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Bel Ami.  Guy de Maupassant
Capítulo 7.
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O desaparecimento de Carlos deu a Duroy uma importância cada vez maior na redacção da Vie Française. Assinava alguns artigos de fundo, sem deixar de assinar os ecos, porque o patrão queria que cada um assumisse a responsabilidade do que escrevia. Teve algumas polémicas, das quais se safou com graça. As suas relações constantes com os homens de Estado preparavam-no aos poucos para vir a ser, por seu turno, um redactor político hábil e perspicaz.

Só havia uma mancha no seu horizonte. Vinha dum jornalzinho atrevido que o atacava constantemente, ou antes, que atacava o chefe dos ecos da Vie Française, o chefe da caixa de surpresas do senhor Walter, como dizia o anónimo redactor da folha chamada La Plume. Eram, todos os dias, perfídias, ditos mordazes, insinuações de toda a espécie. Jaime Rival disse um dia a Duroy:

- Você é paciente.

- Que quer? - balbuciou o outro. - Não há ataque directo.

Ora, uma tarde, ao entrar na sala da redacção, Boisrenard mostrou-lhe o número de La Plume:

- Aqui tem; há outra nota desagradável para si...

- Ah! A propósito de quê?

- A propósito de nada, da prisão duma certa Aubert por um agente da polícia dos costumes.

Jorge pegou no jornal que o outro lhe mostrava e leu, sob o título, Duroy diverte-se:

O ilustre repórter da Vie Française informa-nos hoje de que a senhora Aubert, de quem noticiámos a prisão feita por um agente da odiosa brigada dos costumes, só existe na nossa imaginação. Ora, a pessoa em questão habita no 28 da Rua de lÉcureuil, em Montmartre. Compreendemos muito bem, aliás, qual o interesse, ou quais os interesses, que podem ter os agentes do banco Walter para defender os do prefeito da Polícia que tolera o seu comércio.

Quanto ao repórter de que se trata, seria melhor que nos desse alguma daquelas boas notícias sensacionais de que tem o segredo: notícias de mortos desmentidos no dia seguinte, notícias de batalhas que nunca se travaram, anúncios de graves palavras pronunciadas por soberanos que não disseram nada, todas as informações, enfim, que constituem os benefícios Walter, ou até alguma das indiscriçõezinhas de serões e damas célebres ou acerca da excelência de certos produtos que são um grande recurso para alguns dos nossos confrades.

Duroy ficou mais perplexo do que irritado. Compreendera, somente, haver naquilo qualquer coisa de muito desagradável para ele.

- Quem lhe deu aquele eco? - perguntou-Lhe Boisrenard.

Duroy procurou lembrar-se, mas não lhe ocorria quem fora. Depois, de repente, acudiu-lhe à ideia:

- Ah! Sim, foi Saint-Potin.

Depois releu as últimas linhas de La Plume e corou subitamente, revoltado com a acusação de venalidade. Exclamou:

- Como?! Pretendem que sou pago para...

- Claro que sim - interrompeu Boisrenard. - É aborrecido para si. O patrão é muito exigente a esse respeito. Isso pode acontecer tantas vezes nos ecos...

Saint-Potin entrava nesse momento. Duroy correu para ele:

- Leu a nota em La Plume?

- Sim e venho da casa da tal Aubert. Existe realmente, mas não foi presa. O boato, portanto, não tinha nenhum fundamento.

Então Duroy correu para o gabinete do patrão, que encontrou um tanto frio, com um olhar suspicaz. Depois de ter ouvido o caso, o senhor Walter observou:

- Vá, pessoalmente, a casa dessa senhora e desminta de forma que não escrevam mais coisas semelhantes a respeito de si. Falo do que se segue. É muito aborrecido para o jornal, para mim e para si. Assim como a mulher de César, um jornalista não deve ser alvo de suspeitas.

Duroy meteu-se num fiacre, com Saint-Potin por guia, e gritou para o cocheiro: «18, Rua de lÉcureuil, em Montmartre.

Era uma casa imensa, de que teve de subir os seis andares.

Uma senhora de idade, de casaco de lã felpuda, abriu a porta:

- Que me quer outra vez? - perguntou, ao ver Saint-Potin.

O repórter respondeu:

- Trago este senhor, que é inspector da polícia, e deseja saber o que se passou.

Então a velhota mandou-os entrar, dizendo:

- Já vieram dois depois de si, para um jornal não sei qual... - Voltou-se para Duroy: - O senhor que quer saber?

