Lesen Sie synchronisiert mit  Deutsch  Englisch  Französisch  Russisch 
Bel Ami.  Guy de Maupassant
Capítulo 16.
< Zurück  |  Vorwärts >
Schrift: 

Durante o resto do Inverno, o casal Du Roy foi frequentemente a casa dos Walters. Jorge até jantava lá só, muitas vezes, pois Madalena dizia estar fatigada e preferir ficar em casa. Jorge adoptara a sexta-feira como dia fixo e a patroa não fazia outros convites para essa noite, que pertencia a Bel-Ami e a mais ninguém. Depois do jantar, jogavam as cartas ou davam de comer aos peixes chineses. Viviam e divertiam-se em família.

Várias vezes, atrás duma porta, ou no meio dum maciço da estufa, num recanto sombrio, a senhora Walter agarrava, bruscamente, Jorge, apertava-o com toda a força contra si e dizia-lhe ao ouvido: «Gosto de ti!... Gosto de ti... Gosto de ti, loucamente!»

Sempre Du Roy a repelia com frieza, dizendo num tom seco: «Se recomeça, não voltarei mais aqui.»

Cerca do fim de Março falaram, de repente, do casamento das duas irmãs. Rosa devia casar, diziam, com o conde de Latour-Yvelin e Susana com o marquês de Cazolles. Os dois tinham-se tornado familiares da casa, desses familiares a quem são concedidos favores especiais, prerrogativas sensíveis.

Jorge e Susana viviam numa espécie de intimidade fraterna e livre. Tagarelavam durante horas, troçavam de todos e parecia darem-se muito bem um com o outro. Nunca mais tinham voltado a falar do casamento possível da jovem nem de pretendentes que se tivessem apresentado.

Um dia que o patrão levara Jorge a almoçar em sua casa e que a senhora Walter, depois do almoço, fora atender um fornecedor, Jorge disse a Susana:

- Vamos dar pão aos peixinhos vermelhos.

Cada um deles pegou num grande pedaço de miolo de pão, de cima da mesa, e foram para a estufa.

Em volta da concha de mármore tinham sido postos almofadões para se poderem ajoelhar à roda do tanque e ver mais de perto os peixes a nadar.

Os dois jovens tomaram, cada um, o seu almofadão e, ajoelhados lado a lado, começaram a atirar para a água bolinhas de pão que amassavam com os dedos.

Os peixes, assim que os viram, dirigiram-se para eles a agitar a cauda, a bater com as barbatanas, a mover os seus olhos salientes, a dar voltas sobre si próprios, mergulhando para apanhar a presa redonda que se afundava, e vindo à superfície para pedir outra.

Tinham movimentos engraçados com a boca, corridas bruscas e rápidas, uma atitude estranha de monstrozinhos. Na areia doirada do fundo salientavam-se no seu vermelho-vivo, atravessando como chamas a onda transparente, ou mostrando, mal se detinham, a orla azul que bordava as suas escamas.

Jorge e Susana viam os seus próprios rostos invertidos na água e sorriam às suas imagens. Subitamente, ele disse em voz baixa:

- Não é bonito ter segredos para mim, Susana.

- Que segredos, Bel-Ami? - perguntou a jovem.

- Não se lembra daquilo que me prometeu, neste mesmo lugar, no dia da festa?

- Que foi?

- Consultar-me sempre que pedissem a sua mão.

- E então?

- Então, já pediram.

- Quem foi?

- Bem o sabe.

- Não. Juro que não.

- Sim, bem o sabe! Foi esse grande idiota do marquês de Cazolles.

- Em primeiro lugar, ele não é idiota.

- É possível; mas parece estúpido; está arruinado pelo jogo, gasto pelas noitadas. É na verdade um partido muito bonito para si tão simpática, tão fresca, tão inteligente...

- Que tem contra ele? - perguntou a jovem a sorrir.

- Eu? Nada!

- Tem sim. Ele não é isso tudo que disse.

- Ora, vamos! É um tolo e um intriguista.

Susana voltou-se e deixou de olhar para a água:

- Vejamos: que tem?

Jorge proferiu como se lhe arrancassem um segredo do fundo da alma:

- Tenho... tenho... tenho ciúmes dele.

Susana, moderadamente surpreendida, fez:

- O Jorge?!

