A COROA DE BERILOS.  Arthur Conan Doyle
Livro. A COROA DE BERILOS
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— HOLMES — disse uma manhã quando olhava a rua de nossa janela arredondada —

tem um louco passando na rua. É uma lástima que a família dele o deixe sair sozinho.

Meu amigo levantou-se preguiçosamente da poltrona onde reclinava e ficou junto de mim, com as mãos nos bolsos do roupão, olhando sobre meu ombro.

Era uma manhã brilhante de fevereiro, fria e seca,, e a neve do dia anterior ainda cobria o chão reluzindo à luz do sol de inverno. No meio da Rua Baker havia sido mastigada pelos carros, formando uma massa escura, lamacenta, mas dos dois lados da rua e ao longo dos caminhos amontoava-se em flocos cintilantemente brancos. A calçada cinzenta havia sido limpa e raspada, mas ainda estava perigosamente escorregadia e poucas pessoas se haviam aventurado a sair. Na verdade, ninguém vinha andando da direção da Estação Metropolitana exceto esse único cavalheiro cuja conduta excêntrica atraíra minha atenção.

Era um homem de seus cinqüenta anos, alto, cheio de corpo e imponente, com um rosto maciço, de feições acentuadas. Estava vestido em estilo sóbrio mas luxuoso, com uma sobrecasaca preta, chapéu reluzente, polainas marrons e calças cinzento-pérola muito bem talhadas. Mas seus gestos eram um contraste absurdo com a dignidade de suas roupas e feições, pois estava correndo aos arrancos, dando pulinhos de vez em quando, como um homem cansado que não está habituado a usar as pernas. Enquanto corria dessa maneira irregular, sacudia as mãos e a cabeça e contorcia o rosto em caretas extraordinárias.

— O que há com esse homem? — perguntei. — Está olhando o número das casas.

— Acho que está vindo para cá — disse Holmes, esfregando as mãos.

— Aqui?

— Sim. Creio que vem me consultar profissionalmente. Estou reconhecendo os sintomas. Ali! Não disse? — Enquanto falava, o homem chegou ofegante à nossa porta e tocou a campainha com tal força que a casa toda ressoou o clangor.

Poucos instantes depois estava em nossa sala, ainda ofegante e gestículando ainda, mas com um olhar tão triste e desesperado que nossos sorrisos morreram e ficamos cheios de horror e compaixão. Levou um tempo para conseguir falar, balançando o corpo e puxando os cabelos, como alguém que tivesse alcançado o limite de suas forças e estivesse prestes a ter um colapso. De repente, ficando em pé, bateu com a cabeça contra a parede com tanta força que ambos corremos para ele e o arrastamos para o centro da sala. Sherlock Holmes o empurrou na poltrona e, sentando a seu lado, deu pancadinhas; em si a mão e falou com ele em voz calma e suave, que sabia tão bem empregar.

— Veio aqui me contar sua história, não foi? - disse. — Está muito cansado, veio tão depressa. Procure descansar um pouco e recobrar o fôlego e depois terei muito prazer em estudar qualquer problema que tenha para me contar.

O homem ficou sentado por um minuto ou mais respirando fundo e procurando conter a emoção. Depois passou o lenço na testa, comprimiu os lábios e virou de frente para nós.

— Naturalmente pensam que sou louco — disse.

— Vejo que está muito abalado, que aconteceu algo muito grave — respondeu Holmes.

— Só Deus sabe! Algo que chega a abalar minha razão de tão inesperado e tão terrível. A desgraça pública talvez pudesse encarar, embora seja um homem de caráter e reputação impecáveis. Desgraça pessoal também sucede a todos nós. . . mas as duas ao mesmo tempo, e de forma tão horrível, é bastante para me levar à loucura. Além disso, não sou só eu. Os mais nobres do país vão sofrer também, se não encontrarmos uma solução para esse horrível problema.

— Por favor, controle-se, senhor — disse Holmes. - Conte-me calmamente quem é o senhor e o que aconteceu.

— Meu nome — respondeu nosso visitante — deve ser-lhe familiar. Sou Alexander Holder, da firma banciria Holder & Stevenson, da Rua Threadneedle.

O nome era realmente muito conhecido e pertencia ao sócio majoritári da segunda maior firma bancária privada da cidade de Londres. O que poderia ter acontecido para deixar um dos principais cidadãos da grande metrópole nesse estado lastimável? Aguardamos, cheios de curiosidade, até que, com grande esforço, ele se preparou para contar sua história.

— Sinto que o tempo é precioso — disse — e é por isso que corri para cá quando o inspetor de polícia sugeriu que devia procurar obter sua cooperação.

Vim para a Rua Baker de metrô e de lá a pé, correndo, pois vi que os carros estavam indo muito devagar, com toda essa neve. É por isso que fiquei um fôlego, pois sou um homem que não faz nenhum exercício. Estou me sentindo melhor agora e lhe vou dar os fatos o mais resumida e claramente possível.

— Os senhores naturalmente sabem que o sucesso de uma firma bancária depende tanto de nossa habilidade em encontrar investimentos remunerativos para nossos fundos quanto da capacidade de aumentar nossos conhecimentos e o número de nossos depositantes. Uma das formas mais lucrativas de investir dinheiro é em forma de empréstimos, quando as garantias são inquestionáveis. Temos feito muito nesse campo nos últimos anos e há muitas famílias nobres a quem temos emprestado grandes quantias, usando como garantia seus quadros, bibliotecas, ou prataria.

— Ontem pela manhã estava sentado em meu escritório no banco quando um dos empregados trouxe um cartão. Tive um sobressalto quando vi o nome, pois era... bem, talvez mesmo para os senhores seja melhor dizer somente que era um nome conhecido no mundo inteiro, um dos nomes mais altos, mais nobres, mais exaltados da Inglaterra. Fiquei assombrado com tanta honra e quando ele entrou, tentei expressar meus sentimentos, mas ele começou logo a falar de negócios com o ar de quem se quer livrar rapidamente de uma tarefa desagradável.

— "Sr. Holder", disse, "fui informado que o senhor tem o costume de emprestar dinheiro".

"A firma faz isso quando a garantia é boa", respondi.

"È absolutamente essencial para mim" disse, "conseguir cinqüenta mil libras imediatamente. Poderia, é claro, obter essa soma insignificante com meus amigos, mas prefiro que seja um negócio e tratar desse negócio eu mesmo. Em minha posição, o senhor há de compreender que não convém uma pessoa ficar devendo favores a ninguém".

