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Bel Ami.  Guy de Maupassant
Capítulo 10.
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O casal Du Roy regressara a Paris, havia dois dias, e o jornalista retomara a sua tarefa, à espera de deixar o serviço dos Ecos,, para ocupar definitivamente as funções de Forestier e consagrar-se completamente à política.

Voltava a casa, nessa tarde, à residência do seu antecessor, bem-disposto para o jantar, com o vivo desejo de beijar, dentro em pouco, sua mulher, de quem sentia o irresistível encanto físico e o insensível domínio. Ao passar em frente duma florista, ao fundo da Rua de Notre-Dame-de-Lorette, teve a ideia de comprar flores para Madalena e pegou num grande ramo de rosas, só entreabertas, um molho de botões perfumados.

Em cada patamar da sua nova escada, mirava-se, complacentemente, naquele espelho cuja vista Lhe lembrava, sem cessar, a primeira vez que entrara naquela casa.

Bateu à porta, pois esquecera-se da chave, e o mesmo criado, que conservara ao seu serviço, a conselho da mulher, abriu-Lhe a porta. Perguntou-lhe:

- A senhora já veio?

- Já sim, senhor.

Ao atravessar a sala de jantar, Jorge ficou muito surpreendido por ver a mesa posta para três pessoas. Como o reposteiro da sala estava afastado, viu Madalena a dispor numa jarra, na pedra do fogão de sala, um molho de rosas perfeitamente igual ao que Lhe levava. Ficou contrariado, descontente, como se lhe tivessem roubado a sua ideia, a sua atenção com a mulher e todo o prazer que esperava tirar disso. Ao entrar, perguntou:

- Convidaste, então, alguém?

- Sim e não - respondeu a esposa sem se voltar e continuando a dispor as flores na jarra. - É o meu velho amigo, o conde de Vaudrec, que tem o hábito de jantar cá todas as segundas-feiras e que veio como de costume.

- Ah! Muito bem - murmurou Jorge.

Ficou de pé, atrás dela, com o seu ramo na mão e uma grande vontade de o esconder, de o atirar fora. No entanto, disse:

- Aqui tens, trouxe-te estas rosas!

Madalena voltou-se de súbito, toda sorridente, e exclamou:

- Ah! Como foste gentil por teres Essa ideia!

Estendeu-Lhe os braços e deu-lhe a boca, num impulso de prazer tão espontâneo que Jorge sentiu-se consolado. Pegou nas flores, aspirou-as e, com a vivacidade duma criança feliz, colocou-as na jarra que estava vazia em face da outra. Murmurou, depois, ao observar o efeito:

- Como estou contente! Eis o meu fogão agora completamente enfeitado. - Acrescentou quase imediatamente, com ar convencido: - Sabes? Vaudrec é encantador; vão ficar imediatamente íntimos.

um toque de campainha anunciou a chegada do conde, que entrou tranquilo, muito à vontade, como em sua casa. Depois de ter beijado, com galantaria, os dedos de Madalena, voltou-se para o marido, estendeu-Lhe a mão, cordialmente, e perguntou:

- Como tem passado, meu caro Du Roy?

Mantinha o seu ar rígido e afectado de outrora, mas uma atitude afável, que revelava muito bem não ser já a mesma a situação. O jornalista, surpreendido, procurou mostrar-se gentil, para corresponder à sua amabilidade. Passados cinco minutos, dir-se-ia que se conheciam e estimavam, havia mais de dez anos. Então, Madalena, cujo rosto estava radiante, disse-Lhes:

- Deixo-os juntos. Preciso dar uma vista de olhos à minha cozinha - e saiu, seguida pelo olhar dos dois homens.

Quando voltou, encontrou-os a falar de teatro, a propósito duma nova peça, tão completamente da mesma opinião que uma amizade súbita se revelava nos seus olhos ante a descoberta dessa inteira semelhança de ideias. O jantar foi encantador, muito íntimo e cordial.:. (O conde ficou até tarde a passar o serão, tanto se sentia bem naquele lar novo e bonito.

Mal o conde partiu, Madalena disse ao marido:

- Não é verdade que é uma pessoa estimável?Ganha em ser conhecido. Eis um bom amigo, firme, devotado, fiel. Ah! Sem ele...

Não concluiu o seu pensamento, e Jorge retorquiu:

- Sim, acho-o muito agradável e creio que nos entenderemos muito bem.