- Sim, eu!

- Ora essa! Por quê?

- Porque estou apaixonado por si e bem o sabe, sua má!

Susana disse então, num tom severo:

- Está louco, Bel-Ami!

- Bem sei que estou louco - continuou Jorge. - Deveria, porventura, confessar-lhe isto, eu, um homem casado, a si, uma menina solteira? Sou mais do que louco, sou culpado, quase miserável. Não tenho esperança possível e perco a razão ao pensar nisso. Quando ouço dizer que se vai casar, tenho acessos de furor capazes de matar alguém. Perdoe-me isto, Susana!

Calou-se. Todos os peixes, aos quais já não atiravam miolos de pão, estavam imóveis, formados quase em linha, semelhantes a soldados ingleses, e olhavam para os rostos inclinados daquelas duas pessoas que já não se ocupavam deles.

A jovem murmurou, semitriste, semialegre:

- É pena que já esteja casado. Que quer? Não Lhe podemos dar remédio. Acabou-se!

Jorge voltou-se, subitamente, para ela, e disse-lhe, muito perto, rosto com rosto:

- Se eu fosse livre, casaria comigo?

Susana respondeu, com um tom sincero:

- Sim, Bel-Ami, casaria consigo, pois agrada-me muito mais do que todos os outros.

Du Roy levantou-se e balbuciou:

- Obrigado!... Obrigado!... Suplico-Lhe: não dê o sim a ninguém. Espere ainda algum tempo. Suplico-lho! Promete-mo?

A jovem murmurou, um tanto perturbada e sem compreender o que ele queria:

- Prometo-lho.

Du Roy atirou para a água o grande pedaço de pão e fugiu, como se tivesse perdido a cabeça, sem lhe dizer adeus.

Todos os peixes se atiraram avidamente para aquele monte de miolo de pão, que flutuava por não ter sido amassado com os dedos, e despedaçaram-no em dentadas vorazes.

Arrastaram-no para a outra extremidade do tanque, agitando-se por baixo dele, formando um cacho movediço, uma espécie de flor animada, uma flor viva caída à água com a corola para baixo.

Susana, surpreendida e inquieta, ergueu-se e regressou ao interior da casa, devagar. O jornalista já tinha partido.

Jorge entrou em sua casa muito calmo. Madalena estava a escrever cartas e o marido perguntou:

- Queres ir jantar sexta-feira a casa dos Walters? Eu irei.

A mulher hesitou:

- Não; estou adoentada. Prefiro ficar em casa.

- Como quiseres - retorquiu ele. - Ninguém te obriga.

Pegou no chapéu e voltou imediatamente a sair.

Havia muito tempo que Du Roy espiava a mulher, a vigiava, a seguia, procurando saber todos os seus passos. A hora que esperava tinha, finalmente, chegado. Não se deixara iludir com o tom em que ela dissera: «Prefiro ficar em casa.» Foi amável para ela, durante os dias que se seguiram. Parecia até alegre, o que não lhe sucedia havia muito tempo. A mulher dizia-Lhe:

- Estás a tornar-te muito gentil.

Du Roy vestiu-se cedo, na sexta-feira, para dar umas voltas antes de ir a casa do patrão, segundo disse. Partiu cerca das seis horas, depois de ter beijado a mulher, e foi tomar um fiacre à Praça de Notre-Dame-de-Lorette. Disse ao cocheiro:

- Pare em frente do número dezassete da Rua Fontaine e ficamos lá até Lhe dar ordem para seguir. Conduzir-me-á, então, ao restaurante do Coq-Faisan,, na Rua Lafayette.

O fiacre pôs-se a caminho ao trote lento do cavalo, e Jorge baixou as cortinas. Logo que chegou em frente da sua porta não despregou mais os olhos dela. Passados dez minutos de espera viu sair Madalena, que se dirigiu para os bulevares exteriores. Logo que a sua mulher se afastou, Jorge meteu a cabeça pela portinhola e disse:

- Vamos!

O fiacre pôs-se em andamento e deixou-o em frente do Coq-Faisan, restaurante burguês, conhecido no bairro. Du Roy entrou na sala comum e comeu lentamente. De tempos a tempos consultava as horas no seu relógio. Às sete e meia, depois de ter bebido o seu café com dois cálices de aguardente e fumado,

com lentidão, um bom charuto, saiu, chamou outro carro que passava vazio e mandou-o seguir para a Rua La Rochefoucauld.

