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Bel Ami.  Guy de Maupassant
Capítulo 15.
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Havia dois meses que a conquista de Marrocos estava feita. A França, senhora de Tânger, possuía toda a costa africana do Mediterrâneo até à regência de Trípolis e tomara a responsabilidade da dívida do novo país anexado. Diziam que dois ministros ganhavam com isso uns vinte milhões e citavam até, em voz alta, o nome de Laroche-Mathieu.

Quanto a Walter, ninguém, em Paris, ignorava que comera a dois carrilhos, pois ganhara de trinta a quarenta milhões com os títulos do empréstimo e uns oito a dez milhões com as minas de cobre e ferro, assim como pela compra de imensos terrenos, adquiridos por quase nada antes da conquista e revendidos, depois da ocupação francesa, a companhias colonizadoras.

Walter tornara-se, em poucos dias, um dos grandes do mundo, um desses financeiros omnipotentes, mais fortes do que os reis, que fazem curvar as cabeças, balbuciar as bocas e exibir tudo quanto há de baixeza, de cobardia e de inveja no coração humano.

Já não era o judeu Walter, dono de um banco de negócios escuros, director de um jornal suspeito, deputado acusado de tramóias. Era o senhor Walter, o opulento israelita.

Walter quis mostrar que o era. Ao saber das dificuldades do príncipe de Carlsbourg, que possuía um dos mais belos palacetes do Bairro de Saint-Honoré, com jardins que davam para os Campos Elísios, propôs-Lhe comprar, em vinte e quatro horas, o edifício com todo o seu mobiliário sem modificar coisa nenhuma. Oferecia por tudo três milhões. O príncipe, tentado pela soma, aceitou.

No dia seguinte, Walter instalou-se na sua nova residência. Teve, então, outra ideia, uma verdadeira ideia de conquistador que quer tomar Paris, uma ideia à Bonaparte.

Toda a cidade ia ver, nessa altura, um grande quadro do pintor húngaro Marcowitch, exposto na casa do perito Jaime Lenoble, e que representava Cristo a caminhar por cima das ondas. Os críticos de arte, entusiasmados, declaravam ser essa tela a mais magnífica das obras-primas do século.

Walter comprou-a por quinhentos mil francos e levou-a para casa. Interrompeu, assim, de um dia para o outro, a corrente de curiosidade pública e forçou Paris inteira a falar dele, para o invejar, o censurar ou aprovar.

Depois, fez constar, pelos jornais, que convidaria todas as pessoas conhecidas da sociedade parisiense a ir contemplar, em sua casa, o quadro magistral do mestre estrangeiro, a fim de não dizerem que tinha sequestrado uma obra de arte. Abriria as portas do seu palacete. Iria lá quem quisesse. Bastaria mostrar à porta o convite.

Esse convite fora assim redigido: «O senhor e a senhora Walter solicitam a honra de ir ver a sua casa, em 30 de Dezembro, das nove horas à meia-noite, o quadro de Karl Marcowitch: "Jesus a caminhar por cima das ondas", iluminado a "luz eléctrica".» Em post scriptum lia-se em tipo miúdo: "Dançar-se-á depois da meia-noite"."

Portanto, ficariam aqueles que quisessem ficar e entre eles Walter recrutaria as suas relações futuras. Os outros veriam o quadro, o palacete e os seus proprietários, com curiosidade mundana, insolente ou indiferente, e, depois, ir-se-iam como tinham vindo. O velho Walter sabia que voltariam mais tarde, como voltavam a casa dos seus irmãos israelitas enriquecidos como ele.

Primeiramente, era preciso que entrassem em sua casa todos os titulares pelintras que são citados nas gazetas. Iriam lá para ver a cara do homem que ganhara cinquenta milhões em seis semanas. Iriam, também, para ver e contar aqueles que estavam lá. Iriam ainda porque tivera o bom-gosto de os convidar a admirar um quadro cristão em sua casa, ele, um filho de Israel.

Parecia dizer-lhes: «Vejam, paguei por quinhentos mil francos a obra-prima religiosa de Marcowitch, "Jesus a caminhar por cima das ondas". Essa obra-prima ficará em minha casa, sempre sob os meus olhos, na casa do judeu Walter.»

Na sociedade, sobretudo na das duquesas e do Jockey Club, fora muito discutido aquele convite, que não obrigava, aliás, a nada. Iriam lá como iam ver as aguarelas à Galeria Petit. Os Walters possuíam uma obra-prima e abriam as suas portas,

uma noite, para todos a poderem admirar. Ainda bem.

A Vie Française fazia todas as manhãs, havia quinze dias, um eco acerca desse serão de 30 de Dezembro e esforçava-se por excitar a curiosidade pública.

