Um Estudo em Vermelho.  Arthur Conan Doyle
Capítulo 13. Continuação das Memórias do Dr John Watson
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A resistência furiosa de nosso prisioneiro não parecia indicar nenhuma ferocidade em relação a nós, pois, ao se perceber impotente, sorriu de maneira afável e disse que esperava não ter nos machucado durante a luta.

- Com certeza vão me levar para o posto policial - disse a Sherlock Holmes. - Tenho um carro estacio-nado à porta. Se soltarem minhas pernas, vou andando até lá. Não sou mais tão leve para ser carregado quanto era antes.

Gregson e Lestrade se entreolharam como se achas-sem a proposta um tanto atrevida, mas Holmes aceitou a palavra do prisioneiro e retirou a toalha com que prendera seus tornozelos. O homem ergueu-se e espichou as pernas, querendo ter certeza de que estava livre. Lembro-me de que pensei comigo mesmo, olhando-o, que raramente vira um homem de constituição tão forte.

Além disso, em seu rosto moreno e bronzeado havia uma expressão enérgica e determinada tão formidável quanto sua força física.

- Se houver uma vaga para chefe de polícia, vo-cê é o mais indicado para ela - comentou ele, olhando com grande admiração para meu companheiro de moradia. - A maneira como seguiu minha pista é uma garantia disso.

- É melhor virem comigo - disse Holmes aos dois detetives.

- Posso levá-los - ofereceu-se Lestrade.

- Muito bem. E Gregson ficará dentro do carro comigo. O senhor, também, doutor. Interessou-se pe-lo caso e poderá segui-lo até o final.

Concordei satisfeito e descemos todos juntos. O prisioneiro não fez qualquer tentativa de fugir. Caminhou calmamente para o carro que havia sido seu e nós o seguimos. Lestrade subiu para a boléia, chicoteou o cavalo e, em pouco tempo, chegávamos a nosso destino. Fomos introduzidos numa sala pequena onde um inspetor de polícia anotou o nome do prisioneiro e dos homens que ele assassinara. O oficial era um homem imperturbável, de rosto pálido, que cumpria suas obrigações de modo mecânico e indiferente.

- O prisioneiro comparecerá perante os magistrados durante esta semana - disse. - Enquanto isso, senhor Jefferson Hope, há alguríza coisa que deseje declarar? Devo avisá-lo que o que disser ficará registrado e poderá ser usado contra o senhor.

- Tenho muita coisa a declarar - respondeu lentamente o prisioneiro. - Quero contar a história toda aos cavalheiros.

- Não acha melhor reservar-se para o julgamen-to? - perguntou o inspetor.

- Talvez eu nem venha a ser julgado - respon- deu. - mao se surpreendam. Não estou pensando em suicídio. O senhor é médico?

Virou seus olhos escuros e febris para mim ao fazer a pergunta.

- Sim, sou - respondi.

- Então, ponha a mão aqui - disse com um sorriso, movendo suas mãos algemadas em direção ao peito.

Assim fiz e percebi de imediato a comoção interna. As paredes do peito pareciam vibrar e tremer co-mo uma frágil edificação em cujo interior funcionasse um poderoso maquinismo. No silêncio da sala, eu podia ouvir um som seco e um zumbido que provinham da mesma fonte.

- Ora! - exclamei. - Você tem um aneurisma da aorta!

- É como o chamam - respondeu, placidamen-te. - Fui a um médico na semana passada e ele me disse que isso vai estourar dentro de alguns dias. Tem pio-rado nos últimos anos. Fiquei assim naquela época em que vivia exposto ao tempo e mal alimentado nas montanhas de Salt Lake. Mas eu já fiz meu trabalho e não me importo de morrer agora. Gostaria, no entanto,_ de deixar relatado tudo o que aconteceu: Não quero ser lembrado como um assassino comum.

O inspetor e os dois detetives tiveram uma rápida discussão sobre a conveniência de permitir a ele que contasse sua história.

- O senhor acha, doutor, que há um risco de vi-da imediato? - perguntou o inspetor.

- Tudo indica que sim - respondi.