Subiu, sem perguntar nada ao porteiro, até ao terceiro andar da casa que indicara, e quando uma criada Lhe abriu a porta perguntou:

- O senhor Gilberto de Lorme está em casa, não é verdade?

- Está, sim, senhor - respondeu a criada, que o fez entrar para a sala, onde esperou alguns momentos.

Pouco depois, apareceu um homem alto, condecorado, de aspecto militar e cabelo grisalho, embora fosse ainda novo. Du Roy cumprimentou-o e disse:

- Como previa, senhor comissário, minha mulher janta com o seu amante no apartamento que têm alugado na Rua des Martyrs.

- Estou à sua disposição, meu caro senhor - disse o comissário de Polícia.

- Só pode proceder até às nove horas - prosseguiu Du Roy -, não é verdade? Passada essa hora, não pode entrar num domicílio para verificação de um adultério?

- O limite é às sete horas, no Inverno, e às nove, a partir do fim do mês passado. Como estamos a cinco de Abril, podemos proceder até às nove horas.

- Muito bem, senhor comissário. Tenho em baixo um carro e podemos levar connosco os agentes que o acompanharão. Depois, esperaremos um bocadinho em frente da porta. Quanto mais tarde entrarmos mais probabilidades teremos de os surpreender em flagrante delito.

- Como o senhor quiser.

O comissário saiu e voltou pouco depois, vestido com um sobretudo que ocultava a faixa tricolor. Afastou-se para deixar passar Du Roy; mas o jornalista, cujo espírito estava preocupado, recusava-se a ser o primeiro a sair e repetia:

- Faça o favor... faça o favor...

- Queira ter a bondade, meu caro senhor... estou em minha casa - proferiu o comissário.

O outro, imediatamente, atravessou a porta, com um cumprimento.

Foram a seguir ao Comissariado de Polícia buscar três agentes à paisana, que já estavam à espera, pois Jorge prevenira que a surpresa se daria naquela noite. Um dos agentes subiu para a boleia, ao lado do cocheiro.

Os outros dois entraram para o carro, que partiu para a Rua des Martyrs. Du Roy informou:

- Tenho o plano do apartamento, que é no segundo andar. Encontraremos, primeiro, um vestibulozinho e depois o quarto de dormir. Os compartimentos são a seguir, e não há nenhuma saída que possa facilitar a fuga. Há perto daqui um serralheiro que está prevenido e virá se o senhor o requisitar.

Quando chegaram em frente da casa indicada eram só oito horas e um quarto e esperaram, calados, durante cerca de vinte minutos. Quando viu que iam soar os três quartos para as nove, Du Roy disse:

- Vamos lá!

Subiram as escadas, sem dizer nada ao porteiro, que aliás não deu por eles. Um dos agentes ficou na rua para vigiar a saída. Os quatro homens pararam no segundo andar e Jorge aplicou o ouvido contra a porta e depois olhou pela fechadura. Não viu nem ouviu nada, e tocou à campainha. O comissário disse aos agentes:

- Fiquem aqui, prontos para entrar se os chamar.

Esperaram mais uns momentos e, ao cabo de dois ou três minutos, Jorge voltou a tocar à campainha várias vezes seguidas. Ouviram um ruído ao fundo do apartamento e depois aproximaram-se com passos leves. Era alguém que vinha espreitar. O jornalista bateu então com força na madeira da porta, com os nós dos dedos. Uma voz de mulher, que procurava disfarçar-se, perguntou:

- Quem é?

- Abra, em nome da lei! - retorquiu o comissário de Polícia.

- Quem é o senhor? - interrogou a voz.

- Sou o comissário de Polícia. Abra, ou mando arrombar a porta.

- Que quer o senhor? - continuou a voz.

- Sou eu - disse Du Roy. - É inútil procurar escapar-nos.

O passo leve dos pés nus afastou-se e voltou ao cabo de alguns segundos.

- Se não abrir, arrombamos a porta! - disse Jorge, que fazia força na maçaneta de cobre da porta e com o ombro a empurrava lentamente.