- Foi presa por um agente da polícia dos costumes?

- Nunca na minha vida, meu caro senhor! - exclamou, erguendo os braços. - Nunca na vida! Veja como as coisas se passaram. Gasto dum talho onde servem bem, mas pesam mal. Dei por isso várias vezes, sem dizer nada; mas quando pedia ao carniceiro um quilo de costeletas, pois a minha filha e o meu genro vêm cá, descobri que estava a pesar ossos, ossos de costeletas, mas ossos. Poderiam servir para guisar, é certo, mas quando peço costeletas não é para me darem os ossos que os outros rejeitam. Recusei-os, portanto, e então o tipo chamou-me velha bruxa. Repliquei chamando-lhe velho intrujão, e, umas atrás das outras, dissemo-nos as últimas. Havia mais de cem pessoas diante do talho, e que riam, riam! Até que, enfim, apareceu um polícia e convidou-nos a ir explicarmo-nos no comissariado. Fomos e mandaram-nos embora. Eu, depois disso, sirvo-me doutro talho e evito até passar à porta daquele, para evitar escândalos.

A velhota calou-se e Duroy perguntou:

- Mais nada?

- Esta é que é a pura verdade, meu rico senhor.

Depois de lhe oferecer um cálice de licor, que ele não quis aceitar, a mulherzinha insistiu para não se esquecer de falar dos roubos no peso do carniceiro. No regresso ao jornal, Duroy redigiu a sua resposta:

Um escriba anónimo de La Plume arrancou uma das penas para se entreter comigo, a propósito duma mulher de idade que ele pretende ter sido presa por um agente da polícia dos costumes, o que nego. Falei, pessoalmente, com a senhora Aubert, que tem sessenta anos, pelo menos, e contou-me por miúdo a sua questão com um carniceiro, por causa do peso dumas costeletas,

o que deu lugar a uma explicação no comissariado da polícia. Eis toda a verdade do caso. Quanto às outras insinuações do redactor de La Plume, desprezo-as. Não se responde, aliás, a semelhantes coisas quando escritas por quem usa máscara.

JORGE DUROY

O senhor Walter e Jaime Rival, que tinham acabado de chegar, acharam essa resposta suficiente. Foi resolvido publicá-la, naquele dia, a seguir aos ecos.

Duroy foi para casa cedo, um tanto agitado, um tanto inquieto. Que responderia o outro? Quem era? Por que seria aquele ataque directo? Com os costumes bruscos dos jornalistas, tal tolice poderia ir longe, muito longe. Dormiu mal.

Quando releu a sua nota no jornal, no dia seguinte, achou-a mais agressiva impressa do que manuscrita. Poderia, pareceu-lhe, ter atenuado certos termos.

Sentiu febre todo o dia e ainda passou mal a noite seguinte. Levantou-se cedo para procurar o número de La Plume, que devia replicar à sua resposta.

O tempo voltara a estar frio. Gelava-se. Nas valetas, a água congelara e formava ao longo dos passeios largas fitas brancas.

Os jornais ainda não tinham chegado aos quiosques e Duroy lembrou-se do dia do seu primeiro artigo: "Recordações dum Caçador de África". As mãos e os pés, entorpecidos, doíam-Lhe, sobretudo nas pontas dos dedos. Pôs-se a andar à volta do quiosque envidraçado, onde a vendedora, sentada junto do aquecedor, só deixava ver o nariz e as faces vermelhas dentro dum capuz de lã.

Por fim, o distribuidor de jornais passou o maço pela janelinha do quiosque e a mulherzinha deu a Duroy La Plume aberta. Procurou o seu nome com a vista, mas não viu nada de entrada. Respirava já quando descobriu a coisa metida entre dois filetes:

Um tal Duroy, da Vie Française, desmente-nos; e, ao desmentir-nos, mente. Confirma, no entanto, que existe uma mulher chamada Aubert e que um agente a conduziu à polícia. Só falta acrescentar, portanto, duas palavras: dos costumes, a seguir à palavra agente e está certo. A consciência, porém,

de certos jornalistas está ao nível do seu talento. E asSino: LuíS LangREmONT.

O coração de Jorge pôs-se a bater violentamente. Voltou para casa, para se vestir, sem saber bem o que fazia. Haviam-no insultado e de tal forma que nenhuma hesitação era possível. Por quê? Por nada. A propósito duma velhota que tinha questionado com um carniceiro.

Vestiu-se, rapidamente, e dirigiu-se sem demora a casa do senhor Walter, embora fossem só oito horas da manhã.