- Nesse caso, certamente é nosso dever, no interesse da justiça, tomar seu depoimento - declarou o inspetor. - É livre para apresentar seu relato, senhor, mas volto a adverti-lo de que suas palavras serão consi-deradas.

- Com sua licença, vou me sentar - aisse o prisioneiro, passando da palavra à ação. - Esse aneurisma me deixa cansado com facilidade e a briga que tivemos meia hora atrás não melhora em nada a situação.

Estou à beira da sepultura e não iria mentir para vocês.

Tudo que eu disser será a mais absoluta verdade e não me interessa o uso que os senhores farão do que irão ouvir.

Com essas palavras, Jefferson I-Jope reclinou-se na cadeira e iniciou sua extraordinária narrativa. Falava de modo calmo e metódico, como se os episódios que narrava fossem comuns. Posso atestar a precisão do que foi dito, porque tive acesso ao caderno de Lestrade, no qual as palavras do prisioneiro foram regis-tradas tal qual foram proferidas.

- Não lhes interessa saber a razão pela qual eu odiava esses homens - disse ele. - Basta saber que eram culpados da morte de dois seres humanos, pai e filha, e que, por isso, já tinham perdido o direito à pró- pria vida. Depois de todo o tempo transcorrido após o crime, era impossível para mim apresentar queixa contra eles em qualquer tribunal. No entanto eu sabia que eram culpados e decidi ser o juiz, os jurados e o execu-tor deles ao mesmo tempo. Os senhores teriam feito o mesmo, se, sendo dotados de sentimento humano, estivessem em meu lugar.

"A moça de quem falei ia casar-se comigo, há vinte anos, mas foi obrigada a tornar-se esposa de Drebber, o que a aniquilou. Retirei a aliança de seu dedo de morta jurando que os últimos pensamentos de Drebber seriam sobre o crime pelo qual morreria castigado.

Levei a aliança sempre comigo, e segui a ele e a seu cúmplice, pelos dois continentes, até agarrá-los. Pensa-vam que me deixariam cansado. Não conseguiram. Se eu morrer amanhã, o que é provável, morro sabendo que cumpri meu dever neste mundo e que o cumpri bem.

Os dois estáo mortos e por minhas mãos. Não tenho mais nada a esperar ou a desejar.

"Eles eram ricos e eu, um homem pobre; não era, portanto, fácil para mim segui-los. Quando cheguei a Londres, já estava com os bolsos vazios, e percebi que precisava fazer alguma coisa para sobreviver. Conduzir e montar cavalos sempre foi tão natural para mim quanto caminhar, de modo que me apresentei ao proprietá- rio de uma empresa de carros e consegui logo o emprego. Tinha que entregar uma determinada quantia semanal ao dono do negócio e o que a ultrapassasse ficaria comigo. Raramente rendia alguma coisa, mas eu conseguia sobreviver de alguma forma. O difícil foi aprender a circular, porque, confesso, dentre todos os labirin-tos que foram inventados, esta cidade é a mais confusa. Tinha a meu lado um mapa de Londres e, quando localizei os principais hotéis e estações da cidade, eu me saí muito bem.

"Levou algum tempo até que eu descobrisse onde viviam os dois cavalheiros. Investiguei aqui e ali e, finalmente, dei com eles. Estavam em uma pensão em Camberwell, no outro lado do rio. Assim que os descobri, soube que estavam em minhas mãos. Tinha deixado crescer a barba, e não havia possibilidade de que me reconhecessem. Iria rasteá-los e persegui-los até chegar a hora certa. Não os deixaria escapar uma outra vez.

"Estiveram perto de fazê-lo, mas eu os seguia por onde quer que andassem. Às vezes ia atrás deles em meu carro; outras, a pé. Mas da primeira forma era melhor, porque não podiam ficar distantes de mim. Somente bem cedo pela manhã ou bem tarde à noite é que eu conseguia ganhar algum dinheiro e, sendo assim , comecei a dever a meu patrão. No entanto isso não me preocupava, tudo o que queria era pôr as mãos nos dois.

"Eles eram, porém, muito espertos. nunca iam imaginar que pudessem estar sendo seguidos, porque nunca saíam a sós, nem mesmo depois de escurecer. Andei atrás deles por duas semanas, sem perder um só dia, e nunca os vi separados. Drebber estava bêbado a metade do tempo, mas Stangerson permanecia vigilante.