Como não obtivesse resposta, deu, de súbito, um empurrão tão vigoroso que a velha fechadura daquela casa de quartos mobilados cedeu. Os parafusos arrancados saíram da madeira e Jorge esteve quase a cair para cima de Madalena, que estava de pé na antecâmara, só com a camisa e uma saia branca, de pernas nuas, cabelo despenteado e uma vela na mão.

- É ela! Estão apanhados! - exclamou Jorge, que se precipitou para o interior do apartamento.

O comissário, que tirara o chapéu, seguiu-o. A mulher, desorientada, foi atrás deles a iluminar-lhes o caminho. Atravessaram a sala de jantar, de que ainda não tinha sido levantada a mesa, vendo-se em cima dela os restos do repasto: garrafas de champanhe vazias, uma terrina de foie gras aberta, a carcaça de um frango e pedaços de pão mordidos. Duas travessas em cima do aparador estavam cheias de cascas de ostras.

O quarto de dormir parecia ter sido teatro de uma luta. Um vestido estava estendido em cima de uma cadeira, uma ceroula estava a cavalo no braço de uma poltrona. Quatro botinas, duas grandes e duas pequenas, viam-se caídas de lado, junto do leito.

Era um quarto de casa de hóspedes, de móveis vulgares, onde flutuava esse cheiro odioso dos aposentos de hospedaria, odor emanado das cortinas, dos colchões, das paredes, das cadeiras, o fartum de todas as pessoas que tinham dormido ou vivido ali, por um dia ou seis meses, naquela habitação pública, e onde tinham deixado o seu cheiro a humanidade. Esse cheiro, junto aos anteriores, formara, com o decorrer do tempo, um fedor confuso, adocicado e intolerável, sempre o mesmo em tais sítios.

Um prato com bolos, uma garrafa de licor e dois cálices ainda semicheios ocupavam a pedra do fogão, onde o grande relógio de bronze estava oculto por um chapéu de homem.

O comissário voltou-se, subitamente, e, fitando Madalena nos olhos, perguntou:

- É a senhora Clara-Madalena Du Roy, esposa legítima do senhor Próspero-Jorge Du Roy, aqui presente?

- Sou, sim, senhor - articulou ela com voz sufocada.

- Que faz aqui?

Madalena não respondeu e o comissário insistiu:

- Que faz aqui? Encontro-a fora de sua casa, quase despida, numa casa de hóspedes. Que veio cá fazer?

O comissário esperou alguns momentos; mas como a mulher continuasse calada, declarou:

- Visto que não o quer confessar, vejo-me forçado a fazer uma verificação.

Via-se, no leito, a forma de um corpo, oculto sob o lençol. O comissário aproximou-se:

- Quem é o senhor?

O homem, oculto com o lençol, não se mexeu. Parecia estar de costas, com a cabeça metida na almofada. O comissário tocou no que lhe parecia ser o ombro e insistiu:

- O senhor não me force, peço-lhe, a qualquer acto...

O corpo deitado continuava tão imobilizado como se estivesse morto. Du Roy, que avançara vivamente, pegou na coberta, puxou por ela e arrancou a almofada, descobrindo o rosto lívido de Laroche-Mathieu. Inclinou-se para ele, fremente, com vontade de lhe agarrar no pescoço e o estrangular, e disse-lhe de dentes cerrados:

- Tenha ao menos a coragem da sua infâmia!

- Quem é o senhor? - voltou a perguntar o comissário e, como não obtivesse resposta, acrescentou: - Sou comissário de Polícia e intimo-o a dizer o seu nome!

Jorge, que tremia sob o domínio da cólera, gritou:

- Responde, cobarde, ou serei eu quem declinará o seu nome.

- Senhor comissário - balbuciou, então, o homem deitado -, não deve consentir que este indivíduo me insulte. É consigo ou com ele que tenho de me entender? É a si ou a ele que devo responder?

Parecia ter a boca seca; o comissário respondeu:

- A mim, a mim só, senhor. Pergunto-lhe: quem é?

O outro calou-se. Tinha o lençol subido até ao queixo e piscava os olhos assustados. O seu bigodinho retorcido parecia muito negro naquele rosto pálido.

- Não quer responder? - insistiu o comissário. Então, sou obrigado a detê-lo. Em todo o caso, levante-se. Interrogá-lo-ei quando estiver vestido.