— "Por quanto tempo, se me permite perguntar, vai precisar dessa quantia?"

perguntei.

— "Na próxima segunda-feira devo receber uma grande quantia que me é devida e certamente lhe pagarei então o que me adiantar agora, e mais os juros que achw de direito cobrar. Mas é absolutamente essencial que eu tenha esse dinheiro imediatamente".

— Teria o maior prazer de adiantar-lhe essa quantia do meu próprio bolso sem mais dizer", eu disse, "se não fosse um pouco acima de meu alcance. Por outro lado, se for fazer isso em nome da firma, para ser justo com meu sócio devo insistir que, mesmo em seu caso, todas as precauções comerciais sejam tomadas".

— "Prefiro mil vezes que seja assim", disse, levantando uma caixa de couro preto, quadrada, que depositara ao lado da cadeira. "Sem dúvida já ouviu falar da coroa de berilos?"

— "Um dos bens públicos mais preciosos do Império", observei.

— "Exatamente". Abriu o estojo e dentro, engastada em veludo macio cor-de-came repousava a magnífica jóia a que se referira. "São trinta e nove berilos enormes", disse, "e o preço do trabalho em ouro é incalculável. A avaliação mais baixa é o dobro do que lhe pedi. Estou pronto a lhe deixar a coroa em garantia'.

Peguei o precioso estojo em minhas mãos e olhei um tanto perplexo da coroa para meu ilustre cliente.

— "Duvida de seu valor?" perguntou.

— "De maneira nenhuma. Duvido somente..."

— "Se é correto deixá-la aqui. Pode ficar descansado quanto a isso. Nunca faria uma coisa dessas se não tivesse certeza absoluta de que dentro de quatro dias posso reavê-la. É simplesmente uma questão de tempo. A garantia é suficiente?"

"Amplamente".

— 'O senhor compreende, Sr. Holder, que lhe estou dando uma grande prova da confiança que deposito no senhor, com bases em tudo que me disserarri a seu respeito. Confio no senhor não só para ser discreto e não dizer uma só palavra sobre esse negócio, como também para cercar essa coroa com todas as possíveis precauções, pois é desnecessário dizer que causaria um enorme escândalo público se alguma coisa acontecesse com ela. Qualquer dano seria tão grave quanto sua perda total, pois não há no mundo inteiro berilos iguais a esses e sória totalmente impossível substituí-los. Vou deixá-la com o senhor, entretanto, com toda a confiança, e virei buscá-la pessoalmente segunda-feira de manl&'.

— Vendo que meu cliente estava ansioso para ir, nada mais disse. Chamei o caixa e dei ordem para que pagasse a quantia de cinqüenta mil libras em notas de mil. Quando fiquei novamente sozinho, com o precioso estojo à minha frente, não pude deixar de pensar com algum receio na imensa responsabilidade que representava para mim. Não havia dúvida que, já que se tratava de um bem nacional, haveria um escândalo horrível se acontecesse qualquer coisa com a jóia. Cheguei a me arrepender de haver consentido em ficar com ela. Era tarde demais, no entanto, para mudar de idéia. Tranquei o estojo em meu cofre pessoal e voltei a meu trabalho.

— Quando terminou o dia, achei que seria imprudente deixar uma coisa tão preciosa no escritório. Cofres de banqueiros já haviam sido arrombados no passado, por que não aconteceria o mesmo com o meu? Se isso acontecesse, em que posição terrível iria me encontrar! Decidi, por conseguinte, que nos próximos dias iria carregar o estojo comigo de um lado para outro, de modo que nunca ficasse longe de meus olhos. Tendo resolvido isso, chamei um carro e fui para minha casa em Streaffiam, carregando a jóia comigo. Só respirei livremente a levei para meus aposentos e a tranquei em uma gaveta no meu quarto de vestir.

— Agora preciso dizer algo sobre minha casa, Sr. Holmes, pois quero que compreenda bem a situação. Meu empregado e meu lacaio dormem fora de casa, e podem ser postos de lado completamente. Tenho três empregadas que comigo há muitos anos e que são de absoluta confiança. Uma outra, Luroy Parr só trabalha para mim há alguns meses.

Muito bonita e tem atraído muitos admiradores, que às vezes ficam rondando a casa. É

o único defeito que encontrei nela, mas acredito que seja uma boa moça em todos os respeitos.

— Isso é quanto aos empregados. Minha família, em si, é tão pequena que não levará muito tempo para descreve-la. Sou viúvo e tenho um filho único, Arthur. Ele tem sido um desgosto para mim, Sr. Holmes, um grande desgosto. Não tenho dúvidas de que a culpa é minha. Todos dizem que eu o estraguei. É

muito provável que seja verdade. Quando minha querida esposa faleceu, senti que ele era tudo que me restava para amar. Não suportava ver o sorriso desaparecer de seu rosto nem por um instante. Nunca lhe neguei coisa alguma. Talvez tivesse sido melhor para nós dois se eu tivesse sido mais rigoroso, mas só queria o bem dele.

— Naturalmente minha intenção era que ele herdasse meu negócio, mas não tinha inclinação para isso. Era muito instável, muito aloucado e, para dizer a verdade, não lhe podia confiar grandes quantias de dinheiro. Quando era ainda muito jovem, tomou-se sócio de um clube muito aristocrático onde, com suas maneiras encantadoras, logo ficou íntimo de homens com muito dinheiro e hábitos extravagantes. Aprendeu a jogar cartas com paradas muito altas e apostar em cavalos até que teve que vir a mim repetidas vezes implorando que adiantasse algum dinheiro em sua mesada para pagar as dívidas de jogo. Tentou mais de uma vez largar a companhia perigosa dessas pessoas, mas todas as vezes a influência de seu amigo, Lorde George Bumwell, foi forte bastante para trazê-lo de volta.

— E, na verdade, não me espanto de que um homem como Lorde George Bumwell tivesse tanta influência sobre ele, pois o trouxe muitas vezes à minha casa e vi que eu mesmo mal podia resistir à fascinação dele. É mais velho que Arthur, um homem vivido, que já foi a toda parte, já viu tudo e fez tudo, de conversa brilhante e grande beleza pessoal. No entanto quando penso nele friamente, longe da magia de sua presença, tenho a certeza, observando sua maneira cínica de falar e a expressão que às vezes vejo em seus olhos, que é um homem em quem não se pode confiar. É isso que penso e minha querida Mary também, com sua intuição feminina.

