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Apesar do Udolfo e da costureira, a família de Pulteney Street chegou a horas aos Upper Rooms. Os Thorpes e Jaime Morland tinham chegado havia já dois minutos. Isabel, sorridente e amável, veio ao encontro da amiga; como era seu costume, admirou-lhe o corte do vestido, e invejou-lhe o penteado. De braço dado, dirigiram-se para a sala de baile, cochichando uma com a outra, sempre que um pensamento lhes ocorria, e trocando apertões nos braços e sorrisos ternos.

O baile começou poucos minutos depois de se terem sentado.

Jaime, comprometido há tanto tempo com a irmã, estava impaciente porque Isabel se levantasse. Porém, João tinha ido para a sala de jogo falar com um amigo, e Isabel por nada iria dançar, se a amiga não fosse também.

- Palavra de honra - disse ela -, não me levantarei sem a sua querida irmã ir também, pois, se assim não fosse, certamente não nos voltaríamos a encontrar em toda a noite.

Catarina aceitou esta delicadeza com gratidão e assim estiveram durante alguns minutos, até que Isabel, que estava voltada a falar com o Jaime, se virou para ela e lhe disse ao ouvido:

- Minha querida, estou a ver que tenho de te deixar. O teu irmão está ansioso por começar. Sei que não te importarás, se eu for dançar; creio que o João deve estar a vir e então depressa me encontrarás.

Catarina, embora ficasse um pouco surpreendida, teve a boa educação de não se opor. Jaime e Isabel levantaram-se e esta apenas teve tempo de apertar a mão a Catarina e de lhe dizer: até à vista, meu amorzinho, antes de desaparecer com o seu par.

As meninas Thorpe mais novas foram também dançar e Catarina ficou a mercê das senhoras Thorpe e Allen, sentada no meio das duas. Estava vexada por João Thorpe não aparecer, não só porque desejava dançar, mas também porque sabia bem que, não podendo ser conhecida a dignidade da sua situação, tinha de compartilhar da sorte de muitas outras raparigas que ainda estavam sentadas, sofrendo por isso a mofa de não terem par. Ser humilhada aos olhos do mundo, ter aparência de infâmia quando o seu coração é todo pureza, as suas acções inocência, e a má conduta de outro a causa verdadeira da sua humilhação, é uma das características próprias de uma heroína e a maneira resignada de a suportar, o que particularmente lhe dignifica o carácter.

Catarina tinha também fortaleza de alma; sofria e calava.

Foi despertada deste estado de humilhação, ao fim de dez minutos, para uma sensação mais agradável, ao ver, não o senhor Thorpe, mas o senhor Tilney, a três metros de distância.

Parecia dirigir-se-lhe, contudo não a viu; por isso o sorriso e o rubor que o seu aparecimento inesperado provocaram em Catarina passaram sem macular-lhe o valor heróico. Tilney estava na mesma, simpático e espirituoso, como sempre; falava entusiasmado com uma rapariga bem vestida e interessante que levava pelo braço e que Catarina logo supôs ser sua irmã. Assim, impensadamente, punha de lado, uma ocasião azada de o considerar perdido para sempre, julgando-o já casado. Guiada, porém, por um raciocinio simples e provável, nunca lhe tinha passado pela mente que o senhor Tilney fosse casado. Ele não se comportàva nem falara como os outros homens casados com quem estava habituada a conviver; nunca se referia à esposa, apenas tinha falado de uma irmã. Por estes acontecimentos deduziu que era a irmã que ia a seu lado; por isso, em vez de se pôr amarela como a cera, a desmaiar no peito da senhora Allen, Catarina ficou perfeitamente bem disposta, só com as faces um pouco mais vermelhas do que era costume. O senhor Tilney e a companheira que continuavam a aproximar-se pouco a pouco, eram precedidos de uma senhora, amiga da senhora Thorpe.

Esta senhora parou a falar com ela, e eles como que pertencendo-lhe, igualmente pararam. Catarina olhou para o senhor Tilney, encontrou os seus olhos e imediatamente viu neles a prova de que a reconhecera. Retribuiu-a com satisfação.

Henrique Tilney, aproximando-se mais, falou-lhe e à senhora Allen, por quem foi muito carinhosamente cumprimentado:

- Muito prazer em vê-lo outra vez; desconfiava que tivesse deixado Bath.

Tilney agradeceu-lhe os cuidados e explicou que tinha deixado Bath há uma semana, naquela manhã em que tivera o prazer de a ver.

- Ora muito bem. Suponho que não se arrependeu de ter vindo. Bath é a terra adequada à gente nova e até mesmo para quem o não seja. Quando o meu marido diz que está aborrecido, respondo-lhe sempre que não tem razão de se queixar, porque não há terra mais agradável; que é melhor estar aqui do que em casa, especialmente nesta época tão sensaborona do ano. Ainda lhe digo mais, que tem muita sorte, porque aproveita tratar da sua saúde.

