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Bel Ami.  Guy de Maupassant
Capítulo 18.
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Estava escuro no apartamentozinho da Rua de Constantinopla, pois Du Roy e Clotilde de Marelle, que se encontraram à porta, tinham entrado rapidamente e ela disse-lhe, de chofre, sem lhe dar tempo de abrir as persianas:

- Então, vais casar com Susana Walter?

Jorge fez um sinal afirmativo e acrescentou, com voz doce:

- Não sabias?

Clotilde, de pé na sua frente, continuou, indignada, furiosa:

- Casas com Susana Walter! É forte! É muito forte! Há três meses que me enches de mimos para ocultar isso. Todos o sabiam, excepto eu. Foi meu marido quem mo disse!

Du Roy riu, trocista, mas um tanto vexado, apesar de tudo. Depôs o chapéu em cima da pedra do fogão e sentou-se numa poltrona. Clotilde olhava para ele de frente e proferiu com voz baixa e irritada:

- Desde que deixaste a tua mulher preparavas isso, mas tinhas-me, gentilmente, como amante, durante a interinidade? Que sem-vergonha és!

- Sem-vergonha por quê? - perguntou Jorge. - Tinha uma mulher que me enganava; surpreendi-a em flagrante; obtive o divórcio e vou casar com outra. Que há nisso de estranho?

- Oh! - exclamou Clotilde fremente. - Como és velhaco e perigoso!

- Ora! - fez Jorge, que voltou a sorrir. - Os imbecis, os ingénuos, são sempre enganados!

- Como deveria ter adivinhado o que eras, desde o começo! - prosseguiu Clotilde, que lá tinha a sua ideia. - Mas, não; podia lá prever que fosses o crápula que és.

- Peço-te o favor - replicou Jorge com ar digno - de prestar atenção às palavras que empregas.

- Como? - revoltou-se ela contra aquela indignação.Queres que calce luvas para falar contigo agora? Tens-te portado comigo como um bandalho desde que te conheço e pretendes que não to diga? Enganas toda a gente, exploras todos, andas à caça de prazer e de dinheiro por toda a parte e queres que te tratem como um homem honesto?

Du Roy levantou-se, com os lábios a tremer:

- Cala-te ou ponho-te lá fora!

- Pões-me lá fora?... - balbuciou Clotilde. - Pões-me lá fora!... Tu?... Tu!...

Quase não podia falar de tão sufocada que estava pela cólera, mas bruscamente, como se a porta do seu furor tivesse estilhaçado, explodiu:

- Pôr-me lá fora?! Esqueces, então, que fui eu quem pagou este alojamento desde o primeiro dia! Ah! Sim, tiveste-o por tua conta de tempos a tempos; mas quem o alugou?... Fui eu!... Quem o conservou?... Fui eu!... E queres pôr-me fora daqui? Cala-te, miserável! Julgas que não sei como roubaste a Madalena metade da herança de Vaudrec? Julgas que não sei que desonraste Susana para a forçar a casar contigo...

Jorge agarrou-a pelos ombros e sacudiu-a com força:

- Não fales dela! Proíbo-te!

- Dormiste com ela, sim; sei-o! - gritou Clotilde.

Jorge estava disposto a ouvir tudo, mas aquela calúnia exasperava-o. As verdades que a amante lhe tinha atirado à cara, pouco antes, faziam-lhe ter contracções de raiva no íntimo, mas aquela falsidade acerca da jovem que ia ser sua mulher despertava-lhe nas mãos um apetite furioso de bater. Repetiu:

- Cala-te!... Tem cuidado!... Cala-te...

Abanava-a como se abana um ramo para fazer cair os frutos. A amante rugia, despenteada, com a boca muito aberta, os olhos desvairados:

- Dormiste com ela!

Jorge deixou-a e atirou-lhe à cara uma tal bofetada que Clotilde foi cair contra a parede. Voltou-se, porém, para ele e, de punhos cerrados, vociferou ainda uma vez:

- Dormiste com ela!

Jorge atirou-se a ela e, com ela por baixo de si, bateu-Lhe como se malhasse num homem. Clotilde calou-se de súbito e pôs-se a gemer sob a violência das pancadas.

Já não se mexia e, com a cara oculta no ângulo do sobrado com a parede, soltava gritos lamentosos.

Jorge deixou de lhe bater e ergueu-se. Deu alguns passos pelo quarto para recobrar o seu sangue-frio. Acudiu-Lhe uma ideia: passou ao aposento contíguo, encheu uma bacia de água fresca e mergulhou nela a cabeça. Em seguida, lavou as mãos e voltou para ver o que fazia a amante, enquanto enxugava as mãos cuidadosamente.

