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Bel Ami.  Guy de Maupassant
Capítulo 4.
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Jorge Duroy dormiu mal, tão excitado estava com o desejo de ver impresso o seu artigo. Mal rompeu o dia, levantou-se, e estava na rua muito antes da hora em que os distribuidores dos jornais vão, a correr, de quiosque em quiosque.

Alcançou, então, a Estação de Saint-Lazare, pois bem sabia que a Vie Française estaria lá antes de chegar ao seu bairro. Como era ainda muito cedo, vagueou ao acaso.

Viu chegar a mulher do quiosque, que abriu a sua barraca de vidro, e depois chegou um homem que transportava à cabeça maços de jornais dobrados. Precipitou-se para eles:

eram o Figaro, o Gil Blas, o Gaulois, o Evénement, e outras duas ou três folhas da manhã; mas a Vie Française, não.

Apoderou-se dele o medo: Se tivessem adiado para o dia seguinte as Memórias dum Caçador de África, ou se, por desgraça, a coisa não agradara, no último momento, ao velho Walter?

Ao dar a volta ao quiosque, descobriu que o jornal estava à venda, embora não o tivesse visto chegar. Pegou nele, desdobrou-o, depois de ter atirado com três soldos, e percorreu os títulos da primeira página. - Nada. - O coração começou a bater desordenadamente: abriu a folha e teve uma forte comoção ao ler, em baixo duma coluna, em grandes caracteres: Jorge Duroy. Sempre saíra! Que alegria!

Pôs-se a caminhar, sem pensar, com o jornal na mão, o chapéu ao lado, com o desejo de deter os transeuntes para lhes dizer: "Comprem isto! Comprem, que tem um artigo meu." Desejaria poder gritar a plenos pulmões, como fazem os vendedores à noite, nos bulevares: "Leiam a Vie Française. Leiam o artigo de Jorge Duroy: "Memórias dum Caçador de África"!" Subitamente, sentiu o desejo de ler ele próprio esse artigo, de o ler num local público, num café, bem em evidência. Procurou um desses estabelecimentos que já tivesse gente. Teve de andar ainda muito.

Sentou-se, por fim, numa espécie de taberna, onde vários clientes já estavam sentados, e pediu: Um rum, como poderia pedir: Um absinto, sem pensar na hora que era.

Depois chamou:

- Rapaz, dê-me a Vie Française!

Apareceu um criado de avental branco:

- Não temos... só recebemos o Rappel, o Siècle, a Lanterne e o Petit Parisien.

Duroy exclamou com um tom furioso e indignado:

- Olha que casa esta! Então, vá comprá-la!

O criado foi a correr e trouxe-a. Duroy pôs-se a ler o seu artigo. Por várias vezes, disse alto: «Muito bem, muito bem!», para chamar a atenção dos circunstantes e Lhes despertar o desejo de saber o que havia naquela folha. Depois, deixou-a em cima da mesa e foi-se embora. O patrão, ao notar isso, chamou-o:

- Meu caro senhor, olhe que deixa o seu jornal!

- Deixo-lho - respondeu Duroy. - Já o li. Aliás, hoje traz uma coisa muito interessante.

Não disse que coisa era; mas viu, ao afastar-se, que um dos seus vizinhos ia buscar a Vie Française acima da mesa onde a deixara.

Jorge pensou: «Que irei fazer, agora?» e decidiu ir ao escritório para receber o ordenado e apresentar a sua demissão. Teve um arrepio de prazer ao pensar na cara que fariam o seu chefe e os colegas. A ideia do espanto do chefe, sobretudo, encantava-o.

Caminhava lentamente, para não chegar antes das nove e meia, pois a caixa só abria às dez horas.

O seu escritório era um grande compartimento escuro onde era preciso ter o gás aceso durante o dia, no Inverno.

Dava para um pátio exíguo em frente doutros escritórios.

Estavam lá oito empregados e mais o subchefe, a um canto, por trás dum biombo.