Oxalá, minha senhora, o senhor Allen goste da terra, uma vez que é um bem para a sua saúde.

Muito obrigada. Não tenho dúvidas de que seja. O nosso vizinho, o Dr. Skinner, esteve aqui o Inverno passado e voltou muitíssimo melhor.

Esse facto deve incutir-lhe muita confiança.

- Sim, não há dúvida. O Dr. Skinner e a família estiveram aqui três mesespor isso sempre digo ao meu marido que não deve ter pressa de partir.

A senhora Thorpe interrompeu-os, pedindo que se apertassem um pouco mais, para a senhora Hughes e a menina Tilney se sentarem, pois tinham resolvido juntarem-se-lhes. Feito isto, de comum acordo, ficou o senhor Tilney ainda de pé à frente delas.

Depois de passarem alguns minutos, exigidos pela delicadeza, o jovem convidou Catarina para dançar. Este cumprimento, agradável como era, mortificou muito a rapariga. Recusando-o, exprimiu a sua tristeza de tal forma que Thorpe, que chegara um minuto antes, julgou, razoàvelmente, excessiva a sua tristeza.

A maneira simples como ele lhe explicou a razão por que se demorara não a reconciliou com a sua sorte. As particularidades em que entrou, ainda de pé, acerca de cavalos e trens de um amigo com quem acabara de estar, da combinação duma troca de terriers, interessava tanto Catarina que não obstava a que ela olhasse muitas vezes para o lado onde deixara o senhor Tilney.

Da sua querida Isabel a quem tinha todo o empenho de indicar aquele cavalheiro, nada sabia. Estavam em quadrilhas diferentes: Separara-se do seu grupo e estava longe de todas as pessoas conhecídas. 9ortificação após mortificação, tìrou alieão til de que ir para um baile já comprometida não aumenta necessàriamente a dignidade e o prazer duma rapariga. Foi despertada destes raciocínios morais por alguém que lhe tocava no ombro. Voltando-se, viu a senhora Hughes, atrás dela, com a menina Tilney e um cavalheiro.

Desculpe, menina Morland, esta liberdade - disse ela -, mas não consigo ver Isabel Thorpe, e a mãe afirmou-me que não se importaria de fazer companhia a esta menina.

A senhora Hughes não teria encontrado pessoa que se sentisse mais feliz por lhe ser agradável do que Catarina.

As raparigas foram apresentadas; Leonor Tilney exprimiu grande bondade, e Catarina Morland, com a delicadeza sincera de um carácter bondoso, declinou os cumprimentos; a senhora Hughes, satisfeita por ter assim entregado tão bem a sua jovem amìga, voltou para junto dos do seu grupo.

Leonor Tilney tinha boa figura, uma cara bonita e aspecto agradável e o seu porte, embora não tivesse a pretensa decisão e a agilidade resoluta de Isabel Thorpe, tinha mais elegância natural. As suas maneiras mostravam sensatez e bons princípios- não eram nem tímidas nem fingidamente livres.

Parecia viva e atraente sem contudo pretender chamar a atenção dos rapazes que estivessem perto dela, ou alardear sentimentos exagerados de prazer estático ou de vergonha inacreditável a propósito do mais insignificante assunto.

Catarina logo ficou interessada, não só por conhecê-la como também pelo parentesco que a ligava a Henrique Tilney.

Desejava ardentemente familiarizar-se com ela e por isso dirigiase-lhe sempre que pensava nalguma coisa e tinha a coragem e oportunidade para a formular em voz alta. Mas a falta constante de um ou mais destes motivos era obstáculo no caminho duma intimidade rápida, pois, impossibilitava-a de ir além das perguntas banais dum conhecimento recente isto é, nformar-se se gostava de Bath, se admirava os seus edifícios e subúrbios, se desenhava, tocava ou cantava e se gostava de andar a cavalo.

Tinham acabado duas quadrilhas, quando Catarina sentiu o braço levemente apertado pela sua fiel Isabel, que muito satisfeita exclamou:

- Até que enfim que te encontrei! Minha querida já há uma hora que ando à tua procura. Que ideia foi essa de vires para este lado, se sabias que eu estava no outro?. Tenho estado tão aborrecida sem ti!

- Minha querida Isabel, como é que eu podia ir contigo?

Pois se nem sabia onde estavas!

- Isso mesmo disse eu ao teu irmão, mas ele não queria acreditar. Vá ver se a vê, senhor Morland - dizia-lhe eu; mas -tudo era inútil, nem se mexia. Não foi assim, senhor Morland?

Os homens são todos uns preguiçosos! Fartei-me de lhe ralhar, minha querida Catarina. Se ouvisses, até te admiravas.

Sabes, não estou com cerimónias com esta gente.

- Vês aquela rapariga com pérolas na cabeça? - segredou Catarina a amiga, afastando-se de Jaime. - a irmã do senhor Tilney.