Madalena, porém, atalhou:

- Sabes, temos de trabalhar esta noite, antes de nos deitarmos. Não tive tempo de te dizer isso antes do jantar, porque Vaudrec chegou. Trouxeram-me notícias graves de Marrocos. Foi Laroche-Mathieu, o deputado, o futuro ministro, que mas deu. É preciso fazermos um grande artigo, um artigo sensacional. Possuo factos e números. Vamos meter ombros à tarefa, imediatamente. Olha, pega no candeeiro.

O marido fez o que ela Lhe dizia e passaram para o gabinete de trabalho. Alinhavam-se os mesmos livros na estante, que tinha a mais, na cimalha, as três jarras compradas no golfo Juan, por Forestier, na véspera do seu derradeiro dia. Debaixo da mesa, o abafo dos pés do falecido aguardava os de Du Roy, que, mal se sentou, lançou mão da caneta de marfim, um tanto mordida na ponta pelos dentes do outro.

Madalena, encostada ao fogão, depois de acender um cigarro, contou o qUe sabia, expôs em seguida as suas ideias e o plano do artigo que imaginara.

O marido ouvia-a com atenção, ao mesmo tempo que rabiscava notas. Quando ela terminou, Jorge levantou algumas objecções. Retomou a questão sob diversos aspectos, aumentou-a e, por seu tUrno, desenvolveu, não o plano dum artigo, mas o de toda uma campanha contra o Ministério actual. Aquele ataque seria o começo. Madalena deixara de fumar, tanto o seu interesse despertara. Via mais largo e mais longe, sem deixar de seguir o pensamento do marido. Murmurava de tempos a tempos:

- Sim... sim...-: está mUito bem... Isso é excelente... É muito boa ideia.

Quando ele, por sUa vez, acabou de falar, a mulher proferiu:

- Agora, escrevamos.

Jorge contimuava, no entanto, a ter dificuldades em começar e procurava as palavras com dificuldade. Então, a esposa vinha inclinar-se, docemente, por cima do seU ombro e punha-se a murmurar-lhe as frases, baixinho, no ouvido. De tempos a tempos, hesitava e perguntava:

- É isto que queres dizer?

- Sim, perfeitamente - respondia o marido.

Madalena encontrava ditos acerados, frases venenosas de mulher, para ferir o presidente do Conselho, e misturava a troça às suas feições com a dirigida à sua política, duma maneira que dava vontade de rir e impressionava, ao mesmo tempo, pela justeza da observação.

Du Roy, por vezes, acrescentava algumas frases, que tornavam mais profundo e vigoroso o alcance do ataque. Conhecia, além disso, a arte dos subentendidos pérfidos, que aprendera ao afiar os seus ecos, e quando um facto dado como certo por Madalena lhe parecia duvidoso ou comprometedor, era hábil na maneira de o dar a entender de modo a impô-lo no espírito do leitor ainda com mais força do que se o tivesse afirmado.

Quando o artigo ficou pronto, Jorge leu-o em voz alta, declamando-o. De comum acordo, acharam-no admirável e sorriram um para o outro, encantados e surpreendidos, como se tivessem feito uma grande descoberta. Fitaram-se nos olhos, comovidos de admiração e enternecimento, e beijaram-se com ímpeto, num ardor amoroso comunicado pelos seus espíritos aos seus corpos. Du Roy pegou no candeeiro e profriu, com o olhar brilhante:

- Agora, vamos fazer ó-ó...

- Vá à frente, meu senhor, para iluminar o caminho - proferiu Madalena.

Jorge passou à frente e a esposa seguiu para o seu quarto, fazendo-Lhe cócegas no pescoço com as pontas dos dedos, entre o colarinho e o cabelo, para o fazer andar mais depressa, pois ele temia essa carícia.

O artigo apareceu com a assinatura de Jorge du Roy de Cantei e causou grande barulho. Impressionaram-se com ele na Câmara. O velho Walter felicitou o autor por isso e encarregou-o das notas políticas da Vie FranÇaise. Os ecos voltaram para Boisrenard.

Começou, então, no jornal, uma campanha hábil e violenta contra o Ministério que estava no poder. Os ataques eram sempre vigorosos e recheados de factos, ora irónicos ora sérios, por vezes engraçados, outras virulentos. Du Roy feria com uma segurança e uma continuidade que surpreendiam toda a gente. As outras gazetas citavam, sem cessar, a Vie Française e transcreviam períodos inteiros.