Duroy foi, primeiramente, buscar os seus cento e dezoito francos e vinte e cinco cêntimos, metidos num sobrescrito amarelo e guardados na gaveta do empregado encarregado dos pagamentos. Depois, entrou com ar vitorioso na vasta sala de trabalho onde tinha passado tantos dias. Logo que entrou o subchefe, senhor Potel, chamou-o:

- Ah! É o senhor Duroy. O chefe já o chamou várias vezes.

Bem sabe que não admite parte de doente dois dias a seguir sem atestado médico.

Duroy, que ficara de pé no meio do aposento, a preparar o seu efeito, respondeu em voz alta:

- Pouco me importo com isso!

Houve entre os outros empregados um movimento de estupefacção e a cara do senhor Potel apareceu espantada, por cima do biombo que o envolvia como uma caixa. Barricava-se assim com medo das correntes de ar, pois sofria do reumatismo. Fizera, porém, dois buracos no papel do biombo, para vigiar o pessoal.

Podia ouvir-se voar uma mosca. O subchefe, por fim, perguntou, hesitante:

- Que disse?

- Disse que pouco me importava com isso. Venho para apresentar a minha demissão. Entrei como redactor para a Vie Française, com quinhentos francos por mês e mais a colaboração à linha. Já me estreei lá esta manhã.

Prometera a si próprio que faria prolongar o prazer, mas não pudera resistir ao desejo de dizer tudo duma vez. O efeito, afinal, fora completo. Todos estavam passados.

- Vou prevenir o senhor Perthuis e virei depois apresentar as minhas despedidas.

Saiu para ir ao gabinete do chefe que, ao dar com ele, começou:

- Ah! É o senhor! Bem sabe que não quero...

O empregado interrompeu-o:

- Não vale a pena berrar assim...

O senhor Perthuis, um homem gordo, vermelho como uma crista de galo, ficou sufocado de surpresa. Duroy continuou:

- Estou farto desta barraca. Estreei-me esta manhã no jornalismo, no qual me deram uma boa situação. Passem por cá muito bem.

Saiu. Sentia-se vingado. Foi, com efeito, apertar a mão aos antigos colegas, que até tinham receio de lhe falar para não se comprometerem, pois ouviram a sua conversa com o chefe, através da porta entreaberta.

Jorge deu por si na rua, com o ordenado no bolso. Ofereceu-se um almoço suculento num bom restaurante, de preços módicos, que conhecia.

Depois de ter, mais uma vez, comprado a Vie Française, que deixou em cima da mesa onde almoçou, Jorge entrou em vários estabelecimentos para fazer pequenas compras, somente para as mandar levar a casa e dar o seu nome: Jorge Duroy, acrescentando:

- Sou redactor da Vie Française.

Depois, indicava a rua e o número e tinha o cuidado de recomendar:

- Deixem isso no porteiro.

Como ainda tinha tempo, entrou num litógrafo, que fazia bilhetes de visita, imediatamente, sob os olhos dos transeuntes, e mandou executar um cento. Sob o seu nome ficou impressa a sua nova categoria.

A seguir, dirigiu-se ao jornal. Forestier recebeu-o de alto, como se recebe um inferior:

- Ah! És tu! Muito bem. Tenho, precisamente, várias coisas para ti. Espera dez minutos; vou acabar a minha tarefa.

Continuou a escrever a carta que começara. Na outra extremidade da mesa, um homenzinho muito pálido, bochechudo, gordo, calvo, com um crânio muito branco e luzidio, escrevia com o nariz em cima do papel, em consequência duma miopia excessiva. Forestier perguntou-lhe:

- Diz lá, Saint-Potin, quando vais entrevistar a nossa gente?

- Às quatro horas.

- Hás-de levar contigo o jovem Duroy, aqui presente, e desvendar-lhe-ás os arcanos do ofício.

- De acordo.

Forestier voltou-se depois para o amigo e acrescentou:

- Trouxeste a continuação sobre a Argélia? O começo que apareceu esta manhã teve muito êxito.