Du Roy enraivecia-se com os triunfos do patrão. Julgara-se rico com os quinhentos mil francos extorquidos a sua mulher, mas passara a considerar-se pobre, terrivelmente pobre, ao comparar a sua magra fortuna com a chuva de milhões que caíra à sua volta sem poder apanhar nada.

A sua cólera invejosa aumentava todos os dias. Detestava toda a gente: os Walters, a casa de quem não voltara a ir; a sua mulher que, enganada por Laroche, lhe desaconselhara a compra de títulos marroquinos; e, sobretudo, esse ministro que se rira dele, que se servira dele e jantava à sua mesa duas vezes por semana. Servia-lhe de secretário, de agente e até de caneta e, quando escrevia sob o seu ditado, Jorge sentia uma vontade louca de estrangular esse conquistador triunfante.

Como ministro, Laroche mostrava-se modesto na vitória e, para conservar a sua pasta, não deixava perceber que estava cheio de ouro. Du Roy, porém, sentia esse ouro nas palavras mais altaneiras do advogado novo-rico, nos seus gestos mais insolentes, nas suas afirmações mais ousadas, na sua completa confiança em si próprio. Laroche reinava agora em casa de Du Roy, pois tomara o lugar e os dias do conde de Vaudrec e falava aos criados como se fosse o dono da casa.

Jorge tolerava-o, fremente como um cão que quer morder e não se atreve. Era, porém, com frequência, áspero e brutal com Madalena, que encolhia os ombros e o tratava como a uma criança mal-educada. Surpreendia-se, aliás, com o constante mau humor do marido, a quem dizia:

- Não te compreendo. Estás sempre a lamentar-te. A tua posição é, no entanto, magnífica.

Jorge voltava-lhe as costas e não lhe respondia. Declarara que não iria à recepção do patrão e não poria mais os pés em casa desse porco judeu.

Havia dois meses que a senhora Walter lhe escrevia, todos os dias, a suplicar que a fosse ver ou marcasse um encontro onde quisesse, a fim de lhe entregar os setenta mil francos que ganhara para ele.

Du Roy não lhe respondia e atirava ao lume essas cartas desesperadas.

Não por ter renunciado a receber a sua parte nos lucros, mas por a querer vexar, tratá-la com desprezo, calcá-la aos pés. Virgínia era muito rica. Queria mostrar-se altivo.

No dia da exposição do quadro, Madalena fez-lhe ver que não tinham nenhuma razão para não ir. O marido retorquiu:

- Deixa-me! Fico em casa!

Depois, a seguir ao jantar, declarou subitamente:

- Apesar de tudo, é preferível fazer esse frete. Arranja-te depressa.

Madalena esperava por isso e disse:

- Dentro de um quarto de hora estou pronta.

Jorge vestiu-se de mau modo e até dentro do carro continuou a expectorar a sua bílis.

O átrio de honra do palacete de Carlsbourg estava iluminado com quatro globos eléctricos que pareciam quatro luazinhas azuladas, dispostas aos quatro cantos. Um magnífico tapete cobria os degraus desde o alto da escadaria e em cada degrau havia um lacaio de libré, hirto como uma estátua.

Du Roy encolheu os ombros, com o coração apertado de inveja:

- Que presunção!

- Cala-te e faz o mesmo - disse-lhe sua mulher.

Entraram e entregaram os seus pesados abafos aos criados solícitos. Encontraram lá muitas senhoras com os maridos, a tirar os seus abafos de peles. Ouvia-se murmurar: É muito bonito! Muito bonito!

O vestíbulo enorme estava revestido de tapeçarias que representavam as aventuras de Marte e Vénus. À direita e à esquerda partiam os dois lanços de uma escadaria monumental, que ia dar ao primeiro andar. O corrimão era uma maravilha de ferro forjado, cujas velhas douraduras faziam cintilar reflexos discretos nos degraus de mármore vermelho.

À entrada das salas, duas pequenitas, uma vestida de cor-de-rosa, outra de azul, ofereciam flores às senhoras. Acharam isso encantador.

Havia já uma multidão lá dentro. A maior parte das senhoras estava com vestidos de passeio, para mostrar, claramente, que iam lá como iam a qualquer exposição. As que tencionavam ficar para o baile estavam decotadas e de braços nus.

A senhora Walter, rodeada de amigas, encontrava-se na segunda sala e correspondia aos cumprimentos dos visitantes. Muitos não a conheciam e andavam por ali como num museu, sem se preocupar com os donos da casa.