— Só falta descrever Mary. É minha sobrinha, mas quando meu irmão faleceu há cinco anos e a deixou sozinha no mundo, eu a adotei e desde então a considero minha filha. É um raio de sol em minha casa. . . doce, meiga, linda, uma excelente dona-de-casa, tudo que se pode querer em uma mulher. É meu braço direito.

Não sei o que faria sem ela. Em uma coisa jamais me contrariou. Já duas vezes meu rapaz a pediu em casamento, pois gosta muito dela, mas das duas ela o recusou. Acho que se há alguém que poderia botá-lo no bom caminho, é ela, e que o casamento poderia mudar o curso de sua vida. Mas agora, meu Deus! É tarde demais, tarde demais!

— Agora, Sr. Holmes, o senhor conhece as pessoas que moram em minha casa e posso continuar a minha triste história.

Quando estávamos tomando café na sala aquela noite, após o jantar, contei a Arthur e Mary o que me havia acontecido e que o tesouro precioso estava naquele momento sob nosso teto, suprimindo apenas o nome de meu cliente. Lucy Parr, que servira o café, havia deixado a sala, tenho certeza, mas não posso jurar que a porta estivesse fechada. Mary e Arthur ficaram muito interessados e quiseram ver a famosa coroa, mas achei melhor não mexer nela.

— "Onde a botou?" perguntou Arthur.

— 'Em uma gaveta em meu quarto de vestir".

— "Bem, espero que não haja um roubo em casa hoje à noite", disse Arthur.

— "Está trancada", observei.

— 'Ora, qualquer chave serve para abrir aquela sua cômoda velha. Quando era mais jovem eu mesmo a abri com a chave do armário do quarto de depósito".

— Ele muitas vezes dizia coisas desse gênero sem falar a sério e não dei atenção ao que disse. Seguiu-me até meu quarto aquela noite, entretanto, com o rosto muito sério.

— 'Olhe aqui, papai", disse, de olhos baixos. 'Pode me dar duzentas libras?"

— 'Não, não posso!" respondi rispidamente. "Tenho sido generoso demais com você em matéria de dinheiro".

— "Tem sido muito bondoso", respondeu, "mas preciso desse dinheiro, ou não poderei jamais aparecer no clube novamente".

— "Isso seria ótimo!" exclamei.

— "Talvez, mas não quer que eu sala de lá desonrado", retrucou. "Não agüentaria a desgraça. Tenho de arranjar esse dinheiro de qualquer maneira, e se não vai me dar, tenho de procurar outro jeito".

— Fiquei muito zangado, pois era a terceira vez que me pedia dinheiro nesse mês. —

"Não verá mais um tostão meu", gritei, e com isso ele deu um cumprimento de cabeça e saiu do quarto sem dizer mais nada.

— Depois que ele saiu, destranquei a gaveta da cômoda, vi que meu tesouro estava.

seguro e tranquei-a novamente. Em seguida percorri a casa para verificar que tudo estava trancado, um dever que cabe geralmente a Mary, mas que achei melhor que eu próprio o fizesse essa noite. Quando descia as escadas, vi Mary junto à janela do hall, que fechou e trancou quando me aproximava.

— "Diga-me, papai", disse, parecendo, achei, um pouco perturbada, "deu licença a Lucy para sair hoje à noite?"

— 'Claro que não".

— Ela acaba de entrar pela porta dos fundos. Tenho certeza que foi só até o portão do lado para ver alguém, mas acho que isso não é muito seguro não devemos deixar que continue".

— "Deve falar com ela de manhã, ou, se preferir, eu mesmo falo. Tem certeza de que está tudo trancado?"

— "Certeza absoluta, papai". Dei-lhe um beijo de boa-noite e fui para meu quarto, adormecendo quase imediatamente.

— Estou lhe tentando contar tudo que se possa relacionar com o caso, Sr. Holmes, mas lhe peço que faça perguntas sobre qualquer coisa que não lhe pareça bastante clara.

— Pelo contrário, sua narrativa é extremamente lúcida.

— A parte a que vou chegar agora é que quero que seja especialmente clara. Não tenho sono pesado e a ansiedade que estava sentindo sem dúvida concorreu para torná-lo mais leve ainda. Cerca de duas horas da manhã, fui acordado por algum ruído dentro de casa. Cessou antes que estivesse totalmente acordado, mas tive a impressão que uma janela fora fechada mansamente em algum lugar. Fiquei deitado com os ouvidos atentos. De repente, para meu horror, ouvi o som distinto de passos no quarto ao lado. Saí da cama tremendo de medo e olhei pelo canto da porta de meu quarto de vestir.

— "Arthur! " gritei, "seu vilão! Ladrão! Como ousa tocar nessa coroa?"

— A lamparina de gás estava baixa, como a deixara, e meu desgraçado filho, vestindo somente a camisa e calças, estava de pé perto da luz com a coroa nas mãos. Parecia estar torcendo a ponta, ou querendo arrancá-la com toda a força.

Ouvindo minha voz, deixou-a cair e ficou pálido como um morto. Peguei a coroa e examinei-a. Uma das pontas de ouro, com três berilos, estava faltando.

— "Seu canalha!" gritei, fora de mim de tanta raiva. "Você a destruiu! Desonrou-me para sempre! Onde estão as pedras que você roubou?"

— "Roubei!" exclamou.

— "Sim, seu ladrão"' berrei, sacudindo-o pelos ombros.

— "Não está faltando nenhuma pedra. Não pode estar faltando", disse.

— "Estão faltando três. E você sabe onde estão. Será que vou ter de chamá-lo de mentiroso, além de ladrão? Não vi você com meus próprios olhos tentando arrancar mais um pedaço?"

— "Já me insultou demais", disse, "não vou suportar mais nada. Não direi nenhuma palavra sobre isso, já que resolveu me insultar. Deixarei sua casa de manhã e vou tentar minha vida sozinho".

— "Só a deixará nas mãos da polícia!" gritei, louco de desgosto e raiva. "Vou investigar esse assunto até o fim".

— "Não vai conseguir arrancar nada de mim", disse com uma violência que nunca pensei pudesse demonstrar. "Se quer chamar a polícia, então eles que descubram o que puderem".

— A essa altura, a casa toda acordara, pois eu gritara de raiva. Mary foi a primeira a correr a meu quarto e quando viu a coroa e a cara de Arthur, com. preendeu tudo e, com um grito, caiu desmaiada. Mandei a empregada buscar a polícia e coloquei a investigação em suas mãos imediatamente. Quando o inspetor e um polícia entraram em casa, Arthur, que estava de pé sombriamente com os braços cruzados, perguntou se era minha intenção acusá-lo de roubo.