O senhor Walter, que já estava levantado, lia La Plume e, ao ver Duroy, disse-Lhe com ar grave:

- Agora, não pode recuar!

O rapaz não replicou nada. O director continuou:

- Vá, imediatamente, procurar Rival, que se encarregará de ser sua testemunha.

Duroy proferiu algumas palavras vagas e saiu para ir a casa do cronista, que ainda estava a dormir. Rival saltou da cama ao ouvir tocar a campainha, e depois de ler o eco:

- Apre! É preciso lá ir. Quem vê como outra testemunha?

- Não faço ideia nenhuma.

- Boisrenard? Que lhe parece?

- Sim; Boisrenard.

- Sabe jogar as armas?

- Absolutamente nada.

- Oh! Diabo! Atira à pistola?

- Atiro alguma coisa.

- Bem. Irá praticar, enquanto me ocupo de tudo. Espere-me um minuto.

Rival reapareceu dali a pouco, lavado, barbeado, correcto, e disse:

- Venha comigo.

Habitava no rés-do-chão duma moradia e fez descer Duroy para a cave, uma cave enorme, convertida em sala de armas e de tiro, com todas as aberturas para a rua tapadas. Depois, uma linha de bicos de gás, que conduzia até ao fundo dum outro subterrâneo onde se erguia um boneco de ferro, pintado de vermelho e azul. Pôs em cima duma mesa dois pares de pistolas dum sistema novo de carregar pela culatra e começou a dar vozes de comando, rápidas, como se estivessem no terreno:

- Apontar!

- Fogo! Um, dois, três!

Duroy, aniquilado, obedecia, levantava o braço, apontava, disparava e como atingia com frequência o manequim em pleno ventre, pois servira-se muito na juventude duma velha pistola de seu pai para atirar aos pássaros no quintal, Jaime Rival, satisfeito, declarou:

- Bem; muito bem! Muito bem! Vai lá... Vai lá!

Depois, deixou Jorge, dizendo:

- Atire assim até ao meio-dia. Tem aí munições; não tenha medo de as queimar. Virei buscá-lo para almoçar e dar-lhe notícias.

Sozinho, Duroy disparou ainda alguns tiros e sentou-se a reflectir. Como eram estúpidas todas aquelas histórias. Que provava aquilo? Um patife era menos patife depois de se ter batido? Que ganhava um homem de bem, quando era insultado, em arriscar a sua vida contra um crápula?

O seu espírito vagabundeava sombrio e recordava-se de coisas ditas por Norberto de Varenne sobre a pobreza de espírito dos homens, a mediocridade das suas ideias e das suas preocupações, a estupidez da sua moral! Proferiu em voz alta: «Como ele tem razão!»

Depois, sentiu sede e, como ouvia um ruído de gotas de água por trás de si, descobriu um aparelho de duchas e foi beber na ponta da agulheta. A seguir, voltou a meditar. Era triste aquela cave, triste como um túmulo. O rodar longínquo e surdo dos carros parecia o barulho duma tempestade à distância. Que horas seriam? O tempo passava, ali dentro, como deve passar no fundo das prisões, sem nada o indicar e nada o marcar, salvo o aparecimento do carcereiro a trazer a gamela do rancho. Esperou muito tempo, muito tempo.

Subitamente, ouviu passos, vozes, e Jaime Rival apareceu acompanhado de Boisrenard. Exclamou, ao avistar Duroy:

- Está tudo arranjado!

Jorge julgou que o caso fora arrumado com qualquer carta de desculpas; o coração deu-lhe um salto e balbuciou:

- Ah!... Obrigado.

O cronista continuou:

- Esse Langremont é muito leal, aceitou todas as nossas condições: vinte e cinco passos, uma bala à voz de comando

ao levantar a pistola. Tem-se o braço mais firme assim que ao abaixá-la. Olhe, Boisrenard, veja o que lhe dizia.

Pegou nas armas e pôs-se a disparar, demonstrando como se conservava melhor a linha de mira ao levantar o braço. Em seguida propôs:

- Agora, vamos almoçar; já passa do meio-dia.

Dirigiram-se para um restaurante vizinho. Duroy não dizia nada. Comeu, para não dar a impressão de estar com medo. Acompanhou Boisrenard ao jornal e fez as suas tarefas do dia, de maneira distraída e maquinal. Acharam-no decidido.

