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Bel Ami.  Guy de Maupassant
Capítulo 11.
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Ao entrar no jornal, no dia seguinte, Du Roy foi ter com Boisrenard e disse-lhe:

- Meu caro amigo, tenho um favor a pedir-te. Acham graça, há uns tempos para cá, em chamar-me Forestier. Por mim, começo a achar isso estúpido. Queres ter a bondade de prevenir, calmamente, os camaradas, de que esbofetearei o primeiro que se permitir de novo fazer essa gracinha. A eles cabe reflectir se a brincadeira merece uma estocada. Dirijo-me a ti por seres uma pessoa calma, que pode impedir chegar a extremidades aborrecidas, e também porque serviste de testemunha no meu caso.

Boisrenard aceitou a incumbência, e Du Roy saiu, para dar umas voltas. Quando voltou, uma hora mais tarde, ninguém lhe chamou Forestier.

Ao chegar a casa, ouviu vozes de mulher na sala. Perguntou quem era e o criado respondeu:

- A senhora Walter e a senhora de Marelle.

Uma pancadinha agitou-lhe o coração e depois disse para si: «Olá! Vejamos», e abriu a porta.

Clotilde estava sentada junto do fogão, sob um raio de claridade vindo da janela. Pareceu a Jorge que ela empalidecera um tanto ao vê-lo. Depois de ter, primeiramente, cumprimentado a senhora Walter e suas duas filhas, sentadas como duas sentinelas ao lado da mãe, voltou-se para a sua antiga amante, que lhe estendeu a mão. Jorge apertou-lha com intenção, como para dizer: «Gosto sempre de si.» Clotilde correspondeu a essa pressão. Jorge perguntou-lhe:

- Tem passado bem, desde há séculos que não nos vemos?

- Sim, e o Bel-Ami? - retorquiu, muito à vontade, Clotilde, que se voltou para Madalena e acrescentou: - Permites que continue a chamar-lhe Bel-Ami?

- Certamente, minha cara, permito tudo que quiseres - respondeu Madalena, e um tom de ironia parecia oculto na sua frase.

A senhora Walter falava de uma festa que Jaime Rival ia dar nos seus aposentos de solteirão, um grande assalto de esgrima a que assistiriam as senhoras da sociedade, e concluiu:

- Deve ser muito interessante; mas estou desolada, pois não temos ninguém para nos acompanhar lá, visto meu marido estar ausente nessa altura.

Du Roy ofereceu-se imediatamente e a senhora Walter aceitou:

- Ficar-lhe-emos muito gratas, as minhas filhas e eu.

Jorge olhou para a mais nova das meninas Walters e pensou: «Não é nada má, esta Susaninha, mas mesmo nada.» A jovem tinha o ar de uma frágil boneca loira, pequenina, mas fina, com uma cintura delicada, quadris e peito; uma figurinha de miniatura, com olhos de esmalte, de um azul-cinzento, desenhados a pincel, que pareciam sombreados por um pintor minucioso e fantasista; uma pele muito branca, muito lisa, polida, toda igual, sem pontos, sem colorido; cabelo solto, frisado, numa desordem estudada, leve, uma nuvem encantadora, muito parecida, com efeito, à cabeleira das bonitas bonecas de luxo que vemos passar nos braços de garotas pouco maiores do que elas.

A irmã mais velha, Rosa, era feia, deslavada, insignificante, uma destas raparigas em quem não se repara, a quem não se fala e das quais ninguém diz nada.

A mãe levantou-se e voltou-se para Jorge:

- Portanto, conto consigo, na próxima quinta-feira, às duas horas.

- Conte comigo minha senhora - retorquiu Du Roy.

Logo que a senhora Walter partiu, Clotilde levantou-se por seu turno e despediu-se:

- Até à vista, Bel-Ami.

Foi ela, por sua vez, quem lhe apertou a mão com força e demoradamente. Jorge sentiu-se perturbado com essa confissão silenciosa e novamente preso de um fraco por aquela burguesinha boémia e boa rapariga que, talvez, gostasse dele a valer. Pensou: «Irei vê-la, amanhã.» Desde que o casal ficou só, Madalena pôs-se a rir, mas a rir com um riso franco e alegre, e disse-Lhe, fitando-o de frente:

- Sabes que inspiraste uma paixão à senhora Walter?

- Essa agora! - retorquiu Jorge, incrédulo.

- Mas sim, garanto-to. Falou de ti com um entusiasmo louco.

Isso é muito extraordinário da sua parte! Desejaria encontrar dois maridos como tu para as filhas!... Felizmente que, com ela, essas coisas são sem consequências...

Jorge não compreendeu o que a mulher queria dizer:

- Como sem consequências?

Madalena respondeu, com uma convicção de mulher que sabe o que está a dizer:

- Oh! A senhora Walter é uma pessoa de quem ninguém jamais teve nada a dizer, mas, fica sabendo: nada, nada. É inatacável sob todos os aspectos. O marido conhece-lo tão bem como eu; mas ela é outra coisa. Tem aliás sofrido bastante por ter casado com um judeu, mas mantém-se-lhe fiel. É uma mulher honesta.

- Julgava-a também judia - retorquiu Du Roy surpreendido.

- Ela? De maneira nenhuma. É benfeitora de todas as instituições de caridade da Madalena(1). Até se casou religiosamente. Não sei ao certo se houve um simulacro de baptismo do teu patrão ou se a Igreja fechou os olhos.