Duroy, comprometido, balbuciou:

- Não... julguei ter tempo de tarde... tive uma porção de coisas a fazer... não pude...

O outro encolheu os ombros, com ar descontente:

- Se fores sempre assim tão cuidadoso, dás cabo do teu futuro. O velho Walter estava a contar com o teu artigo. Vou dizer-lhe que será para amanhã. Se julgas que te pagarão para não fazer nada, estás enganado. - Após um silêncio, acrescentou: - Devemos bater o ferro enquanto está quente, que diabo!

Saint-Potin levantou-se, dizendo:

- Estou pronto.

Então Forestier recostou-se na cadeira e tomou uma atitude quase solene para dar as suas instruções, voltado para Duroy:

- Vejamos: temos em Paris, há dois dias, o general chinês Li Tengue Fao, que foi para o Continental, e o rajá Taposahib Ramaderao Pali, que está no Hotel Bristol. Irão falar com eles.

Não esqueças - disse, voltando-se para Saint-Potin - os principais pontos que te indiquei. Perguntem ao general e ao rajá a sua opinião acerca das manobras da Inglaterra no Extremo Oriente, as suas ideias sobre o seu sistema de colonização e de domínio, as suas esperanças relativamente à intervenção da Europa, e da França em especial, nos seus problemas.

Calou-se e depois acrescentou, falando para todos o ouvirem:

- Seria extremamente interessante para os nossos leitores saber, ao mesmo tempo, o que pensam, na China e na Índia, acerca desses assuntos que apaixonam neste momento a opinião.

Acrescentou, dirigindo-se a Duroy:

- Observa como Saint-Potin faz. É um excelente repórter e trata de aprender os cordelinhos para fazer falar um homem em cinco minutos.

Depois, começou a escrever com gravidade, na intenção evidente de estabelecer as distâncias, de pôr no seu lugar o seu antigo camarada e novo confrade.

Assim que saíram, Saint-Potin pôs-se a rir e disse a Duroy:

- Que pretensioso! Dá-se ares até connosco. Parece que nos toma pelos seus leitores.

Caminharam em direcção ao bulevar e o repórter perguntou:

- Toma qualquer coisa?

- Sim, de boa vontade. Está tanto calor.

Entraram num café e mandaram vir bebidas frescas. Saint-Potin pôs-se a falar. Referia-se a toda a gente e ao jornal com uma surpreendente quantidade de pormenores.

- O patrão? Um verdadeiro judeu! Bem sabe, os judeus nunca mudam. Que raça!

Citou traços surpreendentes de avareza, dessa avareza especial dos filhos de Israel, economias de dez cêntimos, regateios de cozinheira, descontos vergonhosos pedidos e obtidos, todo um modo de proceder de usurário, de sujeito que empresta a juros.

- Com tudo isso, no entanto - prosseguiu -, é um pobre diabo, que não acredita em nada e engana toda a gente. O seu jornal é oficioso, católico, liberal, republicano, orleanista, cacharolete e balcão de negócios. Foi fundado somente para defender as suas operações na Bolsa e as suas empresas de toda a ordem. Para isso, é muito esperto e ganha milhões com sociedades que não têm quatro soldos de capital.

Continuava a falar, tratando Duroy por "meu caro amigo":

- Tem ditos à Balzac, esse maroto. Imagine que, outro dia, estava no seu gabinete com essa velha mula do Norberto e o D. Quixote do Rival, quando Montelin, o administrador, chegou, com a sua pasta de marroquim debaixo do braço, essa pasta que toda a Paris conhece. Walter levantou o nariz e perguntou: «Que há de novo?» Montelin respondeu ingenuamente: «Acabo de pagar os dezasseis mil francos que devíamos ao fornecedor de papel.» O patrão deu um salto de surpresa:

«Você diz?»

«Acabo de pagar ao senhor Privas.»

«Você está doido!»

«Por quê?»

«Por quê... Por quê... Por quê...»