Quando descobriu Du Roy, ficou lívida e fez um movimento para se dirigir a ele... Depois, ficou imóvel, à espera. Jorge cumprimentou-a, cerimoniosamente, enquanto Madalena a cumulava de gentilezas e felicitações. U marido deixou-a junto da patroa e perdeu-se entre a multidão, para ouvir as coisas malévolas que certamente diriam.

Seguiam-se cinco salas, forradas de tecidos preciosos, de damascos italianos ou tapetes orientais de tons e estilos diferentes. Nas paredes viam-se quadros de mestres antigos. Detinham-se, sobretudo, para admirar um gabinetezinho Luís XVI, uma espécie de alcova, toda estofada de seda, com raminhos cor-de-rosa num fundo azul pálido. Os móveis baixos, dourados, revestidos com o mesmo estofo das paredes, eram duma admirável delicadeza.

Du Roy reconhecia pessoas célebres: a duquesa de Terracine, o conde e a condessa de Ravenel, o general príncipe de Andremont, a sempre bonita marquesa de Dunes e todos aqueles e todas aquelas que se vêem nas primeiras representações. Meteram-lhe o braço e uma voz jovem, uma voz feliz, murmurou-lhe ao ouvido:

- Oh! Até que enfim aparece, mau Bel-Ami! Por que não o vimos mais?

Era Susana Walter que o fitava com os seus olhos de fino esmalte sob a nuvem encaracolada do seu cabelo loiro. Jorge mostrou-se encantado por voltar a vê-la e apertou-lhe cordialmente a mão. A seguir, desculpou-se:

- Não tenho podido. Tive tanta coisa a fazer que, há dois meses, não vou a parte nenhuma.

- Faz mal - retorquiu Susana, com ar sério -, muito mal, muito mal. Isso causa-nos muita pena porque o estimamos muito, a mamã e eu. Por mim, não posso passar sem a sua companhia. Quando não está presente, aborreço-me imenso. Vê que Lhe estou a falar com toda a franqueza e por isso não tem o direito de desaparecer assim. Dê-me o braço. Eu própria lhe irei mostrar o quadro que está lá ao fundo, por trás da estufa. O papá pô-lo lá para obrigar toda a gente a atravessar a casa toda. É espantoso como o papá parece um pavão, com este palacete.

Caminhavam devagar através da multidão. As pessoas voltavam-se para ver aquele belo rapaz e aquela encantadora boneca. Um pintor conhecido proferiu:

- Vejam! Aí está um bonito par. É engraçado como tudo.

Jorge pensava: «Se fosse verdadeiramente esperto, era com esta que deveria ter casado. Era possível, no entanto. Como é que não pensei nisso? Como me deixei prender pela outra? Que loucura! Procedemos sempre às pressas e nunca reflectimos bastante.» O despeito, um despeito amargo, caía-Lhe na alma, gota a gota, como um fel que corrompia toda a alegria e tornava odiosa a existência.

- Oh! Venha mais vezes, Bel-Ami - disse Susana. - Faremos loucuras, agora que o papá é rico. Havemos de nos divertir imenso!

- Ora! - retorquiu Jorge, sem abandonar a sua ideia. - Vai certamente casar em breve. Desposará qualquer belo príncipe, um tanto arruinado, e não voltaremos a ver-nos.

- Oh! Não! - exclamou a jovem com sinceridade. Quero alguém que me agrade, que me agrade muito, que me agrade completamente. Sou suficientemente rica para dois.

Du Roy sorria, com um sorriso irónico e desdenhoso, e pôs-se a dizer os nomes de pessoas que passavam, nobres que tinham vendido os seus títulos enferrujados a filhas de financeiros como ela, e viviam agora, perto ou longe de suas esposas, mas livres, impudentes, conhecidos e respeitados. Concluiu:

-Não lhe dou seis meses que não esteja apanhada por um desses caçadores de dotes. Será a senhora marquesa, a senhora duquesa ou a senhora princesa, e olhará para mim de alto, minha menina.

Susana, indignada, batia-lhe no braço com o leque e jurava que só casaria segundo a lei do seu coração.

- Veremos! - troçou Jorge. - Se não fosse tão rica...

- Também é rico - replicou Susana. - Teve uma herança.

- Oh! - fez Jorge com ar de comiseração. - Não vale a pena falar disso. Apenas uns vinte mil francos de rendimento. Que é isso nos tempos que correm?

- A sua mulher também herdou, igualmente.

- Sim: um milhão para nós ambos. Quarenta mil francos de rendimento. Com isso nem sequer podemos ter um carro nosso.

Chegaram à última sala e na sua frente abria-se a estufa, um grande jardim de Inverno, repleto de grandes plantas dos países quentes que abrigavam maciços de flores raras. Ao entrar, no meio dessa verdura sombria, na qual a luz escorria em ondas prateadas, respirava-se uma frescura tépida de terra húmida e um bafo pesado de perfumes...