- Ah!... então... ela... cobiça-me?... - murmurou Jorge.

- Positiva e completamente. Se não estivesses comprometido, aconselhar-te-ia a pedir a mão de... Susana; não é verdade, antes do que a de Rosa?

Jorge retorquiu, frisando o bigode:

- Ah! A mãe ainda não é peste nenhuma.

Madalena impacientou-se:

- Sabes, meu menino, quanto à mãe, oxalá; mas não tenho receios. Não é na sua idade que se comete a primeira falta. É preciso começar mais cedo.

Jorge pensava: «Se fosse verdade, no entanto, que pudesse casar com Susana...» Depois, encolheu os ombros: «Ora! Que disparate!... Porventura o pai aceitar-me-ia?» Prometeu, contudo, a si próprio, observar com a maior atenção as maneiras da senhora Walter a seu respeito, sem pensar, aliás, se poderia jamais tirar qualquer vantagem disso.

Toda a noite esteve dominado pela lembrança dos seus amores com Clotilde, recordações ao mesmo tempo ternas e sensuais. Lembrava-se de brincadeiras dela, das suas gentilezas e escapadas.

*1. A igreja paroquial da Madalena, em Paris.

Repetia a si próprio: «É, na verdade, muito gentil. Sim, irei procurá-la amanhã.»

Mal almoçou, no dia seguinte, dirigiu-se com efeito à Rua de Verneuil. A mesma criada abriu-lhe a porta e, familiar, à maneira dos serviçais da pequena burguesia, perguntou:

- O senhor tem passado bem?

- Tenho passado bem, sim, minha filha - respondeu Jorge.

Entrou para a sala onde umas mãos inexperientes faziam escalas ao piano. Era a Laurinha. Pareceu-lhe que ela Lhe ia saltar ao pescoço; mas a pequena levantou-se gravemente, cumprimentou-o com cerimónia, como o faria uma pessoa crescida, e retirou-se de uma maneira digna.

A jovem tinha uma tal atitude de mulher ultrajada que Jorge ficou surpreendido. A mãe entrou e Jorge pegou-lhe nas mãos, que beijou, dizendo-Lhe:

- Como tenho pensado em si!

- E eu? - retorquiu Clotilde.

Sentaram-se, sorriram um para o outro, com os olhos e um grande desejo de se beijarem na boca.

- Minha querida Clo, gosto de si.

- E eu também.

- Então... então... não ficaste muito zangada comigo?

- Sim e não... Fez-me muita pena, mas depois compreendi a razão e pensei: «Olá! Voltará para mim, um dia ou outro.»

- Não ousava voltar. Perguntava a mim próprio como seria recebido. Não ousava, mas tinha uma grande vontade de o fazer. A propósito, diz-me cá: que tem a Laurinha? Mal me deu os bons-dias, partiu, com ar furioso.

- Não sei; mas não se lhe pode falar em ti, desde o teu casamento. Parece que tem, realmente, ciúmes.

- Essa agora!

- É o que te digo, meu caro. Nunca mais te tratou por Bel-Ami, mas sim por senhor Forestier...

Du Roy corou; depois aproximou-se de Clotilde e pediu:

- Dá-me a tua boca.

Clotilde deu-lha; Jorge perguntou:

- Onde poderemos voltar a ver-nos?

- Mas... na Rua de Constantinopla.

- Ah!... O apartamento não está alugado?

- Não... Conservei-o!

- Conservaste-lo?

- Sim; pensei que voltarias lá.

Uma lufada de alegria orgulhosa encheu o peito de Jorge. Clotilde gostava, portanto, dele, com um amor verdadeiro, constante, profundo. Murmurou:

- Adoro-te! - Depois perguntou: - O teu marido passa bem?

- Sim, muito bem. Acaba de estar um mês cá; partiu antes de ontem.

Du Roy não se pôde impedir de rir:

- Isso calha bem!

- Oh! sim, calha bem - retorquiu Clotilde com ingenuidade. - Bem sabes, porém, que ele não incomoda nada quando cá está, apesar de tudo. Não é?

- Isso é verdade. É, aliás, uma excelente pessoa.

- E tu, como encaras a tua nova vida?

- Nem bem, nem mal. Minha mulher é uma camarada, uma sócia.

- Nada mais?

- Nada mais... Quanto ao coração...

- Bem te compreendo. No entanto, ela é gentil.

- Sim, não me perturba.

Aproximou-se de Clotilde e murmurou:

- Quando nos encontraremos?

- Mas... amanhã... se queres...

- Sim; amanhã às duas horas?

- Às duas horas.

Jorge levantou-se para se despedir e proferiu, pouco à vontade:

- Sabes, entendo que deve ficar só por minha conta o apartamento da Rua de Constantinopla. Assim o quero. Não faltava mais nada que fosses tu a pagá-lo.

Foi ela quem lhe beijou as mãos, num gesto de adoração, murmurando:

- Farás como quiseres. Basta-me tê-lo conservado para nos voltarmos a encontrar.

Du Roy partiu com a alma a transbordar de satisfação. Ao passar em frente da vitrina de um fotógrafo viu o retrato de uma mulher forte de grandes olhos, que Lhe lembrou a senhora Walter. Pensou: «Ainda não é nada má. Como foi que não dei nunca por isso? Estou inquieto por ver a cara que me mostrará quinta-feira.»