Jaime Rival foi apertar-lhe a mão a meio da tarde. Ficou combinado que as testemunhas iriam buscá-lo a casa de carro, no dia seguinte, às sete horas, para se dirigirem ao bosque do Vésinet, onde se realizaria o encontro.

Tudo aquilo era decidido inopinadamente, sem ele tomar parte em nada, sem dizer uma palavra, sem dar o seu parecer, sem aceitar ou recusar, e tudo com tanta rapidez, que ficava atordoado, perturbado, sem compreender bem o que se passava.

Encontrava-se em casa, cerca das nove horas da noite, depois de ter jantado com Boisrenard, que não o deixara nunca durante todo o dia, por dedicação.

Logo que ficou sozinho, andou dum lado para o outro no quarto, a passos vivos. Estava muito preocupado para reflectir em qualquer coisa. Uma única ideia lhe ocupava o espírito. Um duelo amanhã., Essa ideia despertava nele uma comoção forte e confusa. Fora militar, atirara aos árabes, sem grande perigo, aliás, assim como quem atira ao javali numa caçada.

Em suma, fizera o que devia fazer; mostrara o que deveria ser. Falariam disso, aprová-lo-iam, felicitá-lo-iam. Depois, proferiu em voz alta, «como falamos nos grandes ímpetos do pensamento: Que bruto é aquele homem!» Sentou-se e pôs-se a reflectir. Lançara sobre a mesinha um bilhete de visita do seu adversário, a fim de consultar o seu endereço. Releu-o como já fizera vinte vezes naquele dia: Luís Langremont, 176, Rua Montmartre. Nada mais. Examinava essas letras reunidas que lhe pareciam misteriosas, cheias de intenções inquietantes. Luís Langremont,, quem era aquele homem? Que idade tinha? Qual era a sua estatura? Qual o seu rosto?

Não era revoltante que um estranho, um desconhecido, fosse assim perturbar a sua vida, subitamente, sem razão, por capricho, a propósito duma velha que tinha questionado com um carniceiro? Repetiu ainda uma vez em voz alta: «Que bruto!» Jorge manteve-se imóvel, a pensar, com o olhar sempre fixo no bilhete de visita. Ergueu-se nele uma cólera contra aquele bocado de papel, uma cólera odienta, a que se misturava um estranho sentimento de náusea. Era estúpida aquela história! Pegou numa tesoura de unhas que estava em cima da mesinha e espetou-a a meio do nome impresso, como se apunhalasse alguém.

Ia, portanto, bater-se, e bater-se à pistola! Por que não escolhera a espada? Desobrigar-se-ia com uma picadela no braço ou na mão, enquanto à pistola nunca se sabiam as consequências possíveis. Proferiu: «Vamos, é preciso coragem.»

O som da sua voz fê-lo estremecer e olhou à sua volta. Começava a sentir-se muito nervoso. Bebeu um copo de água e deitou-se. Logo que se meteu na cama, soprou a vela e fechou os olhos. Sentia muito calor debaixo dos lençóis, embora estivesse frio no quarto. Não conseguia adormecer. Dava voltas na cama. Estava cinco minutos de costas, depois virava-se para o lado esquerdo e em seguida para o direito.

Ainda estava com sede. Levantou-se para ir beber água. Depois foi preso duma inquietação: «Estarei com medo?» Porque se punha o coração a bater desordenadamente a cada ruído conhecido do seu quarto? Quando o relógio ia dar as horas, o pequeno ranger da engrenagem fazia-o ter um sobressalto. Tinha de abrir a boca, durante alguns segundos, para respirar, tanto se sentia oprimido! Pôs-se a raciocinar filosoficamente sobre a possibilidade disto: «Estarei com medo?»

Não, certamente não teria medo, pois estava resolvido a ir até ao fim, tinha a vontade bem decidida de se bater, de não tremer. Sentia-se, porém, tão profundamente perturbado que perguntou a si próprio: «Podemos ter medo, mal-grado nosso?» Essa dúvida invadiu-o, essa inquietação, esse pavor. Se uma força mais poderosa do que a sua vontade, dominadora, irresistível, o tomasse, que sucederia? Sim, que poderia suceder?

Sem dúvida, iria para o campo, pois desejava ir; mas se tremesse? Se perdesse os sentidos?

Pensava na sua situação, na sua reputação, no seu futuro? Uma estranha necessidade o acometeu de súbito: levantar-se para se ver ao espelho. Pareceu-lhe que nunca se vira assim. Os olhos davam a impressão de ser enormes, e estava pálido, não havia dúvida, estava pálido, muito pálido.