Clotilde não se mexera. Continuava estendida por terra, a chorar baixinho. Jorge perguntou:

- Quando acabas de lacrimejar?

Clotilde não respondeu. Jorge ficou de pé no meio do aposento, um tanto contrariado e um tanto envergonhado, ante aquele corpo estendido na sua frente. Depois, de súbito, tomou uma decisão, pegou no chapéu que estava em cima da pedra do fogão e saiu, dizendo:

- Boa tarde! Dá a chave à porteira quando estiveres pronta. Não estou para ficar à espera de que respondas.

Saiu, fechou a porta, entrou na loja do porteiro e disse:

- A senhora ficou; sairá daqui a bocado. Diga ao senhorio que me despeço e saio no primeiro de Outubro. Estamos a dezasseis de Agosto, estou, portanto, dentro do limite do prazo.

Partiu, a passo largo, pois tinha voltas urgentes a dar, para fazer as últimas compras para o seu enxoval.

O casamento estava marcado para 20 de Outubro, em seguida à reabertura das Câmaras. Realizar-se-ia na Igreja da Madalena. Tinham falado muito do caso, sem saberem ao certo a verdade. Circulavam diferentes versões. Murmuravam que tinha havido rapto, mas ninguém tinha a certeza de nada.

Segundo diziam os criados, a senhora Walter, que não voltara a falar com o futuro genro, envenenara-se de cólera, na noite em que o casamento fora decidido, depois de ter mandado a filha para um convento, à meia-noite.

Tinham-na encontrado quase morta e certamente não se restabeleceria mais. Parecia uma velha, com o cabelo completamente grisalho. Dera-lhe para a devoção e comungava todos os domingos.

Nos primeiros dias de Setembro, a Vie Française anunciou que o barão Du Roy de Cantei passava a ser seu redactor principal,

conservando o senhor Walter o seu cargo de director.

Foi então recrutado um batalhão de cronistas conhecidos e especialistas de ecos, redactores políticos, críticos de arte e de teatro, arrancados, à força de dinheiro, aos grandes jornais poderosos e ponderados. Os velhos jornalistas, os jornalistas graves e respeitáveis, já não encolhiam os ombros ao falar da Vie Française. O triunfo rápido e completo dessa folha apagara o desdém que os escritores sérios tinham por ela, nos seus começos.

O casamento do seu redactor principal foi o que se chama úm acontecimento parisiense. Jorge du Roy e os Walters tinham despertado bastante a curiosidade nos últimos tempos. Todas as pessoas cujos nomes vêm citados nos ecos tinham resolvido assistir à cerimónia.

O acontecimento realizou-se num dia claro de Outubro. Desde as oito horas da manhã, todo o pessoal da Igreja da Madalena, ao estender, nos degraus do alto adro do templo que domina a Rua Royale, um largo tapete vermelho, obrigava a deter todos os transeuntes, pois isso anunciava ao povo de Paris que se ia realizar ali uma grande cerimónia.

Os empregados que iam para os seus escritórios, as operariazinhas, os moços de armazém, paravam e pensavam, vagamente, na gente rica que despendia tanto dinheiro para se casar.

Por volta das dez horas, os curiosos começaram a juntar-se. Ficavam alguns minutos, à espera de aquilo começar, talvez, imediatamente, e depois iam-se embora. Às onze horas os primeiros destacamentos de agentes da Polícia chegaram e, imediatamente, puseram-se a fazer circular a multidão, visto estarem a formar-se grupos a todos os instantes.

Os primeiros convidados apareceram dentro em breve. Eram aqueles que desejavam ficar nos bons lugares, para ver tudo bem. Tomaram os bancos da frente, ao longo da nave central. Aos poucos, vieram outros e as senhoras faziam, com os seus vestidos, um ruído de sedas. Os homens, severos, quase todos calvos, andavam com uma correcção mundana, mais grave ainda em tal lugar.

A igreja enchia-se lentamente. O sol entrava pelo imenso pórtico e ia iluminar as primeiras filas dos convidados.

Na capela-mor, que parecia um tanto sombria, o altar, coberto de círios, lançava uma claridade amarelada, humilde e pálida, em face do foco de luz do pórtico.

As pessoas conhecidas chamavam-se por sinais e reuniam-se em grupos, os homens de letras, menos respeitosos do que os mundanos, conversavam a meia voz e observavam as mulheres. Norberto de Varenne, que procurava um amigo, descobriu Jaime Rival, no meio das linhas de bancos, e foi ter com ele. Disse-lhe:

- Muito bem! O futuro pertence aos espertalhões!