Enquanto caminhava esfregava as mãos com uma alegria íntima, a alegria do triunfo sob todos os aspectos, a alegria egoísta do homem hábil que vence, a alegria subtil, feita de vaidade lisonjeada e de sensualidade contente, que dá a ternura das mulheres.

Quando chegou a quinta-feira, Jorge perguntou a Madalena:

- Não vens a esse assalto em casa de Rival?

- Oh Não. Isso, a mim, não me diverte nada; irei à Câmara dos Deputados.

Du Roy foi buscar a senhora Walter numa carruagem descoberta, pois estava um tempo admirável. Teve uma surpresa ao vê-la, tanto a achou jovem e bonita. Tinha um vestido claro, cujo corpo, um tanto aberto, deixava adivinhar, sob uma renda creme, o começo dos seios opulentos. Nunca a vira tão fresca e pareceu-lhe verdadeiramente apetitosa.

A senhora Walter tinha o seu aspecto calmo de pessoa bem e um certo ar de mãe de família que a fazia passar quase despercebida aos olhos galanteadores dos homens. Só falava, aliás, para dizer coisas sabidas, convenientes e moderadas, e as suas ideias eram prudentes, metódicas, bem ordenadas, ao abrigo de todos os excessos.

A sua filha Susana, toda vestida de cor-de-rosa, parecia um Watteau envernizado de fresco; a irmã mais velha dir-se-ia ser a professora encarregada de acompanhar aquela bonita jóia de menina.

Em frente da porta de Rival estava alinhada uma fila de carros. Du Roy deu o braço à senhora Walter e entraram.

O assalto era dado em benefício dos órfãos do sexto bairro de Paris, sob o patrocínio de todas as esposas de senadores e deputados que tinham relações com a Vie Française.

A senhora Walter prometera ir com suas filhas, mas recusara fazer parte da comissão de honra, pois só dava o seu nome às obras de caridade promovidas pelo clero, não por ser muito devota mas por o seu casamento com um israelita a obrigar, segundo supunha, a mostrar uma certa atitude de pessoa devota. Ora, a festa organizada pelo jornalista tomava um aspecto de manifestação republicana, que poderia parecer anticlerical.

Nos jornais, de todas as cores, podia ler-se havia três semanas:

«O nosso eminente confrade Jaime Rival acaba de ter a ideia, tão original como generosa, de organizar, a benefício dos órfãos do sexto bairro de Paris, um grande assalto na sua bela sala de esgrima, contígua aos seus aposentos de solteirão. Os convites são feitos pelas senhoras Laloigne, Remontel, Rissolin, esposas dos senadores dos mesmos apelidos, e senhoras Laroche-Mathieu, Percerol, Firmin, esposas dos conhecidos deputados. Um simples peditório será feito, durante o intervalo do assalto, e a totalidade será imediatamente entregue ao maire do sexto bairro ou ao seu representante.»

Fora um reclamo monstro que o esperto jornalista imaginara a seu favor. Jaime Rival recebia os convidados à entrada dos seus aposentos, onde fora instalado um bufete, cujas despesas deveriam ser descontadas nas receitas. Depois indicava, com um gesto amável, a escadinha por onde se descia para a cave, na qual instalara a sala de esgrima e de tiro, e dizia:

- Para baixo, minhas senhoras, para baixo. O assalto realiza-se nos aposentos subterrâneos.

Precipitou-se para cumprimentar a esposa do seu director e, depois, apertou a mão de Du Roy:

- Bom dia, Bel-Ami.

- Quem Lhe disse que?... - proferiu o outro, surpreendido.

- A senhora Walter, aqui presente, que acha esse apelido muito feliz - atalhou Rival.

- Sim, confesso que se o conhecesse mais - disse a senhora Walter, corando - faria como a pequenita Laurinha e chamar-lhe-ia, também, Bel-Ami. O nome vai-lhe muito bem.

- Mas, minha senhora - proferiu Du Roy a rir -, faça-o, peço-lhe.

- Não - disse a senhora Walter, que baixara os olhos. Não somos bastante íntimos para isso.

- Permite-me - murmurou Jorge - esperar que venhamos a sê-lo?

- Está bem; então veremos- respondeu-lhe.

Du Roy deu-lhe a passagem à entrada da escada estreita, iluminada por um bico de gás. A brusca transição da luz do dia para aquela claridade amarelenta tinha qualquer coisa de lúgubre. Um cheiro de subterrâneo subia daquela escada de caracol, um bafo de humidade aquecida, de paredes bolorentas

limpas para aquela circunstância, e também baforadas de benjoim, que lembravam as cerimónias religiosas, e de emanações femininas de Lubin, de lúcia-lima, de lírio e de violeta.

Ouvia-se, por esse buraco, um grande barulho de vozes, um frémito de multidão agitada. Toda a cave estava iluminada com grinaldas de bicos de gás e balões venezianos, ocultos entre a folhagem que revestia as paredes salitrosas. Só se viam ramos. O tecto estava decorado com fetos e o solo coberto de folhas e flores.

Achavam isso encantador e de uma deliciosa originalidade. Num compartimento ao fundo via-se um estrado para os esgrimistas, entre duas fiadas de cadeiras para o júri. Por toda a cave havia bancadas, alinhadas por dez, tanto à direita como à esquerda, que poderiam conter cerca de duzentas pessoas. Tinham sido convidadas quatrocentas.