Era uma estranha sensação, doce, malsã e agradável, duma natureza artificial, enervante e amolecedora. Caminhavam sobre alfombras semelhantes a musgo, entre dois espessos maciços de arbustos. De súbito, Du Roy descobriu, à esquerda, sob uma grande cúpula de palmeiras, uma vasta concha de mármore branco, onde era possível tomar banho, e nos bordos da qual grandes cisnes de faiança de Delft deixavam sair a água dos seus bicos entreabertos.

O fundo da concha era polvilhado de um pó dourado e viam-se lá dentro enormes peixes vermelhos, estranhos monstros chineses de grandes olhos salientes, de escamas orladas de azul, uma espécie de mandarins das ondas que, errantes e suspensos por cima desse fundo dourado, lembravam os deslumbrantes bordados orientais.

O jornalista parou, com o coração a bater com força. Pensava: «Eis o que é o luxo! Eis as casas em que vale a pena viver. Outros conseguiram-nas. Por que não as conseguirei eu?» Meditava nos meios de o alcançar, não os encontrava à mão e irritava-se com a sua impossibilidade.

A sua companheira estava calada, um tanto meditativa. Jorge olhou para ela de lado e pensou mais uma vez: «Bastaria, no entanto, casar com esta bonequinha de carne.»

- Atenção! - proferiu Susana, subitamente, como para o despertar.

Impeliu Jorge através de um grupo que lhes impedia o caminho e fê-lo bruscamente voltar à direita. No meio de uma moita de plantas estranhas, afastadas como por mãos de dedos finos, via-se uma figura imóvel de pé sobre as águas. O efeito era surpreendente. O quadro, cujos lados estavam ocultos por verduras movediças, parecia uma abertura duma profundidade fantástica e atraente.

Era preciso observar com atenção para compreender. O quadro representava o meio do barco onde se encontravam os apóstolos apenas iluminados pelos raios oblíquos de uma lanterna, de que um deles, sentado na borda do barco, projectava toda a luz para a figura de Jesus, que parecia caminhar.

Jesus estava de pé em cima de uma vaga que se via abrir-se, submissa, lisa, cariciosa para o passo divino que a pisava. Tudo estava sombrio em volta do Homem-Deus. Só as estrelas brilhavam no céu. As figuras dos apóstolos, à claridade vaga do fanal conduzido por aquele que indicava o Senhor, pareciam convulsionadas pela surpresa.

Era, na verdade, a obra poderosa e inesperada de um mestre, uma destas obras que perturbam o pensamento e deixam um resíduo de sonho por muitos anos. As pessoas que olhavam para ela ficavam a princípio silenciosas, depois meditativas e só depois falavam do valor da pintura. Du Roy, após a ter contemplado algum tempo, declarou:

- Vale a pena poder pagar jóias como esta!

Como empeçavam nele e o empurravam para ver melhor, foi-se embora, conservando sempre sob o braço a mão fina de Susana, que apertava um tanto. A jovem perguntou:

- Quer ir beber um copo de champanhe? Vamos ao bufete. Encontraremos lá o papá.

Atravessaram, lentamente, todas as salas, onde a multidão aumentava, ruidosa, como se estivesse em sua casa, uma multidão elegante de festa pública. De súbito, Jorge julgou ouvir uma voz:

- É Laroche e a senhora Du Roy...

Essas palavras afloraram-lhe o ouvido como os rumores longínquos trazidos pelo vento. Donde vinham? Procurou por todos os lados e descobriu, com efeito, sua mulher, que passava pelo braço do ministro. Falavam ambos baixinho, de maneira íntima, a sorrir e com os olhos nos olhos.

Jorge imaginou notar que murmuravam ao olhar para eles e sentiu crescer em si uma vontade, brutal e estúpida, de correr para aqueles dois seres e abatê-los à punhalada. A mulher tornava-o ridículo. Pensou em Forestier. Diriam talvez: Esse coitadinho de Du Roy.

Quem era aquela mulher? Uma aventureirazinha, bastante esperta, mas, na verdade, sem grande valor. Iam a sua casa porque o temiam, porque sabiam que ele era importante, mas deviam falar com desdém daquele casalinho de jornalistas. Não poderia ir longe com aquela mulher, que tornava a sua casa muito suspeita, que estava sempre a comprometer-se,

cuja atitude denunciava a intriguista. Seria daí por diante uma grilheta, para ele.