O corpo agitou-se no leito e a boca murmurou:

- Não posso... na sua presença.

- Por quê? - perguntou o comissário.

- É porque estou... estou... estou completamente nu - balbuciou o outro.

Du Roy pôs-se a rir, apanhou uma camisa caída no chão, atirou-a para cima da cama e exclamou:

- Ora, deixe-se disso! Levante-se!... Visto que se despiu diante de minha mulher, pode muito bem vestir-se diante de mim.

Jorge voltou-Lhe as costas e dirigiu-se para o fogão. Madalena recobrara o seu sangue-frio e como via tudo perdido estava disposta a todas as ousadias. Um desafio audacioso punha-lhe um estranho brilho nos olhos. Enrolou um pedaço de papel e acendeu, como para uma recepção, as dez velas dos candelabros de mau gosto colocados nas extremidades da pedra do fogão. Depois, encostou-se ao rebordo de mármore e estendeu para o fogo amortecido um dos seus pés nus, que levantava a saia branca, mal presa nos quadris. A seguir, tirou um cigarro de um maço cor-de-rosa, acendeu-o e pôs-se a fumar.

O comissário voltara-se para Madalena, enquanto esperava que o seu cúmplice se vestisse. A mulher perguntou-Lhe com insolência:

- O senhor exerce com frequência esta missão?

- O menos possível, minha senhora - respondeu o comissário, gravemente.

Madalena riu-lhe na cara ao dizer:

- Felicito-o, pois não é nada decente.

Madalena afectava não olhar, não ver sequer seu marido. O outro, que se levantara da cama, vestia-se. Enfiara a calça, calçara as botas e aproximava-se, a vestir o colete. O comissário de Polícia voltou-se para ele:

- Agora, o senhor pode dizer-me quem é?

O outro não respondeu e o comissário proferiu:

- Vejo-me forçado a prendê-lo.

Então o homem exclamou bruscamente:

- Não me toque. Sou inviolável!

Du Roy dirigiu-se a ele, como para lhe bater, e rugiu-Lhe na cara:

- Há flagrante delito... flagrante delito!... Posso mandá-lo prender, se quiser... sim, posso-o! - depois, com tom vibrante: - Este homem chama-se Laroche-Mathieu, ministro dos Negócios Estrangeiros.

O comissário de Polícia recuou, estupefacto, e balbuciou:

- É verdade, senhor? Quer dizer-me, finalmente, quem é?

O homem decidiu-se e proferiu com veemência:

- Desta vez, esse miserável não mentiu. Chamo-me, com efeito, Laroche-Mathieu, ministro - estendeu o braço para o peito de Jorge, onde brilhava um pontinho vermelho, e acrescentou: - O bandalho que aqui está usa na lapela a Cruz de Honra que Lhe dei.

Du Roy tornara-se lívido. Com um gesto rápido, arrancou da botoeira a tirinha de fita e atirou-a para o fogão, dizendo:

- Eis para que serve uma condecoração que vem de malandros da sua espécie.

Estavam frente a frente, com os dentes quase a tocarem-se, um magro, de bigode caído, o outro gordo, com o bigode encaracolado. O comissário colocou-se rapidamente entre eles e afastou-os com as mãos:

- Meus senhores, estão a esquecer quem são, a faltar à dignidade!

Ambos se calaram e voltaram as costas um ao outro. Madalena, imóvel, fumava, sempre a sorrir. O comissário de Polícia continuou:

- Senhor ministro, surpreendi-o, sozinho, com a senhora Du Roy, aqui presente, e que se encontrava quase nua. O senhor estava deitado e o vestuário estava disperso ao acaso por todo o apartamento. Isto constitui um flagrante delito de adultério. Não pode negar a evidência. Que tem a responder a isto?

- Não tenho nada a dizer - murmurou Laroche-Mathieu. - Cumpra o seu dever.

O comissário dirigiu-se a Madalena:

- A senhora confessa que este senhor é seu amante?

- Não o nego - respondeu Madalena descaradamente.É meu amante!

- Isso me basta.

Em seguida, o comissário tomou algumas notas acerca da disposição e estado do aposento. Quando acabou de escrever, o ministro, que esperava de sobretudo no braço e chapéu na mão, perguntou:

- O senhor ainda tem necessidade de mim? Que devo fazer? Posso retirar-me?

