderá vosso irmão depor as armas e estabelecer a paz convosco?" O generoso Harold gritara-lhe então: "Amor fraterno e o belo condado de Northumberland". "Mas, caso Tosti aceite essas condições", continuou o enviado, "que terras serão oferecidas ao seu leal aliado, o rei da Noruega?" com ferocidade, Harold respondeu:

"Sete palmos de terra inglesa, ou, uma vez que dizem ser Hardrada um gigante, talvez um palmozito mais." O salão vibrou às aclamações e taças e chifres de beber foram erguidos à saúde do norueguês, que em breve ocuparia território inglês.

- Eu teria de o saudar em espírito, porque tenho a língua colada ao céu da boca - taramelou Athelstane.

- O confuso diplomata - seguiu Cedric todo animado, se bem que não estivesse interessando o seu ouvinte -, retirou-se para transmitir a Tosti a funesta resposta do irmão ofendido. Foi então que as distantes torres de Iorque e as sangrentas correntes do Derwent(1) presenciaram o combate em que, após terem demonstrado o maior valor, *1.. Em edições anteriores surgiu, neste ponto, um enorme engano topográfico. A feroz batalha mencionada no texto, que o rei Harold travou e venceu contra o seu irmão, o rebelde Tosti, e um corpo de dinamarqueses ou nórdicos, era, nelas, localizada em Stamford, no Leicestershire, junto do rio Welland. Tratava-se dum engano em que o escritor foi induzido por ter confiado na própria memória, confundindo dois locais de nomes iguais. Stamford, Strangford ou Staneford, onde a batalha realmente aconteceu, é um vau no rio Derwent, a cerca de dez quilómetros de Iorque, e situado naquele grande e rico condado. Uma comprida ponte de madeira sobre o Derwent, da qual ainda resta um pilar, foi duramente disputada. Um norueguês isolado defendeu-a por muito tempo, até que o trespassaram com uma lança enfiada por entre as pranchas de madeira, manejada por alguém num barco.

Nas redondezas de Stamford, no Derwent, encontram-se muitas recordações do combate, como ferraduras, espadas, pontas de alabardas ou de chuços. Determinado ponto é conhecido por "The Danes" ["Os Dinamarqueses"] e outro como "Battlet flats" (Baixos da Batalha"). Devido à tradição, rezando que a arma que abateu o heróico norueguês teria o feitio de pêra, embora haja quem afirme ser o barco a ter tal formato, a gente do campo tem por costume iniciar a grande feira que se realiza em Stamford com uma brincadeira que denominam a festa do "Pear-pie" ["Empada de pêras"], o que será uma corruptela de festa do "Spear-pie" ["Empada de lança"). A história de Iorque, de Drake, dá mais pormenores acerca da batalha, que ocorreu em 1066. A atenção do autor para o equívoco foi alertada, o mais delicadamente possível, pelo Sr. Robert Belt, de Bossal House.

(Fim da nota)

- 203 tanto o rei da Noruega como Tosti pereceram, juntamente com dez mil dos seus mais bravos soldados. Quem imaginaria, no glorioso dia em que aquela pugna fora vencida, que o mesmo vento que desfraldava as bandeiras saxónicas em triunfo enfunava já as velas dos Normandos, empurrando-os para as fatídicas praias do Sussex? Quem acreditaria que Harold, dentro de poucos dias, não possuiria mais terra, no seu reino, do que aquela que, na sua fúria, destinara ao invasor norueguês? Quem pensaria que vós, nobre Athelstane, descendente sanguíneo de Harold, e eu, cujo pai não foi um dos piores defensores da coroa saxónica, seríamos encarcerados por um vil normando, exactamente no salão onde os nossos antepassados tão grande festa ofereceram?

- É realmente triste - reconheceu Athelstane. - Conto que não nos exijam resgates muito grandes. De qualquer forma, não creio que nos queiram fazer morrer de fome. Já deve ser meio-dia e não aparece jantar nenhum. Espreitai pela janela, nobre Cedric, e vede pelo sol se não será mesmo meio-dia a passar.

- Pode acontecer que seja - respondeu Cedric -, mas não consigo espreitar por aqueles vidros tingidos sem despertar outras recordações que nada têm a ver com o momento actual e as privações que passamos. Quando aquela janela foi montada, meu nobre amigo, os nossos pais desconheciam a arte de fazer vidro, quanto mais a de o tingirem. Foi o orgulho de pai de Wolfganger que fez trazer um artesão da Normandia para aplicar nesta sala este novo tipo de decoração que divide a luz dourada do dia do Senhor em tantos e fantásticos matizes. O estrangeiro chegou aqui pobre, mendigante, bajulante e subserviente, sempre a tirar o chapéu a todo e qualquer nacional, mesmo aos mais inferiores da casa. Regressou amimado e altivo para relatar aos seus rapazes compatriotas da riqueza e simplicidade dos nobres saxões... uma loucura, oh, nobre Athelstane!... loucura já muito antes profetizada e prevista por aqueles descendentes de Hengist e das suas ferozes tribos que mantiveram a sua pureza de costumes. Tratámos aqueles estrangeiros como amigos do peito, como criados de confiança.