Os homens que estavam no poder informaram-se se não podiam amordaçar com uma prefeitura(1) aquele inimigo desconhecido e encarniçado.

Du Roy tornou-se célebre nos agrupamentos políticos. Sentia crescer a sua influência pelo vigor dos apertos de mão e pela profundidade das chapeladas. Sua mulher aliás, enchia-o de surpresa e de admiração pela engenhosidade do seu espírito, a habilidade em obter as suas informações e o número dos seus conhecimentos.

Jorge encontrava muitas vezes na sua sala, ao chegar a casa, um senador, um deputado, um magistrado, um general, que tratavam Madalena como a uma velha amiga, com uma familiaridade séria. Onde tinha ela conhecido toda aquela gente? Na sociedade, segundo dizia: mas como pudera captar a sua confiança e a sua afeição? Jorge não compreendia. e pensava: «Faria uma excelente diplomata.»

Madalena chegava- frequentemente tarde a casa à hora das refeições, ofegante, corada, fremente, e antes até de tirar o véu dizia:

- Tenho um petisco. hoje. Imagina que o ministro da Justiça acaba de nomear dois magistrados que fizeram parte das comissões mistas. Vamos aplicar-lhe uma tunda de que há-de lembrar-se por muito tempo.

Davam a tunda ao ministro e aplicavam-lhe outra no dia seguinte e uma terceira depois. O deputado Laroche-Mathieu, que jantava todas as terças-feiras, na Rua Fontaine, a seguir ao conde de Vaudrec, que começava a semana, apertava vigorosamente as mãos da mulher e do marido, com excessivas demonstrações de alegria, e não cessava de repetir:

- Santo Deus! Que campanha. Se não conseguíssemos nada depois disto?

Esperava obter, com efeito, a pasta dos Negócios Estrangeiros, que almejava havia muito tempo. Era um destes políticos de duas caras, sem convicções, sem capacidade, sem audácia e sem relações sérias. Advogado da província, bonito homem de capital de departamento, mantinha um equilíbrio de espertalhão entre os partidos extremistas. Era uma espécie de jesuíta republicano e de cogumelo liberal de natureza duvidosa,

*1. Cargo de perfeito, correspondente ao de qualquer .n d Governador civil. (N. do T.

como medram tantos sobre a estrumeira popular do sufrágio universal.

O seu maquiavelismo de campanário fazia-o passar por uma força entre os seus colegas, entre todos os desclassificados e os abortos de que são feitos os deputados. Era bastante bem-posto, assaz correcto e suficientemente amável para triunfar. Tinha êxitos na sociedade, mas na sociedade misturada, turva e pouco fina, dos altos funcionários da situação. Por toda a parte, diziam dele: «Laroche será ministro» e pensava, também, mais firmemente do que todos os outros, que Laroche seria ministro.

Era um dos principais accionistas do jornal do velho Walter, seu colega e associado em muitas questões financeiras. Du Roy apoiava-o confiadamente e com umas esperanças confusas, para mais tarde. Nada mais fazia, aliás, do que prosseguir na obra começada por Forestier, a quem Laroche-Mathieu prometera a cruz(1) quando chegasse o dia do triunfo. A condecoração iria, simplesmente, para a lapela do novo marido de Madalena. Não havia nada mudado, em suma.

Sentia-se de tal maneira nada haver mudado que os colegas de Du Roy lhe faziam uma partida com a qual começava a irritar-se. Mal chegava ao jornal, um deles gritava-lhe:

- Então, que há, Forestier?

Jorge fingia não ouvir e ia buscar a correspondência ao seu cacifo. A voz repetia, com mais força:

- Então, Forestier?

Ouviam-se alguns risos abafados. Certa vez, quando Du Roy se dirigia para o gabinete do director, o que o chamava deteve-o:

- Desculpa; estou a falar contigo. É uma estupidez; mas confundo-te sempre com o pobre Carlos. Isso provém de os teus artigos se parecerem tanto com os dele. Todos fazem a mesma confusão.

Duroy não respondeu, mas enraivecia-se. Uma cólera surda crescia nele contra o morto. O próprio Walter dissera, quando alguém manifestou estranheza com as semelhanças flagrantes, na maneira e na inspiração, das crónicas do novo redactor político e nas do antigo:

*1. O grau de cavaleiro da Legião de Honra. (N. do T.)