«Ah! Se tivesse adivinhado!», pensava. «Se soubesse. Como teria jogado um jogo mais largo, mais forte! Que bela partida poderia ganhar com a Susaninha como bolo! Como fora tão cego para não compreender isso?» Chegaram à sala de jantar, uma imensa quadra com colunas de mármore, com as paredes revestidas de Gobelins. Walter, ao dar pelo seu cronista, correu para ele de mão estendida. Estava louco de alegria e perguntou:

- Viu tudo? Diz, Susana, mostraste-lhe tudo que há para ver? Quanta gente, não é verdade, Bel-Ami? Viu o príncipe de Guerche? Esteve aqui, há bocado, a beber um copo de ponche.

Depois, correu para o senador Rissolin, que arrastava a mulher, atarantada e enfeitada como uma barraca de feira.

Um cavalheiro cumprimentou Susana. Era um rapaz magro, de barba loira, um tanto calvo, com esse ar mundano que se encontra por toda a parte. Jorge ouviu chamar-lhe marquês de Cazolles. Sentiu, subitamente, ciúmes daquele homem. Desde quando o conhecia Susana? Sem dúvida, desde que era rica. Adivinhava nele um pretendente.

Alguém tomou-Lhe o braço. Era Norberto de Varenne. O velho poeta exibia a sua cabeleira lustrosa e a sua velha casaca, com um ar indiferente e fatigado. Disse a Jorge:

- Ora aí está aquilo a que chamam divertir-se. Daqui a bocado vão dançar, depois deitar-se e as meninas ficarão contentes. Beba o champanhe que é excelente.

Mandou encher um copo e, num brinde a Du Roy, que pegara noutro:

- Bebo pela vitória do espírito sobre os milhões! - Acrescentou, com voz suave: - Não que me incomodem os bens dos outros ou Lhes queira mal por os terem. Protesto por uma questão de princípios.

Jorge já não o ouvia. Procurava com os olhos Susana, que desaparecera com o marquês de Cazolles. Deixou, bruscamente, Norberto de Varenne e foi à procura da jovem.

Uma multidão espessa que pretendia beber deteve-o. Quando conseguiu ver-se livre dela, deu de cara com o casal de Marelle. A mulher via-a muitas vezes, mas não voltara a ver,

havia muito tempo, o marido, que lhe apertou as mãos:

- Como lhe estou agradecido, meu caro, pelo conselho que me deu por intermédio de Clotilde. Ganhei cerca de cem mil francos com o empréstimo marroquino. É a si que lhos devo. Pode dizer-se que é um amigo que vale ouro.

Os homens voltavam-se para ver aquela moreninha elegante e bonita. Du Roy retorquiu:

- Em troca desse serviço, meu caro, tomo conta da sua mulher, ou melhor, ofereço-lhe o meu braço. É preciso sempre separar os esposos.

O senhor de Marelle concordou:

- É justo. Se nos desencontrarmos, estaremos aqui dentro de uma hora.

- Perfeitamente.

Os dois amantes mergulharam na multidão, seguidos de longe pelo marido. Clotilde repetia:

- Que sorte têm estes Walters! O que é, apesar de tudo, ter inteligência para os negócios!

- Ora! - retorquiu Jorge. - Os homens fortes triunfam sempre, duma maneira ou doutra!

- Eis - prosseguiu Clotilde - duas raparigas que terão de vinte a trinta milhões cada uma... sem contar que Susana é bonita.

Jorge não disse nada; mas o seu próprio pensamento saído doutra boca irritou-o. Clotilde não vira ainda o quadro Jesus a caminhar por cima das ondas e ele propôs ir mostrar-Lho. Divertia-se a dizer mal das pessoas, a troçar de figuras desconhecidas.

Saint-Potin, que passou perto deles, exibia, na banda da casaca, numerosas condecorações, o que os divertiu muito. Um antigo embaixador, que ia atrás dele, mostrava menos. Du Roy exclamou:

- Que bodega, a sociedade!

Boisrenard, que Lhe apertou a mão, tinha também a lapela decorada com a fita verde e amarela do dia do duelo. A viscondessa de Percemur, enorme e muito enfeitada, conversava com um duque, na salinha Luís XVI. Jorge murmurou:

- Um colóquio galante.

Ao atravessar a estufa viu sua mulher sentada junto de Laroche-Mathieu, quase ocultos ambos por um maciço de plantas.

Parecia dizerem: «Marcámos um encontro para aqui, um encontro público, pois pouco nos importamos com a opinião.»

A senhora de Marelle reconheceu que aquele Jesus de Karl Marcowitch era surpreendente. Voltaram para trás. Tinham-se perdido do marido. Jorge perguntou:

- A Laurinha ainda está zangada comigo?

- Sim; é a mesma coisa. Recusa-se ver-te e vai-se embora quando falam de ti.