Diante do estrado, alguns rapazes com o fato de esgrima, delgados, braços e pernas compridos, cintura fina, bigode retorcido, exibiam-se já aos espectadores. Citavam-lhes os nomes, apontavam quais eram os mestres e os amadores, todos notabilidades da esgrima. À volta deles, conversavam cavaLheiros de sobrecasaca, novos e velhos, em atitudes familiares como os jogadores preparados para os assaltos. Procuravam, também, ser vistos, reconhecidos e nomeados, pois eram príncipes da espada, à paisana, e peritos em estocadas com botão.

Quase todas as bancadas estavam repletas de senhoras, que faziam um grande rumor de tecidos agitados e um murmúrio de vozes. Abanavam-se como no teatro, pois fazia um calor de estufa naquela gruta folhuda. Um trocista gritava, de tempos a tempos: «Refrescos! Limonada! Cerveja!»

A senhora Walter e as filhas dirigiram-se para os seus lugares reservados na primeira fila. Du Roy, assim que as viu instaladas, dispôs-se a partir e murmurou:

- Sou obrigado a deixá-las, pois os homens não podem ocupar lugares nas bancadas.

A senhora Walter retorquiu, porém, hesitante:

- Tenho uma grande vontade de o conservar junto de mim. Dir-me-á os nomes dos assaltantes. Olhe, se ficar de pé na extremidade deste banco, não incomodará ninguém. - Fitou-o com os seus grandes olhos doces e insistiu: - Vamos, fique connosco... senhor... senhor Bel-Ami. Precisamos de si.

- Obedecerei... com muito prazer, minha senhora - retorquiu Jorge.

Repetiam de todos os lados: «É muito engraçada esta cave, é muito simpática.» Jorge conhecia-a bem, àquela quadra abobadada! Lembrava-se da manhã que lá tinha passado, na véspera do seu duelo, sozinho, em face de um cartãozinho branco que o fitava do fundo do segundo compartimento com um olho enorme e temível. A voz de Jaime Rival ressoou, vinda do alto da escada:

- Vamos começar, minhas senhoras.

Seis cavalheiros, muito apertados nos seus fatos, a fim de pôr bem em evidência o tórax, subiram para o estrado e sentaram-se nas cadeiras destinadas ao júri. Os seus nomes circularam: o general de Raynaldi, presidente, um homenzinho de grandes bigodes; o pintor Roudet, um homem calvo, de grande barba; Mateus de Ujar, Simão Ramoncel e Pedro de Carvin, três jovens elegantes, e Gaspar Merleron, um mestre-de-armas.

Foram pendurados dois letreiros ao fundo. O da direita tinha: O senhor Crèvecoeur; o da esquerda: O senhor Plumeau., Eram dois mestres-de-armas, dois bons mestres de segunda ordem. Apareceram, ambos magros, com um aspecto militar e gestos um tanto hirtos. Depois de fazerem a saudação com os seus ferros, em movimentos de autómatos, começaram o assalto, semelhantes, no seu fato de lona e anta branca, a dois pierrots militares que estivessem a bater-se por brincadeira.

De tempos a tempos ouvia-se a palavra: «Tocado!» Os seis cavalheiros do júri inclinavam a cabeça para a frente com um ar de entendidos. O público só via dois fantoches vivos, que se agitavam e estendiam os braços. Não compreendia nada, mas estava contente. Aqueles dois sujeitos pareciam-Lhe, no entanto, pouco graciosos e vagamente ridículos. Pensava nos bonecos de pau de lutadores, que se vendem nos bulevares, pelo Ano Novo.

Os dois primeiros assaltantes foram substituídos pelos senhores Planton e Carapim, um mestre-de-armas civil e um mestre militar. O senhor Planton era pequenino e o senhor Carapin muito gordo. Dir-se-ia que o primeiro bote de florete esvaziaria aquele balão como a um elefante de borracha. O público ria. O senhor Planton saltava como um macaco;

o senhor Carapin só mexia o braço, pois o resto do corpo encontrava-se imobilizado pela gordura. Caía a fundo cada cinco minutos, com um tal peso e um tal esforço para a frente que parecia tomar a mais enérgica resolução da sua vida. Tinha depois muita dificuldade em retomar a posição anterior. Os entendidos declararam que o seu jogo era muito firme e apertado, e o público, confiante, apreciou-o.

Vieram a seguir os Srs. Porion e Lapalme, um mestre-de-armas e um amador, que se entregaram a uma ginástica desenfreada, a correr um contra o outro numa fúria, forçando o júri a fugir e a afastar as cadeiras, atravessando e voltando a atravessar o estrado de uma extremidade à outra, um a avançar e o outro a recuar, com saltos vigorosos e cómicos. Davam uns saltinhos para trás que faziam rir as senhoras e grandes caídas a fundo que, no entanto, as impressionavam. Aquele assalto a passo ginástico foi definido por um trocista desconhecido que gritou: «Não se matem; é a fingir!» A assistência, escandalizada por essa falta de gosto, fez «Chüüüu!» O juízo dos peritos circulou: os assaltantes tinham demonstrado muito vigor e perdido por vezes algumas oportunidades.