Observava-os de manhã à noite, sem ter a menor oportunidade. Mas não desanimava, alguma coisa me dizia que se aproximava o momento. Meu único temor era que esta coisa em meu peito explodisse antes da hora, deixando meu trabalho incompleto.

"Por fim, uma noite em que eu estava subindo e descendo a Torquay Terrace, que é como se chama a rua onde estavam hospedados, vi um carro parar em frente à porta da pensão. Uma bagagem foi trazida pa-ra fora e, pouco depois, saíram Drebber e Stangerson e tomaram um carro. Chicoteei meu cavalo, sem perdê-los de vista, aborrecido com a possibilidade de que fossem trocar de acomodações. Saltaram na estação Euston. Deixei um menino tomando conta de meu cavalo e segui-os até a plataforma. Ouvi perguntarem pelo trem de Liverpool; o guarda respondeu que tinha acabado de partir e que só haveria outro dentro de algumas horas. Stangerson pareceu irritado com isso, mas Drebber, ao contrário, demonstrava satisfação. Cheguei tão perto deles, em meio à agitação toda, que pude ouvir cada palavra que disseram. brebber disse que tinha um pequeno assunto pessoal a resolver e que, se o outro o esperasse, logo se reuniria a ele. Seu companheiro protestou, lembrando que haviam combinado permanecer juntos. Drebber respondeu que se tratava de um assunto delicado e que precisava ir só. Não entendi o que Stangerson respondeu, mas o outro explodiu em pragas, lembrando-lhe que era um assalariado a seu serviço e que não podia pretender dar-lhe ordens. O secre- tário perceneu que era melhor recuar, e limitou-se a combinar que, caso perdesse o último trem, iria encontrá-lo no Hotel Halliday. Drebber, então, respondeu que estaria na estação antes das onze e afastou-se.

"O momento pelo qual eu esperava há tanto tempo finalmente havia chegado. Juntos podiam proteger-se um ao outro, mas, separados, ficavam a minha mercê. No entanto não agi com precipitação. Meus planos já estavam feitos. Não há prazer na vingança se aquele que nos ofendeu não tiver tempo para perceber quem o está atacando e por quê. Tinha feito meus planos pa-ra que meu inimigo compreendesse que estava pagando por seu antigo pecado. Aconteceu que, dias antes um cavalheiro que fora ver algumas casas em Brixton Road havia esquecido a chave de uma delas em meu carro. Reclamou-a na mesma noite e eu a devolvi, mas, no intervalo, tirei o molde da chave e mandei fazer uma duplicata. Desse modo, pude ter acesso a, pelo menos, um lugar nesta grande cidade onde poderia fazer algo sem ser interrompido. Como atrair Drebber a essa casa era o difícil problema que eu tinha que resolver.

"Descendo a rua, ele entrou num e noutro bar permanecendo quase meia hora no último deles. Quando saiu, caminhou cambaleante, demonstrando que passara da conta. À minha frente ia um cupê e Drebber o fez parar. Segui-o tão de perto que o focinho de meu cavalo não ficou a mais de um metro de seu cocheiro durante todo o percurso. Cruzamos a ponte de Water-loo e percorremos quilômetros de rua até que, para minha surpresa, voltamos à rua da pensão onde ele se hospedara. Não conseguia imaginar por que razão ele voltava para aquela casa, mas fui em frente e estacio-nei meu carro a uns cem metros dali. Ele entrou na pensão e o cupê foi embora."

- Por favor, me dêem um copo de agua. i enno a boca seca de tanto falar.

Alcancei-lhe um copo e ele bebeu toda a água.

- Assim está melhor - disse. - Bem, eu fiquei esperando por um quarto de hora, ou mais, quando, de repente, ouvi barulho de pessoas brigando dentro da casa. No momento seguinte, a porta escancarou-se e apareceram dois homens. Um era Drebber e o outro um jovem que eu nunca vira antes: O rapaz agarrava Drebber pelo colarinho e, quando chegaram ao alto da escada, deu-lhe um empurrão e um pontapé que o lançaram no meio da rua.