- Sim, é o estilo de Forestier, mas dum Forestier mais sólido, mais nervoso, mais viril.

Uma outra vez, Du Roy, ao abrir, por acaso, o armário onde estavam os bilboqués, encontrara os do seu predecessor com um crepe em volta do cabo. Aquele de que se servia, ao exercitar-se sob a direcção de Saint-Potin, estava ornado com um laço de fita cor-de-rosa. Tinham sido alinhados todos na mesma prateleira, por tamanhos, e um dístico semeLhante ao dos museus mostrava escrito o seguinte: «Antiga colecção Forestier e Co., Forestier Du Roy, sucessor, diplomado pela S. G. D. G. Artigos resistentes que podem servir em todas as circunstâncias, até em viagem.»

Jorge fechou o armário, calmamente, e proferiu bastante alto para ser ouvido:

- Há imbecis e invejosos por toda a parte.

Ficara, porém, ferido no seu orgulho, ferido na sua vaidade, essa vaidade e orgulho vingativos dos escritores, que produzem uma susceptibilidade nervosa, sempre alerta, tanto no repórter como no poeta genial. A palavra Forestier, feria-Lhe o ouvido. Tinha medo de a ouvir e sentia-se corar quando a pronunciavam. Esse nome era, para ele, uma troça mordaz, mais do que uma troça: um insulto. Significava: «É tua mulher quem faz a tarefa, como fazia a do outro. Não serias nada sem ela.» Admitia, perfeitamente, que Forestier não teria sido nada sem Madalena; mas, quanto a ele, era outra coisa!

Depois, quando voltava para casa, a preocupação continuava. Era, então, a casa inteira que lhe lembrava o morto, todo o mobiliário, todas as bugigangas, tudo em que tocava. Não pensara nada disso, nos primeiros tempos; mas a insistência dos colegas causara-lhe no espírito uma espécie de ferida que uma porção de insignificâncias, que passavam despercebidas até então, envenenavam agora. Não podia, daí por diante, pegar num objecto sem ver a mão de Carlos colocada nele. Não via nem manejava coisas que não tivessem, outrora, sido adquiridas, amadas e possuídas pelo outro.

Jorge começava a irritar-se só com o pensamento das relações antigas entre o amigo e sua mulher. Surpreendia-se, por vezes, com essa revolta do seu íntimo, que não compreendia de maneira nenhuma, e perguntava a si próprio: «Como diabo pode ser isto?

Não tenho ciúmes dos amigos da Madalena. Nunca me inquieto com o que ela faz. Ela entra e sai quando lhe apetece. Só a recordação desse bruto do Carlos me enraivece!» Acrescentava mentalmente: «No fundo, era um simples cretino; é sem dúvida isso que me fere. Irrita-me que Madalena tivesse podido casar com um parvo daqueles.» Sem cessar repetia: «Como é possível que uma mulher daquelas tenha suportado, um só instante, semelhante animal?»

O seu rancor aumentava, todos os dias, com mil pormenores insignificantes, que, como picadas de agulha, Lhe lembravam, incessantemente, o outro. Bastava uma palavra de Madalena, do criado ou da criada.

Uma noite, Du Roy, que gostava das coisas doces, perguntou:

- Por que não temos sobremesa? Não fazes servir nunca doce.

- É verdade, nunca penso nisso; é consequência de Carlos detestar os doces... - retorquiu a mulher a rir.

Jorge interrompeu-a com um movimento de impaciência que não pôde dominar:

- Ah! Fica a saber que Carlos começa a aborrecer-me. É sempre: Carlos para aqui; Carlos para ali; Carlos gostava disto; Carlos gostava daquilo. Visto Carlos já lá estar, é melhor deixá-lo tranquilo.

Madalena olhou para o marido com surpresa, sem compreender nada daquela cólera súbita. Depois, como era arguta, descobriu o que se passaria nele: o trabalho lento do ciúme póstumo, a aumentar a cada momento com tudo que recordava o outro. Pareceu-lhe isso pueril, talvez, mas sentiu-se lisonjeada e não retorquiu. O marido ficou contrariado com aquela irritação que não pudera ocultar. Ora, naquela noite, depois do jantar, tinham de fazer um artigo para o dia seguinte; Jorge tropeçou no agasalho dos pés e, como não o pudesse voltar, atirou-o para longe com um pontapé e perguntou a rir:

- Carlos estava sempre com frio nas patas?