Imediatamente, este pensamento penetrou-o como se fosse uma bala: «Amanhã, a estas horas, estarei talvez morto!» O coração pôs-se a bater furiosamente.

Voltou para a cama e viu-se, distintamente, estendido de costas naqueles mesmos lençóis que tinha acabado de deixar. Apresentava o mesmo rosto chupado que têm os mortos e a mesma brancura das mãos imobilizadas para sempre.

Então, teve medo daquele leito e, para não o ver mais, abriu a janela e pôs-se a olhar para fora. Um frio glacial mordeu-lhe a carne, da cabeça aos pés, e recuou a tremer.

Acudiu-lhe a ideia de acender o lume no fogão do quarto. Atiçou-o, lentamente, sem se voltar. As suas mãos tremiam um tanto, com um tremor nervoso quando tocava nos objectos. Tinha a cabeça em água: os seus pensamentos andavam à roda, tornavam-se fugidios, entrecortados, dolorosos. Uma embriaguez invadia-lhe o espírito como se tivesse bebido.

Sem cessar perguntava a si próprio: «Que vou fazer? Que vai ser de mim?» Pôs-se de novo a passear no quarto, repetindo de modo contínuo, maquinal: «É preciso que seja enérgico, muito enérgico.» Depois pensou: «Vou escrever a meus pais, para o caso dum acidente.» Sentou-se, pegou num caderno de papel de cartas e escreveu: «Meu caro papá, minha querida mamã...» Achou esses termos demasiado familiares para uma circunstância tão trágica. Rasgou a primeira folha e recomeçou: «Meu caro pai, minha cara mãe; vou bater-me ao amanhecer e como pode suceder que...»

Não ousou escrever o resto e levantou-se dum salto. Aquele pensamento esmagava-o: Ia bater-se em duelo. Já não podia evitar isso. Que se passava, no entanto, nele? Queria bater-se; tinha essa intenção, essa resolução, firmemente assentes; e parecia-lhe que, a despeito dos seus esforços, da sua vontade, não podia ter sequer a força necessária para ir até ao local do encontro.

De tempos a tempos, os dentes batiam-lhe uns contra os outros, com um ruído seco. Perguntava:

«O meu adversário já se teria batido? Estará treinado no tiro? É conhecido? É conceituado?» Nunca tinha ouvido pronunciar o nome daquele homem. No entanto, se não fosse um atirador à pistola notável não teria aceitado assim, sem hesitação, sem discussão, aquela arma perigosa.

Então, Duroy visionava o seu encontro, a sua própria atitude e a do seu adversário. Fatigava-se a pensar, a imaginar, os mínimos pormenores do combate. Subitamente, via na sua frente aquele buraquinho negro e profundo do cano donde ia sair uma bala.

Sentou-se, bruscamente, preso duma crise de desespero terrível. Todo o corpo lhe vibrava, agitado por arrepios fortes. Apertava os dentes para não gritar. Sentia uma necessidade louca de rolar no chão, de rasgar qualquer coisa, de morder. Reparou num cálice em cima da pedra do fogão e lembrou-se de que tinha no armário uma garrafa de aguardente quase cheia, pois conservava o hábito militar de matar o bicho todas as manhãs.

Pegou na garrafa e bebeu pelo gargalo grandes goladas, com avidez. Só a depôs quando lhe faltou o fôlego. Esvaziara-a mais de um terço. Um calor, como se fosse uma chama, em breve lhe queimou o estômago e se espalhou pelos membros, dando-lhe certa firmeza ao ânimo. Disse para si: «Cá está o meio.» Como sentia a pele a arder, voltou a abrir a janela.

Despontava o dia, calmo e glacial. No alto, as estrelas pareciam morrer no firmamento que aclarava. Nas profundas trincheiras do caminho-de-ferro empalideciam os sinais, verdes, vermelhos, brancos. As primeiras locomotivas saíam do depósito e iam, a apitar, buscar os primeiros comboios. Outras, ao longe, lançavam apelos agudos e repetidos, os seus gritos do amanhecer eram como os dos galos nos campos.

Duroy pensava: «Não verei talvez mais tudo isto.» Como sentia, porém, que ia de novo enternecer-se com o seu caso, reagiu energicamente: «Vamos, é preciso não pensar em nada, até ao momento do encontro; é o único meio de ter coragem.»