A primeira parte terminou por um muito bonito passe de armas entre Jaime Rival e o famoso professor belga Lebêgue. Rival foi muito apreciado pelas senhoras. Era, realmente, um perfeito homem, bem constituído, flexível, ágil e mais elegante do que quantos o tinham precedido. Dava à sua maneira de se pôr em guarda ou de cair a fundo uma certa elegância mundana que agradava e contrastava com a atitude enérgica, mas vulgar, do seu adversário. Diziam: «Vê-se que é um homem bem-educado.» Obteve a vitória e aplaudiram-no.

Havia já alguns minutos que um ruído singular no andar de cima inquietava os espectadores. Era um grande arrastar de pés acompanhado de risos. Os duzentos convidados que não tinham lugar na cave divertiam-se sem dúvida doutra maneira. Na escadinha de caracol comprimia-se uma cinquentena de homens. O calor tornava-se terrível em baixo. Gritavam: «Ar! Refrescos!» O mesmo farsola soltava em tom agudo que dominava o murmúrio das conversas: «Laranjada! Limonada! Cerveja!»

Rival apareceu, muito vermelho, ainda com o seu fato de esgrima, e clamou:

- Vou mandar servir refrescos.

Correu para a escada, mas toda a comunicação estava interrompida entre a cave e o rés-do-chão. Era tão difícil furar o tecto como atravessar a muralha humana comprimida nos degraus. Rival gritou:

- Mandem vir os gelados para as senhoras!

Cinquenta vozes repetiram: «Os gelados!», e, por fim, apareceu uma bandeja; mas só trazia copos vazios, pois os refrescos tinham ficado pelo caminho. Uma voz rugiu:

- Sufoca-se aqui dentro! Acabemos com isto e vamo-nos embora!

Outra voz lançou:

- O peditório!

Todo o público, ofegante, mas apesar de tudo divertido, repetiu: «O peditório... o peditório... o peditório...» Então, seis senhoras começaram a circular entre as bancadas e ouviu-se um ruidozinho do dinheiro a cair nas bolsas.

Du Roy indicava os nomes dos homens célebres à senhora Walter. Eram figuras mundanas, jornalistas dos grandes jornais, dos velhos jornais que olhavam para a Vie FranÇaise com uma certa reserva, filha da sua experiência. Tinham visto morrer tantas dessas folhas político-financeiras, filhas de uma combinação suspeita e esmagadas pela queda de um ministério. Também se viam, na assistência, pintores e escultores, que são em geral desportivos, um académico poeta que apontavam a dedo, dois músicos e muitos nobres estrangeiros, cujos nomes Du Roy fazia seguir da sílaba Rast (o que significa Rastaquouère), para imitar os Ingleses, que põem Esq. nos seus bilhetes de visita(1). Alguém o cumprimentou: «Viva, caro amigo!» Era o conde de Vaudrec. Du Roy pediu desculpa às senhoras e foi apertar-lhe a mão. Ao regressar, declarou:

*1. Rastaquouère é o termo depreciativo que os franceses usam para designar o estrangeiro pretensioso que alardeia nobreza ou riqueza. A palavra deriva da espanhola rastacuero (arrasta coiro) e primitivamente aplicava-se aos mutilados dos membros inferiores que se arrastam com o assento e o que lhes resta de pernas revestido de sola. A abreviatura inglesa Esq. é a do termo Esquire (cavaleiro), dada por cortesia aos que não têm nenhum título nobiliárquico, tal como o Don em Espanha, mas que pretendem distinguir-se dos plebeus.

- É encantador, Vaudrec. Como sentimos nele a raça.

A senhora Walter não disse nada. Estava um tanto fatigada e o peito erguia-se-lhe com esforço a cada inspiração dos seus pulmões, o que atraía a atenção de Du Roy De tempos a tempos, encontrava o olhar da patroa, um olhar perturbado, hesitante, que pousava nele e fugia imediatamente. Jorge dizia para si: «Olha... olha... Também terei dado no goto a esta?»

As senhoras que faziam o peditório passaram. As suas bolsas estavam cheias de moedas de prata e oiro. Um novo cartaz foi afixado no estrado a anunciar: «Grande surpresa.» Os membros do júri voltaram para os seus lugares. Todos aguardavam.

Apareceram duas mulheres com o fato de sala de esgrima, com uma saia muito curta, que lhes chegava a meio das coxas, e um peitilho tão tufado que as obrigava a manter a cabeça levantada. Eram jovens e bonitas. Sorriam ao saudar a assistência. Foram aclamadas durante muito tempo. Colocaram-se em guarda no meio dum rumor galante e de graçolas ditas a meia voz.

Um sorriso amável fixara-se nos lábios dos juízes que aprovavam os botes com um quase imperceptível "bravo!" O público apreciava muito aquele assalto e testemunhava-o às duas combatentes, que acendiam desejos nos homens e despertavam, nas mulheres, o gosto natural pelas gentilezas um tanto marotas, pelas elegâncias do género fresco, pelo falso bonito e o falso gracioso, as cantoras de café-concerto e as coplas de opereta.

Todas as vezes que uma das assaltantes caía a fundo, um arrepio de alegria percorria o público. A que voltava as costas à assistência, umas costas bem fornidas, fazia abrir as bocas e arregalar os olhos - e não era no movimento do seu punho aquilo em que mais reparavam. Aplaudiram-nas com frenesim.