- Oh! Vivia sempre com medo das constipações, não tinha o peito sólido - respondeu Madalena a rir.

- Deu aliás provas disso - replicou Jorge, com ferocidade, acrescentando com galantaria e beijando a mão da mulher: - Felizmente para mim.

Ao deitar-se, porém, sempre preocupado com o mesmo pensamento, Jorge perguntou ainda:

- Carlos usava também barrete de dormir, para evitar as correntes de ar nas orelhas?

- Não; era um lenço amarrado na testa - respondeu Madalena, que se prestou à brincadeira.

Jorge encolheu os ombros e proferiu, com um desprezo de homem superior:

- Que idiota!

A partir de então, Carlos passou a ser, para Jorge, motivo contínuo de debique. Falava dele a propósito de tudo, só o tratando por "esse pobre Carlos", com um ar de infinita comiseração. Quando voltava do jornal, onde o haviam chamado duas ou três vezes pelo nome de Forestier, vingava-se a crivar o morto de troças odiosas no fundo do seu túmulo. Lembrava os seus defeitos, os seus ridículos, as suas mesquinhices, enumerava-os complacentemente, desenvolvia-os e aumentava-os, como se quisesse combater no coração de sua mulher a influência dum rival detestado. Repetia:

- Diz lá, Mada, lembras-te do dia em que esse patarata de Forestier nos pretendeu provar que os homens gordos eram mais vigorosos do que os magros?

Depois, queria saber acerca do defunto uma quantidade de pormenores, íntimos e secretos, que a mulher, pouco à vontade, se recusava a dizer. O marido, porém, insistia, obstinava-se:

- Vamos, conta-me isso. Diz lá: ele devia ser muito bem apanhado nesses momentos?

- Vejamos: deixa-me tranquila - murmurava Madalena entre dentes.

- Não, diz lá! - continuava Jorge. - Não é verdade que ele deveria ser um pateta na cama, esse animal! - terminando sempre: - Que bruto que era!

Uma tarde, no fim de Junho, quando fumava um cigarro à janela, o grande calor deu-Lhe vontade de ir dar um passeio, e Jorge pediu:

- Minha Madazinha, queres vir dar uma volta ao Bosque?

- Sim, certamente. 1. Tomaram um fiacre aberto, foram pelos Campos Elísios,

depois pela Avenida do Bosque de Bolonha. Era uma noite

sem uma aragem, uma destas noites de estufa em que o ar

de Paris, sobreaquecido, entra no peito como um vapor de fornalha. Um exército de fiacres levava para debaixo das árvores uma multidão de enamorados. Os carros caminhavam uns atrás dos outros, sem cessar.

Jorge e Madalena divertiam-se a contemplar todos aqueles pares enlaçados que passavam nas carruagens: as mulheres de vestidos claros e os homens de escuro. Era um imenso rio de amantes que corria para o Bosque, sob o céu estrelado e ardente. Não se ouvia outro ruído além do pesado barulho das rodas no chão. Os carros passavam, passavam, com os dois seres de cada fiacre estendidos nos coxins, calados, apertados um contra o outro, perdidos na alucinação do desejo, frementes na expectativa do amplexo próximo.

A sombra cálida parecia impregnada de beijos. Uma sensação de voluptuosidade flutuante, de enlaces bestiais dispersos, enchia o ar e tornava-o ainda mais sufocante. Toda aquela gente acasalada, embriagada pelo mesmo pensamento, pelo mesmo ardor, fazia correr um sopro de febre à sua volta. Todos aqueles carros carregados de volúpia, por cima dos quais parecia pairarem carícias, lançavam à sua passagem uma espécie de bafo sensual, subtil e perturbante.

Jorge e Madalena sentiram-se também invadidos pelo contágio da ternura. Deram-se, docemente, as mãos, sem dizer palavra, um tanto opressos pela atmosfera pesada e pela comoção que os invadia. Quando chegaram à volta, a seguir às fortificações, beijaram-se, e ela balbuciou, um tanto confusa:

- Somos tão crianças como quando fomos a Ruão.