- O quê?! Que dizes? Deixa-me olhar para ela. Que rapariga adorável! Nunca vi outra tão encantadora! Mas onde está o irmão. o conquistador incorrigível! Está aqui? Dize-me onde.

Estou morta por vê-lo. O senhor Morland não tem licença de ouvir. Não estamos a falar de si.

- Mas a que propósito estão com tantos segredos? Que aconteceu?

- Ora at está. Já sabia que havia de perguntar. Os homens têm uma curiosidáde tão aguçada! E falam das mulheres! Não há dúvida! Contentem-se em nada saber.

- Então pensa que isso me satisfaz?

- Nunca conheci ninguém como o senhor. Que lhe importa o que estamos a dizer? Talvez estejamos a falar de si, por isso aviso-o de que não ouça. às vezes pode não gostar.

Com esta conversa banal, que durou algum tempo, parecia que a causa principal fora completamente esquecida. Catarina, embora estivesse satisfeita por se ter posto de lado, não deixou de suspeitar o desejo impaciente de Isabel em ver o senhor Tilney. Quando a orquestra de novo começou a tocar, Jaime gostaria de voltar a dançar com o seu belo par, mas ela opôs-selhe.

- Já lhe disse senhor Morland, que por nada deste mundo farei tal coisa. Como pode ser tão arreliador? Imagina lá, querida Catarina, o que o teu irmão quer que eu faça! Quer que vá dançar outra vez com ele, se bem que já lhe tenha dito que é uma coisa imprópria e completamente contra as regras. Daríamos que falar, se não mudássemos de par.

- Pode estar convencida - disse Jaime - de que nestas reuniões públicas muitas vezes não se olha a isso.

- Ora, ora como pode dizer uma coisa dessas? Vocês, os homens, quando pensam fazer alguma coisa, não hesitam. Minha querida Catarina, ajuda-me a convençer o teu irmão de que é impossível. Diz-lhe que te incomodaria se me visses fazer isso; diz-lhe, sim?

- Ora vejam! - continuou Isabel. - Ouve o que a irmã lhe diz, e faz ouvidos de mercador. Bem, lembre-se de que a culpa não será minha, se pusermos todas as velhotas de Bath a cochichar. Por amor de Deus, querida Catarina, vem comigo e auxilia-me.

Dirigiram-se para o lugar onde antes tinham estado.

João Thorpe, entretanto, desaparecera. Catarina, continuando a desejar dar ao senhor Tilney uma nova oportunidade para repetir o pedído agradável com que a tinha já lisonjeado dirigiu-se o mais depressa que pôde para onde estavam as senhoras Allen e Thorpe, esperando ainda encontrá-lo com elas.

Esperança, cujo malogro considerou extremamente indesejável.

- Então, minha querida - disse a senhora Thorpe impaciente por gabar o filho -, espero que o seu par a tenha divertido muito.

Oh, muitíssimo, minha senhora!

- Muito prazer me dá. O João é encantador, não é?

- Não encontraste o senhor Tilney, minha querida? - perguntou a senhora Allen.

Não, onde está?

- Esteve mesmo agora connosco, e disse que já se sentia tão aborrecido por nada fazer, que resolvia ir dançar. Pensei que te convidava se te encontrasse.

- Onde está ele? inquiriu Catarina, olhando à sua volta.

Ainda não tinha acabado de percorrer a sala com a vista, quando o viu convidar uma rapariga.

- Ah! Já arranjou par; gostava que dançasse contigo - disse a senhora Allen. Após um curto silêncio, ajuntou:

- É um rapaz muito simpático.

- Lá isso é verdade, senhora Allen - respondeu a senhora Thorpe, rindo complacentemente. - Apesar de ser mãe dele, confesso que não conheço rapaz mais simpático.

Esta resposta descabida podia ser um enigma para a compreensão de muitas pessoas, mas não atrapalhou a senhora Allen, que depois de raciocinar uns segundos, disse baixinho a Catari na - Quer parecer-me que ela julgava que eu estava a falar do filho.

Catarina sentia-se desconsolada e vexada. Parecia-lhe que, em pouco tempo, tinha perdido o objecto dos seus pensamentos; e com esta convicção não pôde dar uma resposta graciosa a João Thorpe, quando ele, pouco depois, se lhe dirigiu:

- Menina Morland, se não se importa, podemos dar ainda umas voltas.

- Oh, não; agradeço-lhe muito, mas o nosso pacto já acabou; além disso estou cansada e não tenciono dançar mais, Não? Então vamos passear e cortar na casaca dos outros.

Venha comigo.

Catarina voltou a desculpar-se. Por fim foi ele sòzinho criticar as irmãs. Catarina achou o resto da noite muito enfadonho. Ao chá, o senhor Tilney deixou a sua mesa para ir para a do seu par. Leonor Tilney, que pertencia também ao grupo, não se sentou a seu lado, e Jaime e Isabel andavam tão entusiasmados com a conversa, que esta só teve tempo de lhes sorrir uma vez, de lhe apertar o braço e dizer: minha querida Catarina.