Seguiu-se um assalto de sabre, mas ninguém olhou para ele, pois todas as atenções foram atraídas pelo que se passava lá em cima. Havia alguns minutos que se ouvia um grande ruído de móveis arrastados pelo chão como se estivessem a fazer a mudança do apartamento. Depois, subitamente, o som dum piano atravessou o soalho e ouviu-se, nitidamente, o barulho ritmado de pés a arrastar com cadência.

As pessoas que estavam em cima tinham improvisado um baile para se indemnizarem de não terem visto nada dos assaltos.

Grandes gargalhadas soaram a princípio no público da sala de armas; mas o desejo de dançar despertou nas mulheres. Desinteressaram-se do que se passava no estrado e puseram-se a falar em voz alta. Achavam engraçada aquela ideia do baile organizado pelos retardatários. Aqueles, ao menos, divertiam-se; e de boa vontade estariam lá em cima.

Dois novos assaltantes, porém, saudaram-se e puseram-se em guarda com tanta autoridade que todos os olhares seguiam os seus movimentos. Caíam a fundo e recuavam com uma graça elástica, um vigor pautado, uma tal confiança na sua força, uma elegância de gestos, uma correcção de atitudes, uma maestria no jogo que a multidão ignorante ficou surpreendida e encantada.

A prontidão calma, a sapiente flexibilidade, os seus movimentos rápidos tão bem calculados que pareciam lentos, atraíam e captavam os olhos pela única força da perfeição. O público sentia estar a ver uma coisa bela e rara e que dois grandes artistas na sua profissão lhe mostravam o que era possível ver de melhor: tudo quanto podiam dois mestres-de-armas exibir em habilidade, astúcia, ciência calculada e aptidão física.

Ninguém falara mais, tanto estavam todos absorvidos a olhar para eles. Depois, quando se apertaram as mãos, após o último bote, soaram gritos e vivas. Todos gritavam e aplaudiam. Toda a gente sabia os seus nomes: eram Sergent e Ravignac.

Os espíritos exaltados discutiam. Os homens olhavam para os seus vizinhos com vontade de se travarem de razões. Ter-se-iam provocado por causa dum sorriso. Aqueles que nunca tinham empunhado um florete esboçavam com as bengalas estocadas e paradas.

Aos poucos, a multidão subiu a escadinha. Iam, finalmente, beber alguma coisa. Foi uma indignação geral quando verificaram que a gente do baile esvaziara o bufete e se fora embora depois de declarar ser desonesto incomodar duzentas pessoas para não lhes deixar ver nada. Não restava um bolo,

nem uma gota de champanhe, de xarope ou de cerveja, nem um bombom, um fruto, nada, absolutamente nada. Tinham saqueado, devorado, limpado tudo.

Pediram pormenores aos criados, que os davam com ar triste e uma grande vontade de rir:

- As senhoras estavam ainda mais raivosas do que os homens e tinham comido e bebido tanto a ponto de poderem ficar doentes...

Dir-se-ia estar a ouvir o relato dos sobreviventes duma pilhagem e do saque duma cidade durante uma invasão.

Tiveram de se ir embora. Os cavalheiros lamentavam os vinte francos dados no peditório e indignavam-se contra os de cima, que tinham comido e bebido sem pagar nada. As senhoras do peditório tinham recolhido mais de três mil francos. Ficavam, depois de pagas todas as despesas, duzentos e vinte francos para os órfãos do sexto bairro.

Du Roy escoltava a família Walter, à espera da sua carruagem. Ao acompanhar a casa a patroa, como estava sentado em frente dela, encontrou, mais uma vez, o seu olhar acariciante e fugidio, que parecia perturbado. Pensou: «Apre! Creio que está pelo beicinho.» Sorria ao reconhecer que tinha realmente sorte com as mulheres, pois a senhora de Marelle, depois de terem recomeçado a sua ligação, parecia gostar dele a valer.

Jorge entrou em sua casa com um ar alegre. Madalena, que o esperava na sala, disse-lhe:

- Tenho notícias frescas. O caso de Marrocos complica-se. É possível que a França tenha de enviar para lá uma expedição daqui a alguns meses. Em todo o caso, vamo-nos servir disso para deitar abaixo o Ministério e Laroche aproveitará a ocasião para apanhar os Negócios Estrangeiros.

Du Roy, para contrariar a mulher, fingiu não acreditar em nada disso. Não seriam assaz loucos para recomeçarem a tolice de Tunes. Madalena encolheu os ombros com impaciência:

- Digo-te que sim! É assim como digo! Não compreendes que se trata duma importante questão de dinheiro para eles? Hoje, meu caro, nas combinações políticas, não se deve dizer: «Procurem a mulher, mas Procurem o negócio!»

- Ora... - murmurou o marido, com um ar de desprezo, para a excitar.

- Olha: és tão parvo como Forestier! - exclamou Madalena, irritada.

Quisera feri-lo e esperava a reacção da sua cólera; mas o marido sorriu e retorquiu:

- Como esse coitadinho do Forestier.

- Oh! Jorge! - murmurou Madalena, estarrecida.

O marido, com um ar insolente e trocista, continuou:

- Então, que tem? Não me confessaste, outro dia, que enganaras Forestier? - acrescentou, com um tom de profunda comiseração: - Esse pobre diabo!

Madalena voltou-lhe as costas e não se dignou responder-lhe; mas após um minuto de silêncio, continuou:

- Temos convidados terça-feira: a senhora Laroche-Mathieu virá jantar com a viscondessa de Percemur. Queres convidar Rival e Norberto de Varenne? Irei amanhã a casa das senhoras Walter e de Marelle. Talvez tenhamos também a senhora Rissolin.