"- Canalha! - gritou o rapaz, brandindo a bengala. - Vou lhe ensinar como se insulta uma moça séria!

"Ele estava tão furioso que poderia ter despedaça-do Drebber a bengaladas, se o patife não descesse cambaleante a rua o mais rápido que suas pernas o permi-tiam. Correu até a esquina e, vendo meu carro; fez sinal e entrou.

"- Leve-me para o Hotel Halliday - disse.

"Quando eu o tive dentro de meu carro, meu cora- ção pulsava no peito com tanta alegria que temi fosse aquele meu último momento, uma vez que o aneurisma poderia não suportar a tensão. Eu dirigia devagar, pensando qual seria a melhor coisa a fazer. Poderia le-vá-lo diretamente para o campo e lá, em alguma estrada deserta, ter minha última entrevista com ele. Já estava quase decidido quando ele próprio resolveu o problema para mim. A vontade de beber o dominava mais uma vez, e ele ordenou que eu parasse em frente a uma casa de bebidas. Entrou, depois de dizer que eu deveria esperar por ele. Permaneceu lá até a hora de fechar-se o estabelecimento e, quando saiu, estava tão bêbado que percebi estar com todo o jogo em minhas mãos.

"Não pensem que pretendia matá-lo a sangue frio.

Se o fizesse, estaria cumprindo a mais estrita justiça, mas não era o que eu queria. Há muito decidira dar-lhe uma oportunidade de sobreviver, caso soubesse aproveitá-la. Entre os muitos ofícios que exerci na Améri-ca, durante minha vida de andarilho, fui, uma vez, por-teiro e varredor do laboratório da Universidade de York. Um dia, o professor deu uma aula sobre venenos e mostrou aos estudantes alguns alcalóides, como os chamava, que extraíra de certo veneno usado em flechas na América do Sul. Afirmou que eram tão potentes que a menor porção provocava morte imediata. Localizei o frasco onde o preparado era guardado e, quando todos se foram, retirei um pouquinho para mim.

Tinha uma boa prática em farmácia, de modo que trans-formei aquele alcalóide em duas pequenas pílulas solú- veis e pus cada uma em uma caixinha junto a uma pílu-la similar, mas sem o veneno. Decidi que, quando chegasse a hora do encontro com os dois cavalheiros, ca-da um escolheria sua pílula e eu engoliria as pílulas restantes. Seria um método igualmente mortal, mas bem menos ruidoso que disparar com um revólver através de um lenço. Desse dia em diante, sempre carreguei comigo as caixinhas com as pílulas e, agora, era chegado o momento de usá-las.

"Estava mais perto de uma hora do que da meia-noite. A noite era fria e tenebrosa; soprava um vento furioso e chovia torrencialmente. Por mais feio que fosse o tempo lá fora, por dentro eu estava eufórico. Tanto que desejava gritar de pura alegria. Se algum dos senhores já se consumiu por alguma coisa, sonhando com ela por vinte longos anos e, de repente, conseguiu tê- la ao alcance da mão, então poderá compreender co-mo eu me sentia. Acendi um charuto e puxei umas baforadas para acalmar meus nervos, mas minhas mãos tremiam e mirihas têmporas latejavam de excitação.

Enquanto dirigia, podia ver Jonn rerrier e a doce Lucy me olhando e sorrindo para mim no escuro, de modo tão nítido como vejo vocês nesta sala. Durante todo o percurso eles estiveram a minha frente, um de cada la-do do cavalo, até eu parar diante da casa em Brixton Road.

"Não se via vivalma por ali e não se ouvia nenhum som, exceto o da chuva caindo. Quando olhei pela jane-linha do carro, vi Drebber todo encolhido, dormindo seu sono de bêbado. Sacudi-o pelo braço.

"- Está na hora de descer - avisei.

"- Muito bem, cocheiro - respondeu.

"Imagino que tenha pensado estar chegando ao hotel que havia mencionado, porque desceu sem dizer nada e me seguiu pelo jardim. Eu tive que ficar ao la-do dele para mantê-lo firme, porque não se mantinha sobre as próprias pernas. Quando chegamos à porta, eu a abri e fiz com que entrasse na sala. Dou minha palavra que, durante o tempo todo, o pai e a filha ca-minhavam a nossa frente.