Não disse nada, mas a inimizade da pequenita desgostava-o, pesava-lhe.

Susana deu com eles ao saírem duma sala e exclamou:

- Ah! Cá estão! Muito bem, Bel-Ami, vai ficar sozinho. Rapto a bela Clotilde para lhe mostrar o meu quarto.

As duas mulheres foram-se, com passo rápido, deslizando entre a assistência, com movimentos ondulosos, os movimentos de cobra que sabem usar no meio das multidões.

Quase imediatamente, uma voz murmurou:

- Jorge! - Era a senhora Walter, que continuou, baixinho: - Oh! Como é ferozmente cruel! Como me faz sofrer inutilmente! Encarreguei Susana de levar aquela que o acompanhava a fim de poder dar-lhe uma palavra. Ouça: é preciso... é preciso que lhe fale esta noite... ou então... ou então... não sabe o que farei. Vá à estufa. Encontrará uma porta à esquerda e sairá por ela para o jardim. Siga a alameda que está em frente. Ao fim, fica um caramanchão. Espere-me lá, dentro de dez minutos. Se não quer, juro que faço um escândalo, aqui mesmo, imediatamente!

- Seja. Estarei, dentro de dez minutos, no local que indica - retorquiu Jorge com sobranceria.

Separaram-se; mas Jaime Rival esteve quase a fazê-lo faltar ao encontro. Metera-lhe o braço e contava-lhe uma porção de coisas com um ar exaltado. Vinha, sem dúvida, do bufete. Por fim, Du Roy deixou-o entregue ao senhor de Marelle, encontrado entre portas, e escapou-se. Foi-lhe preciso prestar atenção para não ser visto por sua mulher e por Laroche. Conseguiu-o, pois conversavam muito animados, e alcançou o jardim.

O ar frio causou-lhe um arrepio como um banho gelado. Pensou: Apre! Vou apanhar uma constipação! Pôs o lenço à volta do pescoço, para se agasalhar, e seguiu ao longo da alameda,

que via mal por sair das salas fortemente iluminadas.

Distinguia, à esquerda e à direita, arbustos sem folhas, cujos ramos finos estremeciam. Clarões acinzentados surgiam nesses ramos, vindos da janela do palacete. Descobriu qualquer coisa branca, a meio do caminho, na sua frente. A senhora Walter, com os braços nus e decotada, balbuciou com voz fremente:

- Até que enfim! Queres matar-me?

Jorge respondeu calmamente:

- Peço-te um favor: nada de dramas! Senão, desapareço daqui imediatamente.

Ela lançara-lhe os braços ao pescoço e com a boca muito perto da dele dizia:

- Mas que te fiz eu? Procedes comigo como um miserável. Que te fiz?

Du Roy tentou repeli-la e respondeu:

- Enrolaste cabelos teus em todos os botões do meu colete na última vez que nos vimos. Isso esteve quase a determinar um rompimento entre minha mulher e eu.

Virgínia ficou surpreendida e, depois, fazendo não com a cabeça:

- Oh! A tua mulher pouco se importa. Foi alguma das tuas amantes que te fez uma cena.

- Não tenho amantes.

- Cala-te! Então porque não vens ver-me? Porque recusas jantar comigo, ao menos uma vez por semana? E atroz o que sofro. Gosto de ti a ponto de não ter nenhum pensamento a não ser para ti, de não poder olhar para nada sem te ter diante dos olhos, de não ousar proferir uma palavra com medo de só pronunciar o teu nome!

Tu não compreendes isto! Parece que estou presa com garras, amarrada dentro dum saco, não sei. A tua recordação, sempre presente, aperta-me a garganta, rasga-me qualquer coisa cá dentro no peito, quebra-me as pernas e perco as forças para andar. Fico como um animal, todo o dia, encolhida numa cadeira, a pensar em ti.

Du Roy olhava para ela com surpresa. Já não era a garota grande e brincalhona que conhecera, mas uma mulher, perdida, desesperada, capaz de tudo. Um vago projecto surgiu, porém, no seu espírito e retorquiu-lhe:

- Minha cara, o amor não é eterno. Pega-se e larga-se. Quando isso, porém, dura, como entre nós, transforma-se numa grilheta horrível. Não quero mais isso. Eis a verdade. No entanto, se souberes tornar-te razoável receber-me e tratar-me como a um amigo, voltarei a tua casa como antigamente. Sentes-te capaz disso?

- Sou capaz de tudo para te ver.

- Então, fica combinado - disse ele. - Somos amigos e nada mais.

- Está combinado - balbuciou ela e depois, estendendo a boca para ele: - Ainda um beijo... o último.