Havia algum tempo que Madalena aumentava as suas relações, empregando a influência política do marido, para atrair a sua casa, com vontade ou sem ela, as mulheres dos senadores e deputados que tinham necessidade do apoio da Vie Française.

- Muito bem. Encarrego-me de Rival e de Norberto - respondeu Jorge.

Esfregava as mãos de contente. Encontrara uma boa maneira para se impor à mulher e satisfazer o obscuro rancor, o confuso e mordente ciúme, surgidos depois da sua ida ao Bosque. Não voltaria a falar de Forestier sem o qualificar de coitadinho. Compreendia bem que isso acabaria por enraivecer Madalena. Dez vezes, durante o serão, encontrou maneira de proferir, com irónica bonomia, o nome desse coitadinho de Forestier. Já não odiava o morto - vingava-se desse modo. Sua mulher fingia não o ouvir e mantinha-se perante ele, sorridente e alheada.

No dia seguinte, Madalena devia ir fazer o convite à senhora Walter; mas Jorge quis antecipar-se, para se encontrar a sós com a patroa e ver se realmente ela estava embeiçada por ele. Isso divertia-o e lisonjeava-o: E então... porque não?... Se fosse possível...

Às duas horas apresentou-se no Bulevar Malesherbes. Fizeram-no entrar para a sala e esperou. A senhora Walter apareceu, pouco depois, com uma solicitude satisfeita:

- Que bom vento o traz?

- Simplesmente o desejo de a ver. Uma força impeliu-me para aqui, não sei porquê, não tenho nada a dizer-lhe... Vim e eis tudo! Perdoar-me-á esta visita matinal e a franqueza desta explicação?

Du Roy dizia isso num tom galante e brincalhão, com um sorriso nos lábios e um tom sério na voz. A senhora Walter ficara surpreendida, um tanto corada, balbuciante:

- Mas... na verdade... não compreendo... surpreende-me...

- É uma declaração num ar alegre para não a aterrorizar - acrescentou Jorge.

Sentaram-se ao lado um do outro e a dona da casa tomou a coisa de brincadeira:

- Então, é uma declaração... séria?

- Claro que é. Há muito tempo que a desejava fazer, há já muito tempo até. A verdade é que não me atrevia. Dizem que é tão severa, tão rígida...

A senhora Walter voltara a ser senhora de si e perguntou:

- Por que escolheu o dia de hoje?

- Não sei. - Depois, baixou a voz: - Talvez porque desde ontem só penso em si.

A senhora Walter, subitamente pálida, balbuciou:

- Vejamos, basta de criancices e falemos doutra coisa.

Jorge, porém, caíra a seus pés, tão bruscamente que ela teve medo e quis levantar-se; mas ele manteve-a sentada à força dos seus braços que lhe rodeavam a cintura, e repetia com voz apaixonada:

- Sim, é verdade que a amo, loucamente, há muito tempo. Não me responda. Que quer? Estou louco! Gosto de si... Oh! Se soubesse como a amo!

A senhora Walter sufocava, ofegante, tentava falar e não podia pronunciar uma palavra. Repelia-o com ambas as mãos e agarrara-lhe o cabelo para impedir a aproximação daquela boca que sentia procurar a sua. Abanava a cabeça da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, em movimentos rápidos, com os olhos fechados para não o ver.

Du Roy tocava-lhe através do vestido, apertava-a, apalpava-a. Ela sentia-se desfalecer sob aquela carícia brutal e forte. Jorge levantou-se, subitamente, e quis abraçá-la; mas, livre por um segundo, ela escapou-se-lhe, atirando-se para trás, e fugiu, depois, de poltrona em poltrona.

Jorge achou ridícula aquela perseguição e deixou-se cair numa cadeira, com o rosto nas mãos, a fingir soluços convulsivos. Depois, ergueu-se e exclamou, ao partir:

- Adeus, adeus!

Foi buscar, tranquilamente, a sua bengala ao vestíbulo e atingiu a rua, dizendo para si: «Com os diabos, parece-me que já está!» Passou pelo telégrafo para mandar um "azulinho" a Clotilde a marcar-lhe encontro para o dia seguinte.

Ao chegar a casa, à hora habitual, perguntou à mulher:

- Então, já tens todos os teus convidados para o jantar?

- Sim - respondeu Madalena. - Só há a senhora Walter que diz não ter a certeza de estar livre. Mostrou-se hesitante; falou-me de não sei quê, de compromissos, de consciência. Enfim, tinha um ar muito estranho. Não importa, espero que virá, apesar de tudo.

- Ora essa! Claro que vem! - proferiu Jorge com um encolher de ombros.

Não tinha, no entanto, muita certeza disso e manteve-se inquieto até ao dia do jantar. Na manhã desse dia, Madalena recebeu um bilhete da patroa: «Consegui, com grande dificuldade, ficar livre, e aceito o seu convite; mas meu marido não me poderá acompanhar.» Du Roy pensou: «Fiz muito bem em não voltar lá. Ei-la tranquilizada. Cuidado.» Esperou, no entanto, a sua entrada com uma certa inquietação. Apareceu, muito calma, um tanto fria, um tanto altiva. Jorge mostrou-se muito humilde, muito discreto e submisso.