"- Está escuro como o diabo! - disse ele, arras-tando os pés.

"- Logo teremos luz - falei, riscando um fósforo e acendendo uma vela de cera que trouxera comigo.

- E agora, Enoch Drebber - continuei, virando-me para ele e erguendo a vela à altura do rosto -, quem sou eu?

"Ele me fitou por um momento com olhos turvos e embriagados, mas logo vi brotar neles o horror que convulsionou suas feições, revelando que me identifica-ra. Cambaleou com o rosto lívido, enquanto eu via o suor lhe inundar a testa e ouvia seus dentes batendo co-mo castanholas. Diante de semelhante quadro, encostei-me à porta e dei uma gargalhada. Sempre imaginei que a vingança seria doce, mas não esperava ser tomado por tal contentamento como o que sentia agora.

- "Cachorro! - exclamei. - 'Tenho seguido seu rastro de Salt Lake City a São Petersburgo, e você sempre me escapou. Agora, finalmente, suas andanças chegaram ao fim, porque um de nós dois jamais voltará a ver o sol se levantar.

"Ele se contraía cada vez mais á medida que eu falava e podia ver em seu rosto que ele me julgava louco. E eu, de fato, estava naquele momento. O sangue martelava minhas têmporas e penso que teria sofrido um ataque qualquer, se não o tivesse esguichado pelo nariz, o que me deu alívio.

"- O que pensa agora de Lucy Ferrier? - gritei, trancando a porta e sacudindo a chave diante de seu rosto. - O castigo demorou a chegar, mas finalmente o alcançou!

"Vi tremerem os lábios do covarde enquanto ele falava. Teria suplicado por sua vida, se não estivesse certo de que seria inútil.

"- Você vai me assassinar?

- gaguejou.

"- Não haverá nenhum assassinato - respondi.

- Quem fala de assassinato quando se trata de matar um cão raivoso? Que piedade teve de minha pobre amada, quando a afastou do pai trucidado para levá-la a seu harém maldito e indecente?

"- Não fui eu que matei o pai dela! - exclamou.

"- Mas foi você que despedaçou seu coração inocente - vociferei, estendendo a caixinha diante dele.

- Deixe que Deus julgue entre nós dois. Escolha uma e engula. Há morte em uma e vida noutra. Vamos ver se existe justiça na terra ou se somos dirigidos pelo acaso.

"Acovardado, ele se pôs a gritar e tentou fugir, suplicando piedade, mas puxei minha faca e a encostei em sua garganta até fazê-lo obedecer. Então, engoli a pílula restante e ficamos em pé, encarando um ao outro, em silêncio, por um minuto ou mais, esperando para saber quem viveria e quem iria morrer. J amais esquece-rei a expressão que lhe cobriu o rosto quando começou a sentir as primeiras dores, anúncio de que o veneno estava em seu organismo. Eu me pus a rir e sacudi o anel de noivado de Lucy frente a seus olhos. Foi apenas por um momento, porque a ação do alcalóide é rá- pida. Um espasmo de dor contorceu-lhe o rosto, ele estendeu as mãos para frente, cambaleou e, então, com um grito rouco, caiu pesadamente sobre o chão. Virei-o com o pé e coloquei a mão sobre seu coração. Não batia. Ele estava morto!

"O sangue estivera correndo de meu nariz, mas eu não percebera. Não sei o que foi que me deu a idéia de escrever na parede com ele. Talvez a intenção per-versa de colocar a polícia na pista errada, porque me sentia animado e de coração leve. Recordei o caso de um alemão encontrado morto em Nova York com a palavra rache escrita acima dele. Na ocasião, os jornais atribuíram o caso a sociedades secretas. Supus que, aquilo que confundira os nova-iorquinos, confundiria, também, os londrinos. Então, molhei o dedo em meu pró- prio sangue e escrevi a mesma palavra num lugar conveniente na parede. Caminhei, depois disso, em direção a meu carro e vi que não havia ninguém nos arredores, porque a noite continuava horrível. Já havia percorrido uma certa distância quando pus a mão no bolso on-de costumava levar a aliança de Lucy e percebi que não estava lá. Fiquei atordoado com isso, porque era a úni-ca lembrança que guardava dela. Imaginando que devia tê-la deixado cair quando me debrucei sobre o corpo de Drebber, voltei e, estacionando o carro em uma rua lateral, corri ousadamente para a casa. Eu estava disposto a qualquer audácia antes de perder a aliança.