A grande torrente dos carros separara-se à entrada das alamedas. No caminho dos Lagos, por onde seguia a gente nova, os fiacres espaçavam-se um tanto, mas a escuridão espessa do arvoredo, o ar vivificado pela folhagem e pela humidade dos regatozinhos que se ouviam correr debaixo dos ramos, uma espécie de frescura vinda do largo espaço nocturno todo constelado de astros, davam aos beijos dos pares que rodavam um encanto mais penetrante e uma sombra mais misteriosa. Jorge murmurou, apertando-a contra si:

- Oh! Minha Madazinha!

- Lembras-te - disse-Lhe ela - da floresta da tua terra, como era sinistra. Pareceu-me estar cheia de animais terríveis e nunca mais acabar, enquanto aqui tudo é encantador.

Sentimos a carícia do vento e sei muito bem que Sèvres fica do outro lado do bosque.

- Oh! - retorquiu Jorge. - Na floresta da minha terra, nada mais havia do que veados, raposas, cabritos-monteses e javalis e, de longe em longe, uma casa de guarda-florestal(1).

Com essa palavra, o nome do morto saiu-lhe da boca, surpreendeu-o como se alguém o tivesse gritado do fundo duma moita, e Jorge calou-se subitamente, retomado por essa doença estranha e teimosa, por essa irritação ciumenta, mordente, invencível, que lhe estragava a vida havia algum tempo. Passado um minuto, perguntou:

- Vieste aqui algumas vezes à noite, assim, com o Carlos?

- Sim, frequentemente - respondeu Madalena.

De súbito, Jorge teve vontade de voltar para casa, uma vontade nervosa que lhe apertava o coração. A imagem de Forestier entrara-lhe, porém, no íntimo, possuía-o, estrangulava-o. Só podia pensar nele, falar dele. Perguntou com uma entoação malévola:

- Diz lá, Mada!

- Dizer o quê, meu amigo?

- Enganaste esse pobre Carlos?

Madalena murmurou, desdenhosa:

- Como te tornas aborrecido com essa seca.

O marido, porém, não abandonava a sua ideia:

- Vejamos, minha Madazinha, sê franca, confessa-o. Enganaste-o, diz? Confessa que o enganaste?

A mulher calou-se, chocada, como todas, quando lhes falam dessas coisas; mas Jorge insistiu, com obstinação:

- Apre! Se havia alguém com cara disso, era sem dúvida ele. Ah! Sim, sem dúvida! Gostaria muito de saber se Forestier o era. Hem? Que boa cachola tinha para isso!

Pareceu-Lhe que a mulher sorria, talvez a lembrar-se de qualquer coisa, e insistiu:

- Vamos! Diz lá. Que tem isso? Seria até muito engraçado, pelo contrário, contares-me, confessares que o tinhas enganado, confessares-mo a mim.

Estava ansioso, com efeito, com a esperança e a vontade de Carlos, o odioso Carlos, o morto detestado, o morto execrado, ter sido alvo desse vergonhoso ridículo. No entanto...

*1. No original: Fôrestier.

no entanto, outra ansiedade, mais confusa, aguilhoava o seu desejo de saber. Repetiu:

- Mada, minha Madazinha, peço-te que mo digas. Ele bem o mereceu. Terias feito muito mal se não lhos tivesses posto. Vamos, Mada, confessa!

Madalena achava, então, sem dúvida, engraçada aquela insistência, pois ria, com uns risinhos secos, intermitentes. Jorge colocara os lábios muito próximo do ouvido de sua mulher e murmurava:

- Vamos... vamos... confessa-o.

Madalena afastou-se com um movimento brusco e declarou secamente:

- Pareces estúpido. Alguém responde a perguntas dessas?

Dissera isso num tom tão estranho que um arrepio de frio passou pelas veias do marido. Jorge ficou interdito, desorientado, um tanto sufocado, como se tivesse recebido um grande abalo moral.

O fiacre, nessa altura, dava a volta ao lago, onde o céu parecia ter semeado as suas estrelas. Dois cisnes, vagos, nadavam muito lentamente e eram apenas visíveis na sombra. Jorge gritou ao cocheiro:

- Regressemos!

O carro deu a volta, cruzou-se com os outros que iam a passo e cujas grandes lanternas brilhavam como olhos na noite do bosque.

Como ela dissera aquilo de maneira tão estranha! Du Roy perguntava a si próprio: «Seria uma confissão?» Aquela quase certeza de que a mulher enganara o primeiro marido enchia-o de cólera naquele momento. Tinha vontade de lhe bater, de a estrangular, de lhe puxar pelo cabelo! Oh! Se ela tivesse respondido: «Mas, querido, se tivesse de o enganar seria contigo que o faria.» Ah! Como a teria beijado, abraçado, adorado!