Respondi que não era mais assunto privado, que estava no domínio público, já que a coroa era um bem nacional. Estava decidido que a lei tomaria conta de tudo.

— "Pelo menos", ele pediu, "não me faça prender imediatamente. Seria para seu bem, assim como para o meu, se eu pudesse deixar a casa por cinco minutos".

— "Para poder fugir, ou esconder o que você roubou", respondi. E então, ficando consciente da terrível posição em que me encontrava, implorei que se lembrasse que não só minha honra, mas a honra de alguém muito mais alto que eu, estava em jogo, e que ia causar um escândalo que revolucionaria a nação.

Poderia evitar tudo se me dissesse o que fira com as três pedras que faltavam.

— 'Tem melhor encarar o fato", supliquei. - Foi pego em flagrante e nenhuma confissão tomaria sua culpa mais odiosa. Se você fizer o que está em seu poder e nos disser onde estão os berilos, tudo será esquecido e perdoado".

— 'Guarde seu perdão para quem o pedir", respondeu, virando as costas com desdém.

Vi que estava por demais endurecido para que minhas palavras o atingissem.

Só havia uma coisa a fazer. Chamei o inspetor e mandei prendê-lo. Deram imediatamente urna busca, não só em sua pessoa, como em seu quarto e todos os lugares da casa onde poderia ter escondido as pedras, mas não encontraram vestígios delas, e nem o rapaz abriu a boca, apesar de todas as nossas súplicas e ameaças.

Hoje de manhã foi removido para uma cela e eu, depois de passar por todas as formalidades policiais, vim aqui correndo para lhe implorar que use sua perícia para esclarecer o assunto. A polícia confessou abertamente que, no momento, não pode fazer nada. Pode gastar tudo 'que for necessário. Já ofereci uma recompensa de mil libras. Meu Deus, que vou fazer! Perdi minha honra, minhas pedras e meu filho, tudo em uma noite só. Olha, que vou fazer!

Segurou a cabeça com as mãos e balançou o corpo de um lado para o outro, murmurando baixinho como uma criança cujo sofrimento se tivesse tomado insuportável.

Sherlock Holmes ficou sentado em silêncio por alguns minutos, com a testa franzida e os olhos fixos no fogo.

— O senhor recebe muito? — perguntou.

— Niro, a não ser meu sócio e sua família e ocasionalmente amigos de Arthur. Lorde George Bumwell foi lá várias vezes ultimamente. Ninguém mais, acho.

— Sai muito socialmente?

— Arthur sai. Mary e eu ficamos em cata. Nenhum de nós dois gosta muito de sair.

— Isso não é comum para uma moça.

— Ela é muito quieta. Além disso, não é tão moça assim. Já tem vinte

— O que aconteceu, pelo que disse, parece que a abalou muito também. —

Profundamente! Está pior ainda do que eu.

— Nenhum dos dois tem a menor dúvida de que seu filho é culpado?

— Como podemos ter, quando eu o vi, com meus próprios olhos, com a coroa nas mãos?

— Não considero isso uma prova conclusiva. O resto da coroa foi danificado de alguma maneira?

— Sim, ela ficou torcida.

— Não acha, então, que talvez ele estivesse tentando consertá-la?

— Deus o abençoe! Está fazendo o que pode por ele e por míni. Mas é uma tarefa impossível. O que estaria fazendo lá, em primeiro lugar? Se sua finalidade era inocente, por que não disse logo?

— Precisamente. E se fosse culpado, por que não inventou uma mentira? Seu silêncio, a meu ver, pode ser pelas duas razões. Há vários pontos singulares nesse caso. O que a polícia achou do barulho que o acordou?

— Acharam que poderia ter sido causado por Arthur, fechando a porta de seu quarto.

— Muito pouco provável! Um homem com intenção de praticar um crime não iria bater uma porta e acordar a casa inteira. E o que disseram do desaparecimento das pedras?

— Ainda estão sondando o assoalho e examinando a mobília na esperança de encontrá-las.

— Pensaram em procurar fora da casa?

— Sim, têm demonstrado uma energia extraordinária. Já examinaram o jardim inteiro minuciosamente.

— Bem, meu caro senhor, — disse Holmes, — não é óbvio para o senhor agora que esse assunto é muito mais complexo do que o senhor ou a polícia pensaram de início? Pareceu-lhe ser um caso muito simples; para mim, parece extremamente complicado. Considere o que sua teoria representa. O senhor supõe que seu filho saiu da cama, foi, com grande risco, a seu quarto, abriu sua cômoda, tirou a coroa, quebrou à força um pedaço, foi para outro lugar, escondeu três pedras das trinta e nove tão bem que ninguém conseguiu achá-las e depois voltou com as outras trinta e seis para o quarto onde se expunha ao mais grave risco de ser encontrado. Agora lhe pergunto, essa teoria é válida?

— Mas não existe outra — exclamou o banqueiro, com um gesto de desespero. — Se seus motivos eram inocentes, por que não os explica?

— É nosso dever descobrir isso, — respondeu Holmes, — por isso agora, se me permite, Sr. Holder, vamos para Streatharn juntos, passar uma hora olhando mais atentamente os detalhes.

Meu amigo insistiu que os acompanhasse em sua expedição, o que estava ansioso por fazer, pois minha curiosidade e compaixão haviam sido despertadas pela história que tínhamos acabado de ouvir. Confesso que a culpa do filho do banqueiro me parecia tão evidente quanto a seu infeliz pai, mas ainda tinha tanta confiança na opinião de Holmes que senti que devia haver bases se ter esperança, já que ele não estava satisfeito com a explicação dada. P ai não disse uma palavra a caminho do longínquo subúrbio ao Sul da cidade. Ficou sentado com o queixo afundado no peito e o chapéu puxado sobre os olhos, imerso em profundos pensamentos. Nosso cliente parecia ter adquirido novo ânimo com o pequeno vislumbre de esperança que fora apresentado e chegou até a conversar livremente comigo sobre seus negócios. Uma curta viagem de trem e um percurso a pé ainda mais curto nos levaram a Fairbank, a modesta residência do firiancista.