Tirou os óculos e limpou-os. Depois, sorriu, com o estranho sorriso que lhe enche as bochechas sempre que vai dizer qualquer malandrice, e com um tom trocista e convencido proferiu:

«Porquê? Porque poderíamos ter apanhado nisso uma redução de quatro ou cinco mil francos.»

Montelin, surpreendido, replicou:

«Mas, senhor director, todas as contas estavam em ordem, foram verificadas por mim e aprovadas pelo senhor...»

Então, o patrão pôs-se sério e declarou:

«Não há ninguém tão ingénuo como você. Saiba, senhor Montelin, que é preciso sempre acumular as nossas dívidas, para obter reduções dos credores!»

Saint-Potin, com um abanar de cabeça de conhecedor, concluiu:

- Não é um dito à Balzac?

Duroy não lera Balzac, mas respondeu, com convicção:

- Palavra de honra que é!

Depois, o repórter falou da senhora Walter, uma grande perua; de Norberto de Varenne, um velho falhado; de Rival, um imitador de Fervacques. Em seguida, foi Forestier:

- Quanto a esse, teve a sorte de ter casado com a que é sua esposa, mais nada.

- Que é, no fundo - perguntou Duroy -, a mulher?

- Oh! - retorquiu Saint-Potin, a esfregar as mãos. É uma velhaca, uma espertalhona. E amante dum velho rico, chamado Vaudrec, o conde de Vaudrec, que a dotou e casou...

Duroy sentiu, bruscamente, uma sensação de frio, uma espécie de crispação nervosa, uma necessidade de injuriar e esbofetear aquele linguareiro. Interrompeu-o simplesmente, para perguntar:

- O seu nome é realmente Saint-Potin?

- Não - respondeu o outro com naturalidade. - Chamo-me Thomas. Foi no jornal que me deram o apelido de Saint-Potin.(1)

Duroy pagou a despesa e disse:

- Parece-me que é tarde e temos dois nobres senhores a quem visitar.

Saint-Potin pôs-se a rir:

- Você é ainda muito ingénuo! Então acredita que vou, assim, perguntar a esse chinês e a esse indiano o que pensam da Inglaterra? Como se não soubesse, melhor do que eles, o que devem pensar para os leitores da Vie Française. Já entrevistei quinhentos desses chineses, persas, hindus, chilenos, japoneses e outros. Respondem, cá para mim, todos a mesma coisa. Basta-me pegar na entrevista que fiz com o último e copiá-la palavra por palavra. Só o que muda é a cara deles, os seus nomes, títulos, idades, e o seu séquito. Oh! nisso é que é preciso cuidado, pois seria batido pelo Figaro ou pelo Gaulois. A esse respeito, porém, os porteiros do Hotel Bristol e o do Continental dar-me-ão todas as informações, em menos de cinco minutos.

*1. De potin, mexerico, dito de má-língua. (N. do T.)

Iremos a pé até lá a fumar um cigarro. Ao cabo: cem soldos de carro a reclamar ao jornal. Aqui tem, meu caro, como é preciso fazer, quando se é prático.

- Isso deve render bastante, ser repórter nessas condições? - perguntou Duroy.

- Sim, mas nada rende tanto como os ecos, por causa dos reclamos disfarçados - respondeu, com ar misterioso, o repórter.

Tinham-se levantado e seguiam pelo bulevar, em direcção à Madalena. Saint-Potin, subitamente, disse ao seu companheiro:

- Sabe: se tem qualquer coisa a fazer... por mim, não preciso de si.

Duroy apertou-lhe a mão e foi-se embora. A ideia do artigo que tinha de escrever preocupava-o e pôs-se a pensar nele. Armazenava ideias, reflexões, juízos, anedotas, enquanto caminhava. Subiu até ao fim a Avenida dos Campos Elísios, onde só se viam raros passeantes. Paris estava vazia nos dias de calor.

Jantou numa taberna perto do Arco de Triunfo da Étoile e foi para casa, lentamente, a pé, pelos bulevares exteriores.

