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Com o coração cheio de felicidade, Catarina mal deu conta de que dois ou três dias tinham passado sem voltar a estar com Isabel, além de uns curtos minutos.

Numa manhã em que andava a passear na Fonte com a senhora Allen, sem ter nada que dizer ou ouvir, começou a sentir a sua falta e desejou falar com ela. Mal tinha tido tempo de suspirar cinco minutos pela companhia da amiga, logo esta apareceu e, convidando-a para uma conversa íntima, foram sentar-se- Aqui é o meu cantinho predilecto - disse Isabel, sentando-se num banco que ficava entre duas portas, donde se podiam ver todas as pessoas que entravam e saíam -; ninguém olha para cá.

Catarina, notando que os olhos de Isabel andavam contìnuamente de uma porta para a outra, como quem espera alguma coisa com alvoroço, e lembrando-se de que muitas vezes lhe diziam que era perspicaz achou que era uma boa oportunidade de o ser; por isso, disse alegremente:

- Não estejas aflita, Isabel. O Jaime deve estar a chegar.

- Ora, minha querida - replícou ela -, não me julgues tão piegas, pensando que o quero ter sempre a meu lado. Não seria bonito estarmos sempre juntos; seríamos o divertimento de toda a gente. Então, vais para Northanger! Estou satisfeitíssima por sabê-lo. Pelo que ouço dizer é uma das regiões mais antigas da Inglaterra e uma das mais bonitas.

Espero que depois me faças uma descrição minuciosa.

Da melhor boa vontade. IVlas por quem esperas? As tuas irmãs vêm cá?

- Não espero por ninguém. Os olhos devem ocupar-se com qualquer coisa, e tu bem sabes que tenho o costume muito estravagante de entretê-los, quando os meus pensamentos estão a cem milhas de distância. Estou absolutamente distraída; creio até que sou a pessoa mais distraída do mundo. O Tilney diz que isto só se dá com pessoas de certo feitio.

- Mas, Isabel, eu pensava que tivesses alguma coisa de especial a dizer-me!

- Oh, tenho, pois tenho. Ora aí está uma prova do que te estava a dizer. Que cabeça a minha! Já me tinha esquecido por completo. O caso é este: acabei de receber uma carta do João.

Adivinhas do que se trata?

- Não, não sou capaz.

- Meu amorzinho, não queiras ser tão fingida. De quem é que ele podia falar a não ser de ti? Sabes, está mesmo pelo beicinho.

- O quê, comigo?

- Ora, Catarina, isso é quase absurdo! A modéstia e tudo o mais são coisas muito bonitas, mas na conta devida; um pouco de sinceridade, porém, também não fica mal de vez em quando.

Nunca pensei ser preciso explicar-me tanto! É gostar de receber cumprimentos. Até uma criança teria notado as suas atenções. E só meia hora antes de partir de Bath é cçue lhe disseste que sim. É o que ele afirma na carta. Diz que se te declarou e que tu o aceitaste de bom grado. Agora quer que interceda pelas suas intenções e te diga coisinhas amáveis.

Por isso é inútil estares a fingir que nada sabes.

Catarina, com toda a veemência da verdade, exprimiu o seu espanto ao ouvir tais palavras, afirmando que não sabia que o senhor Thorpe se tinha apaixonado por ela e negando a possibilidade de ela lhe ter dado a entender que era correspondido. - Quanto às suas gentilezas, declaro, pela minha honra, que então não as tomei como tais, excepto no primeiro dia que chegou e me pediu para dançar. E quanto a fazer-me qualquer declaração ou qualquer outra coisa, seria um despropósito inexplicável. Não podia ter confundido uma coisa dessas, bem o sabes. E como sempre desejo ser acreditada, juro que nem uma sílaba sobre tal assunto se trocou entre nós. E logo meia hora antes de partir! Deve ser tudo um grande equívoco, pois se nem sequer o vi uma só vez em toda a manhã!