Jorge mantinha-se imóvel, de braços cruzados, a olhar para o céu, com o espírito demasiado agitado ainda para poder reflectir. Sentia somente fermentar nele aquele rancor e aumentar a cólera que chocam no coração todos os machos ante os caprichos do desejo feminino. Sentia, pela primeira vez, a angústia confusa do marido que suspeita. Estava, finalmente, ciumento, ciumento pelo morto, ciumento por conta de Forestier!

Ciumento duma estranha e pungente maneira em que entrava, subitamente, o ódio contra Madalena. Desde que enganara o outro, como poderia ele ter confiança nela?

Aos poucos, uma espécie de calma desceu no seu espírito. Numa reacção contra o sofrimento, pensou: «Todas as mulheres são pegas; o que é preciso é servirmo-nos delas e não Lhes dar nada de nós próprios.» A amargura do seu coração subia-Lhe aos lábios em palavras de nojo e desprezo; mas não as deixava sair e repetia para si: «O mundo é dos fortes. É preciso ser forte. E preciso estar acima de tudo.»

O carro rodava mais depressa e ultrapassou as fortificações. Du Roy via, na sua frente, um clarão avermelhado no céu, semelhante ao duma forja desmesurada. Ouvia um ruído confuso, imenso, contínuo, feito de rumores inumeráveis e diferentes, um barulho surdo, próximo e longínquo, uma vaga e enorme palpitação de vida, o sopro de Paris a respirar, naquela noite de Estio, como um colosso esgotado de fadiga. Jorge pensava: «Seria muito estúpido se me inquietasse. Cada um por si. A vitória é dos audaciosos. Tudo é simplesmente egoísmo e o egoísmo pela ambição e a fortuna vale mais do que o egoísmo pela mulher e pelo amor.»

O Arco do Triunfo da Étoile surgia, erguido à entrada da cidade, assente nas suas pernas monstruosas, espécie de gigante informe que parecia prestes a pôr-se a caminho para descer a larga avenida aberta na sua frente. Jorge e Madalena encontravam-se ali, naquele desfile de carros que reconduziam a casa, ao leito apetecido, o par eterno, silencioso e enlaçado. Parecia-lhe que a humanidade deslizava ao lado deles, embriagada de alegria, de prazer, de felicidade. A mulher, que pressentia qualquer coisa do que se passava no marido, perguntou com a sua voz doce:

- Em que pensas, meu amigo? Há meia hora que não pronuncias uma palavra.

Jorge retorquiu, trocista:

- Penso em todos esses imbecis que se beijam e digo para mim que, na verdade, há outras coisas a fazer na existência.

- Sim... mas é bom algumas vezes... - murmurou Madalena.

- É bom... é bom... quando não se tem mais nada que fazer!

O pensamento de Jorge continuava a despir a vida do seu manto de fantasia com uma espécie de raiva:

«Serei muito parvo se estiver com cerimónias, se me privar seja do que for, se me preocupar, se me amargurar e andar a moer por dentro, como faço há algum tempo para cá.» A imagem de Forestier atravessou-lhe o espírito, sem lhe causar nenhuma irritação. Parecia-lhe até que acabavam de se reconciliar, que voltavam a ser amigos. Tinha até vontade de lhe gritar: «Boa noite, meu velho!»

Madalena, a quem aquele silêncio incomodava, perguntou:

- Se fôssemos tomar um refresco ao Tortoni(1), antes de voltar para casa?

Jorge olhou para ela de lado. O seu perfil de loira surgiu sob a claridade viva da grinalda de bicos de gás que servia de reclamo ao café-cantante. Pensou: «É bonita. Pois, tanto melhor. Para bom rato, bom gato. Se me apanharem porém, a atormentar-me por tua causa, será quando fizer calor no pólo Norte.» Depois, respondeu: - Claro que vamos, minha querida. - Para ela nada adivinhar dos seus pensamentos, beijou-a. Pareceu à mulher que os lábios do marido estavam gelados. Jorge sorria, porém, com o seu sorriso habitual ao dar-Lhe a mão para descer, à porta do café.

*1. Grande café do bulear, célebre na época. (N. do T.)