Chegando lá, esbarrei com um policial que estava sain- do, e a úmca torma de escapar de suas suspeitas ioi fingir que estava totalmente embriagado.

"Foi assim que Enoch Drebber encontrou seu fim.

Tudo que me restava a fazer era dar o mesmo castigo a Stangerson, para que pagasse seu débito com John Ferrier. Sabía que estava hospedado no Hotel Halliday e fiquei perambulando pelos arredores o dia inteiro, mas ele não apareceu. Deve ter suspeitado de algo, quando Drebber não compareceu ao encontro. Stangerson era esperto e nunca afrouxava a guarda. Se pensava, porém, que me manteria afastado, ficando dentro do hotel, estava completamente enganado. Logo descobri qual a janela de seu quarto. Na manhã seguinte, usan-do uma das escadas que eram deixadas na passagem atrás do hotel, subi até lá mal o dia clareava. Desper-tei-o, avisando que tinha chegado a hora dele responder pela vida que havia tirado tanto tempo atrás. Des-crevi-lhe a morte de Drebber e ofereci a ele a mesma escolha das pílulas envenenadas. Em lugar de aceitar a oportunidade de salvação que eu lhe oferecia, saltou da cama e voou em meu pescoço. Para defender-me, apunhaleí-o no coração. Daria no mesmo, em qualquer caso, porque a Providência não iria permitír que aquela mão culpada pegasse outra que não fosse a pílula envenenada.

"Tenho pouco mais a dizer, e ainda bem, porque estou no fim de minhas forças. Continuei trabalhando por mais um dia ou dois, esperando juntar o dinheiro suficiente para voltar à América. Estava parado no esta-cionamento quando um menino maltrapilho perguntou se havia um cocheiro lá chamado Jefferson Hope e dizendo que um cavalheiro precisava de um carro na Baker Street, 221 B. Fui até lá sem suspeitar de nada e tu-do o que sei é que, no momento seguinte, este jovem aqui punha algemas em meus pulsos, com eficiência nunca vista. Esta é toda minha história, cavalheiros.

Podem me considerar um assassino, mas, em minha opinião, sou um instrumento da justiça como vocês também o são." Tão emocionante fora a narrativa daquele homem e tão impressionante seu comportamento que havíamos permanecido calados e absortos. Até mesmo os detetives profissionais, acostumados como eram a todos os aspectos do crime, demonstraram estar vivamente interessados na história de Jefferson Hope. Quando concluiu, ficamos alguns momentos num silêncio que-brado apenas pelo ruído do lápis de Lestrade no papel, que dava os retoques finais em seu relato taquigrafado.

- Há apenas um ponto sobre o qual eu gostaria de ter um esclarecimento - disse, por fim, Sherlock Holmes. - Quem era o cúmplice que se apresentou pa-ra recuperar a aliança quando publiquei o anúncio?

O prisioneiro piscou o olho para meu amigo de modo jocoso.

- Posso contar-lhe meus segredos - respondeu -, mas não ponho outras pessoas em encrenca. Vi seu anúncio e pensei que tanto poderia ser uma cilada quanto, de fato, ser a jóia que buscava. Meu amigo dispôs-se a ir ver. Penso que não vai deixar de admitir que ele se saiu muito bem.

- Sem dúvida! - exclamou Holmes com ênfase.

- Agora, senhores - observou o inspetor com gravidade -, vamos cumprir com as formalidades le-gais. Na quinta-feira, o prisioneiro será levado a tribunal e a presença dos senhores será exigida. Até lá, eu serei responsável por ele.

Tocou uma sineta enquanto falava e Jefferson Ho-pe foi conduzido por dois guardas, enquanto meu ami go e eu deixamos o posto policial e pegamos um carro em direção a Baker Street.