Mal se sentou à mesa para trabalhar e teve diante dos olhos a grande folha de papel branco, tudo que tinha juntado como materiais evolou-se do seu espírito, como se o próprio cérebro se tivesse evaporado. Tentou reunir os farrapos de recordações e fixá-los: escapavam à medida que apareciam ou então precipitavam-se em tumulto e não sabia como apanhá-los, nem por qual começar.

Após uma hora de esforços e cinco páginas rabiscadas com frases que começava sem Lhes dar continuidade, pensou: «Não estou ainda treinado no ofício. Preciso de ter uma nova lição.»

Imediatamente, a perspectiva doutra manhã a trabalhar com a senhora Forestier, a esperança dessas horas, tão doces, de intimidade, fizeram-no fremir de desejo. Foi logo deitar-se, quase com medo de se pôr novamente a escrever e conseguir redigir o artigo.

No dia seguinte, levantou-se um tanto tarde, demorando e saboreando, antecipadamente, o gosto da visita que ia fazer.

Passava das dez horas quando bateu à porta do seu amigo. O criado respondeu:

- O senhor Forestier está a trabalhar.

Duroy não pensara que o marido podia estar em casa. No entanto insistiu:

- Diga-lhe que sou eu; é um caso de urgência.

Após cinco minutos de espera, o criado fê-lo entrar para o gabinete onde passara uma tão boa manhã.

No lugar que então ocupara estava sentado Forestier a escrever, de robe de chambre e pantufas, com um bonezinho inglês na cabeça. Sua mulher, envolta no mesmo penteador branco da véspera, encostada ao fogão, ditava, de cigarro na boca.

Duroy deteve-se à entrada e murmurou:

- Peço desculpa; incomodo-os?

O amigo, voltando a cabeça, uma cabeça furiosa, increpou-o:

- Que queres? Despacha-te, que temos pressa.

O outro, vexado, balbuciou:

- Não; não é nada. Desculpa.

Forestier insistiu, zangado:

- Vamos, com todos os diabos! Não me faças perder tempo. Não me obrigaste a receber-te pelo prazer de me dar os bons-dias...

Então, Duroy, muito perturbado, decidiu-se:

- É que... sabes... não consegui ainda fazer o meu artigo... Foste... foram... tão gentis da outra vez que... que esperei... que me atrevi a vir...

Forestier interrompeu-o:

- Estás a abusar da gente, no fundo! Imaginas, então, que vou fazer o teu trabalho e que só tens de passar pela caixa no fim do mês? Essa é muito boa!

A mulher continuava a fumar, sem dizer nada, a sorrir com um sorriso vago, que parecia uma máscara amável posta na ironia do seu pensamento.

Duroy, muito vermelho, gaguejou:

- Desculpa-me... julguei... tinha pensado que... - Depois, subitamente, com voz clara: - Peço-lhe mil perdões, minha senhora, e apresento-lhe, também, os meus maiores agradecimentos pela admirável crónica que me fez ontem.

Cumprimentou, e à saída disse a Carlos:

- Estarei às três horas no jornal.

Voltou para casa, com grandes passadas, a resmungar:

«Pois bem, farei esta sozinho e eles verão...»

Assim que entrou, excitado pela cólera, pôs-se a escrever.

Continuou a aventura começada pela senhora Forestier, acumulando pormenores de folhetim, peripécias surpreendentes e descrições empoladas, com um estilo de colegial e fórmulas de sargento. Em uma hora terminou a sua crónica, que parecia um caos de tolices, e levou-a, com ar importante, à Vie Française.

A primeira pessoa a quem encontrou foi Saint-Potin, que lhe apertou a mão com uma energia de cúmplice e perguntou:

- Viu a minha conversa com o chinês e com o indiano? É engraçada, não? Divertiu toda a gente em Paris. Ora, nem lhes vi a ponta do nariz.