Fairbank era uma casa quadrada de bom tamanho, de pedras brancas, um pouco distante da rua. Uma entrada da largura de duas carruagens e um gramado vestido de neve se estendiam em frente até os dois grandes portões de ferro que barravam a entrada. À direita havia um agrupamento denso de arbustos que levava a um caminho estreito entre duas sebes se estendendo da estrada até a porta da cozinha e- formando a entrada de serviço. À esquerda corria a vereda que levava à estrebaria e que não ficava dentro da propriedade, era uma via pública, embora pouco usada. Holmes nos deixou parados em frente à porta e andou lentamente em redor da casa, cruzou a frente, seguiu a entrada de serviço e, dando a volta pelo jardim, a vereda que ia para a estrebaria. Demorou tanto que o Sr. Holder e eu fomos para a sala de jantar e esperamos junto à lareira.

Estávamos sentados em silêncio quando a porta se abriu e uma moça entrou. Era acima da altura média, esbelta, com cabelos e olhos escuros, que pareciam mais escuros ainda em contraste com a pele muito pálida. Acho que nunca vi um rosto de mulher tão pálido. Os lábios também eram descorados, mas os olhos estavam vermelhos de chorar. Quando entrou silenciosamente na sala senti o impacto de sua profunda dor, muito mais do que com o banqueiro de manhã, o que era surpreendente, pois era óbvio que era uma mulher forte, com imensa capacidade de autocontrole. Ignorando minha presença, foi direto ao tio e passou a mão pelos seus cabelos, num gesto meigo e carinhoso.

— Deu ordem para que soltassem Arthur, não foi, papai? — perguntou.

— Não, não, minha filha, temos que levar essa investigação ao fim

— Mas tenho certeza que ele é inocente. Sabe o que são os instintos de uma mulher.

Sei que ele não fez nada de mal e o senhor vai se arrepender de ter sido tão severo.

— Por que ficou calado, se é inocente?

— Quem sabe? Talvez porque estivesse muito zangado de o senhor ter dele.

— Como poderia deixar de suspeitá-lo, se o vi com meus próprios olhos com a coroa nas mãos?

— Oh, mas só pegara nela para olhar. Oh, por favor, acredite em mim, sei que é inocente. Deixe isso de lado, não diga nada mais. É horrível pensar em nosso querido Arthur na prisão!

— Não vou deixar nada de lado até as pedras serem encontradas... nunca, Mary! Sua afeição por Arthur a está cegando quanto às horríveis conseqüências para mim. Em vez de abafar o assunto, trouxe um cavalheiro de Londres para fazer uma investigação mais minuciosa.

— Esse cavalheiro? — perguntou, virando para mim.

— Não, seu amigo. Queria ficar só. Está andando pela vereda da estrebaria nesse momento.

— A vereda da estrebaria? — Ergueu as sobrancelhas escuras. — O que espera encontrar lá? Ali, deve ser ele que chega. Espero, senhor, que consiga provar o que tenho certeza é verdade, que meu, primo Arthur é inocente desse crime.

— Concordo inteiramente com a senhora e espero, como a senhora, que possa prová-

lo — disse Holmes, voltando para o capacho para sacudir a neve dos sapatos. — Creio que tenho a honra de me dirigir à Srta. Mary Holder. Posso fazer-lhe uma ou duas perguntas?

— Certamente, senhor, se é para ajudar a esclarecer esse horrível mistério.

— Não ouviu nada à noite passada?

— Nada, até meu tio começar a falar em voz alta. Ouvi isso, e desci.

— Fechou todas as janelas e portas a noite anterior. Trancou todas as janelas?

— sim.

— Estavam todas trancadas esta manha?

— Estavam.

— Tem uma empregada que tem um namorado? Acho que comentou com seu tio à noite passada que ela saíra para vê-lo?

— Sim, e foi ela que nos serviu na sala e que talvez tenha ouvido os comentários de meu tio sobre a coroa.

— Entendo. Está sugerindo que ela podia ter saído para contar ao namorado e que os dois podem ter planejado o roubo.

— Mas de que adiantam todas essas teorias vagas - exclamou o banqueiro impaciente

— quando lhe disse que vi Arthur com a coroa nas mãos?

— Espere um pouco, Sr. Holder. Voltaremos a esse ponto. Com respeito a essa moça, Srta. Holder. A senhora a viu voltar pela porta da cozinha, suponho?

— Sim. Quando fui verificar se a porta estava trancada, encontrei-a entrando sorrateiramente. Vi o homem, também, no escuro.

— A senhora o conhece?

— Ali, sim. É o rapaz que traz nossas verduras. Seu nome é Francis

— Ele estava — disse Holmes — à esquerda da porta, isto é, tinha ido mais longe no caminho do que era necessário para alcançar a porta?

— Sim.

— E é um homem que tem uma perna de pau?

Algo parecido com o medo invadiu os olhos escuros expressivos da moça. — O

senhor é como um mágico — disse. — Como sabia isso? — Sorriu, mas o rosto magro de Holmes continuou completamente sério.

— Gostaria muito de ir lá em cima agora — disse. — Provavelmente vou querer examinar o lado de fora novamente. Talvez seja melhor olhar as janelas de baixo antes de subir.

Foi rapidamente de uma a outra, parando apenas na grande janela que dava do hall para a vereda da cocheira. Esta ele abriu, e examinou cuidadosamente o peitoril com a poderosa lente.

— Agora vamos subir — disse.

O quarto de vestir do banqueiro era mobiliado simplesmente, com um tapete cinza, uma grande cômoda e um espelho longo. Holmes foi primeiro até à cômoda e examinou a fechadura.

— Qual foi a chave que foi usada para abri-la? - perguntou.

— A que meu filho mesmo mencionou, a serve de depósito de lenha.

do armário no quarto que

— E onde está essa chave?

— É essa que está aí em cima.

Sherlock Holmes pegou a chave e abriu a cômoda.

— É uma fechadura silenciosa — disse. — Não é de admirar que não o tenha acordado. Esse estojo, presumo, contém a coroa. Vamos dar uma vista de olhos.

— Abriu o estojo e, depositou-o sobre a mesa. Era uma amostra magnífica da arte de joalheria e as trinta e seis pedras, as mais lindas que já vi. Em um dos lados da coroa havia um pedaço quebrado, deixando uma beira irregular, onde a ponta que segurava três pedras havia sido arrancada.

— Bem, Sr. Holder, — disse Holmes — aqui está uma ponta que corresponde à que foi infelizmente perdida. Peço-lhe que tente quebrá-la.

O banqueiro recuou horrorizado. — Nem pensaria em fazer uma coisa — disse.