As senhoras Laroche-Mathieu e Rissolin eram acompanhadas por seus maridos. A viscondessa de Percemur falava da alta sociedade. A senhora de Marelle estava encantadora, num vestido de fantasia, amarelo e negro, um trajo espanhol que modelava bem o seu bonito busto e os seus braços bem feitos e tornava enérgica a sua cabeça de passarinho.

Du Roy tinha à sua direita a senhora Walter e só lhe falou durante o jantar de coisas sérias, com um respeito exagerado. De tempos a tempos, olhava para Clotilde e pensava: «É, na verdade, mais bonita e mais fresca.» Depois, os seus olhos dirigiam-se para sua mulher, a quem não achava nada mal, embora conservasse contra ela uma cólera surda, tenaz e malévola.

A patroa, porém, excitava-o pela dificuldade da conquista e pela novidade, coisa sempre desejada pelos homens. Como a senhora Walter manifestasse o desejo de regressar a casa cedo, disse-lhe:

- Acompanhá-la-ei.

Ela recusou e Jorge insistiu:

- Por que não quer que vá? Magoa-me com isso. Não me diga que não me perdoou. Veja como estou calmo.

- Não pode deixar assim os seus convidados - retorquiu a senhora Walter.

- Ora! - sorriu Jorge. - Poderia estar vinte noites ausente, ninguém daria por isso. Se recusa, magoa-me até ao fundo da alma.

- Está bem, aceito - murmurou ela.

Logo que se sentaram no carro, Jorge pegou-lhe na mão e beijou-lha apaixonadamente:

- Gosto de si, gosto de si. Deixe-me dizer-Lho. Não lhe tocarei. Quero somente repetir-lhe que a amo.

- Oh!... Depois do que me prometeu... - balbuciou ela.Isso fica mal; muito mal...

Du Roy deu a impressão de fazer um grande esforço e continuou com voz reprimida:

- Aqui tem. Veja como me domino e, no entanto... Deixe-me, porém, dizer-Lhe somente isto: gosto de si, e repeti-lo todos os dias... Sim, deixe-me ir a sua casa, ajoelhar-me por cinco minutos aos seus pés para proferir essas três palavras, enquanto contemplo o seu rosto adorado.

A senhora Walter abandonara-Lhe a mão e respondeu, ofegante:

- Não, não posso, não quero. Pense no que diriam, nos meus criados, nas minhas filhas. Não, não... é impossível...

- Não posso viver sem a ver - continuou Jorge. - Seja em sua casa ou noutra parte, é preciso que a veja, embora não seja mais do que um minuto todos os dias, que lhe pegue na mão, que respire o ar agitado pelo seu vestido, que contemple a linha do seu corpo e esses belos e grandes olhos que me enlouquecem.

A senhora Walter ouvia, fremente, aquela banal música de amor e balbuciava:

- Não... não... É impossível. Cale-se!

Jorge falava-Lhe baixinho, ao ouvido. Compreendia ser preciso convencê-la aos poucos, àquela mulher simples,

que tinha de se decidir a marcar-Lhe encontros, onde ela quisesse a princípio, onde ele entendesse depois.

- Ouça... É preciso... que a veja... Esperá-la-ei diante da sua porta... como um mendigo... Se não sair, irei a sua casa... mas vê-la-ei... Vê-la-ei... amanhã.

- Não, não, não vá - repetia ela. - Não o receberei. Pense nas minhas filhas.

- Então, diga-me onde a posso encontrar... na rua... ou seja onde for... à hora que quiser... O importante é que a veja... que a cumprimente... que Lhe diga: Amo-a, e ir-me-ei embora.

A senhora Walter, desorientada, hesitante, murmurou apressadamente, na altura em que o carro chegava à porta da sua residência:

- Pois bem: estarei na Igreja da Trindade, amanhã, às três e meia.

Depois de ter descido, ordenou ao cocheiro:

- Vá levar o senhor Du Roy a casa.

Quando Jorge entrou, a esposa perguntou-lhe:

- Onde te meteste?

- Fui a correr ao telégrafo expedir um telegrama urgente - respondeu o marido em voz baixa.

A senhora de Marelle aproximou-se e disse a Jorge:

- Vai acompanhar-me a casa, Bel-Ami; bem sabe que só venho jantar tão longe com essa condição. - Depois, voltou-se para Madalena: - Não és ciumenta?

- Não, não sou muito - respondeu a senhora Du Roy lentamente.

Os convidados despediam-se. A senhora Laroche-Mathieu tinha o ar duma criada de servir da província. Era fiLha de um notário e casara com Laroche quando este era um advogado medíocre. A senhora Rissolin, velha e pretensiosa, dava a ideia de uma antiga porteira cuja instrução tivesse sido feita através de livros dos gabinetes de leitura. A viscondessa de Percemur olhava para elas de alto. O seu sangue azul só com repugnância se aproximava das pessoas vulgares.

Clotilde, envolta em rendas, disse a Madalena, já à porta da escada:

- Foi magnífico o teu jantar. Dentro em pouco terás os primeiros políticos de Paris.

Logo que se viu só com Jorge, apertou-o nos braços:

- Oh! Meu querido Bel-Ami; cada dia gosto mais de ti.

O fiacre que os conduzia balouçava como um navio.

- Isto não se parece nada com o nosso quarto - murmurou Clotilde.

- Lá isso não - retorquiu Jorge, mas pensava na senhora Walter.