Foi lavar-se. Teve ainda um minuto de desfalecimento, quando fazia a barba ao pensar que era talvez a última ocasião em que via o seu rosto. Bebeu uma nova golada de aguardente e acabou de se vestir.

A hora seguinte foi difícil de passar. Andava dum lado para o outro, esforçando-se por imobilizar o seu espírito.

Quando ouviu bater à porta, esteve quase a cair de costas, tão violenta foi a comoção. Eram as suas testemunhas. Já!

Vinham envoltas em casacos com golas de peles. Rival disse ao apertar-lhe a mão:

- Faz um frio siberiano! - perguntando a seguir: - Isso vai bem?

- Sim, muito bem.

- Está calmo?

- Muito calmo.

- Vamos; tudo irá bem. Bebeu e comeu qualquer coisa?

- Sim; não tenho necessidade de nada.

Boisrenard pusera, para a circunstância, uma condecoração estrangeira, verde e amarela, que Duroy nunca lhe vira.

Saíram. Um cavalheiro aguardava-os no landau. Rival apresentou-o:

- O doutor Le Brumet.

- Muito obrigado - proferiu Duroy, apertando-Lhe a mão e, ao sentar-se no assento da frente, encontrou qualquer coisa dura que o fez levantar-se como impelido por uma mola.

Era a caixa das pistolas. Rival protestou:

- Não! Atrás o combatente e o médico, atrás!

Duroy acabou por compreender e deixou-se cair ao lado do médico.

As duas testemunhas subiram por sua vez e o carro partiu. O cocheiro já sabia para onde devia ir.

A caixa das pistolas incomodava todos, sobretudo Duroy, que preferiria não a ver. Tentaram colocá-la atrás das costas; mas incomodava os rins. Depois, puseram-na ao alto, entre Rival e Boisrenard; mas estava sempre a cair. Acabaram por a pôr debaixo dos pés.

A conversa arrastava-se, embora o médico contasse anedotas. Só Rival lhe respondia. Duroy desejaria provar a sua presença de espírito, mas tinha medo de perder o fio das ideias e de mostrar a sua perturbação interior. Apavorava-o o receio torturante de se pôr a tremer.

O carro atingiu em breve o campo. Eram cerca de nove horas. Estava-se numa dessas manhãs de Inverno, em que toda a natureza é luzidia, quebradiça e dura como o cristal. As árvores, cobertas de neve, parecia terem suado gelo;

a terra ressoava debaixo dos pés; o ar seco transmitia ao longe os mínimos ruídos, o céu azul parecia brilhar como os espelhos e o Sol passava no espaço cintilante e frio - ele também -, lançando sobre a criação gélida raios que não aqueciam nada.

Rival informou Duroy:

- Trouxe as pistolas de Gastine-Renette. Foi ele próprio quem as carregou. A caixa está selada. Serão tiradas à sorte, aliás, com as do nosso adversário.

- Muito obrigado - respondeu Duroy, maquinalmente. Então, Rival pôs-se a fazer recomendações minuciosas, pois fazia questão de o seu cliente não cometer nenhuma falta. Insistia em cada ponto várias vezes.

- Quando perguntarem: Estão prontos, meus senhores?,, responderá com voz forte: "Sim!" Quando disserem "Fogo!", levante rapidamente o braço e dispare antes de terem pronunciado: "três".

Duroy repetia mentalmente: «Quando disserem fogo, levanto o braço... quando disserem fogo, levanto o braço... quando disserem fogo, levanto o braço...»

Aprendia isso, como as crianças aprendem as lições, murmurando-as até à saciedade, para as fixarem bem na cabeça: «Quando disserem fogo, levanto o braço...»

Quando o carro entrou no bosque deu a volta à direita, tomou por uma alameda e depois ainda uma vez à direita. Rival, bruscamente, abriu a portinhola, para gritar ao cocheiro:

- Por ali! Por aquele caminho de carro.

O landau meteu por um caminho com sulcos de rodas, entre dois taludes, onde tremiam as folhas mortas, contornadas duma orla de neve. Duroy continuava a murmurar: «Quando disserem fogo, levanto o braço.» Pensava que um acidente arranjaria tudo. Oh! Se o carro se voltasse, que sorte! Se partisse uma perna!...

Descobriu, no extremo duma clareira, outro carro parado e quatro cavalheiros que batiam com os pés para se aquecerem. Sentiu-se obrigado a abrir a boca tanto a respiração se Lhe tornava penosa.

Os padrinhos desceram primeiro, depois o médico e o combatente. Rival pegara na caixa das pistolas e foi, com Boisrenard, ter com os dois outros padrinhos que se dirigiram para eles.