— Então eu mesmo faço. — Holmes exerceu a máxima pressão sobre a ponta, mas nada aconteceu. — Senti que cedia um pouco, – disse – mas, embora tenha uma força excepcional nos dedos, levaria um tempo enorme para quebrar um pedaço. Um homem comum não conseguiria. E então, o que penta que aconteceria se conseguisse quebrar a coroa, Sr. Holder? Haveria um estalo como um tiro de revólver.

Vai me dizer que tudo isso aconteceu a poucos passos de sua cama e que o senhor não ouviu nada?

— Não sei o que pensar. Tudo está muito obscuro.

— Mas talvez fique mais claro à medida que prosseguirmos. O que a senhora pensa, Srta. Holder?

— Confesso que estou tão perplexa quanto meu tio.

— Seu filho não usava sapatos nem chinelos quando o viu?

— Não usava nada a não ser as calças e a camisa.

— Obrigado. Na verdade fomos favorecidos com uma sorte extraordinária nessa investigação e será inteiramente nossa culpa se não conseguirmos elucidar o mistério. Com sua permissão, Sr. Holder, continuarei minhas investigações lá fora.

Saiu sozinho, a pedido seu, pois explicou que pegadas desnecessárias tomariam sua tarefa mais difícil. Trabalhou por uma hora ou mais, voltando finalmente com os pés carregados de neve e as feições impenetráveis como sempre.

— Acho que vi tudo que há para ver, Sr. Holder — disse. — Posso servi-lo melhor voltando a meus aposentos.

— Mas as pedras, Sr. Holmes. Onde estão elas?

— Não posso dizer.

O banqueiro torceu as mãos. — Nunca mais as verei! — exclamou. — E meu filho? O

senhor me dá alguma esperança?

— Minha opinião não se modificou em nada.

— Mas, pelo amor de Deus, qual foi esse drama que ocorreu em minha casa ontem à noite?

— Se o senhor pode ir me ver na Rua Baker amanhã de manhã entre nove e dez horas terei o prazer de fazer o possível para tomar tudo mais claro. Entendo que me dá carte blanche para agir pelo senhor, desde que recupere as pedras, e que não há limite para a quantia que tenha de despender.

— Daria toda minha fortuna para reaver as pedras.

— Muito bem. Estudarei o assunto de agora até lá. Até logo. É possível que eu tenha de voltar aqui antes de hoje à noite.

Era evidente para mim que meu companheiro já chegara a uma conclusão, embora não tivesse a menor idéia de qual poderia ser. Várias vezes na viagem de volta à casa tentei sondá-lo nesse ponto, mas ele sempre desviou a conversa para outro assunto, até que desisti. Não eram ainda três horas quando nos encontramos novamente em nossa sala. Foi depressa para o quarto e desceu dentro de poucos minutos vestido como um vagabundo. Com a gola do casaco puído e lustroso levantada, uma echarpe vermelha suja e botas gastas, era um perfeito espécime da classe.

— Acho que estou passível — disse, olhando-se no espelho acima da lareira. —

Gostaria que viesse comigo, Watson, mas receio que não dê certo. Pode ser que esteja na pista certa ou pode ser que esteja perseguindo um fantasma, breve saberei qual dos dois. Espero estar de volta dentro de poucas horas.

— Cortou uma fatia de carne do pernil que estava em cima do aparador, colocou-a entre duas fatias de pio e, enfiando essa rude refeição no bolso, partiu em sua expedição.

Estava terminando meu chá quando voltou, evidentemente de ótimo bom humor, balançando na mão uma velha bota com elástico dos lados. Atirou-a em um canto e serviu-se de chá.

— Só parei um instante — disse. — Vou sair de novo agora mesmo.

— Onde vai?

— Oh, do outro lado de West End. Talvez demore bastante. Não espere por mim, posso chegar muito tarde.

— Como estão indo as coisas?

— Oh, mais ou menos. Não posso me queixar. Fui até Streatham, mas não falei com ninguém na casa. É um problema muito interessante, desses que pago para solucionar. Mas não posso ficar aqui conversando, tenho de trocar essas roupas reles e voltar a ser um homem respeitável.

Vi pelo seu jeito que tinha fortes razões para estar satisfeito, mais que suas palavras deixavam transparecer. Os olhos brilhavam e havia até um pouco de cor em suas faces amareladas. Subiu as escadas depressa e pouco após ouvi a porta do bater, o que queria dizer que estava novamente em campo.

Esperei até a meia-noite, mas não havia sinal dele, assim recolhi-me a meu quarto. Era comum ficar fora de casa dias e noites a fio quando seguia uma pista e essa demora em nada me espantou. Não sei a que horas voltou, um quando desci para o café no dia seguinte, lá estava ele com uma xícara de café em uma das mãos e o jornal na outra, com o ar repousado e bem-arrumado como sempre.

— Perdoe-me ter começado sem você, Watson, - disse — mas deve se lembrar que nosso cliente tem hora marcada hoje cedo.

— Ora, já passa das nove — respondi. — Acho que é ele que está chegando. Ouvi a campainha.

Era, realmente, nosso amigo, o banqueiro. Fiquei chocado com a transformação que se operara nele, pois o rosto, normalmente largo e maciço, estava agora emaciado e murcho, e os cabelos pareciam bem mais brancos. Entrou de maneira cansada e letárgica que era muito mais dolorosa que a violência do dia anterior e se deixou cair na poltrona que puxei à frente para ele.

— Não sei o que fiz para ser castigado dessa forma — disse. — 114 apenas dois dias era um homem feliz e próspero, sem nenhum problema. Agora enfrento uma velhice solitária e sem honra. Um desgosto vem atrás do outro. Minha sobrinha Mary me abandonou.

— Abandonou-o?

— Sim. Sua cama está manhã não havia sido ocupada, seu quarto estava vazio e havia um bilhete para mim na mesa do haR Disse-lhe ontem à noite, com pesar, sem mágoa nenhuma, que se tivesse casado com meu rapaz talvez tudo tivesse sido diferente. Talvez não devesse ter dito isso. É a isso a que ela se refere nesse bilhete:

"Meu querido tio: Sinto que fui eu que lhe trouxe esses problemas e que se tivesse agido diferente essa desgraça não teria acontecido. Não posso, com essa idéia no pensamento, nunca mais ser feliz debaixo de seu teto e sinto que devo deixá-lo para sempre. Não se preocupe com meu futuro, pois está garantido.

E, acima de tudo, não procure por mim, pois de nada adiantará e será mau para mim. Na vida e na morte, serei sempre a que muito lhe quer. Mary".