- Lá isso é que viste, porque estiveste toda a manhã nos Armazéns Edgar. Foi no dia em que veio o consentimento do teu pai, e quer-me bem parecer que tu e o João ficaram sòzinhos na sala, pouco tempo antes de tu saíres lá de casa.

- Tens a certeza? Bem, se a tens, é possível que seja, mas, palavra de honra, não me lembro. Lembro-me, sim, de estar contigo e de o ter visto como vi os outros, mas lá que estivéssemos cinco minutos sòzinhos. Bem, não vale a pena estar com discussões, porque, seja o que for que possa haver da sua parte, podes estar convencida de que de nada me lembro e que, portanto, nunca pensei ou desejei semelhante coisa. É pena que ele esperasse qualquer coisa, mas a verdade é que nunca houve nada de intencional. da minha parte, e nem suspeitei de nada. Peço-te que o convenças a desistir; que desculpe, isto é, não sei como hei-de dizer. faz por lhe mostrar as coisas como elas são, mas de uma maneira delicada. Eu não iria falar desrespeitosamente de um irmão teu, Isabel; mas, tu bem sabes que, se eu pensar em alguém, não é no teu irmão.

Isabel ficou silenciosa.

- Minha querida amiga - continuou Catarina -, não te zangues comigo. Não me parece também que o teu irmão tenha muito desgosto. E demais a mais. estamos para ser irmãs.

- Sim, sim (corando), porém há mais formas de virmos a ser irmãs. Mas, que digo eu? Pois bem, querida Catarina, o caso é este: não aceitas o pobre João não é verdade?

- Não posso retribuir a sua afeição, e também nunca tive tenções de a favorecer.

- Já que assim é, não te censuro mais. O João quis que eu te falasse no assunto, e fi-lo. Mas, confesso, logo que abri a carta achei que era uma coisa muito despropositada e impru dente, de que não podia vir bom resultado. De que é que haviam de viver, se casassem? Ambos, é certo, têm alguma coisa, mas é uma ninharia que não chega para hoje se manter uma família. E, ainda que os romancistas o neguem, não se faz nada sem dinheiro. Só me admiro de que o João pensasse numa coisa destas! Se me perguntasse a minha opinião, dir-lhe-ia logo que era asneira.

- Então não julgas que eu procedi mal? Estás convencida de que nunea pensei iludir o teu irmão, de que nunca suspeitei que ele gostasse de mim, até hoje?

- Oh! Quanto a isso - respondeu Isabel a rir - não pretendo avaliar quais fossem então os teus pensamentos e intenções.

Seria um pequeno flirt e, muitas vezes, somos levadas a dar mais coragem do que a que pretendemos. Mas podes estar certa de que seria eu a última pessoa do mundo a criticar-te. Tudo isso é permitido, quando se é nova e alegre. O que se pensa hoje, sabe-se lá se amanhã ainda se manterá! Mudam-se as circunstâncias, alteram-se as opiniões. - Mas o meu conceito acerca do teu irmão nunca se alterou: foi sempre o mesmo.

Estás a falar de coisas que nunca aconteceram.

- Minha querida Catarina - continuou a outra sem lhe prestar atenção -, nunca me passou pela ideia arrastar-te a um casamento, sem saberes o que ias fazer. Nada justificaria o desejo de sacrificar a tua felicidade para obsequíar o meu irmão - pelo tacto de ser meu irmão - e que talvez, no fim de contas, podia ser na mesma feliz deixando de casar contigo, porque a gente quando nova raras vezes sabe o que quer. E então os rapazes são tão volúveis e inconstantes! O que digo é isto: porque é que a felicidade de um irmão me há-de ser mais cara do que a de uma amiga? Tu bem sabes que tenho a amizade em conceito muito elevada. Não tenhas pressa, minha querida Catarina, pois se a tiveres podes ter a certeza de que te arrependerás. O Tilney diz que no que as pessoas mais se enganam é nas suas próprias afeições, e eu dou-lhe razão. Ah, lá vem ele!