Pedimos-lhes emprestados os artistas e as artes, desprezando a singeleza e robustez em que os nossos maiores tinham vivido, deixando-os dominar-nos pelas artes normandas muito antes de sucumbirmos às suas armas. Muito melhor teria sido o termo-nos atido à nossa dieta simples, mas servida em paz, do que virarmo-nos para esses requintes luxuosos, que tanto passámos a apreciar a ponto de nos tornarmos servos de conquistadores estranhos.

- Eu - falou neste momento Athelstane - consideraria qualquer humilde dieta um verdadeiro luxo. É estranho, nobre Cedric, como vos recordais tão bem de feitos passados e esqueceis a hora do jantar.

- É perder tempo - resmungou Cedric em aparte e sem paciência - falar com ele de qualquer coisa que não seja do agrado do seu apetite! O espírito de Hardicanute possuiu-o e não tem outro prazer que não seja empanturrar-se, embebedar-se e bramir por mais. Que pena! -, exclamou, olhando para Athelstane com compaixão - que um espírito tão tapado tenha ocupado um corpo tão perfeito. Que pena que uma empresa tão importante como o é a restauração da Inglaterra tenha de girar em gonzo tão perro. Talvez cansando-se com Rowena, a alma dela, mais nobre e mais generosa, possa despertar-lhe algo de melhor, na altura entorpecido dentro dele. Mas, como poderá isso verificar-se se Rowena, Athelstane e eu estamos prisioneiros deste brutal bandido que, quiçá, assim terá agido por temor àquilo que a nossa liberdade poderia acarretar contra o poder usurpado pela sua gente?!

Foi durante estas reminiscências dolorosas do Saxão que a porta da prisão se abriu para deixar entrar um mordomo com a vara indicativa da sua função na mão. Este grave personagem avançou pausadamente, seguido por quatro 'ajudantes transportando uma mesa carregada de pratos, cujo aroma aliviou Athelstane dos aborrecimentos sofridos até então. As pessoas que os vinham servir estavam encapotadas e de mascarilhas.

- Que farsa é esta? - proferiu Cedric. - Julgais sermos prisioneiros ignorando quem é o senhor deste castelo?

Dizei-lhe - continuou, aproveitando o ensejo para negociar a liberdade -, dizei ao vosso amo, Reginald Front-de-Boeuf, que sabemos não haver outro motivo para nos tirar a liberdade que não seja a sua ilegal pretensão de se tornar mais rico à nossa custa. Dizei-lhe ainda que acederemos à sua ganância tal como, em circunstâncias idênticas, acederíamos a um vulgar ladrão.

Que nos indique o valor do resgate que calcula corresponder à nossa liberdade e será pago, desde que as suas exigências condigam com as nossas possibilidades.

O mordomo nada disse, limitando-se a baixar a cabeça.

- E dizei a Sir Reginald Front-de-Boeuf - interpôs aThelstane - que eu o desafio para combate de morte, a pé, a cavalo, em qualquer local isolado, três dias após a minha libertação, o que, se é de facto um cavaleiro, nem recusará, nem protelará.

- Transmitirei as vossas mensagens ao cavaleiro - respondeu o mordomo - enquanto comeis.

Diga-se que o repto de Athelstane fora lançado com muito pouca elegância, já que uma boca atafulhada exigindo esforços a ambas as queixadas, em conjunto com a usual hesitação do nobre, pouco efeito incutia ao arrojado convite. Mesmo assim, aquele discurso foi considerado por Cedric como um despertar de ânimo do seu companheiro, cuja indiferença anterior lhe principiava a moer a paciência. Apertou-lhe a mão cordialmente, demonstrando-lhe toda a sua aprovação, que rapidamente, porém, diminuiu quando aThelstane observou que "lutara com uma dúzia de homens como Front-de-Boeuf se, graças a isso, pudesse apressar a saída do calabouço onde tanto alho se punha na sopa". Apesar desta manifestação de retorno à apatia e gulodice, Cedric sentou-se-lhe na frente e depressa revelou que, se os males da sua terra o faziam esquecer os alimentos, quando não à vista, a sua presença logo lhe trazia todo o apetite dos seus antepassados saxões.

Os cativos apreciavam gostosamente a sua refeição quando a atenção lhes foi violentamente chamada por um troar de trompa ao portão. Foi por três vezes repetido, com tanta força como se fosse tocado por um cavaleiro frente a um castelo encantado, cujas torres, salas, barbacãs e muralhas se desfariam em pó perante tais sons. Os saxões saltaram da mesa e abeiraram-se das janelas. Nada viram, contudo, pois davam para o pátio do castelo e o chamado vinha de fora. Deveria ser de grande importância também, dado o rebuliço que logo provocou dentro da fortaleza.