Duroy, que não tinha lido nada, pegou no jornal e passou a vista pelo longo artigo intitulado «Índia e China», enquanto o repórter lhe indicava os trechos mais interessantes. Forestier apareceu, a soprar, apressado, com ar de quem tinha muito que fazer:

- Ah! Bom. Preciso de vocês ambos.

Indicou-lhes uma série de informações políticas que era preciso obter para aquela noite.

Duroy deu-Lhe o seu artigo:

- Aqui está a continuação acerca da Argélia.

- Está bem; deixa ver. Vou entregá-lo ao patrão.

Mais nada.

Saint-Potin saiu com o seu novo colega e quando estavam no corredor, disse-lhe:

- Já passou pela caixa?

- Não. Porquê?

- Porquê?! Para receber. Não sabe? É preciso ter sempre um mês adiantado. Nunca se sabe o que pode acontecer...

- Por mim... acho isso excelente. - Vou apresentá-lo ao tesoureiro. Não porá dificuldades.

Pagam bem aqui.

Duroy recebeu os seus duzentos francos, mais os vinte e oito pelo artigo da véspera. Isso, junto ao que lhe restava do seu ordenado do Caminho-de-Ferro, fazia que tivesse uns trezentos e quarenta francos no bolso.

Nunca dispusera de tanto dinheiro e julgou-se rico por um tempo indefinido.

Depois, Saint-Potin levou-o às redacções de quatro ou cinco folhas rivais, na esperança de que, graças à sua astúcia e à abundância de conversação, pudesse apanhar alguma coisa acerca das informações que fora encarregado de obter e que já poderiam ter sido apanhadas por outros.

Quando anoiteceu, Duroy, que não tinha nada a fazer, pensou em voltar às Folies-Bergère, e, enchendo-se de coragem, apresentou-se na bilheteira:

- Chamo-me Jorge Duroy, redactor da Vie Française. Vim cá outro dia com o senhor Forestier, que prometeu pedir as minhas entradas. Não sei se o fez...

Consultaram um registo. O seu nome não estava lá inscrito. No entanto, o bilheteiro, homem muito afável, disse:

- Faça favor de entrar e apresente, pessoalmente, o seu pedido ao senhor director, que com certeza o atenderá.

Entrou e, quase imediatamente, deparou com a mulher com quem estivera na primeira noite, a qual se lhe dirigiu logo:

- Viva, meu menino; como estás?

- Muito bem, e tu?

- Menos mal. Sabes que sonhei contigo duas vezes, depois do outro dia?

Duroy sorriu, lisonjeado:

- Ah! Sim? E que prova isso?

- Isso prova que me agradaste, meu grande malandro, e que recomeçaremos quando quiseres.

- Hoje, se queres.

- De boa vontade.

- Bom, mas ouve... - hesitava, um tanto vexado com o que ia fazer: - é que... desta vez... estou sem dinheiro; venho do clube, onde perdi o que tinha.

A rapariga fitou-o nos olhos, suspeitando de uma mentira, com o seu instinto e a sua prática de mulher habituada às trapalhices e avareza dos homens, e disse:

- Mentiroso! Sabes que não é gentil usar dessas maneiras comigo!

Duroy retorquiu, com um sorriso de comprometido:

- Se queres dez francos... é tudo quanto me resta.

A mulher respondeu com um desinteresse de cortesã que também se quer dar ao luxo de ter caprichos:

- Será o que quiseres, meu caro; por mim só te quero a ti.

Ergueu os olhos seduzidos para o bigode do rapaz e deu-lhe o braço, apoiando-se a ele ternamente.

- Vamos beber um refresco primeiro. Depois, daremos uma volta juntos. Por mim, gostaria de ir à ópera, assim, contigo, para te mostrar. Depois, iríamos para casa cedo, não queres?

Duroy dormiu até tarde com a rapariga. Já era dia claro quando saiu e imediatamente lhe acudiu à ideia comprar a Vie Française. Abriu o jornal com mão febril: a sua crónica não vinha. Ficou parado no passeio, percorrendo ansiosamente com os olhos as colunas impressas, na esperança de encontrar por fim o que procurava.