O que quer dizer com esse bilhete, Sr. Holmes? Acha que indica suicídio?

— Não, não, nada disso. É talvez a melhor solução. Acho, Sr. Holder, que o senhor está chegando ao fim de suas tribulações.

— Ah! O senhor está dizendo isso! O senhor ouviu alguma coisa, Sr. Holmes, o senhor descobriu alguma coisa! Onde estão as pedras?

— Não considera mil libras cada uma um preço excessivo?

— Pagaria até dez.

— Isso não será necessário. Três mil libras são bastante. E há uma pequena recompensa, acredito. Tem seu talão de cheques consigo? Aqui está uma pena.

E melhor fazer o cheque para quatro mil libras.

Com um ar aturdido o banqueiro preencheu o cheque. Holmes foi até a secretária, tirou um pedaço triangular de ouro com três pedras cravadas e jogou-o sobre a mesa.

Com uma exclamação de alegria, nosso cliente o agarrou.

O senhor conseguiu! — balbuciou. — Estou salvo! Estou salvo!

A reação de alegria foi tão violenta quanto sua dor havia sido, e apertou as pedras contra o peito.

— Há mais uma coisa que o senhor deve, Sr. Holder — disser Sherlock Holmes, novamente.

— Devo! — Pegou a pena. — Diga quanto e pagarei.

— Não, a dívida não é para comigo. O senhor deve um pedido de desculpa, com toda humildade, àquele nobre rapaz, seu filho, que se portou como ficaria orgulhoso que meu próprio filho se portasse, se tivesse filhos.

— Então não foi Arthur que roubou as pedras?

— Eu lhe disse ontem e repito hoje que não foi ele.

— Tem certeza! Então vamos ter com ele imediatamente, para lhe dizer que sabemos a verdade.

— Ele já sabe. Quando esclareci tudo tive uma entrevista com ele e vendo que não ia me contar a história, eu a contei a ele. Sendo assim, teve de confessar que eu estava com a razão e acrescentou uns pequenos detalhes que ainda não estavam bem claros para mim. Suas notícias de hoje, entretanto, talvez o façam falar.

— Pelo amor de Deus, diga-me então que mistério extraordinário é esse!

— Vou lhe dizer e vou lhe mostrar as etapas que atravessei para chegar a uma conclusão. E deixe-me dizer em primeiro lugar o que é mais difícil de falar e mais difícil para o senhor ouvir. Houve um entendimento entre sua sobrinha, Mary, e Lorde George BumweU. Fugiram juntos.

— Minha Mary? Impossível!

— Infelizmente, é mais do que possível, é um fato. Nem o senhor nem seu filho conheciam o verdadeiro caráter desse homem quando o admitiram em seu círculo de família. É um dos homens mais perigosos da Inglaterra, um jogador arruinado, um vilão completamente desesperado, um homem sem coração nem consciência.

Sua sobrinha não sabia nada de homens assim. Quando murmurou seu amor por ela, como fizera com centenas antes dela, ficou convencida de que só ela tocara seu coração. Só o demônio sabe o que ele lhe disse, mas finalmente ela se tomou seu instrumento e tinha o costume de vê-lo quase todas as noites.

— Não posso, não quero acreditar nisso! — exclamou o banqueiro, de rosto lívido.

— Vou lhe contar o que aconteceu em sua casa aquela noite. Sua sobrinha, quando viu que o senhor tinha ido para seu quarto, desceu sorrateiramente e conversou com seu amante pela janela que dá para o caminho da estrebaria. Ele ficou tanto tempo de pé ali que seus pés comprimiram a neve, deixando marcas.

Ela contou-lhe sobre a coroa, despertando sua ganância por ouro e ele a convenceu a obedecer suas ordens. Não tenho dúvida alguma que ela amava o senhor, mas há mulheres que o amor de um homem destrói todos os outros amores e acho que ela era uma dessas. Mal ouvira as instruções que ele lhe dava quando viu o senhor descendo as escadas e fechou a janela rapidamente falando da empregada e seu namorado de perna de pau, o que era verdade absoluta.

— Seu filho, Arthur, foi para a cama após o encontro com o senhor, mas não conseguiu dormir devido a sua preocupação com a dívida do clube. No meio da noite ouviu passos leves passando por sua porta, então levantou e, olhando da porta, ficou surpreso de ver sua prima caminhando pelo corredor até desaparecer em seu quarto de vestir. Completamente atônito, o rapaz enfiou umas roupas e esperou no escuro para ver o que iria acontecer. Pouco depois ela saiu do quarto e, à luz da lâmpada do corredor, seu filho viu que levava a preciosa coroa nas mãos. Ela desceu as escadas e ele, tremendo de horror, correu e se escondeu atrás da cortina perto de sua porta, de onde podia ver o que se passava no hall abaixo. Viu-a abrir a janela sorrateiramente, entregar a coroa a alguém na escuridão e fechá-la novamente, correndo de volta para o quarto e passando bem perto de onde ele se escondia.

— Enquanto ela estava em cena, não podia agir sem expor a mulher que amava. Mas no momento em que ela desapareceu no quarto compreendeu que ~ isso seria para o senhor e como era importante procurar consertar a situação. Correu pelas escadas, assim como estava, descalço, abriu a janela, nem e correu pelo caminho, onde podia ver um vulto escuro ao luar. Lorde George Bumweü tentou fugir, mas Arthur o pegou e houve uma briga entro ela, nu filho puxando um lado da coroa e seu adversário, o outro. Na confusão, seu filho bateu em Lorde George e feriu-o no olho. De repente alguma coisa arrebentou e seu filho, vendo que estava com a coroa nas mãos, voltou correndo, fechou a janela, subiu a seu quarto e acabara de notar que a coroa estava retorcida e procurava consertá-la quando o senhor surgiu em cena.

— Será possível? — balbuciou o banqueiro.

— Então o senhor o fez insultando-o no momento em que ele achava que merecia seu mais profundo agradecimento. Não podia explicar a verdade dos fatos sem trair a quem certamente não merecia a menor consideração. Tomou o ponto de vista mais cavalheiresco, entretanto, e guardou segredo.

— E é por isso que ela gritou e desmaiou quando viu a coroa — exclamou o Sr.

Holder. — Olhe, meu Deus! Que cego idiota eu fui! E ele me pedindo para sair por cinco minutos! Meu pobre rapaz queria ver se o pedaço que faltava estava no local da briga. Como fui injusto para com ele!