Não faz mal: estou certa de que não nos verá.

Catarina olhou e viu o capitão Tilney. Isabel, fixando-o enquanto falava, depressa atraiu a sua atenção. Aproximou-se imediatamente e sentou-se para onde os movimentos de Isabel o convidavam. O que logo de entrada lhe disse fez estremecer Catarina. Embora falasse baixo, ela conseguiu perceber as suas palavras:

- O quê? Então há-de haver sempre uma terceira pessoa a vigiar-nos?

- Pst! Que disparate! - respondeu Isabel, também em voz baixa. - Para que me mete essas coisas na cabeça? Se eu as acreditasse. O meu espírito, como sabe, é muito independente.

- O que eu queria é que o seu coração o fosse; para mim seria o bastante.

- O meu coração! Que percebe de corações? Não há sequer um homem que tenha coração.

- Se não temos coração, temos olhos, e muito nos atormentam.

- Ah, sim? Lamento muito; custa-me deveras que lhes desagrade tanto a minha pessoa. Vou então olhar para outro lado. Espero que assim fique mais satisfeito. (Volta-lhe as costas) Espero que não atormentarei agora mais os seus olhos.

Nunca os atormentou tanto, porque se vê ainda a sua face encantadora, o que é muito, e, ao mesmo tempo, pouco.

Catarina ouviu tudo isto e, irritada, não quis escutar mais.

Admirada por ver que Isabel lhe correspondia, cheia de ciúmes por casa do irmão, levantou-se e, dizendo que queria ir ter com a senhora Allen, pediu-lhes que a acompanhassem. Isabel, porém, não queria. Estava exausta e não gostava nada de se ex?bir na Fonte; e, se ela saísse dali, as irmãs, que esperava a todo o momento, já não a encontrariam; portanto a sua querida Catarina tinha de a desculpar e sentar-se outra vez.

Mas Catarina sabia também ser teimosa. E como naquele momento a senhora Allen lhe veio perguntar se já queria ir-se embora, foi com ela e deixou Isabel sentada ao lado do capitão Tilney.

132 / 133 Bem lhe custava deixá-los sós. Parecia-lhe que o capitão Tilney estava apaixonado por Isabel e que esta lhe correspondia. Naturalmente, ela nem dava por isso, pois sabia-se bem que o amor de Isabel por Jaime estava tão certo como o seu noivado. Era impossível duvidar da sua sinceridade e das suas boas intenções. Porém, durante a conversa que ambas tinham tido, a sua atitude parecera-lhe bem estranha. Catarina preferia que ela tivesse falado como de costume e não se referisse tanto a dinheiro; também não lhe agradara a alegria que Isabel mostrara ao ver o capitão Tilney.

Parecia-lhe tão extraordinário que ela não percebesse as suas intenções! Estava ansiosa por lhe dizer que se acautelasse.

Queria evitar todos os desgostos que o seu temperamento vivo poderia causar tanto ao capitão como a Jaime.

Saber da afeição de João Thorpe não era compensação para a leviandade da irmã. Não acreditava nela, nem desejava que fosse sincera. Não se esquecia de que ele às vezes se enganava; e o facto de o rapaz dizer à irmã que se lhe declarara e que ela o aceitara, convenceu-a de que os seus enganos podiam por vezes 1. ser graves. Não havia razão para se sentir vaidosa, mas perplexa. er Na verdade, o que muito a admirava era que o João Thorpe achasse que valia a pena apaixonar-se por ela.

Isabel falara das intenções do irmão mas Catarina nunca dera por coisa alguma; Isabel dizia tantas coisas que ela julgava impensadas, que, desejando não se voltassem a repetir, pôs de parte o assunto com satisfação e resolveu meditar na sua felicidade presente.