O outro, que não era invejoso, retorquiu:

- Ainda bem. Fica com a sua vida arrumada.

Puseram-se a nomear aqueles que iam descobrindo, e Rival perguntou:

- Sabe que é feito da mulher dele?

- Sim e não - respondeu o poeta, com um sorriso. - Vive muito retirada, segundo me disseram, no Bairro de Montmartre; mas... há sempre um mas... há tempos para cá leio na Plume artigos políticos que se parecem extraordinariamente com os de Forestier e Du Roy. São assinados por um tal João le Dol, um rapaz, bonito moço, esperto, da mesma raça do nosso amigo Jorge, e que é das relações da sua ex-esposa. Daí concluo que ela gostava dos estreantes e gostará deles sempre. Aliás, é rica. Para alguma coisa Vaudrec e Laroche-Mathieu foram frequentadores assíduos de sua casa...

- Não é nada mal, essa Madalenazinha - declarou Rival. - É muito fina e muito esperta! Deve ser ainda um bom bocado. Diga-me cá, porém, como pode ser casar-se Jorge pela igreja depois de se ter divorciado?

- Casa-se na igreja - respondeu Norberto de Varenne - porque, para a Igreja, não era considerado casado da primeira vez.

- Como pode ser isso?

- O nosso Bel-Ami, por indiferença ou por economia, julgou que o registo civil bastava, ao casar com Madalena Forestier. Dispensara, portanto, a bênção eclesiástica. Isso significava, para a nossa Santa Madre Igreja, que vivia em simples estado de concubinagem. Por consequência, apresenta-se hoje, perante ela, como solteiro, e ela concede-lhe todas as suas pompas que devem custar caro ao velho Walter.

O murmúrio da multidão que aumentava crescia também na vasta nave. Ouviam-se vozes que quase falavam alto. Apontavam a dedo as pessoas célebres, que tomavam atitudes, contentes por serem vistas, e conservavam a sua pose adoptada para o público, habituadas como estavam a mostrar-se assim em todas as festas de que eram, segundo julgavam, um ornamento indispensável, como objectos de arte.

- Diga-me, meu caro - continuou Rival -, como frequenta a casa do patrão, é verdade que a senhora Walter e Du Roy não se falam?

- É verdade. A mãe não lhe queria dar a pequena; mas Du Roy tinha o pai nas mãos por causa dos cadáveres descobertos, segundo parece, e que foram enterrados em Marrocos. Ameaçou, portanto, o velho, com revelações tremendas. Walter lembrou-se do exemplo de Laroche-Mathieu e cedeu imediatamente. A mãe, contudo, teimosa como todas as mulheres, jurou que nunca mais dirigiria a palavra ao futuro genro. São muito bem apanhados quando estão em presença um do outro. Ela tem o ar de uma estátua da Vingança e ele fica muito comprometido, embora procure disfarçar, pois é dos que se sabem governar, esse menino!

Apareciam confrades a apertar-lhes as mãos. Ouviam-se fragmentos de conversas políticas. Vago como o murmúrio longínquo do mar, o marulhar do povo comprimido diante da igreja entrava pelo pórtico com o sol e subia até à cúpula dominando a agitação, mais discreta, do público de escol que enchia o templo.

Subitamente, o bedel bateu três vezes no pavimento com a sua alabarda. Toda a assistência se voltou com um longo roçagar de sedas e um arrastar de cadeiras. A noiva apareceu, então, pelo braço de seu pai, aureolada pela luz viva do pórtico. Tinha o ar de um encantador brinquedo, toda de branco e coroada por flores de laranjeira.

Parou alguns momentos no limiar e, quando deu o primeiro passo na nave, os órgãos soltaram um grito álacre com as suas vibrantes vozes metálicas a anunciar a entrada da noiva.

A jovem caminhava, de cabeça baixa, mas nada tímida, vagamente comovida, gentil, encantadora, uma miniatura de noiva. As senhoras sorriam e ciciavam ao vê-la passar;

os homens murmuravam: «Encantadora! Adorável!» O senhor Walter caminhava com um exagerado ar de dignidade, um tanto pálido e com os óculos encavalitados no nariz.

Atrás deles, quatro damas de honor, todas vestidas de cor-de-rosa, e muito bonitas as quatro, formavam uma espécie de corte àquela rainha de um dia. Quatro pajens, bem escolhidos, conformes com o modelo estabelecido, andavam com passo mesurado que parecia regido por um mestre-de-dança.