— Quando cheguei à sua casa — continuou Holmes — fui logo examinar cuidadosamente em volta para ver se havia qualquer pista na neve que pudesse me ajudar. Sabia que não caíra mais neve desde a noite anterior e também que houvera geada e a neve congelara, preservando qualquer impressão. Segui a entrada de serviço, mas essa estava pisada e repisada e as pegadas eram indistintas. Logo além, no entanto, do outro lado da porta da cozinha, uma mulher estivera falando com um homem, e uma marca redonda de um lado mostrava que tinha uma perna de pau. Pude até ver que eles haviam sido interrompidos, pois a mulher correra de volta para a porta, como provavam as impressões profundas da ponta dos pés e muito leves no calcanhar, enquanto que Perna-de-pau esperara um pouco e depois fora embora. Pensei na ocasião que se poderia tratar da empregada e seu namorado, de quem o senhor já me falara, e isso foi confirmado posteriormente.

Passei pelo jardim sem ver nada além de pegadas sem direção precisa, que julguei serem da polícia, mas quando cheguei ao caminho da estrebaria encontrei a história escrita na neve à minha frente.

— Havia uma linha dupla de pegadas de um homem de botas e uma segunda linha dupla que vi com satisfação pertencia a um homem descalço. Tive imediatamente certeza, pelo que o senhor me dissera, que essa última era de seu filho. O primeiro andara em ambas as direções, mas o outro correra rapidamente e, como em certos lugares suas pegadas estavam em cima das depressões causadas pelas botas, era evidente que ele seguira o outro. Segui as marcas e descobri que levavam à janela do hall, onde o Botas havia desgastado a neve enquanto esperava. Fui então para o outro extremo, que era a uns cem metros; ou mais. Vi onde Botas virara, onde a neve estava toda pisada e amassada, como se tivesse havido uma luta, e finalmente, onde algumas gotas de sangue haviam caído, para provar que estava certo. Botas correra então pelo caminho e outras pequenas manchas de sangue mostravam que era ele que estava machucado. Quando alcançou a estrada na outra extremidade, vi que a neve havia sido retirada e foi o fim dessa pista.

— Ao entrar na casa, entretanto, examinei, como deve se lembrar, o peitoril da janela do hali com a lente e pude logo ver que alguém havia saído por ela. Pude distinguir o esboço de dedos e calcanhar onde um pé molhado se apoiara ao entrar. Estava então começando a formar uma imagem do que havia acontecido.

Um homem esperara do lado de fora da janela, alguém lhe trouxera a jóia; esse ato fora visto por seu filho, que o perseguira, lutara com ele, ambos puxaram a coroa e a combinação de seus esforços causou danos que nenhum dos dois sozinho poderia causar. Seu filho voltara com a jóia, mas deixara um pedaço nas mãos do adversário. Até aí, tudo bem. A questão agora era: quem era o homem, e quem lhe dera a coroa?

— É um velho preceito meu que quando se exclui o impossível, o que resta, não importa quão improvável seja, deve ser a verdade. Sabia que não fora o senhor que trouxera a coroa, então só restava sua sobrinha o as empregadas. Mas se fossem as empregadas, por que seu filho se deixaria acusar em seu lugar? Não poderia haver nenhuma razão. Mas amava sua prima e portanto havia uma excelente razão para guardar seu segredo, especialmente por se tratar de um segredo vergonhoso. Quando me lembrei que o senhor a vira perto daquela janela e que ela desmaiara quando viu a coroa novamente, minha suposição tomou-se urna certeza.

— E quem poderia ser seu cúmplice? Um namorado, evidentemente, pois quem mais poderia anular o amor e gratidão que sentia pelo senhor? Sabia que saíam pouco, que seu círculo de amigos era muito limitado. Mas Lorde George Burnwell era parte desse círculo. Já ouvira falar dele como sendo homem de péssima reputação no que diz respeito a mulheres. Deveria ter sido ele que usava aquelas botas e ficara com as pedras. Mesmo sabendo que Arthur -o desmascarara, devia estar convencido que estava seguro, pois o rapaz não podia dizer uma palavra sem comprometer sua própria família.

— Seu bom senso lhe dirá o que fiz em seguida. Disfarcei-me como um vagabundo, fui até a casa de Lorde George, consegui fazer amizade com seu criado de quarto, soube que seu patrão havia dado um corte no rosto na noite anterior e finalmente confirmei tudo comprando, por seis xelins, um par de seus sapatos velhos. Com esses na mão, fui até Streatharn e verifiquei que correspondiam perfeitamente às pegadas.

— Vi um sujeito mal vestido no caminho ontem à noite — disse o Sr. Holder.

— Precisamente. Era eu. Quando vi que tinha meu homem, vim para casa e troquei de roupa. O papel que tive de desempenhar então era bastante delicado, pois sabia que não era possível processar para evitar um escândalo, e que um vilão tão astuto logo veria que estávamos de mãos amarradas. Fui vê-lo. A princípio, naturalmente, negou tudo. Mas quando lhe contei em detalhes tudo que havia acontecido, tentou me ameaçar e pegou uma arma pendurada na parede.

Conhecia meu homem, entretanto, e encostei uma pistola em sua cabeça antes que pudesse me atingir. Aí ficou um pouco mais razoável. Disse-lhe que lhe pagaríamos uma quantia adequada pelas pedras em seu poder, mil fibras cada uma. Isso provocou sua primeira reação de arrependimento até então. "Que diabos!" disse,

"vendi-as por seiscentos pelas três". Consegui obter dele o endereço do comprador com a promessa de que não seria processado. Fui logo procurar o outro e depois de muito barganhar, consegui as pedras por mil libras cada. Em seguida fui ver seu filho, disse-lhe que estava tudo bem e eventualmente fui para a cama cerca de duas horas da manhã, depois do que posso chamar de um dia duro de trabalho.

— Um dia que salvou a Inglaterra de um grande escândalo público — disse o banqueiro, levantando-se. — Sr. Holmes, não tenho palavras com que lhe agradecer, mas verá que sei expressar minha gratidão pelo que o senhor fez. Sua perícia realmente excedeu tudo que já ouvira falar. E agora vou voando para meu filho, para pedir-lhe perdão pela injustiça que cometi com ele. Quanto ao que me disse sobre a pobre Mary, estou desolado. Nem mesmo sua perícia me pode dizer onde ela se encontra nesse momento.

— Acho que podemos dizer com certeza — retorquiu Holmes — que ela está onde está Lorde George. É também certo que, sejam quais forem seus pecados, breve receberão castigo mais que suficiente.

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