Duroy viu-os cumprimentarem-se cerimoniosamente e depois caminharem juntos na clareira a olharem ora para o chão ora para as árvores, como se procurassem qualquer coisa que tivesse podido cair ou voar. Depois, contaram os passos e meteram, com dificuldade, duas bengalas no solo gelado. Reuniram-se em seguida em grupo e fizeram os movimentos do jogo de cara ou coroa, como os rapazes a brincar.

O doutor Le Brumet perguntou a Duroy:

- Sente-se bem? Não precisa de nada?

- Não preciso de nada, obrigado.

Parecia-lhe estar doido, que dormia ou sonhava, que qualquer coisa sobrenatural acontecera e o envolvia. Tinha medo? Talvez. Não o sabia, porém. Tudo estava mudado à sua volta.

Jaime Rival voltou e disse baixinho, com satisfação:

- Está tudo pronto. A sorte foi-nos favorável quanto às pistolas.

Eis uma coisa que era indiferente a Duroy. Tiraram-lhe o sobretudo. Deixou que o fizessem. Apalparam-lhe os bolsos da sobrecasaca para verificar se não tinha papéis ou carteira que o protegessem. Repetia, interiormente, como uma oração: «Quando disserem fogo, levanto o braço.»

Conduziram-no depois até uma das bengalas espetadas no chão e entregaram-lhe uma pistola. Então, descobriu um homem de pé na sua frente, muito próximo, um homenzinho barrigudo, calvo, que usava óculos. Era o seu adversário.

Jorge viu-o muito bem, mas só pensava nisto: «Quando disserem fogo, levanto o braço e disparo.» Uma voz ressoou no grande silêncio do espaço, uma voz que parecia vir de muito longe e que perguntou:

- Estão prontos, meus senhores?

- Sim! - gritou Jorge.

Então, a mesma voz ordenou:

- Fogo!...

Duroy não ouviu mais nada, não percebeu nada, não deu por nada. Sentiu apenas que levantava o braço e apertava com toda a força o gatilho.

Não ouvira nada; mas viu imediatamente fumo no cano da sua pistola. Como o homem na sua frente continuava de pé, na mesma posição igualmente, descobriu outra nuvenzinha branca que se erguia por cima da cabeça do seu adversário. Tinham disparado ambos. Estava tudo acabado.

Os seus padrinhos e o médico tocaram-lhe, apalparam-no, desabotoaram-lhe a roupa, perguntando com ansiedade:

- Não está ferido?

- Não, não creio - respondeu Duroy ao acaso.

Langremont, aliás, estava tão intacto como o seu inimigo e Jaime Rival murmurou, com ar aborrecido:

- Com estas reles pistolas é sempre assim: ou falham ou matam-se. Que porco instrumento!

Duroy não se mexia, paralisado de surpresa e de alegria. Estava tudo acabado! Tiveram de Lhe tirar a arma, que conservava apertada na mão. Parecia-lhe, então, que se teria batido contra o universo inteiro. Estava tudo acabado. Que sorte! Sentia-se subitamente valente, capaz de provocar fosse quem fosse.

Os padrinhos todos conversaram durante alguns minutos a marcar o encontro para redigir a acta. Depois, subiram para os carros. O cocheiro, que ria na boleia, partiu fazendo estalar o chicote.

Almoçaram os quatro no bulevar, falando do acontecimento. Duroy contav a as suas impressões:

- Aquilo não me fez impressão nenhuma, absolutamente nada. Aliás, deviam tê-lo visto.

- Sim, você portou-se bem - retorquiu Rival.

Quando a acta foi redigida deram-na a Duroy, que a devia publicar nos ecos. Ficou surpreendido ao ver que tinha trocado duas balas com o senhor Luís Langremont e, um tanto inquieto, interrogou Rival:

- Mas só disparámos uma bala?!

- Sim, foi uma bala... - retorquiu o outro a sorrir. - Uma bala cada um... faz duas balas.

Duroy achou a explicação satisfatória, não insistiu. O velho Walter abraçou-o:

- Bravo, bravo, defendeu o pavilhão da Vie Française, bravo!

Jorge mostrou-se, à noite, nos principais jornais e nos grandes cafés do bulevar. Encontrou duas vezes o seu adversário, que se mostrava igualmente.

Não se cumprimentaram. Se um dos dois tivesse ficado ferido, teriam apertado as mãos. Cada um deles jurava, aliás, ter ouvido assobiar a bala do outro.