Seguia-os a senhora Walter, que dava o braço ao pai do outro genro, o marquês de Latour-Yvelin, que tinha setenta e dois anos. Na verdade, não caminhava, arrastava-se, prestes a desmaiar a cada movimento que fazia. Sentia que os seus pés se colavam às lajes, que as pernas se recusavam a ir para a frente, e o seu coração batia-lhe no peito como um animal ansioso por se evadir.

Virgínia Walter emagrecera. O seu cabelo branco tornava ainda mais pálido e mais cavado o seu rosto. Olhava a direito na sua frente, para não ver ninguém, para só pensar, talvez, naquilo que a torturava.

Depois, apareceu Jorge du Roy, acompanhado por uma senhora de idade, desconhecida. De cabeça erguida, sem mover os seus olhos fixos, duros, sob as sobrancelhas um tanto franzidas. O bigode parecia irritado por cima do lábio. Achavam-no um bonito rapaz. Tinha uma atitude altiva, a cintura fina, a perna esguia. Na botoeira da casaca sobressaía, como uma gota de sangue, a fitinha vermelha da Legião de Honra.

A seguir, vinham os outros parentes. Rosa dava o braço ao senador Rissolin. Estava casada havia seis semanas e seu marido dava o braço à viscondessa de Percemur.

Finalmente, era a procissão variegada dos amigos ou aliados de Du Roy, por ele apresentados à sua nova família, pessoas conhecidas do mundanismo parisiense, que se tornam imediatamente íntimas e, quando é preciso, primos afastados da gente rica acabada de fazer fortuna, fidalgos decadentes, arruinados, tarados e, por vezes, casados, o que ainda é pior.

Eram o senhor de Belvigne, o marquês de Banjolin, o conde e a condessa de Renevel, o duque de Ramorano, o príncipe de Kravalow, o cavaleiro de Valréali.

Depois, eram os convidados de Walter, o príncipe de Guerche, o duque e a duquesa de Ferracine, a bela marquesa de Dunes, etc. Alguns parentes da senhora Walter tinham um ar de gente importante da província no meio daquele desfile.

Os órgãos continuavam a soar e espalhavam pelo enorme monumento os acentos, sonoros e rítmicos, das suas gargantas brilhantes, que gritavam ao céu a alegria e a dor dos homens. Fecharam os grandes batentes do pórtico e, subitamente, reinou a sombra como se o sol tivesse sido posto na rua.

Jorge ajoelhara-se ao lado de sua mulher, na capela-mor, em face do altar iluminado. O novo bispo de Tânger, de mitra e báculo, saiu da sacristia para os unir em nome do Eterno. Fez as perguntas do estilo, trocou as alianças, proferiu as palavras que ligam como cadeias e dirigiu aos nubentes uma alocução cristã. Falou, longamente, da fidelidade matrimonial em termos pomposos. Era um homem gordo, de alta estatura, um destes bons prelados para os quais o ventre é um sinal de majestade.

Um ruído de soluços fez voltar algumas cabeças. Era a senhora Walter que chorava com o rosto oculto nas mãos. Tivera de ceder. Que poderia fazer? Desde o dia em que expulsara do seu quarto a filha a quem se recusara a beijar quando regressou, desde que tinha dito, em voz baixa, a Du Roy, que a cumprimentara cerimoniosamente: «É o ser mais vil que conheço; não me fale jamais, pois não Lhe responderei!», sofria de uma intolerável e inextinguível tortura.

Odiava a filha com um ódio implacável, feito de paixão exasperada e de ciúme dilacerante, estranho ciúme de mãe e de amante, inconfessável, feroz, ardente como uma chaga viva. Via, naquele momento, um bispo a casar a sua filha com o seu amante, numa igreja, perante duas mil pessoas e diante dela! Não podia dizer nada? Não podia impedir aquilo? Não podia gritar: «Mas esse homem é meu, é o meu amante. Essa união que abençoam é infame!» Muitas senhoras, enternecidas, murmuravam:

- «Como a pobre mãe está comovida!»

O bispo declamava:

- Encontram-se entre os felizes da terra, no meio dos mais ricos e mais respeitáveis. O senhor, a quem o talento eleva acima dos outros, que escreve, que ensina, que aconselha,

que dirige o povo, tem uma bela missão a desempenhar, um belo exemplo a dar...

Du Roy ouvia-o, impante de orgulho. Um prelado da Igreja romana falava-lhe assim, a ele! Sentia, atrás de si uma multidão ilustre, vinda ali por sua causa. Parecia-lhe que uma força o impelia, o elevava. Tornava-se um dos senhores da terra, ele, filho de dois pobres camponeses de Canteleu!