Du Roy voltou-se para ele, a sorrir com insolência:

- Por quê? Já acabámos. O senhor pode voltar a deitar-se;

vamos deixá-los sós - tocou no braço do comissário e disse: - Retiremo-nos, senhor comissário, já nada temos a fazer aqui.

Um tanto surpreendido, o funcionário da Polícia seguiu-o, mas no limiar da porta Jorge deteve-se para o deixar passar. O outro recusou, por cerimónia, mas Du Roy insistiu:

- Passe, senhor comissário.

O comissário disse:

- Depois do senhor.

Então o jornalista, num cumprimento e com um tom de palidez irónico:

- É a sua vez, senhor comissário; aqui estou quase em minha casa...

Fechou depois a porta devagar, com um ar discreto.

Uma hora mais tarde, Jorge Du Roy entrou na sede da Vie Française. O senhor Walter já lá estava, pois continuava a dirigir e a vigiar com solicitude o jornal, cuja influência crescera de modo extraordinário e favorecia muito as crescentes operações do seu banco. O director levantou a cabeça e exclamou:

- Ora essa! Está aqui! Parece um bocado esquisito! Por que não foi jantar lá a casa? Donde saiu com essa cara?

O jornalista, seguro do efeito que ia produzir, declarou, acentuando bem cada uma das suas palavras:

- Acabo de deitar abaixo o ministro dos Negócios Estrangeiros.

O outro julgou que ele estava a brincar:

- De deitar abaixo... Como?

- Vou modificar o gabinete. Ora aí está! Já não é sem tempo, pois era preciso escorraçar aquele patife.

O velho Walter, estupefacto, julgou que o seu cronista político estava embriagado e murmurou:

- Vejamos, isso não é razoável.

- Isso é que é. Acabo de surpreender o senhor Laroche-Mathieu em flagrante delito de adultério com minha mulher. O comissário de Polícia foi quem verificou os factos. O ministro está liquidado.

Walter, surpreendido, levantou completamente os óculos para a testa e perguntou:

- Não está a brincar comigo?

- De modo nenhum. Vou até fazer um eco a esse respeito.

- Que quer, então?

- Deitar abaixo esse canalha, esse miserável, esse malfeitor público! - pousou o chapéu em cima de uma poltrona e acrescentou: - Acautelem-se os que se atravessarem no meu caminho. Nunca perdoo.

O director hesitava ainda em compreender e murmurou:

- Mas... a sua mulher?

- Amanhã, apresentarei o meu pedido de divórcio. Devolvo-a ao falecido Forestier.

- Quer divorciar-se?

- Evidentemente. Caíra no ridículo, mas era preciso fazer-me parvo para os apanhar. Já o consegui; agora, sou senhor da situação.

O senhor Walter não voltava a si da surpresa. Olhava para Du Roy, com olhos espantados, e pensava: «Apre! Com este sujeito é preciso ter cautela.»

- Eis-me livre - prosseguiu Jorge. - Tenho uma certa fortuna. Apresentarei a minha candidatura para as eleições parciais de Outubro, na minha terra, onde sou bastante conhecido. Não podia propor-me nem ser respeitado com aquela mulher, de quem todos suspeitavam. Apanhara-me como um patinho, engodou-me e aprisionou-me. Desde que descobri o seu jogo, vigiava-a, à desavergonhada - pôs-se a rir e acrescentou: - O pobre Forestier é que era coitadinho... sem o saber, um coitadinho confiante e tranquilo. Eis-me liberto da tinha que ele me pegara. Tenho as mãos livres. Agora, posso ir longe. - Pusera-se a cavalo numa cadeira e repetiu, como se isso o aliviasse: - Irei longe!

O velho Walter continuava a olhar para ele com olhos mortiços, pois os óculos mantinham-se levantados para a testa, e dizia para si: «Sim, este malandro irá longe.»

- Vou redigir o eco - disse Jorge, pondo-se de pé. - É preciso fazê-lo com discrição; mas, sabe, será terrível para o ministro. É um homem ao mar. Não o poderão salvar. A Vie Française não tem já nenhum interesse em poupá-lo.

O velho hesitou alguns instantes. Depois, tomou uma decisão:

- Faça-o; tanto pior para os que se metem nesses sarilhos.