No dia seguinte, por volta das onze horas, Duroy recebeu um bilhete: «Meu Deus, como tive medo! Vem logo à Rua de Constantinopla para te beijar; meu amor. Como és valoroso! Adoro-te, Clo.»

Foi ao encontro marcado e ela atirou-se-lhe para os braços, cobrindo-o de beijos:

- Oh! Querido, se soubesses a minha comoção quando li os jornais desta manhã! Oh! Conta-me; diz-me tudo. Quero saber.

Jorge teve de lhe contar os pormenores, com minúcia.

Clotilde insistia:

- Como deves ter tido uma noite má antes do duelo!

- Mas não. Dormi muito bem.

- Eu não teria pregado olho; e, no terreno, diz-me como as coisas se passaram.

Jorge fez um relato dramático:

- Quando ficámos em frente um do outro, a vinte passos, só quatro vezes a largura deste quarto, Jaime, depois de ter perguntado se estávamos prontos, deu a voz: «Fogo!» Levantei o braço imediatamente, bem na pontaria, mastive a má ideia de querer apontar à cabeça. A arma era bastante dura; ora, estou acostumado a pistolas mais suaves, de modo que a resistência do gatilho fez elevar o tiro. Não importa, não deve ter podido passar-lhe longe. Ele também é bom atirador, o maroto. A sua bala passou-me junto da fonte. Senti-lhe o sopro.

Clotilde estava sentada no colo dele e envolvia-o nos seus braços como para o proteger contra um perigo, enquanto balbuciava:

- Oh! meu pobre amiguinho, meu pobre amiguinho...

Quando ele acabou de contar, Clotilde disse-lhe:

- Sabes: não posso passar sem ti! É preciso que te veja e, com meu marido em Paris, não é fácil. Às vezes, tenho uma hora livre de manhã, antes de tu te levantares, e poderia ir abraçar-te, mas não quero voltar àquela horrível casa. Como havemos de fazer?

Jorge teve bruscamente uma inspiração e perguntou:

- Quanto pagas aqui?

- Cem francos por mês.

- Muito bem, fico com o aposento por minha conta e passo a viver nele definitivamente. O meu já não está bem para a minha nova posição.

Clotilde reflectiu uns instantes e depois disse:

- Não. Não quero.

Jorge estranhou:

- Por quê?

- Porque não...

- Isso não é um motivo. Esta habitação convém-me muito bem. Já cá estou; fico. - Riu-se: - Aliás o quarto está no meu nome.

Clotilde recusava sempre:

- Não, não, não quero...

- Mas por quê, finalmente?

Então Clotilde murmurou baixinho, ternamente:

- Porque trarias cá outras mulheres e eu não quero.

Jorge protestou:

- Isso nunca! Que ideia! Prometo-to!

- Não; hás-de trazê-las, apesar de tudo.

- Juro-te que não!

- Palavra?

- É verdade. Palavra de honra. É a nossa casa; só para nós.

Clotilde apertou-o num arrebatamento de amor:

- Então, sim, querido. Se me enganares, se me enganares uma vez, só uma vez, fica tudo acabado entre nós, acabado para sempre.

Jorge jurou, com muitos protestos, e ficou combinado que se instalaria lá naquele dia, para ela poder ir vê-lo quando passasse à porta.

- Em todo o caso - acrescentou Clotilde -, vem jantar amanhã lá a casa. Meu marido acha-te encantador.

- Ah! Sim?!... -proferiu Jorge, lisonjeado.

- Sim. Conquistaste-o. Ouve lá: disseste-me que tinhas passado a infância num solar da província, não é verdade?

- Sim, por quê?

- Então, deves saber alguma coisa de agricultura?

- Sei sim.

- Então, fala-lhe de sementeiras e colheitas; ele gosta muito disso.

- Bem. Não me esquecerei.

Clotilde deixou-o, depois de o ter beijado muito, pois aquele duelo exasperara a sua ternura.

Duroy pensava, ao dirigir-se para o jornal: «Que ser tão engraçado! Que cabeça no ar! Sabe-se lá o que quer,

aquilo de que gosta?!... E que casal tão estranho! Que fantasista teria podido preparar o acasalamento daquele velho com esta maluca?! Que razões decidiram esse inspector a casar com esta estudante? Mistério! Quem sabe? Talvez o amor!» Depois concluiu: «Enfim, é uma amante deliciosa e seria muito tolo se a deixasse.»