Viu-os, subitamente, na sua humilde venda no alto da colina, por cima do grande vale de Ruão, seu pai e sua mãe a darem de beber aos labregos da aldeia. Enviara-lhes cinco mil francos quando herdara do conde de Vaudrec. Iria mandar-lhes agora cinquenta mil, para comprarem uma terrinha e ficariam contentes, felizes.

O bispo terminara a sua arenga. Um padre, com a estola bordada a ouro, subira ao altar e os órgãos recomeçaram a celebrar a glória dos novos esposos. Ora lançavam clamores prolongados, enormes, inchados como vagas, tão sonoras e tão potentes que parecia quererem erguer e fazer explodir a abóbada, para se espalharem pelo céu azul.

O seu ruído vibrante enchia toda a igreja, fazia vibrar a carne e as almas. Depois, subitamente, acalmavam-se e notas finas, ligeiras, corriam pelo ar, afloravam os ouvidos como sopros suaves. Eram cânticos graciosos, miudinhos, saltitantes, que esvoaçavam como pássaros. De repente, essa música graciosa avolumava de novo, tornava-se terrível de força e amplitude, como se um grão de areia se transformasse num mundo.

Em seguida, vozes humanas soaram e passaram por cima das cabeças inclinadas. Eram Vari e Landeck, da ópera, que cantavam. O incenso espalhava um odor fino de benjoim e no altar consumava-se o sacrifício divino: o Homem-Deus, ao apelo do levita, descia à terra para consagrar o triunfo do barão Jorge du Roy.

Bel-Ami, de joelhos, ao lado de Susana, baixara a fronte. Sentia-se naquele momento quase crente, quase religioso, cheio de reconhecimento para a divindade que assim o favorecera tanto, que o tratava com tantas atenções. Sem saber ao certo a quem se dirigia, agradecia-Lhe todos os seus triunfos.

Quando a cerimónia terminou levantou-se e, dando o braço a sua mulher, Jorge dirigiu-se para a sacristia.

Começou então o interminável desfile da assistência. Jorge, delirante de alegria, julgava-se um rei a quem o seu povo ia aclamar. Apertava as mãos, balbuciava palavras que não significavam nada, respondia aos cumprimentos: «Muito obrigado.»

De súbito, descobriu a senhora de Marelle e a recordação de todos os beijos que lhe dera e ela retribuíra, a lembrança de todas as suas carícias, das suas gentilezas, o som da sua voz, o gosto da sua boca, fizeram-Lhe passar pelo sangue o desejo brusco de voltar a possuí-la. Estava muito bonita, elegante, com o seu ar agarotado, os seus olhos vivos. Jorge pensava: «Que excelente amante, apesar de tudo.»

Clotilde aproximou-se, um tanto tímida, um tanto inquieta, e estendeu-Lhe a mão, que Jorge recebeu na sua e reteve. Então, sentiu o apelo discreto daqueles dedos de mulher, a doce pressão que perdoa e recomeça. Ele próprio apertou essa mão minúscula, como para lhe dizer: «Gosto de ti sempre; sou teu!» Os olhos de ambos encontraram-se, sorridentes, brilhantes, cheios de ternura. Clotilde murmurou com a sua voz deliciosa:

- Até breve, meu caro senhor.

- Até breve, minha senhora! - respondeu Jorge, alegremente.

Clotilde afastou-se porque outras pessoas empurravam. A multidão fluía diante dele como um rio. Por fim, começou a rarear. Os últimos assistentes partiram. Jorge voltou a dar o braço a Susana para atravessarem a igreja. O templo estava ainda cheio de gente, pois todos tinham ido reocupar os seus lugares, para os verem passar juntos.

Du Roy caminhava lentamente, com passo calmo, os olhos fixos na grande abertura luminosa da porta. Sentia percorrerem-lhe a pele longos frémitos, os arrepios que dão as grandes alegrias. Não via ninguém. Só pensava em si. Quando chegou ao limiar, descobriu a multidão comprimida, uma multidão escura, ruidosa, que fora ali para o ver, a ele, Jorge du Roy! O povo de Paris contemplava-o e invejava-o.

Depois, ao erguer os olhos, descobriu ao fundo, para lá da Praça da Concórdia, a Câmara dos Deputados. Parecia-lhe ir dar um salto do pórtico da Madalena ao do Palácio Burbom.

Desceu com lentidão os degraus do alto adro, entre alas de espectadores. Não os via, porém. O seu pensamento voltava ao passado e, ante os seus olhos, deslumbrados pelo sol chamejante, flutuava a imagem da senhora de Marelle, a reajustar, em frente do espelho, os seus caracolinhos das fontes, sempre desmanchados ao levantar-se da cama.

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