- Não - recusou Jorge brandamente. - É preciso respeitar a nossa combinação.

A senhora Walter recuou, enxugando duas lágrimas. Depois, tirou do corpete um maço de papéis presos com uma fita cor-de-rosa. Deu-o a Du Roy, dizendo:

- Toma. É a tua parte no lucro do negócio de Marrocos. Estava tão contente por ter ganhado isso para ti. Toma, pega-lhe...

- Não - disse Jorge, a querer recusar. - Não receberei nada desse dinheiro!

Ela então indignou-se:

- Ah! Não! Não me farás isso, agora! O dinheiro é teu, só teu. Se não lhe pegas, atiro-o para o esgoto. Não vais fazer-me isso, Jorge?

Du Roy recebeu o maço de notas e meteu-o no bolso, ao mesmo tempo que dizia:

- É preciso voltar para casa; vais apanhar uma constipação.

- Ainda bem - murmurou ela - se me desse uma que me levasse!

Pegou-lhe na mão, que beijou apaixonadamente, com raiva, com desespero, e correu em direcção ao palacete.

Jorge regressou devagar, a reflectir. Depois, entrou na estufa, de cabeça alta e sorriso nos lábios. Sua mulher e Laroche já não estavam lá. A multidão diminuíra. Era evidente que não ficavam para o baile. Jorge encontrou Susana pelo braço da irmã. Dirigiram-se para ele a pedir-lhe que dançasse a primeira quadrilha com o conde de Latour-Yvelin.

- Quem é ainda mais esse? - estranhou Jorge.

- É um novo amigo de minha irmã - respondeu Susana com malícia.

- Não sejas má, Susi - murmurou Rosa, corando. - Esse senhor é tão meu amigo como teu.

- Cá me entendo - disse a outra a sorrir.

Rosa, zangada, voltou-lhes as costas e afastou-se. Du Roy pegou familiarmente no braço da que ficara junto dele e com a sua voz cariciosa disse:

- Ouça, sua pequerrucha, acredita que sou seu amigo?

- Claro que sim, Bel-Ami!

-Tem confiança em mim?

- Evidentemente.

- Recorda-se do que lhe disse há pouco?

- A propósito de quê?

- A propósito do seu casamento, ou antes, do homem que casará consigo.

- Recordo-me, sim.

- Muito bem! Quer prometer-me uma coisa?

- Sim; mas que é?

- É consultar-me sempre que alguém peça a sua mão e não aceitar ninguém sem ter ouvido o meu conselho.

- Sim; claro que quero.

- Isto é um segredo entre nós ambos. Nem uma palavra a este respeito, nem a seu pai nem a sua mãe.

- Nem uma palavra.

- Jura?

- Juro.

Rival apareceu muito açodado:

- Menina, o seu papá chama-a para o baile.

- Vamos, Bel-Ami - disse Susana.

Jorge, porém, recusou. Estava decidido a partir imediatamente, pois queria estar só para pensar. Muitas coisas novas acabavam de penetrar no seu espírito.

Pôs-se à procura de sua mulher. Ao fim de algum tempo, viu-a a tomar um chocolate, no bufete, com dois cavalheiros desconhecidos. Madalena apresentou-lhes o marido, mas sem dizer os nomes deles. Após alguns instantes, Du Roy perguntou:

- Vamo-nos embora?

- Quando quiseres.

Madalena pegou-Lhe no braço e atravessaram as salas onde o público se tornara raro. Perguntou ao marido:

- Onde está a patroa? Queria dizer-lhe adeus.

- É inútil; tentaria convencer-nos a ficar para o baile e estou farto.

- É verdade; tens razão.

Foram todo o caminho silenciosos. Ao chegarem, porém, ao seu quarto, Madalena, sorridente, disse, sem sequer tirar o véu:

- Ainda não sabes: tenho uma surpresa para ti.

- Que é, então? - resmungou o marido, de mau humor.

- Adivinha.

- Não me darei a esse trabalho.

- Pois bem: amanhã é o primeiro de Janeiro...

- É sim.

- É a altura das prendas.

- Pois é.

- Aqui tens a tua, que Laroche me entregou, há bocado.

Deu-lhe uma caixinha preta, que parecia o estojo duma jóia.

Jorge abriu-a, com indiferença, e viu a cruz da Legião de Honra. Ficou um tanto pálido, depois sorriu e declarou:

- Teria preferido dez milhões. Isto não lhe custa nada.

Madalena esperava ver transportes de alegria e ficou irritada com aquela frieza:

- És verdadeiramente incrível! Já nada te satisfaz.

- Esse homem nada mais faz do que pagar a sua dívida - retorquiu Jorge, tranquilamente. - Ainda me deve muito mais.