Qualquer coisa pesada oprimiu-Lhe subitamente o coração, porque, depois da fadiga duma noite como a que passara, a contrariedade, ao cair-lhe sobre a lassidão, tinha o peso dum desastre.

Foi para o seu quarto, atirou-se vestido para cima da cama e adormeceu.

Ao voltar, horas mais tarde, ao jornal, dirigiu-se ao senhor Walter:

- Fiquei muito surpreendido, esta manhã, por não ver o meu segundo artigo acerca da Argélia.

O director levantou a cabeça e disse com voz seca:

- Dei-o ao seu amigo Forestier, para o ler. Não o achou em condições; é preciso fazê-lo de novo.

Duroy, furioso, saiu sem dizer uma palavra. Entrou, bruscamente, no gabinete do seu camarada:

- Por que não deixaste publicar esta manhã a minha crónica?

O jornalista fumava um cigarro, recostado na sua poltrona e com os pés em cima da mesa, sujando com os tacões um artigo começado. Articulou, tranquilamente, com um metal de voz aborrecido e distante, como se partisse do fundo dum poço:

- O patrão achou-o mau e encarregou-me de to dar para o fazeres de novo. Aqui o tens.

Indicou com a mão as folhas desdobradas sob um pisa-papéis.

Duroy, vexado, não disse nada. Quando metia as folhas no bolso, Forestier continuou:

- Hoje, vais em primeiro lugar à prefeitura...

Indicou uma série de voltas a dar e de notícias a colher.

Duroy saiu, sem ter encontrado a palavra desagradável que procurava.

Levou o seu artigo no dia seguinte. Foi-lhe novamente devolvido. Depois de o ter feito uma terceira vez e de o ver de novo recusado, compreendeu que ia por mau caminho e que só a mão de Forestier o poderia guiar.

Não voltou a falar das Recordações dum Caçador de África, prometendo a si próprio ser maleável e astuto, pois assim era preciso. Enquanto esperava coisa melhor, fazia com zelo o seu ofício de repórter.

Conheceu os bastidores dos teatros e os da política, os corredores e os vestíbulos dos homens de Estado e da Câmara dos Deputados, as figuras importantes dos chefes de gabinete e as caras franzidas dos contínuos ensonados.

Tinha contactos constantes com ministros, porteiros, generais, agentes de polícia, príncipes, chulos, cortesãs, embaixadores, bispos, alcoviteiras, burlões, homens da sociedade, levantinos, cocheiros de fiacre, criados de café e outros ainda. Tornou-se o amigo, interessado e indiferente, de toda essa gente, confundia-os na sua estima, desdenhava deles na mesma medida, julgando-os pela mesma bitola, à força de os ver todos os dias, a toda a hora, sem transição de espírito, e de falar a todos dos mesmos assuntos concernentes ao seu ofício. Comparava-se com um homem que provasse, umas atrás das outras, amostras de todos os vinhos e já não distinguisse o Château-Margaux do Argenteuil.

Tornou-se, em pouco tempo, um notável repórter, seguro nas suas informações, astuto, rápido, subtil, um verdadeiro valor para o jornal, como dizia o velho Walter, que era conhecedor em matéria de redactores. No entanto, como só recebia dez cêntimos por linha, mais os duzentos francos fixos, e como a vida dos bulevares, dos cafés, dos restaurantes, custa caro, nunca tinha um soldo e desesperava-se com a sua miséria.

«Tenho de descobrir como é...", pensava, ao ver alguns dos seus confrades com os bolsos cheios de dinheiro, sem nunca compreender que meios secretos podiam empregar para alcançar essa abastança.

Suspeitava, com inveja, de processos desconhecidos e inconfessáveis, dos serviços prestados, de todo um contrabando aceite e consentido. Ora, precisava desvendar o mistério, entrar nessa associação tácita, impor-se aos camaradas que partilhavam entre si sem contar com ele. Meditava, por vezes, à noite, ao ver da sua janela passar os comboios, nos processos que poderia empregar.