Surpreendida com o tom das suas palavras, insistiu ainda:

- É, no entanto, bonito, na tua idade.

- Tudo é relativo - continuou o marido. - Poderia ter já muito mais, hoje.

Pegou no estojo e pô-lo aberto em cima da pedra do fogão. Observou, durante alguns momentos, a estrela brilhante que estava no fundo. Depois, fechou-o e meteu-se na cama, encolhendo os ombros.

O Officiel do 1º de Janeiro anunciava, com efeito, a nomeação do senhor Próspero-Jorge Du Roy, publicista, para o grau de cavaleiro da Legião de Honra, por serviços excepcionais. O seu apelido estava escrito em duas palavras, o que deu mais gosto a Jorge do que a própria condecoração.

Uma hora depois de ter lido essa notícia, tornada pública, Du Roy recebeu um bilhete da patroa.

Suplicava-lhe que fosse jantar a casa dela, naquela noite, com sua mulher, para festejarem a distinção que Lhe fora concedida. Jorge hesitou uns minutos, mas depois, atirando ao lume o bilhete escrito em termos ambíguos, disse à mulher:

- Jantaremos hoje em casa dos Walters.

- Essa agora! - observou Madalena. - Estava convencida de que não querias voltar a pôr lá os pés.

- Mudei de opinião - murmurou simplesmente o marido.

Quando lá chegaram, a patroa estava sozinha no gabinete Luís XVI, adaptado para as suas recepções íntimas. Vestida de preto, empoara o cabelo, o que a tornava mais encantadora. Parecia, à distância, uma senhora de idade, e de perto uma jovem, e, quando a observavam bem, era ainda uma bonita armadilha para os olhos.

- Está de luto? - perguntou Madalena.

- Sim e não - respondeu a senhora Walter tristemente. - Não perdi nenhum dos meus, mas cheguei à idade em que tomamos luto pela nossa vida. Uso-o, hoje, para o inaugurar. Daqui por diante, usá-lo-ei no fundo do meu coração.

Du Roy pensou: «Manter-se-á essa resolução?»

O jantar foi um tanto monótono. Somente Susana tagarelava sem cessar. Rosa parecia preocupada. Todos felicitaram o jornalista.

Passaram o serão a conversar e a passear ao longo das salas e da estufa. Como Du Roy ficara para trás, a patroa aproximou-se dele e reteve-o pelo braço, dizendo-lhe em voz baixa:

- Escute-me... Não Lhe falarei mais de nada, jamais... Mas venha ver-me, Jorge. Como vê, já não o trato por tu. É-me, porém, impossível viver sem a sua presença, impossível. É uma tortura inimaginável. Sinto-o, conservo-o nos meus olhos, no meu coração e na minha carne, sempre, de dia e de noite. É como se me tivesse dado a beber um veneno que me corroesse as entranhas. Não posso. Não; não posso. Não quero ser para si mais do que uma velha. Pus o cabelo branco para o mostrar; mas venha de tempos a tempos, como amigo.

Pegara-lhe na mão e apertava-a, cravando-lhe as unhas na carne.

- Está combinado - respondeu Du Roy; com calma. - É inútil tornar a falar nisso. Bem vê que vim hoje, imediatamente, logo que recebi a sua carta.

Walter, que ia à frente, com as duas filhas e Madalena, esperou por Du Roy junto de Jesus a caminhar por cima das ondas e disse, a rir.

- Imagine que encontrei ontem, minha mulher de joelhos diante deste quadro como num altar, a fazer as suas orações. O que eu ri!

A senhora Walter replicou com voz firme, uma voz em que vibrava uma exaltação secreta:

- É este Cristo que salvará a minha alma. Dá-me coragem e força todas as vezes que olho para Ele.

Parou diante da figura de Jesus, de pé, e murmurou:

- Como é belo! Como os homens têm medo Dele e O amam! Reparem na sua cabeça, nos seus olhos, como é simples e sobrenatural ao mesmo tempo.

- Parece-se consigo, Bel-Ami! - exclamou Susana. - Tenho a certeza de que se parece. Se tivesse barba, ou então se ele estivesse barbeado, seriam ambos perfeitamente iguais. Oh! Isso vê-se logo!

Quis que Jorge se pusesse de pé ao lado do quadro. Todos reconheceram que, com efeito, os dois rostos se pareciam! Uns ficaram surpreendidos. Walter achou a coisa muito extraordinária. Madalena, a sorrir, achava que Jesus tinha um ar mais viril.

A senhora Walter mantinha-se imóvel, com os olhos fixos, a contemplar o rosto do seu amante ao lado do de Jesus e tornara-se tão branca como o seu cabelo branco.